
Por Dardo Juan Calderón
Fonte: Adelante la Fe – Tradução: Dominus Est
[Nota do editor: o livro foi publicado, no Brasil, pela Editora Flos Carmeli – veja aqui]
Eis aqui um livro concebido com toda a técnica literária norte-americana para ser sucesso de vendas. Muito bem escrito, muito ameno, com humor e todas as surpresas de roteiro cinematográfico ou de novela de folhetim. Pode-se ler em algumas horas, esperando que aconteça o que promete o título – o que não acontece – mas não importa! o “embuste” de um título com “gancho” perdoa-se facilmente porque você se divertiu e diz: “que bobeira!… isso de infiltração maçônica nunca poder-se-á saber com ciência certa, tampouco a segurança de que houve tal assassinato, ou se existiu tal informe que ninguém viu. Mas dá-nos meios de ter a ideia mais conveniente à nossa fantasia!”
Devemos reconhecer que nenhum livro é “um” livro, mas tantos livros quanto são seus leitores e, em nosso caso, a perspectiva é a partir do mais antiquado “tradicionalismo”, lugar que nos leva às provisórias conclusões que aqui se arriscam e que se fazem desde a comodidade e gratidão de estar fora da ardilosa litis que se conta, longe dos dois bandos, e com a vantagem de ser um observador distante que se alimenta do Vetus Ordo.
Trata-se da luta de dois bandos que dura grande parte do século XX, dentro do Vaticano. Bandos que lutam pelo domínio do governo burocrático, perante uns Papas que não fedem nem cheiram. Melhor dizendo, às vezes fedem e às vezes cheiram, segundo lhes é inspirado o temor. Temor de serem os protagonistas de uma quebra ou cisma da Igreja, cisma que, como a espada de Dâmocles, pendeu sobre suas cabeças fazendo-lhes correr o risco de ficar com o descrédito histórico e eterno de ser, para a posteridade e perante Deus, não o Piloto da Barca de Pedro mas o Capitão do Titanic.
O autor entende que esse medo – às vezes pânico – é a causa de suas “santidades” (que de modo algum põe em dúvida), chegando tais papas à categoria de “mártires” por terem sido submetidos ao suplício do ecúleo, que ambas facções puxaram para seus lados (embora o autor acredite se tratar de um lado só). No caso de João Paulo I, seria o que consiste sua “espécie de assassinato em grau 33”: infarto produto de uma tensão brutal causada pelo informe – e pressão – de Mons. Gagnon e do Cardeal Benelli de uma ponta e de outra, a violenta e estridente resposta do maçônico Cardeal Baggio com a proteção do Cardeal Villot (a guarda suíça escutou os gritos), cujas ameças ficaram no segredo dos muros do aposento. Diz-se que morreu por querer enfrentar o problema, coisa que o papa anterior não fez (às vezes otimista, as vezes lacrimoso), nem os dois posteriores pontífices, que sofreram parecidas agonias que mereceriam canonização. Sem dúvida, é a fuga dessa encruzilhada que explica a renúncia de Bento XVI e sua improvável canonização.
O autor nos faz lembrar que o último Papa que governou rodeado de “sua” gente foi Pio X: tradicionalista, antimodernistas e contrarrevolucionário de próprio convencimento e com própria tropa. Depois dele, o tom de cada papado foi dado por aqueles que o rodeavam; conservadores até Pio XII; uma mescla empatada com João XXIII; e marcadamente progressista – e alguns maçons – com os três pós-conciliares. Não se fala de Francisco no livro, mas tem-se a sensação que esse será uma espécie de anti Pio-X, ou seja, modernista declarado e convencido que estabelece o tom de seu entorno, sem muita consideração dada a derrota total e o recuo dos conservadores. Para este papa, os tempos já estariam maduros para que se imponha o modernismo sem maiores oposições ou sofrimentos. Deveríamos recordar a ele que a revolução pare seus próprios carrascos, mas ele faz o que quer. [Nota do editor: o texto foi escrito durante o papado do Papa Francisco]
Desde o concílio e até hoje, parece que os papas eleitos foram o resultado porco das facções que combatem entre si nos conclaves. Estando os comandantes das facções em luta convencidos que não podem vencer, pressionam os cardeais eleitores em acordos, que buscam no papável mais a debilidade do que a coincidência ideológica. Pesam-se, sobretudo, as razoes acidentais de amizades, companheirismos, favores devidos e contatos comuns, mais do que responder a um ou outro grupo. O assunto primordial da luta não é quem vai ser o Papa, mas quem poderá ser alçado a Secretário de Estado ou ministro.
Na obra resenhada, os dois grupos são preto e branco: conservadores versus maçons infiltrados, nem mais nem menos. No meio, sobrevivem uma enorme legião de parasitas (a falta de caridade é minha) que acumulam cursos e doutorados no academicismo vaticano e cujas cabecinhas estragadas pela fraca filosofia e pela falta de disciplina espiritual (muitas vezes moral), estão dispostos a seguir o curso que seguem os mais fortes. Dispostos tanto ao progressismo quanto ao conservadorismo segundo os ventos. São sempre resgatáveis e utilizáveis por qualquer um que lhes dê comida e assegure sua “instalação”. Igualmente, para o autor, o Concílio carece de grande importância, já que, embora seja um tanto ambíguo, não moverá uma palha dos que estão convencidos em seus grupos, podendo servir de “constituição” para ambos. A legião de idiotas aplaudirá – com o pouco entusiasmo dos medíocres – tanto torcê-lo à esquerda quanto à direita. O conservadorismo costuma não levar em conta a deterioração irrecuperável da experiência decadente.
O argumento do livro é que o grupo conservador (Benelli, Staffa), durante o papado de Paulo VI, provam e documentam que Bugnini e Baggio são maçons juramentados. Colocadas as provas em mãos de Paulo VI, a fresta pela qual via entrar a fumaça de Satanás na Igreja passa a ter nome e sobrenome – e todas as suas obras e pompas levam a ratificação de sua própria assinatura. O primeiro acusado era o autor do Novus Ordo que já estava em funcionamento (e que era o orgulho do Papa), e o segundo era o que decidia a consagração de Bispos de todo o mundo havia anos (e seguiria decidindo por mais tempo). Benelli consegue que Bugnini seja desterrado e que se nomeie um investigador para saber até que ponto chegava a infiltração – para isso promove Gagnon, que aceita. Baggio fica atado a seu cargo – é protegido de Villot que arrisca sua sorte junto com o atacado – removê-los seria um terremoto de implicações universais ao permitir o julgamento de milhares de consagrações de Bispos. Não se toca na obra dos dois maçons.
Gagnon demora três anos para fazer o informe, e os apresenta a Paulo VI que não quer nem ver, nem tocá-los, e morre em poucos meses. Gagnon e os conservadores padecem desilusão por perderem a oportunidade na qual trabalharam e conspiraram de destituir o bando contrário, mas voltam ao ataque com João Paulo I, que parece ser meio progressista, mas sobre ele pode ter mais influência Benelli do que Villot, por velhas relações e por tê-lo promovido no Conclave. O papa Luciani – que para se mostrar bondoso e evitar suspeitas conserva Villot e Baggio, com promessa de nomear para seu lugar o cardeal Benelli – recebe o informe e o lê. Sofre horrivelmente, é um caminhão de esterco, teria preferido mil vezes mais ignorá-lo, mas com temor e terror chama Baggio para acertar contas. Reúnem-se à tarde, discutem fortemente e sem ver a ninguém mais do que Villot ao terminar a audiência, morre João Paulo I. Possível infarto? Villot impede a autópsia, é normal, fazê-la em um Papa seria terrível. Encontram-no na cama em “pose” de santo, deitado pacificamente com a Imitação de Cristo nas mãos, não muito próprio de um infarto, mas enfim…
Os conservadores voltam ao ataque com o Informe Gagnon para o novo Papa polaco, em que Benelli apostou (mais uma vez!) todas as suas cartas no Conclave, mas que mal assumindo o papado – para surpresa dos conservadores – deixou em seus cargos Villot, Baggio, e mesmo Marcinkus (que já parecia ser da equipe maçônica). Até mesmo Bugnini voltou, embora para morrer. O papa enrola para receber Gagnon, mas finalmente o recebe, supreendentemente consegue a audiência e é conduzido a ela pelo próprio Villot! João Paulo rechaça rapidamente, sem ler e com caráter azedo as insinuações do informe (que, parece, falava, além da lista de maçons, do possível assunto da P2 e do Banco Vaticano) e Gagnon é quase tocado de lá. O golpe de estado tão esperado pelos conservadores dá em nada. Gagnon aposenta-se e vai para a Colômbia, vencido, longe do poder. Benelli, que acreditou que chegaria à Secretaria de Estado, fica desenganado e em breve morre, muito jovem. Baggio segue a todo vapor. Villot também, mas já tem um câncer terminal de que morrerá em breve, sendo substituído por sua cria, seu secretário Casarolli, um sibilino de antologia (“falava pouco e nunca expressava opinião própria”).
Gagnon voltará, alguns anos depois, convocado por um novo conservadorismo encabeçado por um antigo progressista (voltas das revoluções): o Cardeal Ratzinger que, depois de dois passos adiante, dava um passo para trás. Por ele será nomeado “visitador” da FSSPX, o que é outra história.
A história é o triste relato da aventura conservadora no pós-concílio. Aqueles “mártires” que lutaram “por dentro” para recuperar a Igreja de Cristo e… fracassaram (até hoje alguns seguem, como esses soldados japoneses em uma ilha do pacífico, que não ficaram sabendo do fim da guerra). Seu grande sacrifício foi se manter humilhados em postos cada vez mais subalternos, engolir o sapo da Reforma Litúrgica que sabiam imposta pela maçonaria, suportar elegantemente o trato – melhor dizendo, “maltrato” – com todos os bispos nomeados pela maçonaria (provavelmente não escolhidos por serem maçons, mas por ser os mais imbecis e venais dos que se encontravam em cada lugar – conselho para a eleição de bispos dado por Napoleão a seus funcionários, logo após a Concordata com a Santa “Cede”)… E, acima de tudo, acompanhar a decadência, provavelmente apostasia, da Igreja, com visíveis chagas sobre suas inteligências, personalidades e sacerdócios, pelo fato incrivelmente paradoxal de que eram eles os “infiltrados” e os maçons, a maioria. Talvez seu maior sofrimento tenha sido o de se obrigar a ser surdos ao clamor de tantas almas que se precipitaram ao inferno, como resultado da apostasia da cúria; buscando uma estratégia que permitiu que isso acontecesse e que, enfim, não funcionou. Mas isso é apenas a visão facciosa de um “lefebvrista”.
É-nos, por fim, inexplicável como o autor consegue manter o humor num relato que nos deveria gelar o sangue.