
Roma pune os defensores da Tradição enquanto deixa as heresias impunes. Dom Schneider denuncia essa contradição e prevê que a história fará justiça à obra de D. Lefebvre.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
Em entrevista concedida ao Catholic Herald , publicada em 13 de outubro de 2026, o Bispo Auxiliar de Astana (Cazaquistão), Dom Athanasius Schneider, analisa a situação da Missa Tridentina sob o pontificado de Leão XIV. O prelado observa que as restrições impostas por Francisco com a Traditionis Custodes permanecem praticamente inalteradas e até se agravaram em algumas dioceses. “Ouvimos falar de dioceses onde o número de Missas foi drasticamente reduzido, o que se assemelha a uma perseguição.“
Ele lamenta, em especial, do fechamento de locais de culto onde as famílias encontravam um apoio inestimável para suas vidas cristãs. Em dezembro de 2025, ele pediu pessoalmente a Leão XIV, em sua condição de pai comum de todos os católicos, que demonstrasse generosidade para com esses fiéis. Mas a Missa Tridentina continua, segundo ele, a ser tratada pelas autoridades romanas “como algo perigoso“.
Dom Schneider lembra que a Traditionis Custodes visa conduzir gradualmente os fiéis ligados à liturgia tradicional à nova Missa. Ele denuncia, portanto, uma política deliberada: “É evidente que as autoridades da Santa Sé e muitas dioceses tendem a sufocar a Santa Missa.“
“O Novus Ordo apresenta defeitos doutrinários e litúrgicos evidentes.”
A entrevista aborda então a questão da Fraternidade São Pio X, à qual muitos católicos se voltaram quando privados da missa tradicional em suas dioceses.
Dom Schneider recorda que as divergências fundamentais entre Roma e a Fraternidade remontam às discussões iniciadas com Marcel Lefebvre ainda em vida e continuam a girar em torno de duas exigências: “A Santa Sé exige o reconhecimento do Concílio Vaticano II como estando em conformidade com a tradição, e o segundo ponto é que a FSSPX reconheça a validade do Novus Ordo, ou reforma litúrgica do Concílio.”
No entanto, prossegue ele, a FSSPX não pode aceitar essas exigências devido às dificuldades doutrinárias que elas suscitam: “Certas afirmações nos textos do Concílio Vaticano II apresentam ambiguidades manifestas. O Novus Ordo contém defeitos doutrinários e litúrgicos evidentes: revela tendências protestantes muito marcantes e uma diminuição do caráter sacrificial da missa, mesmo quando celebrada de acordo com as rúbricas.”
O prelado enfatiza que essas deficiências decorrem não apenas de abusos litúrgicos, mas também dos próprios textos da nova Missa: “Mesmo em latim, o texto do Novus Ordo contém graves lacunas doutrinais, particularmente as novas orações do ofertório e a segunda oração eucarística”. Ele também destaca que as rubricas promovem uma celebração orientada para “o encontro, a troca”, em detrimento do caráter sacrificial da Missa, o que, em sua opinião, constitui “uma grave ruptura com toda a Tradição e uma ameaça ao caráter sacrificial essencial da Santa Missa”.
É precisamente por esse motivo que D. Schneider reconhece o papel desempenhado por D. Lefebvre e sua obra há mais de meio século.
Dom Schneider prossegue, então, elogiando as ações da Fraternidade: “A presença e a atividade da FSSPX, obra de D. Lefebvre, parecem mais providenciais do que nunca; trata-se de uma obra da Divina Providência que, por meio de sua presença, sua existência e sua ação, lembra à Santa Sé a necessidade de esclarecer certas declarações conciliares importantes, que são objetivamente duvidosas e ambíguas, e de reformar o Novus Ordo de acordo com a Tradição.”
“Não podemos continuar com o Novus Ordo.”
Dom Schneider denuncia, então, a recusa de Roma em questionar os ensinamentos contestados do Concílio: “Até o momento, a Santa Sé não demonstrou vontade de reconhecer esses pontos nem a necessidade de retificar nada. Em vez disso, exige de todos, inclusive da FSSPX, uma suposta hermenêutica da continuidade. Eu qualificaria isso como mero malabarismo intelectual, ou como a quadratura do círculo.”
Convencido de que a história um dia reconhecerá os serviços prestados à Igreja por D. Lefebvre, o prelado afirma: “Na minha opinião, com o recuo histórico, a contribuição de Dom Lefebvre e da FSSPX será mais tarde considerada benéfica para toda a Igreja. A Igreja deve resolver essas duas questões.”
Ele prosseguiu firmemente: “Não podemos continuar com o Novus Ordo – isso é impossível. Não podemos tolerar as manifestas ambiguidades doutrinais evidentes em certas declarações do Concílio Vaticano II. Devemos resolvê-las.” E esclareceu: “É fundamentalmente isso que a FSSPX reinvindica ao solicitar a possibilidade e a liberdade de fazê-lo de acordo com o ensinamento perene e inequívoco do Magistério.”
Dom Schneider convida, portanto, as autoridades romanas a permitirem uma discussão doutrinal genuína, sem impor a aceitação prévia dos pontos em disputa. Ele também espera que a Santa Sé proceda com uma integração gradual da Fraternidade, acreditando que isso seria benéfico para toda a Igreja.
Sanções contra a Fraternidade, mas nenhuma contra as heresias.
Referindo-se às sagrações episcopais de 1º de julho de 2026, Dom Schneider denuncia a reação da Santa Sé, na qual percebe um desejo de punir a Fraternidade e eliminar sua influência na Igreja: “Quanto à reação extraordinariamente severa da Santa Sé às sagrações episcopais da FSSPX: vista por um observador externo objetivo, seria descrita como emocional, um julgamento severo, com uma espécie de desejo de puni-los, de expulsar a Fraternidade e sua influência da vida da Igreja.“
Essa severidade parece-lhe ainda mais injustificável, visto que Roma demonstra uma atitude completamente diferente em relação àqueles que se desviam abertamente da fé e da disciplina católica. O prelado denuncia, portanto, uma severidade que parece reservada à Tradição: “Por outro lado, a Santa Sé tolera tantas heresias públicas em inúmeros lugares, com bispos minando a fé e a disciplina da Igreja sem serem punidos ou sequer repreendidos.”
Dom Schneider cita o exemplo do bispo de Antuérpia, na Bélgica, que anunciou publicamente sua intenção de ordenar homens casados, apesar da disciplina vigente na Igreja Latina. Após uma declaração inicial no ano anterior, ele renovou sua intenção sem, observa o prelado, provocar qualquer repreensão ou sanção da Santa Sé.
Dom Schneider prosseguiu mencionando outros dois exemplos: “Notamos também a abertura e generosidade ilimitadas da Santa Sé para com o Partido Comunista Chinês, em relação ao chamado Caminho Sinodal na Alemanha e em outros lugares, onde a fé católica é, de fato, negada e minada.”
Ele denuncia,vassim, “uma flagrante contradição na atitude da Santa Sé em relação à FSSPX e em relação a outros movimentos e indivíduos que são objetiva e manifestamente heréticos dentro da Igreja”.
Para D. Schneider, essa diferença de tratamento revela a gravidade da crise que assola a Santa Sé. Ele acredita que ela é, em certa medida, vítima de uma “tomada de controle hostil” por parte de pessoas e poderes que buscam transformar profundamente a fé católica, aproximando-a do protestantismo e adaptando-a completamente aos costumes do mundo contemporâneo.
“Estamos vivendo uma espécie de exílio espiritual.”
DOm Schneider não vê outra saída para esta crise senão o retorno da Santa Sé à sua missão primordial: “Em uma situação tão grave, somente a intervenção divina pode nos trazer cura e permitir que a Santa Sé volte a ser a brilhante cátedra da Verdade — a Mãe e a Mestra do mundo inteiro na pureza da fé católica e apostólica.”
Ele continua convencido de que o papado recuperará essa fidelidade, pois se trata de uma instituição divina. Para descrever a crise atual, ele traça um paralelo com o exílio dos papas em Avignon: “Hoje, vivemos uma forma de exílio espiritual: a doutrina e a liturgia integrais estão, em certa medida, exiladas da Santa Sé. Em outras palavras, a clareza da doutrina e a sacralidade da liturgia e da tradição estão temporariamente suspensas. Mas elas retornarão.”
Ele recorda que, no passado, Santa Catarina de Siena, Santa Brígida da Suécia e outros santos incansavelmente exortaram os papas a retornarem a Roma. Hoje, ele vê um papel comparável na fidelidade das famílias católicas, das crianças, dos jovens, dos padres e das freiras que permanecem ligados à fé e à liturgia tradicionais. São eles, explica, que já estão contribuindo, por meio de sua vida cristã e perseverança, para preparar o caminho para o fim desse exílio doutrinal e litúrgico.
Apesar das restrições, a Missa Tridentina continua a se espalhar, acompanhada por inúmeras vocações e uma vida familiar católica fecunda. “Isso demonstra que a Missa Tridentina é um poder divino. Ela não está apenas nas mãos das autoridades eclesiásticas. Portanto, este movimento triunfará; ele já está em curso.“
Dom Schneider espera que Leão XIV e os bispos reconheçam nessa vitalidade os sinais da ação do Espírito Santo. “Vejam, a tradição está viva. Ela dá frutos. Há abundantes vocações, famílias numerosas que amam a Igreja.”
Ele enfatizou, por fim, a devoção desses fiéis ao papado, apesar das provações que enfrentam. “A maioria desses fiéis,ligados à Tradição, não guarda ressentimentos nem critica o Papa; simplesmente anseiam pela fé e pela Missa de todos os seus antepassados e santos. Somente essa fé garantirá o futuro e a renovação da Igreja.”
É assim, segundo ele, que se prepara o retorno de papas plenamente ligados à Tradição, fiéis à missão confiada por Nosso Senhor a São Pedro e a seus sucessores.
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