NOTA DISSONANTE

Leão XIV retoma o tema da unidade, tão caro ao Concílio Vaticano II.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

O Papa Leão XIV prosseguiu com suas catequeses de quarta-feira sobre os documentos do Concílio Vaticano II. Em 18 de fevereiro, ele abordou a Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, em particular sobre o tema da Igreja como “sacramento… da unidade de todo o gênero humano” (LG1). O Papa afirmou que o plano de Deus é “unificar todas as criaturas através da ação reconciliadora de Jesus Cristo”, realizada na Cruz. O efeito dessa ação é reunir as pessoas apesar das “diferenças”, derrubar os “muros de separação entre indivíduos e grupos sociais”. Este é o plano de Deus: “o que Deus quis realizar para toda a humanidade” é este mistério que “se manifesta em experiências locais, que gradualmente se estendem a todos os seres humanos e até mesmo ao cosmos”.

A ênfase é, portanto, colocada fortemente na unidade dos homens (e até mesmo do universo), a ser restaurada apesar das “fragmentações”, como se fosse um fim em si mesma, respondendo ao anseio de unidade que habita no coração humano. Até mesmo a “união com Deus” é relacionada à “união das pessoas humanas“, que é seu reflexo: “Tal é a experiência da salvação“.

Sem dúvida, nem o Concílio nem o Papa Leão XIV ignoram que o objetivo da vida humana é, antes de tudo, a união com Deus, iniciada pela caridade aqui na Terra e consumada no Céu(1). Mas então por que insistir tão exclusivamente na união dos homens entre si, uma união que, em última análise, nunca será completa?

De fato, quando São Paulo fala da unidade do universo(2), é para nos lembrar que tudo se recapitula em Cristo Rei(3), porque “todas as coisas são vossas, mas vós sois de Cristo, e Cristo de Deus”(4). Ora, o Filho de Deus, que veio buscar a ovelha perdida, anuncia que alguns se recusam a voltar para Deus e que serão excluídos da unidade em Cristo: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos”(5).

A orientação do discurso da Igreja aos “valores terrenos”, esse “interesse preponderante do Concílio pelos valores humanos e temporais (6)”, acaba por levar a preferir a unidade a tudo o resto. A que preço? O acontecimento mais recente: a coincidência do início do Ramadã com a Quarta-feira de Cinzas torna-se um “forte sinal de fraternidade“, celebrado “em uníssono (7) “. Afirmar hoje que somente Jesus Cristo salva pode acabar soando como uma inoportuna nota dissonante. E, no entanto, “não há salvação em nenhum outro”(8).

Pe. Nicolas Cadiet, FSSPX

Notas:

(1) Veja LG 14 sobre aqueles que recusam, de fato ou mesmo em desejo, a filiação à Igreja.

(2) Ef 1 e 2, mas também Colossenses 1.

(3) Ef 1, 10

(4) 1 Cor 3, 22-23

(5) Mateus 25, 41

(6) Paulo VI, discurso de encerramento do Concílio, 7 de dezembro de 1965.

(7) https://www.vaticannews.va/fr/eglise/news/2026–02/cote-d-ivoire-jeunecareme-unisson-signe-fort-fraternite-paix.html

(8) Atos 4,12