
Falar sobre tudo sem saber e querer ter uma opinião sobre todos os assuntos é prova da vaidade e da presunção da alma.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
Em 8 de junho de 1978, em um famoso discurso na Universidade de Harvard (EUA), o dissidente russo Alexander Solzhenitsyn defendeu um novo direito humano.
“Todos têm o direito de saber tudo. Mas esse é um slogan falso, fruto de uma falsa era. De valor muito maior é este direito confiscado, o direito das pessoas de não saber, de não terem sua alma divina sufocada por fofocas, estupidez e palavras vazias. Uma pessoa que leva uma vida plena de trabalho e significado não tem absolutamente nenhuma necessidade desse fluxo pesado e incessante de informações. (…) A imprensa é o lugar privilegiado onde se manifestam essa pressa e essa superficialidade que constituem a doença mental do século XX. Ir ao cerne dos problemas é-lhe contraindicado, isso não está em sua natureza; ela retém apenas as frases sensacionalistas.”
Alexander Solzhenitsyn, discurso proferido na Universidade de Harvard, 8 de junho de 1978.
Mas Soljenítsin está só.
Quem o ouviu? Quem reivindicou para si esse “direito de não saber”? E quem o colocou em prática? Ninguém, ou quase ninguém…
Esse apelo de Soljenitsyn denuncia um sintoma: o da superficialidade. Por trás desse sintoma, há uma doença. E essa doença tem um nome: a vaidade da alma humana. Na imprensa, nas redes sociais ou em conversas privadas, frases sensacionalistas e julgamentos precipitados são, com demasiada frequência, preferidos ao esforço pela verdade e à caridade do real.
Por que isso? Sem dúvida, em primeiro lugar, porque a ignorância é assustadora. De fato, é preciso tempo para refletir, para conhecer as coisas com exatidão. Por outro lado, divulgar uma informação requer apenas algumas palavras ou um clique. Assim, é fácil, e demasiado tentador, preencher o vazio que a ignorância provoca com suposições ou conjecturas sem fundamento. Elas são falsas ou distorcidas, mas parecem verdadeiras para quem as formula, porque estão em conformidade com suas crenças. E essa pessoa pouco se importa em verificar se correspondem à realidade. O que é ainda mais grave é o fato de que essas conjecturas nunca são refutadas com a mesma força do anúncio inicial. Elas se tornam, então, verdades aceitas na mente dos ouvintes, criando uma realidade paralela construída sobre areia.
“A necessidade de fornecer informações imediatas e confiáveis nos obriga a preencher as lacunas com conjecturas, a repetir rumores e suposições que jamais serão desmentidas e permanecerão gravadas na memória coletiva. Todos os dias, quantos julgamentos precipitados, temerários, presunçosos e falaciosos obscurecem a mente dos ouvintes – e ali se fixam!”
Alexander Solzhenitsyn, discurso proferido na Universidade de Harvard, 8 de junho de 1978.
Na verdade, falar sobre tudo sem saber e querer ter uma opinião sobre todos os assuntos é uma prova da vaidade e da presunção de uma alma. Em última análise, trata-se de um traço de orgulho. Soljenitsyne evoca a necessidade de transmitir informações com segurança.
Não é isso que o homem pensa na maioria das vezes? Todos acreditam ter a necessidade, a obrigação, de dar sua opinião. Será isso sabedoria e reflexão? São Paulo, porém, é claro a esse respeito: “Não aspireis a coisas altas, mas acomodai-vos as humildes. Não queirais ser sábios aos vossos olhos” (Rm 12,16). E em outro trecho, ele zomba dessa suposta sabedoria: “Se alguém se lisonjeia de saber alguma coisa, este ainda não conheceu de que modo se deve saber.” (1 Cor 8, 2).
Em segundo lugar, é preciso reconhecer que é heroico admitir que não se sabe algo. Falar sobre tudo cria a ilusão de conhecimento e compreensão. E nada é pior do que não saber ou não entender. Admitir a própria ignorância é visto como uma fraqueza, uma pequena morte do ego. Em uma discussão, muitas vezes é difícil admitir: “Não sei; não conheço esse assunto; não tenho opinião sobre esse assunto”. Isso implica reconhecer as próprias limitações, de sua ignorância. E é preciso ser forte — com aquela força que a humildade proporciona – para confessá-lo com toda a simplicidade e franqueza. Muitas vezes, a alma superficial prefere, mesmo assim, falar para assim mascarar sua ignorância sobre o assunto. A verborragia esconde os limites. Ao fazer isso, ela leva a fazer prevalecer, na prática, o erro sobre a humildade, preferindo ter uma opinião errada a não ter opinião alguma. Um erro que gera outro, e acaba por acontecer que a pessoa nem mesmo consegue mais ver ou reconhecer a própria ignorância, a falta de conhecimento para tratar com seriedade e competência o assunto em questão. Trata-se de uma manifestação da vaidade, do orgulho que busca obter uma pequena e reconfortante glória de suas palavras e julgamentos. Mas isso é um erro.
“Peca-se por vaidade quando se busca manifestar a própria excelência por meio de palavras arrogantes, ou falando de coisas que não se conhece para parecer sábio.”
Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica, IIa-IIae, Q. 132, art. 1
As consequências dessa cobiça do conhecimento
O que cria esse desejo irrefletido de saber tudo? Por um lado, uma certa ilusão: a de controlar as coisas. E isso tranquiliza o homem de espírito pouco profundo. Por outro lado, cria também uma espécie de nova opressão: a da informação contínua, sobre todos os assuntos: saber tudo sobre tudo, o tempo todo, e rapidamente.
Mas essa vã agitação é extremamente prejudicial à alma. Tal saturação de informações e fofocas impede a reflexão profunda e o verdadeiro conhecimento da realidade. Além disso, torna impossível o silêncio, que é condição essencial para a vida interior, para uma verdadeira existência intelectual e espiritual.
Por outro lado, e de forma insidiosa, essa pretensão do homem de saber tudo sobre tudo prejudica fortemente a verdade, a caridade e a vida social. A verdade, pois muitas vezes nas discussões expressam-se apenas ideias da moda. Mesmo sem que a pessoa se dê conta disso. Pois pode-se estar na moda do tempo… ou mesmo na moda daqueles que se opõem à moda do tempo! Existe, assim, um conformismo do anticonformismo. É lisonjeiro para o ego ser “aquele que sabe”, “aquele que não se deixa enganar pela desinformação”, e assim por diante.
Isso também prejudicial à caridade. Quem é responsável pelas suas palavras hoje em dia? Pois, quando são injustas, distorcem a realidade ou propagam rumores infundados. Ao fazê-lo, além de prejudicar a reputação alheia, perder tempo discutindo o que não nos diz respeito, ou o que está além da nossa compreensão, também fere a alma e o espírito de quem o faz. Quantos julgamentos precipitados são feitos sem que se dedique tempo ou esforço para verificar os fatos! Reclamamos e denunciamos o dia todo as notícias falsas e a desinformação que achamos que nos saturam. Mas com que frequência fazemos o mesmo? Em vez de julgar à distância, sem conhecimento real, com base em rumores em vez de fatos comprovados (método comum de certos meios de comunicação e redes sociais, e de calúnias e difamações), por que não priorizar a interação direta? Já fomos, ao menos uma vez, conversar com o nosso vizinho para expressar a nossa surpresa com a sua conduta e perguntar-lhe, com preocupação pela caridade e pela verdade, as suas razões? Isso permitiria ouvi-lo antes de julgá-lo. E talvez até mesmo de rever o seu julgamento, já que, possivelmente, teremos a oportunidade de descobrir as verdadeiras razões de seu agir, que permaneciam ocultas, pois não podemos, nem devemos, saber tudo.
Por fim, é um incômodo para a vida em sociedade. Pois todo membro de qualquer sociedade, seja qual for a sua natureza, deve reconhecer que existem assuntos que não lhe dizem respeito, informações que fogem à sua área de especialização. Negar isso é sucumbir à ideologia igualitária, a ideologia que nos faz acreditar que todos são iguais em todos os aspectos e, consequentemente, deveriam saber tudo sobre tudo. Pode-se ser o primeiro a denunciar o totalitarismo ou a ditadura de uma única forma de pensar… mas depois reivindicar e exercer esse falso direito de saber tudo sobre tudo e sobre todos.
O escudo das virtudes contra a cobiça de tudo saber.
A virtude da fé diz respeito ao que o homem não pode ver ou conhecer por si mesmo. Ela adere a um mistério que lhe é revelado por Deus. Em contraste com a pretensão de saber tudo, é a aceitação alegre e livre de que nem tudo pode ser compreendido. Isso permite que a alma receba os dons de Deus. De fato, no Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo muitas vezes não responde a todas as perguntas. Em contrapartida, Ele sempre desperta e chama à fé aqueles com quem fala.
Se o homem sente incessantemente essa necessidade de julgar e comentar, é muitas vezes por ansiedade: um desejo de se tranquilizar e controlar a realidade através da linguagem. Em contrapartida, a virtude da esperança liberta a alma da necessidade dessas ansiedades tão humanas. Ela se apoia apenas na graça divina concedida pelos sacramentos. Essa é a virtude dos filhos de Deus. E, como todos os filhos, o cristão não perde tempo tentando saber tudo; ele confia em seu Pai Celestial. Ao fazer isso, ele é livre. Não saber tudo permite a verdadeira liberdade interior do cristão.
Julgamentos precipitados prejudicam a alma tanto de quem os profere quanto de quem os ouve. A caridade assenta num movimento inverso: ama o próximo como a si mesmo, por amor a Deus. Ama, portanto, o próximo o suficiente para não procurar encaixá-lo numa definição, num rótulo ou num boato. Em vez de ser uma caixa de ressonância para os rumores (as calúnias, a imprensa, as redes sociais), a alma torna-se uma sarça ardente que queima as fofocas sem as propagar. “Ora eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do juízo. Porque pelas tuas palavras será justificado ou condenado.” (Mt 2, 36-37)
Pe. François Delmotte, FSSPX