OS CARDEAIS NÃO SABEM MAIS LATIM

No topo da hierarquia da Igreja, uma geração de prelados corre o risco de não conseguir mais ler diretamente os textos que fundamentam sua doutrina, sua lei e sua liturgia.

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Já se suspeitava disso, mas hoje é uma certeza comprovada por números: mais de 65% dos cardeais atuais perderam o domínio do latim, ou, mais exatamente, nunca o aprenderam. A revelação foi feita pelo vaticanista Francesco Capozza, do jornal Il Tempo, em sua página no Facebook, em 4 de agosto de 2026: “Minha pesquisa durou vários meses; consultei diretores de seminários, universidades, ordens religiosas e muitas outras fontes. O resultado é constrangedor: mais de 65% do atual Colégio Cardinalício não sabe uma palavra de latim, nunca o estudou e nunca o compreendeu. Esse é o legado extremamente grave de Bergoglio, que confiou à Igreja cardeais ignorantes, sem talento e competência, que desconhecem que o latim é a língua oficial da Igreja.”

Ele acrescentou: “A maioria dessas pessoas nem sequer fala inglês, mas exclusivamente sua própria língua nacional. Ignorantes, sem habilidades específicas, sem qualquer fundamento jurídico, teológico ou litúrgico. Esta é a Igreja de hoje, e se Leão XIV não tomar alguma atitude, será uma tragédia ainda pior do que a dos últimos doze anos.”

O uso do latim não é uma nostalgia romântica por um passado glorioso.

Em seu blog Philosophia perennis, o jornalista alemão David Berger apresenta um comentário perspicaz, republicado pela InfoVaticana em 6 de agosto: “Mais de dois terços dos cardeais mal dominam o latim. O que, à primeira vista, parece ser apenas uma observação marginal para filólogos clássicos, pode, na realidade, revelar uma das crises mais profundas da Igreja Católica. Pois quem perde a língua na qual a fé, a liturgia e o direito canônico foram formulados durante séculos, acaba por perder o acesso direto à sua própria tradição. […]

“Isto não é de forma alguma uma nostalgia romântica por um passado supostamente glorioso, nem uma preferência por aqueles que prezam a liturgia clássica. A questão é muito mais fundamental: pode uma Igreja preservar a sua unidade quando os seus mais altos representantes já não dominam a língua em que a sua teologia, o direito canónico e os seus ensinamentos foram formulados durante séculos? […] O latim nunca foi uma mera relíquia histórica para a Igreja Católica. É, propriamente falando, a sua língua oficial. Durante quase dois mil anos, os textos legislativos papais, o direito canónico e numerosos documentos magisteriais foram promulgados em latim, na sua forma vinculativa. E com razão: uma língua imutável preserva a precisão dos conceitos teológicos melhor do que qualquer língua franca moderna. As suas palavras não estão sujeitas às transformações ideológicas e sociais a que as línguas vivas estão constantemente expostas. É precisamente por esta razão que o latim é particularmente adequado para expressar verdades com precisão e permanência.”

David Berger faz esta triste observação: “Em muitos seminários, o latim ocupa hoje apenas um lugar marginal. Muitos candidatos ao sacerdócio só têm contato com essa língua em cursos introdutórios, sem jamais adquirir a capacidade de ler documentos eclesiásticos ou os Padres da Igreja em sua língua original. Isso resulta não apenas em uma lacuna na formação clássica, mas sobretudo na perda do acesso direto às fontes da fé católica. Pois a teologia floresce graças a conceitos precisos. O próprio Santo Tomás de Aquino sabia que uma ligeira mudança de perspectiva pode ter profundas consequências para a compreensão de uma doutrina. Conceitos como graça, ente, substância, natureza ou caridade só podem ser traduzidos de forma aproximada para as línguas modernas. Toda tradução envolve necessariamente interpretação. É por isso que a Igreja sempre escreveu seus textos sagrados em uma língua cujo significado permanece estável ao longo dos séculos.”

A encíclica Magnifica humanitas não foi redigida em latim. 

E convém observar: “A relevância dessa questão ficou clara com a primeira encíclica do Papa Leão XIV. Pela primeira vez, um documento magisterial de tal importância não foi publicado a partir de um texto original em latim, mas apareceu diretamente em diversas versões nas línguas modernas. Embora isso possa parecer prático, levanta, no entanto, questões consideráveis. Pouco depois de sua publicação, surgiram debates em torno de conceitos centrais, por exemplo, quando o termo ‘humanidade’ é usado. Do que se trata exatamente? Da espécie biológica? Da família humana? Da humanidade inteira? Ou da natureza humana comum na qual se baseia o direito natural? As diferentes versões linguísticas sugerem interpretações distintas. Um texto original em latim, que fosse considerado autoritário, teria, no mínimo, fornecido um ponto de referência hermenêutico inequívoco.

“Numa época em que conceitos antropológicos fundamentais são cada vez mais desafiados por ideologias de gênero, transumanismo e avanços tecnológicos, a precisão conceitual não é uma questão acadêmica secundária. Ela é essencial para a compreensão dos pronunciamentos da Igreja e suas consequências.” 

David Berger conclui acertadamente: “Nessa perspectiva, as observações de Capozza soam como um alerta. Uma Igreja cujos mais altos dignitários não dominam mais sua língua oficial perde um instrumento essencial para sua compreensão teológica. Ela se torna mais dependente de traduções, das esferas linguísticas nacionais, das diferentes escolas teológicas e, por fim, das correntes dominantes de cada época.”

“Ora, o latim representa justamente uma liberdade muitas vezes negligenciada hoje em dia. Ao contrário do inglês, ele não é a língua de uma potência política ou econômica mundial. Não pertence a nenhum povo em particular. Um bispo africano, asiático, americano ou europeu encontra outro bispo em um mesmo terreno linguístico. É por isso que o latim nunca foi a expressão de uma superioridade cultural, mas sim o próprio laço de uma Igreja universal. »

E adverte: “Quem perde a língua da Igreja perde muito mais do que vocabulário e gramática: perde o acesso direto a um tesouro espiritual que moldou o pensamento ocidental por quase dois milênios. E uma Igreja que conhece suas fontes apenas de segunda mão corre o risco de, um dia, ser incapaz de fazer ouvir sua própria voz, inimitável.”