CAMINHOS QUE NÃO LEVAM A LUGAR NENHUM

O Vaticano celebra 60 anos de diálogo inter-religioso.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

“Sessenta anos após a sua publicação, a Declaração Nostra Aetate(1) continua a inspirar as escolhas pastorais e teológicas da Igreja(2)”. 

É por isso que, ainda hoje, se promove o diálogo, que é o mantra(3) do texto comemorativo da Declaração conciliar publicada no último 16 de setembro.

A Nostra Aetate recomendava aos católicos o diálogo para que estes pudessem “reconhecer, preservar e promover os valores espirituais, morais e socioculturais” presentes entre os seguidores de religiões não cristãs (n.º 2). O diálogo, portanto, não consiste em compartilhar a fé católica com eles, mas sim em reforçar o que poderia ser considerado louvável em suas práticas.

Obviamente, era difícil conciliar tal atitude com a missão evangelizadora da Igreja. Essa dificuldade foi abordada posteriormente em um documento da Secretaria para o Diálogo Inter-religioso, de 1984, intitulado “Reflexões e orientações sobre o diálogo e a missão(4)”, elaborado e publicado em 1984 a pedido de João Paulo II(5). Esse documento reconhece que o assunto requer um estudo teológico mais aprofundado… em outras palavras, nem o Concílio, nem as publicações feitas sob o pontificado de Paulo VI conseguem eliminar essa ambiguidade entre anunciar o Evangelho e fortalecer os não-cristãos em sua religião. Os textos subsequentes, em particular a encíclica Redemptoris Missio(6), nunca conseguem estabelecer uma linha de conduta coerente e clara.

Com efeito, por um lado, o diálogo é apresentado como parte da função missionária da Igreja(7), com o objetivo de salvar as almas para a eternidade(8); por outro lado, ele se distingue dessa função e visa sobretudo à coexistência e à cooperação pacíficas aqui na terra(9), bem como a fortalecer as culturas em seus valores(10).

Por um lado, trata-se de buscar juntos a verdade(11); por outro, lembra-se que a Igreja Católica é a única depositária de toda a verdade revelada(12).

Por um lado, trata-se de enriquecer-se mutuamente e de aprender(13); por outro, trata-se de dar testemunho de Jesus Cristo.

Por um lado, o diálogo é apresentado como uma atitude eminentemente evangélica(14); por outro lado, seria muito difícil encontrar no Evangelho uma exortação ao intercâmbio com outras culturas(15).

Após 60 anos e inúmeras cerimônias, declarações e documentos, o primeiro fruto apresentado para justificar todo o empreendimento é que… dialogou-se(16)! Aqueles que consideram tudo isso pouco compreensível são mentes “monolíticas”, provavelmente responsáveis pelas violências que perturbam o mundo pacífico que o diálogo busca construir(17).

Enquanto isso, um ex-muçulmano pode testemunhar: após longas pesquisas, ele e sua esposa, convencidos de que encontrariam a salvação na religião católica, solicitaram o batismo em sua paróquia. Resposta: “Vocês já têm uma bela fé, não precisam do batismo.” Após outra tentativa em outra paróquia, onde receberam a mesma resposta, eles se dirigiram à cúria, que não tomou nenhuma providência. Eles testemunham que grande parte dos muçulmanos convertidos que conheceram passou por uma experiência semelhante.

É compreensível que tenham acabado por se dirigir à capela Saint Nicolas-du-Chardonnet.

Notas

  1. Concílio Vaticano II, ” Declaração Nostra Aetate sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs”, 28 de outubro de 1965.
  2. Nota “Um Caminho de Esperança – Sessenta Anos de Diálogo e Fraternidade Inter-religiosa à Luz da Declaração Conciliar Nostra Aetate”, Dicastério para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso, 16 de setembro de 2026, Nota CE, n.º 3.
  3. A palavra aparece 159 vezes neste texto, que conta com 60 parágrafos. Cf. o hino de Paulo VI ao diálogo, imitando o elogio de São Paulo à caridade, como se fosse a nova virtude teologal. Encíclica Ecclesiam suam, n.º 83.
  4. https://www.dicasteryinterreligious.va/dialogue-and-mission-1984 , anotado DM.
  5. A nota de setembro de 2026 considera-avê nela “uma referência essencial para compreender a visão da Igreja sobre o diálogo inter-religioso”, nota 39.
  6. Anotado RM.
  7. RM 55, CE 22.
  8. NA 2: A Igreja “proclama, e tem o dever de proclamar incessantemente, Cristo que é ‘o caminho, a verdade e a vida’ ( Jo 14,6), no qual os homens devem encontrar a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou todas as coisas”. Trrata-se de um “diálogo de salvação”, João Paulo II, 23 de março de 1984, n. 5; DM 17, 37.
  9. NA 1: “promover a unidade e a caridade entre os homens e até mesmo entre os povos.” DM4: “conhecimento e estima mútuos.” CE 6, 9, 26, 35.
  10. NA 2, João Paulo II ao Secretariado para o Diálogo Inter-religioso, 23 de março de 1984, n.º 2, https://www.dicasteryinterreligious.va/dialogue-and-mission-1984.
  11. DM 41, CE 4, 29.
  12. RM 55.
  13. Quanto ao diálogo com os judeus, parece que este deve ter como objetivo ajudar os cristãos a sentirem-se o mais judeus possível (cf. CE 13, 18).
  14. DM 15: Supõe-se que o próprio Jesus Cristo tenha dialogado. Mas será que já lemos o conteúdo desses “diálogos” com os fariseus? Ver também DM 29. O diálogo deve ser um “elemento essencial da missão da Igreja”, CE 7.
  15. Cf. Mateus 28,19: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações…”; não se trata de um diálogo, mas um ensinamento. João 1, 45: “Encontramos o Messias.” Isto não é seguido por “Venham, vamos procurá-lo novamente!” Quando São Paulo pensa ser inteligente citar autores gregos para persuadir seus ouvintes no Areópago (Atos 17), acaba sendo um fracasso. Etc…
  16. CE 37.
  17. CE 54 e 55.