
A reverência que devemos aos mais velhos mantém a memória de que precisamos para agir com prudência.
Fonte: Fideliter nº 265 – Tradução: Dominus Est
Tradidi quod et accepi, “Transmiti o que recebi”. Consideramos quase banal essa frase, pois convivemos com ela cotidiamente. Preparando-se para sua sucessão, D. Marcel Lefebvre repetiu-a muitas vezes e quis que fosse gravado em seu túmulo. Retomou estas palavras que São Paulo escreveu aos Coríntios: “Foi do Senhor que aprendi o que vos ensinei.” Não podemos deixar de dar graças por tal gesto de heróica prudência, em um momento em que a chamada Missa de São Pio V tendia a desaparecer. Sem a sabedoria prática deste Bispo, esta Missa simplesmente teria desaparecido. Com efeito, desde o Vaticano II, tem sido afirmado e constantemente repetido que a única liturgia conforme à doutrina deste Concílio é a chamada missa de Paulo VI.
Assim, contra todas as probabilidades, mesmo romanas, D. Lefebvre forneceu aos católicos os meios para preservar, para manter e fortalecer sua fé, sem a qual é impossível agradar a Deus. As sagrações de 1988, essa “operação sobrevivência“, como ele a chamava, salvou a Tradição de seu desaparecimento, ou mais precisamente, mantiveram-na. Desta forma, outros Bispos poderiam assegurar futuras ordenações sacerdotais tradicionais para que outros sacerdotes continuassem a dispensar os sacramentos que são os meios ordinários de nossa Salvação.
As consagrações de 1988 mostram a sabedoria de D. Lefebvre
Este ato, infelizmente mal compreendido pela maioria, é, no entanto, bastante surpreendente, ou seja, admirável: mostra em abundância a sabedoria da velhice e sua respeitabilidade. Em seu Tratado sobre a Prudência, Santo Tomás de Aquino enuncia algumas sentenças características desta época. Ele, primeiramente, lembra que a Bíblia, no livro do Eclesiástico, afirma: “Põe-te no meio dos antigos… e una o seu coração à sabedoria deles”. Explica então: “é do passado que temos de traçar a nossa previsão e conhecimento do futuro”. E depois acrescenta: “A prudência é uma matéria em que o homem precisa, mais do que em qualquer outro lugar, das luzes do próximo; os antigos, entre todos, estão qualificados para iluminá-lo, que chegaram a uma compreensão sólida dos fins relativos às ações. Daí a frase: “é importante estar atento às declarações e opiniões indescritíveis dos mais velhos.” Foi precisamente na noite de sua vida, cheia de experiência e fortalecida pelo tempo vivido, que D. Lefebvre sagrou quatro Bispos. Este magnífico exemplo mostra todo o respeito e veneração que devemos aos mais velhos, pois eles guardam o passado, cuja memória precisamos preservar para agir com prudência.
Mas, além da atenção cuidadosa aos mais velhos, para que nossas ações não sejam aventureiras ou desprovidas de verdadeira sabedoria, é bom saber honrá-los com uma virtude que desapareceu completamente do agir contemporâneo: a piedade. Não podemos afirmar ser cristãos se não soubermos honrar àqueles cujas vidas nos são caras. Os nossos pais e nossos avós têm direito a esta dívida essencial: aquela que é devida aos nossos pais pelo simples fato de serem pais, porque são o princípio vivo da nossa existência. E Cícero ainda diz que não se pode ser um homem de bem se não se dá o dever e o culto aos pais; dever que se relaciona ao serviço e culto ao respeito, diz ele. A ausência dessas virtudes humanas, que podemos ver assim que entramos no transporte público, revela que, praticamente, vivemos hoje sem Deus. Deixar de honrar ou respeitar os próprios pais não é nem mais nem menos desprezar o próprio Deus, que é o princípio do ser e do governo de uma maneira infinitamente mais excelente do que eles. O comportamento habitual esconde uma recusa de obediência e uma negação da dependência. Pretendemos viver sem Deus nem mestre. “Do passado façamos ‘tábula rasa’, multidão escrava, levante-se! Levante-se, o mundo vai mudar desde as bases: não somos nada, sejamos tudo!“. Essas palavras são retiradas da Internacional, o antigo hino nacional soviético, composto pelo maçom francês Eugène Pottier.
A sabedoria da idade exige o respeito da juventude.
Nas circunstâncias em que foi proclamado, o lema “Tradidi quod et accepi” não apenas significa um profundo apego à Tradição da Igreja, mas afirma que não há outra civilização além da civilização cristã, ou seja, que o bom Deus é nosso Pai.