SER HOMEM E SER CRISTÃO: É A MESMA COISA?

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

A questão do humanismo surgiu desde o início do cristianismo. São Paulo escreve, por um lado, aos Filipenses (capítulo 4): 

“Tudo o que é verdadeiro, honesto, justo, santo, amável, de bom nome, as virtudes, seja isso o objeto de vossos pensamentos.”

E, por outro lado, vejamos os Gálatas (capítulo 6): 

“O mundo morreu para mim na Cruz, e na Cruz eu morri para o mundo.”

São Paulo, portanto, começa por discernir o que vem do mundo: é preciso reter do mundo o que é verdadeiro. Mas há mentiras no mundo. O diabo reina nele como mentiroso. É preciso reter o que é nobre. Mas há baixezas no mundo. O senso de honra às vezes se mistura com a vaidade e a ambição. Devemos extrair do mundo o que é justo, mas a injustiça domina o mundo. O que encontramos no mundo é, antes, sede de justiça. É preciso reter do mundo o que nele há de puro. O exemplo natural das crianças, da maioria delas pelo menos, mas o mundo, como vemos com demasiada clareza hoje, está à mercê da imoralidade.

As virtudes? Elas existem no mundo pagão: a coragem, as virtudes estoicas, o gosto pelo trabalho, a compaixão, a generosidade. É uma tentação tão antiga quanto o cristianismo a de reduzir a pregação cristã a um humanismo: ser plenamente humano seria muito mais atraente para as pessoas a serem convertidas do que a Cruz e os mistérios cristãos!

No entanto, é preciso afirmar claramente que todas as virtudes do mundo, a honestidade, a justiça, a nobreza e tudo o que vem do mundo não são suficientes para garantir a salvação eterna. É necessária a fé em Jesus Cristo, o Salvador; a fé, pelo menos implícita, talvez mal expressa, em uma ajuda que vem do alto.

As virtudes humanas naturais nem mesmo bastam para garantir um mundo equilibrado, feliz e em paz, pois a natureza foi ferida pelo pecado original. Uma ferida muito profunda, dizem os pessimistas (são Agostinho); uma ferida menos profunda, para os otimistas; em todo caso, uma ferida suficiente para que o mundo seja incapaz de viver feliz e em paz sem a ajuda da religião, da graça, dos sacramentos do batismo e da penitência e sem a participação no sacrifício da Cruz.

Para um cristão, não pode existir o culto ao homem. O culto a Jesus, sim, e a Jesus crucificado.

Pe. Philippe Sulmont, FSSPX