SER “JULGADO”

Cabe a Deus julgar as intenções, pois só Ele conhece o coração dos homens.

Fonte: Apostol nº202 – Tradução: Dominus Est

Tenho a impressão de estar sendo julgado”; essa pessoa “está sendo julgada”. Expressões negativas e duras que talvez possamos ouvir – ou usar – em relação a certas pessoas. A questão que queremos levantar aqui é a da avaliação justa que podemos fazer do próximo e o risco de desprezo – ou equívoco – em relação a ele devido a julgamentos pouco fundamentados ou precipitados.

Antes de discutirmos especificamente o julgamento precipitado – que é o assunto em questão – convém demonstrar que julgar é bom, já que é humano, e que é preciso saber usá-lo [o julgamento] bem, com sabedoria, para que seja razoável e virtuoso.

Do que estamos falando quando falamos de julgamento?

Julgamento” vem do latim “judicium”, que por sua vez deriva de “jus dicere”: dizer o que é certo, o que é verdadeiro. A palavra “julgamento” pode ser entendida de três maneiras.

  • Julgar = declarar uma verdade

O julgamento é, antes de tudo, um ato de razão, que afirma ou define algo. Esse ato é fundamentalmente humano, e abster-se de fazer julgamentos é recusar-se a realizar uma obra humana de modo que ninguém pode prescindir desse tipo de julgamento. Quando dizemos: “Esta casa foi construída por Pedro”, ou “Pedro é um homem“, ou “Roubar é pecado“, estamos fazendo julgamentos. No caso em questão, poderíamos dizer que se trata de simples constatações: ele usa sapatos brancos, ela não usa chapéu. Nada mais. Esse julgamento da verdade terá uma conotação moral nos dois cenários a seguir.

  • Julgar = discernir

É, portanto, um ato de prudência que profere esse juízo. Diz-se que alguém tem bom senso quando tem uma avaliação justa de uma situação: é o senso comum moral, mais ou menos inato, mais ou menos adquirido pela experiência. Se possuirmos esse juízo, ou melhor, esse discernimento, ninguém se queixará.

  • Julgar = considerar justo

Por fim, é um ato de justiça: o julgamento consiste em dar a cada um a estima que lhe é devida. Aqui também, julgar é um ato bom: é natural ter uma ideia clara de cada um. É bom quando o julgamento é feito com a devida consideração e conhecimento suficiente dos fatos para se chegar a uma conclusão. É esse julgamento que pode causar problemas, se levar a retirar indubitavelmente do outro a estima a que ele poderia ter direito, de forma gratuita ou quase sem fundamento. É o julgamento precipitado (temerário).

O julgamento temerário

Consiste em pensar mal do próximo sem motivo suficiente, afirmá-lo sem hesitar, com certeza. Mas, não tendo elementos suficientes, julga-se as intenções, que são domínio reservado a Deus, que só ele conhece os recônditos da consciência.

Quando não tenho informações suficientes, corro o risco de basear meu julgamento em suspeitas. Por exemplo:

  • Jorge não me cumprimentou hoje, então ele tem algo de que se culpar (talvez ele não tenha me visto, esteja cansado, tenha me cumprimentado mas eu não percebi…).
  • Ele não tem sapatos para usar aos domingos, então ele é um mau cristão;
  • Como eu não tenho sapatos para o domingo e ele olhou para mim, ele certamente pensa que eu sou um mau cristão, então ele está julgando.

Note que falamos de suspeita — e não de julgamento — quando simplesmente começamos a duvidar da bondade de alguém com base em pequenos indícios, sem necessariamente presumir a malícia de outrem. Essas suspeitas provêm da fragilidade humana. Presumir a malícia de alguém com base em indícios tão frágeis é um julgamento, e se disser respeito a algo grave, o pecado será mortal, porque é sempre acompanhado por um grande desprezo pelo próximo. É por isso que São Paulo diz: 

“Não julgueis antes do tempo” (1 Cor 4, 5), e esta passagem é assim comentada: Se, portanto, não podemos evitar suspeitas, porque somos humanos, no entanto, devemos conter os juízos, isto é, as sentenças definitivas e decisivas.

Três causas de suspeita

O que nos torna suspeitos, ou seja, inclinados a pensar mal? Três razões principais parecem surgir.

Quando alguém é inerentemente perverso, ele filtra tudo através da sua perversidade: não há razão para acreditar que os outros sejam melhores que ele. Então, é fácil concluir que alguém com quem você discutiu, contra quem se nutre um ódio obstinado ou a quem se inveja, é culpado, com base em insignificantes indícios: “cada um acredita facilmente no que “deseja”, afirma Santo Tomás de Aquino. Essas conclusões precipitadas derivam da impulsividade de uma mente leviana, que não se dá ao trabalho de refletir; muita imaginação, pouco bom senso (a falta de discernimento mencionada anteriormente): contentam-se com as aparências, uma fisionomia, uma atitude, uma linguagem ou alguns traços de caráter. Muitas vezes, esses julgamentos são irrevogáveis, definitivos, peremptórios, e difícil revertê-los.

Por fim, a exposição prolongada aos defeitos alheios pode ter proporcionado aos mais velhos — ou àqueles marcados pelas experiências de vida — uma vasta experiência de vida, tornando-os mais desconfiados. Vale ressaltar que atingir uma certa idade não impede que se tenha adquirido um mau hábito. Portanto, não seria necessariamente a experiência, mas sim o vício que governaria, se as duas primeiras causas não tivessem sido combatidas.

O que pensar desta frase: “Não julgueis, e não sereis julgados” (Lucas 6, 37)?

Segundo Santo Agostinho, é o julgamento precipitado que é proibido por esta frase, o julgamento que diz respeito às intenções do coração ou a assuntos incertos. Santo Hilário acrescenta que devemos crer que as coisas divinas estão muito acima de nós, sem as julgar. Ou ainda, segundo São João Crisóstomo, Nosso Senhor nos proíbe o julgamento que não provém da benevolência, mas da amargura do coração. Assim, a proibição do Evangelho não se aplica a todos os tipos de julgamento em sentido absoluto, mas apenas às faltas mencionadas acima.

Conclusão para quem julga (ou suspeita)

Quem és tu, que julgas o servo alheio? (Rm 14,4) 

Cabe a Deus julgar as intenções, pois só Ele conhece os corações dos homens. Aqueles que tendemos a considerar inferiores podem ser mais favorecidos por Deus do que nós. Às vezes, eles têm mais provações internas a suportar, sem que tenhamos consciência disso. Quem julga tudo dificilmente evitará julgamentos precipitados: é preciso ser moderado nos julgamentos sobre o próximo e preferir errar várias vezes pensando bem do que uma única vez pensando mal. Para evitar que julgar seja sinônimo de condenar, cuidado também com os olhares, com as alusões bem sentidas, que fazem com que não se diga nada, mas não se pense menos.

Conclusão para aqueles que pensam estarem sendo julgados

Primeiro, mesmo que alguns nos julguem, não há motivo para dar atenção a isso, a menos que Deus nos repreenda por aquilo que os outros consideram repreensível em nós. Segundo, às vezes basta pouco para nos sentirmos julgados: um olhar incompreendido, uma frieza anormal, uma ninharia, mas essa ninharia pode ser interpretada negativamente. E então, corremos o risco de cair na própria armadilha que denunciamos: essa tendência a acreditar que estamos sendo julgados, esse receio de julgamento contra nós — é um julgamento. E se tememos o olhar alheio, não é porque estamos julgando a nos mesmos? É bem possível que haja algo a ser corrigido em nós.

Em ambos os casos

Tira primeiro a trave do teu olho, e então verás para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6, 42)

Visto que todos enfrentamos as mesmas tentações, os mesmos obstáculos, as mesmas vicissitudes, a atitude cristã é ajudar uns aos outros para não sermos causa de escândalo, para encorajar os pecadores a se levantarem e progredirmos juntos no caminho da santidade até Nosso Senhor Jesus Cristo, que está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.

Pe. Pierre-Marie Wagner, FSSPX