
A tecla Shift altera o caractere impresso por outra tecla. No Sínodo, a tecla Shift transforma uma doutrina em seu oposto.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
O famoso relatório do 9º grupo de estudo do Sínodo sobre problemas doutrinários, éticos e pastorais “emergentes“(1), reivindica uma “mudança de paradigma” (paradigm shift na versão em inglês), que supostamente remete à “experiência libertadora do Evangelho” apresentada originalmente por Jesus.
Essa mudança permite renunciar a “proclamação abstrata e a aplicação dedutiva de princípios estabelecidos de forma imutável e rígida”, “contra a tentação da fossilização estéril e regressiva de princípios e afirmações, normas e regras, sem levar em conta a experiência dos indivíduos e das comunidades (2)”. O texto faz referência a um discurso do Papa Leão XIV afirmando que a doutrina social da Igreja é, acima de tudo, uma busca coletiva da verdade e, certamente, não um doutrinamento (3). No final, compreende-se que é preciso renunciar a declarar pecaminosas as relações contra a natureza e encorajar a Igreja a aceitar as uniões baseadas nessas relações.
Aparentemente, o grupo de estudos do Sínodo é hostil a abstrações e deduções. Mas a abstração é inerente à natureza humana: quando se é vítima de um roubo, abstrai-se o conceito e ousa-se até atribuir-lhe um julgamento de valor: isso é errado! E nos arriscamos até a generalizar a ponto de afirmar que todos os roubos são atos ruins. De modo que, diante de um novo roubo, deduziremos precisamente: “todo roubo é ruim, este ato é um roubo, então, ele é ruim”.
Tudo isso é, sem dúvida, muito intelectual, imutável, rígido, fossilizado, estéril, etc. Mas quando Deus promulga os dez mandamentos, Ele fala em termos gerais (blasfêmia, mentira, adultério, etc.), conceitos verdadeiramente abstratos derivados de casos específicos, cabendo ao povo de Israel deduzir as consequências. Eles saberão que pecaram quando perceberem que suas palavras correspondem à ideia de mentira.
O Evangelho não revoga os dez mandamentos: a sua observância é a condição para alcançar a vida eterna[4], e ai daquele que lhes retirar um jota[5]! Quando São Paulo excomungou o incestuoso de Corinto, ele sem dúvida não percebeu a mudança de paradigma que lhe teria proporcionado tanta compreensão pela experiência individual daquele infeliz. Ao tomar conhecimento dessa situação, ele aplicou um princípio imutável (rígido, fossilizado, etc.), concluiu que era errado e tirou as consequências, para a correção do pecador. É que São Paulo e o próprio Deus honram o homem, encorajando-o a usar sua razão.
A mudança do Sínodo parece exigir que nos comportemos de maneira irracional. Então, talvez Deus não seja sinodal. Ou talvez esse sínodo não seja de Deus. De qualquer forma, não se trata de estar “em comunhão” com essa iniciativa “sinodal e missionária” que se reveste do nome de Igreja.
Pe. Nicolas Cadiet, FSSPX
Notas:
- Publicado em 5 de maio de 2026. Consultado na versão em inglês: https://www.synod.va/content/dam/synod/process/implementation/10workinggroups/final-reports/sg9/SG-9_Final-Report.pdf
- Relatório, § I 1.
- Leão XIV, aos membros da Fundação “Centesimus Annus Pro Pontifice”, 17 de maio de 2025.
- Mt 19, 17-18.
- Mt 5, 19, Ap 22, 19.