“SÓ A FSSPX”: A EXPLICAÇÃO SIMPLISTA DA FRATERNIDADE SÃO PEDRO (III) – PELO PE. JEAN-MICHEL GLEIZE, FSSPX

O EPISCOPADO – SAPIENTIAE CHRISTIANAE

Fonte: Courrier de Rome nº 696 – Tradução gentilmente cedida por André Abdelnor Sampaio

Esse texto é continuação do: “MUNUS ET POTESTAS”: A EXPLICAÇÃO SIMPLISTA DA FRATERNIDADE SÃO PEDRO (II) 

1 – O texto aparecido na página de 11 de abril último do síte «Claves» da Fraternidade São Pedro dá citação do nosso propósito: «A situação presente, que é a de uma invasão generalizada e permanente do modernismo no espírito dos homens da Igreja, reclama, para a santificação e a salvação das almas, um episcopado verdadeiramente católico e indemne dos erros do concílio Vaticano II, tal que não poderia de facto encontrar-se fora da obra suscitada por Dom Lefebvre»¹. E de comentar: «É portanto encarado que os futuros bispos da FSSPX sejam sagrados não somente sem jurisdição nem missão recebidas mas também fora da comunhão hierárquica católica, pois somente a FSSPX pode, na sua opinião, transmitir sem alteração o Depósito da f黲.

2 – «Fora da Fraternidade São Pio X não há salvação»: eis o que resume a ideia colocada por este comentário. Ideia de uma censura caricatural lançada contra a iniciativa das sagrações e cujo alcance não ultrapassa a de um simples slogan. A palavra «slogan» designava na sua origem na língua inglesa a «divisa de um grupo». Divisa aqui de todos aqueles que querem manter a hostilidade em relação à iniciativa das sagrações. Para além da manipulação retórica, que joga com as palavras, a extrapolação não aparecerá porém demasiado evidente a quem se der ao trabalho de refletir — e de voltar aos textos.

3 – Falamos com efeito da «situação presente», que é uma situação de fato. Não encaramos o que seria uma verdade de princípio, verdadeira em toda a situação, e que equivaleria a negar a indefectibilidade da Igreja para substituí-la à da Fraternidade São Pio X. E dizemos que, na circunstância presente, um episcopado verdadeiramente católico, isto é, preocupado em evitar até ao fim os erros graves introduzidos pelo concílio Vaticano II, não se encontra fora da obra suscitada por Dom Lefebvre. Não fora da Fraternidade São Pio X, mas fora da obra de resistência e de defesa da fé, suscitada pelo exemplo de Dom Lefebvre. Resistência e defesa que podem tomar muitas formas, para além de só a Fraternidade São Pio X, na continuidade, consciente ou não, do exemplo deixado pelo seu Fundador. Hoje, Dom Athanasius Schneider e Dom Joseph Strickland, cuja consideração o sítio «Claves» se faz cada vez mais discreto, tomam, cada um à sua medida, uma tal forma. E encorajam a iniciativa das sagrações de 1 de julho próximo, tão convictos que estão de que a manutenção na Igreja de um episcopado verdadeiramente católico, indispensável à salvação das almas, está a este preço.

4 – O que fez até aqui, em contrapartida, o bom cardeal Sarah — que prefacia de maneira tão elogiosa o texto de «Claves» — para resistir aos erros graves que ameaçam a salvação das almas e defender a Fé que só pode salvá-las? A Fraternidade São Pedro poderia contar com ele para proceder às ordenações nos seus seminários, segundo o rito tradicional de 1962, e assegurar assim a continuidade de um sacerdócio verdadeiramente católico? Aquando de uma visita pastoral aos Camarões, na diocese de Obala, a 5 de abril de 2024, o cardeal Prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino procedeu à ordenação de doze novos sacerdotes³. Muitos se alegraram de ouvi-lo dizer, durante a sua homilia, que «a tentação mais desastrosa da humanidade é sempre a de querer ser totalmente autónoma e independente em relação a Deus». Com isso, naturalmente, a cerimônia decorreu segundo o novo rito reformado de Paulo VI, cujas todas as deficiências são conhecidas, e que, como foi ainda justamente recordado, constitui «uma reviravolta, uma revolução, nunca visto», e representa uma inovação «totalmente estranha à Tradição da Igreja romana»⁴. Um rito que, em suma, quis ser «totalmente autónomo e independente» em relação à Tradição da Igreja, para se virar para o mundo e para o homem. Este rito, que celebra o cardeal Sarah, e fora do qual não parece encarar transmitir o sacerdócio, inscreve-se em «um meio século de revolução, conduzida pela mais alta autoridade, que desemboca agora na transformação da Igreja em ONG humanitária, na bênção das uniões contra-natura e na dissolução da autoridade dos bispos»⁵. Então?…

5 – A conclusão impõe-se: «A indefetibilidade da Igreja aparece precisamente na resistência dita “tradicionalista”, sem que seja preciso reduzir a Igreja a este movimento cuja diversidade e mesmo as divergências mostram precisamente que não é uma seita»⁶. Resistência da obra suscitada por Dom Lefebvre, e que pretende continuar-se através de uma operação sobrevivência renovada, a 1 de julho próximo. Contrariamente ao que «Claves» nos quer fazer crer, é bem aí a obra de Cristo na sua Igreja.

Padre Jean-Michel Gleize, FSSPX

*************************************

ACESSE NOSSO “ESPECIAL DOS ESPECIAIS” COM OS MAIS DIVERSOS ESTUDOS SOBRE SAGRAÇÕES, OBEDIÊNCIA, CISMA, ESTADO DE NECESSIDADE, JURISDIÇÃO DE SUPLÊNCIA, ECCLESIA DEI, MISSA NOVA, CVII, ECUMENISMO, ETC., CLICANDO AQUI.

*************************************

Notas:

1 – «As sagrações de 1 de julho de 2026», artigo aparecido na página de 11 de fevereiro de 2026 de La Porte Latine.

2 – «Sagrações legítimas?» – https://claves.org/des-sacres-legitimes/

3 – https://www.vaticannews.va/fr/eglise/news/2024-04/12-pretres-ordonnes-par-le-cardinal-sarah-en-visite-au.html

4 – Reflexões do Padre Bernard de Menthon, osb, que foi professor de teologia dogmática em Écône de 1982 a 1998 – https://renaissancecatholique.fr/blog/critique-dune-critique-a-propos-des-sacrements/

5 – Padre Bernard, ibidem.

6 – Ibidem.​​​​​​​​​​​​​​​​