UMA PEREGRINAÇÃO ISLÂMICO-CRISTÃ A LOURDES

Poucos meses antes de proibir a Fraternidade São Pio X de celebrar missas, administrar os sacramentos e realizar quaisquer orações públicas no Santuário, Lourdes recebeu uma peregrinação islâmico-cristã na presença de D. Jean-Marc Micas. Durante quatro dias, cristãos e muçulmanos foram convidados a rezar e meditar em torno de uma suposta imagem comum de Maria.

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

De 18 a 21 de outubro de 2025, cerca de 100 cristãos e muçulmanos de toda a França reuniram-se em Lourdes para a primeira edição da peregrinação “Juntos com Maria”. O evento foi organizado pela associação de mesmo nome com várias entidades.

O site oficial do Santuário anunciou uma “experiência de oração, partilha, meditação e convívio”, na presença de D. Jean-Marc Micas, bispo de Tarbes e Lourdes. O objetivo declarado era permitir que os participantes “refletissem, recarregassem suas energias, partilhassem, se conhecessem melhor e avançassem juntos em um caminho de esperança”.

Uma cerimônia na capela de Nossa Senhora

Os participantes foram acolhidos na Cité Saint-Pierre, uma instalação dos Serviços Católicos de Assistência em Lourdes. Durante três dias, sucederam-se ensinamentos, discussões em pequenos grupos e momentos de oração. Entre os palestrantes estavam o Padre Jean-François Bour, um frade dominicano do Serviço Nacional para as Relações com os Muçulmanos, Tareq Oubrou, o Grande Imã de Bordeaux, bem como Georges Jousse e Hamid Demmou.

O encontro pretendia concretizar o diálogo islâmico-cristão, com seus “caminhos pelas cristas “, segundo a expresão de Gérard Testard, presidente do Juntos com Maria. Ele convidou os participantes a permanecerem comprometidos com “a fraternidade e a esperança que nos inspiram a todos”.

No domingo, 19 de outubro, das 15h às 18h, o principal evento público da peregrinação aconteceu na capela de Nossa Senhora. O encontro reuniu testemunhos, leituras, cantos, orações e momentos de convívio. Os relatos da Anunciação encontrados no Alcorão e no Evangelho foram lidos em paralelo: por meio dessa justaposição, os organizadores pretendiam apresentar Maria como uma “figura unificadora” entre as duas religiões. Ela seria, tanto para cristãos quanto para muçulmanos, “um modelo de fé e fidelidade a Deus”.

Após a cerimônia inter-religiosa, os cerca de 100 participantes compartilharam uma refeição na presença de D. Micas. Aqueles que desejassem foram então convidados a participar da procissão com tochas.

Maria como instrumento de diálogo inter-religioso

Há vários anos, a associação vem desenvolvendo encontros entre muçulmanos e cristãos em torno da figura de Maria, inspirada por uma iniciativa que surgiu no Líbano, onde cristãos e muçulmanos celebram juntos a Anunciação desde 2007. O governo libanês chegou a declarar o dia 25 de março feriado nacional, apresentando-o como um feriado nacional islãmico-cristão.

Na França, o Juntos com Maria também administra as “Casas da Paz“. Compostas por 6 a 10 cristãos e muçulmanos de uma mesma região, esses grupos se reúnem cerca de 6 vezes por ano em torno de temas como o Ramadã e a Quaresma, a paz, as fronteiras ou “a Palavra de Deus em tempos de provação“.

Duplas formadas por cristão e muçulmanos também realizam intervenções em escolas primárias, secundárias e de ensino médio, além de mesquitas. O objetivo é combater o preconceito, promover o “enriquecimento mútuo” e aprender a viver “como irmãos e irmãs em um mundo plural“.

Uma ambiguidade cuidadosamente mantida

A empreitada baseia-se inteiramente em uma ambiguidade. Como o Alcorão fala de Maria, menciona o nascimento virginal de Issa e lhe confere o título de Messias, existiria entre católicos e muçulmanos uma fé mariana comum, mas o uso dos mesmos nomes não é suficiente para designar as mesmas pessoas que Deus revelou.

De acordo com a tradição católica, a Virgem Maria é filha de Santa Ana e São Joaquim e mãe de Jesus Cristo. A Maria do Alcorão é apresentada como filha de Imran e “irmã de Aarão”, uma designação que remete a Miriam, irmã de Moisés e Aarão. O texto do Alcorão, mantém, assim, uma confusão que os comentaristas muçulmanos tentam explicar de diversas maneiras.

Acima de tudo, Issa não é Nosso Senhor Jesus Cristo tal como a Igreja o reconhece. O Alcorão nega expressamente a sua divindade, rejeitando assim o próprio mistério da Encarnação. Ora, Jesus Cristo é o Verbo eterno feito carne, verdadeiro Deus e verdadeiro homem: porque seu Filho é Deus, Maria é verdadeiramente a Mãe de Deus. Essa maternidade divina fundamenta a sua dignidade incomparável e ilumina todos os seus privilégios.

O Islã não reconhece essa maternidade divina, nem a Imaculada Conceição,e  nem mesmo a Assunção. A religião muçulmana nega as verdades centrais da fé cristã: a Santíssima Trindade, a divindade de Jesus Cristo, sua Encarnação redentora, sua morte na Cruz e sua Ressurreição. Não existe, portanto, uma fé mariana comum entre o Catolicismo e o Islã; existe apenas uma semelhança de nomes por trás da qual se escondem duas doutrinas contraditórias.

A caridade exige que amemos os muçulmanos, que rezemos por sua conversão e a que lhes demos a conhecer Nosso Senhor Jesus Cristo, mas não nos permite colocar a religião revelada e uma religião falsa no mesmo nível, nem omitir a divindade do Salvador para obter uma aparência de fraternidade religiosa.

O contraste observado pelo Distrito de França

A recepção dada a esta peregrinação islamica-cristã assume hoje um significado particular. Após as sagrações episcopais de 1º de julho de 2026 e o ​​decreto publicado por Roma, a Fraternidade São Pio X teve sua autorização revogada para celebrar missas, administrar os sacramentos e organizar orações públicas no Santuário de Lourdes.

Em seu comunicado de 22 de agosto, o padre Gonzague Peignot, superior do Distrito da França, destaca esse contraste:

De fato, os simples filhos da Igreja Católica, que de modo algum pretendem substituir a Igreja e cuja única ambição é permanecer fiéis a ela, estão proibidos de se reunir para rezar publicamente à sua Mãe no Céu, enquanto que no ano anterior, em outubro de 2025, o Santuário de Lourdes acolheu, inclusive na Capela de Nossa Senhora, uma peregrinação que reuniu cristãos e muçulmanos, durante quatro dias, em torno da figura de Maria, com um momento de oração, uma missa, uma procissão com tochas, uma oração na Gruta e encontros inter-religiosos.”

O comunicado continua:

“Como não se espantar – ou mesmo se indignar – com o fato de que aqueles que não reconhecem a Divina Maternidade da Bem-Aventurada Virgem Maria, nem o dogma de sua Imaculada Conceição, nem a divindade de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, tenham permissão para entrar onde hoje se impõe a proibição aos fiéis da FSSPX, impedindo-os de rezar publicamente à Bem-Aventurada Virgem Maria em seu santuário de Lourdes?”

Nossa Senhora de Lourdes não se apresentou como uma figura religiosa indefinida, capaz de unir crenças contraditórias. Em 25 de março de 1858, ela declarou a Santa Bernadette: “Eu sou a Imaculada Conceição”. O fato de os fiéis da Fraternidade serem hoje impedidos de honrá-la publicamente em seu Santuário, enquanto encontros com uma falsa religião que rejeita esse dogma e a divindade de Cristo são ali incentivados, demonstra a profunda crise que a Igreja atravessa.