UMA VESTIMENTA CATÓLICA?

As roupas dizem algo sobre nós mesmos.

Fonte: Le Saint Vincent n°42 – Tradução: Dominus Est

Em ocasiões importantes, é fácil perceber que a roupa é importante: um desfile de militares sem uniforme, um diretor-geral sem paletó nem gravata ou uma noiva sem seu vestido nos parecem improváveis.

Gostemos ou não, a roupa importa. Ela diz algo sobre nós, revela quem somos e como queremos ser vistos. Para se convencer disso, basta observar o cuidado que uma mãe dedica ao vestir toda a sua família e perceber o quanto ela fica constrangida ao ver seus queridos filhos voltarem da escola com roupas manchadas ou rasgadas. No teatro, fica claro que o traje desempenha seu papel e define um personagem.

Qual é o nosso papel? … não no teatro, mas na vida real, no nosso dia a dia, para nós que somos batizados? Que vestimenta corresponde a esse papel?

Sem entrar em muitos detalhes, estas poucas linhas visam proporcionar alguns pontos de reflexão sobre a elegância católica.

Elegância, uma marca de respeito.

Além das considerações puramente práticas, a escolha da vestimenta demonstra o respeito que se deseja inspirar ou que se quer demonstrar ao próximo. As vestes dominicais expressam respeito pela majestade divina. Os uniformes militares inspiram respeito e simbolizam reverência pelas cerimônias em que são usados. Por outro lado, há uma forma de desrespeito em descuidar da vestimenta em ocasiões em que se deveria demonstrar respeito. Antes de se apresentar ao altar, o padre veste não apenas a batina, sinal de sua consagração a Deus, mas também diversos ornamentos que manifestam, por meio de ricos simbolismos, que ele atuará na pessoa de Cristo.

Na maioria dos casos, essa elegância, que denota respeito, tem um preço e exige cuidados especiais. Roupas elegantes são delicadas, sujam com facilidade, são caras e exigem até mesmo certa discrição nos movimentos. É preciso cuidar bem dele, e ele nos convida a nos comportarmos melhor. Quer se queira ou não, o traje adequado para a prática de esportes não transmite o respeito que um terno completo inspira. Quem ousaria comparecer de bermuda a uma entrevista de emprego na diretoria financeira de um grande grupo? Correria o risco de não ser levado a sério.

As convenções sociais podem variar de acordo com os países e as épocas, mas, de qualquer forma, para expressar respeito, é preciso aceitar passar por algum constrangimento. É certo que a atenção dada ao olhar dos outros pode se tornar excessiva no que diz respeito ao respeito humano, mas o cuidado com a aparência é legítimo. A elegância é exigente e, só por isso, envolve virtudes e pressupõe uma boa educação. Quais são as razões por trás dessas exigências?

Que tipo de influência exerce a elegância católica?

O uniforme, além de simbolizar respeito, indica um papel na sociedade. Para compreender as razões positivas da elegância católica, é preciso primeiro considerar o que um católico deve transmitir.

A fé o lembra, em primeiro lugar, que ele possui uma alma espiritual e imortal que anima um corpo mortal. Pela graça do batismo, ele carrega em si a presença da Santíssima Trindade. O corpo de um cristão é o templo do Espírito Santo. A dignidade do cristão exige profundo respeito. É por isso que um católico deve refletir a perfeição divina por meio de sua atitude e de sua vestimenta. Existem trajes desleixados que não condizem com um católico consciente de sua dignidade e nobreza. Aliás, muitas vezes essas modas descuidadas foram introduzidas em nome da revolta contra a sociedade e contra Deus. Os revolucionários sabem bem da importância do vestuário e do uniforme.

Se as roupas expressam algo da alma, isso é especialmente verdadeiro para as mulheres. É fácil constatar que, desde a mais tenra infância, a mulher é muito sensível a esse assunto. Ela se preocupa mais com isso do que o homem. O corpo feminino, última obra-prima saída das mãos do Criador, templo da vida, exige, de fato, um respeito muito especial. Enquanto o homem reflete a perfeição divina mais por meio de seu vigor, a mulher o faz mais por meio de sua elegância e beleza. A elegância cristã surge, portanto, como uma missão particularmente feminina.

Embora o Salmo 44 destaca que Cristo é o mais belo dos filhos dos homens, a liturgia insiste muito mais na beleza de sua Mãe: “Sois toda bela”; o Ave Regina Cælorum repete várias vezes esse louvor, e isso é quase o traço distintivo daquela que é abençoada entre todas as mulheres quando aparece na terra. Em Pontmain, as crianças perdem o apetite; em Fátima, a pequena Jacinta não deixar de falar sobre isso; a Virgem Maria sempre aparece resplandecente de beleza e pureza. As vestes bem arrumadas que ela usa contribuem para coroar essa elegância.

Refletir a beleza pura e radiante da Virgem Maria exige muita coragem de uma jovem. Ela terá que lutar contra o respeito humano, mas inspirará respeito e certamente não perceberá totalmente a influência benéfica de seus esforços na prática da virtude da modéstia.

Modéstia e beleza

Para aprofundar e compreender a razão fundamental da necessidade e importância das vestimentas, devemos retornar ao pecado original. Nosso catecismo lança luz decisiva sobre essa questão, que à primeira vista poderia parecer totalmente secundária.

Teriam existido uniformes tão belos se não fosse pelo pecado original? É difícil dizer. Mas a Revelação nos ensina que a desordem provocada em nossa natureza pelo pecado original levou Adão e Eva a se vestirem. O vestuário é necessário não porque o corpo seja mau, mas por causa da ferida da concupiscência. Por causa dela, a sensualidade não é mais perfeitamente governada pela razão. Essa revolta interna é uma punição pela rebelião do pecado original contra Deus.

Surge então, em Adão e Eva, um sentimento muito nobre que se chama pudor: a vergonha que a alma humana sente pela desobediência da carne. Não se trata exatamente de uma virtude, pois pressupõe um estado imperfeito em nós, mas é uma bela disposição que salvaguarda a virtude. Como afirma São Ambrósio: “Ela é a companheira da pureza e sua presença torna a castidade mais segura(1).” No estado de miséria decorrente do pecado original, o homem e a mulher respeitam-se ao velar aquilo que pode despertar a concupiscência, a fim de manifestar a espiritualidade da alma e fazê-la resplandecer.

E há mais. O próprio Deus intervém diretamente junto aos nossos primeiros pais e vem em socorro de sua confusão: “Deus fez para Adão e para sua mulher túnicas de pele e os vestiu com elas(2)”. Essa imposição solene de uma vestimenta ampla e longa por parte de Deus ressalta sua importância moral. A vestimenta ampla, como é fácil compreender, oculta o lado animal, reveste o corpo, expressa uma certa nobreza, inspira respeito e pureza. É essa a beleza de uma criatura composta por um corpo de carne e uma alma espiritual e imortal.

Compreendem-se o encorajamento de Pio XII às jovens da Ação Católica que se lançam numa cruzada pela modéstia cristã: “Hoje, queridas filhas, a cruzada não está na espada, no sangue ou no martírio, mas no exemplo, na palavra e na exortação. Contra vossas energias e vossos propósitos ergue-se, como um inimigo mortal, o demônio da impureza e da libertinagem. Levantem bem alto a cabeça para o Céu, de onde Cristo e a Virgem Imaculada, sua mãe, vos contemplam. Sejam fortes e inflexíveis no cumprimento de seu dever de cristãs. Defendam a pureza, lutando contra a corrupção que corrompe a juventude… Que a rainha dos anjos, vitoriosa sobre a serpente insidiosa, toda pura, toda forte em sua pureza, apoie seus esforços nesta cruzada que ela lhes inspirou(3).

Pe. Vicent Gélineau, FSSPX

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Notas:

(1) Santo Ambrósio, De officiis, I, 20

(2) Gênesis 3, 21

(3) Pio XII, Discurso de 22 de maio de 1941 às jovens da Ação Católica em Roma