
Enquanto Ele estava em Jerusalém durante as festas da Páscoa, muitos creram nEle ao ver os milagres que realizava.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
Nosso Senhor havia começado Seu ministério divino no Templo com um ato de suprema autoridade. A atenção foi atraída para Ele. Os discípulos acorreram a Ele imediatamente. O que Ele havia negado aos sumos sacerdotes do Templo, multiplicou na Cidade; confirmou Sua palavra com sinais. Assim, satisfez as exigências dos judeus e, indiretamente, colocou as autoridades em seus devidos lugares, as quais certamente estavam cientes dos milagres do Senhor.
Entre esses novos discípulos, muitos eram, na verdade, curiosos atraídos por qualquer novidade, mas em quem dificilmente se podia confiar. Eles ficavam impressionados com os milagres realizados por Jesus; ouviam suas palavras, ficavam comovidos e se misturavam facilmente à multidão que o cercava. Mas, no fundo, seus corações ainda estavam longe das profundas transformações que a verdadeira fé exige dos verdadeiros discípulos do Mestre.
Por isso, São João, que os conhecia e que talvez tivesse notado muitas deserções em suas fileiras, escreveu sobre eles:
“Muitos creram no seu nome vendo os milagres que fazia. Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos; e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum pois sabia por si mesmo o que havia no (interior do) homem.”
Há uma profunda tristeza nessas palavras. O que é o coração do homem? Que confiança se pode ter nas grandes demonstrações de amizade de outro ser humano? Que poder têm suas promessas e juramentos de lealdade?
A explicação é, na verdade, terrível. Assume a simplicidade do relato de São João… como uma fatalidade que, no entanto, não existe, exceto na obstinação de uma alma que se recusa a se entregar. O fato está diante dos olhos de São João: Deus reivindica o seu reino. É um movimento profundo e interior; é a obra do Espírito Santo em cada alma. Deus se entrega segundo um plano progressivo, que é um plano de vida. Começa com uma semente. Os apóstolos e verdadeiros discípulos não são apenas pessoas pobres e devem aprender a docilidade e a paciência. Por ora, veem apenas a realização de uma palavra da Bíblia. O Espírito Santo iluminará essa palavra, os conduzirá às profundezas do mistério de Deus. Na gênese do Reino da Graça, é o Espírito Santo quem opera… nenhuma convicção humana se iguala à fé que Ele desperta numa alma que se entrega. A comparação que o Mestre acaba de estabelecer entre o Templo e o Seu corpo, eles só compreenderão no fim… e mesmo assim, levarão a vida inteira para apreendê-la. Por ora, é apenas a Fé que suscita neles a ação da Graça: os meios extraordinários devem ser reduzidos ao estritamente necessário. Como escreve Dom Guillerand, “Jesus os forma como desenvolve uma planta; ou como faz nascer uma aurora, por meios normais, tão normais quanto possível”.
Pois, continua D. Guillerand, “a fé não se impõe; ela se mostra, se justifica; ela se torna ‘a homenagem que é razoável prestar’”. Por que alguns creem e outros não? Pela simples razão de que a fé se justifica por si mesma: é obra de Deus; porque também o Espírito de Deus se revela imediatamente, isto é, sem intermediários: Ele se entrega e busca aqueles que consentem em recebê-Lo.
Talvez seja por isso que Nosso Senhor se torna mais acessível aos pobres da cidade, àqueles que nada têm. Outros se posicionam para defender o que possuem. Ao verem os milagres de Jesus, alguns permanecem em silêncio, adoram e se entregam; outros também se calam, talvez acreditem, mas não se entregam. E depois há os demais, aqueles que permaneceram no Templo com os sumos sacerdotes: eles falam, resistem, recusam-se. “Os primeiros, seguindo o exemplo dos futuros apóstolos, saem de si mesmos, sacrificam suas opiniões por outras que consideram superiores às suas, sem compreendê-las”, diz D. Guillerand.
Um dia, Nosso Senhor dirá deste pequeno grupo que verdadeiramente crê: “Vós sois meus amigos… porque estivestes comigo desde o princípio”: não apenas o início tumultuoso deste apostolado divino, mas o início de todas as coisas em que o ato de Fé nos mergulha. “Estes últimos têm medo de conciliar as suas ações com este ato de fé que acabaram de realizar: têm medo do esforço necessário e, provavelmente, de se colocarem entre Jesus e aqueles que O contradizem.” É por isso que o Mestre não Se revela a eles.
O Senhor conhece o coração humano; Ele Se dá somente quando vê corações prontos para responder ao dom divino. João permanece intencionalmente em silêncio sobre as maravilhas que Nosso Senhor realizou na cidade e destaca a formidável dificuldade da alma humana em entregar-se ao ato de Fé: para nossas mentes habituadas a refletir, precisamos nos superar e aceitar caminhar sem outra luz além daquela que, por enquanto, apenas adivinhamos nas palavras do Senhor, antes que o Espírito Santo nos revele mais plenamente.
Estamos abandonados à fatalidade e à impossibilidade de realizar esse ato de fé? “Ele conhecia todos…”, diz São João. É uma nova perspectiva, imensa e que transcende divinamente nossas impossibilidades humanas. O Mestre lê a alma de cada um de nós como um livro aberto: Ele compreende o ser humano em sua totalidade, seus fracassos, mas também suas lutas, suas fraquezas, mas também cada um de seus esforços para ser melhor, suas imperfeições, mas também os sucessos da graça em uma alma… Só Ele conhece verdadeiramente o coração do homem. “Ele conhecia todos eles”. Não está nessas poucas palavras o segredo que já une São João ao seu Mestre?
O Bom Pastor conhece suas ovelhas e suas ovelhas o conhecem.
Pe. Vincent Bétin, FSSPX