BOLETIM DO PRIORADO PADRE ANCHIETA (SÃO PAULO/SP) E MENSAGEM DO PRIOR – JUNHO/26

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Caros fiéis,

A Fraternidade São Pio X não busca seu próprio bem, mas o bem da Igreja. É por isso que sempre recusou uma regularização canônica em detrimento da defesa integral da fé. Até o momento, o reconhecimento oficial da Fraternidade por Roma está condicionado à aceitação das novidades do Concílio Vaticano II e das reformas que se seguiram; em particular, o novo rito da missa. Como a Fraternidade recusa essas reformas, ela continua, portanto, a não estar “em plena comunhão”.

No entanto, desde 1988, houve avanços. Ao revogar a injusta excomunhão, o Papa Bento XVI explicou esse gesto aos bispos de todo o mundo: o problema da Fraternidade não é um problema disciplinar, mas sim doutrinário. Também não é, antes de tudo, um problema litúrgico. Assim, o mesmo papa concedeu faculdades especiais aos bispos para permitir maior liberdade da missa tridentina. Esse outro gesto atendeu a um pedido da Fraternidade. Por fim, o Papa Francisco concedeu à Fraternidade a jurisdição para as confissões e os casamentos. Esses poucos anos de quase regularização permitiram que muitas almas conhecessem a Tradição católica. Eles mostraram que era possível oferecer um quadro de referência para aqueles que desejam permanecer-lhe fiéis. Uma única coisa é necessária: a boa vontade das autoridades.

Na aplicação das decisões de Bento XVI e Francisco, alguns bispos mostraram-se generosos ou, no mínimo, honestos. A maioria dos que concederam as autorizações solicitadas fê-lo contra suas próprias convicções. Que lhes seja dado o devido reconhecimento. Elevemos para eles orações de gratidão. Outros, sem se importarem com as decisões romanas, mantiveram uma rigidez sectária. Não há dúvida de que a missa tridentina é a principal causa da condenação eterna em suas dioceses!

Não se pode deixar de pensar na hipocrisia dos escribas e fariseus. Eles tinham escrúpulos em entrar na sala do tribunal de Pilatos, mas não em pedir a morte de um inocente!

Concretamente, a maioria dos bispos não evoluiu em prol da Tradição desde 1988. A situação geral da Igreja é catastrófica. A tal ponto que o padre Pagliarani se vê obrigado a lembrar, em sua profissão de fé, que as uniões contra a natureza não são católicas e que a comunhão eucarística não é possível em estado de pecado mortal. É assim que estamos em 2026.

É, portanto, com razão que Dom Athanasius Schneider declara: «Quem quer que seja, na Igreja, que ainda hoje negue este verdadeiro estado de necessidade está ou espiritualmente cego, ou considera que o rei nu está decentemente vestido — como no conto de Andersen As Roupas Novas do Rei —, ou se comporta como o servo que, diante do castelo em chamas, exclama: ‘Está tudo muito bem, senhora marquesa!’”

A expressão “o rei está nu” passou a ser usada metaforicamente no dia a dia para descrever situações em que uma verdade óbvia é ignorada ou escondida por conveniência, mas é revelada por alguém corajoso.

É exatamente isso que a Fraternidade faz. Ela descreve uma realidade que ninguém quer ver, por respeito humano, interesse, medo, corrupção, cegueira… E o simples fato dedescrever o que se vê, em uma sociedade decadente, torna-se um ato de coragem condenado. E tomar as medidas para preservar essa lucidez — proveniente de uma vida espiritual fundamentada em uma doutrina sólida e uma moral saudável —, ao consagrar bispos, torna-se condenável. De acordo com as ameaças do cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, a liberdade da Tradição na Igreja sofrerá um novo retrocesso. Entramos em uma nova fase de perseguições. Isso não deveria nos surpreender: “Serão expulsos das sinagogas, e quem vos matar crerá estar prestando homenagem a Deus” (João 16, 2).

A maioria dos fiéis da Fraternidade no Brasil conhece a Tradição há poucos anos. Eles não viveram as grandes lutas dos últimos 50 anos e podem, com toda a razão, sentir-se perturbados por esses graves acontecimentos que estamos atravessando. Um exemplo pode ajudar a confortá-los. É o exemplo da minha família, que apresento com toda a simplicidade, porque o conheço bem; e sem vaidade, pois não tenho nenhum mérito nos atos dos meus antepassados. A geração dos meus avós nasceu nas décadas de 1910 a 1930. Todos foram educados na religião católica tradicional. Após o Concílio Vaticano II, meus avós paternos e maternos fugiram das novidades conciliares e aderiram à resistência católica de Dom Lefebvre. Eles enfrentaram a incompreensão e as condenações de seus irmãos e irmãs. E a excomunhão, em consequência das sagrações de 1988, não melhorou as relações familiares: «Lefebvristas, cismáticos, excomungados…» Qual é o balanço? Na geração dos meus avós, todos foram batizados e casados na Igreja. Na geração dos meus pais, surgem os divórcios entre os primos e alguns abandonam totalmente a prática religiosa. Na minha geração, todos ainda são batizados, mas quase apenas meus irmãos e irmãs e primos de primeiro grau se casam. Entre os primos de segundo grau, surgem os concubinatos. Para a geração que se segue à minha, não se batiza mais e a prática religiosa desapareceu. Em quatro gerações, a fé desapareceu. Ela permanece entre os descendentes daqueles que mantiveram a Tradição. Um bom exemplo vale mais do que muitos discursos. «Contra factum non fit argumentum» — Contra os fatos não há argumentos.

Caros fiéis, as posições que os senhores assumirem agora terão consequências nas próximas décadas. Após reflexão e oração, cada um terá de tomar uma decisão, em consciência, diante de Deus. É melhor conservar o título de “católico”, concedido por aqueles que já não agem como católicos, e perder a fé? Ou sofrer condenações injustas para manter a fé?

Que o Espírito Santo ilumine nossas mentes e nos dê a força dos mártires. Deus os abençoe.

Padre Jean-François Mouroux, Prior

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