
No dia 16 de setembro de 2026 foi publicado no site da Santa Sé o último documento aprovado pelo papa Leão XIV e assinado pelos prefeitos dos dicastérios para a Promoção da unidade dos cristãos, para o Diálogo inter-religioso e para a Doutrina da fé. A presença desse último, na pessoa do cardeal Fernández, é particularmente significativa: ela enfatiza a extensão doutrinária do documento.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
Trata-se da nota Um caminho de esperança. Sessenta anos de diálogo e de fraternidade inter-religiosa à luz da declaração conciliar Nostra ætate. O título e o subtítulo já dizem quase tudo. Limitar-nos-emos a algumas observações. Aqueles que desejarem aprofundar a questão encontrarão material suficiente nos textos citados em nota.
A nota recorda que “a declaração Nostra ætate nasceu após a Segunda Guerra mundial e que inicialmente não se referia ao diálogo com as demais religiões, mas constituía uma resposta às trágicas consequências do antissemitismo, que culminaram na Shoah”. Foi após o seu encontro “com o judeu Jules Isaac (ateu e comunista, ndt.), tornado possível pela mediação de Maria Vingiani, fundadora do Secretariado para as Atividades Ecumênicas”, que João XXIII, “já muito sensível a essa questão, […] encarregou o cardeal Augustin Bea de redigir um texto conciliar destinado a sanar e renovar as relações entre a Igreja e o povo judeu” (§ 4).
Na base, um erro de lógica
O texto afirma que as autoridades da Igreja, sob João XXIII, empreenderam “sanar e renovar as relações entre a Igreja e o povo judeu” como resposta aos trágicos efeitos do antissemitismo. Logicamente, tal raciocínio é um non sequitur: a conclusão não decorre das premissas. Perguntamo-nos, com efeito: que elo de casualidade existe entre o antissemitismo e a doutrina católica, que teria obrigado a Igreja a “retificar” essa última? Nenhum. A Igreja já tinha condenado explicitamente o antissemitismo de origem racial[1]. Em contrapartida, o que ela sempre ensinou diz respeito ao domínio religioso e jamais deve conduzir à perseguição física dos judeus. Se tais perseguições ocorreram, sua responsabilização deve ser imputada aos homens que delas participaram, e não ao ensinamento bimilenar da Igreja.
O magistério entre defesa dos judeus e crítica do judaísmo
Por que a doutrina católica relativa à reprovação dos judeus não pode ser retificada?
Inicialmente, porque ela é ensinada explicitamente pelo Salvador em várias passagens do Evangelho, especialmente na parábola dos vinhateiros homicidas[2] e nesta sentença: “Assim vos digo, o Reino de Deus vos será retirado e será entregue a uma nação que produzirá frutos.” Em seguida, porque ela se apoia na Tradição, desde os Padres da Igreja até o consentimento unânime dos teólogos antes de 1960, coincidentemente[3].
É possível encontrar uma síntese esclarecedora disso em Jean Daniélou, teólogo progressista francês, muito influente no Concílio Vaticano II, e representante da nouvelle théologie:
“Resta este fato essencial de que o povo judeu, ao rejeitar o cristianismo, associou-se efetivamente à decisão de seus líderes contra Jesus. Com efeito, ao se recusar a reconhecer a divindade de Cristo, ele deveria considerá-lo como um blasfemo e, de acordo com a Lei, decretar sua morte.
Logo, se podemos dizer que a morte de Cristo foi, em sua decisão inicial, uma questão apenas dos chefes do povo judeu, todo o povo ratificou em seguida essa decisão por sua incredulidade. Assim, o povo judeu, depositário da Promessa e da Aliança, rejeitou, no dia em que lhe foi dado, o objeto da Promessa. Não diremos que essa recusa atribui a cada um dos membros desse povo uma responsabilidade ou uma reprovação pessoal. Cremos, antes, que se trata de uma misteriosa economia coletiva.[4]”
O que o judaísmo diz do cristianismo
Todavia, a hierarquia eclesiástica contemporânea não quer ouvir nada, e a cada ano multiplica cada vez mais os non sequitur. A nota continua: “Quando, a propósito do judaísmo, afirmamos que não podemos ignorar uns aos outros, isso implica igualmente que a religiosidade dos atuais judeus – e não só aquela ligada ao Primeiro Testamento – apresenta um interesse para os cristãos.
Como afirma o papa Francisco: “Deus continua a agir no povo da Antiga Aliança” (Evangelii gaudium). A religiosidade hebraica pode, com efeito, ser considerada como um efeito da Palavra revelada, sempre viva e eficaz, que eles acolheram; ela constitui, por essa razão, um valor atual e dinâmico, que sempre pode nos enriquecer” (§ 13). Logo, eis a teologia da substituição sendo dispensada.
Porém, há mais. Prestemos atenção nas palavras: o texto afirma que a “religiosidade dos atuais judeus”, enquanto “efeito da Palavra revelada, sempre viva e eficaz”, constitui “um valor atual e dinâmico, que pode sempre nos enriquecer”. Ora, todo aquele que possui um conhecimento, mesmo elementar, da religiosidade atual dos judeus sabe que seu texto de referência fundamental é o Talmud, em certos aspectos, antes mesmo da Torah (ou seja, o Pentateuco), porque o Talmud possibilita interpretar a Torah, captar o seu mais autêntico sentido e ir além, pela coletânea das diversas tradições hebraicas. Sem nos estender sobre esse ponto, recordamos que o Talmud designa Jesus por uma série de expressões ofensivas que omitimos por simples decência, e afirma que ele estaria queimando no inferno, mergulhado em excrementos borbulhantes.
Outra obra importante para a fé hebraica é o Livro do conhecimento de Maimônides, compêndio de regras e ritos, cuja versão hebraica[5] afirma que é dever de cada crente “exterminar com as próprias mãos” os infiéis (os não judeus), entre os quais “Jesus de Nazaré e seus discípulos, […] possa seu nome maligno ser apagado”. É interessante constatar que essa última invocação anticristã não aparece na tradução inglesa impressa comparada: somente os judeus e aqueles que conhecem o hebraico podem, portanto, lê-la[6].
Que os fiéis católicos (ou deveríamos dizer os católicos fiéis?) tenham isso em mente, pois o papa, fazendo eco à Nostra ætate, reafirma que “o respeito e a estima são os fundamentos indispensáveis do diálogo interreligioso e das relações com o judaísmo” (§ 9).
Ide e… dialogai
A nota acrescenta que “o diálogo judaico-cristão não pode ser considerado como uma prática acessória para os cristãos, cujo único propósito seria conhecer melhor o judaísmo, manter relações diplomáticas ou até simplesmente cultivar a amizade com o povo judeu: trata-se, na verdade, de conscientizar-se plenamente da sua própria identidade original”. Isso é estranho: durante dois milênios, a palavra “diálogo” não aparece uma única vez nos documentos dos concílios, das encíclicas ou em qualquer outra parte da pregação católica[7]; todavia, ela aparece 150 vezes nesta nota. Apresentam-nos esse diálogo como um meio necessário para sabermos quem somos, em nossa relação com aqueles que blasfemam o nome de Cristo e que desejariam ver os cristãos desaparecerem.
É melhor pararmos por aqui, com um brevíssimo resumo dos efeitos dessa catequese baseada no diálogo:
“O católico médio, falamos do famoso “católico de banco”, tem começado a refletir e a tirar as consequências disso. Se o padre nos diz para irmos ouvir a pastora “Valnice” na paróquia, ou até mesmo a convida para pronunciar a homilia na igreja durante a Semana de oração pela unidade dos cristãos, então isso significa que:
- Um padre católico e a pastora são a mesma coisa;
- A Igreja católica e os protestantes são a mesma coisa;
- A missa católica e o culto protestante são a mesma coisa;
- Se alguém é protestante, de nada lhe serve se converter ao catolicismo;
- As mulheres também podem ser sacerdotes, e os sacerdotes podem se casar;
- De nada serve ouvir o Papa e a Igreja, basta ler a Bíblia de vez em quando;
- Se alguém não vai à missa de domingo, que mal há nisso?
- Lutero tinha razão;
- A Igreja estava errada;
- Se a Igreja estava errada no século XVI, ela também pode estar errada hoje.
Se o convidado especial for um rabino, o “católico de banco” tirará as seguintes consequências lógicas:
- Judeus e cristãos acreditam no mesmo Deus;
- Judaísmo e cristianismo são uma única e mesma religião;
- Se alguém é judeu, de nada lhe serve se converter ao cristianismo;
- Ir à sinagoga ao sábado ou à igreja ao domingo dá no mesmo;
- Acreditar em Deus e acreditar em Jesus Cristo é a mesma coisa;
- O rabino é mais inteligente, melhor preparado e mais crente que o meu padre…”[8]
Vincenzo Gubitosi
Notas:
[1] Cf. Decreto do Santo Ofício de 25 de março de 1928, Acta Apostolicæ Sedis, 20 (1928), p. 103-104” Qua caritate permota Apostolica Sedes eundem populum (iudaicum) contra iniustas vexationes protexit, et quemadmodum omnes invidias ac simultates inter populos reprobat, ita vel maxime damnat odium adversus populum olim a Deo electum, odium nempe illud, quod vulgo “antisemitismi” nomine nunc significari solet” (Impelida por esta caridade, a Sé apostólica protegeu este mesmo povo (judeu) contra as perseguições injustas e, assim como reprova qualquer inveja e inimizade entre os povos, ela condena particularmente o ódio pelo povo outrora eleito por Deus, ou seja, este ódio que hoje é geralmente designado sob o nome de antissemitismo). É necessário notar que algumas traduções recentes desta passagem, como a do L’Osservatore Romano, “Je suis Joseph, votre frère”, 9 de junho de 2020, omitem traduzir o advérbio olim (outrora, antigamente), em razão da nova teologia da “irrevocabilidade” da Antiga Aliança. Cf. também Pio XI, discurso aos colaboradores da Rádio católica belga, 6 de setembro de 1938: “Notem bem que Abraaão é chamado de nosso patriarca, nosso ancestral. O antissemitismo não é compatível com o pensamento e a realidade sublimes expressas neste texto. É um movimento […] do qual nós cristãos não podemos participar de forma alguma. Por Cristo e em Cristo, somos a descendência espiritual de Abraão. Não, não é possível aos cristãos participar do antissemitismo. Reconhecemos a todos o direito de se defender, de adotar os meios de se proteger contra tudo o que ameaça os seus interesses legítimos. Mas o antissemitismo é inadmissível. Somos espiritualmente semitas.”
[2] Cf. Mt 21, 33-46.
[3] Cf. J.-M. Gleize, Vero Israele e falso giudaismo, Edizioni Piane, Casale Monferrato, 2022, especialmente p. 90 e seguintes.
[4] Jean Daniélou, « Jésus et Israël », Études, nº 258, julho-agosto 1948, p. 72-73.
[5] Ele se refere à edição bilíngue hebraico/inglês publicada em Jerusalém, em 1962, por Boys Town, sob a direção de Moses Hyanson.
[6] Cf. I. Shahak, Storia ebraica e giudaismo. Il peso di tre millenni, CLS, Verrua Savoia, 2006, p. 46-47 e 52-53.
[7] Cf. R. Amerio, Iota unum, Lindau, Turim, 2006, p. 323 e seguintes.
[8] A. Gnocchi et M. Palmaro, Cattivi maestri. Inchiesta sui nemici della verità, Piemme, Milão, 2009, p. 175-176.