AMOR DE DEUS

mocaMuitas jovens cristãs se têm distinguido por uma grande piedade, que consiste no amor de Deus e na fidelidade ao Divino Salvador. Estavam resolvidas a sofrer tudo de boa vontade, a sacrificar até a própria vida, para não ofenderem a Deus e se não tornarem infiéis ao Seu Salvador. A mártir Santa Susana brilhava em Roma pela alta nobreza do seu nascimento e pelos dotes excepcionais de espírito e de corpo. O Imperador Diocleciano desejava, então dá-la por esposa a seu cor-regente Galério Maximiano, e para este fim pediu-a ao pai. Dirigiu-se este imediatamente, à casa da filha e assim lhe falou:

– “Minha filha, compreendeste bem o valor e a superioridade de ser esposa de Cristo?”

– “Eu o conheço tão bem – replicou Susana – que em minha opinião, todas as coroas deste mundo nada são comparadas com Ele”.

Instou Gabino? “Julgas retamente. Mas, se o Imperador te destinasse para esposa de Galério, a dignidade de imperatriz não venceria o teu amor ao Salvador Crucificado? Serás, acaso, bastante forte, para preferir, por amor de Cristo, morte cruel a cingir a

coroa de Imperatriz?” Radiante de júbilo, respondeu Susana: – “Ah! meu querido pai, quanto não me sentiria feliz, se me fosse concedido sacrificar a vida por amor ao divino esposo, que derramou Seu sangue pela minha salvação! Nenhuma púrpura seduz-me, nenhum martírio me atemoriza!”

– “É o que provarás dentro em breve”, respondeu comovido o pai cristão, animando a filha, para o combate iminente. A todos os engodos e adulações, como também as ameaças e injúrias, Susana opôs inabalável firmeza. Os mais cruéis martírios, nem sequer um instante a fizeram vacilar no seu amor ao Divino Salvador. Não precisas, leitora cristã, sofrer pelo teu Divino Salvador, a morte violenta pelo martírio doloroso: deves, todavia oferecer-Lhe o primeiro lugar no teu coração juvenil; quer te chame Deus para o matrimônio, quer para o estado religioso ou para uma constante vida de solteira no mundo.

1º- Ama a teu Deus e Salvador acima de tudo!

Ninguém, como Ele, é tão infinitamente amável. A beleza e elegância, a bondade e virtude, a perfeição e amabilidade de todos os homens nobres, de todos os bem-aventurados e santos do céu, e até da própria Santíssima Virgem Maria, nada são, confrontadas com a bondade e perfeição de Deus. É como uma gota de água comparada com o imenso oceano, o qual não se pode atravessar com a vista, e que tão facilmente sustenta os maiores navios, como se fossem franzinas e leves palhas. Deus é infinitamente belo e nobre, infinitamente bom e perfeito, infinitamente digno de louvor e amor. Enche com Sua magnificência o céu em toda imensidade, arrebata com Sua beleza os espíritos mais sublimes do empíreo, inebriando-os de alegria e delícias inexprimíveis. Para Ele, certamente, o teu pequeno e imperfeito coração não é demasiado grande. Ama-O, portanto, de todo o coração, e com toda a força que puderes.

2º – Teu Deus e Salvador ama-te, acima de tudo!

De fato: não existe ninguém, nem no céu, nem na terra que te ame infinitamente e com tanto extremo como o teu Deus. É certo que teus pais te amam, deveras, e de todo o coração, desejam a tua maior felicidade e se sacrificam inteiramente por ti. Talvez, tenhas uma irmã dedicada, um bom irmão ou um amigo nobre, que te querem muito e em cujo amor sincero pode confiar. No entanto, infinitamente mais do que estes te ama teu Deus e Salvador. Enquanto estou a escrever estas linhas, aproxima-se o Natal; mais alguns dias apenas, e celebraremos a augusta e santa festa.

Milhares de cristãos cantarão com entusiasmo as magníficas canções do Natal. A alegria brilhará em todos os olhos, semelhante a uma torrente de delícias inebriantes, que percorre toda a cristandade e penetra todos os corações em que ainda brilha o lume da fé. Que é que torna este dia tão querido ao nosso coração, e tão desejado por nós, senão porque o Natal corresponde perfeitamente às esperanças de nossa alma e a arrebata num transporte de entusiasmo? É o pensamento do amor do Divino Salvador para com os homens pecadores. Ajoelhamos, em espírito, perante o pequeno e frio presépio de Jesus, contemplamos a Sua profunda humilhação, vemo-lO tão pequeno, frágil e pobre, modestamente reclinado sobre algumas palhas. A exemplo do sábio São Jerônimo, tomaremos as tenras mãozinhas do Menino e as apertarmos contra os nossos lábios, agradecendo-Lhe de coração o infinito amor, que O obriga a tornar-Se tão pequeno por nossa causa, a humilhar-se tão profundamente e de modo tão inefável por nosso amor.

Como o presépio, a Cruz erguida no Calvário também nos fala do amor de Jesus. Lá está suspenso o Divino Salvador, torturado pelas dores mais cruéis sobre o duro madeiro da Cruz; mãos e pés transpassados por agudos cravos; cabeça cingida por uma coroa de espinhos; o sagrado corpo como que semeado de chagas; a alma, por assim dizer, imersa num mar de íntimos sofrimentos. Tudo isto suporta Ele por teu amor, para tua salvação. Suas chagas segredam-te: vê a que extremos te amou o teu Jesus. Não queres, tu também, amá-lO? Não queres, até o último alento de tua vida, manifestar-Lhe a tua gratidão por este amor? Desvia, depois, o teu olhar da Cruz ensangüentada para o solitário Tabernáculo da tua igreja paroquial. Dia e noite, arde diante dele uma chama tênue. Lembra-te que, debaixo das acanhadas formas do pão, está presente o teu Deus e Salvador, “luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo”. Aqui se humilha por amor de nós, ainda mais do que no presépio e no Calvário: porque lá manifesta-se em Sua figura humana e ostenta ainda alguns fugitivos raios da Sua divindade. Por ocasião do Seu nascimento uma luz celestial se estende pelas campinas de Belém com uma claridade admirável, e ouvimos o canto dos anjos.

No momento de Sua morte na Cruz as trevas envolvem o sol, partem-se os rochedos, abrem-se os sepulcros, e um pressentimento misterioso penetra os corações dos assistentes, a tal ponto que, tomado de profunda comoção o centurião exclama: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!” Mas aqui, sobre o altar, até a Sua própria natureza humana o Senhor oculta aos nossos olhos e Se esconde por inteiro sob as pequenas e diminutas formas do pão. Nem sequer um raio da Sua divina magnificência e do Seu poder Ele permite que transpareça; só a humilhação, a mais profunda humilhação que se pode conceber, é o que Ele aqui apresenta. E tudo isto por amor de nós, homens pecadores! A fim de permanecer entre nós, homens pecadores! A fim de permanecer entre nós, como nosso amigo e irmão, para se sacrificar quotidianamente por nós, de modo incruento, para poder, até mesmo na Sagrada Comunhão, converter-se em alimento das nossas almas.

Ele escolheu esta atitude da mais extraordinária humilhação. Este amor tão grande e tão íntimo, que excede a nossa imaginação, não merece, porventura, a correspondência do teu amor completo e constante, donzela cristã? Deves, freqüentemente, dizer a ti mesma: nunca poderia corresponder integralmente ao infinito amor de meu Jesus, nunca chegarei a amá-lO suficientemente, e a agradecê-Lhe como Ele merece! Eis, porque, pretendo ao menos, esforçar-me o mais possível para remunerá-lO por tudo quanto, Ele fez e sofreu por mim; até o último alento da minha vida, quero permanecer fiel ao amor que Lhe consagrei!

3º- Ama, acima de tudo, ao teu Deus e Salvador.

Nada há que tanto enobreça teu coração, como o amor de Deus! Este amor te defenderá contra o pecado, que desfigura e afeia o coração do homem. Com razão diz São Jerônimo: “Ama a Deus e faze depois o que quiseres”. Tinha este santo à firme persuasão de que, ninguém pode amar a Deus e ofendê-lO deliberadamente: é impossível. Assegura-o o mesmo Divino Salvador: “Se alguém me ama guardará a minha palavra”. (Jo.14,23). O amor de Deus fará teu coração propenso ao sacrifício. De fato: quem ama a Deus, deveras, se esforça para que os outros O conheçam sempre melhor e O amem mais intimamente. Todo sacrifício feito para este fim, parecer-lhe-á doce e santo dever. O amor de Deus infundirá em teu coração a coragem forte para as penosas dificuldades da vida. Este amor dará a tais penas uma quase consagração e na

abnegada renúncia, elas encontrarão o seu aperfeiçoamento e coroa. Não é isto que nos atestam os grandes heróis do amor divino? Enfrentando todos os sofrimentos e dificuldades, não exclamam triunfantes São Paulo, o Apóstolo dos gentios: “Quem nos poderá separar do amor de Cristo?” (Rom. 8,35).

O amor de Deus, finalmente, fará teu coração bondoso e serviçal para com teu próximo. Se amares a Deus como te cumpre, verá então em cada homem a imagem de Jesus, o Filho querido de Deus, e amarás por causa de Deus, cumprindo a palavra do teu Divino Salvador: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Mt. 22,39). Visto que o amor de Deus exerce sobre ti salutar influxo, deves procurar aperfeiçoar-te de maneira particular nesta importante virtude. Acostuma-te a exercitar em ti freqüentes atos de amor de Deus; pela manhã, quando despertares; à noite, quando te entregares ao descanso; durante o dia, enquanto te dedicas a algum trabalho; e até mesmo nos momentos de folga, em que refazes as forças consumidas pela fadiga. Nas ocasiões em que está sozinha, deixa partir de teus lábios, ou ao menos pronuncia no teu íntimo estas palavras: Ó, meu Deus, eu Vos amo sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bom, infinitamente perfeito e digno de amor. Ó meu Salvador, eu Vos amo sobre todas as coisas porque Vós me amastes infinitamente e me cumulastes de muitas graças.

Acostuma-te a executar com prazer, por amor de Deus, os teus trabalhos diários e a aceitar de boa mente os dissabores. Renova, para tanto, muitas vezes as tuas boas intenções e propósito. Reforça e melhora freqüentemente o teu amor a Deus por meio de uma grande piedade para com o SS. Sacramento do Altar, no qual o Divino Salvador te dá à maior prova de amor. Visita, com prazer, o Senhor no Tabernáculo; assiste, se puderes, também nos dias úteis, ao santo sacrifício da Missa, recebe amiúde a sagrada Comunhão. Assim agindo, o teu amor a Deus, receberá sempre nova força e novo calor.

Donzela Cristã – Pe. Matias De Bremscheid