
Caros fieís,
No mundo, a palavra “tradição” não tem uma conotação negativa. Pelo contrário, transmite uma imagem positiva e conota qualidade. Ao chegar em Indaiatuba, antes de virar na rua onde será construída a Igreja da Imaculada Conceição, um anúncio de um novo loteamento traz o título bastante apropriado: “A tradiçao encontra um novo capítulo”. No vídeo promocional do projeto, um orador argumenta: “Valorizar a história… raízes profundas… recebendo o novo sem perder a essência”. Ele compreende o conceito de tradição: receber, valorizar e transmitir.
Mas, na Igreja, por que é tão difícil falar sobre tradição(ões) hoje em dia? Vamos arriscar uma explicação baseada na preservação do patrimônio. Essa palavra (derivada do latim patrimonium) originalmente se referia a todos os bens e direitos herdados do pai (pater). Hoje em dia, adquiriu o significado mais geral de “propriedade transmitida a uma pessoa ou comunidade por gerações anteriores”. E quanto ao patrimônio religioso?
No início do ano, um padre diocesano de Minas Gerais me contou que tinha uns 15 anos quando o velho pároco de sua paróquia faleceu. Isso foi na década de 1980. O novo padre havia empilhado todas as vestes litúrgicas em uma propriedade rural para serem queimadas. Ele dirigiu um trator até a nave da igreja, arrancou o piso e removeu todos os corpos enterrados para fazer uma laje de concreto.
Na Catedral de Franca, o padre trancou-se lá dentro e começou a destruir os altares laterais. Felizmente, os fiéis o impediram de continuar sua obra destrutiva. Poderíamos escrever páginas e páginas relatando a destruição perpetrada por bispos e padres nas últimas décadas.
O que devemos pensar desses pastores que afirmam agir em nome do povo de Deus, mas destroem os monumentos que sua piedade e generosidade, fruto de árduo trabalho, construíram ao longo dos séculos? E ainda mais grave do que obras de arte: almas. Quantas foram e estão sendo destruídas por clérigos cegos ou inescrupulosos?
Somente o que é inútil ou inconveniente é destruído. Hoje, é tão difícil falar de tradição na Igreja porque, desde o Vaticano II, ela é considerada inútil e inconveniente. Às vezes, é tolerada com o uso do termo “viva”. Como se a Tradição não tivesse sempre estado viva ao longo da história da Igreja. Esse termo “viva” dificilmente oculta a realidade: não se trata mais de transmissão, mas de ruptura. Esses padres e bispos entenderam isso muito bem, destruindo suas próprias catedrais, igrejas e altares melhor do que qualquer revolucionário ou protestante. Além dos próprios objetos, foi a fé, que esses objetos manifestavam, que foi atacada. E ainda hoje, alguns clérigos estão determinados a apagar tudo o que possa nos lembrar que havia algo antes da revolução conciliar. Eles querem obliterar os últimos vestígios da tradição, assim como os egípcios procuraram apagar as evidências da existência de Moisés após sua condenação pelo Faraó. Os cristãos não podem permitir que um sacerdote que se considera todo-poderoso destrua o patrimônio espiritual e artístico de sua paróquia. Eles têm o poder e o dever de opor-se a ele.
Na leitura do Evangelho do Domingo da Paixão, os judeus se insurgem contra Nosso Senhor porque ele ainda não tem cinquenta anos e afirma ter encontrado Abraão. Aos lembrar de sua eternidade, Cristo significa que a verdadeira religião existia antes que uma elite corrupta a desviasse de seu propósito final. Esta é a condenação perpétua da hipocrisia em todo o Novo Testamento.
No século XXI, aqueles chamados tradicionalistas apontam que uma verdadeira Igreja Católica já existia antes de 1960. A “Igreja conciliar” existe há apenas 60 anos. Se ela está verdadeiramente em continuidade com a Igreja de todos os tempos, por que seria hostil à Tradição? O surgimento dos estilos Barroco e Clássico levou a alguma destruição de elementos Românicos ou Góticos, mas nada essencial ou generalizado. É inegável que os novos estilos alegavam fazer parte da continuidade doutrinal dos antigos e valorizá-los de acordo com as necessidades da época. A estabilidade na verdade deu origem a riquezas complementares geradas pelo gênio único de cada era. A pobreza da arte religiosa pós-conciliar fala por si mesma. Afastam-se da fonte de inspiração: a contemplação das verdades eternas; aquelas que nos elevam como uma bela nave que nos conduz a um esplêndido santuário.
Por isso, até que a crise passe, é melhor preservar os valores estabelecidos do que arriscar criar monstruosidades. Por isso, é o maior elogio possível quando alguém para em frente à nossa capela recém-concluída em Passos e diz: “Esta capela foi lindamente restaurada”.
Gostaríamos de usar as igrejas construídas por nossos antepassados, mas elas estão ocupadas. Até que tenhamos a alegria de vê-las devolvidas ao seu propósito original, devemos, portanto, construir novas. Da mesma forma, gostaríamos que os bispos transmitissem a doutrina, a moral e os sacramentos como deveriam, mas não é o caso. Então, devemos criar novos. Este é um novo capítulo na Tradição. Não uma ruptura, nem uma inovação, mas um novo ímpeto para o qual devemos nos preparar por meio da oração, do estudo e da caridade.
Deus os abençoe.
Padre Jean-François Mouroux, Prior