EXPLICAÇÃO DAS CERIMÔNIAS DA MISSA – PREPARAÇÃO AO PÉ DO ALTAR

Publicamos abaixo um dos capítulo do livro “O Culto Católico em suas Cerimônias e seus Símbolos”, do Abbé A. Durand. 

Esta obra é uma tradução adaptada, de nosso amigo Robson Carvalho (daqui da Missão da FSSPX em Ribeirão), do original francês Le Culte Catholique en ses Cérémonies et ses Symboles.

O livro é de leitura obrigatória para todos os católicos que desejam saber mais sobre todo o simbolismo e desenvolvimento da Missa (Tridentina).

Nessa crise de fé sem precedentes instaurada na Igreja, onde coloca-se a Missa (Nova) como uma festa, uma ceia, uma reunião, um banquete, um simples memorial…..onde o importante é dançar, balançar lencinhos, chorar e ouvir uma música “maneira” ao som de uma guitarra, uma bateria ou um pandeiro….nada mais precioso que conhecer a verdadeira e sã Doutrina Católica.

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CAPÍTULO VI

EXPLICAÇÃO DAS CERIMÔNIAS DA MISSA – I PARTE

PREPARAÇÃO AO PÉ DO ALTAR

Os fiéis estão reunidos para o santo Sacrifício; o padre, revestido com os ornamentos sagrados, deixou a sacristia para imolar a Vítima adorável; os anjos, aos milhares, cercam o altar, e do alto dos céus, a Santíssima Trindade considera com amor as grandes maravilhas que vão se operar. Uma voz secreta saída do tabernáculo se faz escutar pelo padre, e lhe diz como outrora disse a Moisés: “Trema ao aproximar- se do meu santuário, pois Eu sou o Senhor109””. O temor se apodera, então, de sua alma. Ele se detém ao pé do altar para se preparar pela confiança, o arrependimento e a oração, a fim de celebrar esses mistérios formidáveis do qual nem os próprios anjos se julgaram dignos

Ele vai imolar o Cordeiro de Deus, mas qual direito de vida ou de morte ele tem sobre o Deus que lhe extraiu do nada? O sinal da cruz que ele faz, o tranqüiliza, pois ele vem: em nome do Pai, que após ter entregue seu Filho à morte, deu ao padre sua autoridade para Lhe oferecer esse mesmo Filho em sacrifício; em nome do Filho, o qual ele vai tomar o lugar; em nome do Espírito Santo que formou no seio imaculado de Maria, a Vítima de nossa salvação, e por quem essa grande Vítima se ofereceu sobre o Calvário.

Esses pensamentos afiançam o padre. Seu olhar, iluminado pela fé, vislumbra acima do altar da terra, nos esplendores dos céus, outro altar misterioso. Pois é no seio do Pai, verdadeiro templo, sobre a substância do Verbo, verdadeiro altar, e pelo Espírito Santo, verdadeiro fogo sagrado, que Jesus Cristo, a Vítima, se oferece à majestade de Deus. Em instantes ele vai se aproximar desse sublime altar. Com este pensamento, um grito de alegria e de entusiasmo escapa de seu coração:

Subirei ao altar de Deus. Do Deus que alegra a minha juventude

Introibo ad altare Dei. Ad Deum qui lætificat juventutem meam

Sim, vou atravessar os nove coros dos anjos, avançar diante desse grande Deus, cujo trono repousa sobre as asas abrasadas dos Querubins, no seio da luz e da glória. Eu, criatura falha, não somente me aproximarei de meu Deus, mas repousarei sobre seu coração, pois entrarei em seu coração, verdadeiro altar da imolação.

Eis que novamente o medo toma conta do padre. Ele vai, subindo os degraus do altar, subir ao céu; mas, “Quem é digno de subir ao céu, exclama o Rei Profeta, se não aquele que tem o coração puro e as mãos inocentes110”. Sem dúvida, o ministro de Deus não avança rumo ao altar com um coração profanado, mas ele sabe que, Aquele do qual ele vai se aproximar é a santidade infinita, que com o olhar encontra mancha entre seus anjos e santos. Ele se recorda desta palavra de um grande doutor, “que o padre no altar deveria poder, por sua santidade, ocupar um lugar de honra no meio dos príncipes da corte celeste111”, por isso ele exclama:

Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa duma gente não santa. Livra-me do homem iníquo e enganador

Judica-me, Deus, et discerne causam meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me

Tu que és, ó Deus, a minha fortaleza, porque me repeliste? E porque hei-de eu andar triste, enquanto me aflige o inimigo?

Quia tu es, Deus, fortitudo mea: quare me repulisti et quare tristis incedo, dum affligit me inimicus?

O padre sente que o Senhor pronunciou sobre ele um julgamento de misericórdia, a confiança renasce em seu coração. Ele aproximará do altar, mas precisa que uma luz divina ilumine seus passos. Ele a pede para Deus: “envia-me o socorro da verdadeira luz, que é o Espírito de Deus, e da verdadeira luminosidade, que é seu Filho; pelo favor desses guias me aproximarei desta santa montanha, que é Vós mesmo. Penetrarei em seu santuário que é vosso seio, aonde Jesus Cristo vai se imolar, e entrarei até o altar sublime que lá reside. Vosso verdadeiro altar que é vosso Filho:

Envia a Tua luz e a Tua verdade; estas me conduzirão e me levarão ao Teu santo monte e aos Teus tabernáculos. E aproximar-me-ei do altar de Deus, do Deus que alegra a minha mocidade

Emitte lucem tuam et veritatem tuam: ipsa me deduxerunt e adduxerunt in montem sanctum tuum, et in tabernacula tua. Et introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam

Pensando em um ministério tão santo, ele teme que Deus não o repare. Sem turvar-se, ele se encoraja e diz:

“Ó Deus, Deus meu, eu Te louvarei com a cítara. Por que estás triste, minha alma? E porque me inquietas?

Confitebor tibi in cithara Deus, Deus meus: quare tristis es anima mea, et quare conturbas me?

Espera em Deus, porque eu ainda O hei-de louvar, a Ele que é a minha salvação e o meu Deus

Spera in Deo, quoniam adhuc confitebor illi: salutare vultus mei, et Deus meus

O nosso auxílio está no nome do Senhor

Adjutorium nostrum in nomine Domine 

Que fez o Céu e a Terra

Qui fecit caelum et terram

É no nome do Senhor que o padre coloca toda sua confiança. Ele sabe que nada é impossível para Aquele que fez o céu e a terra, e que nenhuma indignidade lhe fará um rejeitado, quando na verdade ela é coberta pelos méritos de Jesus Cristo. Ele se os aplica pelo sinal da cruz que ele forma sobre si, pronunciando essas palavras112.

Contudo, a alma do padre ainda está sobrecarregada de tristeza. Ele não saberia esquecer, nesse momento, que semelhante ao seu divino Mestre, “ele se tornou maldito para seus irmãos”, e que, sobre seus fracos ombros, ele carrega os crimes do mundo inteiro. Esse pesado fardo, no jardim das Oliveiras, lança em terra, banha de sangue nosso divino Salvador. Sobre o caminho do Calvário, três vezes ele cai sob esse peso esmagador, e esta carga sob o qual se inclina o Deus poderoso, o padre poderia a carregar sem nada temer por sua fraqueza?

Quem permaneceria indiferente em face dessa cena: o padre tendo as mãos juntas e ligadas como um criminoso na presença de seu juiz. Ele não ousa mais olhar o céu que ele saudava antes. Mas, se prostrando profundamente, a face contra a terra, ele, o eleito do Senhor, se bate no peito como o publicano do Evangelho. Escutemos as palavras que saem de sua boca:

Eu pecador me confesso a Deus todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado São Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado S. João Batista, aos santos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, porque pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Portanto, rogo à bem-aventurada Virgem Maria, ao bem-aventurado S. Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado S. João Batista, aos santos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, a todos os Santos e a vós, Padre, que rogueis a Deus Nosso Senhor por mim

Confiteor Deo omnipotenti, beatæ Mariæ semper Virgini, beato Michaéli Archangelo, beato Joanni Baptistæ, sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus Sanctis, et tibi, pater: quia peccavi nimis cogitatione, verbo, et opere: percutiunt sibi pectus ter, dicentes: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michælem Archangelum, beatum Joannem Baptistam, sanctos Apostolos Petrum et Paulum, omnes Sanctos, et te, pater, orare pro me ad Dominum Deum nostrum

Que espetáculo sublime! A Igreja da terra unida à Igreja do céu, segundo a expressão de Tertuliano113, forma como que um batalhão de um exército, que cerca a misericórdia divina e lhe faz uma agradável violência. Nos céus, Maria, os anjos, os Apóstolos e todos os santos, prostrados ao pé do trono de Deus, pedem graças para o padre que, humildemente inclinado, espera seu perdão. Enquanto que nós rezamos sobre a terra, nossa oração é repetida por todos os bem-aventurados.

Que Deus onipotente se compadeça de vós, que vos perdoe os pecados e vos conduza à vida eterna.

Misereatur vestri omnipotens Deus, et dimissis peccatis vestris, perducat vos ad vitam æternam.

A estas palavras o padre se levanta. Ele agora pode olhar o céu com confiança, pois Deus lhe perdoou a pedido dos céus e da terra reunidos. Ele vai, então, subir a santa montanha, onde Deus deve descer como sobre um novo Sinai. Enquanto que sozinho com o Senhor ele recita as secretas comunicações de seu amor, os fiéis permanecerão lá em baixo no pé da montanha, assim como outrora estiveram os israelitas. Que eles não se esqueçam que aqueles receberam a ordem de lavar suas vestes, de se purificar, eles mesmos, a fim de serem menos indignos de se aproximar do Sinai onde Deus vai manifestar sua glória! Qual pureza não exige de nós esse altar que se tornará, tão logo, a montanha santa do Calvário! Se qualquer mancha marca nossa alma, as apaguemos pelo arrependimento, e recitemos, por nossa vez, o confiteor com dor e compunção.

A essas palavras – minha culpa – se bate no peito. Esse ato simbólico de arrepender-se, significa que queremos quebrar nosso coração, a fim de que Deus faça dele um novo coração, um coração que possa lhe agradar.

Pela tríplice repetição do mea culpa, diz Monsenhor Olier, acusamos três tipos de pecados, aqueles do pensamento, das palavras e das obras, cometidos contra as três pessoas da Santíssima Trindade. Na última vez, se diz: mea maxima culpa, pela razão de que os pecados contra o Espírito Santos se redimem dificilmente nesta vida e na outra. Os pecados do pensamento se dirigem ao Pai, aqueles das palavras ao Filho, que é a palavra do Pai; e os pecados das obras ao Espírito Santo, que é o operador contínuo das boas obras em nós114”. Que profundidade! Que filosofia nas orações da Igreja!

Tal é a preparação que a Igreja exige do padre e dos fiéis, para melhor se penetrar na grandeza das coisas que vão se passar no altar. Agora, ministro do Senhor, suba com confiança os degraus que vos separam do Santo dos santos:

Se Vos tornardes para nós, Senhor, dar-nos-ei a vida

Deus, tu conversus vivificabis nos 

O Vosso povo alegrar-se-á em Vós

Et plebs tua lætabitur in te

Mostrai-nos, Senhor, a Vossa misericórdia

Ostende nobis Domine, misericordiam tuam 

E dai-nos a Vossa salvação

Et salutare tuum da nobis

 

Senhor, ouvi a minha oração

Domine, exuadi orationem meam

 

E fazei subir até Vós o meu clamor

Et clamor meus ad te veniat

 

O Senhor seja convosco.

Dominus vobiscum.

 

E com o vosso espírito.

Et cum spiritu tuo. 

Só, então, o padre sobe, ainda tremendo, os degraus do santuário. A terra que ele caminha não é por vez santa? O sigamos com atenção e respeito para estudar os mistérios que vão ali se operar.

109 Lv 26, 2
110 Sl 23, 4
111 São João Crisóstomo
112 P. de Condren
113 Apologet., c.89
114 Mgr. Olier, Cérém. de la Messe de paroiss