PECADO POR OMISSÃO

Concílio Vaticano II e as fontes da Revelação

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Lido nos meandros do caminho sinodal alemão:

“Essa diferença de status [entre clero e leigos], à qual estão atribuídos diferentes direitos e deveres, ainda hoje marca o direito eclesiástico e a liturgia. No entanto, ela não é bíblica. O clericalismo tem suas raízes na ênfase dada a essa diferença de status (1).”

Aparentemente, a mera ausência de qualquer menção nas Sagradas Escrituras é suficiente para invalidar a distinção entre clero e leigos. No entanto, é sabido que muitos elementos da doutrina católica não se encontram na Bíblia: a Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, a sua Imaculada Conceição, o próprio cânone das Escrituras, etc. “Há muitas coisas“, diz Santo Agostinho, “que a Igreja universal preserva e que, portanto, temos razão em crer que foram ordenadas pelos Apóstolos, apesar da ausência de textos escritos(2)”.

Devemos encarar essa insinuação tendenciosa do sínodo alemão como uma especialidade dos progressistas mais radicais? Na verdade, não, eles podem basear seu argumento em uma polêmica anterior ao Concílio Vaticano II, que se traduziu em um desses textos de compromisso nos quais o Concílio se especializou, nos quais ele se destaca por não dizer as coisas diretamente

Com efeito, ao se aproximar a discussão sobre o esquema conciliar sobre a Revelação, inicialmente intitulado *De fontibus Revelationis*, a ala reformista exigiu que a discussão não se concentrasse em duas fontes da Revelação: Escritura e Tradição, mas de uma única. As razões para rejeitar o esquema inicial incluíam a falta de espírito pastoral e de sensibilidade ecumênica. Entende-se que insistir na Tradição como fonte da Revelação junto com a Escritura não deixava esta sozinha, o que questionava um dos pilares da Reforma protestante. É por isso que o texto finalmente votado tem o cuidado, mesmo ao falar da Tradição, de apresentá-la como indissociável da Escritura, e se abstém obstinadamente de afirmar que certas verdades da fé não se encontram na Bíblia. A única frase que poderia ter evocado isso sobreviveu ao debate nesta forma: “Não é somente pela Sagrada Escritura que a Igreja obtém a certeza que tem sobre tudo o que é revelado.”(3) O que equivale a dizer que ela não diz mais nada.

Durante os debates, em 24 de setembro de 1965, o Papa Paulo VI transmitiu à Comissão Doutrinária do Concílio a citação de Santo Agostinho acima mencionada. No entanto, “embora tenha sido devidamente transmitida às autoridades competentes, este texto – por razões desconhecidas – nunca foi levado ao conhecimento da Comissão(4) ”… Um procedimento que não parece ter sido uma exceção durante este Concílio.

Se quiséssemos rever o Concílio, provavelmente teríamos que afirmar de uma vez por todas que não encontramos explicitamente nas Sagradas Escrituras todas as verdades que fazem parte do depósito da fé.

Pe. Nicolas Cadiet, FSSPX

Notas:

  1. https://www.synodalerweg.de/fileadmin/Synodalerweg/Dokumente_Reden_Beitraege/beschluese-broschuren/Franzoesisch/SW_4_-_L_existence_sac erdotale_aujourd_hui._Texte_fondamental.pdf
  2. Sunt multa quae universa tenet Ecclesia et ob hoc ab Apostolis praecepta bene creduntur, quamquam scripta non reperiantur.”, Santo Agostinho, De baptismo contra Donatistas, V, XXIII, 31
  3. Constituição Dogmática Dei Verbum, 18 de novembro de 1965, n. 9.
  4. Giovanni Caprile, SJ, 5 de fevereiro de 1966, citado em Vaticano II – Divina Revelação, t.2, Cerf, col. Unam sanctam 70b, Paris 1968, p.674.