Em entrevista concedida ao Distrito Italiano da Fraternidade São Pio X e publicada em 11 de agosto de 2026, o Padre Daniele Di Sorco aborda a acusação de cisma feita contra a FSSPX e explica a distinção entre desobediência a um ato específico de autoridade e recusa da própria autoridade.
Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est
FSSPX Itália — A plena comunhão com a Igreja Católica é tradicionalmente descrita por meio de três vínculos fundamentais: a profissão da mesma fé, a comunhão nos sacramentos e a comunhão no governo da Igreja, ou seja, com o Papa e os bispos em comunhão com ele.
A Fraternidade São Pio X é frequentemente acusada de se encontrar em situação de cisma porque, ao sagrar bispos sem mandato pontifício, teria rejeitado a autoridade do Papa, rompendo assim um desses três laços.
Mas será realmente correto equiparar a desobediência a um ato específico da autoridade à recusa da própria autoridade? Do ponto de vista teológico e canônico, como a Fraternidade explica sua posição?
Padre Daniele di Sorco — Antes de mais nada, é necessário um esclarecimento importante. Falar de “plena comunhão” ou “comunhão não plena ” já significa aderir à eclesiologia do Vaticano II, segundo a qual alguém pode pertencer à Igreja de diferentes maneiras: plenamente, não plenamente, ou mesmo não pertencer a ela de forma alguma.
O assunto seria muito extenso aqui, e não desejamos nos aprofundar nele. Mas, tradicionalmente, estamos falando de estar em comunhão com a Igreja ou não estar em comunhão com a Igreja. Não existe meio-termo. Ou você é católico e faz parte da Igreja, ou não faz. Não existe uma espécie de limbo em que você faz parte da Igreja até certo ponto.
É verdade que, para pertencer à Igreja Católica, é necessário professar a mesma fé, participar, ou ao menos estar disposto a participar, dos sacramentos católicos e, finalmente, submeter-se aos pastores legítimos. É precisamente na formulação deste último elo — a submissão aos pastores legítimos — que encontramos a solução para o problema do cisma.
Quem é um cismático? Um cismático é alguém que não se submete ao Romano Pontífice. Mas, como afirmam muitos teólogos importantes, por exemplo, o cardeal Caetano ou Torquemada, e de forma mais geral todos os grandes eclesiologistas do passado, há uma diferença entre submissão e obediência.
Ser desobediente ao Papa, mesmo que essa desobediência seja obstinada, não significa necessariamente ser cismático. São duas coisas muito diferentes.
Sobre este assunto, o Cardeal Caetano faz uma distinção importante. Ele diz que se pode desobedecer ao Papa por três razões.
Pode-se desobedecer porque se recusa, precisamente, submeter-se à autoridade do Papa: reconhece-se teoricamente que o Papa é seu superior, mas, na prática, recusa-se reconhecê-lo como superior. Nesse caso, há cisma.
Mas esse não é o caso da Fraternidade São Pio X, que está pronta para obedecer ao Papa quando, obviamente, ele não ordena coisas contrárias à fé, contrárias aos ensinamentos da Igreja ou ao Magistério.
Aliás, a Fraternidade obedece ao Papa de forma concreta em toda uma série de atos. Considere, por exemplo, a laicização de um sacerdote ou certas dispensas que somente o Papa pode conceder. A Fraternidade mantém contato contínuo com o Papa e com os bispos. Portanto, não é verdade que a Fraternidade jamais obedeça ao Sumo Pontífice.
Mas, em todo caso, é certo que a Fraternidade não se opõe, em princípio, à obediência ao Papa. Nesse caso, portanto, não há cisma.
Os outros dois casos considerados por Caetano são aqueles em que uma pessoa decide não obedecer ao Papa, seja porque considera que o Papa tem rancor injustificado contra ela, seja porque desaprova o que o Papa lhe ordenou. Caetano — e neste ponto é seguido por todos os outros teólogos, visto que essa doutrina se tornou comum — afirma que, nesses casos, não se pode falar em cisma.
O problema aqui reside na confusão entre desobediência ao Papa e falta de submissão a ele. Isso é facilmente compreensível. Se bastasse desobedecer ao Papa em um ponto para ser considerado cismático, bastaria, por exemplo, não respeitar um jejum ordenado pelo Papa, ou não respeitar uma prescrição litúrgica decretada pelo Papa por meio das rubricas do Missal Romano — como fazem 99% dos padres — para se tornar cismático. Isso é evidentemente falso.
É verdade, portanto, que em certos pontos a Fraternidade São Pio X desobedece ao Papa, e que o faz com justificativa, como veremos adiante. Mas não é verdade que a Fraternidade seja cismática.
O cisma é um delito bem específico, um pecado bem específico. Seu conceito tem sido claramente definido por toda a teologia há dois mil anos.
Não podemos alterar a definição de cisma apenas para incluir nela a Fraternidade São Pio X.
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