SEM ILUSÕES E NEM DISPERSÕES: COMO VIVER NA PRESENÇA DE DEUS

Viver o momento presente é o que o Bom Deus pede aos seus filhos, porque é a forma privilegiada de comungar com a presença eterna d’Ele.

Fonte: Le Seignadou – Tradução: Dominus Est

Uma disposição fundamental: receber

O momento presente é um instante no tempo. Mas o tempo nos é dado, não de uma só vez, mas gota a gota, a cada instante. Como, então, podemos viver o momento presente enquanto pensamos em Deus?

Antes de tudo, recebendo-o como um dom de Deus. Devemos, portanto, acolhê-lo, recebê-lo como um dom e desejar serenamente a ação que lhe está associado, sem sermos passivos, sem sofrermos nossa vida. Nossa alma poderá então oferecer mais facilmente a Deus as ações que realizamos, por meio de um ato voluntário de caridade. Ela deve primeiro ser receptiva, antes de se lançar em múltiplas atividades. Se nossa mente está ocupada com muitas outras coisas — julgamentos, murmurações, modos de pensar mais ou menos deficientes, etc. — ela não pode estar na atitude de quem recebe, de quem acolhe. A constante fixação no passado, a recusa em desapegar-se de certas coisas, as intermináveis projeções para o futuro, o medo do que pode acontecer nele — tudo isso esgota a pessoa. O Bom Deus nos dá a vida no presente, não para nos esgotar. Devemos, portanto, saber acolher este momento presente com humildade e gratidão.

Observa-se, com razão, que este é o sentido da oração do Evangelho e da Igreja. Na Oração do Pai Nosso, Nosso Senhor nos ensina a pedir “o pão nosso de cada dia“. E, por sua vez, a Igreja, nos ensina a rezar à Virgem Maria “agora“, pois esse é o termo usado na oração da Ave Maria. A nossa alma eleva-se até ela, “nunc“, ou seja,, a cada instante de nossas vidas. Além disso, a liturgia demonstra abundantemente essa atenção ao momento presente. Isso explica a grande quantidade de vezes que a Igreja escreve “hodie” em suas orações. E é também a razão pela qual ela celebra todos os dias a Santa Missa da mesma maneira, sem se deixar atrair pela rotina ou pela monotonia.

É importante lembrar também que o pecado original dispersou nossa alma, desordenando suas faculdades. Ela está, portanto, desunida e precisa de tempo para se reordenar a Deus. Isso não pode acontecer sem a graça de Deus, obtida pelo batismo e pelos outros sacramentos, e sem a oração. Podemos, portanto, multiplicar ao longo do dia invocações simples e fervorosas. Elas são uma maneira concreta de viver sob o olhar de Deus. Ajudam-nos a pensar nEle e a manter essa disposição de valorizar o tempo que Ele nos dá e usá-lo para cumprir a Sua santa vontade. Essas breves orações são como flechas de amor lançadas em direção ao Céu. Elas não interrompem o nosso trabalho, mas transformam a intenção dele. Permitem preencher o intervalo entre uma tarefa e outra, entre uma palavra e um silêncio.

Podemos escolhê-las e variá-las de acordo com a atitude espiritual que desejamos manter: amor, adoração, confiança. Para nos unirmos à vontade de Deus a cada momento, podemos repetir: “Jesus, eu te amo!” (invocação predileta de Santa Teresa do Menino Jesus) ou “Meu Deus e meu Tudo!” (São Francisco de Assis). Diante da preocupação, do medo ou de um imprevisto: “Jesus, eu confio em vós!” ou “Senhor, seja feita a vossa vontade“. Para santificar o trabalho ou uma ação que está começando, podemos dizer: “Tudo para a maior glória de Deus!” (Santo Inácio de Loyola) ou, mais simplesmente: “Por vós, Jesus“. É fácil inserir essas invocações em momentos de transição ou esforço. Ao iniciar uma tarefa, ou antes de atender o telefone, começar um relatório ou lavar a louça, oferecemos esse trabalho a Deus, nosso Pai: “Por amor a vós“. Em momentos de agitação ou tentação,ou diante de uma contrariedade ou de um pensamento mau, confiamos-nos à misericórdia de Deus: “Meu Jesus, tende piedade!” Multiplicando estas invocações simples e fervorosas, concretizamos a nossa atenção a Deus e fazemos de toda a nossa vida um ato de adoração, transformando o tempo recebido numa dádiva a Deus.

O Pai Nosso, de James Tissot, entre 1886 e 1894.

Remover obstáculos

Devemos também eliminar tudo o que nos impede de viver o momento presente. Pois, se a nossa mente estiver sobrecarregada, não poderá ser receptiva. Os obstáculos são inúmeros. Incluem não apenas as nossas preocupações e medos, mas também distrações incessantes, raciocínio falho, julgamento constante, más tendências e hábitos, e padrões mentais falsos que nos impedem de ver o presente como ele é, ou ainda o facto de pensar em várias coisas ao mesmo tempo, os nossos planos compulsivos ou a nossa tendência para fugir para o imaginário, etc. Por fim, pode incluir nossas formas de agir, às vezes puramente passivas, compostas unicamente por hábitos, instintos, impulsividade ou mesmo cansaço. Tudo isso dispersa nossa atenção e esgota nosso corpo e nossa alma. Portanto, é importante não nos determos constantemente no passado, lembrando-nos do que possa ter nos prejudicado.

O Paraíso, Jan Bruegel Le Jeune, 1620.

As telas que criam uma barreira

É importante também abraçar a simplicidade e não viver sob o olhar dos outros. Dar demasiada importância a isso nos impede de ter o foco necessário para realizar bem nossas tarefas. A paz de espírito se perde se agirmos unicamente para a aprovação alheia, buscando constantemente por sua aprovação ou procurando se tranquilizar por meio da aprovação dos demais.

Também é urgente restringir ou cortar os meios audiovisuais que nos bombardeiam com exigências excessivas. Note-se que esses dispositivos apelam apenas a dois dos nossos sentidos: a visão e a audição. Ao fazê-lo, empobrecem o resto do nosso ser e desequilibram as nossas capacidades cognitivas. Ver, sentir ou aprender sobre qualquer coisa através da lente de uma tela não nos ajuda a perceber a verdadeira realidade daqueles que nos rodeiam, nem nos permite julgá-los com justiça. As telas, e o que nelas é dito, desconectam-nos da realidade mais do que percebemos e roubam a paz das nossas almas.

O perigo espiritual das telas reside, sobretudo, nessa rápida sucessão que nos aprisiona no anedótico. Elas criam uma espécie de presença simulada. A tela nos dá a ilusão de estarmos presentes, enquanto nos mantém em outro lugar. Ao fragmentar nossa atenção, ela nos afasta do silêncio necessário para ouvir a Deus e nos impede de ter uma presença genuína para com nós mesmos e com os outros. A nossa atenção é constantemente saturada por esses estímulos breves e constantes. Isso nos torna fundamentalmente indisponíveis para Deus, para a nossa própria vida espiritual e para o apelo do próximo.

É impressionante observar como nossas mentes agora imitam essa tecnologia: muitas vezes vivemos em um estado de “rolagem interna“, deixando nossos pensamentos passarem como imagens em uma tela, sem nunca nos fixarmos em nada. Essa instabilidade, seja digital ou mental, na verdade mascara uma fuga ou uma evitação da realidade. Para reencontrar a vida espiritual, precisamos de parar de fugir do momento presente e aceitar parar, pois é na estabilidade do momento presente que podemos receber a graça de Deus.

Portanto, permitamo-nos momentos de descanso, especialmente da tecnologia digital. Como em qualquer outra atividade humana, é prudente estabelecer regras para o uso de dispositivos digitais e celulares. É assim que evitamos carregá-los conosco constantemente, definimos horários específicos para verificar nossas mensagens e determinamos o que precisamos fazer com esses aparelhos para não nos vermos rolando a tela infinitamente, enquanto as horas de nossas vidas passam sem sentido.

Estar presente naquilo que se está presente no que fazemos

Paralelamente a esse necessário desapego, devemos ensinar nossa alma a aceitar a realidade como ela se apresenta ao nosso redor e dentro de nós. Que ela esteja atenta à maneira como recebe o momento presente e à maneira como vive cada um dos acontecimentos que compõem o seu dia.

Cristo na casa de Marta e Maria, Jan Bruegel e Rubens, 1628.

Antes de se dedicar totalmente ao que faz, a alma deve aprender a se dedicar totalmente ao que recebe. Não se pode fazer duas coisas ao mesmo tempo. O nosso corpo e a nossa mente não podem, ao mesmo tempo, receber as informações que vêm do mundo que nos rodeia e agir em todas as direções simultaneamente. A sabedoria dos antigos expressava isso sucintamente: “Age quod agis“. Estar inteiramente presente — corpo, alma, espírito, imaginação — onde se deve estar; e fazer o que se deve fazer com atenção, mas sem tensão.

De fato, concentrar-se é uma decisão da vontade que unifica as forças do espírito num único ponto. Essa unificação não é cansativa, ao contrário da dispersão que evita. A concentração é, antes, uma reunião de todas as nossas faculdades em um único ato. Ela é alcançada com flexibilidade da mente e dos sentidos, não com rigidez e tensão. Isso é bem conhecido nos esportes de combate: um corpo flexível e treinado absorve melhor os golpes e sente menos dor. Por outro lado, um corpo rígido absorve muito mal os golpes e se lesiona com facilidade.

São Bento, pintura mural no mosteiro de Subiaco.

Existe em nós uma faculdade para viver o momento presente: os nossos sentidos. Devemos, portanto, exercitá-los. Isso só pode ser feito com uma certa lentidão e sem emitir o menor pensamento, pois precisamos sentir a sua ação. Que os olhos se esforcem para ver, para discernir as diferentes cores e não apenas as formas dos objetos. Que os ouvidos se esforcem para perceber e distinguir vários sons. O mesmo vale para o paladar e o olfato.

Mas, acima de tudo, é o sentido do tato que importa aqui. É ele que nos situa no espaço e no tempo. É também, por excelência, o sentido do equilíbrio. Como podemos usá-lo adequadamente se não o sentimos, se não o usamos de acordo com suas próprias leis?

Como podemos exercitar-nos nisso? A resposta está em desacelerar as nossas ações. Devemos reservar tempo para fazer as coisas devagar, sem pressa. Isso se assemelha, em certa medida, à tradição beneditina de Ora et Labora (oração e trabalho). A Regra de São Bento nos ensina a realizar cada tarefa diária — seja rezar, cozinhar, cuidar do jardim ou estudar — com plena atenção tanto à ação quanto ao pensamento. Não fazer nada com pressa, mas realizar tudo como se estivéssemos na presença de Cristo.“Vigiem em todos os momentos as ações de sua vida. Em todo lugar, reconheçam-se com certeza que estão sob o olhar de Deus.” (Regra, Capítulo 4, n.º 48-49). 

Assim, exercitar nossos sentidos lentamente significa rejeitar distrações e permitir-nos santificar o momento presente. Uma simples caminhada, feita em paz na natureza, torna-se então duplamente benéfica: traz-nos de volta à realidade e acalma a alma e, ao ancorar-nos no presente, torna-nos disponíveis para a oração. Em última análise, viver o momento presente é o que Deus pede aos seus filhos, porque é o meio privilegiado de comunhão com a presença eterna de Deus. A salvação de nossas almas acontece neste momento presente: “Eu te ouvi no tempo aceitável, e te ajudei no dia da salvação.” (2 Cor 6, 2) 

Que os olhos de nossa alma estejam sempre fixos em Deus, em Cristo Jesus e em Maria, Nossa Senhora. Este simples olhar para Deus proporciona o recolhimento habitual do nosso coração e permite-lhe viver na paz e na serenidade, que não provêm da ausência de dificuldades, mas da caridade divina.

Pe. François Delmotte, FSSPX