
“Não queirais pois andar (demasiadamente) inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia de amanhã cuidará de si; a cada dia basta o seu cuidado.”(Mt 6, 34)
Fonte: Le Seignadou – Tradução: Dominus Est
Estas palavras são bem conhecidas. O que é menos conhecido é que elas são de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, infelizmente, não são as mais bem compreendidas. Seria essa uma sentença da filosofia epicurista ou, pelo contrário, de uma máxima do Evangelho? Será que Jesus pretende incitar seus discípulos a uma vida despreocupada? Será que ele se esquece da necessidade de um mínimo de prevenção? O paradoxo é reforçado quando sabemos que é o mesmo Deus que nos ensina a agir com sabedoria e a organizar nossas vidas para não sermos pegos desprevenidos: “Por isso estai vós também preparados, porque não sabeis a que hora virá o Filho do homem.” (Mt 24, 44). Por um lado, Cristo condena a preocupação e a ansiedade estéreis que nos paralisam. Por outro, ele nos encoraja à prudência e à vigilância para viver sob o olhar de Deus. Então, devemos viver na despreocupação do momento presente ou devemos viver em vigilância constante?
Viver no presente de Deus
A verdadeira vida está no presente. É por isso que devemos viver um dia de cada vez, como Nosso Senhor nos recomenda.
A principal razão para isso é a existência de Deus. O que isso significa? Deus existe, certamente. Mas o que devemos considerar cuidadosamente é que essa existência ocorre em um presente eterno. Pois, diferentemente de sua criação, Deus não está no tempo. Ele está na eternidade. E é nesse presente eterno que Ele pensa em nós e nos cria a cada instante, mantendo-nos, assim, vivos.

Devemos, então, fazer um ato de fé nessa criação de Deus, uma criação não apenas de um momento fugaz, do passado, mas de cada momento, de cada dia. A fé nos permite reconhecer e amar essa contínua dependência que temos em relação a Deus. Não há necessidade de nos determos no passado e no futuro que não existe ou já não existe mais. Devemos pensar em Deus neste momento presente que nos permite viver com Ele.
Nesse momento, a alma da fé pode compreender o preceito da vigilância. “Vigiai e orai”, repete-nos incessantemente Nosso Senhor (Mt 26,41). A vigilância deve centrar-se no facto de estarmos unidos a Deus no momento presente. É assim que conseguiremos não deixar nossos pensamentos se perderem no passado ou no futuro, nem deixar nosso coração se perder em ansiedades, medos, projetos vãos ou imaginações fúteis. A virtude da fé nos permite sempre descobrir o rosto de Cristo e nos unir a ele, independentemente dos acontecimentos sob os quais ele aparece.

A agonia de Jesus, Giovanni Bellini, por volta de 1460
Vivendo no presente com Deus, nosso Pai.
Outro motivo nos convence a viver o momento presente com Deus: Ele é nosso Pai.
Ele repete isso incessantemente no Evangelho, especialmente no Sermão da Montanha: “porque um só é o vosso Pai, que está nos céus.” (Mt 23, 9). Se Deus é nosso Pai, então ele cuida de nós. Ele é a Providência. Ele zela por cada uma de nossas necessidades: “Não andeis (demasiadamente) inquietos nem com o que (vos é preciso) para alimentar a vossa vida, nem com o que (vos é preciso) para vestir o vosso corpo. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e contudo vosso Pai celeste as elas? E qual de vós, por muito que pense, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam. E digo-vos todavia que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu jamais como um deles. Se pois Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram (com excessivo cuidado) todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas.” (Mt 6, 25-32)

O Retorno do Filho Pródigo, Rembrandt, por volta de 1668
Esta divina Providência vela por nós, não de forma geral e distante, mas sim a cada instante. Depois da admiração e do amor a Deus que esta bondade desperta na alma, é sobretudo um imenso ato de esperança que deve brotar do coração cristão. Faz-nos confiar unicamente na graça de Deus e na sua benevolência para conosco. Compreendemos, então, a confiança inabalável em Deus que habita nas almas fiéis. Mesmo em meio às nossas maiores dificuldades, o Bom Deus jamais nos abandonará. Isso nos encoraja a sermos ativos: confiar em Deus não é passividade nem indiferença. Torna-nos plenamente ativos e responsáveis pelas nossas ações, entregando-as, confiando-as a Deus.
Viver o momento presente da graça.
A graça santificadora é a terceira razão pela qual precisamos viver na presença de Deus.
De fato, é toda a Santíssima Trindade que, pela graça, verdadeiramente habita em nossa alma. Deus nos torna, assim, “participantes de sua divindade”, nas palavras de São Pedro (2 Pd 1, 4). A partir de então, desde o batismo, e enquanto vivermos em estado de graça — isto é, enquanto não tivermos perdido este dom divino por causa do pecado mortal — as Três Pessoas Divinas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, verdadeiramente habitam em nossa alma. E “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8, 31).
Esta grande e magnífica verdade da nossa fé deve ser meditada e constantemente lembrada. Já não somos apenas nós que vivemos, mas Cristo em nós. Necessariamente, a nossa alma será impelida a praticar um ato de caridade, este amor sobrenatural que nos faz amar a Deus. E aqui, mais uma vez, devemos estar atentos: um ato de amor nunca se dirige apenas à realidade presente. Mesmo que o objeto do nosso amor seja passado, continuamos a amá-lo porque ele está presente em nós, através da sua imagem ou memória. Esta é a razão suprema pela qual devemos viver com Deus no momento presente: estar unidos a Ele pela fé e amá-Lo realmente. O “Eu te amo” é dito apenas à pessoa que está diante de nós, e é dito apenas no momento presente…

A Ressurreição, Piero délia Francesca, 1463–1465.
Além disso, essa presença divina também nos oferece a oportunidade de praticar um ato de caridade para com o nosso próximo. De fato, só podemos amar verdadeiramente o nosso próximo — ajudá-lo com misericórdia ou suportá-lo com paciência — no momento presente, sem nos lembrarmos do que possa ter acontecido no passado, nem nos preocuparmos com o que possa acontecer no futuro. O momento presente é o ponto de contato com a vontade de Deus; é o momento em que ele se manifesta. É também nesse momento que encontramos a presença de Deus: estamos onde Ele nos quer e nos espera. A alma, então, domina as coisas, com uma soberana indiferença de julgamento, indiferença no sentido positivo do termo: não são os acontecimentos que ditam a minha vida, mas a minha caridade que se fortalece a partir deles. Isso é estar verdadeiramente apegado à vontade de Deus e desapegado da nossa própria vontade falível. A sucessão desses momentos oferecidos a Deus constitui um instante perpétuo e já prenuncia a eternidade. Santa Teresa do Menino Jesus disse: “Vós sabeis, ó meu Deus! Para amar-Vos na terra, só me resta o hoje.” Em última análise, não é esta a melhor maneira de cumprir o mandamento: “Permanecei no meu amor” (Jo 15, 9)?
Pe. François Delmotte, FSSPX