DA NOSTRA AETATE A BENTO XVI: A DUALIDADE IMPOSSÍVEL – PELO PE. JEAN-MICHEL GLEIZE

Cristianismo e judaísmo pós-cristão: a hipótese de “dois caminhos paralelos” pode substituir a doutrina tradicional de uma oposição irreconciliável?

Fonte: Courrier de Rome n° 682 – Tradução: Dominus Est

Pelo Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX

Um novo vencedor

1. O Prêmio Cardeal Lustiger é um dos principais prêmios literários concedidos pela Academia Francesa. Criado em 2012, premia de dois em dois anos “uma obra de reflexão que responda aos interesses do Cardeal Jean-Marie Lustiger e que se debruce sobre as questões espirituais de vários fenômenos culturais, sociais e históricos” (1). O vencedor recebe 3.000 euros. O primeiro a receber este prêmio foi o filósofo Jean-Louis Chrétien (1952-2019), precisamente no ano em que foi criado.  Em 2020 foi sucedido pelo filósofo judeu convertido ao catolicismo, Fabrice Hadjadj. No ano passado, durante a sessão pública anual de 5 de dezembro de 2024, o Prêmio foi entregue ao Revmo. Pe. Jean-Miguel Garrigues, por todo o seu trabalho e, em especial, por sua última obra A impossível Substituição. Judeus e Cristãos (Iº – IIIº séculos), publicado por Les Belles Lettres, em 2023(2).

2. No discurso que proferiu em dezembro passado, por ocasião da cerimônia de entrega dos prêmios da Academia (3), Pascal Ory (4) recordou que, aos olhos de Jean-Luc Marion (ele próprio discípulo do Cardeal Jean-Marie Lustiger), o Pe. Garrigues era “uma figura eminente da teologia católica na França” (5), sendo reconhecido como tal “pela sua então muito inovadora tese sobre Máximo, o Confessor”. Professor em Notre-Dame de Paris e, por diversas vezes, consultor em Roma, “destacou-se por dois grandes eixos de pesquisa e reflexão: primeiro, a reconciliação entre as tradições teológicas latinas e orientais, contribuindo assim para um documento romano sobre o tema. Segundo – e talvez acima de tudo – a retificação da relação entre a eleição do povo judeu e a eleição da Igreja, na linha direta da declaração Nostra Aetate, bem como das obras de Joseph Ratzinger e Jean-Marie Lustiger“. Em seu livro mais recente, “A impossível substituição,” ele mostra que a promessa de salvação universal feita à Igreja não anula nem ofusca a aliança original de Israel, mas que ambas se convergem e se confirmam mutuamente“.

Da substituição à ruptura: releitura ou manipulação?

3. A ideia central que orienta toda a reflexão do Pe. Garrigues está perfeitamente sintetizada na introdução do seu livro: “O objetivo desta investigação histórico-teológica é examinar uma ruptura religiosa ocorrida há quase 20 séculos no povo judeu e que deu origem ao que desde então se chamou cristianismo; uma ruptura que permanece” (6). O título da obra, então, deixa claro: a realidade histórica seria a de uma “ruptura” e não poderia, em caso algum, ser a de uma “substituição”. Analisemos mais profundamente.

A doutrina tradicional, na esteira de São Paulo

“Pois, mudado o sacerdocio, é necessario que mude tambem a lei.” (Hb 7, 12).

4. Os dados tradicionais da teologia católica (7) são, no entanto, claros e comprovados – pelo menos foram durante 20 séculos, até ao momento em que o Concílio Vaticano II inaugurou a sua revisão quase completa, estabelecendo novos princípios na declaração Nostra aetate, dos quais João Paulo II tiraria consequências extensas.

5. Esclareçamos, para começar, que o cristianismo, a religião do Novo Testamento, não é uma religião diferente da religião do Antigo Testamento. Como explica Santo Tomás (8), de fato, não há, entre a Lei Antiga e a Lei Nova, a diferença que existe entre duas leis essencialmente diversas: é a mesma lei, que se realiza apenas de modo ainda imperfeito e provisório no Antigo Testamento e de modo perfeito e definitivo no Novo.

“Há duas maneiras de distinguir as coisas: 1°) como completamente diferentes, porque são ordenadas a fins diferentes; 2°) porque uma é ordenada ao fim de forma mais direta e próxima do que a outra (por exemplo: no mesmo Estado, a lei imposta a pessoas maduras, já capazes de realizar o que é exigido pelo bem comum, é diferente da lei para a educação das crianças, que devem ser treinadas para desempenhar as ações dos adultos no futuro). A Nova Lei não difere da Antiga Lei no primeiro sentido, sendo o objetivo de ambas únicas: ordenar os homens a Deus. No entanto, distingue-se da Lei Antiga no segundo sentido, pois a Lei Antiga é como o pedagogo das crianças, segundo São Paulo, enquanto a Lei Nova é uma Lei de perfeição porque é uma Lei de caridade que é um “vínculo de perfeição” (Col. III, 14), isto é, um compêndio ou soma de todas as perfeições.”

6. O cristianismo não é, portanto, fruto de uma ruptura – ou seja, de um cisma – com o povo eleito da antiga aliança. Ele é, ao contrário, o resultado normal e necessário deste povo e desta aliança. Isto foi, de fato, estabelecido por Deus quando Abraão recebeu a promessa de uma descendência [9]. O objeto da promessa não é outro senão o cristianismo, já que a descendência prometida a Abraão não é outra senão a do Corpo místico de Cristo, em sua cabeça e em seus membros. Esta explicação encontra-se no capítulo III da Epístola de São Paulo aos Gálatas, no versículo 16, e Santo Agostinho (10) dá a interpretação autêntica quando diz que a verdadeira descendência de Abraão não é apenas Cristo, mas também a descendência espiritual daqueles que têm fé em Cristo, enquanto os “judeus” que não são cristãos, não são descendentes de Abraão (11). A vinda de Cristo constitui o cumprimento da promessa e, portanto, implica a cessação da antiga aliança e o início da nova, ou, mais exatamente, a substituição da Antiga pela Nova Aliança, a substituição da religião de Abraão e Moisés pela religião cristã, a substituição do povo de Israel pela Igreja, a substituição da religião do Antigo Testamento pelo cristianismo. O Concílio Ecumênico de Florença declara que “depois da promulgação do Evangelho, a Igreja afirma que as cerimônias da Lei antiga não podem ser respeitadas sem a aniquilação da salvação eterna” (12).

7. Esta ideia de “substituição” apenas traduz, da forma mais exata possível, a “translatio” de que fala São Paulo na Epístola aos Hebreus. No versículo 12 do capítulo VII, o apóstolo afirma que a mudança da aliança (ou Lei) é consequência da mudança do sacerdócio e do sacrifício: “ Pois, mudado o sacerdócio, e necessário que mude também a lei.” No versículo 18 do mesmo capítulo ele diz novamente que essa mudança se explica pelo fato de que o sacerdócio da Antiga Lei já não tem mais utilidade. Incapaz de santificar por si mesmo, ele só poderia dar a conhecer antecipadamente, retratando o verdadeiro sacerdócio, que teria ele próprio o poder de santificar. Quando isso se realiza, o antigo sacerdócio é revogado: “Assim é abolido o mandamento precedente (relativo ao sacerdocio levitico), por causa da sua fraqueza e inutilidade”. Por fim, no versículo 13 do capítulo VIII, São Paulo diz que as expressões usadas na Revelação designam claramente esta ab-rogação. A aliança de Moisés é chamada de “antiga” aliança, e a aliança do Evangelho é chamada de “nova”. Ora, a relação entre o antigo e o novo é a relação entre o que é revogado e o que o substitui ou – precisamente – é substituído por ele: “Falando de alianca nova, Deus declarou antiquada a primeira. Ora o que envelhece e se torna antiquado, está prestes a perecer.”

8. Não há, portanto, qualquer ruptura, deste ponto de vista da conclusão normal da antiga aliança, que foi desejada no plano de Deus apenas para conduzir progressivamente o povo eleito à realização da promessa e, também, para preparar, por meio do povo eleito, o resto da humanidade para a vinda do Salvador, objeto desta promessa. Uma vez cunprida a promessa, a antiga aliança não tinha mais razão de existir: ela teve que dar lugar a uma nova aliança, estabelecida por Deus com Cristo. A nova Aliança substituiu, portanto, a antiga.

A doutrina tradicional, na esteira do Evangelho

“Todo o povo respondeu: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos fllhos.” (Mateus, XXVII, 25)

9. Houve, porém, uma verdadeira ruptura, e ela ocorreu quando todo o povo judeu, pressionado por seus líderes, clamou diante de Pôncio Pilatos: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27, 25). A exegese da Tradição é unânime, pelo menos até ao Vaticano II (13) como atesta o estudo de Denise Judant, publicado em 1969 pelas Éditions du Cèdre, sob o título: Judaísmo e Cristianismo – Dossiê Patrístico. A expressão relatada por São Mateus refere-se a uma recusa coletiva de reconhecer Jesus Cristo como o Messias anunciado nas Escrituras, ou seja, como Aquele que devia cumprir, na Sua Pessoa e na Igreja por Ele fundada, a promessa feita a Abraão. Esta recusa é a dos judeus do tempo de Jesus Cristo e compromete todos aqueles que desejam reconhecer neles, pelo próprio fato de que continuarão a manter, contra a vontade de Deus, a Antiga Aliança que agora se tornou não apenas obsoleta, mas também mortal.

10. Há, portanto, de fato, uma ruptura e um cisma, mas não é uma ruptura que daria origem ao cristianismo, é uma laceração que dá origem ao judaísmo pós-cristão ou ao judaísmo puro e simples, uma nova religião que nasce dessa recusa em aceitar a realização da antiga Aliança na nova. Uma religião falsa, porque, continuando a observar os ritos da Lei antiga, cujo simbolismo considera o mistério de Cristo como futuro, professa que o Salvador prometido por Deus a Abraão ainda não veio.

11. “É verdade e é preciso esclarecer”, observa corretamente Denise Judant, “que há uma continuidade entre o judaísmo do Antigo Testamento e o cristianismo. Mas também há uma antinomia entre este e o judaísmo pós-cristão. De fato, o Antigo Testamento está voltado para o Cristo anunciado pelos profetas, enquanto o judaísmo pós-cristão nega explicitamente não apenas a divindade, mas também o messianismo de Jesus. E é nesta medida que põe em causa o próprio fundamento da fé cristã” (14).

A nova teologia do Pe. Garrigues, na esteira de Bento XVI

12. A nova teologia do Pe. Garrigues pretende demonstrar a impossibilidade desta substituição. O que é interessante na sua demonstração é que ela procura estar em linha com o pensamento do Papa Emérito Bento XVI, num estudo publicado em 2018 (15).

13. Para que a explicação teológica da substituição fosse abandonada como sendo impossível, era necessário excluir a ideia de reprovação divina que pesava sobre os judeus por causa de sua incredulidade ou por aquilo que Jesus sofreu durante sua Paixão. Foi o que fez o texto da Declaração Nostra aetate, em seu número 4: “E embora a Igreja seja o novo Povo de Deus, nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por Deus e malditos, como se tal coisa se concluísse da Sagrada Escritura“. O Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo Papa João Paulo II em 1992, confirma este ensinamento em seu n° 597: “Menos ainda é possível estender a responsabilidade ao conjunto dos judeus no espaço e no tempo, a partir do grito do povo: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos” (Mt 27, 25), que é uma fórmula de ratificação.” No dia 12 de março de 2000, por ocasião do Grande Jubileu, o Papa João Paulo II fez um ato de arrependimento para com os judeus, falando deles como o “povo da Aliança e das bênçãos” (16), declaração já acompanhada pela reiterada afirmação de que a antiga Aliança nunca havia sido revogada(17).

14. Alguns foram tentados a ver, nesta renúncia pós-conciliar à doutrina da substituição, a renúncia à universalidade da mediação redentora de Cristo, no contexto de um relativismo religioso que veria no catolicismo e no judaísmo contemporâneo dois caminhos paralelos de salvação. Mas em 6 de agosto do mesmo ano 2000, a Declaração Dominus Jesus veio desiludir os defensores dessa interpretação. Em seu número 14, João Paulo II declara de fato: “Deve, portanto, crer-se firmemente como verdade de fé católica que a vontade salvífica universal de Deus Uno e Trino é oferecida e realizada de uma vez para sempre no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus”.

15. Entre, por um lado, a permanência da vocação irrevogável da eleição de Israel, mesmo na sua parte endurecida, e, por outro, a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Cristo, “existe uma contradição e, portanto, um impasse teórico, uma dupla linguagem diplomática ou um aparente paradoxo?” (18). É aqui que a reflexão do Papa Emérito se esforça para reconciliar o irreconciliável. Contudo, observa o Pe. Garrigues, Bento XVI quis mostrar no seu artigo que a doutrina da substituição “continha, no entanto, elementos válidos” (19) e isto porque via claramente “os riscos assustadores que representa para a Igreja a necessária retificação magistral de uma opinião teológica tão universalmente difundida durante séculos, assumida por tantos Padres, Doutores e Santos” (20) . Aqui, como noutros lugares, Joseph Ratzinger continua a ser o homem de uma obsessiva “hermenêutica da continuidade“. Uma obsessão, se é que alguma vez houve uma, com uma impossível quadratura do círculo.

16. O Papa Emérito reconhece, como que por uma disposição da Providência divina, a oposição que separou “o Israel rabínico e a Igreja Católica” e reconhece um significado divino na constituição de judeus e cristãos como duas essências opostas: “Tocamos aqui“, diz ele, “na essência do cristianismo e na essência do judaísmo que, por sua vez, desenvolveu uma resposta a esses acontecimentos no Talmud e na Mishna. Como a aliança pode ser vivida hoje? Esta é a questão que dividiu a realidade concreta do Antigo Testamento em dois caminhos, o judaísmo e o cristianismo.” Aqui, comenta o Pe. Garrigues comenta que esta é a “conhecida posição” de Bento XVI, que vê nos judeus e nos cristãos “duas essências religiosas, ambas provenientes do Antigo Testamento“. Já não se trata, portanto, de uma ruptura ou cisma, mas uma dualidade de caminhos, pois dualidades de Redenção e salvação, dualidade de realização.

17. Pois é disso que se trata. Para o crente em Jesus, há um aspecto da salvação que é realizado, que é a reconciliação fundamental dos homens com Deus. Foi por ela que Jesus veio. Mas para o judeu há um aspecto da salvação e da redenção que ainda não foi realizado, e é aquilo que São Pedro chama em seu discurso de Pentecostes de “a restauração de tudo o que Deus falou pela boca dos seus santos profetas” (At 3, 21). Restauração aqui significa salvação como cumprimento final do plano de Deus, não apenas nas almas, mas também nos corpos, na sociedade humana, no cosmos, não apenas na Igreja, mas no povo de Israel, que verá cumpridas todas as promessas messiânicas das quais são portadores. Tanto o cristão quanto o judeu serão então renovados e reconciliados ao entrarem, por meio da salvação completa, na era vindoura. Ao afirmar esta dimensão de incompletude da salvação, que faz Paulo dizer que somos “salvos na esperança” (Rm 8, 24), os cristãos podem compreender melhor o que os judeus enfrentam fundamentalmente em relação a Jesus, cujo messianismo não realiza a renovação visível de todas as coisas, ou pelo menos das relações humanas, prometida pelos profetas para a era messiânica. Isto é expresso na fórmula muito marcante de Gershom Sholem (21) sobre a “não redenção do mundo” (22). Seria, portanto, retomando a “onipresente tensão escatológica no Novo Testamento” (23) que os cristãos poderiam unir-se aos judeus na esperança de uma salvação que ainda é aguardada na sua plenitude porque ainda está em vias de chegar. A realidade concreta do Antigo Testamento, dividida em dois caminhos, o judaísmo e o cristianismo, poderia aqui encontrar sua unidade na dualidade.

Caetano e o senso de mistério

18. A explicação de Bento XVI, repensada pelo Pe. Garrigues, baseia-se, na realidade, em um equívoco, rapidamente dissipado graças ao recurso à doutrina teológica do Doutor Comum da Igreja, que explica as razões profundas da atitude dos judeus durante a Paixão. Eles eram, de fato, culpados da morte de Cristo, e é para dar um relato exato dessa culpa que, na questão 47 da Tertia pars da Summa Theologica, Santo Tomás de Aquino pergunta se os judeus estavam cientes da verdadeira identidade de Jesus de Nazaré. Era ele o Cristo, o Messias predito nas Escrituras? Ele era o Filho de Deus? Eles sabiam disso ou tinham meios de saber e é por isso que sua ignorância, se é que havia alguma, permanecia vencível e afetada. Longe de desculpá-los, ele os acusa. E é aqui que o comentário de Caetano nos fornece todos os esclarecimentos necessários para dissipar a falsa explicação de Bento XVI.

19. “Os judeus, sem dúvida, não reconheceram que tudo o que havia sido dito sobre o Messias se cumpriu em Jesus de Nazaré. De fato, os profetas haviam predito que ele seria rei de Israel, que redimiria Israel do cativeiro, etc. Por isso os magos perguntaram a Herodes: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”. E embora agora saibamos que isso deve ser entendido temporalmente apenas no segundo advento de Cristo, e que deve ser entendido espiritualmente no momento do primeiro, antes da Ressurreição de Cristo essa distinção não era conhecida, como é demonstrado pelo fato de que os próprios Apóstolos, instruídos pelo Senhor, não a conheciam. Com efeito, diz-se em Lc 28, 34 que, quando o Senhor anunciou sua morte e sua ressurreição, “eles não compreenderam nada disso […] É por isso que, ignorando-se esta distinção dos dois adventos de Cristo, os príncipes dos judeus, cegos pela malícia de seus sentimentos para com Cristo, rejeitaram os outros testemunhos tirados da Escritura, dos sinais e da doutrina como insuficientes, enquanto eles eram muito hipócritas e descreviam e prometiam a segunda vinda. Além disso, apesar de Cristo ser o rei de um reino ainda por vir, eles o acusaram diante de Pilatos de usurpar o título real, porque Jesus se autodenominava o Cristo; e assim eles finalmente obtiveram uma sentença de morte contra ele“(24). Em suma, os judeus rejeitaram Jesus porque não viram nele a realização de uma promessa que realmente dizia respeito à sua segunda vinda. Esta segunda (de salvação), finalmente concluída, esta restauração cósmica final de todas as coisas em Cristo, que ainda está por vir para o segundo advento, eles persistem em querer que ela se realize antes da Parusia, no curso da história, no primeiro advento do Messias, e é por isso que esta não-redenção do mundo, que a Igreja aceita junto a São Paulo, permanece sendo um escândalo para eles.

20. A explicação de Caetano fornece, assim, esclarecimentos interessantes sobre o mistério representado por esse judaísmo pervertido. O erro inicial deste — e que se manteve ao longo de todos os séculos — é não ter sabido reconhecer a distinção (ainda presente nas Escrituras) entre os dois adventos de Cristo: o primeiro, indiretamente temporal e diretamente espiritual; a segunda, diretamente espiritual e temporal ao mesmo tempo, reservada para o fim dos tempos. Isso os leva inexoravelmente a compreender mal o papel da Igreja e a verdadeira natureza do cristianismo, bem como a rejeitar uma ordem social na qual a Igreja e os Estados, embora unidos, permanecem distintos. Isso os leva a buscar um falso cristianismo com a concretização de um globalismo cripto-messiânico. A explicação de Caetano também tem o grande mérito de dar pleno sentido à resposta de Jesus a Caifás. Alegar a profecia de Daniel, 7, 13-14, não era apenas proclamar sua divindade. Era, sobretudo, para atestar o verdadeiro alcance do seu reino, cuja realização final permanece reservada à Parusia.

21. Longe de representar a divisão do Antigo Testamento em dois caminhos, a dualidade do judaísmo e do cristianismo é a de uma oposição irreconciliável, sendo a primeira, em sua essência, a recusa da segunda, a rejeição da realização da promessa, como querida por Deus e, por tudo isso, um verdadeiro anticristianismo fundamental. E é precisamente a doutrina teológica tradicional da substituição que sozinha pode explicar essa inimizade irreconciliável.

Notas:

  1. https://www.academie-francaise.fr/prix-du-cardinal-lustiger 
  2. Cf. https://www.youtube.com/live/rjarx8MdDxI, de 48:40 a 50:13.
  3. https://www.academie-francaise.fr/sites/academie-francaise.fr/files/5_discours_sur_les_prix_literaires_m.orypage__1_a_24.pdf 
  4. Nascido em 1948, Pascal Ory, professor de história e doutor em Estado, foi eleito para a Académie Française em 4 de março de 2021 e recebeu o título em 20 de outubro de 2022. Devemos a ele um notável estudo histórico sobre a Judeofobia (De la Haine du juif, Éditions Bouquins). Cf. https://fr.wikipedia.org/wiki/Pascal_Ory 
  5. Sua autobiografia foi publicada pela Presses de la Renaissance em 2007, sob o título Por caminhos estreitos. A jornada de um homem religioso em tempos incertos
  6. Garrigues, pág. 9
  7. Veja sobre este assunto o livro do Pe. Julio Meinvielle, O Judaísmo no Mistério da História , reeditado pelas Editions saint-Rémi, 2007 http://www.librairiefrancaise.fr/fr/home/2601-le-juif-dans-le-mystere-de-l-histoire-abbe-julio-meinvielle-9782845196575.html; Charles Journet, Destinos de Israel , Eglof, 1945; nosso livro Verdadeiro Israel e Falso Judaísmo , 2ª edição, Iris, 2023 https://editionsiris.com/products/vrai-israel-et-faux-judaisme; bem como as edições do Courrier de Rome de fevereiro de 2016, maio de 2024 e junho de 2024 
  8. Summa Theologica, 1a 2ae, questão 91, artigo 5. 
  9. Gn, XXII, 16–18 
  10. Santo Agostinho, Comentário à Epístola de São Paulo aos Gálatas, n.º 23 (sobre III, 15–18) em Migne Latin, t. XXXV, col. 2121
  11. Santo Agostinho, Comentário à Epístola de São Paulo aos Gálatas, n.º 28 (sobre III, 28–29) em Migne Latin, t. XXXV, col. 2125–2126
  12. Concílio de Florença, “Bula Cantate Domino” de 4 de fevereiro de 1442 (Decreto para os Jacobitas), DS 1348. 
  13. É apresentado pelos comentários do Pe. Lagrange, Pirot-Clamer, Cornelio, a Lapide
  14. Denise Judant, pág. 203.
  15. Joseph Ratzinger – Bento XVI, “Os dons e o chamado sem arrependimento. Sobre o artigo 4.º da Declaração Nostra aetate” in Communio, n.º 259, setembro-outubro de 2018, p. 123–145
  16. João Paulo II, “Oração universal durante a missa de 12 de março de 2000 pelo pedido de perdão” em Documentação Católica n.º 2223, p. 331
  17. Como exemplo único, cf. Português João Paulo II, “Discurso de 17 de novembro de 1980 à comunidade judaica de Mainz” em Documentação Católica n.º 1798, p. 1148: o judaísmo actual continua a ser “o povo de Deus da Antiga Aliança, uma Aliança que nunca foi denunciada
  18. Garrigues, pág. 209
  19. Garrigues, pág. 215.
  20. Garrigues, pág. 215.
  21. Gershom Sholem (1897–1982) foi um historiador e filósofo judeu, especialista em Cabala e misticismo judaico, nascido em Berlim e falecido em Jerusalém.
  22. Garrigues, pág. 212.
  23. Garrrigues, pág. 212.
  24. Caetano, ad locum, n° V