DOM LEFEBVRE E SHAKESPEARE

King Lear Casting Out His Daughter Cordelia, Richard Earlom (London 1743–1822 London)

Rei Lear expulsando sua filha Cordélia, de Richard Earlom (Londres, 1743–1822)

Por Andrew J. Clarendon

Fonte: Angelus Press – Tradução: Dominus Est

No livro Ideias Têm Consequências, Richard Weaver escreve: «É evidente que o domínio singular da língua, próprio do poeta, é o que lhe permite enxergar as potências latentes nas circunstâncias. Ninguém ensina melhor do que ele a causa e o efeito nos negócios humanos; […] os poetas são os mais rápidos a apreender a verdade necessária.» Quem lida com «o poder evocativo das palavras […] e a força poderosa do símbolo» não surpreende que ensine verdades profundas mesmo séculos depois da morte. No grau mais alto, a lição poética tem valor perene.

Tão grande é o poder da inspiração que o poeta chega a parecer profeta: pensa-se na famosa Quarta Écloga de Virgílio, dita messiânica porque se lê como anúncio da vinda de Cristo. Em inglês, o maior poeta é, naturalmente, Shakespeare, cujas peças, embora apresentem determinado enredo e determinadas personagens, exprimem temas universais.

As lições que transmitem aplicam-se, por isso, a outras situações e servem para compreender a causa e o efeito nos negócios humanos. Neste ano em que se celebra o cinquentenário da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, reler alguns temas da tragédia Rei Lear e da comédia Como Gostais é um modo poético e conatural de apreciar melhor a defesa da tradição e da ortodoxia feita por Dom Lefebvre.

A obra máxima do Bardo

Tida em geral como a sua obra máxima, a tragédia Rei Lear gira em torno de uma crise de autoridade: é o estudo de como as decisões erradas de quem detém o poder acarretam consequências desastrosas. Toda tragédia envolve um erro do herói trágico, um desvio que arrasta sofrimento profundo para o próprio herói, para os que lhe estão mais próximos e para a sociedade. Em Lear, o erro ocorre já na primeira cena: o rei resolve abdicar e partir o reino entre as três filhas conforme o grau de lisonja que cada uma lhe tributar. Quando a caçula, Cordélia — cujo nome evoca o «coração ideal» — recusa participar da farsa, Lear a deserdia com ira.

À medida que a cena avança, um só membro da corte ousa enfrentar o rei: o conde de Kent. As suas palavras oferecem o modelo da resistência leal à autoridade tresloucada, resistência no espírito de Dom Lefebvre. Já irritado com a recusa de Cordélia em lisonjeá-lo, Lear, ao ouvir Kent defendê-la, ameaça punir quem se interpuser às suas ações temerárias: «O arco está armado e retesado. Sai da frente da seta.» A resposta de Kent é a essência da verdadeira lealdade: «Seja Kent descortês quando Lear enlouquecer. Que pretendes fazer, velho? […] Com o melhor do teu juízo, refreia esta temeridade hedionda.»

Quando o rei, tão fixado na própria vontade, ameaça a vida de Kent, o nobre conde afirma a lealdade verdadeira: «Nunca tive a vida senão como peão a apostar contra os teus inimigos, nem temo perdê-la, sendo o teu bem-estar o motivo.» Diante da perda de tudo, Kent mostra que o único modo de realmente socorrer Lear é apontar-lhe o erro e instá-lo a mudar de rumo antes que algo irreparável se consuma. Enquanto Lear se enfurece, Kent sustenta o bem verdadeiro: «Mata o teu médico e paga o honorário à doença imunda […] Ou, enquanto puder clamar pela garganta, hei de dizer-te que fazes o mal.»

O resultado é o banimento de Kent sob pena de morte. Só depois de longo sofrimento Lear compreende que o conde a quem tinha por traidor era o súdito mais leal do reino. Mais ainda: embora Lear rejeite Kent, o súdito leal não rejeita o rei. Disfarçado, volta a juntar-se a Lear mais adiante, para fazer o que puder em favor do soberano. Num diálogo célebre, Kent diz a Lear que «há em teu semblante aquilo que eu de bom grado chamaria senhor… Autoridade.»

Kent é um dos maiores símbolos de lealdade da literatura precisamente porque resiste às políticas equivocadas do senhor e, ao mesmo tempo, o reconhece como autoridade. Os paralelos com Dom Lefebvre e o movimento tradicional saltam aos olhos de quem reconhece a crise: afirmando ainda a autoridade do papa, o arcebispo não hesitou em resistir à loucura de descartar os ensinamentos tradicionais da Igreja, mesmo quando quase toda a hierarquia se calava, mesmo quando isso significava uma espécie de banimento.

A imagem da tradição exilada

A própria tradição exilada encontra imagem no análogo cômico de Rei Lear, Como Gostais. A ação passa-se na Floresta de Arden, na França — «referência pouco velada às Ardenas, região do norte da França que foi centro dos exilados [católicos] ingleses», como observa Clare Asquith em Shadowplay, excelente estudo sobre o catolicismo oculto de Shakespeare. O enredo envolve o Duque Ancião, exilado, cujo irmão mais moço, o Duque Frederico, usurpou a coroa. Enquanto Frederico reina na corte, os jovens acorrem ao Duque Ancião na floresta, bando alegre à maneira dos homens de Robin Hood.

O discurso de abertura do Duque Ancião, embora reconheça a desgraça, louva ainda assim a mão da Providência: «Doces são os proveitos da adversidade […] E esta nossa vida, isenta do bulício público, acha línguas nas árvores, livros nos riachos, sermões nas pedras e bem em todas as coisas.» Assim se sentem os católicos tradicionais. «Eles ficaram com os edifícios; nós, com a Fé»: o exílio tem aquela doçura de que São Paulo falou aos Romanos: «Sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.»

Além disso, o desfecho da comédia shakespeariana traz o termo desejado: quando a nova ordem de Frederico desce à floresta para destruir de uma vez o Duque Ancião e as velhas tradições, o tirano «encontra um velho religioso e, depois de alguma conversa com ele, converte-se, afastando-se tanto da empresa quanto do mundo». Enquanto «homens de grande valia» continuarem a «recorrer a esta floresta» do catolicismo tradicional, que haja conversão semelhante daqueles que detêm a autoridade.

Cinquenta anos depois da heroica defesa da tradição, a luta segue. O movimento católico tradicional é claramente um movimento de jovens: são as comunidades tradicionais e ortodoxas que têm vocações e famílias com filhos, ao passo que o experimento moderno se extingue à letra. A geração que vem está prestes a receber e preservar o que lhe foi transmitido — ou a ser arrastada pela corrente modernista.

Agora, portanto, é tempo de recordar por que os pioneiros do movimento tradicional fizeram o que fizeram, resistindo até a Pedro face a face. Shakespeare indica que o termo das crises passa pelo sofrimento e pela conversão; com a crise atual da Igreja ainda em curso, esses são os temas centrais do início dos próximos cinquenta anos da FSSPX.