
A proximidade – e o afeto que o homem por vezes nutre pelos animais – constitui algo bom, desde que se mantenha a ordem inerente à definição, ou seja, a diferença essencial que é a razão.
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
O Senhor Deus trouxe todos os animais diante de Adão, para que ele pudesse nomeá-los. Adão deu a cada um dos animais um nome próprio. E o nome que Adão deu a cada um dos animais é o seu verdadeiro nome”(1) .
Adão, com isso, exerceu uma autoridade recebida de Deus; e Deus manifestou assim o lugar único que o homem ocupa na Criação. Pois o homem não é um ser vivo como qualquer outro: ele foi criado para conhecer, ordenar e governar. Nomear os animais, portanto, consistia não apenas em designá-los, mas também em reconhecer sua natureza e manifestar a ordem que a rege.
Essa superioridade do homem sobre os animais não elimina, no entanto, a proximidade que une ambos. Aliás, foi no contexto da busca por uma “ajuda semelhante a ele” que Deus conduziu os animais até Adão, precisamente porque o homem, formado do limo da terra, é ele próprio um animal.
“Um animal racional”, especificaram os primeiros filósofos que seguiram Aristóteles. Essa definição expressa uma realidade muito profunda, a saber, que o homem vive, se move e percebe o mundo através de seus sentidos, como todos os outros animais.
O apego que o homem nutre pelos animais é, portanto, totalmente natural: o homem admira, ama, domestica e treina todos os tipos de animais; ele descobre neles uma manifestação das perfeições do Criador através de sua majestade, sua beleza, sua força, bem como seu instinto e sua diversidade.
Essa proximidade — e o afeto que os homens, por vezes, nutre pelos animais — é algo bom, desde que se mantenha a ordem inerente à definição, ou seja, a diferença essencial da razão. O homem não é meramente um animal mais habilidoso, mais complexos ou mais sensível do que outros. Ele possue uma dignidade superior porque é capaz de conhecer a verdade, formar conceitos, julgar, escolher livremente e elevar-se até Deus. Os animais seguem seus instintos; os homens refletem. Os animais percebem; os homens compreendem e pensam.
É essa racionalidade que coloca o homem no ápice da Criação e fundamenta sua superioridade. Se o homem domina os animais, não é porque ele é fisicamente mais forte, mas porque ele é superior a eles em virtude da inteligência com que sua alma foi dotada.
O Gênesis confirma isso mais adiante na narrativa: depois de ver todos os animais passarem, Adão não encontrou entre eles “nenhuma ajuda semelhante a ele”, Nenhum animal podia ser seu igual, porque nenhum compartilhava de sua natureza espiritual.
Compreendemos, então, o erro da ideologia moderna dos direitos dos animais. É evidente – e sempre vale a pena lembrar – que a crueldade contra os animais deve ser proibida e que eles devem ser usados com moderação e sem brutalidade. Mas querer colocar os animais no mesmo nível dos homens, ou mesmo, por vezes, atribuir-lhes maior importância, é um grave equívoco.
Então Deus criou a mulher a partir da costela de Adão, e ele a reconheceu imediatamente: “Eis o osso dos meus ossos e carne da minha carne”. Adão discerniu em Eva um ser da mesma natureza que ele, com quem era possível a comunhão espiritual. Trata-se, portanto, de uma relação entre seres humanos, que será sempre impossível entre humanos e animais.
Foi assim que o episódio em que Adão nomeou os animais levou à instituição do matimônio. Depois de demonstrar que nenhum animal é um auxiliar do homem, Deus deu a Adão sua esposa. Isso significa que o homem não cumpre sua vocação na mera companhia dos animais, mas na união humana, isto é, na família, onde ocorre a transmissão da vida.
Podemos então compreender o erro da ideologia moderna dos direitos dos animais. É evidente – e sempre oportuno lembrar- que a crueldade contra os animais deve ser proibida e que eles devem ser usados com moderação e sem brutalidade. Mas querer colocar os animais no mesmo nível que os humanos, ou mesmo, por vezes, atribuir-lhes maior importância, é um grave equívoco.
Ora, é exatamente esse tipo de desordem que testemunhamos em muitos comportamentos hoje em dia. Há quem projete nos animais um apego que normalmente deveria ser direcionado à família, aos filhos e ao próximo. Um animal pode oferecer companhia, nutrir afeto e prestar serviços genuínos; contudo, jamais substituirá um filho, um cônjuge ou uma família! Quando os animais são preferidos ao destino humano da vida social, isso é um sinal da grave decadência moral de uma civilização.
De fato, embora os animais sejam criaturas de Deus, não são pessoas. Não possuem uma alma espiritual, muito menos um fim sobrenatural. Os homens — e esta é a diferença crucial — foram criados à imagem de Deus e chamados a conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo para merecerem vê-Lo face a face na eternidade.
Nesta era do movimento “Sem Filhos”, abertamente defendido por nossos contemporâneos perplexos, rezemos pelas famílias. Elas estão destinadas, no plano natural, a garantir a preservação da espécie e a sobrevivência da humanidade; e, no plano sobrenatural, a gerar almas destinadas a um dia serem abençoadas no Céu, cantando os louvores eternos de Deus. Ser, assim, cooperadores de Deus é uma missão que às vezes é difícil, mas sempre sublime!
Pe. Gonzague Peignot, FSSPX
Nota:
(1) Gn 2, 19–20