PENTECOSTALISMO TRADICIONALISTA

“É preciso dizer que, em um bom número de regiões, há uma espécie de pentecostalismo tradicionalista”, lamentou D. Lefebvre em uma conferência dirigida aos seminaristas em junho de 1978.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

O movimento pentecostal, nascido em círculos evangélicos protestantes, inspirou a Renovação Carismática entre os católicos – o que Dom Lefebvre chama de pentecostalismo progressista – que supõe invocar o Espírito Santo, sem passar pelos sacramentos: trata-se, portanto, de obter a graça por meios que não são os da Igreja.

Dom Lefebvre observa, embora seja de um tipo diferente, a mesma tendência entre os fiéis da Tradição: alguns tendem a buscar, não o aprofundamento da Tradição, os meios ordinários de santificação dispensados pela Igreja, mas meios extraordinários, mensagens, comunicações, por pessoas que têm “relações com o Céu“. Ele mesmo conheceu pessoas que usavam um distintivo especial, comunicavam-se de forma extraordinária, espalhando por toda parte as mensagens que uma alma “privilegiada” havia recebido; ou mesmo pessoas que tinham que lhe transmitir mensagens que lhe diziam respeito pessoalmente.

O fundador da Fraternidade São Pio X continua: “Sim, Nosso Senhor, a Santíssima Virgem podem falar, isso já aconteceu, em revelações privadas, mas, atualmente, não é possível que todas sejam verdadeiras.” E conclui: “Devemos ser muito, muito, muito cuidadosos em relação a isso.”

Sabemos da distinção que existe entre revelação pública ou apostólica, de um lado, e revelações privadas, de outro. A primeira é a manifestação de verdades cujo conhecimento é necessário para a salvação e que dizem respeito a toda a Igreja, em todos os tempos. Outros manifestam verdades cujo conhecimento não é necessário para a salvação, mas trazem uma mensagem que facilitará uma devoção, por exemplo, a devoção ao Sagrado Coração, cujo fundamento se encontra na dogmática dada pela Tradição, ou outra boa prática particular que a Igreja sanciona com sua autoridade, como a oração do rosário. Isso mostra a importância deles quando são verdadeiramente de Deus.

Podemos evitar todos os desvios aprofundando-nos no mistério de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dom Lefebvre

Quanto a essas revelações privadas, e perante o juízo da Igreja, temos a liberdade de aceitá-las ou rejeitá-las quando chegarem ao nosso conhecimento, de acordo com nosso conhecimento doutrinário, nosso bom senso e o de homens prudentes. Contudo, para não nos anteciparmos ao julgamento da Igreja, devemos permanecer prudentes e reservados. Então, após o exame, a Igreja pode ou não conceder o nihil obstat, se nada for contra a fé e a moral. Ela também afirma que, do ponto de vista humano, os testemunhos históricos são confiáveis.

No século XIII, São Boaventura queixou-se de ouvir intermináveis profecias sobre os infortúnios da Igreja e o fim do mundo. O Quinto Concílio de Latrão, em 1516, repreendeu os pregadores que “não mais expunham o Evangelho como deveriam, mas inventavam milagres e novas e falsas elucubrações, bem como outras coisas sem valor e pouco distantes das fábulas das velhas esposas que causam grande escândalo“.

Devemos admitir que é possível que o bom Deus use intermediários, como diz o Padre Calmel: “mensageiros que não sejam os da hierarquia, mensageiros inspirados, milagrosos, que os dignitários eclesiásticos devem concordar em ouvir, embora caiba à hierarquia concluir e decidir“. Além disso: “A noção católica de Igreja certamente não exclui os carismas, mas os subordina à hierarquia. Não exclui as revelações privadas, mas exige que não sejam ilusões privadas e que essas revelações estejam de acordo com a Revelação.” “Devemos permanecer“, conclui D. Lefebvre, “apegados aos meios tradicionais que Nosso Senhor nos deu para nos santificarmos, que são a Santa Missa, os sacramentos, a devoção à Santíssima Virgem, aos Santos, as devoções tradicionais da Igreja e, sobretudo, a devoção ao grande mistério de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todos os desvios serão evitados aprofundando-nos no mistério de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Pe. Pierre-Marie Wagner, FSSPX