
“Quem é que rasga a túnica de Cristo?”
“A ruptura não vem da parte da Fraternidade São Pio X, mas da divergência flagrante entre os ensinamentos oficiais e a Tradição e o Magistério constante da Igreja.”
Fonte: FSSPX
FSSPX.Actualités: Senhor Superior-Geral, o anúncio feito pelo senhor, em 2 de fevereiro passado, sobre as futuras sagrações episcopais, causou uma série de reações especialmente fortes. Que acha o senhor disso?
Padre David Pagliarani(1): Entende-se que tenha sido assim, pois trata-se de questão muito sensível para a vida da Igreja. Além disso, os motivos dessa decisão são objetivamente graves: o que está em jogo – o bem das almas – é uma questão capital. É natural, pois, que o debate desencadeado pelo anúncio tenha tido tanta ressonância. No fundo, ninguém ficou indiferente. É este um fator objetivamente positivo, e acho que, providencialmente, corresponde a uma necessidade muito atual.
Nestes últimos anos, o campo conservador e tradicionalista – no sentido mais amplo – tem por vezes dado a impressão de se reduzir a um ambiente de comentadores, onde são expressas análises, expectativas e frustrações, muitas vezes legítimas, mas que dificilmente se traduzem em posicionamentos realistas e consequentes. Entre eles, há quem ainda aguarde uma resposta da Santa Sé aos dubia formulados dez anos atrás por quatro cardeais – dos quais dois já faleceram – acerca de Amoris lætitia, ou que aguardam a eventual publicação de um novo motu proprio tratando da missa tridentina.
Neste contexto, a decisão pelas sagrações a todos nos interpela. Não se trata de uma enésima declaração, mas de um gesto significativo, que obriga à reflexão, a compreender a gravidade real dos problemas atuais e a tomar uma posição concreta. Nada é mais urgente nos dias de hoje. A Fraternidade São Pio X veio a tornar-se, sem ter ido atrás disso, o instrumento de uma sacudida benfazeja – a qual tem por único autor, no fim das contas, a própria Providência. Providencialmente, foi-lhe dado o ensejo de contribuir para algo de que a Igreja certamente tem necessidade hoje mais do que nunca, para o seu bem e sua regeneração.
Por que o senhor pensa que essa sacudida é hoje especialmente necessária?
Quando nos pomos a falar e entramos numa discussão sem fim, muitas vezes de maneira frustrante, sobre problemas extremamente graves que dizem respeito à fé, os próprios temas que são objeto de debate ou de diálogo acabam, mais cedo ou mais tarde, por serem vistos como discutíveis, num respeito sistemático pelas ideias de outrem e pelas diferentes sensibilidades. E assim aos poucos tudo se relativiza.
De fato, o flagelo do pluralismo doutrinal, ao qual o homem moderno é naturalmente inclinado, acaba por contaminar até as almas mais sãs: vai-se passo a passo descambando para o indiferentismo. Uma anestesia lenta e inexorável faz que percamos o senso da realidade. A gente se instala numa zona de conforto, prende-se a equilíbrios e privilégios que não quer comprometer de jeito nenhum. O zelo e o espírito de sacrifício vão minguando. Há, numa palavra, o perigo de se ir acostumando com a crise e de vivenciá-la como se fosse uma situação normal. Tudo isso se dá gradualmente, sem que a gente se dê conta. Os que são responsáveis pelas almas têm, pois, o dever de analisar profundamente tais mecanismos, e de tentar impedi-los antes que se tornem irreversíveis.
Ora, o que está em jogo hoje não é uma opinião, nem uma sensibilidade qualquer, nem uma preferência, nem uma nuance particular na interpretação de dado texto: é a fé, é a moral que todo católico deve conhecer e praticar a fim de salvar sua alma e chegar ao Paraíso.
Noutras palavras, diante da Eternidade e do perigo de perder o Céu, o falar por falar, os discursos e o diálogo devem dar lugar à realidade.
Qual é essa realidade de que o senhor fala, e que o ato da Fraternidade pode trazer à tona?
Essa realidade é o fato de que, hoje mais do que nunca, é necessário reafirmar, proclamar e professar os direitos de Cristo Rei sobre as almas e as nações. É preciso ter coragem de pregar que a Igreja católica é a única arca da salvação para todo homem, sem distinção. É preciso crer na Redenção, nos sacramentos, na destruição do pecado. É preciso recordar à humanidade que a Igreja foi instituída para livrar as almas do erro, do mundo, de Satanás e do inferno.
É preciso não mais deixar que os que vivem habitualmente em pecado, os que até se orgulham do seu vício contrário à natureza, fiquem pensando que Deus perdoa tudo, sempre e em quaisquer circunstâncias, sem verdadeira conversão, sem contrição, sem penitência, sem a exigência de uma mudança radical. É preciso ter a simplicidade de reconhecer que a participação de um papa num ritual em honra da Pachamama, nos jardins do Vaticano, é uma loucura e escândalo para o qual não há palavras. E finalmente, e mais importante, é preciso não mais trazer enganadas as almas e a humanidade, fazendo que pensem que todas as religiões adoram um mesmo Deus, a que dão diferentes nomes. Numa palavra: é preciso parar de pedir perdão ao mundo por tentarmos convertê-lo, cristianizá-lo, e por termos por séculos a fio condenado o erro.
Num contexto trágico como este, é preciso que alguém possa dizer: “Basta!”, não apenas em palavras, mas com ações concretas.
“É preciso parar de pedir perdão ao mundo por tentarmos convertê-lo, cristianizá-lo, e por termos por séculos a fio condenado o erro.”
Se, neste estado de confusão atual, a Providência dá à Fraternidade São Pio X os meios de proclamar com clareza os direitos eternos de Nosso Senhor, seria da nossa parte um pecado gravíssimo fugirmos dessa obrigação que a fé e caridade nos impõem. São essas as premissas necessárias para que se compreenda a razão por que a Fraternidade São Pio X existe, e por que se decidiu por fazer as consagrações episcopais.
Sem essas premissas, a decisão da Fraternidade, como de resto o seu discurso, pareceriam sem sentido. A menos que reconheçamos que o que está em jogo é a própria fé, inevitavelmente a situação presente da Fraternidade só poderá ser percebida como um problema de disciplina, de rebelião, de desobediência. É o erro em que infelizmente caem os que afirmam que a Fraternidade São Pio X só quer consagrar bispos para preservar a própria autonomia.
Mas não é disso que se trata. As futuras consagrações são um ato de fidelidade, que tem por fim preservar os meios de salvarmos as nossas almas e as dos outros. Não são a mesma coisa, a busca de uma autonomia egoísta e a preservação de uma liberdade indispensável para se professar a fé e a transmitir às almas.
Entre as pessoas conhecidas que se pronunciaram contra as sagrações em primeiro de julho próximo, contam-se cardeais conservadores muito críticos para com o papa Francisco, como o cardeal Gerhard Ludwig Müller ou o cardeal Robert Sarah. Como se explica, no seu entender, o modo de agir deles?
Antes de tudo, é preciso saber que um conservador crítico do papa Francisco poderia ter certo receio de ser comparado com a Fraternidade São Pio X e demonizado como ela. Daí pode-lhe vir a necessidade de deixar bem claro que não tem nada a ver conosco.
Contudo, mesmo deixando de lado esse aspecto da questão, o fato é que esses cardeais ou bispos padecem de um mal-estar mais profundo e tipicamente moderno: o de se ver incapaz de conciliar as exigências da fé com as do direito canônico. A fé requer de nós que façamos tudo o que for possível para professá-la, preservá-la e transmiti-la. Por outro lado, se interpretarmos o direito ao pé da letra, passando ao largo das circunstâncias atuais, uma consagração episcopal sem o aval do papa parece impossível. Que fazer então? Esses cardeais, como tantos outros, vivem numa espécie de permanente dicotomia, que encerra o risco de serem frustradas as suas boas intenções: eles colocam essas duas exigências uma ao lado da outra, à maneira cartesiana, e ficam como esmagados ou submersos na contradição aparente.
“O Magistério existe para ensinar a fé, não para inventá-la. O direito existe para preservá-la e assegurar as condições necessárias para a vida cristã que dela deve decorrer.”
A Fraternidade São Pio X, por sua vez, considera que esses dois postulados não devem ser, sem mais nem menos, justapostos, mas sim hierarquizados, subordinando-se um ao outro. Ora, na Igreja, a pureza da profissão da fé precede qualquer outra consideração, pois os demais elementos que compõem a vida da Igreja dependem todos da própria fé. O Magistério existe para ensinar a fé, não para inventá-la. O direito existe para preservá-la e assegurar as condições necessárias para a vida cristã que dela deve decorrer(2). Esta prioridade se deriva do fato de que Nosso Senhor mesmo, ao encarnar-se, manifesta ao mundo, antes de mais nada, a Verdade eterna; e que, enquanto Legislador, Ele aponta no Evangelho os meios de se conhecer essa mesma Verdade e de se permanecer fiel a ela. Há uma prioridade lógica entre o primeiro e o segundo elemento.
E por conseguinte, a Providência divina não instituiu a Igreja como um grupo parlamentário de ministérios justapostos e independentes uns dos outros. Pelo contrário, instituiu uma hierarquia de prioridades, com o fim específico e primeiro de preservar o depósito da fé, de confirmar os fiéis nessa fé, e de organizar todo o restante em função desta exigência prioritária e fundamental. O direito, em particular, serve a esse fim, e não para estorvar nem condenar os que queiram permanecer católicos, ou seja, os que queiram viver da fé.
Por que o senhor acha que esta é uma atitude tipicamente moderna?
O homem moderno tem muita dificuldade em organizar de maneira harmoniosa os diferentes elementos da realidade em que vive, ou do saber que os analisa. Valendo-me de um termo um tanto técnico, o homem moderno tende a classificar de maneira nominalista os elementos da realidade que o cerca, e cola sobre cada um deles etiquetas superficiais, sem fazer o esforço de examinar a fundo os problemas, e portanto sem ser capaz de apreendê-los em toda a sua complexidade, e nas suas implicações e na sua interdependência.
Por isso, no caso de que estamos tratando, vemos a aplicação da lei ser totalmente dissociada da própria realidade que a lei devia proteger. É justamente dessa dissociação entre lei e realidade, que nascem as posturas ideológicas, tipicamente modernas, tanto no domínio religioso como no civil. Tal atitude leva a duas consequências distintas e complementares.
Entre os que padecem dessa dicotomia e se veem confrontados com esse dilema, como é, ao que parece, o caso dos meios conservadores, ela conduz ao fatalismo e ao desânimo, porque a gente se sente como encurralada, paralisada, incapaz de agir de maneira adequada e consoante as exigências objetivas da Verdade e do Bem. O que vive constantemente nessa contradição existencial, acaba por se tornar vítima dela, e por confundir fatalismo com confiança na Divina Providência.
De outro lado, entre os detentores da autoridade, ela traz o risco de uma cegueira incurável e do endurecimento do coração, consequências inevitáveis da postura ideológica: “lei é lei”, sem se levarem em conta as circunstâncias, as exigências concretas nem as boas intenções.
É por esta razão que Nosso Senhor condena tal postura nos termos mais fortes: “Jesus então disse: ‘É para vosso julgamento que vim ao mundo, para que os que veem não vejam, e os que veem se façam cegos.’ Alguns fariseus, que estavam com ele, o ouviram e lhe disseram: ‘Acaso nós somos cegos, nós também?’ Jesus lhes disse: ‘Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; agora porém dizeis: ‘Eis que nós vemos.’ E é por isso que o vosso pecado permanece.” (Jo IX, 49-41).
O Senhor acha que o ensinamento do Evangelho pode de algum modo esclarecer a situação presente?
Nosso Senhor é o exemplo perfeito de obediência à lei de Moisés. Ele, com a Santíssima Virgem Maria, cumpriu à letra todas as prescrições legais, desde os primeiros dias da sua existência. E mantém a sua observância rigorosa até o seu último dia de vida. Na última ceia, Jesus segue à letra o rito judaico em vigor na época.
E não obstante, Nosso Senhor opera milagres mesmo no dia de sábado, provocando assim a reação legalista e cega dos fariseus. Jesus, Legislador maior que o próprio Moisés, é o primeiro a respeitar a lei, e o primeiro a reconhecer a existência de um bem superior que pode dispensar da observância da letra da lei. As suas palavras, como sempre, valem mais que mil tratados:
“E aconteceu que Jesus entrou, num dia de sábado, em casa de um dos principais dos fariseus, para ali comer do pão. E eles o vigiavam. E eis que um homem hidrópico estava diante dele. E Jesus, tomando a palavra, disse aos doutores da lei e aos fariseus: ‘É permitido curar em dia de sábado?’ Eles, porém, permaneceram calados. Então, tomando o homem pela mão, curou-o e mandou-o de volta. Depois, voltando-se para eles lhes disse: ‘Quem de vós, se o seu asno ou o seu boi cai dentro dum poço, não o tira logo dali, em dia de sábado?’ E a isto nenhum deles pôde responder.” (Lc XIV, 1-6)
Estas palavras divinas dispensam de comentário. A Fraternidade São Pio X adota-as sem reservas. Nós também temos de fazer todo o possível para tirar as almas do poço, ainda quando vivamos num sábado interminável. Nosso Senhor não era nem legalista, nem nominalista, nem cartesiano: era o bom Pastor.
Nestes últimos meses, para além da Fraternidade, outras vozes soaram em seu apoio. Dom Atanásio Schneider, sobretudo, falou em diversas ocasiões acerca das sagrações. Como o senhor explica essa decisão dele?
Devo confessar que esse apoio dado à Fraternidade me tocou profundamente. Muitos sacerdotes diocesanos nos têm dado testemunhos de sua gratidão e nos têm encorajado, e muitos bispos também. A todos fico agradecido.
Sem poder nomeá-los todos aqui, gostaria de agradecer em especial a Dom Strickland, pela sua mensagem tão forte, tão clara e corajosa. E a Dom Schneider, naturalmente; este bispo deu mostras de uma grande coragem e de uma liberdade de palavra em que se nota estarmos diante de um homem de Deus, desinteressado, realmente preocupado com o bem das almas. Creio que o seu apoio, e tudo o que tem dito nestes últimos meses, entrará para a história. Estou persuadido de que isso não importa tão somente para a Fraternidade, mas ainda mais para todos os bispos do mundo. É um sinal objetivo de esperança: a sua palavra mostra que a Providência em qualquer tempo pode suscitar vozes que digam a verdade com bravura e firmeza, sem recear possíveis consequências pessoais.
Antes dele, Dom Huonder, que passou à eternidade dois anos atrás, já nos vinha encorajando positivamente a realizar sagrações. Ele e Dom Schneider tinham ambos sido encarregados pelo Vaticano do diálogo com a Fraternidade. Ao contrário de outros interlocutores, souberam escutar e compreender.
O senhor ainda tem esperança de se encontrar com o papa antes das sagrações?
Tenho, com certeza, e é este o meu desejo mais sincero. Admira-me, no entanto, que da parte da Santa Sé não tenha havido até agora nenhuma resposta ou reação pessoal.
Antes de declarar cismática uma sociedade que conta mais de mil membros e que é uma referência para centenas de milhares de fiéis no mundo inteiro, talvez fosse bom conhecer pessoalmente aqueles a quem se quer julgar. A sanção que se prevê não atinge apenas uma instituição – que, aliás, não existe aos olhos da Santa Sé -, senão que atinge pessoas, e pessoas profundamente unidas ao papa e à Igreja.
Confesso que a mim me custa entender esse silêncio, ao mesmo tempo em que tanto nos falam da necessidade de escutar o clamor dos pobres, o das periferias, e até mesmo o do planeta Terra…
“Nós também temos de fazer todo o possível para tirar as almas do poço, ainda quando vivamos num sábado interminável.”
O senhor chegou a encontrar-se com o papa Francisco. Que lembranças guarda dele?
O programa que o papa Francisco impôs à Igreja universal é bastante conhecido e foi fartamente comentado pela Fraternidade São Pio X. Parece-me que, infelizmente, a palavra “desastre” é a mais indicada para resumir a herança legada por ele.
E apesar disso, o papa Francisco soube reconhecer, lá à sua maneira, o bem que a Fraternidade São Pio X faz às almas. Dessa sua constatação foi que nasceu uma postura, ao que parece, equívoca para conosco, uma espécie de tolerância que causou surpresa aos observadores menos perspicazes, e que por vezes chegou a exacerbar os meios conservadores.
Muitas decisões do papa Francisco causaram verdadeira tristeza em largos setores da Igreja, porém seria injusto acusá-lo de ter sido uma pessoa rígida e esquemática na avaliação das pessoas que tinham contato com ele, ou na aplicação do direito. Suas ações muitas vezes o demonstram. Talvez não passe de um detalhe, mas quando pedi para entrevistar-me com ele no Vaticano, em vinte quatro horas me foi concedida uma audiência, na qual ele se mostrou muito afável.
Nestes últimos anos, em nome de uma tolerância erigida em princípio, o Vaticano tem se mostrado muito aberto diante de certas situações complexas. Pensa o senhor que isso poderia ajudar a Fraternidade São Pio X?
A aplicação de toda lei, seja ela boa ou má, depende afinal da vontade do legislador. É a ele que cabe determinar a maneira como tratará a Fraternidade São Pio X.
Porém a abertura que o Vaticano tem mostrado não pode ser algo desejável por si mesmo, pois chega a ponto de justificar o absurdo, como quando abençoa casais que praticam o vício contra naturam, ou quando se compromete solenemente a não converter os adeptos de outras religiões, para ficar só nestes dois exemplos. Estamos diante de uma ditadura ideológica e totalitária da tolerância.
Ora, a Tradição da Igreja, que a Fraternidade São Pio X se esforça por encarnar, é em si mesma uma condenação desses desvios, coisa intolerável para os que promovem essa espécie de tolerância. A considerarmos atentamente a situação, vemos que as sanções que a Fraternidade São Pio X sofreu ou possa vir a sofrer, não visam nenhum ato de desobediência, mas, na verdade, essa viva condenação que ela representa, só por existir, da linha eclesial seguida atualmente.
Parece que o papel que a Providência reservou para a Fraternidade São Pio X é este, singular, de ser um sinal de contradição, o que, concretamente, quer dizer ser um espinhozinho na sola do pé dos reformadores. E espinho que é, quanto mais o tentam espezinhar, mais fundo ele entra. Não vem dele, de resto, esse efeito terapêutico, mas dos dois mil anos de Tradição que ele encarna e representa.
A Fraternidade São Pio X pode sofrer sanções, a missa tridentina, ser proibida, porém esses dois mil anos não poderão nunca ser apagados. É esta a verdadeira razão por que, apesar das condenações passadas, a Fraternidade nunca cessou de ser uma voz a interpelar a Igreja, e é por isso, também, que não é tão simples ser tolerante com ela.
Virá o dia em que o papa se resolverá a pinçar o espinho entre os dedos, tirando-o do pé. Nesse dia, poderá usá-lo como instrumento dócil de que se sirva – e este é o nosso mais profundo desejo – para restaurar todas as coisas em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ouve-se dizer que as futuras sagrações poderiam causar um cisma. E há outros, ao mesmo tempo, que na Igreja afirmam que a Fraternidade São Pio X já é cismática. Como explicar tal contradição?
É uma contradição real e que evidencia uma jurisprudência, por parte do Vaticano, que poderíamos chamar de “fluida”. Tentemos esclarecer isso.
Em termos canônicos, depois de ter sido declarada cismática em 1988, a Fraternidade São Pio X nunca se viu livre dessa censura: em 2009, o papa Bento XVI levantou as excomunhões que pesavam sobre os bispos, mas sem voltar atrás na declaração de cisma feita anteriormente. Em todo esse tempo, a Fraternidade São Pio X não mudou suas posições doutrinárias e manteve exatamente o mesmo argumento para as consagrações episcopais, passadas e futuras. Noutros termos, coerente em sua persuasão da nulidade das censuras que a haviam atingido, nunca se retratou.
Por isso os canonistas, digamos, “rigorosos”, a consideram ainda e sempre cismática. É neste sentido que é preciso entender as declarações explícitas do cardeal Raymond Burke, ex-prefeito do Tribunal supremo da Assinatura Apostólica, ou as de Monsenhor Camille Perl, ex-secretário da Comissão Ecclesia Dei – abolida em 2019. E é nessa mesma perspectiva que é preciso entender também a maneira como foram tratados os sacerdotes que deixavam a Fraternidade São Pio X para se integrarem às estruturas oficiais: levantavam, em favor deles, a excomunhão por cisma e a suspensão a divinis, e pediam-lhes que se confessassem para serem absolvidos também no foro interno.
“A Tradição da Igreja, que a Fraternidade São Pio X se esforça por encarnar, é em si mesma uma condenação desses desvios, coisa intolerável para os que promovem essa espécie de tolerância.”
Contra essa interpretação surge a figura do cardeal Dario Castrillón Hoyos(3), muito mais flexível, e sobretudo a do papa Francisco, que nunca tratou a Fraternidade São Pio X como cismática e que nos disse com todas as letras que jamais a condenaria. E de fato, podiam ser incluídos neste grupo o próprio cardeal Fernández e papa Leão XIV, já que, se estão tentando evitar um cisma, é porque não nos consideram cismáticos. O mesmo se pode dizer dos cardeais e bispos que estão tentando reverter nossa decisão de fazer as sagrações, para evitar um cisma.
Mas aqui vemo-nos diante de duas interrogações: primeiro, se é esse o seu receio, não conseguimos entender de que maneira nem por que razão teríamos deixado de ser cismáticos aos olhos deles. E em segundo lugar, se a própria Santa Sé na prática não considera válida a sua declaração de cisma feita em 1988, que valor poderia ter uma segunda declaração de cisma, pronunciada pelos mesmos motivos e em circunstâncias de todo equivalentes?
O fato é que, lá em 1988, o Vaticano esperava que a Fraternidade São Pio X, uma vez declarada cismática, se dissolvesse no espaço de uns poucos anos. Acontece porém que, não apenas ela não se dissolveu, senão que continuou a crescer. E sobretudo, apesar de uma declaração de cisma manifestamente injusta, continuou a ser uma obra da Igreja e a operar para bem da Igreja, sendo esta uma realidade que com tal força se impõe, que, apesar de a ter condenado em 1988, a própria Santa Sé veio a reconhecer isso na prática.
Uma possível causa para essas incoerências canônicas está no conceito “fluido” e modernista de “plena comunhão”, segundo o qual um mesmo sujeito pode ser considerado ao mesmo tempo como católico e não católico, membro e não membro da Igreja. Evidentemente, se alguém é “parcialmente” filho da Igreja, a lei da Igreja não pode aplicar-se a ele a não ser também parcialmente, segundo avaliações e critérios arbitrários e variáveis…
Isso mostra de que maneira um erro eclesiológico conduz inevitavelmente a erros jurídicos ou, quando menos, a julgamentos confusos, incoerentes e “fluidos”.
Para sustentar a acusação de cisma, afirma-se que uma sagração episcopal sempre implica, quaisquer que sejam as circunstâncias, a transmissão do poder de jurisdição ao novo bispo, o que terá por consequência inevitável, dado que não tenha havido consentimento do papa, a criação de uma hierarquia paralela. A Fraternidade São Pio X já respondeu a esta objeção(4). Como, porém, se trata de uma questão muito delicada, o senhor gostaria de acrescentar algumas considerações?
Este é um ponto central, sem nenhuma dúvida. De fato, a acusação se baseia num postulado modernista. Seria interessante tentarmos entender a razão por que a eclesiologia do Concílio Vaticano II ensina que um novo bispo sempre, em qualquer circunstância, recebe, junto com o poder de ordem, também o de jurisdição.
Tratemos de recordar, resumidamente, que o poder de ordem é a capacidade de administrar os sacramentos, ao passo que a jurisdição é o poder de governar, cum Petro et sub Petro, uma parcela do rebanho, em geral uma diocese. Segundo a teologia clássica, confirmada pelo direito canônico tradicional e sobretudo pela prática constante da Igreja – caberia dizer: segundo a Tradição -, o poder de governar é diretamente conferido pelo papa ao bispo, independentemente de consagração. É por isso que pode haver bispos regularmente consagrados que, no entanto, não receberam nenhuma jurisdição própria, como o são os bispos auxiliares ou os encarregados de missões diplomáticas específicas.
“A Fraternidade São Pio X continuou a ser uma obra da Igreja e a operar para bem da Igreja (…), a própria Santa Sé veio a reconhecer isso na prática.”
Mas na época do Concílio, passou-se a considerar essa visão como demasiado tradicional, demasiado medieval, demasiado romana. A atuação direta e exclusiva do Vigário de Cristo na atribuição da jurisdição, reduzia os bispos mandatários a meros delegados ou representantes do papa. Por outro lado, a ideia de que cada bispo recebia imediatamente de Deus, no ato da consagração, uma jurisdição universal, permitia fazer dele, em certa medida, um igual do papa, reduzindo assim o papel do Vigário de Cristo ao de mero presidente de um collegium, “primeiro entre seus pares”. Esse novo postulado vinha, assim, diretamente respaldar a teoria modernista da colegialidade(5), fundamento da democratização da Igreja.
Uma outra consequência, além desta, é que essa redefinição se presta à causa do ecumenismo. De fato, para se poder reconhecer uma certa “eclesialidade” em favor das comunidades cismáticas orientais (estas sim, realmente cismáticas) e considerá-las como “igrejas irmãs”, lançando assim uma base sólida para o diálogo ecumênico, era preciso valorizar a sua sucessão apostólica a ponto de se reconhecer em seu favor uma jurisdição real sobre os seus fiéis, apesar de sua completa separação de Roma e do papa. A sua qualidade de “Igreja” decorreria, assim, do fato de contarem com bispos não apenas validamente consagrados, mas também dotados de verdadeira autoridade sobre as almas, autoridade esta derivada da consagração em si mesma, independentemente de qualquer atuação do papa. Por esse viés se podia mais facilmente conceber a existência, nessas comunidades, de uma verdadeira hierarquia eclesiástica, no sentido pleno do termo. Sem essa prévia manipulação eclesiológica, teria sido impossível reconhecer nelas qualquer verdadeira “eclesialidade”.
“Não se pode ficar só lamentando os efeitos, sem remontar às verdadeiras causas. É preciso ter a hombridade de ir um pouco além e de reconhecer que essa crise tem origem nos ensinamentos oficiais, muitas vezes ambíguos, chegando por vezes a romper claramente com a Tradição.”
E é ainda a esse mesmo esforço ecumênico que se liga uma outra manipulação eclesiológica, o conceito elástico de “comunhão parcial”, a que se aludiu na questão anterior. Em termos concretos, todas as ditas “igrejas” cristãs fariam parte de uma “Superigreja”, a Igreja de Cristo, mais abrangente que a católica. Essas diversas igrejas estariam em maior ou menor medida em comunhão com a católica, a depender das lacunas na sua doutrina. Esse conceito, também ele modernista, visava valorizar uma, por assim dizer, unidade em formação com as demais “igrejas”. Mas é um engano. Com efeito, ou se está em comunhão com a Igreja católica por todos os aspectos, ou se está separado dela. Não existe meio-termo. Paradoxalmente, essa noção, que fora concebida como instrumento a serviço do diálogo ecumenista, destinando-se a justificar uma futura convergência das “igrejas” que se tinham na conta de “irmãs”, passa a ser usada também para lidar com a Fraternidade São Pio X, que por sua vez a considera uma noção absurda.
O que há de especialmente lamentável no juízo negativo que se faz da Fraternidade, é o fato de essa acusação específica de cisma ou de “comunhão parcial”, fundada em postulados modernistas, colegialistas ou ecumenistas, não vir apenas da parte do Vaticano, mas também de alguns cabeças dos grupos e institutos ditos “Ecclesia Dei”(6). Paradoxalmente, para atacar a Fraternidade, citam e defendem os erros eclesiológicos do Concílio Vaticano II… Em vez de trazerem à tona esses erros de maneira construtiva – como, em princípio, lhes é permitido fazer -, preferem usá-los para apedrejar a Fraternidade São Pio X. Ocorre, porém, que são pedras de borracha.
No que diz respeito à jurisdição e à autoridade na Igreja, como a Fraternidade São Pio X enxerga a possibilidade de nomear religiosas ou leigos para cargos superiores?
É uma questão muito pertinente, sobretudo se considerarmos que hoje em dia, um dicastério romano, o que está encarregado dos institutos de vida consagrada, em vez de ter à frente um cardeal e um bispo, respectivamente como prefeito e secretário, foi confiado a duas religiosas.
Não quero ser irônico, seria desagradável. Apenas gostaria de apontar que o Vaticano, à sua maneira, provou que conhece perfeitamente a diferença entre o poder de ordem e a atribuição do poder de jurisdição. Até onde eu sei, a Irmã Simona Brambilla, atual prefeita, nunca foi ordenada diácono, nem presbítero, nem bispo; nem sequer a tonsura ela recebeu… O mesmo vale para a Irmã secretária.
Mesmo fora da Fraternidade São Pio X, há hoje em dia muita gente que reconhece sinceramente a existência de uma crise na Igreja, sobretudo no que diz respeito à fé. E contudo, alguns deles criticam a Fraternidade São Pio X por se isolar numa linha de conduta própria, sem levar devidamente em conta a existência de outros diagnósticos. Ao seu ver, essa crítica tem fundamento?
Acho que é precisamente nesse ponto que a Fraternidade São Pio X põe o dedo na ferida. Muitos são os que, como nós, afirmam que existe uma crise na Igreja e que essa crise afeta a fé. Até aqui estamos de acordo.
Mas não se pode ficar só lamentando os efeitos, sem remontar às verdadeiras causas. É preciso ter a hombridade de ir um pouco além e de reconhecer que essa crise tem origem nos ensinamentos oficiais, muitas vezes ambíguos, chegando por vezes a romper claramente com a Tradição. Em termos concretos, é preciso entender que a crise atual se especifica pelo modo como afeta a hierarquia da Igreja no ensinamento que ela ministra.
E numa situação como essa, não é possível ter meias palavras; os erros devem ser claramente percebidos e denunciados pelos que estão em condições de o fazer. Não basta fazer de conta que não vê, nem ficar esperando que os erros desapareçam com o passar do tempo. Textos tais como Amoris lætitia ou Fiducia supplicans, por exemplo, causaram, num primeiro momento, não pouca indignação. Mas depois tudo se acalmou, cada um foi tratar de outra coisa, e hoje já poucos ainda falam no assunto. Sem embargo, as decisões e os erros contidos ali continuam em vigor; vemos que esperar até que sejam esquecidos não é uma maneira eficaz de corrigi-los.
A Fraternidade São Pio X existe para recordar este fato aos fiéis e à hierarquia. Considera ser um dever seu, e isso não por espírito de rebelião ou de desobediência, mas como um serviço prestado à Igreja. Nesse sentido, não é justo dizer que ela se isola do resto, pois fala diante de toda a Igreja e se dirige a todos os católicos que estão perplexos, sem fazer distinção.
Qualquer um que olhe para essas questões sem preconceitos ideológicos, há de por força chegar a esta constatação, a saber, a de que a ruptura não vem da parte da Fraternidade São Pio X, mas da divergência flagrante entre os ensinamentos oficiais e a Tradição e o Magistério constante da Igreja.
“A Fraternidade São Pio X permanece em perfeita comunhão com os papas da História, sem exceção, naquilo que eles têm de comum entre si: o depósito da fé, fielmente recebido, conservado e transmitido através dos séculos.”
Em que sentido o ensinamento oficial da Igreja poderia conter erros?
É uma questão muito melindrosa e complexa, e só a Igreja poderá um dia dar uma explicação satisfatória e definitiva sobre o que aconteceu e está acontecendo ainda hoje. O fato é que nenhum erro pode ser ensinado pelo Magistério da Igreja propriamente dito. Os fatos porém saltam à vista: vemos, infelizmente, serem ensinados alguns erros graves. Mas quer se trate de textos de um Concílio que se quis não dogmático, quer se trate de simples exortações pastorais, homilias ou declarações circunstanciais, e até de diálogos com o mundo, discursos improvisados durante um voo de avião, ou de conversas com jornalistas, em todos estes casos, quando há elementos não dogmáticos e que são apresentados como tais, não estamos diante de um Magistério autêntico.
Para dar um exemplo, um eminente prelado romano recentemente me explicou que a Declaração de Abu Dhabi não deve ser tida por algo que faça parte do Magistério, por se tratar de um mero texto de circunstância. Acho que um dia, com um pouco de flexibilidade e bom senso, um papa irá dizer algo de equivalente, mas em público, a respeito de toda uma série de textos problemáticos que não podem ser tidos por magisteriais no sentido técnico do termo. A Cúria romana dispõe de uma experiência e de uma fineza inigualáveis quando se trata de estabelecer distinções necessárias: tudo o que lhe falta é a vontade de o fazer.
E em todo caso, um esclarecimento definitivo é algo que cabe à própria Igreja, e não à Fraternidade São Pio X. A nossa tarefa se limita a rejeitar fielmente tudo o que estiver em ruptura com a Tradição e com o Magistério constante. Ao fazer isso, a Fraternidade São Pio X permanece em perfeita comunhão com os papas da História, sem exceção, naquilo que eles têm de comum entre si: o depositum fidei, fielmente recebido, conservado e transmitido através dos séculos.
Muitas são as áreas na vida da Igreja, como, por exemplo, na liturgia, onde é evidente que existem abusos. Por que a Fraternidade São Pio X fala sempre em erros e não em abusos?
É evidente que existem abusos que extrapolam os limites das próprias reformas. A Fraternidade São Pio X os reconhece sem pestanejar.
Mas essa retórica constantemente a falar dos abusos, particularmente em voga durante o pontificado de Bento XVI, não basta para dar conta da crise. E acaba mesmo por criar um álibi sistemático, que impede de entrar mais fundo nos problemas. A reforma litúrgica, por exemplo, encerra dificuldades que certamente brotam dos próprios princípios em que se baseou, independentemente de eventuais abusos. As orações ecumênicas e inter-religiosas, para dar outro exemplo, são a tradução de um erro teológico, ainda quando nos abstenhamos de atos explícitos de sincretismo, na tentativa de evitar o que poderia parecer um abuso.
E principalmente, a retórica do abuso litúrgico, ou do abuso na interpretação dos textos, tende a mirar nas pessoas envolvidas – tidas por responsáveis pelos abusos, ou por incapazes de reprimi-los -, em vez de considerar os princípios errôneos que estão na raiz do desastre atual. Ora, são justamente esses princípios que devem ser denunciados.
“Não se trata de fazer rebelião, mas de responder a uma necessidade cruel.”
Confesso que eu mesmo fiquei um pouco espantado, nestes últimos anos, com a reação amarga e sistemática de certo meio conservador um tanto míope, que se voltou de modo muito pessoal contra a figura do papa Francisco, passando ao largo do Concílio e da continuidade na sua aplicação doutrinária até os dias atuais. Esse tipo de atitude é que faz com que, a cada novo papa eleito, se espere, pelo menos durante alguns meses, por uma superação da crise – sem que sejam questionados os princípios novos, como se tudo dependesse da vontade pessoal do novo pontífice, mais ou menos resolvida a condenar ou a reprimir os abusos. Trata-se de uma retórica superficial incapaz de convencer qualquer observador atento e honesto.
Não lhe parece exagero dizer, como já o fez a Fraternidade São Pio X em outras ocasiões, que uma autêntica vida cristã numa paróquia comum é hoje em dia coisa impossível? O estado de “necessidade” implícito nessa afirmação é de fato tão evidente? Não seria antes um conceito “instrumental”, elaborado para justificar as sagrações de que essa instituição necessita?
A Fraternidade São Pio está plenamente ciente de quanto há de trágico e doloroso nessa afirmação. Trata-se de uma consideração extremamente grave e que requer ser bem entendida.
Deixemos claro, antes de mais, que não cabe a resposta de que, apesar de todos os problemas e deficiências que lavram nas paróquias comuns, há sempre bons sacerdotes e bons fiéis que são capazes de se santificarem e de salvarem as suas almas. Mesmos nas circunstâncias mais desfavoráveis, a graça de Deus pode tocar as almas, e nós sabemos de casos assim. Além do que, para muitos deles o sofrimento real causado pela situação em que se encontram torna-se uma verdadeira fonte de santificação, que muitas vezes os leva a buscarem a Tradição.
Mas o que a Fraternidade São Pio X afirma deve ser entendido num plano objetivo, e não subjetivo. A fim de se avaliar qual seja de verdade a situação dessas paróquias, toda alma de boa vontade deveria fazer a si mesma algumas perguntas precisas, diante de Deus, em oração, e buscando uma resposta sobrenatural, ditada não por impressões positivas ou negativas, nem por nenhuma preconcepção ideológica, mas tão somente pela razão esclarecida à luz da fé.
A missa de Paulo VI é capaz de expressar e de alimentar inteiramente a fé católica? Transmite de maneira satisfatória o senso do sagrado, do transcendente, do sobrenatural, do divino? Esse rito permite apreender o verdadeiro sentido do sacerdócio católico?
Numa paróquia ou num centro pastoral qualquer, ou seja, lá onde se prega em conformidade com as diretrizes doutrinárias atuais, é ainda ensinada a fé católica em toda a sua inteireza? O catecismo dado às crianças é ainda católico e capaz de os formar para o resto da vida?
As questões, hoje tão delicadas e atuais, da moral conjugal, ou do acesso à Eucaristia para os que estão em situações irregulares, são abordadas em conformidade com a lei da Igreja? O sacramento da penitência é ainda ministrado com um senso real da Redenção e do pecado, da sua gravidade e das suas consequências?
E, de modo mais geral, quais frutos essas reformas produziram de maneira universal na vida dos fiéis?
A todas estas perguntas, e outras semelhantes, a Fraternidade São Pio X responde de maneira clara e coerente. A seguir, partindo dessa análise, e visto que a realidade se impõe, chega à constatação de que existe um “estado de necessidade”.
De modo que a afirmação da Fraternidade São Pio X resulta de um salutar realismo, e não de um pressuposto ideológico. O que há de trágico na constatação é apenas consequência de uma tragédia real.
O senhor não acha que, mesmo animada das melhores intenções, a Fraternidade São Pio X poderia mais uma vez ser causa de divisões nas famílias, no mundo da Tradição e na própria Igreja?
Talvez nunca antes a Igreja se viu tão dividida como agora, e não há nada de bom nisso.
Porém, essa divisão não foi provocada pela fidelidade à Tradição, mas antes pelo afastar-se dela. A crise do Magistério, as ambiguidades, os erros, a inculturação, fazem que se queira interpretar e reinterpretar tudo, aumentam as diversas maneiras de julgar que, a longo prazo, são causa de divisões inevitáveis. Para usar uma imagem conhecida, é isto o que na verdade rasga a túnica de Cristo. A Fraternidade São Pio X, pela sua fidelidade à Tradição, não faz senão tentar ajudar a recosê-la o tempo todo.
Quanto à possibilidade de todos os tradicionalistas atuarem e lutarem juntos, é algo que a Fraternidade São Pio X deseja de todo o coração. Mas isso não deve ser feito por meio de uma espécie de ecumenismo em miniatura. É algo que só pode ser feito com inteira fidelidade à Tradição integral, se quisermos que esse combate aberto seja para bem de todos, inclusive dos que não estão de acordo conosco.
“A verdadeira unidade, duradoura e inquebrantável, só pode ter por alicerces a Tradição da Igreja.”
Finalmente, no que diz respeito a possíveis divisões no interior de uma mesma família, é preciso corajosamente ter em mente as palavras de Nosso Senhor, sem, porém, se escandalizar, sem cair na amargura, amparando os que sofrem:
“Não penseis que vim para trazer a paz à terra. Não vim para trazer a paz, mas a espada. Porque vim para separar o homem de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra. E o homem terá por inimigos os de sua própria casa. O que ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E o que ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim.” (Mt X, 34-37)
Agora uma questão retrospectiva. O período particular por que vem passando a Fraternidade São Pio X reaviva nos mais antigos as lembranças e as emoções de 1988. Essa data certamente marca uma guinada decisiva na obra de Dom Lefebvre. Que declaração do fundador da Fraternidade São Pio X lhe vem agora em mente como mais apropriada para o momento?
Certa vez, numa conversa privada, Dom Lefebvre disse que preferia morrer a ver-se na situação de se opor ao Vaticano. Isso mostra o espírito em que preparou as consagrações de 1988. Naquela altura, tal como hoje, não se tratava de fazer rebelião, mas de responder a uma necessidade cruel. Decisão necessária e inevitável, mas tomada a contragosto.
Noutra ocasião, Dom Lefebvre declarou, com serenidade e de modo profundamente sobrenatural, que se a Fraternidade São Pio X não fosse uma obra de Deus, não iria adiante e não sobreviveria a ele mesmo. Não é a nós que cabe responder se o é de fato ou não. Mas a história já começou a pronunciar-se.
No entender do senhor, quando e por que maneira a crise da Igreja poderá ter fim, e, com ela, esse sentimento de desagregação generalizada, tanto dentro quanto fora da Igreja?
A Providência só é quem conhece a resposta exata para essa pergunta. Da minha parte, acho que, depois de procurarem em vão e desesperadamente a paz e a unidade no princípio da colegialidade, no sínodo, no ecumenismo, no diálogo, na escuta, na inclusão, na conscientização ambiental, na fraternidade humana, na proclamação incessante dos direitos do homem etc., as autoridades se darão conta finalmente – e mais do que tarde – de que a verdadeira unidade, duradoura e inquebrantável, só pode ter por alicerces a Tradição da Igreja.
Desse modo, depois de a crise ter manifestado todas as suas consequências, depois de a apostasia se ter generalizado ainda mais e depois de as igrejas se terem esvaziado, essas autoridades entenderão afinal que não havia que inventar coisa alguma, que bastava simplesmente serem fiéis a Cristo Rei e proclamarem, a exemplo dos primeiros mártires, os direitos inalienáveis de Cristo perante um mundo neopagão.
Uma coisa é certa: na medida em que foi de Roma que a autodemolição da Igreja se originou, é só em Roma e por Roma que essa crise terrível terá fim. Entretanto, as sementes dessa reconstrução da Igreja estão já em ação, frutificando humildemente nas almas vivificadas pelo Espírito de Nosso Senhor. Nelas é que se vai silenciosamente preparando a vinda dos que um dia restabelecerão em todo o seu esplendor a realeza de Jesus Cristo.
“É só em Roma e por Roma que essa crise terrível terá fim.”
Decerto a crise vem durando mais tempo do que se podia imaginar. Isso se deve, na minha humilde opinião, à dificuldade intrínseca que Igreja encontra, ainda hoje, para reagir. Um corpo são consegue reagir prontamente aos agentes patógenos que o atacam. Porém, quanto mais enfraquecido está o corpo, mais difícil lhe é reagir. Da mesma maneira, a crise que nos assola foi determinada por um ataque desferido por princípios perniciosos contra princípios já enfraquecidos – enfraquecimento este que começara já desde bem antes das reformas.
Entretanto, como em toda provação, é preciso enxergar a ação da Providência e revestir-se de paciência. Quanto mais longa for a crise, mais Satanás correrá à solta, e portanto mais brilhante será o triunfo da Tradição. E, sobretudo, mais manifestas serão diante de todo o mundo a indefectibilidade e a divindade da Igreja.
Em nenhum outro tempo tanto como o de hoje, é para nos encher de alegria e esperança aquela promessa de Nosso Senhor: “As portas do inferno não prevalecerão sobre Ela” (Mt XVI, 18).
E para além disso, a certeza desse triunfo está assegurada, em primeiro lugar, por Aquela que esmaga todas as heresias: “Por fim, o meu Coração Imaculado triunfará.”
Entrevista concedida em Menzingen, em 19 de abril de 2026,
Domingo do Bom Pastor
1 – Pronuncia-se: “palharáni”.
2 – Esta ordem funda-se na transmissão da fé, sendo uma noção consagrada do direito canônico. Citemos um autor entre muitos: “Ut patet, fundamentum vitæ supernaturalis Ecclesiæ curæ et potestati concreditæ est fides”: “Está claro que o fundamento dessa vida sobrenatural confiada aos cuidados e à autoridade da Igreja, é a fé”. O direito, portanto, terá de determinar de maneira orgânica tudo o que diz respeito à fé: “quæ respiciunt fidei prædicationem, explicationem, susceptionem, exercitium, professionem externam, defensionem et vindicationem”: “as coisas que dizem respeito à pregação, explicação, recepção, exercício, profissão externa, defesa e devido reconhecimento da fé”. In Gommarus Michiels, OFM, cap., Normæ generales juris canonici, Paris, 1949, vol. 1, p. 258.
3 – O cardeal Castrillón Hoyos afirmou várias vezes, na década de 2000, que a Fraternidade São Pio X “não está em estado de cisma”, mas numa “situação canônica irregular”, e que devia ser regularizada dentro da Igreja.
4 – Carta do Rev. Pe. David Pagliarani endereçada ao cardeal Víctor Manuel Fernández, de 18 de fevereiro de 2026, anexo 2.
5 – Esta doutrina considera o colégio episcopal enquanto tal como um segundo sujeito da autoridade suprema na Igreja, ao lado do papa. Por conseguinte, a Igreja tende a transformar-se numa espécie de concílio permanente, justificando assim o poder ilimitado das conferências episcopais e a reforma sinodal atualmente em curso.
6 – Destacam-se os estudos do Padre Josef Bisig, fundador da Fraternidade São Pedro, e do Padre Louis-Marie de Blignières, fundador da Fraternidade de São Vicente Ferrer.