LEÃO XIV, AS “CHAVES DE SÃO PEDRO” E A FRATERNIDADE SÃO PIO X

La FSSPX ante el abismo del cisma: El biógrafo del Papa San ...

Um sermão do Papa mostra que a verdadeira questão em disputa entre o Vaticano e a FSSPX reside na mudança de conceito de verdade e na relação correta entre obediência e verdade.

Fonte: Vitis Vera – Tradução: Dominus Est

(Vitis Vera, blog de Matteo D’Amico) No dia 29 de junho, durante a missa solene da festa de São Pedro e São Paulo, o Papa proferiu um sermão na qual se deteve no tema da unidade, oferecendo uma interpretação específica da simbologia das “chaves de São Pedro”. Creio que não seja imprudente supor que, implicitamente, ele tenha procurado abordar a situação da Fraternidade São Pio X e as sagrações de 1º de julho:

Esta solicitude fiel e paciente pela unidade está bem representada no símbolo das chaves, com o qual frequentemente o identificamos (cf. Mt 16, 19). Com efeito, uma chave não derruba portas, mas abre-as e fecha-as, procurando no seu interior as alavancas certas e acompanhando os seus movimentos, para que os bloqueios desapareçam, os trincos deslizem e as dobradiças girem livremente, unindo os espaços e transformando tantos compartimentos isolados numa única casa acolhedora.”

Essa interpretação nos parece realmente original, mas pouco ligada à Tradição da Igreja. Para Leão, aliás, as chaves servem para abrir portas suavemente, unindo cômodos que, de outra forma, estariam separados e criando a unidade de um único ambiente. É óbvia, creio eu, a alusão à Igreja/casa comum com muitas divisões (muitas diversidades) que o Papa procura fundir em um único “espaço”, no qual, precisamente, todos possam coexistir, apesar da diversidade de ideias. Nada de dramático e tudo muito horizontal, mundano: São Pedro surge como um facilitador de contatos e de amizade entre as diversidades, uma espécie de conciliador dialético das diferenças. Não parece estar em jogo nada que remeta ao drama luminoso da vida eterna, à alternativa entre a salvação e a perdição das almas.

Na verdade, segundo a Tradição, as chaves que Cristo confia a São Pedro, na qualidade de primeiro Papa, são um símbolo supremo de poder:

” E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus. ” (Mateus 16, 18-19)

Aqui, São Pedro surge como o supremo katékhon contra as forças infernais, e as chaves são as chaves de acesso ao reino dos céus, à vida eterna, ao paraíso. É São Pedro quem tem o poder de definir infalivelmente a verdade e o erro, de guardar imutável o depositum da fé, de definir os limites que separam aqueles que pertencem ao rebanho de Cristo (os católicos que guardam a fé ortodoxa, aquilo em que sempre se acreditou) e aqueles que estão excluídos (os hereges que rejeitam os dogmas ensinados pela Igreja). As chaves são as chaves do Reino dos Céus, pois são também as chaves que permitem acessar e pertencer à Santa Igreja Católica, a qual, como Igreja militante, representa a antecipação e a presença do Reino dos Céus no mundo e na história.

São Pedro, portanto, é antes de tudo o guardião da fé, não o unificador de todas as divergências e diferenças possíveis, não o harmonizador de dissensões e interpretações opostas, não o ponto de equilíbrio entre dogma e heresia, entre verdade e erro. Pedro deve dividir, não unificar, rasgando com a espada da verdade a névoa teológica e o caos doutrinário que são “como a noite em que todas as vacas são pretas”: um abismo vazio no qual os homens se perdem.

Parece-me, portanto, que duas ideias muito diferentes sobre o significado das “chaves de São Pedro” estão em conflito aqui.

Mais adiante, Leo acrescenta:

Da mesma forma, a comunhão na Igreja não se constrói endurecendo nas próprias posições, mas procurando, no coração de todos, os pontos de encontro na Verdade, à luz da qual cada um se torna, para o outro, instrumento de crescimento.” (https://www.vatican.va/content/leo-xiv/it/homilies/2026/documents/20260629-pietro-e-paolo.html).

É verdade, não devemos ser rígidos em nossas “próprias posições “, mas devemos ser rígidos em nossa crença na verdade; uma coisa é, de fato, uma “posição” (discutível e subjetiva, relativa e passageira), outra coisa é a verdade da fé, ou seja, o dogma (que, por definição, não pode mudar).

No confronto com o erro e com a heresia, a Igreja sempre se  manteve “rígida“, a ponto de, nos solenes concílios ecumênicos (pensemos, por exemplo, em Trento), toda proclamação de um dogma que refutasse o erro oposto dos hereges terminar com anatematização de qualquer um que ousasse recusar a definição da verdade dada: “Anàthema sit !” era a fórmula usada.

Para o Pontífice, a ” comunhão “, ou unidade, parece ter se tornado mais importante do que a verdade, e isso é demonstrado pela longa frase final que citamos:

A comunhão na Igreja se constrói “buscando, no coração de todos, pontos de encontro com a Verdade”.

De fato — em condições normais, de ordem — é a Igreja Magisterial, guiada pelo Papa, que, ao proclamar as verdades da doutrina cristã, ensinar os dogmas e a lei moral, dar a interpretação correta das Escrituras, proteger a unidade e a catolicidade do culto litúrgico, definir e administrar os sacramentos de acordo com a Tradição, garante a comunhão entre os fiéis; os fiéis estão em comunhão entre si porque compartilham o mesmo batismo, a mesma fé, a mesma estrutura hierárquica com o Papa à frente, a mesma Missa. Portanto, a comunhão se fundamenta na verdade da qual o Papa deve ser o garante e guardião, e não é algo que deva ser ” construído ” (não está claro por quem) de baixo para cima, espontaneamente.

A impressão geral é que, no texto do Papa, a comunhão tenha mais valor do que a verdade, que, na melhor das hipóteses, parece ter sido rebaixada a um instrumento, a um meio capaz de conduzir à comunhão. Mas, para a fé cristã, em última instância, Cristo é a própria Verdade, é o Verbo encarnado, e é o fim último de todo fiel, o centro de tudo, o bem supremo e eterno; não é um mero meio em relação a um fim que o transcende — a comunhão —, que corre o risco de se tornar preponderante e até mesmo de se sobrepor à verdade.

Por fim, buscar ” nos corações de todos os pontos de convergência na Verdade ” é, a meu ver, uma expressão um tanto ambígua: Leão XIV parece querer dizer que nos corações de todos (os membros da Igreja Católica) é possível encontrar “pontos de encontro” na verdade, mas não, portanto, a mesma e comum verdade. Ou seja, não é possível encontrar a mesma verdade em todos, mas é possível encontrar em todos pontos de encontro parciais e limitados, nos quais se descobre que uma parte da verdade única e universal é compartilhada. Esse seria o fundamento da comunhão eclesial. É por isso que não se deve endurecer nas próprias posições; ou, o conceito é o mesmo, é por isso que não se deve ter uma ideia “rígida” do dogma católico, da Tradição e do ensinamento da Igreja.

A verdade não pode ser rigidamente enquadrada em fórmulas, em símbolos da fé ou em catecismos, pois isso corre o risco de impedir a “comunhão” com aqueles que vivem outras formas de expressão da verdade, ou verdades diferentes. Esses são conceitos já expressos por Francisco, que exortava a não lançar dogmas e verdades “como pedras”. Estamos, no fundo, diante do “mobilismo dogmático” tão característico do modernismo, que nada odeia tanto quanto a clareza doutrinária, as definições dogmáticas, a proclamação da verdade e a condenação do erro — todas coisas que correm o risco de “dividir”.

Parece-me que nessa visão diferente da verdade (e, portanto, do papel da Igreja) reside a dificuldade do Pontífice reinante e de todo o episcopado católico em compreender a posição da Fraternidade São Pio X, que nada mais faz do que permanecer, com razão, ligada à ideia de verdade que a Igreja sempre fez sua.

Para a Fraternidade, o bem da verdade, a ser crida e ensinada de forma incorrupta — é mais importante do que uma obediência não fundamentada na verdade (ou que implique a renúncia a denunciar o erro).

Para o Papa Leão e para a atual Hierarquia, a obediência, a “comunhão” e a unidade jurídica exterior são mais importantes do que a verdade — que, aliás, não deve obstruir a unidade (não se deve “enrijecer”…) e a obediência. A obediência torna-se, assim, uma obediência vazia, um mero fetiche: obedeço, sim, mas ao mero poder, não à verdade.

Mas o poder e a autoridade, inclusive os do Papa, só são legítimos e autênticos se se basearem na Verdade, pois foram criados para a Verdade, e de forma alguma podem prevalecer sobre a própria Verdade, nem colocá-la em risco, distorcê-la, esquecê-la ou ocultá-la, por exemplo, para agradar aos poderes mundanos, às forças terríveis e ameaçadoras que dominam este mundo de trevas.

O estado de grave e universal necessidade em que a Igreja se encontra, que D. Lefebvre profeticamente compreendeu já em 1970, decorre, em última análise, dessa atroz adulteração do próprio conceito de verdade, agora concebido como uma realidade mutável, dialeticamente habitada por contradições, que incessantemente emergem de baixo, dos sentimentos do “povo de Deus”, expressando simbolicamente um sentimento religioso obscuro e inconsciente. Nessa perspectiva, a Igreja — na realidade, a facção jacobina que a controlou a partir de 1962 — torna-se a vanguarda revolucionária que compreende o que os fiéis sentem e exigem como uma nova verdade a ser crida, e adapta prontamente a liturgia, os dogmas, o catecismo, a formação seminarística e as normas morais, para não se “tornar rígida” nem ficar para trás em relação ao que o mundo deseja ouvir.

No modernismo generalizado, a Igreja perde, assim, seu papel de “única arca de salvação”, passando a ser o eco pálido e histérico do mundo e de seus desejos volúveis e insanos, de sua dissolução, de sua ruína. O homem de Igreja “moderno” (seja clérigo, seja fiel) é, assim, tomado por um voluptuoso cupio dissolvi: vê com alegria o desaparecimento dos sinais daquilo que a Igreja sempre foi, tanto no plano litúrgico quanto no doutrinário. Uma embriaguez insensata o leva a regozijar-se com a destruição do que há de mais sagrado, com a profanação de toda memória, com a zombaria da piedade popular ou dos costumes que atravessaram os milênios.

A “nova” Igreja, saída da oficina judaico-maçônica do Concílio Vaticano II, pode tolerar tudo, exceto a Fraternidade São Pio X, que, aos seus olhos, encarna justamente a imagem odiosa da “velha” Igreja, doutrinariamente rígida e fechada ao “diferente” e aos “diferentes” de todo tipo, que deve morrer e ser esquecida por todos.

A Fraternidade tem um enorme defeito: possui fé. Ainda acredita na divindade e humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo; acredita na virgindade da Santíssima Maria; acredita nos milagres e se recusa a interpretá-los como meros símbolos ou como “narrações” das primeiras comunidades de fiéis; acredita na imortalidade da alma; acredita no julgamento particular de cada alma após a morte; acredita no fogo eterno do inferno para aqueles que não serão salvos; acredita na Presença Real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do altar; prega com firmeza a castidade pré-matrimonial; honra a virgindade consagrada; condena a homossexualidade; ensina a gravidade do pecado daqueles que recorrem à contracepção; professa a necessidade de que todos os homens, incluindo judeus e muçulmanos, se convertam, recebam o batismo e ingressem na Igreja Católica para salvar suas almas; poderíamos continuar por muito mais tempo, mas a própria Fraternidade já publicou uma lista muito mais completa de artigos doutrinários em uma completa profissão de fé católica.

Mas os homens da Igreja de hoje têm, justamente, horror dessas verdades sempre ensinadas pela Igreja e sempre acreditadas por quem é sinceramente católico, enquanto, como sempre, são abominadas pelos hereges.

Os homens da Igreja temem as verdades da fé e fogem delas porque sabem, ou intuem, que nada, como a verdadeira doutrina cristã e a verdadeira moral cristã, os exporia ao ódio e à perseguição de um mundo inimigo de Deus e esquecido de toda verdade eterna, de toda fé, de toda verdadeira caridade. Aliás, aproximam-se os tempos em que uma profissão integral da fé católica poderá levar, na melhor das hipóteses, a condenações criminais e a anos de prisão. Se se deseja agradar ao mundo, sabemos disso, é preciso falar de emergência climática, de poluição, de migrantes, de paz, de desmatamento da Amazônia; é preciso fingir que o diálogo ecumênico faz sentido, conversar amigavelmente com hereges e não crentes, convidar rabinos e imãs para as paróquias, abrir as portas aos gays e ao mundo LGBT, inserir com rara coragem algumas mulheres nos altos cargos dos órgãos do Vaticano e, por fim, não condenar ninguém e esquecer as obras de caridade espiritual.

A Fraternidade São Pio X, uma pequena realidade que não faz nada para se destacar no mundo e se tornar conhecida, e que cresceu no silêncio e no esquecimento, no desprezo e na perseguição, quer se goste ou não, é um dos sinais de contradição que Deus escolheu para impedir que os muitos progressistas, aos modernistas, aos conservadores

hipócritas, uma hierarquia morna e distraída, se acomodem na falsa paz daqueles que negam o estado de necessidade ou daqueles que pensam – mesmo de boa fé – que a obediência deve sempre prevalecer sobre a verdade, mesmo quando a casa está em chamas e as almas estão perdidas ou não têm ninguém para ajudá-las: “ A língua do bebê grudou no palato de tanta sede; as crianças pediam pão e não havia quem lhes partisse” (Jeremias, Lamentações, 4, 4).

Deus permitiu a crise desencadeada pelo Concílio Vaticano II e a revolução litúrgica da Missa idealizada por Paulo VI, mas não permitiu que houvesse ao menos uma voz profeticamente capaz de recordar, a qualquer custo, para o bem da Igreja universal, Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est.

Dessa perspectiva, a excomunhão iníqua e completamente injusta dos bispos da Fraternidade São Pio X torna-se precisamente o selo sobrenatural e misterioso da correção da posição da própria Fraternidade e de seu papel insubstituível a serviço da Igreja, para o bem das almas.