Sermão proferido no 5º Domingo depois da Empifania, no Priorado São Marcos, Silea, Italia
Tradução: Dominus Est
Os senhores ouviram esta bela parábola do semeador que sai para semear sua semente. Este semeador, Jesus, evidentemente, semeia a semente de sua palavra para que ela possa dar frutos e, então, vem Satanás e semeia o joio para impedir que essa semente dê bom fruto. Nesta parábola há toda a luta, a batalha entre a luz e as trevas, entre Jesus Cristo e Satanás, entre Deus e seus inimigos, particularmente o demônio e todas as seitas que o servem e que fazem seu jogo. Esta luta começa com o pecado original quando o demônio faz Adão e Eva caírem neste terrível pecado de orgulho. Ele propõe a eles que se divinizem, “sejam como deuses”, “sejam conhecedores do bem e o mal”. Ele propõe a eles uma divinização que ocorre através do conhecimento, e isto é o próprio da gnose, que estudamos no sábado passado para aqueles que participaram desta conferência organizada na Stella Mattutina.
A gnose, propondo a salvação através do conhecimento reservado a uma elite, a pessoas a quem esse conhecimento é proposto, traz um prurido ao orgulho humano, é claro, mas esse conhecimento que Satanás propõe é o conhecimento que propôs a Adão e Eva para fazê-los cair no pecado original, para buscar a salvação fora de Deus.
Uma divinização distinta daquela conferida pela graça santificante com a qual Deus enobreceu nossos primeiros pais ao introduzi-los na família divina. Fora de Deus, apenas trevas e morte subsistem, e Cristo veio restaurar esta ordem ferida pelo pecado original através de Sua doutrina, semeada para recordar ao homem sua condição de criatura, mais especificamente de criatura decaída, necessitada da Redenção do Salvador. Esta redenção exige nossa participação mediante a fé em Cristo e, principalmente, pela observância dos mandamentos que Ele nos legou, bem como pela virtude da religião, através da qual rendemos a Deus o culto e a adoração que Lhe são devidos. A virtude da religião é a virtude que nos conecta a Deus. Religare vem do latim. A virtude que nos permite dar a Deus o culto (a adoração) que Lhe é devido, uma parte da virtude da justiça, nos diz Santo Tomas, a justiça nos impulsiona a dar a cada um o que lhe é devido, mas a Deus nunca poderíamos prestar em equivalência porque Ele é nosso Bem Supremo, nosso ser, tudo o que temos depende Dele, dependemos para ser e agir. Se Deus não nos sustentasse na existência, cairíamos em um vazio, e a virtude da religião nos ajuda a prestar a Deus o culto (a adoração) que Lhe é devido. A Adoração é o ato da virtude da religião. Qual é o propósito do culto? Adorar a Deus, nosso Supremo Criador, reconhecer nossa submissão a Ele e isso nos ajuda a superar o grande obstáculo entre nós e Deus que é justamente o orgulho, esse pecado de Lúcifer e o pecado de Adão e Eva: sereis como deuses, mas sem Deus. Então a adoração nos ajuda a nos preparar para receber graças, para pedir perdão pelos nossos pecados e a nos dispormos a agradecer a Deus por tudo o que Ele nos deu e nos dá continuamente, continuamente.
A virtude da religião nos ajuda e nos torna conscientes de nossa condição, de quem é Deus e de quem somos nós. Deus é o ser por excelência, o ser que subsiste em si mesmo. O que isso significa? Que, em si mesmo, tem a razão de sua existência, seu ser se identifica com o existir, não pode não existir, por isso é eterno. Às vezes, no catecismo, as crianças fazem essa pergunta: mas quem criou Deus? Deus, precisamente, ninguém O criou, porque se não, não seria Deus, porque Ele possui em Si mesmo a razão de Sua existência, Ele é o ser necessário, diria Santo Tomás de Aquino, enquanto nós somos seres contingentes, ou seja, começamos a existir, um dia não existimos e então estamos sujeitos à corrupção e à morte.
Deus, por outro lado, É aquele que É. Foi assim que Ele se apresentou a Moisés na sarça ardente, Eu sou aquele que É, Deus tem existência em si mesmo e nós somos suas criaturas, existimos porque Ele nos sustenta precisamente no ser e este também é um grande mistério da misericórdia e da bondade de Deus, Deus sustenta o pecador na existência ao lado do seu pecado, sustenta esta pessoa que o ofende, que o blasfema, que o insulta, mas ainda assim o sustenta na existência porque se Deus não o sustentasse na existência, cairia no nada. É algo sobre o qual devemos meditar. Mons. Lefebvre frequentemente nos falava dessa realidade fundada precisamente no que Deus é e no que nós somos. Um dia, Jesus disse a Santa Catarina de Sena: Tu és aquela que não é; EU, ao contrário, Sou AQUELE que Sou. Nós somos aqueles que não somos, não somos para nós mesmos, existimos para Deus e na medida em que Deus nos faz existir. É por isso que devemos render culto (a adoração) a Deus e esse culto (a adoração) deve ser interior, vir do nosso coração, mas também deve se manifestar externamente porque somos um composto de corpo e alma, nosso corpo deve estar associado à adoração, também deve ser externo e deve ser público em determinadas circunstâncias. O que é adoração pública? É aquela que se oferece a Deus em nome da sociedade porque Deus foi quem criou a sociedade civil, foi ele quem deu ao homem uma natureza sociável e, portanto, a sociedade em seus representantes deve render culto (a adoração) a Deus, submeter-se à Sua lei. Aqueles que têm autoridade devem reconhecer sua dependência de Deus, prestar-lhe culto (a adoração) na religião verdadeira, na única religião verdadeira que Deus revelou, que é a católica, que podemos conhecer, que todo homem justo pode conhecer por meio desses sinais que a acompanham, que são os milagres que acompanharam a missão de Jesus e que acompanham a história da Igreja.
O culto (a adoração) público também é o que a Igreja presta a Deus em sua liturgia. A liturgia são as regras que a Igreja dá aos sacerdotes para que o culto (a adoração) público possa ser prestado a Deus e no culto público toda a Igreja é representada: a Igreja Militante que somos nós que lutamos na terra para conquistar o céu, a Igreja Triunfante, os Santos e Anjos do Céu e a Igreja Padecente, as almas do purgatório. Certamente os senhores já viram algumas imagens, algumas pinturas que representavam a Missa com todos os Anjos acima, a Corte Celestial, os Santos e depois abaixo as almas do purgatório que recebiam, por assim dizer, água que vinha do sacrifício da Missa para aliviar o fogo do seu sofrimento. Esta é uma realidade, mesmo que não a vejamos, toda vez que temos um culto público toda a Igreja está representada, estamos cheios de Anjos que adoram a Deus, Nosso Senhor está presente no Santíssimo Sacramento durante a Missa e as almas do purgatório podem se beneficiar do sacrifício. O que é verdade na Missa também é verdade na exposição do Santíssimo Sacramento. É uma oração pública da Igreja, de fato. Jesus é representado no Santíssimo Sacramento muitas vezes com dois anjos por perto, como está representado no estandarte da Confraria do Santíssimo Sacramento.
Portanto, essa virtude da religião que nos impele à adoração é fundamental para nós, para a sociedade e nos ajuda a superar o ziguezague que Satanás quer semear em nosso coração, em nossa alma, atiçando nosso orgulho e depois na sociedade. Porque qual é o grande inimigo de Nosso Senhor em nós e na sociedade? Isto é o que poderíamos chamar de liberalismo. O que é liberalismo? É uma doutrina filosófica que faz da liberdade algo absoluto, como se fôssemos absolutamente livres em relação a Deus, à verdade, como se não tivéssemos o dever de submeter nossa inteligência, nossa razão à verdade revelada, como se não tivéssemos deveres em relação a Deus, mas fôssemos livres para escolher qualquer religião ou não ter nenhuma, como se a sociedade não tivesse deveres em relação a Deus, devesse permanecer laica, como se o Estado devesse ser separado da Igreja. Todos erros gravíssimos que penetraram dentro da Igreja, pelo que podemos chamar de catolicismo liberal no século XIX, que queria conciliar os princípios da Revolução Francesa, liberté, egalité, fraternité, com a doutrina católica. Todo esse movimento condenado pelos papas, especialmente por Pio IX (com a encíclica Quanta cura, com o Syllabus), que penetrou na Igreja e explodiu com o último concílio, no qual se afirma que a liberdade religiosa é um direito fundado na dignidade humana, se afirma que o Estado católico deve deixar o direito a todas as religiões, a todos os muçulmanos de terem suas mesquitas, como nos principais bairros das grandes cidades, como declarou mais tarde o Cardeal Bertone ou o Cardeal Tettamandi.
Isto é liberalismo, esta é a liberdade religiosa que se opõe à realeza social de nosso Senhor Jesus Cristo, seu reino que deve ser realizado não apenas em nossos corações, não apenas em nossas famílias, mas também na sociedade. Porque, como nos lembra o Papa Pio XI, da condição da sociedade, de suas leis, depende a salvação do maior número de homens. Se uma sociedade é católica, se as leis do Estado são católicas, se os governantes observam o exemplo dado por nosso Senhor e reproduzem suas virtudes, eles dão um exemplo extraordinário a todos os cidadãos.
Se os chefes de Estado são santos, é claramente muito mais fácil alcançar a ordem civil, a paz social e também o objetivo final, que é o de todo homem, que é a salvação eterna. É por isso que é importante nos lembrarmos do nosso dever de adorar. Leiam este livro fundamental, estamos estudando-o com o grupo de jovens este ano, escrito por Monsenhor Lefebvre: Eles O Destronaram.
Quem destronou quem? Os homens da igreja que destronaram nosso Senhor Jesus Cristo. Mas queremos que ele reine em nossos corações, em nossas famílias, na sociedade, e é por isso que é importante voltar ao culto (a adoração). É por isso que insistimos tanto na adoração pública de nosso Senhor Jesus Cristo, nas procissões públicas, que nos lembram de seu direito de reinar sobre a sociedade.
A adoração eucarística é um grande remédio contra o liberalismo, porque quando vamos adorar Jesus solenemente exposto, nós O reconhecemos como nosso Rei, como nosso Deus. Nós nos ajoelhamos diante Dele, conforme a adoração é externamente manifestada, dobrando nossos joelhos e quando Jesus é solenemente exposto, dobramos ambos os joelhos nos curvamos diante Dele. Vemos no Evangelho como em tantos casos os homens reconheceram a divindade de nosso Senhor manifestando-a externamente com esse ato de adoração.
Os Magos que foram adorar Nosso Senhor Jesus Cristo, depois o cego curado por Jesus que se prostra e o adora, até os demônios. Os demônios reconhecem a divindade, forçados a reconhecer a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo. Os apóstolos no barco, depois que a tempestade passou, ficaram verdadeiramente humilhados diante de nosso Senhor, que tem o poder de dominar até mesmo os elementos.
Eis porque adorar, eis porque é importante vir e adorar nosso Senhor Jesus Cristo. Quanto? Uma hora por semana em comparação ao tempo que muitas vezes desperdiçamos ou então uma hora por mês para se dedicar à adoração, para vir adorar Jesus, o filho de Deus que está realmente presente e que nos dá uma audiência. Aquele de quem tudo depende, nossa vida, nosso futuro, que está pronto a ouvir nossas preces, a respondê-las se orarmos com fé.
Isso é fundamental e Nosso Senhor realizou muitos milagres para manifestar Sua presença no Santíssimo Sacramento, milagres eucarísticos que os senhores conhecem, como o de Lanciano, o de Bolsena, mas também milagres que se centraram na adoração do Santíssimo Sacramento, por exemplo, em Favernet, na França, em 1608 houve um grande incêndio em uma igreja onde o Santíssimo Sacramento era adorado. Tudo foi queimado, exceto o ostensório com Jesus presente, que permaneceu suspenso no ar por 33 horas diante de milhares de testemunhas e somente depois, durante a celebração da Missa, o ostensório foi colocado em um altar preparado especificamente para esse fim. Tem outro episódio que gostaria de relatar rapidamente.
Durante a Revolução Francesa, os senhores sabem que houve uma terrível perseguição contra os católicos, contra tudo que lembrasse a fé católica, e um pároco na Alsácia queria preservar da profanação um ostensório com o Santíssimo Sacramento. Um paroquiano o aconselhou a escondê-lo em um campo de feijão. Depois que a tempestade passou, o ostensório foi levado de volta e colocado na igreja. Os feijões cresceram e ainda estão crescendo com a imagem do ostensório.
Isso é algo bastante conhecido na França, mas um pouco menos aqui na Itália. Quantos milagres Jesus realizou? O de Turim, por exemplo, há uma grande igreja em Turim construída em uma praça pública que lembra o milagre do Santíssimo Sacramento no século XV. Após um roubo sacrílego, esses ladrões chegam nesta praça com seu burro, com o ostensório. O burro cai de joelhos, o ostensório sobe ao céu e permanece lá por um dia inteiro, até que o Bispo vem rezar, diante de toda a cidade reunida. Por que nossos pais tinham essa fé tão profunda em nosso Senhor Jesus Cristo eucarístico? Porque muitos milagres na história da igreja manifestam sua presença real.
Peçamos, portanto, a Nossa Senhora, que nos dê esse desejo de adorar Nosso Senhor, de vir adorá-Lo, justamente para crescermos nessa virtude da humildade, justamente para obtermos as graças que Ele quer nos conceder para nós mesmos, para nossas famílias, para a Igreja, para esta sociedade que está cada vez mais se desviando. Claro que não podemos resolver problemas que estão além das nossas forças, mas uma coisa podemos fazer: rezar, vir adorar Nosso Senhor Jesus Cristo e, como diz Santo Afonso Maria de Ligório: quem reza tem a onipotência de Deus em suas mãos, porque Deus prometeu atender à sua oração. Peçamos, pois, a Nossa Senhora que nos dê esta devoção eucarística, este amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e o tempo que passaremos vindo adorá-lo não será tempo perdido, somente na eternidade poderemos conhecer verdadeiramente as graças que nos foram concedidas justamente por esta hora de adoração.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.