PARA SE SANTIFICAR A ALMA DEVE DAR-SE TODA E SEM RESERVA A DEUS

entregDilectus meus mihi, et ego illi – “Meu amado é para mim, e eu para ele” (Cant. 2, 16).

Sumário. Certas almas são chamadas por Deus a uma alta perfeição; mas porque elas não lhe dão o coração todo e conservam afeição às coisas da terra, não se fazem, nem se farão jamais santas. Mais, correm grande risco de se perderem eternamente. Deves, pois, meu Irmão, desapegar-te de todas as criaturas e dar-te todo a Deus, sem reserva. Para alcançarmos um fim tão sublime, roguemos sempre ao Senhor que nos abrase com seu santo amor, porque este consumirá em nós todo o afeto menos puro.

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Dizia São Filippe Neri que todo o amor consagrado às criaturas é roubado a Deus, porque, na palavra de São Jerônimo, o Salvador é cioso de nossos corações:Zelotypus est Jesus. Porque nos ama estremecidamente, quer reinar só em nosso coração e não admite êmulos que lhe roubem parte do amor que requer só para si. Desagrada-Lhe, portanto, ver em nós apego a qualquer afeto que não seja para Ele. – Exige nosso Salvador porventura, demais, depois que deu por nós todo o seu sangue e a vida, morrendo sobre uma cruz? Não merece, porventura, que O amemos com todo o nosso coração e sem reserva?

Afirma São João da Cruz que todo o apego às criaturas impede que sejamos inteiramente de Deus. “Quem”, pergunta o Salmista, “quem me dará asas como de pomba, e voarei e descansarei?” (1) Certas almas são chamadas por Deus para serem santas; mas porque elas usam de reserva e não dão a Deus todo o seu amor e conservam afeição às coisas da terra, não se fazem, nem se farão nunca santas. Querem voar para o alto, mas porque são retidas por algum apego, não voam, mas ficam sempre terrestres e se põem em grande risco da perdição eterna. – É, pois, preciso desligar-se de tudo, cada fio, diz o mesmo São João da Cruz, quer grosso quer fino, impede a alma de voar para Deus.

Certo dia Santa Gertrudes pediu ao Senhor lhe fizesse saber o que dela desejava. Respondeu-lhe o Senhor: “Não desejo senão um coração vazio.” É o que Davi pediu a Deus: Cor mundum crea in me Deus (2) – “Cria em mim, ó Deus, um coração puro”. Um coração puro ou vazio, quer dizer um coração livre de todo afeto ao mundo. – Totum pro toto, escreveu Thomas Kempis. Devemos sacrificar tudo para ganhar tudo. Para que Deus seja todo nosso, devemos deixar tudo que não é Deus. Então a alma poderá com verdade dizer a Deus: Meu Jesus, renunciei a tudo por vosso amor, dai-Vos agora todo a mim. Continuar lendo

DOS ENGANOS QUE O INIMIGO SUGERE AO PECADOR – PONTO I

Resultado de imagem para tentação(Apesar de que muitos pensamentos incluídos nesta meditação já tenham sido considerados nas precedentes, é útil, todavia, compendiá-los e reuni-los aqui a fim de combater os enganos usuais de que se serve o demônio para iludir os pecadores à reincidência em suas culpas.)

Imaginemos que um jovem, réu de graves pecados, se confessou e recobrou a graça divina. O demônio tenta-o novamente, a fim de que recaia em seus pecados. O jovem resiste no princípio, mas começa a vacilar em vista das ilusões que o inimigo lhe sugere.

“Meu irmão — lhe direi — que queres fazer? Desejas, porventura, sacrificar a uma vil satisfação essa excelsa graça de Deus, que reconquistaste, e cujo valor excede ao do mundo inteiro? Queres firmar por tuas próprias mãos a tua sentença de morte eterna e condenar-te a sofrer para sempre no inferno?”

— “Não — responder-me-ás — não quero condenar-me, mas salvar a minha alma. Mesmo que cometa esse pecado, confessá-lo-ei logo…”

Tal é a primeira sugestão do tentador. Confessar-se depois! Entretanto, perde-se a alma! Dize-me: se tivesses na mão uma formosa joia de altíssimo valor, lançá-la-ias ao rio, dizendo: procurá-la-ei com cuidado, pois espero encontrá-la? Tens entretanto, em tua mão, essa joia riquíssima de tua alma, que Jesus Cristo resgatou com seu sangue. Continuar lendo

DA PUREZA DE INTENÇÃO

Resultado de imagem para caridade catolicaOmne, quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini Iesu Christi, gratias agentes Deo et Patri per ipsum — “Tudo quanto fizerdes por palavra ou por obra, tudo seja em nome do Senhor Jesus Cristo, rendendo graças por Ele a Deus Pai” (Col. 3, 17).

Sumário. Nunca deixemos de dirigir de manhã a Deus todas as ações do dia; e procuremos renovar a boa intenção ao menos no começo das ações principais. É certo que as ações, boas em si mesmas, porém feitas para granjear louvores humanos, para satisfazer ao amor próprio ou por qualquer motivo humano, são como que postas num saco furado. Ao contrário, a pureza de intenção faz preciosas as ações mais insignificantes, porquanto toda obra feita para Deus é verdadeiro ato de amor divino.

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A pureza de intenção consiste em fazer todas as ações com o único intuito de agradar a Deus. Jesus Cristo disse: “Se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso. Mas, se o teu olho for mau, todo o teu corpo estará em trevas.” Segundo a explicação de Santo Agostinho, o olho simples significa a intenção pura de dar gosto a Deus: o olho tenebroso significa a intenção má, quando se faz uma coisa por vaidade, ou para própria satisfação. Ora, segundo a intenção for boa ou má, a obra será também aos olhos de Deus boa ou má. — Poderá haver obra mais sublime do que o dar a vida pela fé? Todavia diz São Paulo que aquele que morre com outro intuito que não a vontade de Deus, nenhum proveito tem de seu martírio. Ora, se não aproveita nada o martírio, não sendo sofrido por amor de Deus, que utilidade terão todas as pregações, todos os livros e todos os trabalhos dos operários sagrados e todas as austeridades dos penitentes, quando feitos para granjear louvores humanos ou para contentar o amor próprio?

Disse o profeta Ageu, que as obras, embora santas por natureza, mas não feitas para Deus, são postas in sacculum pertusum (1), em um saco roto, quer dizer, que se perdem todas e nada resta, Ao contrário, toda a ação, por insignificante que seja, mas feita para o agrado de Deus, tem muito mais valor do que muitas obras grandiosas feitas sem reta intenção. — Lemos em São Marcos que a viúva pobre não deitou no cofre das oferendas do templo senão duas pequenas moedas, mas o Salvador dela disse: Vidua haec pauper plus omnibus misit (2) — “Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros”. Explica São Cypriano que ela deu mais do que os outros, porque deu as duas pequenas moedas com a intenção pura de agradar a Deus.

Para conhecer se uma ação foi feita com intenção reta, um dos melhores sinais é o não perturbar-se quando não se alcança o intento desejado. Outro sinal é se depois da obra feita se fica contente e tranqüilo, posto que outros murmurem ou a desaprovem. — Pelo mais, se acontecer que o que fez bem é louvado, não deve inquietar-se pelo medo da vanglória. Se tal pensamento surgisse na mente, deveria desprezá-lo e dizer com São Bernardo: Nec propter te coepi, nec propter te desinam: “Não é para ti que comecei, nem para ti a quero interromper”. Continuar lendo

O ROSÁRIO NOS PERIGOS

Resultado de imagem para rosárioJá faz bastante tempo, deu-se na cidade de Cartago, na república de Costa Rica, um terremoto tão violenta que a destruiu quase por completo.

A Revista “América”, dos Jesuítas de Nova York, narrando os pormenores da pavorosa catástrofe, chamou a atenção dos leitores para o fato seguinte:

Ezequiel Gutiérrez, que fôra presidente daquela república, no momento do cataclismo, achava-se em sua casa rezando o rosário acompanhado de toda a sua família. Algumas pessoas quiseram interromper a reza e fugir para a rua, mas o chefe obrigou-as a ficar até terminar o rosário.

Acabada a oração, saíram à rua e qual não foi o assombro de todas ao verem as casas convertidas em ruínas. Em toda a redondeza nenhum edifício ficara intacto; a desolação era completa; somente a casa do ex-presidente não sofrera nenhum dano, nem sequer um abalo.

Evidentemente Nossa Senhora a tomara sob a sua especial proteção, porque ali se rezava o seu rosário.

Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves

DEVEMOS MORRER

quadro-morte-justo-pecadorStatutum est hominibus semel mori, post hoc autem iudicium – “Está decretado aos homens que morram uma vez e que depois se siga o juízo” (Hebr. 9, 27).

Sumário. Meu irmão, por muitos anos que tenhas a viver, sabe que para todos os homens já está escrita a sentença de morte. O que sucedeu a nossos antecessores, suceder-nos-á também. Cedo ou tarde devemos morrer, e depois da morte espera-nos um juízo inexorável e uma eternidade ou de gozos infindos no paraíso, ou de tormentos indizíveis no inferno. Que insensatez seria, pois, a nossa, se para buscarmos uma fortuna que em breve se extingue, nos descuidarmos da eternidade!

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Para todos os homens está escrita a sentença de morte: és homem, deves morrer. Dizia Santo Agostinho que toda a nossa sorte, quer boa, quer má, é incerta; mas que só a morte é indubitavelmente certa. Cetera nostra bona et mala incerta sunt; sola mors certa est. É incerto se tal menino recém nascido virá a ser pobre ou rico, se terá boa ou má saúde, se morrerá moço ou velho; tudo isto é incerto; só é certo que deve morrer.

Vê: de quantos no princípio do século passado viviam na tua pátria, já não existe nenhum. Até os príncipes, os monarcas da terra passaram ao outro mundo; nada mais deles resta senão um mausoléu de mármore com uma bela inscrição, que tão somente serve para nos ensinar que dos grandes do mundo só resta um bocado de pó, resguardado por algumas pedras. Pergunta São Bernardo: Que foi feito dos amadores e adoradores do mundo? E responde: Nada deles restou senão cinzas e vermes. – Nihil ex eis remansit, nisi cineres et vermes.

Cada homem, pois, seja mesmo nobre ou rei, há de ser ceifado pela morte; e quando esta chega não há força que lhe possa resistir. Resiste-se ao fogo, diz Santo Agostinho, à água, ao ferro; resiste-se ao poder dos reis; mas não se pode resistir à morte. – Conta Vicente de Beauvais que um rei da França, ao chegar o fim da vida, exclamou: “Eis que com todo o meu poder não posso alcançar que a morte me espere uma hora mais.” Quando chega o termo da vida, ninguém o pode adiar por um instante sequer: Constituisti terminos eius qui praeteriri non poterunt (1) – “Tu lhe demarcaste os limites, dos quais ele não pode passar”. Continuar lendo

AÇÃO GENEROSA BEM PREMIADA

Imagem relacionadaJoão Mazio, homem ilustre e grande defensor do Papado contra os gibelinos, possuía um filho único de 19 anos. Moço distinto e adornado das mais belas virtudes.

Preparava-se o casamento com uma donzela, digna dele, quando traiçoeiramente foi assassinado. É fácil imaginar a dor que sentia D. João ao receber tão funesta nova.

Sem perda de tempo mandou seus vassalos em seguimento do covarde traidor, com a ordem de traze-lo vivo ou morto.

O perseguido tratou de refugiar-se na primeira casa que pôde. E foi exatamente em um prédio que pertencia a D. João.

Voltou um mensageiro a comunicar a feliz noticia ao irado pai.

– Senhor, o criminoso acha-se em vossas mãos, ordenai o devemos fazer com ele.

O primeiro pensamento, que lhe passou pela cabeça, foi dar-lhe a morte com as próprias mãos. Mas pediu que esperasse um instante.

Muito devoto de Maria Santíssima, retirou-se a fim de solicitar conselho.

Ajoelhou-se perante belíssima imagem, em seu oratório. Muito após, levantou-se todo calmo, buscou vultuosa soma de dinheiro e falou ao núncio:

–  Dê este dinheiro e meu melhor cavalo ao assassino, e diga-lhe que fuja prontamente.

O criado não compreendeu tal gesto. Estava a pensar que a dor lhe transtornara a mente.

Mas D. João repetiu:

– Obedeça, jamais hei de mudar o que Maria me aconselhou.

O doméstico partiu sem replicar.

O réu, admiradíssimo e confuso, pôs-se a salvo prontamente, envergonhado e arrependido de seu crime.

Voltou D. João resignado a seu quarto, e coisa inaudita! (escreveu Appiani na Vida de Santo Emídio) encostou sobre o genuflexório diante da imagem uma carta escrita de punho próprio por seu filho com os dizeres:

– “Amadíssimo pai, tão agradável tem sido a Deus a generosa misericórdia que, por amor de Maria, haveis usado para com o assassino, que, em prêmio dela, fui logo livre das penas do purgatório que devia sofrer por vários anos. Subo agora para o céu. Dentro de um ano, Deus vos dará outro filho. Continuai a viver cristãmente. Eu rogarei por vós no céu”.

Com efeito, um ano depois, e justamente no aniversário da morte do filho, D. João celebrava o nascimento de outro.

Como poderia gesto tão nobre e generoso não ser premiado por Nossa Senhora!  

Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri C. F. M.

TERCEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A OVELHA PERDIDA E O PASTOR DIVINO

ovelCongratulamini mibi, quia inveni ovem meam, quae perierat – “Congratulai-vos comigo, porque achei a ovelha que se tinha perdido (Luc. 15, 6).

Sumário. No Evangelho de hoje, Jesus Cristo representa-nos a sua misericórdia para com os pecadores. Com efeito, nós éramos como que ovelhas desgarradas: cada um ia errando por seu caminho. O divino Pastor, porém, solicito por nós, desceu do céu à terra, para nos reconduzir ao aprisco. Oh! que festa houve então no paraíso! Mas a festa se torna em luto, cada vez que pecamos ou caímos novamente do fervor na tibieza. Como, pois, teremos a triste coragem de fazê-lo? 

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I. Refere-se no Evangelho de hoje que os Fariseus e os Escribas murmuravam de Jesus Cristo, porque se chegava aos publicanos e pecadores. Então o Senhor lhes propôs esta parábola: Qual de vós possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu até a encontrar? Achando-a põe-na aos ombros muito alegre e chegando à casa, convoca os amigos e visinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se tinha perdido: Inveni ovem meam quae perierat.

Sob uma figura tão bela quis Jesus Cristo representar a sua própria pessoa e a sua misericórdia para com os pecadores. Todos nós éramos como que ovelhas desgarradas, cada um ia errando pelo seu caminho (1). Então Jesus, solicito por nossa salvação, desceu do céu à terra para nos reconduzir a seu aprisco e pôr-nos de novo no caminho que conduz à felicidade eterna. Pelo que São Pedro escreve: Eratis sicut oves errantes (2). – Vós éreis como ovelhas desgarradas; mas agora estais reconduzidos ao Pastor e Bispo de vossas almas.

Ah, meu divino Pastor Jesus! Eu também fui uma daquelas ovelhas perdidas, mas Vós me viestes buscar até me achar, como tenho a confiança. Vós me achastes e eu Vos achei. – Mas, ó Senhor, porque é que convidais vossos amigos, quer dizer, os anjos e os santos, a alegrarem-se convosco? Parece que antes lhes devíeis dizer que se alegrem com a ovelha, por Vos haver achado, seu Deus e seu tudo. É, pois, tão grande o amor que tendes à minha alma, que Vos sentis feliz por a terdes achado! E depois disso, como poderei tornar a Vos deixar, ó meu amado Senhor? Continuar lendo

CORAÇÃO DE MARIA, IMAGEM FIEL DO CORAÇÃO DE JESUS

sagraimacMater eius conservabat omnia verba haec in corde suo – “Sua Mãe conservava todas estas palavras em seu coração” (Luc. 2, 51).

Sumário. Todas as qualidades que nos dias anteriores contemplamos no Coração de Jesus acham-se, com as devidas proporções, também no Coração de Maria, sua Mãe. Durante os trinta anos que a Virgem Santíssima conviveu com Jesus, não fez senão estudar continuamente no livro do Coração do Filho. Se, pois, amamos deveras a Maria e queremos ser seus dignos filhos, estudemos igualmente o Coração de Jesus e aprendamos de Nossa Senhora a praticarmos a humildade e o amor para com Deus e para com o próximo.

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Depois da Encarnação do Verbo, a ocupação habitual de Maria Santíssima foi estudar o grande livro do Coração amabilíssimo de Jesus e nesta escola divina fez progressos tão grandes, que se tornou uma imagem fiel de Jesus. Pelo que todos os dotes que nos dias anteriores contemplamos no Coração do Filho, acham-se também, observadas as devidas proporções, no Coração da Mãe.

Com efeito, que coração há mais amável que o Coração de Maria? Coração todo puro, santo, imaculado, perfeito; Coração, em suma, no qual Deus acha as suas delícias, as suas complacências. – Coração ao mesmo tempo tão amante dos homens, que, se todas as criaturas unissem as suas forças, nem de longe conseguiriam igualar o amor de Maria: Amat nos amore invicibili (1) – “Ela nos ama com amor inexcedível”. Este amor de Maria para com o gênero humano, rivalizando com o do Eterno Pai, levou-a a fazer o sacrifício doloroso, de entregar à morte seu Filho inocente. Leva-a continuamente a compadecer-se com ternura maternal das nossas misérias; a socorrer-nos generosamente em nossas necessidades; a ser-nos reconhecida e recompensar fielmente qualquer obra boa feita por seu amor, qualquer palavra dita para glória sua, cada bom pensamento que lhe agrada.

Como retribuição de todos os benefícios que a divina Mãe nos dispensou e ainda continuamente nos dispensa, não exige senão nosso amor; porquanto seu coração, à semelhança do de Jesus, é um coração desejoso de ser amado. – Vê, portanto, quanta aflição deve sentir vendo-se pago com desprezos. Não sejas tu do número daqueles ingratos que assim afligem a nossa terna Mãe. Continuar lendo

O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Resultado de imagem para sacred heart jesusFonte: Hojitas de Fe, 94. | Seminário Nossa Senhora Corredentora FSSPX.
Tradução:
Dominus Est

Quem nunca ouviu contar, alguma vez, a história daquele irmão leigo que, entrando na religião para servir a Deus, mas não podendo fazê-lo como os outros monges, tinha uma vida interior sumamente simplificada?

Durante o seu trabalho, não sendo capaz de ter pensamentos elevados sobre Deus, limitava-se a dizer repetidamente: “Creio em Deus, espero em Deus, amo a Deus”. Quando ele se retirava para a igreja, não sabia como meditar como os outros religiosos, e por essa razão continuava recitando sua jaculatória favorita: “Creio em Deus, espero em Deus, amo a Deus”. Depois de algum tempo, aquele irmão, que em nada brilhara de especial durante sua vida, morreu e foi enterrado no cemitério da comunidade. E qual não foi a surpresa dos religiosos quando se deram conta de que, em cima do túmulo do humilde leigo, brotara uma flor de extrema beleza. Uma vez crescida a flor, perceberam que tinha três pétalas, e em cada uma das pétalas estava escrito com letra de ouro um dos três lemas do humilde irmão: “Creio em Deus, espero em Deus, amo a Deus”. Admirado pelo prodígio, o superior ordenou que cavassem para ver de onde brotava a flor; e então se pode ver que a flor estava enraizada no coração do humilde irmão leigo.

Algo semelhante acontece com o Sagrado Coração de Jesus. A história testemunha a repentina aparição de belíssimas flores: • de Apóstolos que pregaram o nome de Jesus até os confins da terra; • de Virgens que lhe consagraram toda sua vida, e de Mártires que não hesitaram em sacrificá-la por ele; • de Doutores que ensinaram aos povos as verdades divinas; • e de um sem-número de almas que, amando e confessando a Cristo, começaram a viver cristãmente. E essas flores começaram a crescer de tal forma que toda a sociedade se viu transformada e, acabou por aceitar as leis do divino Crucificado. Pois bem, se nós, por uma santa curiosidade, quiséssemos descobrir onde se encontram as raízes dessas flores, veríamos que estão no Sagrado Coração de Jesus. Continuar lendo

FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

sagrFidelis est qui vocavit vos, qui etiam faciet – “Fiel é aquele que vos chamou: ele também assim fará” (1 Thess. 5, 24).

Sumário. Os homens prometem facilmente, mas depois faltam muitas vezes à palavra, ou porque enganaram prometendo ou porque não a podem ou não a querem guardar. Não faz assim Jesus Cristo, que, sendo Deus todo poderoso, não pode enganar nem mudar. Quanto melhor é, pois, ter que tratar com este Coração divino do que com os homens! Ponhamos, porém, a mão na consciência: somos nós fiéis a Deus, assim como ele nos é fiel? Quantas vezes temos já prometido amá-Lo e depois o temos traído!

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Oh! Quanto o belo Coração de Jesus é fiel para com aqueles que Ele chama a seu santo amor! Fiel é aquele que vos chamou: ele também assim fará. A fidelidade de Deus nos dá ânimo para esperar tudo, se bem que nada mereçamos. Depois de expulsarmos a Deus de nosso coração, basta que Lhe abramos a porta para Ele entrar logo segundo a promessa feita: Si quis aperuerit mihi ianuam, intrabo ad illum et coenabo cum illo(1) – “Se alguém me abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele”. – Se desejamos graças, peçamo-las em nome de Jesus Cristo, visto que Ele nos prometeu que assim as obteremos:Se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará (2). Nas tentações, confiemos nos méritos de Jesus, e Ele não permitirá que os inimigos nos incomodem acima das nossas forças: Fidelis autem Deus est, qui non patietur vos tentari supra id quod potestis (3).

Oh, como é preferível tratar com Deus a tratar com os homens! Quantas vezes estes não prometem e depois faltam à palavra, quer porque enganam na promessa, quer porque depois da promessa mudam de opinião. Non est Deus quasi homo, ut mentiatur; nec ut filius hominis ut mutetur (4). Deus, assim diz o Espírito Santo, não pode ser infiel em suas promessas, porque não pode mentir, sendo a verdade mesma; nem pode mudar de opinião, porque tudo o que quer é justo e reto. Prometeu acolher todo aquele que a Ele se chega; dar auxílio ao que o pede, amar àquele que O ama, e depois não há de fazer? Dixit ergo, et non faciet? Continuar lendo

AJUDE-NOS!!!

CAPELA

Prezados amigos, prezados leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vocês que acessam e gostam de nosso blog, vocês que acompanham as ações da FSSPX pelo mundo, vocês que lutam pelo Reinado Social de Nosso Senhor, vocês que sabem que a Tradição é a única solução para a restauração a Igreja… AJUDE-NOS! 

Estamos, mais uma vez, pedindo vossa ajuda nessa campanha em prol da compra de um terreno e futura construção de mais uma Capela para a Tradição e para a Santa Igreja. Sabemos que o caminho é longo e árduo, por isso, toda ajuda é importante.

CLIQUE AQUI PARA ALGUMAS PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O PROJETO

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Faça um gesto nobre de caridade, por amor à Santa Igreja!!

Ad Majorem Dei Gloriam

Aproveitamos para agradecer a todos que nos ajudam ou ajudaram em algum momento nessa campanha, mesmo de forma anônima. Contem com nossas orações.

Que Nossa Senhora os conduza ao caminho da santidade.

O ESTADO RELIGIOSO

Resultado de imagem para irmã fsspxA maioria das moças é, sem dúvida, chamada ao casamento. Deus, no entanto, escolhe, às vezes, uma distinta jovem para o estado religioso, onde ela O deverá servir, com grande fidelidade e amor, pertencer-Lhe de certo modo totalmente e tornar-se Sua esposa mística. Sua vida toda com suas energias, desejos e esforços, transforma-se numa agradável oblação, num sacrifício generoso a Deus, à humanidade sofredora, ou à mocidade ignorante.

Tal vocação é, por certo, grande honra e graça especial, pelo que não se poderia deixar de felicitar a uma jovem assim contemplada.

1º- O estado religioso é muito elevado.

É antes de tudo um estado de virtude e perfeição. Quem o segue se compromete a trabalhar nele seriamente para a salvação, porquanto além do exercício das demais virtudes, também se observam os conselhos evangélicos. Pode acontecer que alguns membros isolados não se esforcem com zelo eficaz para a perfeição, que um ou outro não haja rompido inteiramente com o mundo e, até mesmo, com o pecado. São, todavia exceções; em regra, há nos conventos de religiosos um sério e fervoroso esforço para a conquista da virtude. O mesmo também se verifica nos conventos de religiosas. Que bela vida de oração e piedade aí domina!

Quanto amor e fidelidade os religiosos dedicam a Jesus Cristo. Quão alegremente visitam o Santíssimo Sacramento! Com que boa vontade e com que prazer executam eles os trabalhos determinados! Como observam conscienciosamente a disciplina e as prescrições da regra!

Que de esforços para mutuamente praticar a caridade fraterna e suportar com paciência as cruzes quotidianas! É incontestável que de modo geral reina em nossas Ordens religiosas e nos conventos femininos uma vida florescente de virtudes. O estado religioso é um coeficiente inestimável para a salvação da humanidade. Não quero aqui relatar o que testifica a história sobre a atuação das Ordens religiosas, para incrementar o Cristianismo, para a formação, para a cultura, para as ciências e para as artes. Continuar lendo

DOS MAUS HÁBITOS – PONTO III

Imagem relacionadaPrivado da luz que nos guia e endurecido o coração, que admira que o pecador tenha mau fim e morra obstinado em suas culpas? (Ecl 3,27). Os justos andam sempre pelo caminho reto (Is 26,7). Ao contrário, aqueles que pecam habitualmente caminham sempre em linhas tortuosas (Sl 11,9). Se deixam o pecado por algum tempo, voltam de novo a ele; pelo que São Bernardo os ameaça com a condenação. Talvez algum deles queira emendar-se antes que lhe chegue a morte. Mas é precisamente nisto que está a dificuldade: o pecador por hábito, ainda que chegue à velhice, não se emenda.

“O homem, segundo o caminho que tomou sendo jovem, — diz o Espírito Santo — não se afastará dele, mesmo quando for velho” (Pr 22,6)

A razão é que — diz São Tomás de Vilanova — nossas forças são muito débeis, e, portanto, a alma privada da graça não pode abster-se de novos pecados. Além disso, não seria grande loucura se nos propuséssemos jogar e perder voluntariamente todos os nossos haveres, esperando reavê-los na última partida? Não é menor a necessidade de quem vive em pecado e espera reparar tudo no derradeiro instante da vida. Pode, porventura, o etíope mudar a cor de sua pele, ou o leopardo as suas malhas? Tampouco poderá levar vida religiosa aquele que tem costumes perversos e inveterados (Jr 13,23), senão que, por fim, se entregará ao desespero e acabará desastrosamente os seus dias (Pr 28,14).

Comentando São Gregório o seguinte texto do livro de Jó: “Abriu-me chaga sobre chaga; caiu sobre mim como um gigante” (Jo 16,15), disse: Se alguém se vê assaltado por inimigos, mesmo que receba uma ferida, ainda poderá continuar a defender-se; mas se outra e mais vezes o ferirem, irá perdendo as forças, até que, afinal, cai desfalecido. Continuar lendo

UNS CONSELHOS OPORTUNOS

Resultado de imagem para mulher piedosa– Levantar cedo – é hábito precioso, indispensável à mãe de família. Procura-lhe a vantagem de ter muito tempo de folga antes do almoço para seus exercícios de piedade, para percorrer a casa, a ver se está tudo em ordem, se foram bem exexutadas suas ordens da véspera. Dá-lhe tempo para assear e vestir os filhos, repartir os trabalhos e tomar todas as providências necessárias.

– Seguir uma economia discreta – encanta o marido e educa os filhos e conserva as coisas. Partidária de tal economia, a mãe de família nada deixa perder, nada estraga; conserta, remenda, aproveita, zela, arrecada, guarda em boa ordem tudo, de modo que, quando é preciso, tem à mão o que quer, sem perder tempo e paciência em procuras inúteis.

Ela sabe que tudo tem serventia, e que não se deve desperdiçar a menor parcela do dom de Deus, como diz a Escritura (Ecli 14,14). Sabe que pequenas despesas inúteis fazem, afinal, a ruína e que vintens poupados dão, ao cabo de algum tempo, centenas de mil réis. Assim, por seu trabalho e economia, aumenta, como abelha solícita, os recursos da família, e até vale ao marido nos dias de maior apuro, não falando dos pobres de quem é a providência visível.

Todos a louvam por trazer tudo em casa muito poupado, em grande ordem, asseio e lustre, evitando luxos e vaidades, contentando-se de modesta simplicidade, de forma a ser o menos onerosa possível a seu marido. Continuar lendo

DOS MAUS HÁBITOS – PONTO II

Resultado de imagem para arrependidoOs maus hábitos, além disso, endurecem o coração, permitindo-o Deus justamente em castigo da resistência que se opõe a seus convites.

Diz o Apóstolo que o Senhor “tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer” (Rm 9,18). Santo Agostinho explica este texto, dizendo que Deus não endurece de um modo imediato o coração daquele que peca habitualmente, mas que o priva da graça em castigo da ingratidão e obstinação com que repeliu a que antes lhe havia concedido; e em tal estado o coração do pecador se endurece como se fosse de pedra.

Seu coração se endurecerá como pedra, e se apertará como a bigorna do ferreiro (Jo 41,15). Sucede assim que, enquanto alguns se enternecem e choram ao ouvir falar do rigor do juízo divino, das penas dos condenados e da Paixão de Cristo, os pecadores por hábito nem sequer se comovem. Falam e ouvem falar destas coisas com indiferença, como se disso não se importassem: e por causa destes golpes do mau costume, a consciência se endurece cada vez mais (Jo 41,15).

Por conseguinte, nem as mortes repentinas, nem os tormentos, trovões e raios, são capazes de atemorizá-los e fazê-los voltar a si. Ao contrário, mergulharão cada vez mais profundamente no sono da morte em que, perdidos, repousam (Sl 85,7). O mau hábito sufoca, pouco a pouco, o remorso da consciência de tal modo, que ao pecador habitual os pecados mais enormes não passem de coisas sem importância (Santo Agostinho). Perdem pecando, diz São Jerônimo, até essa vergonha que a ação culposa traz consigo naturalmente. São Pedro compara-os ao suíno que se revolve no lamaçal (2Pd 2,22), pois assim como este animal imundo não percebe o fétido da estrumeira em que se revolve, assim aqueles pecadores são os únicos insensíveis à hediondez de suas culpas, que todas as outras pessoas percebem e detestam. E se este lodaçal lhes tira até a faculdade da visão, é, porventura, para admirar — diz São Bernardino — que não voltem a si, nem quando os açoita a mão de Deus. Daí resulta que, em vez de se afligir com os seus pecados, ainda se regozijam, se riem e se vangloriam deles (Pr 2,14). Continuar lendo

SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

Clique aqui e ouça o belíssimo ofício Adoro Te Devote, composto por Santo Tomás de Aquino a pedido do Papa Urbano IV, no século XIII, por ocasião da promulgação da Festa de Corpus Christi através da Bula “Transiturus de hoc mundo”.Jesus Cristo habita conosco no Santíssimo Sacramento?Ó sagrado convite em que se recebe a Cristo:
renova-se a memória de sua Paixão;
a alma se plenifica de graça,
e nos é dado um penhor da glória futura.

Fonte: Hojitas de Fe, 200, Seminário Nossa Senhora Corredentora, FSSPX
Tradução:
Dominus Est

Nas Vésperas da festa de Corpus Christi cantamos esta linda antífona, escrita (como todo o Ofício do Santíssimo Sacramento) por Santo Tomás de Aquino, e carregada de significado teológico.

Com efeito, Santo Tomás nos ensina na Suma Teológica (III, 60, 3) que todo sacramento, especialmente o da Eucaristia, é um sinal sensível que significa a nossa santificação, na qual podemos considerar três coisas: 1º a própria causa da santificação, que é a Paixão de Cristo; 2º sua essência mesma, que é a graça; 3º seu fim último, que é a vida eterna.

E assim, a Sagrada Eucaristia é um sinal rememorativo da Paixão de Cristo; um sinal demonstrativo do que se realiza em nossas almas pela Paixão de Cristo, a saber, a graça; e um sinal prenunciativo da glória futura. Consideremos, pois, cada um desses três pontos.

1º A Sagrada Eucaristia – sinal rememorativo da Paixão de Cristo

Esta é uma das verdades fundamentais que se nos quer fazer esquecer hoje, quando nos apresentam a Sagrada Eucaristia somente sob o aspecto da comunhão ou de ceia. No entanto, a Sagrada Eucaristia deve ser apreciada e considerada também sob outro aspecto, mais importante, que é o de sacrifício. A Sagrada Eucaristia não é tão somente uma comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo; é, antes de tudo, a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário. Ambos os aspectos são inseparáveis. Sem Sacrifício não haveria Sacramento: uma vez que Cristo faz-se presente sob as espécies de pão e vinho para ser imolado. Da mesma forma, sem Sacramento não há Sacrifício: porque, para que haja sacrifício, é necessária a presença da Vítima e porque a integridade do Sacrifício exige a comunhão com a Vítima sob o aspecto de Sacramento. Continuar lendo

O ESPÍRITO SANTO E O “ESPÍRITO” DO VATICANO II

esp

Fonte: Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora | Hojitas de Fe, 218
Tradução:
Dominus Est

Domingo celebramos a festa de Pentecostes, isto é, a vinda do Espírito Santo, que Nosso Senhor Jesus Cristo prometeu enviar a seus Apóstolos, para completar a obra que, segundo os desígnios do Pai celestial, devia Ele deixar incompleta, para que a terceira pessoa da Santíssima Trindade a culminasse. Pois bem, é importante observar o modo como o Espírito Santo se manifesta neste mistério, e os principais sinais deste divino Espírito, sobretudo hoje em dia, em que devemos ter um critério para discernir se o concílio Vaticano II é obra do Espírito Santo, como toda a hierarquia da Igreja não deixa de repetir.

1º Verdadeira ação do Espírito Santo

O Espírito Santo, ao vir sobre os Apóstolos, tem uma missão concreta. Assim como Cristo, ao apresentar-se a este mundo, encontrou-se com todo um plano de vida já traçado de antemão, que Ele devia cumprir sem dele apartar-se nem um único til, a fim de manifestar-se como o Messias prometido, como o Filho de Deus, como o Salvador anunciado; do mesmo modo o Espírito Santo tem seus sinais distintivos, que serão os sinais de toda a sua obra. Quais são estes sinais? Nosso Senhor Jesus Cristo os deixou claramente indicados aos Apóstolos.

1º Primeiramente, o Espírito Santo animará toda a Igreja católica, estará dentro dela, e somente operará através dela.

“E eu pedirei ao Pai, e ele vos dará um outro Paráclito [outro Consolador], que ficará para sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não pode aceitar, porque não o vê, nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e está em vós”. (Jo 14, 16-17).

Assim como o Espírito Santo animou todos os atos da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, do mesmo modo este mesmo Espírito deve animar agora a Igreja, que é seu Corpo místico. E assim como em Pentecostes o Espírito Santo plenificou toda a casa onde os Apóstolos estavam reunidos, do mesmo modo o Espírito Santo plenificará a Igreja católica, e fora dela não se poderá encontrá-Lo: foi necessário que os Apóstolos acudissem ao Cenáculo para receber os dons deste Espírito, é necessário acudir à Igreja Católica para receber de sua hierarquia os sacramentos e as graças do Espírito Santo. Continuar lendo

DOS MAUS HÁBITOS – PONTO I

Imagem relacionadaImpius, cum in profundum venerit peccatorum, contemnit – “O ímpio, depois de ter caído no abismo dos pecados, tudo despreza” (Pr 18, 3) 

Uma das maiores desventuras que nos legou a culpa de Adão é a nossa propensão ao pecado. Dela se lamenta o Apóstolo, sentindo-se levado pela concupiscência ao próprio mal que aborrecia:

“Veio outra lei a meus membros que… me leva preso à lei do pecado” (Rm 8,25)

Resulta daí que nós, infeccionados de tal concupiscência e cercados de tantos inimigos que nos incitam ao mal, dificilmente chegaremos sem culpa à glória. Reconhecida, pois, esta fragilidade a que estamos sujeitos, pergunto eu:

“Que dirias de um viajante que, devendo atravessar o mar durante forte tempestade e num barco meio avariado, quisesse carregá-lo com tal peso que, mesmo que não houvesse tempestade e ainda que o navio fosse de construção resistente, bastaria para fazê-lo soçobrar?…”

Que prognóstico formarias sobre a vida deste viajante? Pois pensa o mesmo do indivíduo de maus hábitos e costumes, que deve cruzar o mar tempestuoso da vida, em que tantos naufragam, num barco frágil e avariado, como é nosso corpo no qual viaja a alma. Que sucederá se o carregarmos ainda com o peso irresistível dos pecados habituais? É difícil que tais pecadores se salvem, porque os maus hábitos cegam o espírito, endurecem o coração e ocasionam provavelmente a obstinação completa na hora da morte.

Primeiramente, o mau hábito nos cega. Qual o motivo que fazia os Santos implorar incessantemente a luz divina, temendo converter-se nos pecadores mais abomináveis do mundo? É porque sabiam que, se chegassem a perder a luz divina, poderiam cometer culpas horrendas. Continuar lendo