A FÉ E A CIÊNCIA

38-rc-frame-joelhosComo a senhora sabe, o homem nasce ignorante. E só sai da ignorância com dificuldade. O homem custa a aprender e quanto mais elevada a ciência que queremos adquirir, mais ela nos custa. O mal é tanto que não só temos dificuldades em aprender, como muitas vezes sentimos repugnância infeliz pelo estudo, repugnância que nos faria sentir uma espécie de tranqüilidade, uma felicidade estúpida por não saber nada.

E, no entanto, não é a ignorância em si que nos agrada. O que nos agrada é o fato de não precisarmos fazer o esforço necessário para chegar à ciência.

Nós cristãos, conhecemos a causa de tão lamentável estado, pois a fé nos indica ser este um dos efeitos do pecado original.

Quando Deus, pelo batismo, apaga em nós o pecado original, Ele nos dá a fé e com a fé a necessidade de conhecer as verdades cristãs e a inclinação para recebê-las e guardá-las.

Essa necessidade das almas não é coisa para ser negligenciada. Para isso a Igreja tem o catecismo. Mas, infelizmente, as lições duram pouco e são facilmente esquecidas. A educação cristã é muito relaxada nas escolas, quando não é totalmente desprezada. Disso resulta que os cristãos, geralmente, não são suficientemente instruídos naquilo que, no entanto, teriam a maior necessidade de conhecer a fim de conservar a fé, praticá-la fielmente e guardá-la até o fim de sua vida. Este é mais ou menos o estado geral dos cristãos cujos estudos terminaram na escola primária. Mas nós temos escolas secundárias, escolas superiores, até mesmo universidades. Se a ciência está em algum lugar, é nestes lugares que deveria estar. Continuar lendo

A MORAL SEM DEUS

santos1A moral é jóia tão indispensável à humanidade, que todos consideram sua defesa como absolutamente necessária. Por mais errados que sejam os conceitos de muitos acerca da religião, todos proclamam unanimemente a necessidade de proteger os bons costumes e de salvá-los, em prol da humanidade.

Mas esta é justamente a pergunta: pode-se falar de moral sem religião? Pode alguém ter bons costumes sem ter fé? Quando se instala a bússola num navio, procura-se isolá-la, o melhor possível, da influência de correntes magnéticas que poderiam provir da couraça do casco. A razão é a bússola da vida humana; correntes estranhas, oriundas do corpo — a inclinação para o mal — desviam-na facilmente e desgovernam nossa vida, se ela não estiver orientada para determinado ponto, muito acima de toda corrente de egoísmo e da ilusão própria. Se os homens, e não Deus, tivessem determinado o que é moral ou imoral, andariam muito mal parados a respeito da moralidade. Pois o que eu chamo pecado, com o mesmo direito outro poderia chamar virtude.

Portanto, quem não crê no Supremo Legislador, superior à natureza, quem não crê numa vida sobrenatural, depois da terrena não pode falar em moral. Em primeiro lugar deve o homem saber que é a criatura humana e quem é Deus; só então compreenderá o que deve fazer ou omitir.

Uma vida morigerada exige luta; não pode ser diversamente. Um colegial se exprimia assim: “Por que é tão difícil ser bom e tão fácil ser mau?” Não notaste ainda, e repetidas vezes, esse antagonismo trágico em teu coração? A razão reconhece o bem e o deseja; nossa natureza decaída, pelo contrário, arrasta-nos ao mal… Continuar lendo

AS DEVOÇÕES SEM A FÉ

devoA fé, que para o cristão é o princípio único das obras salutares, é igualmente o princípio da devoção e mesmo, se quiser, das devoções quando a devoção e as devoções são realmente salutares.

Vimos que muitas obras podem nascer ao lado da fé, mas que não são por si só, úteis à salvação. É isto exatamente o que se passa com a devoção e as devoções. Elas podem nascer, se desenvolverem e crescerem, até mesmo de modo prodigioso, paralelas à fé e no entanto serem inúteis para a salvação eterna dos homens.

Certamente gostará de ouvir o que li sobre este assunto no «Année Dominicaine» sob a assinatura do padre Vicent Maumus: – «A prática da devoção sem o conhecimento de Deus, é o grande obstáculo para o progresso das almas.

As almas são pouco esclarecidas, primeiro porque se tem poucas luzes, em seguida porque se taxa facilmente de curiosidade vã uma ciência que não se aprecia. As almas são pois pouco esclarecidas ao mesmo tempo que são cumuladas de práticas de devoção multiplicadas ao infinito; são envolvidas em todas as espécies de confrarias; são levadas a crer, como último esforço de piedade católica, na propaganda ativa de certas devoções cuja corrente, se não for freada, ameaça sufocar o amplo espírito cristão». «Que são hoje os livros de piedade? Pondo à parte algumas raras exceções, não passam de tratados superficiais que só se dirigem à imaginação e à prática exterior de tais ou quais devoções da moda. Há alguns anos um grande bispo se lamentava pela profusão com que se espalhou esse tipo de livro, e Bossuet já dizia: Não compreendo mais nada dos diretores».

A senhora, lendo esta citação com grande atenção, sente todo seu peso. Parece mesmo que daqui a ouço lembrar o que disse Joseph de Maistre: «Deus abençoe a partícula SE!»

De boa vontade aceitarei com a senhora essa desejável benção e terminarei aqui esta carta.

Digamos juntos: Credo.

Cartas sobre a fé – Pe. Emmanuel-Andre

SÚPLICA À TRINDADE

TrindadeMeu Senhor, olha com misericórdia para o teu povo e para a hierarquia da santa Igreja. Se perdoares a tão numerosas criaturas, concedendo-lhes a iluminação da inteligência, serás mais glorificado que só por mim, pobrezinha que tanto pequei, responsável por todos os males. Livres das trevas do pecado mortal e da condenação eterna por tua infinita bondade, todos te louvariam. Por essa razão eu te suplico, caridade divina e eterna, que te vingues sobre mim. Tem piedade do teu povo! Não me afastarei de tua presença enquanto não perceber que usaste de misericórdia para com o teu povo. Que prazer teria eu em ganhar a vida eterna, se teu povo estivesse na morte e se a escuridão aumentasse na tua Esposa – que é toda luz – por causa dos meus pecados e dos pecados dos demais?

Eu quero, portanto, e imploro tal graça; que tenhas piedade do teu povo, pela caridade incriada que te levou a criar o homem à tua imagem e semelhança, quando disseste: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26).

Ó sublime e eterna Trindade, agiste assim a fim de que a humanidade participasse do teu ser: deste-lhe a memória, Pai eterno, para que se recordasse do teu benefício, possuindo algo do teu poder; deste-lhe a inteligência com que conhecesse tua bondade e tivesse parte na sabedoria do Filho; deste-lhe vontade para amar tudo quanto a inteligência compreendesse da tua Verdade, e com isso participasse da clemência do Espírito Santo.
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A RENÚNCIA : MODERAR A PRETENSÃO DO ESPÍRITO

promessaComo os perigos dos sentidos esperam o jovem coração à entrada da vida, assim os do espírito ameaçam perverter a jovem inteligência pronta a dedicar-se ao estudo.

Apenas o espírito começa a ter consciência de sua força, a formar raciocínios, a gozar a doçura das primeiras descobertas no campo da verdade, e já a semente do orgulho deita raízes na alma com risco de romper o equilíbrio entre o espírito e o bom-senso.

Se os talentos dados por Deus excedem um pouco a mediocridade, a ambição intelectual bem depressa não conhece mais limites, o espírito sacia-se de tudo com avidez, enche-se mais de vaidade do que de verdade.

São Paulo disse: Scientia inflat (I Cor 8,1). A ciência incha.

O escolho desta formação intelectual tem sido a parte excessiva dada às luzes humanas em detrimento da luz divina, o predomínio do estudo sobre a oração, o culto da razão humana e o esquecimento do seu absoluto nada e de sua universal fraqueza.

O que é o mais sublime gênio diante da sabedoria de Deus? É com sacrifício que a mais poderosa inteligência consegue, depois de uma vida de esforços e de pesquisas, entrever um ou outro problema científico e quando crê resolvê-lo, vê surgir outras questões mais complicadas e abrir-se diante de si novos horizontes, que não conseguirá nunca abranger. Continuar lendo

A FÉ SEM AS OBRAS, E AS OBRAS SEM A FÉ

caridHouve outrora, no berço do cristianismo, em Roma, uma disputa muito viva sobre a fé e as obras. Uns diziam: a fé é suficiente; outros: as obras, as obras, é o necessário!

Se um belo dia estivéssemos no jardim de sua casa e submetêssemos a seus filhos uma pergunta análoga: meninos, digam o que acham, o que é mais necessário: as maçãs ou a macieira? Os meninos certamente nos diriam que bastam as maçãs. Mas os mais velhos, compreendendo que sem as macieiras não haveria maçãs, responderiam: o que é preciso são as macieiras com as maçãs. E com efeito, é impossível haver maçãs sem macieiras, e macieiras sem maçãs são inúteis.

Deixando o apólogo, diremos que a fé é a árvore indispensável para haver os frutos da salvação e que os frutos que se pode colher sem a fé, não serão frutos de salvação.

São Gregório Magno disse numa palavra: Nec fides sine operibus, nec opera adjuvant sine fide. Quer dizer: A fé sem as obras ou as obras sem a fé, de nada valem.

A fé é, para o cristão, a raiz da salvação e de toda obra que leva à salvação. A santa esperança e a caridade divina vêm dar ao fruto ou à obra o gosto, o sabor, a doçura, o mérito; mas sem a fé não há mérito, nem doçura, nem sabor, nem gosto, nem fruto, nem obra que seja útil à salvação.

Guarde bem esse primeiro princípio. Eis um outro que deste decorre incontestavelmente: a medida da fé é a medida do mérito da obra. Sei bem que a última palavra, o mérito do cristão, pertence à caridade; mas a caridade é filha da fé, filha que pode crescer com sua mãe de modo que, no final das contas, o cristão deve ter a fé como medida de todas as coisas. Nosso Senhor dizia com este pensamento: «Vossa fé vos salvou!». Continuar lendo

IDÉIAS MODERNAS NÃO ALTERAM O QUE ESTÁ ESCRITO NOS LIVROS DE DEUS

jesus_dirige_a_la_familiaAs idéias modernas de independência, pregadas e seguidas por tantas senhoras, não alteram a verdade do que está escrito nos Livros de Deus. Não passam de heresias para uma cristã temente a Deus e de consciência delicada. As mulheres, sejam sujeitas aos seus maridos (Ef 5,22). Mulheres, sede sujeitas aos vossos maridos, como é necessário no Senhor (Cl 3,18).

Assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim as mulheres estejam sujeitas a seus maridos em tudo (Ef 5,24). Tais são as palavras claras e imperecíveis de São Paulo.

Chefe, princípio que governa a família, é, portanto o marido. Para isso recebeu no sacramento uma graça de estado também. Não pode ser um chefe tirânico, um ditador, um comandante militar, tal como aquele centurião do Evangelho lembrou a nosso Senhor: “Digo a um soldado: vai! E ele vai”.

Seu domínio, sua superioridade sobre a esposa é como o da cabeça sobre o corpo, brando, influindo vigor, cheio de benevolência. Melhor ainda: é como a autoridade de Jesus Cristo sobre a Igreja, sua esposa. Estaria errado, cometeria intolerável abuso, o marido que quisesse fazer da esposa uma escrava de suas ordens, ou se a considerasse obrigada à obediência como um educando a deve ao educador. Sobre bases falsas estariam às relações dos cônjuges, se considerassem a autoridade como anterior ou, em seu exercício, independente do amor. Marido e esposa formam uma espécie de “assembléia deliberativa”. A última palavra fica com o marido, porque ele recebeu a delegação do poder, após mútuo entendimento. Continuar lendo

A INTEGRIDADE DA FÉ

pereA fé opera no cristão uma renovação sobrenatural, eleva a alma às coisas celestes e, como diz São Leão, dá à alma impulso em direção ao bem incorruptível, em direção à verdadeira luz, quer dizer, em direção ao próprio Deus.

Mas para que a fé produza no cristão a operação que lhe é própria, é preciso que seja pura, que seja íntegra. Ora, a fé em sua pureza, em sua integridade, é uma fé rara. Magnum est, dizia Santo Agostinho, Magnum est in ipsa intus catholica, integram habere fidem. Traduzindo: Mesmo dentro da Igreja, é uma grande coisa haver uma fé íntegra.

Para bem compreender, é preciso que se lembre o que dissemos sobre o nascimento da fé em nossas almas. É preciso, para que a fé nasça e se desenvolva, o dom de Deus e a palavra do catequista ou a instrução. O dom de Deus é sempre puro, mas a palavra do catequista pode trazer com ela a verdade que vem de Deus ou o erro que vem do homem.

Suponhamos uma criança batizada vivendo numa sociedade separada da Igreja católica. O batismo que recebeu fez da criança um filho de Deus, pôs-lhe na alma a graça habitual; a criança cresce e recebe uma instrução manchada de heresia, aceita a heresia crendo aceitar a fé, é enganado… No dia em que perceber qual é a verdadeira fé católica, ou bem repudiará a heresia ou bem rejeitará a verdade, tornando-se ou decididamente católico ou formalmente herético. No primeiro caso terá perdido a heresia que lhe tinham ensinado e conservado a fé que Deus pôs em seu coração no dia do batismo. É importante que uma criança batizada não receba lições de um mestre que a faça perder a fé. Mas nós estamos em plena Igreja Católica, me dirá a senhora. É justamente por isso que ensino com Santo Agostinho: é muito importante ter a fé em toda sua integridade. Explico-me. A fé está no mundo, Deus a colocou no mundo para nossa salvação. Mas o erro também está no mundo, semeado pelo diabo para nossa perda. A fé, em sua integridade, é uma fé que está ao abrigo de todos os erros, de todos os preconceitos, de todas as opiniões vãs que correm mundo, que enchem os espíritos, que perdem as almas. Continuar lendo

JESUS SOFRE! ALMA AMADA, TOME A RESOLUÇÃO DE CONSOLÁ-LO …

ajoeTristis est anima mea usque ad mortem (Mc 14,34)

Minha alma está triste até à morte

Há vinte séculos, quando ninguém pensava ainda em mim, quando ninguém podia ainda suspeitar que um dia eu existiria, um Coração amava, interessava-se pela minha felicidade e se entristecia pelos meus pecados.

Oh! como esse último pensamento me punge a alma de dor e remorso! Jesus entristeceu-se e sofreu por causa de meus pecados e dos de cada homem em particular.

Jesus era Deus. Ele via clara e minuciosamente todos os meus pecados e os crimes do mundo inteiro. Contava-lhes o número e pesava-lhes a gravidade e compreendia a malícia infinita de todos eles. Continuamente Ele tinha diante dos olhos essa montanha de crimes; continuamente pesava no Seu coração a ofensa infinita feita a Deus, ofensa tantas vezes repetida e desejada, de algum modo pela vil criatura humana.

As lágrimas que derramou no presépio foram lágrimas de tristeza à vista de tantas ingratidões. Quando moço, a idéia de todos os sofrimentos e da morte, que o esperavam, jamais o abandonou.

Diz a piedade cristã que, estando Jesus já crescidinho e começando a andar, no vaivém contínuo em torno de São José na sua oficina de operário, tomou dois pedaços de madeira e, dispondo-os em forma de cruz, mostrou-os à santa Virgem. Vendo-os, os olhos da Mãe arrasaram-se de lágrimas e o Coração de Jesus encheu-se de tristeza. Continuar lendo

CONSAGRAÇÃO DO GÊNERO HUMANO À MARIA, MÃE DE TODOS OS HOMENS

maria1A gravidade dos acontecimentos atuais, em particular os que acabam de ocorrer na Espanha, mostram que as almas fiéis devem, cada vez mais, recorrer a Deus pelos grandes mediadores que Ele nos deu por causa de nossa fraqueza.

Estes acontecimentos e sua atrocidade mostram de modo singularmente marcante o que acontece com os homens quando querem absolutamente viver sem Deus, quando querem organizar suas vidas sem Ele, longe Dele, contra Ele. Quando, ao invés de crer em Deus, de esperar em Deus, de amá-lo acima de tudo e de amar ao próximo Nele, queremos crer na humanidade, esperar nela, amá-la de modo exclusivamente terrestre, a humanidade não tarda a se apresentar a nós com suas falhas profundas, com suas feridas abertas: o orgulho da vida, a concupiscência da carne e dos olhos, e todas as brutalidades que a elas se seguem. Quando, ao invés de colocar seu fim último em Deus, que pode ser simultaneamente possuído por todos, como nós todos podemos possuir, sem nos prejudicar, a mesma verdade e a mesma virtude, coloca-se o fim último nos bens terrestres, não se tarda a perceber que estes bens nos dividem profundamente, pois a mesma casa e a mesma terra não podem pertencer simultaneamente e integralmente a vários. Quanto mais a vida se torna material, mais os apetites inferiores se inflamam sem qualquer subordinação a um amor superior, mais os conflitos entre os indivíduos, classes e povos se exasperam; finalmente, a terra se tornará um verdadeiro inferno.

O Senhor mostra assim aos homens o que eles podem sem Ele. Tudo isso constitui um singular comentário das palavras do Salvador: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5); “Quem não é comigo, é contra mim; e quem não junta comigo, desperdiça” (Mt 12, 30); “Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33); “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente vigia a sentinela.” (Mt 126, 1) Continuar lendo

DEUS QUER AÇÕES RETAS, NÃO PALAVRAS

caridO que desejo do homem, como frutos da ação, é que prove suas virtudes na hora oportuna. Talvez ainda te recordes! Quando, há muito tempo, desejavas fazer grandes penitências por minha causa e perguntavas: “Que mortificações eu poderia fazer por ti?”, eu te respondi no pensamento: “Sou aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações”. Então era minha intenção mostrar-te que não me comprazo no homem que apenas me chama por palavras: “Senhor, Senhor, gostaria de fazer algo por ti”, ou naquele que pretende mortificar o corpo com muitas macerações, mas sem destruir a vontade própria. Queria dizer-te que desejo ações varonis e pacientes, bem como as virtudes internas, de que falei acima, as quais são todas elas operativas e produtoras de bons frutos na graça.

Ações baseadas em outros princípios constituem para mim meras palavras, realizações passageiras. Eu, qual ser infinito, quero ações infinitas, amor infinito. Desejo que as mortificações e demais exercícios corporais sejam considerados como meios, não como fins. Se neles repousar o inteiro afeto da pessoa, ser-me-ia dado algo de finito, à semelhança de uma palavra que, ao sair da boca, já não existe, quando é pronunciada sem amor. Só o amor produz e revela a virtude!

Quando uma ação, que chamei com o nome de “palavra”, está embebida de caridade, então me agrada; já não se apresenta sozinha, mas acompanhada de discernimento verdadeiro, isto é, como ato que é meio para se atingir um objetivo superior. Não é exato olhar a penitência ou qualquer ato externo como base e finalidade principal; são obras limitadas, seja porque praticadas durante esta vida passageira, seja porque um dia a pessoa terá que deixa-las por resolução pessoal ou por ordem alheia. Umas vezes a abandonará o homem coagido pela impossibilidade de continuar o que começou, e isto acontece em situações diversas; outras vezes por obediência à ordem do superior. Aliás, neste caso, se as continuar não terá merecimento algum e cometerá até uma falta.
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DÚVIDAS

duvQueixas-te porque surgem dúvidas que te atormentam. Não te impressiones. O que os jovens chamam dúvidas da fé, geralmente não passa de tentações nem constitui descrença pecaminosa. É verdade que a fidelidade à fé requer de muitos, combate árduo que deve ser levado a bom termo; mas os próprios santos, em geral, não estavam livres deles.

Dificilmente se poderiam encontrar homens cultos que não tenham sofrido as perturbações da dúvida. Ora é um relator de folhetins, a ridicularizar uma ou outra verdade da religião; ora uma revista a atacar um ponto da doutrina cristã, em um artigo “científico”; mais tarde, idéias totalmente errôneas que circulam na sociedade… Que muito, pois, se aparecem hesitações: Quem sabe se é tudo exatamente como nô-lo ensina a fé?

Crer e ter fé! Eis o que o Salvador de nós exige. Durante toda a sua vida, ele queria só uma coisa: “Crêde em mim!” “Quem crer e for batizado, será salvo; mas quem não crer será condenado” (Mc. 16,16). É o que Ele quer também hoje, caros jovens!

Entretanto agora, no “século das luzes”, levanta-se a pergunta, na mente de muitos moços: “Por que tomou Deus a fé e não a ciência como base da religião? Por que diz Ele: salvo será o que crer? Por que não diz: aquele que entender minha doutrina, compreender minhas idéias e penetrar-lhe as profundezas, este será salvo? Ou por que não: bem-aventurados os ilustrados, os inteligentes, os sábios?

Sabes por que? Continuar lendo

COMO A FÉ DESENVOLVE A RAZÃO

rezDeus nos deu os sentidos, a razão e a fé. Pelos sentidos nós entramos em contato com as coisas sensíveis, que lhes são proporcionadas; pela razão atingimos coisas superiores aos sentidos, coisas intelectuais; mas pela fé, Deus nos dá o modo de atingirmos, por um conhecimento mais elevado, as coisas divinas e o próprio Deus.

A razão criada por Deus, para Deus mesmo, só encontrará repouso em Deus, verdade primeira; a razão tem pois uma necessidade inata de Deus e o procuraria naturalmente se o homem não tivesse pecado, assim enfraquecendo-se, inclinando-se na maior parte das vezes, prendendo-se às coisas sensíveis.

A fé que Deus nos deu repara, ao menos em parte, a doença original da razão humana. Restaurando, retificando, fortalecendo a razão, faz com que ela atinja uma ordem de conhecimento que nunca poderia abordar: a ordem do conhecimento sobrenatural, ou das verdades reveladas por Deus.

É a fé que nos faz acreditar nas coisas invisíveis, diz São Paulo. Estas coisas invisíveis são parte daquilo que Deus conhece. Ele se revelou por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os apóstolos e, depois deles, a Igreja, nos transmitem a própria palavra de Deus; e por uma graça que chamamos o dom da fé recebemos esta palavra e nos convencemos de que esta palavra é a verdade.

O homem que não tem fé, só conhece na medida de seus sentimentos e de sua razão; o homem que possui a fé vai mais longe: percebe o insensível, atinge o invisível; em certa medida, entra na participação da ciência e da razão de Deus.
Então faz-se em sua alma uma nova luz, superior a qualquer luz natural; e em virtude de sua superioridade, essa luz se torna reguladora das luzes interiores que são a razão e os sentidos.
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COMO EDUCAR UMA CRIANÇA DESOBEDIENTE – PARTE 3

des 26ª norma: Seja compreensivo

a) Pense na criança:

– ela é instável, de imensa mobilidade;

– o pequeno desenvolvimento da inteligência não lhe permite maior capacidade de reflexão – e não pesa o que faz;

– a vontade em formação é ainda fraca, e ela é tangida pelos instintos e pelo impulso dos interesses imediatos;

– seus horizontes limitados não lhe permitem ver longe, e ela mais se preocupa com o  presente que com o futuro, mais com o pessoal que com o geral, mais com os prazeres que com a moral;

– as grandes forças que movem os espíritos verdadeiramente adultos deixem-na fria e imóvel, porque ela ainda não sente a beleza do dever, da consciência, da dedicação ou do sacrifício;

b)Saiba ceder:

– erros de criança não podem ser julgados com rigor;

– suas responsabilidades são limitadas à sua capacidade: ela é uma criança;

– se ela errou, pese as causas de seus erros antes de pensar em puni-los;

– lembre-se que um motivo que para nós é fútil ou inexistente, para ela é irresistível.

Ex: Pequeno de 9 anos chega-me apavorado. Saíra de casa para a Missa das 11, a última que então havia na cidade. Juntou-se aos meninos que acompanhavam um camelô de circo, e, quando caiu em si, estava no outro extremo da cidade. Correu para a igreja, mas a Missa terminara. Seria castigado em casa, se contasse singelamente a verdade. E o pior de tudo: o pecado mortal de ter faltado à Missa! Nunca lhe esquecerei a expressão de alívio quando lhe disse que não pecara (perdeu a Missa sem querer) e lhe propus telefonarmos à mamãe que ele almoçaria comigo. Aquela senhora, que mal lançaria um curioso olhar para o homem de pernas de pau, dificilmente compreenderia que ele arrastasse invencivelmente o seu filho por duas horas de caminhada a pé. Não é uma pena essa incompreensão em pessoas tão bem intencionadas? Continuar lendo

COMO EDUCAR UMA CRIANÇA DESOBEDIENTE – PARTE 2

desob 3Qualidades da obediência

Consideremos agora as qualidades da obediência ideal. Ela será:

a)racional:não cega, mecânica, servil, mas entendida nas suas ordens e nos seus motivos, a fim de que sua execução seja um ato humano, e não atitude de animal amestrado;

b) digna: compreendida, espontaneamente aceita, deliberada pela vontade que quer ser livre; ela não me desfaz, e sim me afirma a personalidade; não me avilta, mas me engrandece; não me torna carneiro de rebanho, mas homem que dispõe de si mesmo; é mostra de liberdade, não de servilismo;

c) confiante:anota Göttler (“Pedagogia sistemática”) que a obediência supõe “um respeito íntimo… às ordens das pessoas revestidas de autoridade, uma veneração aos superiores de qualquer categoria, enquanto eles representam as autoridades que regem a vida das sociedades“; esse respeito, essa veneração estabelecem a confiança que inclina à aceitação fácil das ordens recebidas, mesmo quando não se lhes conheça a razão ou não se lhes percebe o alcance;

d) alegre:racional, digna, confiante, a obediência será alegre, sem constrangimento maiores, sem murmurações e revoltas, sem medos nem desgostos, mas fácil e até espontaneamente pronta;

e) sobrenatural:nós, que cremos em Deus e para Ele encaminhamos a vida e a educação, tudo devemos fazer em vista da eternidade, ainda que sejam as ações mais quotidianas atividades(Ver I Cor. 10,31); nós, que sabemos que “todo poder vem de Deus” e que “resistir à autoridade é resistir a Deus” (Rm 13,1-2), devemos obedecer com essa visão sobrenatural: ela ultrapassa os homens e nos prende a Deus, garantindo-nos que teremos sempre a recompensa de nossa submissão, desde que as ordens recebidas não contrariem diretamente aos Mandamentos divinos ou aos ditames de nossa consciência. Continuar lendo

MENINOS MÁRTIRES

comunO acontecimento, que vamos narrar, passou-se na Rússia, nos piores tempos do comunismo que vem varrendo do seu território todas as religiões, mormente a católica.

Numa vila, perto de Petrogrado, havia um asilo de órfãos com uma capela católica.

Os vermelhos (comunistas) fecharam a casa alegando que não havia recursos para sustentá-la e expulsaram o capelão.

Aqueles maus soldados tiveram a sinistra ideia de converter a capela em salão de baile e, como a mesma estava fechada, resolveram arrombar a porta e profanar o que havia dentro.

Tomaram essa resolução numa cantina, onde casualmente três meninos católicos ouviram a conversa.

Compreenderam que se tratava de profanar a casa de Deus e logo tomaram a resolução de defendê-la do melhor modo que pudessem.

À noite, os três meninos e mais alguns colegas seus penetraram na igreja por uma janela e montaram guarda junto ao altar.

Os soldados, tendo arrombado a porta e penetrado na capela, ordenaram que os meninos saíssem imediatamente. Nenhum, porém, se moveu nem se arredou do seu lugar. Continuar lendo

A OCIOSIDADE É MÃE MALDITA DE MUITOS MALES

ocioGrande elogio fez o Sábio à mulher, ao diz que não comeu seu pão na ociosidade. Foi um dos traços com que descreveu a mulher forte, verdadeiro modelo e invejável prêmio para o homem justo.

A lei do trabalho, leitora, é universal neste mundo. Comer o pão do suor do rosto vale tanto para o homem como para a mulher. Ainda mais quando se associam formando um lar, abrindo nele a primeira escola para os filhos. Para que trabalhassem – lemos que Deus colocou os primeiros homens no paraíso. No paraíso do lar eles receberam autêntica missão. O homem labutando lá fora, e dentro de casa a esposa “procurando o linho e a lã, trabalhando-os com suas mãos hábeis e diligentes“. – Péssimo exemplo dá aos filhos a mãe que vive seus dias na ociosidade, sem fazer nada, toda entregue às leituras, às visitas, aos passeios e às futilidades. Debalde se cansa o marido, se em casa vive uma companheira ociosa.

… Móveis, roupas, imóveis – tudo se estraga mais depressa, quando os olhos da dona diligente não se interessam por sua conservação. A ociosidade é mãe maldita de muitos males. Que fará a dona de casa se não trabalha? Lê? Sim; mas em breve as leituras, para não serem monótonas, hão de ser picantes e … nocivas. Fica imaginando na vida? E torna-se então uma sonâmbula dentro da vida, verdadeiro flagelo dos filhos e maridos. Ou, como sói acontecer, dá para colecionar doenças, conforme a moda e as receitas das amigas igualmente desocupadas. Continuar lendo

LEGÍTIMO ORGULHO DOS PAIS

mother-daughter4A dama patrícia da Campânia que fazia exibição das suas jóias respondia Cornélia designando os filhos: “São estas as minhas jóias e os meus adornos”. Aspirava à hitória menos pelo facto de ser filha de Cipião o Africano do que por ser mãe dos Gracos.

Com a graça de Cristo a mais, e orgulho pagão a menos, é ou não um sentimento análogo o que inspira a Senhora Martin? A filha mais velha conta a este respeito um episódio significativo:

“Eu tinha então sete anos: um dia em que estreávamos vestidos de setim de lã azul-escuro, a minha mãe mandou-nos chamar todas quatro, às minhas irmãzinhas e a mim, para nos ver antes do passeio que íamos dar. Olhou para nós demoradamente, com enternecida complacência, e depois disse-nos: ‘Vão agora, minhas filhinhas’. Mas evitou fazer algum elogio aos nossos vestidos, que eu achava tão bonitos, para não nos provocar qualquer sentimento de vaidade”.

Aquela mãe tão despreocupada de aparecer, que com grande desespero da Maria, detestava qualquer requinte no próprio trajar e troçava sem dó nem piedade do que ela denominava “a escravidão da moda”, cuidava gostosamente do vestuário das filhas, sem todavia se afastar da simplicidade. As mães não serão insensíveis a este delicioso esboço da Celina aos dezesseis meses: Continuar lendo

O LIBERALISMO É PECADO – PARTE 4

lib2DOS DIFERENTES GRAUS QUE PODE HAVER E HÁ DENTRO DA UNIDADE ESPECIFICA DO LIBERALISMO

O Liberalismo, como sistema de doutrinas, pode chamar-se escola; como organização de adeptos para difundi-las e propaga-las; seita como agremiação de homens dedicados a faze-las prevalecer na esfera do direito publico, partido. Porém, ou se considere como escola, ou como seita, ou como partido, o Liberalismo oferece dentro da sua unidade lógica e especifica vários graus ou matizes que ao teólogo cristão convém estudar e expor.

Primeiro que tudo convém fazer notar que o Liberalismo é uno, isto é, constitui um organismo de erros perfeita e logicamente concatenados, razão por que se chama sistema. Com efeito, partindo do principio fundamental de que o homem e a sociedade são perfeitamente autônomos ou livres, com absoluta independência de todo outro critério natural ou sobrenatural, que não seja o individual, segue-se, por uma perfeita ilação de conseqüências, tudo o que em nome dele proclama a demagogia mais avançada.

A Revolução só tem de grande a sua inflexível lógica. Até os atos mais despóticos que executa em nome da liberdade, e que à primeira vista todos tachamos de monstruosas inconseqüências, obedecem a uma lógica altíssima a superior. Pois que, reconhecendo a sociedade por única lei social o critério da maioria, sem outra norma ou regulador, como poderá negar-se ao Estado o perfeito direito de cometer quaisquer tropelias contra a Igreja todas as vezes que, segundo aquele seu único critério social, seja conveniente comete-las? Admitindo-se que a razão está sempre da parte da maioria, fica por esse modo admitida como única lei a do mais forte; e portanto muito logicamente se pode chegar até as ultimas brutalidades. Continuar lendo

COMO SE DEVE EVITAR A EXCESSIVA FAMILIARIDADE

aperNão abras teu coração a qualquer homem (Eclo 8,22); mas trata de teus negócios com o sábio e temente a Deus. Com moços e estranhos conversa pouco. Não lisonjeies os ricos, nem busques aparecer muito na presença dos potentados. Busca a companhia dos humildes e simples, dos devotos e morigerados, e trata com eles de assuntos edificantes. Não tenhas familiaridade com mulher alguma; mas, em geral, encomenda a Deus todas as que são virtuosas. Procura intimidade com Deus apenas, e seus anjos, e foge de seres conhecidos dos homens.

Caridade se deve ter para com todos; mas não convém ter com todos a familiaridade. Sucede, freqüentemente, gozar de boa reputação pessoa desconhecida que, na sua presença, desagrada aos olhos dos que a vêem. Julgamos, às vezes, agradar aos outros com a nossa intimidade, mas antes os aborrecemos com os defeitos que em nós vão descobrindo.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

O LIBERALISMO É PECADO – PARTE 3

libSE É PECADO O LIBERALISMO, E QUE PECADO É… 

O Liberalismo é pecado, já se o consideremos na ordem das doutrinas, já na ordem dos fatos.

Na ordem das doutrinas é pecado grave contra a fé, porque o conjunto de suas doutrinas é heresia, ainda que não o seja, talvez, uma ou outra de suas afirmações ou negações isoladas. Na ordem dos fatos é pecado contra os diversos Mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque de todos é infração. Mais claramente, na ordem das doutrinas o Liberalismo é a heresia universal e radical, porque a todas compreende; na ordem dos fatos é a infração radical e universal, porque a todas autoriza e sanciona.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo. Continuar lendo

O LIBERALISMO É PECADO – PARTE 2

lib2QUE É O LIBERALISMO?

Ao estudar um objeto qualquer, depois da pergunta: an sit? Faziam os antigos escolásticos a seguinte: quid sit? E esta é a que vai ocupar-nos no presente capítulo.

Que é o Liberalismo? Na ordem das idéias é um conjunto de idéias falsas; na ordem dos fatos é um conjunto de fatos criminosos, conseqüência prática daquelas idéias.

Na ordem das idéias o Liberalismo é o conjunto do que se chamam princípios liberais, com as conseqüências lógicas que deles se derivam. Princípios liberais são: a absoluta soberania do indivíduo com inteira independência de Deus e de sua autoridade; soberania da sociedade com absoluta independência do que não nasça dela mesma; soberania nacional, isto é, o direito do povo para legislar e governar com absoluta independência de todo critério que não seja o de sua própria vontade, expressa primeiro pelo sufrágio e depois pela maioria parlamentar; liberdade de pensamento sem limitação alguma em política, em moral ou em Religião; liberdade de imprensa, assim absoluta ou insuficientemente limitada; liberdade de associação com iguais amplitudes. Estes são os chamados princípios liberais em seu radicalismo mais cru.

O fundo comum deles é o racionalismo individual, o racionalismo político e o racionalismo social. Derivam-se deles a liberdade de cultos mais ou menos restringida; a supremacia do Estado em suas relações com a Igreja; o ensino leigo ou independente sem nenhum laço com a Religião; o matrimônio legalizado e sancionado pela única intervenção do Estado: sua última palavra, que todo o abarca e sintetiza, é a palavra secularização, isto é, a não intervenção da Religião em ato algum da vida pública, verdadeiro ateísmo social, que é a última conseqüência do Liberalismo. Continuar lendo

O LIBERALISMO É PECADO – PARTE 1

libEXISTE HOJE EM DIA ALGO QUE SE CHAMA LIBERALISMO?

Certamente, e parecerá ocioso que nos entretenhamos em demonstrar esta afirmação. A não ser que todos os homens de todas as nações da Europa e da América, regiões principalmente infestadas desta epidemia, tivessemos convindo em enganar-nos e em fazer-nos de enganados, existe hoje em dia no mundo uma escola, sistema, partido, seita, ou chame-se como quiser, que por amigos e inimigos se conhece com o nome de Liberalismo.

Os jornais e associações e governos seus se nomeiam com toda franqueza liberais; seus adversários jogam-lho no rosto, e eles não protestam, nem sequer o desculpam ou atenuam. Mais ainda: se lê a cada dia que há correntes liberais, tendências liberais, reformas liberais, projetos liberais, personagens liberais, datas e recordações liberais, ideais e programas liberais; e, ao revés, se chamam antiliberais, ou clericais, ou reacionários, ou ultramontanos, todos os conceitos opostos aos significados por aquelas expressões. Há, pois, no mundo atual uma certa coisa que se chama Liberalismo, e há, por sua vez, outra certa coisa que se chama Antiliberalismo. É, pois, como mui acertadamente se disse, palavra de divisão, pois tem perfeitamente dividido o mundo em dois campos opostos. 

Mas não é apenas palavra, pois a toda palavra deve corresponder uma idéia; nem é apenas idéia, pois a tal idéia vemos que corresponde de fato toda uma ordem de acontecimentos exteriores. Existe, pois, Liberalismo, isto é, existem doutrinas liberais e existem obras liberais, e, em consequência, existem homens, que são os que professam aquelas doutrinas e praticam estas obras. Tais homens não são indivíduos isolados, senão que vivem e obram como grupo organizado, com chefes reconhecidos, com dependência deles, com fim unanimamente aceito. O Liberalismo, pois, não apenas é idéia e doutrina e obra, senão que é seita. Continuar lendo

QUANDO O CÉU SE COBRIR DE NUVENS

cloudy-sky-6Se durante muito tempo não movermos uma pedra, ela se cobrirá de musgo; se deixarmos de fazer exercícios físicos, os membros ficam flácidos. O mesmo vale da fé: quem não pratica sua religião, é envolvido primeiramente pelo musgo da indiferença; em seguida vêm as dúvidas; e o fim qual será?… Fé tíbia, e talvez descrença completa.

Não deves, portanto, apenas salvaguardar tua fé; deves vivê-la. Exercita-a na oração. Reza, todas as manhãs o “Creio em Deus” lenta e devotadamente. Rende graças a Deus, porque te fez nascer na verdadeira fé católica. Principalmente, porém, pratica-a por uma vida ideal que busca na religião suas forças. Como causa primordial dos desvios fundamentais da alma de muitos e muitos jovens, podemos indicar o fato de manifestarem em sua vida, um espírito de fé deploravelmente mesquinho. A religião teórica, que se não manifesta em prática, vale tanto como um carro sem eixo.

Por essa razão compreenderás, embora te pareça curioso à primeira vista, o conselho que uma vez dei a um moço:

Ele se queixava: “Quisera crer, mas não posso.”

— “Meu caro, faça violência à sua vontade! A fé é graça divina, mas supõe a vontade humana. Sim, Deus concede a graça; depende porém do homem querer colaborar com ela ou não. Não pode crer? Pouco importa! Repita o clamor dos apóstolos: “Senhor, robustecei nossa fé!” (Lc. 17,5). Ou diga como o pai da criança doente: “Creio Senhor, mas aumentai a minha fé!” (Mc. 9, 23). Você murmura que a oração o deixa frio, que não acha atrativo na S. Missa, que a vida religiosa lhe é enfadonha. Ainda uma vez, pouco, importa! Apesar de tudo, recite conscientemente as orações de costume; apesar de tudo procure seguir as orações da missa, do princípio ao fim.” Continuar lendo

UMA MISSA… UM CAVALHEIRO… UM RETRATO

retraSaberão as almas quando se dizem missas por elas?

Mônica, uma jovem muito boa e piedosa, está convencida que sim. Era ela uma pobre criada, que ganhava o pão servindo nas casas dos ricos, simples, cheia de fé, contente com o tratamento e o pequeno salário que lhe davam, pois Deus a fizera abnegada e sabia que a Ele se pode servir em qualquer ofício.

Mas um dia adoeceu e não teve remédio senão internar-se no hospital dos pobres. Depois de seis semanas deram-lhe alta; perdera, porém, o emprego e não sabia onde refugiar-se, débil e sem recursos. Uma moeda de prata era toda a sua fortuna; mas seu coração estava cheio de confiança em Deus. Toma a sua moeda e manda celebrar uma santa missa pelas almas do purgatório, a fim de que elas lhe consigam uma boa colocação. Ouviu a missa devotamente. E aquela mensagem chegou ao destino…

Ao sair encontrou-se com um senhor, que, aproximando-se, a saudou e disse:

– Soube que a senhora procura um emprego; aqui está o endereço de uma casa onde a receberão. Deu-lhe, em seguida, o nome da rua e o número da casa, e desapareceu. Ficou Mônica perplexa, sem saber que pensar nem como explicar tudo aquilo. Como podia saber aquele senhor que ela procurava um emprego, visto que não comunicara a ninguém o seu desamparo? Continuar lendo

SANTO ATANÁSIO: O VERDADEIRO DEFENSOR DA TRADIÇÃO – PARTE II

SantoAtanasio21A queda do Papa Libério

Em 17 de maio de 352 Libério foi consagrado Papa. Ele imediatamente se viu envolvido na disputa ariana:

Ele apelou a Constâncio para que fosse justo com Atanásio. A resposta imperial veio na convocação dos bispos da Gália para um concílio em Arles em 353-354, onde, sob ameaça de exílio, os bispos concordaram em condenar Atanásio. Até mesmo o núncio apostólico de Libério rendeu-se. Quando o Papa pressionou para que o concílio fosse mais abrangente de representantes, Constâncio reuniu-os em Milão em 355. Houve, na ocasião, ameaças violentas de um grupo de pessoas e a intimidação pessoal do Imperador: “Minha vontade é a lei canônica”, exclamou. Com exceção de três bispos, o Imperador prevaleceu sobre todos os outros. Atanásio fora novamente condenado e os arianos admitidos à comunhão. Novamente os núncios do papa renderam-se e o próprio Libério recebeu ordens para assinar. Quando recusou a assinar, e até mesmo a aceitar as ofertas do Imperador, ele foi preso e carregado para longe da presença imperial; ao manter-se firme em prol reabilitação de Atanásio, o Papa foi exilado para a Trácia em 355, onde ficou por dois anos. Enquanto isso, um diácono Romano, Félix, foi introduzido na sé petrina. O povo recusou-se a reconhecer o antipapa imperial. O próprio Atanásio teve de se esconder e seu rebanho foi abandonado à perseguição pelo intruso de tendências arianas. Quando visitou Roma em 357, Constâncio foi assediado por pedidos clamorosos pela restauração de Libério. Por outro lado, bispos subservientes que rodeavam a corte em Sirmio subscreveram fórmulas doutrinais mais ou menos ambíguas ou heterodoxas. Em 358, uma fórmula composta por Basílio de Ancira, declarando que o Filho era de substância parecida com a do Pai, homoiousion, foi oficialmente imposta.[10]

A oposição ao antipapa Félix tornou urgente a necessidade de Constâncio restaurar Libério à sua sé. Contudo, era igualmente urgente que o Papa condenasse Atanásio. O Imperador usou uma combinação de ameaças e lisonjas para atingir seu objetivo. Seguiu-se então a trágica queda de Libério. Ela foi descrita implacavelmente em Lives of Saints de Alban Butler:

Nessa época, Libério começou desmoronar por conta das dificuldades do seu exílio, e sua resolução foi abalada pelas contínuas solicitações de Demófilo, o bispo ariano de Bereia, e de Fortunaciano, o contemporizador bispo da Aquiléia. Estava ele tão mais amolecido por lisonjas e alvitres (que deveriam na verdade fazê-lo tampar seus ouvido de horror) que ele rendeu-se, para grande escândalo da Igreja, à armadilha feita para ele. Ele subscreveu a condenação de Santo Atanásio e uma confissão ou credo concebido pelos arianos em Sirmio, embora a heresia ariana não estivesse lá expressa; e ele escreveu aos bispos arianos do Oriente dizendo que havia recebido a verdadeira fé católica que muitos bispos haviam aprovado em Sirmio. A queda de um prelado tão grande e tão ilustre confessor é um terrível exemplo da fraqueza humana que ninguém pode lembrar-se sem se estremecer todo. São Pedro caiu pela presunçosa confiança em sua própria força e resolução, de maneira que devemos aprender que todo mundo só se mantém pela humildade.[11] Continuar lendo

UM REI MORIBUNDO E OS DOIS PRATOS DA BALANÇA: O DOS PECADOS E O DO ROSÁRIO

Conta-se de Alfonso IX, rei de Leão e Galícia, que andava com o rosário à cintura…

alfonso-ix

A Santíssima Virgem não favorece somente quem reza o rosário, mas recompensa também gloriosamente a quem, com seu exemplo, atrai os demais a esta devoção.

Alfonso IX (1188-1230), rei de Leão e Galícia, desejando que todos os seus criados honrassem a Santíssima Virgem com o rosário, resolveu, para animá-los com seu exemplo, levar ostensivamente um grande rosário, mesmo sem rezá-lo.

Bastou isto para obrigar toda a corte a rezá-lo devotamente. O rei caiu enfermo com gravidade. Já o acreditavam morto, quando, arrebatado no espírito diante do tribunal de Jesus Cristo, viu os demônios que lhe acusavam de todos os crimes que havia cometido.

Quando o Divino Juiz já o ia condenar às penas eternas, interveio em seu favor a Santíssima Virgem. Trouxeram, então, uma balança: em um pratinho da mesma colocaram os pecados do rei.

A Santíssima Virgem colocou no outro o rosário que Alfonso havia levado para honrá-la e os que, graças a seu exemplo, haviam recitado outras pessoas. Isto pesou mais que os pecados do rei.

A Virgem lhe disse logo, olhando-o benignamente: Continuar lendo

SANTO ATANÁSIO: O VERDADEIRO DEFENSOR DA TRADIÇÃO – PARTE I

S_Atanasio“O que aconteceu por volta de 1600 anos atrás repete-se nos dias de hoje, mas com duas ou três diferenças: Alexandria agora é toda a Igreja Católica — cuja estabilidade está abalada —, e o que foi empreendido naquela época por meio da força física e da crueldade é empreendido agora em níveis diferentes. O exílio foi substituído pelo ostracismo; o assassinato físico pelo assassinato de reputação.”

Mons. Rudolf Graber, Bispo de Regensburg, Athanasius and the Church of our Times, p. 23.

O objetivo deste apêndice não é explicar a natureza da heresia ariana, mas sim provar que um bispo fiel à Tradição pode ser repudiado, caluniado, perseguido e até mesmo excomungado por quase todo episcopado, inclusive pelo próprio Papa. Evidentemente trata-se de uma situação anormal, pois o fiel católico tem o direito de supor que a maioria dos bispos em união com o Papa ensinarão a sã doutrina; o católico seria imprudente se não conformasse sua crença e comportamento com o ensinamento desses bispos. Mas nem sempre o caso é esse, conforme demonstra a atual situação da Igreja. Não há praticamente uma única diocese no mundo anglófono cujo bispo esteja preocupado em assegurar que as crianças católicas recebam a sã doutrina; ou que a moral católica e os ensinamentos doutrinais não se contradigam com a impunidade do púlpito (trata-se da leniência com os abusos litúrgicos que chegam até ao nível do sacrilégio). Escrevendo sobre a época de Santo Atanásio, São Jerônimo fez sua célebre exclamação: “Ingemit totus orbis et arianum se esse miratus est” — “Com dor e assombro o mundo todo se viu ariano”. O mundo católico ocidental de hoje encontra-se num estado acelerado de desintegração; mas para a maioria não há dor, tampouco assombro. Com efeito, a maior parte dos bispos repete ad nauseam que as coisas jamais estiveram tão boas e que estamos vivendo no período de maior florescimento da história da Igreja. Um bispo como o falecido Mons. R. J. Dwyer (de Portland, Oregon, EUA), que teve a coragem de falar abertamente e descrever objetivamente o estado de coisas na Igreja, é taxado de excêntrico, fanático e desordeiro. A ICEL (International Commission for English in the Liturgy — Comissão Internacional para o Inglês na Liturgia) recebeu efusivos louvores dos bispos dos EUA por conta da tradução da missa que foi imposta aos fiéis católicos anglófonos. O arcebispo Dwyer falou sobre:

[…] a tradução inglesa — inepta, pueril e semi-analfabeta — que nos foi imposta pela ICEL, um grupo de homens dotados das piores características presentes nos burocratas autofágicos, prestou um imensurável desserviço a todo o mundo anglófono. O trabalho foi marcado pela ausência quase completa de sentido literário, pela insensibilidade crassa à linguagem poética e pior: o uso predominantemente inculto da liberdade de tradução dos textos, de modo que o texto chega ao ponto da deturpação de fato. [1] (grifos nossos) Continuar lendo

AS TENTAÇÕES NOS SÃO ENVIADAS POR DEUS PARA NOSSO BEM

tentacao1Para entendermos que é Deus quem nos envia, para nosso bem, as tentações, devemo-nos lembrar que o homem, devido à má inclinação de sua natureza corrompida, é soberbo, ambicioso e sempre se presume valer mais do que realmente vale.

Esta estima é a tal ponto perigosa para o proveito espiritual, que bastam leves resquícios desta presunção para que fiquemos impossibilitados de atingir a perfeição.

Por isso, Deus, com sua amorosa Vigilância por cada um dos homens, e, muito especialmente, por aqueles que estão ao seu serviço, cuida de por a alma em estado que a salve do perigo e, quase que forçados, façamos justo conceito de nós mesmos.

Assim Deus fez ao apóstolo São Pedro, permitindo que ele o negasse, afim de que se conhecesse a si próprio e não confiasse em si. E ao apóstolo São Paulo, após o levar ao terceiro céu e patentear-lhe os segredos divinos, enviou-lhe duras tentações, afim de que ele conhecesse sua fraqueza natural e se humilhasse, gloriando-se unicamente de suas enfermidades, e para que a grandeza das revelações que Deus lhe fizera não lhe abrisse caminho à presunção. De tudo isto, o próprio São Paulo dá testemunho.

Deus se apieda de nossas misérias e más inclinações e permite que sejamos tentados de muitas maneiras e às vezes de um modo terrível, para que nos humilhemos e saibamos verdadeiramente quem somos.

A nós, porem, muitas vezes parece que sejam inúteis e prejudiciais aquelas tentações. Mas Deus assim procedendo, mostra a sua bondade e sabedoria, pois, com aquilo que a nós nos parece mais nocivo, mais ele se alegra, para que mais nos venhamos a humilhar. E é de humildade que mais carece nossa alma. Continuar lendo

QUAL A DIFERENÇA ENTRE FÉ E SENTIMENTO RELIGIOSO

rezando 2A senhora leu com atenção minha carta anterior e pede-me para que eu a ajude a compreender bem a diferença que há entre Fé e sentimento religioso. A tarefa será fácil, desejo que meu trabalho lhe seja útil.

Lembre-se das breves palavras do Pe. Lacordaire: A Fé é a Fé.

O sentimento é assim o respeito que temos, como criaturas, por nosso Pai que está no Céu e que, unicamente porque nos criou, nos olha como filhos, nos dá o pão de cada dia, a luz de seu sol, os frutos da terra, a vida, a saúde, e mil outros bens igualmente da ordem natural.

O sentimento religioso sendo natural ao homem, se encontra em todos os homens fiéis ou infiéis; pois todos têm esse fundo comum de respeito a Deus, que algumas vezes se traduz por um ato religioso fundado sobre a verdade, como entre os cristãos; outras vezes por um ato religioso manchado de erros como entre os infiéis, os idólatras, etc.

Entre os povos, há alguns cujo sentimento religioso é naturalmente muito profundo, por exemplo os árabes.

Um árabe não faltará à prece da manhã, à do meio dia e à da noite. Ao escutar o muezzin gritar do alto do minarete a fórmula sagrada: La Allah, etc., imediatamente ele se põe a rezar, esteja na companhia de quem quer que seja, no lugar que for, no meio de uma praça ou no trabalho; quando chega a hora, ele reza. Por este mesmo sentimento religioso, o árabe relaciona tudo à vontade de Deus; os acidentes da vida, a saúde, a doença, mesmo a morte, ele relaciona com Deus e em todas as circunstâncias ele repete: Deus é grande!

Eis o sentimento religioso em todo seu poder. Continuar lendo