Videbunt Filium hominis venientem in nube cum potestate magna et maiestate — “Verão o Filho do homem que virá sobre uma nuvem com grande poder e majestade” (Luc. 21, 27).
Sumário. Uma consideração séria nos ensina que não há atualmente no mundo pessoa mais desprezada de que Jesus Cristo; pois é injuriado tão continuamente e com tão desenfreada liberdade, como não o seria o mais vil dos homens. Eis porque o Senhor destinou um dia, no qual virá, com grande poder e majestade, a reivindicar a sua honra. Recorramos agora ao trono da divina misericórdia, para que naquele dia não sejamos condenados pela justiça de Deus.
********************************
I. Considerando bem, não há no mundo atualmente quem seja mais desprezado que Jesus Cristo. Trata-se com mais consideração um aldeão ao ver-se por demais ofendido incessantemente e de caso pensado, como se não pudesse vingar-se quando quisesse. Por isso o Senhor marcou um dia (chamado com razão, na Escritura Sagrada, o dia do Senhor, Dies Domini), quando vai dar-se a conhecer tal como é: Cognoscetur Dominus iudicia faciens (1). Diz São Bernardo, explicando este texto: O Senhor será conhecido quando vier a fazer justiça, ao passo que agora, porque quer usar de misericórdia, é desconhecido. Então esse dia não mais se chama de misericórdia e de perdão, senão dia de ira, dia de tribulação e de angústia, dia de calamidade e de miséria (2).
Conforme nos ensina o Evangelho de hoje, esse dia será precedido de sinais pavorosos. “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; na terra os povos estarão angustiados sob o rugido surdo e confuso do mar e das ondas; os homens morrerão com medo dos males que hão de vir sobre o mundo. Por fim, as virtudes dos céus (isto é, na interpretação dos Padres, os nove coros dos Anjos) se comoverão, e então se verá aparecer sobre as nuvens o Filho do homem, com grande poder e majestade”, a reivindicar a glória que os pecadores nesta terra lhe quiseram tirar.
Diz Santo Tomás: “Se, no horto de Getsêmani, com as palavras de Jesus Cristo: Ego sum, caíram por terra todos os soldados que O tinham vindo prender, que será, quando Jesus, sentado para julgar, disser aos condenados: “Aqui estou, sou eu aquele a quem tanto haveis desprezado”…; que será quando pronunciar contra eles a sentença eterna: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno! — Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum! (3)”
II. O dia do Juízo, assim como será para os réprobos um dia de pena e de terror, será, ao contrário, para os escolhidos um dia de regozijo e triunfo; porque, então, à vista de todos os homens, as suas beatas almas serão proclamadas rainhas do paraíso e feitas esposas do Cordeiro imaculado. Oh! Que ventura experimentarão os bem-aventurados, quando Jesus, voltando-se para a direita, lhes disser: “Vinde, meus benditos filhos, vinde possuir o reino dos céus que vos foi preparado: possidete paratum vobis regnum!” (4)
Irmão meu, o que será de ti naquele dia? São Jerônimo, quando passava os dias na Gruta de Belém, em continuas orações e mortificações, tremia só em pensar no Juízo universal. O venerável P. Juvenal Ancina, lembrando-se do Juízo ao ouvir cantar a seqüência da Missa de defuntos, Dies irae, dies illa, deixou o mundo e fez-se religioso. E tu, o que fazes para mereceres no dia do Juízo as bênçãos divinas, em companhia dos escolhidos?
Com o intuito de nos preparar para o Santo Natal, a Igreja propõe hoje o Juízo à nossa meditação. Sabendo que Nosso Senhor, na sua primeira vinda, apareceu num trono de graça e que na segunda aparecerá num trono de justiça rigorosíssima, quer que procuremos agora recorrer a Jesus afim de experimentarmos os efeitos de sua infinita misericórdia. Aproximemo-nos com confiança do trono de graça: Adeamus ergo cum fidúcia ad thronum gratiae (5).
Ah! Jesus meu e meu Redentor, Vós que um dia haveis de ser o meu juiz: perdoa-me antes que chegue esse dia. Agora, sois meu Pai, e como tal recebeis na vossa graça um filho que, arrependido, se prostra a vossos pés. Meu Pai, eu Vos amo de todo o meu coração e no futuro não me quero mais afastar de Vós, não quero mais ter a temeridade de voltar a ofender-Vos.
Mas já que conheceis a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa graça. “Excitai, Senhor, o vosso poder e vinde em meu auxílio, a fim de que, mediante a vossa proteção, livrado dos perigos iminentes por causa de meus pecados, mereça ser salvo por Vós.” (6) Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima. (*II 113.)
- Sal. 9, 17.
2. Soph 1, 15.
3. Matth. 25, 41.
4. Matth. 25, 34.
5. Hebr. 4, 16.
6. Or. Dom. curr.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus adversum semetipsum contradictionem, ut ne fatigemini, animis vestris deficientes — “Não deixeis de pensar naquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição; para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hebr. 12, 3).
Nos praedicamus Chirstum crucifixum, Iudaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam — “Nos pregamos a Cristo crucificado, que é de fato para os judeus escândalo e para os gentios loucura” (I Cor. 1, 23).
Venite ad me omnes, qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos — “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Matth. 11, 28).
Jesus:
Simile est regnum coelorum grano sinapis, quod accipiens homo seminavit in agro suo — “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo” (Matth. 13, 31).
Dabit percutienti se maxillam, saturabitur opprobriis — “Oferecerá a face ao que o ferir, fartar-se-á de opróbrios” (Thren. 3, 30).
Parasti in conspectu meo mensam adversus eos, qui tribulant me — “Preparaste uma mesa diante de mim, contra aqueles que me angustiavam” (Ps. 22, 5).
Simile factum est regnum coelorum homini, qui seminavit bonum semen in agro suo — “O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo” (Matth. 13, 24).

Clamans voce magna Jesus ait: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum — “Jesus, dando um grande brado, disse: Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito” (Luc. 23, 46).
Cum ergo accepisset Jesus acetum, dixit: Consummatum est — “Jesus, havendo tomado o vinagre, disse: Tudo está consumado”. (Io. 9, 30)
Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui — “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições do teu coração” (Ps. 36, 4).
Sciens Jesus quia omnia consummata sunt, ut consummaretur Scriptura, dixit: Sitio — “Sabendo Jesus que tudo estava cumprido, para se cumprir ainda a escritura, disse: Tenho sede”. (Io. 19, 28).
Beati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saeculorum laudabunt te — “Bem-aventurados, Senhor, os que moram em tua casa; pelos séculos te louvarão” (Ps. 83, 5).
Et circa horam nonam clamavit Iesus voce magna dicens: Deus meus, Deus, meus, ut quid dereliquisti me? — “E perto da hora nona deu Jesus um grande brado, dizendo: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Math. 27, 46.)
Ego sum pastor bonus — “Eu sou o bom pastor” (Io. 10, 14).
Credidit ipse et domus eius tota — “Creu ele e toda a sua família” (Jo. 4, 53).
Dicit matri suae: Mulier, ecce filius tuus. Deinde dicit discipulo: Ecce mater tua: — “Diz à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois diz ao discípulo: Eis aí tua mãe” (Io. 19, 26 et 27).
Qui appropinquant pedibus eius, accipient de doctrina illius — “Os que chegam a seus pés, receberão da sua doutrina” (Deut. 33, 3).
Simile factum est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo — “O reino dos céus é semelhante a um rei que fez núpcias para seu filho” (Matth. 22, 2).
Pater, dimitte illis: non enim sciunt quid faciunt — “Pai, perdoai-lhes; pois não sabem o que fazem” (Luc. 23, 34).