MISERICÓRDIA DE DEUS EM BAIXAR DO CÉU PARA NOS SALVAR COM A SUA MORTE

Resultado de imagem para jesus crucificadoBenignitas et humanitas apparuit Salvatoris nostri Dei — “Apareceu a benignidade e o amor de Deus nosso Salvador” (Tit. 3, 4).

Sumário. Antes da vinda de Jesus Cristo, manifestou-se o poder de Deus na criação do mundo, a sabedoria divina manifestou-se na sua conservação; a misericórdia, porém, manifestou-se particularmente, quando Jesus tomou a natureza humana a fim de salvar, pelos seus padecimentos e morte, os homens perdidos. Com efeito, de que misericórdia maior podia o Filho de Deus usar para conosco do que tomando sobre si os castigos por nós merecidos? E, apesar disso, quantos pecadores há que não voltam a Deus por desconfiança da sua bondade!

*****************************

Quando o Filho de Deus apareceu sobre a terra, viu-se quão grande é a bondade de Deus para conosco. Escreve São Bernardo, que primeiro se manifestou o poder de Deus em criar o mundo, a sua sabedoria em conservá-lo; mas a sua misericórdia manifestou-se, particularmente, quando o Filho de Deus tomou a natureza humana, a fim de salvar, pelos seus padecimentos e morte, os homens perdidos. Com efeito, que maior misericórdia podia o Filho de Deus mostrar-nos do que tomando sobre si os castigos por nós merecidos? Ei-lo nascido como criança, fraco e envolto em panos, deitado numa manjedoura, como que impossibilitado de mover-se e alimentar-se. É mister que Maria lhe dê um pouco de leite para lhe sustentar a vida. Vede-o depois no pretório de Pilatos, onde é preso a uma coluna com cordas, de que não podia livrar-se e açoitado da cabeça aos pés. Vede-o no caminho ao Calvário, onde pela extrema fraqueza e pelo peso da cruz que carrega, cai repetidas vezes por terra. Vede-o, finalmente, pregado no infame lenho, sobre o qual termina a vida à força de sofrimentos.

Pelo amor que nos teve, Jesus Cristo quer ganhar todo o amor dos nossos corações. Por isso, não quer enviar um anjo para nos remir, senão quer vir Ele mesmo para nos salvar com a sua Paixão. Se um anjo houvera sido nosso Redentor, o homem deveria dividir o seu coração, amando a Deus como seu Criador, e ao anjo como seu Redentor. Mas Deus, que quis possuir o coração do homem todo inteiro, assim como já era Criador do homem, quis também ser seu Redentor. Continuar lendo

DA VIDA HUMILDE E DESPREZADA QUE JESUS LEVOU DESDE A MENINICE

crianEt hoc vobis signum: invenietis infantem, pannis involutum, et positum in praesepio — “E este é o sinal que vô-lo fará conhecer: achareis um menino envolto em panos e posto em uma manjedoura” (Luc. 2, 12).

Sumário. Todos os sinais que o Anjo deu aos pastores para acharem o Messias nascido foram sinais de humildade. O sinal pelo qual o reconhecereis, disse-lhes, é que achareis um menino, envolto em pobres paninhos, numa estrebaria, e deitado sobre a palha numa manjedoura de animais. Assim quis nascer o Rei do céu, porque veio para destruir o orgulho, a causa da perdição do homem. E apesar disso o homem continua orgulhoso e ambicioso.

****************************

Todos os sinais que o Anjo deu aos pastores para acharem o Salvador já nascido foram sinais de humildade.Et hoc vobis signum: invenietis infantem, pannis involutum et positum in praesepio.Eis o sinal para reconhecer o Messias nascido, disse o Anjo: achareis uma criança, envolta em pobres paninhos, numa estrebaria e deitada sobre a palha numa manjedoura de animais. Foi assim que quis nascer o Rei do céu, o Filho de Deus, porque vinha destruir o orgulho, que fora a causa da perdição do homem.

Os profetas já tinham predito que o nosso Redentor devia ser saciado de opróbrios e tratado como o homem mais vil do mundo. Quantos desprezos não teve Jesus de sofrer da parte dos homens! Foi qualificado de ébrio, de mágico, de blasfemo e de herege. E depois, quantas ignomínias sofreu na sua Paixão! Foi abandonado por seus próprios discípulos, dos quais um O vendeu por trinta dinheiros, outro negou tê-Lo jamais conhecido. Foi levado pelas ruas preso e amarrado como um malfeitor, açoitado como um escravo, qualificado de insensato e de rei de burla; foi esbofeteado, coberto de escarros, e finalmente fizeram-No morrer suspenso numa cruz, em meio de dois ladrões, como se fosse o mais celerado dos homens. Assim, diz São Bernardo, o mais nobre de todos foi tratado como se fosse o mais vil de todos. Acrescenta porém o Santo: Quanto mihi vilior, tanto mihi carior — Ó meu Jesus, quanto mais humilhado e desprezado Vos vejo, tanto mais amável Vos fazeis e amado. Continuar lendo

PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA: PERDA DE JESUS NO TEMPLO (FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA)

perdaRemansit puer Iesus in Ierusalem, et non cognoverunt parentes eius — “O Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais se apercebessem” (Luc. 2, 43).

Sumário. Quando Jesus chegou à idade de doze anos, José e Maria levaram-No consigo a Jerusalém na solenidade de Páscoa. Por ocasião da volta, porém, Jesus ficou no templo, sem que seus pais se apercebessem, e só foi achado ao fim de três dias de busca e de lágrimas. Aprendamos deste mistério que devemos deixar tudo, parentes e amigos, quando se trata de promover a glória de Deus.

******************************

I. Escreve São Lucas que Maria e José iam todos os anos à Jerusalém na solenidade de Páscoa, e levavam consigo o Menino Jesus. Era costume entre os Israelitas, conforme diz o venerável Beda, que durante a viagem ao templo (ao menos na volta) os homens andassem separados das mulheres, ao passo que os meninos acompanhavam à vontade o pai ou a mãe. O Redentor, que então tinha doze anos, depois da solenidade, ficou três dias em Jerusalém. A Virgem-Mãe pensava que Jesus estava com José e este julgava-O na companhia de Maria. — O santo Menino empregou aqueles três dias em promover a glória de seu Eterno Pai com jejuns, vigílias e orações e em assistir aos sacrifícios que eram outras tantas figuras do seu próprio sacrifício da Cruz. Para ter algum alimento, diz São Bernardo, foi-lhe mister pedi-lo por esmola, e para descansar não tinha outro leito senão a terra nua.

Quando, à noite, Maria e José se encontraram na pousada, não achavam o seu Jesus, e com suma aflição se puseram a procurá-Lo entre os parentes e amigos. Voltando depois a Jerusalém, acharam-No finalmente, ao terceiro dia, no templo, disputando entre os doutores, que pasmados admiravam as perguntas e respostas daquele menino extraordinário. — Nesta terra não há pena que se possa comparar àquela que uma alma, desejosa de amar a Jesus, experimenta quando teme que por qualquer culpa d’Ele se tenha afastado. Foi esta a dor exatamente de Maria e José naqueles dias, porquanto a sua humildade, diz o devoto Lanspergio, fazia-lhes crer que se tornaram indignos de ter sob sua guarda um tão grande tesouro. É por isso que Maria, encontrando o Filho, a fim de Lhe exprimir a sua dor, disse: “Filho, porque fizeste assim conosco? Sabe que teu pai e eu te andamos buscando cheios de aflição.” E Jesus respondeu: “Porque é que me buscáveis? Não sabeis que importa ocupar-me das coisas de meu Pai?”

Tiremos do presente mistério dois ensinos. Primeiro, que devemos abandonar tudo, parentes e amigos, quando se trata de promover a glória de Deus. Segundo, que Deus se deixa achar por quem o busca. Bonus est Dominis animae quaerenti illum (1) — “O Senhor é bom para a alma que o busca. Continuar lendo

EPIFANIA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

abcVidimus enim stellam eius in oriente, et venimus adorare eum — “Vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-Lo” (Matth. 2, 2).

Sumário. Jesus, apenas nascido, quis começar a comunicar-nos as graças da Redenção. Por meio de uma estrela chama os Magos, e na pessoa destes a todos nós, a fim de O venerarem. Os santos Reis põem-se logo a caminho, entram na gruta, adoram o santo Menino e oferecem-Lhe as suas ofertas místicas. Adoremo-Lo nós também, em união com os santos Reis, e ofereçamos-Lhe pelas mãos de Maria os nossos corações arrependidos e amantes.

****************************

Jesus nasce pobre numa lapinha: os anjos do céu, é verdade, reconhecem-No por seu senhor, mas os homens da terra deixam-No abandonado. Vêm apenas uns poucos pastores para O adorar. O Redentor, porém, já quer começar a comunicar-nos a graça da Redenção, e por isso começa a manifestar-se aos gentios que menos O conheciam. Manda uma estrela iluminar os santos Magos, para que venham conhecer e adorar o seu Salvador. Foi esta a primeira e também a maior graça que Jesus nos deu: a vocação à fé, à qual sucede a vocação à graça, de que os homens se achavam privados.

Sem demora os Magos se põem a caminho; a estrela acompanha-os até à gruta, onde está o santo Menino. Chegados ali, entram, e o que acham? Invenerunt Puerum cum Maria (1) — “Acharam o Menino com Maria”. Eles acham uma donzela pobre e um menino pobre envolto em paninhos, sem ninguém para o servir ou assistir. Mas como? Ao entrarem naquela humilde gruta, os santos peregrinos sentem uma alegria nunca antes experimentada; sentem seu coração atraído para aquele Menino pequenino. Aquela palha, aquela pobreza, aqueles vagidos de seu pequeno Salvador, ah! Que setas de amor para seus corações, que chamas felizes de amor neles se acendem! O Menino acolhe-os com sorriso amável, demonstrando assim o afeto com que os aceita entre as primeiras presas da sua Redenção.

Os santos Reis olham depois para Maria, que queda silenciosa, mas com semblante no qual reluz uma doçura celeste, acolhe-os e agradece-lhes o terem vindo os primeiros a reconhecer-lhe o Filho por seu soberano Senhor. Eis que os santos varões, silenciosos pelo respeito, adoram o Filho da Virgem e reconhecem-No como Deus, beijando-Lhe os pés e oferecendo-Lhe os seus presentes; ouro, incenso e mirra. Em união com os santos Magos, adoremos o nosso pequenino Rei Jesus e ofereçamos-Lhe todo o nosso coração. Continuar lendo

O SONO DE JESUS-MENINO

sonoEgo dormio, et cor meum vigilat — “Eu durmo, e o meu coração vela” (Cant. 5, 2).

Sumário. O sono do Menino Jesus era muito diferente do das outras crianças. Enquanto dormia, seu Corpo, a Alma, unida à Pessoa do Verbo, velava. Desde então pensava nas penas que devia depois sofrer por nosso amor. Roguemos ao Santo Menino, pelo merecimento daquele bendito sono, que nos livre do sono mortal dos pecadores e, em vez disso, nos conceda o sono dos justos, pelo qual a alma perde a lembrança de todas as coisas terrestres.

******************************

O sono de Jesus-Menino foi demasiadamente breve e doloroso. Servia-Lhe de berço uma manjedoura, a palha de colchão e de travesseiro. Assim o sono de Jesus foi muitas vezes interrompido pela dureza daquela caminha excessivamente dura e molesta, e pelo rigor do frio que reinava na gruta. De vez em quando, porém, a natureza sucumbia à necessidade e o Menino querido adormecia. Mas o sono de Jesus foi muito diferente do das outras crianças. O sono destas é útil à conservação da vida; não, porém, quanto às operações da alma, porque esta, privada do uso dos sentidos, fica reduzida à inatividade. Não foi assim o sono de Jesus Cristo: Ego dormio et cor meum vigilat. O Corpo repousava; velava, porém, a alma, que em Jesus era unida à Pessoa do Verbo, que não podia dormir nem ficar sopitada pela inatividade dos sentidos.

Dormia, pois, o santo Menino, mas enquanto dormia, pensava em todos os padecimentos que teria de sofrer por nosso amor, no correr de toda a sua vida e na hora da sua morte. Pensava nos trabalhos pelos quais havia de passar no Egito e em Nazaré, levando uma vida extremamente pobre e desprezada. Pensava particularmente nos açoites, nos espinhos, nas injúrias, na agonia e na morte desolada, que afinal devia padecer sobre a Cruz. Tudo isso Jesus oferecia ao Pai Eterno enquanto estava dormindo, a fim de obter para nós o perdão e a salvação. Assim nosso Salvador, durante o sono, estava merecendo por nós, reconciliava conosco seu Pai e alcançava-nos graças. 

Roguemos agora a Jesus que, pelos merecimentos de seu beato sono, nos livre do sono mortal dos pecadores, que dormem miseravelmente na morte do pecado, esquecidos de Deus e do seu amor. Peçamos-Lhe que nos dê, ao contrário, o sono feliz da sagrada Esposa, da qual dizia: Eu vos conjuro… que não perturbeis à minha amada o seu descanso, nem a façais despertar, até que ela mesma queira (1). É este o sono que Deus dá às almas suas diletas, e que, no dizer de São Basílio, não é senão o supremo olvido de todas as coisas — summa verum omnium oblivio. Então a alma olvida todas as coisas terrestres, para só pensar em Deus e nos interesses da glória divina. Continuar lendo

JESUS É ALIMENTADO

alimQuis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae?— “Quem te dará a mim por irmão, que tomara o leite da minha mãe?” (Cant. 8, 1.)

Sumário. Quando o Menino Jesus foi envolto em paninhos, suspirou pelo alimento da Virgem Maria, e tomando-o já pensava em como havia de mudá-lo naquele sangue com que deveria um dia resgatar as almas sobre a cruz e alimentar nelas a vida da graça pela Comunhão. Roguemos à divina Mãe que nos alimente com o leite de uma devoção terna e amorosa à Infância de Jesus.

******************************

Depois que o Menino Jesus foi envolto nas faixas, pediu por vagidos a alimentação de Maria. A esposa dos Cânticos desejava ver seu irmãozinho tomando o alimento maternal — Quis mihi det te fratrem meum, sugentem ubera matris meae?Aquela esposa desejava-o, mas não foi atendida. Nós, ao contrário, temos a ventura de ver o Filho de Deus, feito homem e nosso irmãozinho, pedir a Maria o alimento próprio da sua idade. Que espetáculo era para o Paraíso ver o Verbo divino feito criança, nutrir-se com o leite que lhe oferecia uma virgenzinha, sua criatura! Aquele que nutre todos os homens e todos os animais da terra, ei-lo reduzido a tal estado de fraqueza e de pobreza, que precisa de um pouco de leite para sustentar a vida. Soror Paula Camaldulense, ao contemplar uma imagem de Jesus tomando leite, sentia cada vez o coração abrasado de terníssimo amor para com Deus.

Jesus, porém, alimentava-se poucas vezes por dia, e cada vez em pequena quantidade. Foi revelado à Soror Mariana, da ordem franciscana, que Maria Santíssima alimentava o Filho só três vezes cada dia. Ah! Como foi precioso para nós aquele leite que nas veias de Jesus Cristo devia mudar-se em sangue e assim preparar um banho salutar, no qual pudéssemos lavar as nossas almas! — Ponderemos ainda que Jesus tomava o leite a fim de nutrir este corpo que queria deixar-nos como nosso alimento na santa Comunhão. Ó meu pequenino Redentor, enquanto tomais alimento, estais pensando em mim; pensais em como aquele leite se transformará no sangue que um dia derramareis antes de morrer, a fim de resgatar por tão alto preço a minha alma e alimentá-la com o Santíssimo Sacramento, que é o leite salutar por meio do qual o Senhor conserva as nossas almas na vida da graça. Lac vestrum Christus est, diz Santo Agostinho, — O vosso leite é Jesus Cristo. 
Continuar lendo

JESUS ENVOLTO EM FAIXAS

faixasEt pannis eum involvit — “Envolveu-o em faixas” (Luc. 2, 7).

Sumário. Imaginemos ver a Maria que toma com reverência seu divino Filho, o adora, o beija e em seguida o envolve nas faixas. O santo Menino oferece obediente as mãos e os pés, e sentindo que lhe apertam as faixas, pensa nas cordas com que um dia será amarrado no Horto. Se um Deus assim se deixa enfaixar, não será por ventura justo que nos deixemos ligar também com os laços de seu amor, e nos desfaçamos de qualquer afeto terreno?

******************************

Imaginai verdes a Maria que, depois de ter dado à luz seu divino Filho, O toma com reverência nos braços, adora-O primeiro como seu Deus, e em seguida O enfaixa estreitamente:  Membra pannis involuta, Virgo Mater alligat (1). Vêde como o Menino Jesus obediente oferece as mãozinhas, oferece os pés e se deixa enfaixar. Ponderai que, cada vez que o divino Infante se deixava enfaixar, pensava nas cordas com que um dia devia ser amarrado no Horto, naquelas que depois deviam prendê-lo à coluna, e nos pregos que deviam fixá-lo na cruz. Pensando assim, deixava-se de boa mente enfaixar, a fim de livrar as nossas almas dos laços do inferno.

Jesus, estreitado nas faixas, volve-se a nós e convida-nos a que nos unamos consigo pelos doces laços do amor.Volvendo-se em seguida a seu Eterno Pai diz: “Meu Pai, os homens abusaram de sua liberdade e, revoltados contra Vós, tornaram-se escravos do pecado. Para compensar a sua desobediência, quero ser envolto e estreitado nestas faixas. Assim ligado, ofereço-Vos a minha liberdade, a fim de que o homem fique livre da escravidão do demônio. Aceito estas faixas, que me são caras, e mais caras ainda, porque são símbolos das cordas com que, desde agora, me ofereço a ser um dia amarrado e conduzido à morte para salvação dos homens.” 

Vincula illius alligatura salutaris (2)  — “Os seus vínculos são ligadura de salvação”. As faixas de Jesus foram as ligaduras saudáveis para curar as chagas de nossas almas. — Portanto, ó meu Jesus, quisestes ser estreitamente envolto em faixas por meu amor, e eu me recusarei a fazer-me ligar pelos laços do vosso amor? Terei para o futuro ainda a coragem de me desligar dos vossos laços tão suaves e amáveis, para me fazer escravo do inferno? Meu Senhor, por amor meu estais ligado nesta manjedoura, quero sempre estar ligado em união convosco. Continuar lendo

PORQUE JESUS QUIS NASCER CRIANÇA

crianParvulus enim natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho” (Is. 6, 9).

Sumário. São vários os motivos pelos quais Jesus quis nascer criança. Primeiro, quis desta forma mostrar-nos a sua propensão e facilidade em dar-nos os seus bens. Quis, em segundo lugar, afastar de nós todo o temor ao vermo-Lo reduzido, por assim dizer, a um estado de impotência para nos castigar pelos nossos pecados. Mas sobretudo Jesus nasceu como criança para se fazer amar por nós, não somente de apreço, senão de ternura. Amemo-Lo, pois, de todo o coração, cheguemo-nos a Ele, e peçamos-Lhe toda a sorte de bens.

***************************

Considerai que ao fim de tantos séculos, depois de tantas súplicas e suspiros, o Messias, a quem os santos Patriarcas e Profetas não tinham sido dignos de verem, o Suspirado das gentes, o desejo das colinas eternas, o nosso Salvador, já veio, já nasceu e já se deu todo a nós: Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis — “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho.” O Filho de Deus se fez pequenino, para nos fazer grandes; deu-se a nós, a fim de que nós nos demos a Ele, veio mostrar-nos o seu amor a fim de que nós Lhe respondamos com o nosso. Façamos-Lhe acolhida afetuosa, amemo-Lo e recorramos a Ele em todas as nossas necessidades.

Puer facile donat. As crianças, diz São Bernardo, gostam de dar o que se lhes pede. Jesus veio como criança para se nos mostrar todo inclinado e propenso a comunicar-nos os seus bens. “Nele estão encerrados todos os tesouros.” (1) “O Pai tudo tem posto em sua mão.” (2) Se desejamos luz, Ele veio para nos iluminar. Se queremos força para resistirmos aos inimigos, Ele veio exatamente para nos confortar. Se queremos o perdão e a salvação, ei-Lo que veio para nos perdoar e nos salvar. Se queremos, finalmente, o dom supremo do divino amor, Ele veio para abrasar-nos o coração. É sobretudo para este fim que se fez criança. Quis aparecer no meio de nós tanto mais amável, quanto mais pobre e humilde, quis tirar-nos todo o temor e ganhar o nosso amor, como observa São Pedro Crisólogo: Taliter venire debuit, qui voluit timorem pellere, quaerere caritatem. 

Além disso, Jesus quis vir pequenino para ser de nós amado com amor não somente de apreço, senão também de ternura. Todas as crianças sabem ganhar o afeto de todos aqueles que as vêem; mas quem não amará com toda a ternura a um Deus feito criancinha, necessitado de leite, tiritante de frio, pobre, humilhado, abandonado; a um Deus que chora e está vagindo numa manjedoura sobre a palha? Isso fez o amante São Francisco exclamar: Amemus Puerum de Bethlehem; Amemus Puerum de Bethlehem. Vinde amar a um Deus feito criança, feito pobre, e tão amável que baixou do céu para se dar todo a vós. Continuar lendo

A CIRCUNCISÃO DE JESUS E O SACRAMENTO DO BATISMO

circConsummati sunt dies octo, ut circuncideretur Puer — “Foram cumpridos os oito dias para ser circuncidado o Menino” (Luc. 2, 21).

Sumário. A cerimônia da circuncisão era figura do sacramento do batismo. Podemos, por tanto, imaginar que Jesus Cristo, quando foi circuncidado, pensou em cada um de nós, e que oferecendo a seu divino Pai as primícias do seu sangue, desde então nos mereceu a graça de sermos regenerados pelo batismo. Oh, que dom inestimável é o do santo batismo! Como, porém, temos respondido a tamanho favor? Temos, por ventura, manchado a vestimenta branca da inocência?

*****************************

Considera o Pai Eterno, que, tendo enviado seu Filho a fim de padecer e de morrer por nós, quer que no dia de hoje seja circuncidado e comece a derramar o seu sangue divino, para depois acabar de derramá-lo no dia da sua morte na cruz num, oceano de dores e desprezos. E porque? A fim de que esse Filho inocente pague assim as penas por nós merecidas. É, pois, com razão que a Igreja canta: Ó bondade admirável da misericórdia divina para conosco! Ó inestimável amor de compaixão! A fim de remires o homem entregaste teu Filho à morte! — Ó Deus eterno, quem seria capaz de fazer-nos esse dom infinito, senão Vós que sois a bondade infinita? E se, com o dom do vosso Filho, me destes o que mais caro possuíeis, justo é que eu miserável me dê todo a Vós.

Considera por outro lado o divino Filho, que, todo humilde e cheio de amor para conosco, abraça a morte amargosa, que lhe está destinada, para nos salvar, a nós pecadores, da morte eterna. De boa vontade começa hoje a satisfazer por nós à divina justiça, com o preço do seu sangue. — Nosso Senhor disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida por seus amigos.” (1) O amor, porém, de Jesus Menino foi muito além, porquanto, assim como diz São Paulo, Ele chegou a sacrificar a vida por nós, seus inimigos: Cum inimici essemus, reconciliati sumus Deo per mortem Filii eius (2)  — “Sendo inimigos de Deus, fomos com Ele reconciliados pela morte de seu Filho”. 

Portanto, ó meu Jesus, é por meu amor que aceitastes a morte; e que farei eu? Continuarei porventura a ofender-Vos com os meus pecados? Não, Redentor meu, não mais quero ser-Vos ingrato; hoje quero com todas as veras começar a amar-Vos de todo o meu coração. Vós, porém, ó Deus todo-poderoso, concedei-me a graça para Vos ser fiel. “E já que me fizestes chegar ao começo deste ano, salvai-me pelo vosso poder, a fim de que no correr do mesmo não caia eu em nenhuma falta, e os meus pensamentos, palavras e obras tenham por único escopo fazer aquilo que com toda a justiça exigirdes de mim.” (3) Continuar lendo

BONDADE E UTILIDADE DE CRISTO AO NASCER

Resultado de imagem para nascimento de jesusManifestou-se a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens. (Tt 3, 4)

Nosso Senhor nos prova sua bondade pela comunicação de sua divindade; e sua misericórdia, tomando nossa humanidade.

[1] Manifestou-se a bondade. Comentando estas palavras, diz Bernardo: “Manifestou-se o poder de Deus na criação das coisas; sua sabedoria, no governo das mesmas; sua bondade, porém, manifesta-se, sobretudo, na humanidade. Porque é uma grande prova de bondade unir o nome de Deus à humanidade ” 

[2] Não pelas obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia, salvou-nos. Diz Bernardo: “Que prova maior da sua misericórdia que o ter tomado a mesma miséria? Que prova maior de piedade do que ter-se feito palha o Verbo de Deus por causa de nós? Por isso que canta a Igreja: Cristo, de todos Redentor, Filho único do Pai

Nosso Senhor também nos é útil. Escreve Isaías (9, 6): um menino nasceu para nós. Isto é, para nossa utilidade. Ora, são quatro as utilidades da natividade de Cristo, que podemos tomar das quatro condições dos meninos: pureza, humildade, amabilidade e mansidão, que de modo excelentíssimo se verificam em Jesus menino.

Primeiro, encontramos nele a suma pureza, pois é resplendor da luz eterna, o espelho sem mácula (Sb 7, 26). Esta pureza se manifesta na conceição e no parto virginal. Pois o incorrupto não pode gerar o corrupto. Donde o dizer Alcuíno: “O Criador dos homens, para fazer-se homem e nascer de homem, elegeu mãe tal que soubesse convir e agradar-lhe. Quis, pois, que fosse virgem, para nascer sem mancha de mãe imaculada, e purificar a mancha de todos”    

Segundo, encontramos neste menino a suma humildade: aniquilou-se a si mesmo (Fl 2, 7); a qual manifesta-se, como diz Bernardo, no estábulo em que nasceu, nos panos que o envolvem, na creche em que repousa. 

Terceiro, encontramos neste menino a suma amabilidade, porque, conforme o salmista (44, 3), é o mais belo dos filhos dos homens, e mesmo das milícias celestes. Esta amabilidade é o resultado da união da divindade com a humanidade. Pela qual diz Bernardo: “É espetáculo de grande suavidade contemplar este homem que criou os homens.” 

Enfim, encontramos neste menino a sua mansidão, pois ele é benigno e compassivo, paciente e de muita misericórdia (Jl 2, 13). E São Bernardo diz: “Cristo é pequenino, e pode ser aplacado suavemente. Quem ignora que o menino perdoa facilmente? E se não temos pecado grave, podemos ser reconciliados com pouco. Com pouco, porém não sem penitência”.  

E assim como manifestou sua bondade para além de toda esperança, também podemos esperar, para além do que pensamos, semelhante benevolência de juízo.

(De Humanitate Christi)

Fonte: Permanencia

JESUS NASCE MENINO

Resultado de imagem para jesus nasce menino santo afonsoInvenietis infantem pannis involutum, et positum in praesepio — “Achareis um menino envolto em panos e colocado numa manjedoura” (Luc. 2, 12).

Sumário. A pequenez das crianças é um grande atrativo de amor, por causa da inocência. Mas atrativo muito mais poderoso nos deve ser a pequenez do Menino Jesus, que, sendo Deus imenso, se fez pequeno para atrair com mais força os nossos corações. Ah! Como será possível contemplar com fé um Deus feito Menino, chorando e gemendo numa gruta, sobre um pouco de palha, e não amá-Lo e não convidar todos a seu amor, como fazia São Francisco de Assis? Amemus puerum de Bethlehem — “Amemos o Menino de Belém”.

******************************

I. Considera que o primeiro sinal que o Anjo deu aos pastores para reconhecerem o Messias nascido foi este: que o haviam de achar como menino: invenietis infantem — “achareis um menino”. A pequenez das crianças é um forte atrativo do amor; mas atrativo muito mais forte deve ser para nós a pequenez de Jesus Menino, que, sendo Deus imenso, se fez pequeno para atrair com mais violência os nossos corações. Sic nasci voluit, qui voluit amari. Jesus não veio ao mundo para ser temido, mas para ser amado, e por isso quis mostrar-se na sua primeira vinda como menino tenro e pobre.

Magnus Dominus et laudabilis nimis, dizia São Bernardo — O meu Senhor é grande e por isso digno de todo o louvor, pela sua majestade divina. Mas, contemplando-o depois o Santo, feito pequenino na gruta de Belém, acrescentou com ternura: Parvulus Dominus et amabilis valde. — O meu grande e supremo Deus se fez pequenino por meu amor, e por isso é extremamente amável. — Oh! Quem poderá contemplar com fé um Deus feito menino, chorando e gemendo numa gruta, sobre um pouco de palha, e não O amar, e não convidar todos a seu amor, como os convidava São Francisco de Assis, dizendo: Amemus puerum de Bethlehem — “Amemos o menino de Belém”! Ele é pequenino, não fala, apenas geme: mas, ó Deus, aqueles vagidos são outras tantas vozes pelas quais nos convida a seu amor e nos pede os nossos corações.

Considera que as crianças atraem o afeto pela sua inocência. Todas as crianças, porém, nascem manchadas pelo pecado. Jesus nasce pequenino, mas nasce santo: sanctus, innocens, impollutus (1) — “santo, inocente, impoluto”. “O meu amado”, assim dizia a Esposa dos Cânticos, “é todo rubicundo pelo amor, e todo cândido pela sua inocência, sem mancha de qualquer culpa” — Dilectus meus candidus et rubicundus, electus ex millibus (2). Consolemo-nos, nós pobres pecadores, porque este divino Menino veio do céu para nos comunicar pela sua Paixão a sua inocência. Os seus méritos, contanto que os aproveitemos, podem mudar-nos de pecadores em santos; ponhamos, pois, neles toda a nossa confiança; peçamos por eles todas as graças ao Eterno Pai, e tudo alcançaremos. Continuar lendo

NOVA PÁGINA DO BLOG – PALESTRAS FSSPX: DVDs À VENDA

Resultado de imagem para fsspx

Prezados amigos, leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Criamos uma página exclusiva aqui no blog para venda dos DVDs das palestras proferidas pelos padres do Priorado da FSSPX em Santa Maria.

blo

Sempre que tivermos novidades nos títulos e mas quantidade disponíveis  essa página será atualizada.

É uma grande oportunidade para instrução/formação pessoal e também conhecimento do trabalho da FSSPX.

Nesse mar de heresias e ambiguidades pós-conciliares, nada melhor que o porto seguro da verdadeira Doutrina Católica.

TEMPO DO ADVENTO: DA NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO QUANTO À SATISFAÇÃO SUFICIENTE PELO PECADO

FRA_ANGELICOI. Uma satisfação pode ser considerada suficiente de duplo modo: Primeiro, perfeitamente; quando é condigna por uma certa adequação, para recompensar a culpa cometida. E, assim, uma suficiente satisfação não podia existir da parte do homem; pois, a natureza humana estava corrupta na sua totalidade pelo pecado; nem o bem de nenhuma pessoa, nem ainda o de muitas, podia, por equiparação, recompensar o detrimento de toda a natureza. Quer também porque o pecado. cometido contra Deus implica uma certa infinidade, relativamente à infinidade da majestade divina; pois, tanto mais grave é a ofensa, quanto maior é aquele contra quem se delinqüiu. Por onde, uma satisfação condigna exigia que o ato do satisfaciente tivesse uma eficácia infinita, como dizendo respeito a Deus e ao homem. 

Noutro sentido, uma satisfação pode ser considerada suficiente, imperfeitamente; isto é, quanto à aceitação de quem com ela se contenta, embora não seja condigna. E, deste modo, a satisfação do puro homem é suficiente. E como tudo o que é imperfeito pressupõe algo de perfeito, em que se funda, daí vem que toda a satisfação de um puro homem, tira a sua eficácia da satisfação de Cristo.

(IIIa., q. 1, a. 2, ad 2)

II. A Encarnação traz a confiança na remissão do pecado:  Assim como o homem é disposto para a bem-aventurança pela virtude, dela é também impedido pelo pecado. Ora, o pecado contrário à virtude é impedimento para a bem-aventurança, não só porque traz uma certa desordem à alma, enquanto a afasta da ordenação para o devido fim, como também ofendendo a Deus, de quem espera o prêmio da bem-aventurança (…) Além disso, tomando o homem consciência dessa ofensa, pelo pecado perde a confiança de se dirigir para Deus, confiança necessária para a aquisição da bem-aventurança.

É, pois, necessário ao gênero humano, que transborda de pecados, que lhe seja ministrado um remédio contra os pecados. Ora, esse remédio não pode vir senão de Deus, que pode mover a vontade humana para o bem, repondo-a na devida ordem, e pode perdoar a ofensa que recebeu, porque uma ofensa só é perdoada por quem recebe. 

Mas, para o homem librar-se de uma ofensa passada, é necessário que ele tenha conhecimento do perdão vindo de Deus. No entanto, só pode ficar certo disso, se Deus certificá-lo.

Por isso, foi conveniente e útil ao gênero humano, para que se conseguisse a bem-aventurança, que Deus se fizesse homem. Desse modo conseguiria de Deus perdão dos pecados e, pelo Deus-homem, a certeza desse perdão.

(Contr. 4, 54)

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

TEMPO DO ADVENTO: DA NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO – PARTE 2

ENCARNAÇÃO DO VERBO DE DEUS – Agência Boa Imprensa – ABIM

Foi necessário que Deus se encarnasse não somente para fazer avançar o homem no bem, mas para removê-lo do mal.

1. Porque assim o homem é instruído para não preferir o diabo a si nem venerá-lo a ele, o autor do pecado. Por isso diz Agostinho: Pois que a natureza humana pode assim unir-se a Deus, de modo a fazer com ele uma só pessoa, aqueles soberbos espíritos malignos não ousem antepor-se ao homem, pois não têm carne
2. Porque isso nos adverte quão grande seja a dignidade da natureza humana, para não a inquinarmos pelo pecado. Por onde, diz Agostinho: Deus nos mostrou quão excelso lugar tem a natureza humana entre as criaturas, por ter se manifestado aos homens como verdadeiro homem. E Leão Papa diz: Reconhece, ó Cristão, a tua dignidade; e, feito consorte da natureza divina, não queiras por uma volta degenerada tornar à antiga vileza
3. Porque, para eliminar a presunção humana, a graça de Deus, sem nenhuns méritos precedentes, se nos inculca no homem Cristo. 
4. Porque a soberba do homem, que é o máximo impedimento para nos unirmos a Deus, pode ser neutralizada e curada pela tão grande humildade de Deus. 
5. Para livrar o homem da servidão do pecado. O que, no dizer de Agostinho, devia realizar-se de modo que o diabo fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo; e isso se deu por ter Cristo satisfeito por nós. Pois, um puro homem não podia satisfazer por todo o gênero humano; e Deus não devia satisfazer. Por onde era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem. Por isso diz Leão Papa: A fraqueza é assumida pela força, pela majestade a humildade; de modo que, como convinha ao remédio à nossa salvação, um mesmo mediador entre Deus e os homens pudesse, como homem, nascer, e como Deus, ressurgir. Pois, se não fosse verdadeiro Deus não daria remédio; e se não fosse verdadeiro homem, não daria o exemplo
E há ainda muitas outras utilidades daí resultantes, superiores à compreensão dos sentidos do homem. 

TEMPO DO ADVENTO: DA NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO – PARTE 1

encarDe dois modos pode uma coisa ser considerada necessária para um determinado fim. Primeiro, como aquilo sem o que o fim não pode existir; assim, o alimento é necessário à conservação da vida humana. De outro modo, como o meio pelo qual melhor e mais convenientemente se chega ao fim: assim, o cavalo é necessário para viajar. Do primeiro modo não era necessário, para a reparação da natureza humana, que Deus se encarnasse. Pois, pela sua onipotente virtude, Deus podia reparar por muitos outros modos a natureza humana. Do segundo, modo, era necessário que Deus se encarnasse, para a reparação da natureza humana. por isso, Agostinho diz: mostremos que não faltava a Deus nenhum outro modo possível, a cujo poder todas as coisas estão igualmente sujeitas; mas, não existia nenhum outro modo mais conveniente para obviar à nossa miséria. E isto podemos considerar relativamente à promoção do homem no bem:

  1. Quanto à fé, que mais se certifica por crer na palavra mesma de Deus, Donde o dizer Agostinho: Para que o homem mais confiadamente trilhasse o caminho da verdade, a própria Verdade, o Filho de Deus, assumindo a humanidade, constituiu e fundou, a fé. 
  2. Quanto à esperança, que assim por excelência se exalça. Donde o dizer Agostinho: Nada foi tão necessário para exalçar a nossa esperança, do que a demonstração de quanto Deus nos ama. Pois, que indício mais manifesto desse amor do que ter-se o Filho de Deus dignado entrar em consórcio com a nossa natureza
  3. Quanto à caridade, que assim sobremaneira se excita. Por isso, diz Agostinho: Que maior causa do advento do Senhor do que mostrar Deus o seu amor para conosco? E depois acrescenta: Se nos custava amá-lo, que ao menos não custe corresponder-lhe ao amor. 
  1. Quanto a obrar retamente, do que se nos deu como exemplo. Donde o dizer Agostinho: Não se devia seguir o homem que podia ser visto; devia-se seguir a Deus, que não podia ser visto. Pois, para que se manifestasse ao homem e fosse visto do homem e o seguisse o homem, Deus fez-se homem
  1. Quanto à participação da divindade, que é a Verdadeira beatitude do homem e o fim da vida humana. O que nos foi conferido pela humanidade de Cristo; assim, diz Agostinho: Deus se fez homem para o homem fazer-se Deus.

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

TEMPO DO ADVENTO: A CONVENIÊNCIA DA ENCARNAÇÃO

angeli19I. – Convenientíssimo parece que as coisas invisíveis de Deus se manifestem elas visíveis; pois, para tal foi feito todo o mundo, segundo as palavras do Apóstolo (Rom 1, 20): “As coisas invisíveis de Deus se vêem consideradas pelas obras que foram feitas“. Ora, como diz Damasceno, pelo mistério da Encarnação se manifesta ao mesmo tempo a bondade, a sabedoria, a justiça e o poder ou virtude de Deus. A bondade, pois não desprezou a fraqueza da sua própria criatura; a justiça porque não deu a outrem senão ao homem o poder de vencer o tirano, nem livrou o homem da morte pela violência; a sabedoria, porque deu a mais cabal solução a um problema dificilimo; o poder enfim ou a virtude infinita, pois nada há de maior ao fato de Deus ter-se feito homem. Logo, foi conveniente Deus ter-se encarnado.

II. – A cada coisa é conveniente o que lhe cabe segundo à essência da sua própria natureza; assim, convém ao homem raciocinar por ser de natureza racional. Ora, a natureza mesma de Deus é a bondade, como está claro em Dionísio. Por onde, tudo o que pertence essencialmente ao bem convém a Deus. Ora pertence essencialmente ao bem o comunicar-se aos outros, como está claro em Dionísio. Por onde, pertence à essência do sumo bem comunicar-se de maneira suma à criatura. O que sobretudo se realiza por ter-se a si mesmo unido a natureza criada, de modo a fazer uma só pessoa dos três, o Verbo, a alma e a carne, como diz Agostinho. Por onde, é manifesto que foi conveniente que Deus se tivesse encarnado.

III. – Ser unida a Deus, na unidade de pessoa, não era conveniente à carne humana, pela condição da sua natureza, porque isso lhe sobrepujava a dignidade dela. Mas, foi conveniente a Deus, pela infinita excelência da sua bondade uní-la a si, para a salvação humana.

Diz Agostinho: “Deus é grande, não como uma mole, mas, pela sua virtude. Por isso, a grandeza da sua virtude não se comprimiu com a exiguidade local. Não é, portanto, incrível ao passo que o verbo transitório do homem, seja total e simultaneamente ouvido por muitos e por cada um, que o Verbo Deus, permanente, esteja total e simultaneamente em toda parte. Por onde, nenhum inconveniente resulta para eus encarnado.

IIIa., q. 1, a. 1

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

TEMPO DO ADVENTO: A IMENSIDÃO DO AMOR DE DEUS

tomasPorque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu filho Unigênito, para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16)

A causa de todos nosso bens é o Senhor e o amor divino. Amar, propriamente, é querer o bem a alguém. Portanto, por ser a vontade de Deus causa das coisas, e porque Ele nos ama, sobrevem-nos o bem. 

O amor de Deus é causa do bem da natureza. Também o é do bem da graça: “Eu amei-te com amor eterno; por isso te atrai” (Jr 31), isto é, pela graça.

Mas, que seja também o que dá o bem da graça, resulta de grande caridade. Demonstra-se aqui ser máxima esta caridade de Deus, por quatro motivos:

  1. Pela pessoa que ama, pois é Deus quem ama e o faz imensamente. Por isso diz: Porque Deus amou.
       
  2. Pela condição de quem é amado, pois é ao homem que se ama, mundano, carnal, isto é, vivendo em pecado. “sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu filho” (Rom 5, 10). Por isso diz: mundo
     
  3. Pela grandeza do dom, pois o amor prova-se pelo que se dá. Como diz Gregório, a prova do amor é a revelação da obra. Ora, de Deus recebemos o maior dos dons, pois deu seu filho Unigênito. Seu filho, isto é, natural, consubstancial a si, não adotivo. Unigênito, para demonstrar que Deus não dirigiu seu divino amor a múltiplos filhos, mas dirigiu-o todo ao Filho que nos deu como prova de seu imenso amor.
  1. Pela grandeza do fruto, pois por ele temos a vida eterna. Por isso diz: Para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna, que conquistou para nós morrendo na cruz.

Diz-se de alguém que pereceu porque foi impedido de alcançar o fim ao qual estava ordenado. O homem está ordenado a vida eterna e, quando peca, desvia-se deste mesmo fim. Enquanto vive, não perece de todo, pois pode restaurar; quando morre em pecado, então perece de todo.

Com estas palavras, “tenha a vida eterna”, verifica-se a imensidão do amor divino; pois, ao dar a vida eterna, da-se a si mesmo. Ora, a vida eterna nada mais é do que o gozo de Deus. Dar-se a si mesmo é indício de grande amor.

(In Joan. 3)

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

DA ESTRADA REAL DA SANTA CRUZ

Imagem relacionadaA muitos parece dura esta palavra: Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segue a Jesus Cristo (Mt 16,24). Muito mais duro, porém, será de ouvir aquela sentença final: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 25,41). Pois os que agora ouvem e seguem, docilmente, a palavra da cruz não recearão então a sentença da eterna condenação. Este sinal da cruz estará no céu, quando o Senhor vier para julgar. Então todos os servos da cruz, que em vida se conformam com Cristo crucificado, com grande confiança chegar-se-ão a Cristo juiz.

Por que temes, pois, tomar a cruz, pela qual se caminha ao reino do céu? Na cruz está a salvação, na cruz a vida, na cruz o amparo contra os inimigos, na cruz a abundância da suavidade divina, na cruz a fortaleza do coração, na cruz o compêndio das virtudes, na cruz a perfeição da santidade. Não há salvação da alma nem esperança da vida, senão na cruz. Toma, pois, a tua cruz, segue a Jesus e entrarás na vida eterna. O Senhor foi adiante, com a cruz às costas, e nela morreu por teu amor, para que tu também leves a tua cruz e nela desejes morrer. Porquanto, se com ele morreres, também com ele viverás. E, se fores seu companheiro na pena, também o serás na glória.

Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo; não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação. Vai para onde quiseres, procura quanto quiseres, e não acharás caminho mais sublime em cima nem mais seguro embaixo que o caminho da santa cruz. Dispõe e ordena tudo conforme teu desejo e parecer, e verás que sempre hás de sofrer alguma coisa, bom ou mau grado teu; o que quer dizer que sempre haverás de encontrar a cruz. Ou sentirás dores no corpo, ou tribulações no espírito.

Ora serás desamparado de Deus, ora perseguido do próximo, e o que é pior não raro serás molesto a ti mesmo. E não haverá remédio e nem conforto que te possa livrar ou aliviar; cumpre que sofras quanto tempo Deus quiser. Pois Deus quer ensinar-te a sofrer a tribulação sem alívio, para que de todo te submetas a ele e mais humilde te faças pela tribulação. Ninguém sente tão vivamente a paixão de Cristo como quem passou por semelhantes sofrimentos. A cruz, pois, está sempre preparada e em qualquer lugar te espera. Não lhe podes fugir, para onde quer que te voltes, pois em qualquer lugar a que fores, te levarás contigo e sempre encontrarás a ti mesmo. Volta-te para cima ou para baixo, volta-te para fora ou para dentro, em toda parte acharás a cruz; e é necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna. Continuar lendo

AMOR DE JESUS NA INSTITUIÇÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, ANTES DE IR MORRER

SacramentoDominus Iesus, in qua nocte tradebatur, accepit panem … et dixit: Hoc est corpus meum — “O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão… e disse: Isto é o meu corpo” (I Cor. 11, 23).

Sumário. Porque os testemunhos de amor, dados pelos amigos no momento de morrer, se gravam mais fundo na memória e se conservam mais preciosamente, o Senhor quis instituir a santíssima Eucaristia na véspera de sua morte. Ó prodígio de amor! Os homens preparam para Jesus açoites, espinhos e uma cruz, e ele escolhe exatamente esse tempo para nos dar a prova mais preciosa de seu amor. Este amor de Jesus convida-nos a que lhe correspondamos pelo nosso afeto e façamos alguma coisa por seu amor.

*****************************

O Santíssimo Sacramento é um dom feito unicamente por amor. Segundo os decretos divinos, foi necessário para nossa salvação que o Redentor morresse e que, pelo sacrifício de sua vida, satisfizesse à divina justiça pelos nossos pecados. Mas que necessidade havia que Jesus Cristo se nos desse em sustento, depois de sua morte? Assim o quis o seu amor. Se Ele instituiu a Eucaristia, diz São Lourenço Justiniani, foi unicamente para nos fazer compreender o imenso amor que nos tem.

É o que escreve também São João: Sciens Iesus quia venit hora eius (1) — Sabendo Jesus que era chegado o tempo de deixar a terra, quis deixar-nos a maior prova de seu amor, isto é, o dom do Santíssimo Sacramento. Tal é o precisamente o sentido destas palavras: In finem dilexit eos – “Amou-os até o fim”, isto é, segundo a explicação de Teofilato e São João Crisóstomo, extremo amore, summe dilexit eos — “amou-os com amor extremo”. — E observemos o que nota o Apóstolo: o tempo em que Jesus nos quis fazer este donativo, foi o de sua morte: na noite em que foi entregue. Enquanto os homens preparavam açoites, espinhos e uma cruz para o supliciarem, é que o bom Salvador nos quis dar este último penhor de sua ternura.

Mas porque instituiu este sacramento no momento de sua morte, e não antes? Diz São Bernardino que Jesus assim fez, porque os testemunhos de afeto dados pelos amigos no momento da morte, se imprimem mais profundamente na memória e mais preciosamente se conservam. Jesus Cristo, continua o mesmo Santo, já se nos tinha dado por muitos modos: por amigo, por mestre, por pai, por guia, por modelo, por vítima. Restava um último grau de amor, que era dar-se por alimento, a fim de se unir todo a nós, assim como o sustento se une ao que o toma, e é o que fez dando-se-nos no Santíssimo Sacramento. Continuar lendo

QUÃO POUCOS SÃO OS QUE AMAM A CRUZ DE JESUS

Resultado de imagem para carregar cruz de jesusMuitos encontram Jesus e são agora apreciadores de seu reino celestial; mas poucos que queiram levar a sua cruz. Tem muitos sequiosos de consolação, mas poucos da tribulação; muitos companheiros à sua mesa, mas poucos de sua abstinência. Todos querem gozar com ele, poucos sofrer por ele alguma coisa. Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos até beber o cálice da paixão. Muitos veneram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus, enquanto não encontram adversidades. Muitos O louvam e bendizem, enquanto recebem d’Ele algumas consolações; se, porém, Jesus se oculta e por um pouco os deixa, caem logo em queixumes e desânimo excessivo.

Aqueles, porém, que amam a Jesus por Jesus mesmo e não por própria satisfação, tanto O louvam nas tribulações e angústias, como na maior consolação. E posto que nunca lhes fosse dada a consolação, sempre O louvariam e Lhe dariam graças.

Oh! Quanto pode o amor puro de Jesus, sem mistura de interesse ou amor-próprio! Não são porventura mercenários os que andam sempre em busca de consolações? Não se amam mais a si do que a Cristo os que estão sempre cuidando de seus cômodos e interesses? Onde se achará quem queira servir desinteressadamente a Deus?

É raro achar um homem tão espiritual que esteja desapegado de tudo. Pois o verdadeiro pobre de espírito e desprendido de toda criatura – quem o descobrirá? Tesouro precioso que é necessário buscar nos confins do mundo (Prov 31,10). Se o homem der toda a fortuna, não é nada. E se fizer grande penitência, ainda é pouco. Compreenda embora todas as ciências, ainda estão muito longe. E se tiver grande virtude de devoção ardente, muito ainda lhe falta, a saber: uma coisa que lhe é sumamente necessária. Que coisa será esta? Que, deixado tudo, se deixa a si mesmo e saia totalmente de si, sem reservar amor-próprio algum, e, depois de feito tudo que soube fazer, reconheça que nada fez.

Não tenha em grande conta o pouco que nele possa ser avaliado por grande: antes, confesse sinceramente que é um servo inútil, como nos ensina a Verdade. Quando tiverdes cumprido tudo que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis (Lc 17,10). Então, sim, o homem poderá chamar-se verdadeiramente pobre de espírito e dizer com o profeta: Sou pobre e só neste mundo (Sl 24,16). Entretanto, ninguém é mais poderoso, ninguém mais livre que aquele que sabe deixar-se a si e a todas as coisas e colocar-se no último lugar.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

XXIII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A FILHA DE JAIRO, A HEMORROÍSSA E A ALMA PECADORA

Polenov-Filha-JairoDomine, filia mea modo defuncta est: sed veni, impone manum tuam super em et vivet – “Senhor, nesta hora acaba de expirar minha filha; mas vem, impõe sobre ela a tua mão, e viverá” (Mat. 9, 18).

Sumário. Meu irmão, se porventura te achares enfermo espiritualmente por causa do pecado, imita a hemorroíssa, da qual nos fala o Evangelho, chega-te a Jesus, na pessoa de seu representante, o sacerdote, no sacramento da penitência. Se, como espero, a consciência não te acusa de pecado grave, imita a confiança de Jairo, e roga ao Senhor faça reviver espiritualmente tantos pecadores teus irmão. Considera, porém, atentamente que não seja daqueles que têm o nome de vivos e estão mortos ou moribundos por causa de sua tibieza.

*************************

I. Refere o Evangelho que, “enquanto falava aos judeus, acercou-se um príncipe, e o adorou dizendo: Senhor, nesta hora acaba de falecer minha filha; mas vem, impõe sobre ela tua mão e viverá. E Jesus, levantando-se, o foi seguindo com os seus discípulos. E eis que uma mulher, que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, chegou-se por detrás dele e lhe tocou a fimbria do vestido. Porque dizia consigo: Se tocar ao menos o seu vestido, estarei curada. E, voltando-se Jesus e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, tua fé te sarou. E ficou sã a mulher desde aquela hora – “Et salva facta est mulier ex illa hora.

Diz Cornélio a Lapide, que tanto a hemorroíssa como a jovem morta são figuras da alma pecadora, a qual Jesus Cristo quer ressuscitar para a vida espiritual e livrar do desregramento da concupiscência, figurado pelo fluxo de sangue. E São Boaventura, refletindo sobre este trecho do Evangelho, dirige-se ao pecador e diz: “Aquela jovem é tua alma, morta há pouco pelo pecado; converte-te já para Deus: Festina conversionem.” – Portanto, meu irmão se porventura tens ofendido a Deus, imita a fé daquela pobre mulher e chega-te a Jesus, na pessoa de seu ministro, no tribunal da penitência. E não tardes em fazê-lo, porque, se fores adiando, virá talvez sobre ti a ira de Deus e te mandará ao inferno (1).

Se, porém, como espero, não tens pecado grave na alma, imita a Jairo, pai da jovem, e roga ao Senhor venha com a sua graça e faça ressuscitar espiritualmente tantos pecadores, teus irmãos. – Considera todavia atentamente não sejas do número daqueles de quem diz São João: “Tem reputação de que vivem, mas estão mortos”, ou quase moribundos por causa de sua tibieza (2). Continuar lendo

14 DE SETEMBRO: EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

Está página é extraída do Boletim de Nossa Senhora da santa Esperança, de Março de 1903 (reeditada em Le Sel de la Terre, no. 44, consagrado ao Pe. Emmanuel-André). O Padre Emmanuel pronunciou o seu último sermão na festa da Exaltação da Santa Cruz, no Domingo, 14 de Setembro de 1902, seis meses antes de morrer. Trata do espírito da Cruz, que é “a participação do próprio espírito de Nosso Senhor, levando a Cruz, pregado à Cruz e morrendo na Cruz”. 

exal

O ESPÍRITO DA CRUZ

O último sermão do Padre Emmanuel

Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com freqüência.

Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz.

Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão.

O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz?

O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a Sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a Sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a Sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Continuar lendo

ESPECIAIS DO BLOG: O PAI NOSSO

Resultado de imagem para jesus ensinando pai nossoEm mais uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os links para as explicações do Pai Nosso, segundo Santo Tomás de Aquino:

06 DE AGOSTO: TRANSFIGURAÇÃO DE NOSSO SENHOR

Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo - Arsenal Católico
Hoje comemoramos a Transfiguração de Nosso Senhor.

Tratando desse assunto, Santo Tomás discorre 4 artigos:

Uma Meditação de Santo Afonso de Ligório em relação ao tema pode ser lida clicando aqui.

DA FAMILIAR AMIZADE COM JESUS

Resultado de imagem para amigo jesusQuando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo 11,28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o mundo inteiro?

Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se perdesse a todo o mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.

Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.

Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

DO AMOR DE JESUS SOBRE TODAS A COISAS

Resultado de imagem para ajoelhado crucifixoBem-aventurado aquele que compreende o que seja amar a Jesus e desprezar-se a si por amor de Jesus. Por esse amor deves deixar qualquer outro, pois Jesus quer ser amado acima de tudo. O amor da criatura é anganoso e inconstante; o amor de Jesus é fiel e inabalável. Apegado à criatura, cairás com ela, que é instável; abraçado com Jesus, estarás firme para sempre. A Ele ama e guarda como amigo que não te desamparará, quando todos te abandonarem, nem consentirá que pereças na hora suprema. De todos te hás de separar um dia, quer queiras, que não.

Conchega-te a Jesus na vida e na morte; entrega-te à sua fidelidade, que só Ele te pode socorrer, quando todos te faltarem. Teu Amado é de tal natureza, que não admite rival: Ele só quer possuir teu coração e nele reinar como rei em seu trono. Se souberas desprender-te de toda criatura, Jesus acharia prazer em morar contigo. Quando confiares nos homens, fora de Jesus, verás que estás perdido. Não te fies nem te firmes na cana movediça: porque toda a carne é feno, e toda a sua glória fenece como a flor do campo (Is 40,6).

Facilmente serás enganado, se só olhares para as aparências dos homens. Se procuras alívio e proveito nos outros, quase sempre terás prejuízo. Procura a Jesus em todas as coisas, e Jesus acharás. Se te buscas a ti mesmo, também te acharás, mas para a tua ruína. Pois o homem que não busca a Jesus é mais nocivo a si mesmo que todo o mundo e seus inimigos todos.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

A IMAGEM VIVA

Resultado de imagem para coroa rei

Fonte: SSPX District of Great Britain – Tradução: Dominus Est

O JOVEM REI

Era uma vez um jovem rei. Ninguém sabia que ele era um rei porque seus antepassados ​​tinham sido derrotados em batalha e o reino havia passado para outras mãos. No entanto, o jovem ainda era legitimamente um rei e tinha autoridade natural e sabedoria, além de cuidar daqueles ao seu redor como se fossem seus súditos. 

Caminhando por uma estreita rua lateral da capital do reino, na parte pobre da cidade, o rei avistou uma criança chorando. A criança não tinha pais e foi abandonada nas ruas para encontrar comida e abrigo. O rei parou, sorriu e deu à criança uma sacola de frutas e iguarias que tinha acabado de comprar em um mercado próximo. Mas tão rápido quanto chegou, o rei desapareceu novamente, deixando a criança admirada e feliz, e perguntando quem era o homem misterioso que tinha sido tão gentil. 

Poucos meses depois, o mesmo aconteceu novamente – quando a criança já tinha perdido a esperança, o rei apareceu do nada e deu à criança uma sacola contendo roupas, um pouco de sabão e muita comida. Desta vez, porém, o rei parou para conversar. A primeira coisa que ele disse foi: “Não tenha medo”. 

Com o passar dos meses, os encontros se tornaram mais frequentes – primeiro quinzenalmente, depois uma vez por semana e então quase todos os dias. O rei trazia tudo o que era bom para a criança – não somente coisas materiais, mas amizade e amor paternal. A vida da criança foi transformada por esses encontros; todos os dias, cada momento ocioso, a criança costumava pensar com felicidade no jovem rei … Continuar lendo