FORA DA REALIDADE

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Gustavo Corção

— Mamãe, você está fora da realidade!… exclamou com admiração e carinho a boa filha que ainda entretém sentimentos afetuosos por sua mãe, mas não esconde o pasmo que lhe causa seu espantoso alheamento às “realidades”.

Este grito de toda uma geração contra tudo o que encontrou já feito, já preparado e já servido nas mamadeiras é essencialmente um grito de ingratidão organizada, a serviço da onda de desordens que se avolumam contra o IV mandamento e, portanto, contra seu Autor. Mas antes, tal gravidade é uma proclamação universal da tolice, da bobice que dá o nome de “realidade” às coisas, aos fatos, aos acontecimentos, aos procedimentos que querem se impor por suas “existências” ao mesmo tempo que se furtam a qualquer juízo de valor em termos de bem e de verdade. Diante desse ídolo — “o que todos fazem” — a quase totalidade dos moços de nosso tempo ficam possuídos de um critério infalível que lhes dá uma coisa de um brutal determinismo físico que eles confundem com liberdade, por lhes parecer que estão sempre fazendo o que querem, quando, na verdade, nunca estão propriamente fazendo nada, mas fazendo o que todos fazem. Pobres vitimas de uma perversa tradição, julgam-se herdeiros opulentos, quando não passam de portadores de taras acumuladas por uma corrente histórica que, em nome de uma categoria denominada “liberdade” e desde a denominação ambígua, passa a relativar e a contestar a verdade e o bem.

O liberalismo produziu este fruto que passa de verde a podre, sem amadurecer. O melhor exemplo deste século está no amontoado de assombros disparates produzidos principalmente pelos povos de língua inglesa que, sempre em nome dos mais filantrópicos princípios, e dos mais desumanos erros, fizeram de nosso triste século este estuário de desordens de incalculáveis conseqüências. Vimos em poucos anos desmoronar-se o maior império de nossa historia. E por quê? Que fizeram os ingleses para em tão pouco tempo perderem o Império? Combateram heroicamente, quando uma conjuração de traições alheias e próprias os deixaram isolados diante da máquina de guerra alemã que se tornara superpoderosa, não apenas pelo enérgico trabalho dos alemães, mas pela enérgica obstinação do mundo liberal no consentimento e na promoção da anarquia. Depois desse combate heróico, venceram os alemães e russos, mas nessa hora de vencer, ingleses e norte-americanos fizeram prevalecer a obstinação da desordem, da anarquia liberal sobre as virtudes patrióticas e militares. Como resultado dessa atitude, viu-se este assombro: o inimigo, já vencido, é admitido como vencedor. E a Rússia constrói o seu imenso império ainda mais depressa do que a Inglaterra perdeu o seu. E hoje vemos o desmoronamento dos Estados Unidos acelerar o processo de desmoronamento universal da civilização. Continuar lendo

A CRISE NA IGREJA CATÓLICA PARTE 1 – A FÉ

Primeira parte sobre o tema da Crise na Igreja Católica. Neste episódio nossos amigos Diogo e Sara começam por desvendar os números e perceber se há de facto uma crise na Igreja. A primeira parte, este episódio, incide sobre a nova concepção de fé, modernista. Para discorrer sobre o tema, usamos o Livro “Catecismo na Igreja Católica”, a Encíclica Pascendi de São Pio X, sobre o modernismo, e a Encíclica Humani Generis de Pio XII, sobre os erros modernos.

HITLER QUERIA SEQUESTRAR O PAPA: O PLANO SECRETO DO VATICANO PARA PROTEGER PIO XII

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Documentos inéditos dos arquivos da Gendarmeria Pontifícia revelam o plano secreto implementado para defender a Santa Sé e “exfiltrar” o Papa Pio XII, no caso de uma ocupação do Vaticano. 

Entre 8 de setembro de 1943 – data da ocupação de Roma pelos alemães – e a libertação da Cidade Eterna, em 4 de junho de 1944, o Vaticano se viu nos olhos de um ciclone. Esse período é destacado pelo historiador Cesare Catananti em seu livro Il Vaticano nella tormenta, publicado pelas edições San-Paolo, em 17 de janeiro de 2020.

Por meio de documentos que ele pôde, excepcionalmente, consultar na sede da gendarmeria papal, o historiador demonstra que o chanceler alemão havia planejado a invasão dos 44 hectares do Vaticano, bem como o sequestro do soberano pontífice. Ele seria deportado então para Munique ou para o Liechtenstein. 

O secretário de Estado, tendo sido informado sobre esse projeto, colocou em prática um verdadeiro plano de guerra. O Vaticano montou uma barricada: reforço das grandes portas com monumentais barras e sacos de areia, organização da defesa pela guarda suíça, fornecimento de água e comida para se preparar para um longo cerco. 

Se Hitler não recuasse por nada e decidisse enviar seus panzers para romper a muralha, não havia problema, o plano de defesa previa uma redistribuição tática nos palácios apostólicos, com, como fase final, um corpo a corpo sangrento com a guarda nobre, à porta do apartamento pontifício, onde o agressor pensaria ter encontrado o soberano pontífice. 

O tempo ganho por uma luta tão heróica e desesperada seria usado para permitir que o sucessor de Pedro e seus familiares chegassem à torre gregoriana – também chamada Torre dos Ventos – localizada ao norte da Basílica do Vaticano. Através de passagens secretas, todos poderiam chegar rapidamente a um lugar seguro, com o apoio do MI9 britânico. 

A invasão não ocorreu, mas a história está cheia de reviravoltas. Em junho de 1944, na época da libertação de Roma, Pio XII abriria a muralha leonina aos soldados alemães – os mesmos que deveriam pegá-lo alguns meses antes – a fim de protegê-los das represálias de uma população exacerbada e com sede de vingança. 

PODEMOS REZAR PARA QUE A DOENÇA DOLOROSA DE OUTRA PESSOA SEJA TRANSFERIDA PARA NÓS?

O sofrimento dos inocentes é um eterno problema para a filosofia e ...Pe. Juan Carlos Iscara, FSSPX

O amor da Cruz é uma parte integral e essencial da nossa vida Católica, como nosso Divino Salvador mesmo disse, “Se alguém quiser vir após de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me” (Lc 9, 23); e, como São Paulo também ensina: “Mas longe de mim o gloriar-me senão da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo“ (Gl 6, 14). Também é verdade que o sofrimento físico é uma das cruzes mais difíceis de se suportar sem ressentimento e com amor. Teoricamente, também seria um grande ato de caridade pedir que o sofrimento de outra pessoa seja transferido para si mesmo, visando aliviar a outra pessoa.

Porém, há uma diferença enorme entre aceitar os sofrimentos que Deus, em Sua bondade, digna-se enviar-nos, e realmente e positivamente querer que esses sofrimentos venham sobre nós. É a diferença entre o segundo e o terceiro graus de humildade descritos por Santo Inácio nos seus Exercícios Espirituais. O segundo grau de humildade é o da indiferença, isto é, a aceitação do que Deus quiser enviar-nos, seja doença ou saúde, pobreza ou riquezas, etc. “Eu nem desejo, nem estou inclinado a…” O terceiro grau é inteiramente heroico e consiste em efetivamente escolher ou desejar pobreza, sofrimento ou insultos ao invés do contrário “quando o louvor e a glória da Divina Majestade seriam igualmente servidos, para imitar e estar em realidade mais próximo de Cristo, Nosso Senhor…” (ibid.).

Porém, deve-se tomar nota de que esse desejo e essa oração são a vontade de Deus apenas quando são frutos de uma alma que atingiu a perfeição. Isso é o que o Pe. A. Tanquerey tem a dizer em seu tratado intitulado A Vida Espiritual: “O desejo e o amor do sofrimento… são o grau próprio das almas perfeitas e especialmente das almas apostólicas, dos religiosos, Padres e homens e mulheres devotos. Tal é a disposição que animava Nosso Senhor quando ele ofereceu a Si mesmo como vítima na Sua entrada neste mundo… Por amor a Ele e para se tornarem mais como Ele, as almas perfeitas adentram os mesmos sentimentos” (§1091)

Em qualquer outra alma, porém, essa oração ou desejo poderia ser uma forma de autoengano e mesmo uma tentação do demônio para causar desânimo. O Padre Tanquerey prossegue indagando-se se é apropriado a uma alma pedir, formalmente, sofrimentos extraordinários a Deus, como os Santos têm feito e como, em nossos dias, algumas almas generosas ainda fazem. Porém, geralmente falando, esses pedidos não podem ser prudentemente recomendados. Eles podem, facilmente, levar a ilusões e, normalmente, são resultado de algum impulso de generosidade irrefletido que se originou da presunção… Daí advêm violentas tentações de desânimo e mesmo de reclamar da Divina Providência… Consequentemente, não devemos pedir sofrimentos ou provas extraordinários… Se alguém se sentir inclinado a tal, deve buscar conselho com um criterioso diretor de almas e não fazer nada sem sua aprovação” (ibid., §1092).

Aí está a resposta da pergunta: só se deve fazer esse pedido após ter discernido que tal é a vontade de Deus porque se está sendo chamado à perfeição, e se o diretor espiritual estiver de total acordo.

DAS QUATRO COISAS QUE PRODUZEM GRANDE PAZ

Resultado de imagem para ajoelhado rezandoJesus: Filho, vou agora te ensinar o caminho da paz e da verdadeira liberdade.

A alma: Fazei, Senhor, o que dizeis, que muito grato me é ouvi-lo.

Jesus: Filho, trata de fazer antes a vontade alheia que a tua. Prefere sempre ter menos que mais. Busca sempre o último lugar e sujeita-te a todos. Deseja sempre e roga que se cumpra plenamente em ti a vontade de Deus.

O homem que assim procede penetra na região da paz e do descanso.

A alma: Senhor, este vosso discurso é breve, mas encerra muita perfeição. Poucas são as palavras, cheias, porém, de sabedoria e de copioso fruto. Se eu as praticasse fielmente, não me deixaria perturbar com tanta facilidade. Pois, todas as vezes que me sinto inquieto e aflito, verifico que me desviei desta doutrina. Vós, porém, que tudo podeis e desejais sempre o progresso da alma, aumentai em mim a graça, para que possa guardar vossos ensinamentos e levar a efeito minha salvação.

Oração contra os maus pensamentos:

Senhor, meu Deus, não vos aparteis de mim, meu Deus dignai-vos socorrer-me (Sl 70,13). Pois me invadem vários pensamentos, e grandes temores afligem minha alma. Como escaparei ileso, como poderei vencê-los?

Diante de ti, são palavras vossas, irei eu e humilharei os soberbos da terra (Is 14,1); abrir-te-ei as portas do cárcere e te revelarei mistérios recônditos.

Fazei Senhor, conforme dizeis e dissipe vossa presença todos os maus pensamentos. Esta é a minha única esperança e consolação: a vós recorrer em toda tribulação, em vós confiar, invocar-vos de todo o coração e com paciência aguardar a vossa consolação. Amém.

Imitação de Cristo – Tomas de Kempis

NO INFERNO, OS SEMEADORES DE DISCÓRDIAS: O POETA BERTRAND DE BORN

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Continuei a observar aquele grupo infernal. Vi coisas que não me atreveria a dizer sem provas, se não fosse pela segurança de minha consciência, boa companheira que, confiante em sua pureza, fortalece tanto o coração do homem! Vi – e ainda parece que estou vendo – um corpo sem cabeça, andando, como uma lanterna. Olhava para nós e dizia: ‘ – Ai de mim!’. Como isso pode acontecer, só Aquele que nos governa sabe. Ele levantou se braço com a cabeça e disse: ‘ – Olha meu cruel tormento tu, que ainda estás vivo e contemplando os mortos. Sou Bertrand de Born, aquele que deu tão maus conselhos a um jovem rei. Inimizei pai e filho, um contra o outro e, por ter dividido pessoas tão unidas, levo – ai de mim! – minha cabeça separada de meu tronco. Assim se cumpre em mim a pena de Talião”.

Trecho da Divina Comédia

SERMÃO DE SÃO LEÃO MAGNO SOBRE A PAIXÃO DO SENHOR (SERMÃO LVII)

São Leão Magno – Núcleo de Estudos de Filosofia, Patrística e Patrologia
INTRODUÇÃO DA REVISTA “A ORDEM”

O sermão que hoje publicamos como precioso alimento para estes dias sacratíssimos da Quaresma em que, na alegria do Espírito Santo esperamos a Páscoa do Senhor, é um dos dezenove sermões do santo Papa que estão colecionados nas edições impressas como “Sermões sobre a Paixão”.[1] Pelas suas primeiras palavras, vê-se que é precedido de um outro. Esta circunstância não prejudica porém a sua unidade, pois forma por si só um todo independente; foi pronunciado numa quarta-feira da Semana Santa e o sermão anterior a que alude, no domingo precedente.

Mesmo entre os sermões de S. Leão este se faz notar pela sua extraordinária beleza, pela segurança magistral do movimento oratório; contém por assim dizer todos os pontos de história e doutrina que o santo Pastor costumava abordar nas homilias similares e não se estende por mais de quinze minutos. 

De início, é quase um “sermão de lágrimas”: é a Paciência de Cristo, a crueldade e cegueira dos Judeus, a cumplicidade de Pilatos, a iniqüidade do processo que condenou Jesus e tudo isso culminando com a crucificação e morte de Cristo (I-V). Mas neste momento, a narração cede o passo à exortação: o pensamento se eleva gradativa e rapidamente e o tema da gloria da Paixão se desenvolve em toda a sua plenitude (VI-VII). A conclusão é uma exortação à vida cristã: a Paixão do Senhor destruiu a morte e a nossa vida, a nossa moral é o exercício do mistério da “nova criatura”: “como as coisas antigas passaram e tudo se fez novo, ninguém permaneça na caducidade da vida carnal…” (VIII).

A glória da Paixão… a glória da Morte do Senhor… “uma força da fraqueza, uma glória do opróbio…”. Invariavelmente o santo Padre desenvolve este tema. “A glória da Paixão do Senhor, sobre a qual vos prometemos falar ainda hoje, Diletíssimos, é principalmente admirável pelo mistério de humildade que contém”: são as primeiras palavras de um outro sermão seu. Invariavelmente ele nos exorta à alegria e nos proíbe de chorar[2] ao considerarmos o espetáculo patético do Calvário; tal como hoje a Liturgia da Sexta-Feira Santa nos fala do “gáudio que veio para todo o mundo” através da Cruz do Senhor.  

Piedoso exagero oratório? Gosto condenável do paradoxo? É quase um escândalo (o escândalo da Cruz!) que possamos indagar, ainda que em interrogação retórica, a respeito daquilo que o instinto cristão mais elementar já exprimia ao adornar a Cruz de pedrarias e assim representar aos olhos da carne o que a fé via tão nitidamente: a glória da Paixão do Senhor. E no entanto indaguemo-lo agora: será a Paixão gloriosa, será gloriosa a Morte do Senhor, será a Sexta-Feira Santa um dia de triunfo e de glória, estará certo o Cânon da nossa Liturgia ocidental ao dizer que comemoramos “a tão bem-aventurada Paixão” de Cristo?  Continuar lendo