MORTE CEREBRAL E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS

Resultado de imagem para morte cerebral

Fonte: SSPX USA – Tradução: Dominus Est

Tendo em vista os comentários acerca da revogação do Papa Bento XVI do consentimento à doação de seus órgãos, acreditamos ser apropriado apresentar essa breve exposição do Pe. Peter Scott acerca desta importante questão moral, frequentemente confusa para os católicos.

Pe. Peter Scott estudou medicina antes de entrar no seminário e foi ordenado em 1988 pelo Arcebispo Lefebvre. Ele serviu como professor de Teologia, Filosofia, Latim e História no seminário, assim como dois termos consecutivos como Superior do Distrito dos EUA pela FSSPX e como pároco do Holy Cross Seminary em Goulburn, Austrália. Atualmente, ele é reitor em Ontario, Canadá. Seus artigos eruditos e respostas acerca das questões a medicina moderna vem sendo muito valorizados ao longo dos anos.

A frequência do transplante de órgãos nos últimos anos trouxe à tona um debate não resolvido pelos Papas João Paulo II e Bento XVI, apesar das inúmeras discussões sobre a questão. Este não se trata de um debate acerca da moralidade intrínseca do transplante de órgãos. Essa questão foi, de fato, resolvida pelo Papa Pio XII, quando de sua alocução sobre o transplante da córnea ocular, a qual pode ser extraída do cadáver de uma pessoa falecida. Sobre o assunto, disse o seguinte a especialistas em cirurgia oftalmológica em 14 de maio de 1956: “O cadáver não é, no sentido apropriado da palavra, o sujeito de direitos, pois está privado da personalidade, única causa que o tornaria sujeito de direitos. A extração não é mais uma remoção de um bem; os órgãos visuais não mais possuem, em efeito, a qualidade de um bem em um cadáver, pois não mais o servem, e estão privados de finalidade.” Retira-se então a seguinte conclusão: “A pessoa falecida de quem a córnea é  retirada não é lesada em nenhum dos bens ao qual ela possui um direito, nem no próprio direito a esses bens.” (Citado de Courrier de Rome, #312, junho de 2008).

Os mesmos princípios podem ser aplicados ao transplante de órgãos vitais, moralmente permissíveis se retirados de um cadáver. João Paulo II confirmou este claríssimo ensinamento em um discurso ao 18º Congresso Internacional de Medicina em Transplante em 24 de agosto de 2000: “Órgãos vitais individuais em um corpo podem ser removidos unicamente após a morte. Este requerimento é óbvio, visto que agir diferentemente significaria intencionalmente causar a morte do doador ao remover seus órgãos.” 

Morte Cerebral e Morte Real 

Empty hospital bed

Todavia, o debate se impõe acerca da determinação do momento do óbito, necessário para moralmente remover os órgãos e realizar o transplante. A dificuldade se encontra no fato de que o momento da morte, a separação do corpo de sua alma, não é um evento sempre evidente perante a investigação empírica. Além disso, é claro que, como admitido por Pio XII e João Paulo II, a determinação desse momento não é uma questão para a teologia ou o Magistério da Igreja, mas sim de qualidade técnica pela qual a profissão médica é responsável.

Antes de 1968, o momento do óbito era determinado pela parada das funções cardíaca e respiratória, absolutamente necessárias para manter a unidade do ser vivo. Todavia, em 1968, os critérios de Harvard foram propostos e aceitos, a saber, que a morte cerebral poderia ser utilizada para determinar o óbito. Professor Seifert, especialista na questão, afirmou o seguinte ao LifesiteNews em 24 de fevereiro de 2009: “É em vão que buscamos qualquer argumento a favor desta alteração inaudita da forma de determinar o óbito …exceto por duas razões pragmáticas para a introduzir, as quais nada tem a ver com o estado vital do paciente, mas unicamente lidam com a praticidade de o considerar ou definir como morto …o desejo de obter órgãos para implante e a fim de ter um critério para desligar a ventilação mecânica nas UTIs.”

É a identificação da morte cerebral à morte real o fundamento moral para toda transplante de órgãos vitais desde 1968, visto que essa permite a extração de órgãos de uma pessoa considerada juridicamente morta (consequentemente não uma pessoa, nem considerada portadora de dignidade ou direitos humanos, exceto tal como determinado em seu último testamento), apesar de manter toda a aparência de sua vida biológica, partindo do fato de que suas funções cardíaca e respiratória são mantidas artificialmente. Tal opinião foi encorajada pelo Papa João Paulo II quando do discurso supracitado de agosto de 2000:

“Podemos dizer que os critérios recentemente estabelecidos para determinar o óbito com certeza, a saber, a completa e irreversível cessação de atividade cerebral, se rigorosamente aplicados, não parecem estar em conflito com os elementos essenciais de uma antropologia séria …a certeza moral é considerada a base necessária e suficiente para agir de forma eticamente correta.”

A opinião foi subsequentemente confirmada em 2006 por uma declaração da Santa Sé, intitulada “Por que o Conceito de Morte Cerebral é Válido como Definição do Óbito” (N.T.: tradução livre) e assinada pelo Cardeal Georges Cottier, então teólogo papal; Cardeal Alfonso Lopez Trujillo, naquele momento presidente do Conselho Pontifício para a Família; Cardeal Carlo Maria Martini, prévio Arcebispo de Milão; e Bispo Elio Sgreccia, na época presidente da Academia Pontifícia para a Vida.

Contudo, a declaração de João Paulo II certamente não foi definitiva, e, assim como Pio XII, ele aceitava o princípio de que, em dúvida, a pessoa deveria ser presumida viva, de forma alguma morta: “Ademais, reconhecemos o princípio moral segundo o qual mesmo a mínima suspeita de estar na presença e uma pessoa viva carrega consigo a obrigação de total respeito a ela e da abstenção de qualquer ação que busca ocasionar sua morte.” (20 de Março de 2004; Discurso a um congresso de médicos católicos). Seu assentimento para com a dúvida acerca dessa questão se evidenciou em sua aprovação da decisão da Academia Pontifícia para a Vida de convocar um encontro de especialistas em fevereiro de 2005 “Da Determinação do Momento Preciso da Morte” (N.T.: tradução livre), cujo propósito seria nulo se o critério neurológico fosse a resposta segura da questão.

Bento XVI prosseguiu com a mesma atitude deveras ambígua, de um lado a favor do transplante de órgãos como ato de caridade (ele mesmo um portador do cartão de doador de órgãos até ser eleito Papa), do outro insistindo que apenas a morte verdadeira pode legitimar o transplante. Professor E. Christian Brugger, colaborador sênior em Ética na fundação Culture of Life, ressaltou que em sua alocução de novembro de 2009 em uma conferência sobre transplante de órgãos organizada parcialmente pela Academia Pontifícia pela Vida, Bento XVI “advertiu que o princípio de certeza moral para a determinação do óbito deve ser de altíssima prioridade aos médicos. Com seu grupo de palestrantes, essa conferência …não tocou na questão moral que é central na controvérsia acerca dos transplantes de órgãos.” (LifeSiteNews, 4 de fevereiro de 2011).

Enquanto eticistas de escola tradicional mantêm a esperança de que a opinião no Vaticano retorne a condenar a morte cerebral como critério de morte real, devemos nos perguntar o porquê de tamanha timidez em frente a tão importante questão. Por que é que a evidente observação do bom senso de que a morte cerebral não é causa de dissolução do organismo, nem de sua unidade, nem de suas atividades vitais, não é claramente admitida  por teólogos modernistas? Só pode haver uma explicação: a influência da ética casuística, que declara que a moralidade de cada ato particular depende essencialmente das circunstâncias, e não do ato em si, resulta na hesitação em condenar atos como intrinsecamente maus. Isto, combinado com o foco em uma ética mais secular, concentrando valor na existência física do homem, em oposição à primazia de sua alma e de sua salvação eterna, gera tal confusão. Se apenas tivéssemos a clareza do Papa Pio XII que, em seu discurso sobre os problemas da ressuscitação, afirmou: “A vida humana prossegue enquanto suas funções vitais – o que não é a simples vida dos órgãos – prosseguem a se manifestar espontaneamente ou com o auxílio de procedimentos artificiais.(no Courrier de Rome, supracitado).

A falsidade da regra do doador falecido

Uma contribuição particularmente interessante ao debate sobre a moralidade da remoção de órgãos de pessoas consideradas cerebralmente mortas provém de uma fonte inesperada. É o New England Journal of Medicine que a publicou, em 14 de agosto de 2008, vol. 359 (7), pg. 674-675, em um artigo que demonstra para além de quaisquer graves dúvidas que a remoção de órgãos é realizada em pessoas que estão verdadeiramente vivas, e que, de fato, é a própria extração desses órgãos vitais, como pulmões, coração, dois rins, fígado completo e pâncreas, a real causa de morte.

O título do artigo é “A Regra do Doador Falecido e Transplante de Órgãos” (N.T.: tradução livre) e foi escrito pelo Dr. Truong e Professor Miller (vide excerto abaixo).

Os autores não concluem que, desta forma, o transplante não deve ser realizado, mas, ao contrário, justificam-no por um não-princípio utilitarista de que a pessoa falecerá logo de de um modo ou de outro. Isto não podemos aceitar, visto que a Igreja consistentemente ensina que o fim não justifica os meios, e não se pode assassinar uma pessoa pelo bem que trará a outra pessoa. De qualquer forma, a passagem infracitada como nota ilustra o princípio de que o doador de órgãos é, de fato, uma pessoa viva, e, destarte, o ato de tomar seus órgãos é uma aniquilação deliberada de sua vida, e que o transplante de órgãos vitais só pode ser justificado como a tomada de uma vida para salvar ou prolongar outra – ou seja, é como se fazer de Deus. Os autores são inteiramente a favor de tal imoralidade, mas ao menos eles evitam a hipocrisia proveniente de qualquer tentativa de justificar esse ato dissimulando que a pessoa vítima de morte cerebral é, na realidade, uma não-pessoa falecida, ressaltando que ela mantém diversas funções vitais e poderia viver por anos nesse estado.

Em suas próprias palavras: “A inconfortável conclusão que provém desta literatura é que, apesar de ser perfeitamente ética a remoção de órgãos vitais de pacientes, para transplante, que satisfazem o critério diagnóstico de morte cerebral, a razão pela qual esse ato seria ético não pode ser de que temos o convencimento que eles estejam realmente mortos.” Os autores nem mesmo hesitam em questionar os motivos pelos quais a profissão médica alterou a definição de morte da parada de função cardíaca para a morte cerebral, com o simples fim de obter órgãos para transplantação: “Na pior das hipóteses, a atual aprovação [dessas alterações] sugerem que a profissão médica vem manipulando a definição de morte para que esta cuidadosamente se conforme com as condições mais favoráveis para transplante. Na melhor das hipóteses, a regra proveu um uma cobertura ética que não resiste ao escrutínio criterioso.”

Dada esta exposição, resta-nos o urgente problema moral dos pacientes que estão morrendo, e cuja única esperança é o transplante de fígado, pulmão ou coração. Certamente, se está nas mãos da profissão médica a determinação do óbito, da mesma forma é responsabilidade da Igreja afirmar claramente que a morte cerebral não é morte real, nem é justificativa para o transplante. Esses órgãos só podem ser efetivamente obtidos de corpos que ainda mantém suas funções vitais e estão intactos – ou seja, estão biologicamente vivos. O fato de que a pessoa sofreu morte cerebral não altera esse fato[ de que estão biologicamente vivos] de qualquer forma. Essas pessoas não possuem outra alternativa, a não ser aceitar sua enfermidade terminal e se preparar para uma morte santa. Aceitar a doação de órgãos é aceitar que se termine a vida de outro para seu próprio bem.

Contudo, deve-se distinguir claramente as pessoas que podem receber a doação de um órgão de uma pessoa viva, sem a remoção do órgão causar-lhe a morte. Este é o caso da transplante de um único rim, da parte de um fígado ou pâncreas (seja de uma pessoa em boa saúde, seja de alguém em vias de morte), da córnea ou de outros procedimentos não lesivos, como doação de medula óssea (N.T.: como todo procedimento invasivo, a doação de medula pode ocasionar danos ao doador, mas esses são transitórios. Numa rápida busca pela literatura, não encontrei um exemplo sequer de mortalidade. É neste sentido que o procedimento deve ser considerado “não lesivo”.) Pelo contrário, tais transplantes, que requerem um sacrifício da parte do doador, mas não a perda da vida, são fortemente encorajados dado que eles representem um tratamento médico apropriado e proporcional

Finalmente, deve-se recordar os católicos de que não se deve garantir uma permissão geral para o transplante de órgãos de seu próprio corpo, como é frequentemente requerido, e que não devem consentir que tal permissão seja incluída em sua carteira de motorista (N.T.: o autor exemplifica que é prática comum nos Estados Unidos que a permissão seja impressa na carteira de motorista. O exemplo se estende, naturalmente, a quaisquer permissões formais em documentos oficiais). Efetivamente, esse consentimento significaria permissão para remover seus órgãos imoralmente, consequentemente para seu próprio assassinato, no caso de uma morte cerebral, e retiraria de seus parentes católicos a capacidade de evitar a realização desse procedimento por parte da profissão médica.

Excerto citado:

Padre Scott citou o seguinte artigo publicado por Dr. Truong e Prof. Miller, publicado no New England Journal of Medicine, em 14 de agosto, edição de 2008, vol. 359 (7), pg. 674-675.

Ele chocantemente demonstra que a indústria médica admite que pacientes “cerebralmente mortos” estão, na realidade, vivos. Assim, conclui-se sem erros que a extração de órgãos vitais desses pacientes é um ato imoral.

A regra do doador falecido e transplante de órgãos

Trauma hospitalar

Desde sua concepção, o transplante de órgãos é conduzido pelo requerimento ético geral conhecido como regra do doador falecido, que afirma que pacientes devem ser declarados mortos antes da remoção de quaisquer órgãos vitais para transplantação.

Antes do desenvolvimento da terapia intensiva atual, o diagnóstico de morte era relativamente simples: pacientes estavam mortos quando se tornavam frios, azulados e enrijecidos. Infelizmente, órgãos desses cadáveres não podem ser usados para transplante. 40 anos atrás, um comitê ‘ad hoc’ da Faculdade de Medicina de Harvard, presidido por Henry Beecher, sugeriu a revisão da definição de morte a fim de que pacientes com lesão neurológica devastadora se tornassem aptos para o transplante de órgãos sob a regra do doador falecido.

O conceito de morte cerebral nos serviu bem e vem sendo a justificativa ética e legal para milhares e doações e transplantes essenciais para salvar a vida dos recipientes. Ainda assim, persistiram as questões acerca do estado vital de pacientes com lesão cerebral massiva, apneia e perda de reflexos do tronco cerebral. Afinal, quando a lesão é inteiramente intracraniana, esses pacientes parecem inteiramente vivos: estão quentes e rosados; digerem e metabolizam comida; excretam; passam por maturação sexual e até mesmo reproduzem. Para um observador casual, eles se parecem inteiramente com os pacientes que recebem ventilação artificial por longos períodos e dormem.

Os argumentos que defendem que esses pacientes devem ser considerados mortos nunca foram inteiramente convincentes. A definição de morte cerebral requer total ausência de todas as funções de todo o cérebro, entretanto eles retêm a função neurológica essencial, como a secreção regulada de hormônios hipotalâmicos. Há quem argumente que esses pacientes estão mortos pois estão permanentemente inconscientes (o que é verdade), mas, se essa é a justificativa, então pacientes que estão em estado vegetativo permanentes, e que respiram espontaneamente, também deveriam ser considerados mortos, uma caracterização que a maioria consideraria implausível. Outros ainda afirmam que pacientes “cerebralmente mortos” estão mortos pois seu dano cerebral levou à “cessação permanente do funcionamento do organismo em sua totalidade”. Ao contrário, as evidências mostram que se esses pacientes forem assistidos além da fase aguda de sua enfermidade (o que raramente é feito), eles podem sobreviver por muitos anos. A inconfortável conclusão que provém desta literatura é que, apesar de ser perfeitamente ética a remoção de órgãos vitais de pacientes que satisfazem o critério diagnóstico de morte cerebral, a razão pela qual esse ato seria ético não pode ser de que temos o convencimento que eles estejam realmente mortos.

Ao longo dos últimos anos, a aprovação da regra do doador falecido foi novamente desafiada, dessa vez pela emergência da doação após morte cardíaca como via de doação de órgão. Sob os protocolos para esse tipo de doação, pacientes que não estão cerebralmente mortos, mas que estão passando por uma retirada planejada do suporte vital são monitorados para o evento de uma parada cardíaca. Pelos protocolos típicos, pacientes são considerados mortos dois a cinco minutos após uma assístole (considerada segundo critérios cardíacos), e seus órgãos são subsequentemente removidos para transplante. Apesar de todos concordarem que muitos pacientes poderiam ser ressuscitados após um intervalo de dois a cinco minutos, advogam por essa abordagem à doação com a defesa de que esses pacientes podem ser considerados mortos, pois a decisão foi tomada em prol de não tentar a ressuscitação.

Tal compreensão da morte é problemática em múltiplos níveis. A definição de morte cardíaca requer a cessação irreversível de função cardíaca. Enquanto a compreensão comum de “irreversível” é “impossível de reverter”, nesse contexto irreversibilidade é interpretada como o resultado da escolha de não reverter. Essa interpretação cria o paradoxo de que os corações de pacientes considerados mortos por perda irreversível de função cardíaca foram, de fato, transplantados e passaram a funcionar no tórax de outrem. Novamente, apesar de que pode ser ético a remoção dos órgãos vitais desses pacientes, acreditamos que a justificativa ética não pode ser fundamentada no convencimento de que os doadores estão mortos.

Na aurora do transplante de órgãos, a regra do doador falecido era aceita como uma premissa ética que não exigia reflexão ou justificativa, presumivelmente pois parecia ser necessária como segurança contra a remoção antiética dos órgãos vitais de pacientes vulneráveis. Em retrospecto, porém, parece que a aprovação da regra do doador falecido possui maior potencial de comprometer a confiança no empreendimento do transplante do que de preservá-la. Na pior das hipóteses, a atual aprovação sugere que a profissão médica vem manipulando a definição de morte para que esta cuidadosamente se conforme com as condições mais favoráveis para o transplante. Na melhor das hipóteses, a regra proveu um uma cobertura ética que não resiste ao escrutínio criterioso. Uma melhor abordagem na busca de órgãos vitais, enquanto se protege pacientes vulneráveis contra o abuso, seria enfatizar a importância de obter consentimento válido e informado de pacientes doadores ou seus procuradores antes da retirada do suporte de vida em situações de lesão neurológica devastadora e irreversível….

O QUE ACONTECEU DEPOIS DO CONCÍLIO? – A MUDANÇA DOS RITOS E ORAÇÕES

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Neste quarto artigo de uma série que publicaremos, extraídos de uma conferência proferida por D. Lefebvre em Roma, em 6 de julho de 1977, intitulada “A Igreja depois do Concílio“, explicaremos uma a uma as conseqüências desastrosas e a tempestade causada pelas mudanças feitas no Concílio Vaticano II.

Devo insistir no por que tudo deriva da nova definição de Igreja, de haver mudado o conceito de Igreja. E o mudaram para alcançar a comunhão com todas as religiões. Era necessário mudar o culto, a liturgia não poderia ser deixada intacta. Nossa liturgia era católica demais, manifestava claramente a vitória de nosso Senhor Jesus Cristo, com a cruz, sobre o pecado, sobre o mundo, sobre a morte…Tudo foi modificado.

Se eu tivesse mais tempo – mas não quero abusar de vossa paciência -, falaria sobre um trabalho que um de nossos padres realizou sobre as modificações das orações. É um estudo extraordinário para ver o espírito com o qual eles fizeram a reforma litúrgica. As orações litúrgicas foram modificadas no sentido pacifista: não há mais hereges, não há mais inimigos da Igreja, não há mais pecado original, o combate não é mais necessário, não há mais lutas espirituais.

O canonista Rose, belga, membro da Comissão Litúrgica, que renunciou indignado com o que acontecia, fez um trabalho sobre a liturgia dos defuntos, na qual ele demonstra que foram suprimidos os dogmas: na liturgia dos defuntos, foi suprimida a palavra “alma”. Porque? Porque como não há mais distinção entre corpo e alma, não se fala mais do purgatório. É incrível.

Tudo isso para agradar aos não-católicos, para poder estar com todos aqueles que não acreditam no que acreditamos, que não acreditam na distinção entre alma e corpo. Mas devemos permanecer católicos, não podemos inesperadamente nos tornar membros de todas as religiões, mudar toda a nossa liturgia para agradá-los.

Uma mudança capital é a mudança da festa de Cristo Rei. Não se deseja mais o Reino Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. A festa de Cristo Rei foi colocada no final do ano litúrgico, porque Ele virá na Parusia, no fim do mundo. Aqui na terra já não deve mais reinar, ou apenas sobre os indivíduos, estritamente em privado, nas famílias, mas já não publicamente, nem mais na sociedade civil. No hino de Cristo Rei foram suprimidas as duas estrofes que proclamavam Nosso Senhor como Rei da família, do Estado, da cidade. Está claro por que foram suprimidos.

Aqui está uma das estrofes que foram suprimidas:

“O nationum praesides honore tollant publico, colant magistri, judices, leges et artes exprimant.”

É o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre os povos, juristas, juízes, leis e artes, que devem honrá-lo. São coisas muito graves.

ABORTO: O CRIME SILENCIOSO

Prezados amigos, leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Publicamos hoje um podcast de um casal amigo, Diogo e Sara, que frequentam o Priorado da FSSPX em Lisboa. O tema é o aborto, um dos pecados que clama ao céu por vingança.

Olá, Bem-vindos ao Bronze Podcast, um casal católico em conversa sobre a fé e a atualidade. No primeiro episódio decidimos falar sobre a maior injustiça dos tempos modernos, o aborto. Um crime praticado e autorizado pela maioria dos governos mundiais. Banalizado pela cultura e aceite como uma prática médica especializada, o aborto é um holocausto moderno, que ceifa a milhões de vidas por ano. Desmistificamos alguns dos argumentos utilizados para defender o aborto e explicamos porque todos os católicos que pratiquem, aconselhem ou participem num aborto estão automaticamente excomungados.

TOMADAS DE BATINA E TONSURAS EM 3 SEMINÁRIOS DA FSSPX NO HEMISFÉRIO NORTE

Seminário de Flavigny, França

D. Bernard Fellay entregou o hábito eclesiástico a 8 seminaristas, todos franceses.

Seminário de Zaitzkofen, Alemanha

D. Alfonso de Galarreta, bispo auxiliar da Fraternidade São Pio X e primeiro Assistente Geral, entregou o hábito eclesiástico a 9 candidatos: 5 suíços, 3 alemães e 1 polonês.

Ele também concedeu a tonsura a outros 5 candidatos: 2 austríacos, 1 alemão, 1 lituano e 1 suíço, bem como as Ordens Menores a 6 seminaristas.

Seminário de Dillwyn, Estados Unidos

D. Tissier de Mallerais entregou o hábito eclesiástico a 17 seminaristas, sendo 16 americanos e 1 canadense.

Conferiu também a tonsura a 20 seminaristas, sendo 18 americanos e 2 irlandeses.

**************************

“Senhor, dai-nos sacerdotes,

Senhor, dai-nos santos sacerdotes,

Senhor, dai-nos muitos santos sacerdotes,

Senhor, dai-nos muitas santas vocações religiosas,

Senhor, dai-nos famílias católicas, 

São Pio X, rogai por nós”

O QUE ACONTECEU DEPOIS DO CONCÍLIO? – A MUDANÇA DOS SACRAMENTOS

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Neste terceiro artigo de uma série que publicaremos, extraídos de uma conferência proferida por D. Lefebvre em Roma, em 6 de julho de 1977, intitulada “A Igreja depois do Concílio“, explicaremos uma a uma as conseqüências desastrosas e a tempestade causada pelas mudanças feitas no Concílio Vaticano II.

Todos os sacramentos foram modificados no sentido de uma comunhão humana, apenas humana – já não mais uma comunhão sobrenatural -, uma espécie de coletivização. Coletivizaram os sacramentos.

O batismo tornou-se apenas a iniciação em uma comunidade religiosa; não é mais a destruição do pecado original para ser purificado no Sangue de Jesus Cristo, para ressuscitar no Sangue de Jesus Cristo, afastar-se do pecado e de Satanás através dos exorcismos que se faziam no batismo. Se é apenas uma iniciação à comunidade religiosa, o batismo pode servir para todos, também aos não-cristãos.

O mesmo conceito é encontrado na comunhão. A comunhão é agora, como dizia, uma assembléia, um tipo de comunidade que se comunica, que compartilha o pão da comunidade. Também temos absolvição coletiva, a penitência coletiva. Daí segue-se que o sacerdote não é mais o santificador marcado pelo caráter sacerdotal para oferecer o santo sacrifício da Missa. Ele se torna o presidente da assembléia. E se o sacerdote é apenas o presidente, ele pode ser escolhido dentre os fiéis. Conseqüentemente, não é mais necessário que o sacerdote seja celibatário. Ele pode, perfeitamente, se casar.

Tudo isso deriva do novo conceito de igreja. Chega agora a dar coletivamente a Extrema Unção. Em Lourdes, na cidade mariana, convidaram para reunirem-se todos os que tinham mais de 65 anos para receberem, coletivamente, a extrema unção. Isso é grave, muito grave, porque assim o sacramento já não é mais válido. O sujeito da extrema unção deve ser um doente. E até agora eu nunca tinha ouvido falar que depois dos 65 anos fossemos todos doentes. Não é por ter 65 anos que estamos doentes.  Si quis infirmatur “, diz São Tiago, “Está entre vós algum enfermo, chame o sacerdote e lhe administre…”, mas se não está doente,  não se pode estar sujeito a extrema unção. Isso é muito sério porque denota uma orientação totalmente nova.

***************************

NOTA DO BLOG: D. Lefebvre explica muito bem isso em sua Carta Aberta aos Católicos Perplexos, no capítulo: O NOVO BATISMO, O NOVO CASAMENTO, A NOVA PENITÊNCIA, A NOVA EXTREMA-UNÇÃO

CANTORES HOJE, CATÓLICOS AMANHÃ

Irmãs da FSSPX

Tantas mães católicas hoje choram por crianças que se perderam nesse pobre mundo! Quando o filho pródigo voltou para casa, foi porque pensou na incomparável alegria que sentia no local. Há uma maneira muito simples que os pais podem utilizar para desenvolver e fomentar essa alegria: através das canções. A Educação é, acima de tudo, um respiro, e as canções lançam o perfume do bom humor que tanto favorece a saúde física e moral, ajudando a despertar a inteligência, remover os perigos do vício e da corrupção e contribuindo com o crescimento da virtude. É uma inclinação tão natural aos seres humanos que dificilmente se recusam a participar. O que nossas crianças cantarão no futuro, quando seus corações estiverem cheios de entusiasmo, se ninguém se ocupar de sua formação através de boa música? Provavelmente terão prazer em ouvir as canções modernas – esses agentes facilitadores de depravação moral. Sim, a música tem poder sobre o coração dos homens – para o bem ou para o mal. Devemos acrescentar que as canções estimulam nossa capacidade de ouvir, o que pode vir a poupar os jovens de problemas na escola. Além disso, o estudo do ritmo influencia o cérebro, desenvolvendo a lógica e a razão.

Música boa e música ruim.

Como agir de forma concreta nessa questão? Ao ouvirmos belas canções, ajudamos a formatar a capacidade de ouvir de nossas crianças. Prefira sempre a música barroca (Vivaldi, Bach, Haendel, etc.) ou clássica (Haydn, Mozart, etc.), ou mesmo canções folclóricas. A harmonia dos sons deve elevar os sentimentos ao invés de excitá-los ao extremo. Música romântica por demais passional deve ser ouvida com cautela. Devemos obviamente fechar as portas de nossos lares para o tipo de música diabólica como o rock, tão amado por muitos católicos jovens por influência de seus pais. Sim, precisamos levar beleza às nossas crianças, para que tenham nojo do que é ruim. Os pais devem colocar música para tocar em seus carros em alguns momentos, assim devem encher suas salas de belas canções nos domingos e dias de festa. E devem ser os primeiros a cantar, seja uma bela canção folclórica ou católica, utilizando-se de gestual e entonação que cative a audiência. Ao botar os pequeninos para dormir, as mães podem presenteá-los com canções de ninar para coroar um bom dia.

Em todos os momentos.

As crianças aprendem rápido as canções cantadas por sua família, assim como cada gesto e cada coreografia (“Cai cai, balão, cai cai, balão, aqui na minha mão…”). Enquanto crescem, juntam suas vozes às de seus pais quando estão no carro, lavando a louça ou durante as noites em que estão juntos. É bom cantar em coro, pois isso ensina aos pequeninos a segurar suas vozes sem que as mesmas sejam apagadas pelas dos adultos. Deste modo, a música consegue aplacar o tédio. E não é só isso: devemos ouvir música durante os momentos difíceis e tensos (“Não importa o que aconteça, sempre estarei sorrindo…”). Quantos conflitos são serenados e quantas discussões entre irmãos apaziguadas se cantarem juntos! Nada como uma boa canção para criar um ambiente pacífico. Podemos, também, cantar enquanto trabalhamos para que o ambiente se mantenha alegre, assim como quando precisamos encorajar as crianças. Os feriados devem ser cheios de música: antes de abrirem os presentes, pode-se cantar uma canção para o Menino Jesus em frente ao presépio. É também um jeito simples de agradar os outros. Pode-se preparar uma canção para quando se visita os avós, ou nas festas familiares, em aniversários de casamentos e até mesmo cantar letras adaptadas pelos filhos mais velhos (que devem ser encorajados a participar de coros da escola onde aprenderão a controlar a respiração e a voz de forma correta, e também impagáveis peças polifônicas).

Por fim, não devemos separar a necessidade de boa música e do canto da vida espiritual de nossos filhos. Podemos fazer as orações da noite cantando, cantar no momento do  Gloria Patri do Terço, podemos dar graças cantando antes e depois das refeições e devemos amar fazer parte da Missa Cantada aos domingos. Cantar é rezar duas vezes: com o corpo e com a alma. E como as disposições do corpo auxiliam as da alma, cantar torna as orações mais fervorosas e intensas – o que podemos observar pelas vezes em que se canta durante a liturgia.

Santo Agostinho disse: “Cantar é para os que amam”. Onde há amor, há alegria, e a alegria é a mãe da Música. Para a Igreja, a Música é uma necessidade e uma expressão de seu Amor. Que possamos fomentar essa necessidade em nossas crianças para que um dia cantem em suas almas a canção interior que é, em si mesma, um manifesto de gratidão.

ALOCUÇÃO DE PIO XII SOBRE AS FAMÍLIAS NUMEROSAS

Imagem relacionadaNo dia 20 de janeiro de 1958, o Papa dirigiu a palavra a um grupo de dirigentes e membros da Federação Nacional (italiana) das Associações de Famílias Numerosas.

1. Entre as visitas mais agradáveis ao Nosso coração, destacamos a vossa, caros filhos e filhas, dirigentes e representantes das Associações de Famílias Numerosas de Roma e da Itália. Conheceis, com efeito, a viva so­licitude que dedicamos à família. Não perdemos ne­nhuma ocasião de assinalar-lhe a dignidade em seus múl­tiplos aspectos, de afirmar e defender-lhe os direitos, de inculcar-lhe os deveres, numa palavra, de fazer dela um ponto fundamental de nosso ensinamento pastoral.

2. Em razão dessa solicitude para com a família, consentimos com todo o prazer, quando as ocupações de Nosso cargo a isso não se opõem, em receber, mesmo que seja por breves momentos, os grupos de famílias que vêm até a Nossa residência e mesmo em deixar- Nos fotografar em sua companhia, para perpetuar, de algum modo, a lembrança da Nossa e sua alegria.

3. O Papa no meio de uma família! Não é este um lugar que bem lhe convém? Não é ele próprio, com um significado altamente espiritual, o Pai da família humana regenerada no Cristo e na Igreja? E não é por intermédio do Vigário de Cristo na terra que se realiza o admirável desígnio da Sabedoria criadora, que ordenou toda paternidade humana no sentido de prepa­rar a família eleita dos céus, onde o amor de Deus, Uno e Trino, a envolverá num só e eterno abraço, dando-se a Si mesmo como herança de beatitude?

4. Entretanto não representais apenas a família, mas sois e representais as famílias numerosas, isto é, as que são mais abençoadas por Deus, queridas e esti­madas pela Igreja como os tesouros mais preciosos. Destas recebe, com efeito, com mais evidência, um trí­plice testemunho, pois ao mesmo tempo em que confirmam aos olhos do mundo a verdade de sua doutrina e a retidão de sua prática, tornam-se, em virtude do exem­plo, de grande auxílio para todas as outras famílias e para a própria sociedade civil. Com efeito, quando são encontradas com freqüência, as famílias numero­sas atestam a saúde física e moral do povo cristão, a fé viva em Deus e a confiança em sua Providência, a santidade fecunda e feliz do casamento católico. Continuar lendo

MAS POR QUÊ? …

Resultado de imagem para mau exemplo paisMeu filho, se em lugar de falar somente a ti, eu pudesse falar a todos os pais e mães de família cristãs, queria dizer-lhes:

Porque, pais e mães, por que quereis trair vossos filhos? Porque não defendeis e protegeis em tempo de inocência? Porque os vestis como os selvagens e lhes favoreceis todos os caprichos, não lhes corrigis os defeitos e lhes desculpais tão facilmente as faltas?

Por que trair vossas filhas? Permitis-lhes as modas mais indecentes, ridículas e imorais?

Fechais os olhos sobre as companhias que freqüentam, sobre relações, amizades e os mesmos namoros.

Concedei-lhes qualquer divertimento, seja ele qual for?

Pais e mães, porque não diligenciais a fim de que sejam ao menos como vós, cristãos, amantes da ordem, da disciplina, do trabalho, da economia, da própria honra e reputação?

Porque não os habituais a obedecer a Deus, provido, bondoso, infinitamente justo, condescendente e benigno? Porque não lhes inculcais em tempo o amor a religião, a oração e a virtude?

Que cena consolante e maravilhosa vos seria reservada no juízo eterno do Senhor!


Casai-vos bem
– Pe. Luis Chiavarino

 

MEDITAÇÃO SOBRE O FIM DO HOMEM

Resultado de imagem para rezando igreja PREPARAÇÃO

  1. Põe-te na presença de Deus.
  2. Pede a Deus que te inspire.

CONSIDERAÇÃO

1 – Não foi por nenhum motivo de interesse que Deus nos criou, pois nós Lhe somos absolutamente inúteis; foi unicamente para nos fazer bem, em nos facultando, com Sua graça, participar de Sua glória; e foi por isso, Filotéia, que Ele te deu tudo o que tens: o entendimento, para O conheceres e adorares; a memória, para te lembrares dEle; a vontade, para O amares; a imaginação, para te representares os Seus benefícios; os olhos, para admirares as Suas obras; a língua, para O louvares, e assim as demais potências e faculdades.

2 – Sendo esta a intenção que Deus teve, em te criando, com certeza deves abominar e evitar todas as ações que são contrárias a este fim; e quanto àquelas que não te conduzem a Ele, tu as deves desprezar, como vãs e supérfluas.

3 – Considera quão grande é a infelicidade do mundo, que nunca pensa nestas coisas; a infelicidade, digo, dos homens que vivem por ai, como se estivessem persuadidos de que seu fim neste mundo é edificar casas, construir jardins deliciosos, acumular riquezas sobre riquezas e ocupar-se de divertimentos frívolos.

AFETOS E RESOLUÇÕES

1 – Confunde-te considerando a miséria de tua alma e o esquecimento destas verdades. Ah! De que se tem ocupado o meu espírito, ó meu Deus, quando não pensei em Vós? De que me lembrava, quando Vos esqueci? Que amava eu, quando Vos não amava? Ah! Eu me devia alimentar da verdade e fui saturar-me na vaidade. Como escravo que eu era do mundo, eu o servia, a esse mundo, que foi feito para me servir e me ensinar a Vos conhecer e amar.

2 – Detesta a vida passada. Eu vos renuncio e aborreço, máximas falsas, vãos pensamentos, reflexões inúteis, recordações detestáveis. Eu vos abomino, amizades infiéis e criminosas, vãos apegos ao mundo, serviços perdidos, miseráveis afabilidades, generosidade falsa que, para servir aos homens, me levastes a uma imensa ingratidão para com Deus; eu vos detesto de toda a minha alma.

3 – Volta-te para Deus. E Vós, ó meu Deus, ó meu Salvador, Vós sereis dora em diante o único objeto de meus pensamentos; não darei atenção a nada que Vos possa desagradar; minha memória se encherá todos os dias da grandeza e doçura de Vossa bondade para comigo; Vós sereis as delícias de meu coração e toda a suavidade de meu interior.

Sim, assim seja; tais e tais divertimentos com que me entretinha, estes e aqueles exercícios vãos que ocuparam meu tempo, estas e aquelas afeições que prendiam meu coração, tudo isso será um objeto de horror para mim; e, para conservar-me nestas disposições, empregarei tais e tais meios.

CONCLUSÃO

1 – Agradece a Deus. Eu Vos dou graças, ó meu Deus, porque me destinastes para um fim tão sublime e útil, qual é o de Vos amar nesta vida e gozar eternamente na outra da intensidade de Vossa glória. Como serei digno dele? Como Vos bendirei quanto mereceis?

2 – Oferece-te a Deus. Eu Vos ofereço, ó meu amabilíssimo Criador, todos estes propósitos e afetos com todo o meu coração e com toda a minha alma.

3 – Ora humildemente a Deus. Eu Vos suplico, ó meu Deus, que Vos agradeis de meus desejos e votos, de dar à minha alma a Vossa santa bênção, para que sejam levados a efeito, pelos merecimentos de Vosso Filho, que por mim derramou todo o Seu sangue na cruz. Pai-Nosso, Ave-Maria.

 

Filotéia – São Francisco de Sales

DA PURA E COMPLETA RENÚNCIA DE SI MESMO PARA OBTER LIBERDADE DE CORAÇÃO

Resultado de imagem para pecador"
Jesus:
Filho, deixa-te a ti, e achar-me-ás a mim. Despe tua vontade e teu amor-próprio, e sempre tirarás lucro. Porque, logo que te entregares a mim sem reservas, se te acrescentará a graça.

A alma: Senhor, em que devo renunciar-me, e quantas vezes?

Jesus: Sempre e a toda hora tanto no muito como no pouco. Nada excetuo, mas quero te achar despojado de tudo. De outra sorte, como poderás ser meu e eu teu, se não estiveres, exterior e interiormente, desapegado de toda vontade própria? Quanto mais prontamente isso fizeres, tanto melhor te acharás, e quanto mais pleno e sincero for teu sacrifício, tanto mais me agradarás e maior lucro terás.

Alguns há que se entregam a mim, mas com alguma reserva, porque não têm plena confiança em Deus, e por isso tratam de prover as próprias necessidades. Outros, a princípio, tudo oferecem, mas depois, combatidos pela tentação, volvem-se novamente às próprias comodidades, e eis por que quase não progridem nas virtudes. Estes nunca chegarão à verdadeira liberdade do coração puro, nem à graça de minha doce familiaridade, enquanto não renunciarem de todo a si mesmos, oferecendo-se em cotidiano sacrifício a Deus, sem o que não há nem pode haver união deliciosa comigo.

Muitas vezes te disse e agora te torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo, e gozarás grande paz interior. Dá tudo por tudo, não busques, não reclames coisa alguma, persevera, pura e simplesmente, em mim, e me possuirás. Terás livre o coração e as trevas não te poderão oprimir. A isto te aplica, isto pede, isto deseja: ser despojado de todo amor próprio, para que possas seguir nu a Jesus desnudado, morrer a ti mesmo e viver eternamente. Então se dissiparão todas as vãs imaginações, penosas pertubações e supérfluos cuidados. Logo também desaparecerá o temor demasiado, e morrerá o amor desordenado.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

O REMÉDIO PARA O NATURALISMO

natAcabamos com o naturalismo: dissemos-lhe a última palavra que ele merece. Agora nos dirigimos aos homens de fé que estão interessados em nos ler e lhes dizemos: Vigiai! Recebemos de Deus a fé, a graça, o Batismo, a Crisma, a Eucaristia, todos os grande benefícios do Redentor que curam nossas almas e as recolocam no estado sobrenatural e na via da salvação eterna.

Mas trazemos em nós essa natureza cujo mal é o naturalismo. Nosso dever é não decair do estado sobrenatural onde nos pôs a graça do Redentor. A decadência poderia acontecer de diversas maneiras. «Non uno modo sacrificatur trangressoribus Angelis – há mais de uma maneira de sacrificar aos anjos transgressores», dizia Santo Agostinho.

A graça do Salvador, que nos foi dada, leva-nos não somente a fazer obras sobrenaturais, como os atos de fé, de esperança e de caridade, mas, além disso, leva-nos a sobrenaturalizar os atos que, por si mesmos, são de ordem natural, como beber e comer, andar e falar, sofrer e trabalhar, e o resto que nos toma uma boa parte de nossa curta vida.

É o que nos ensina claramente o apóstolo São Paulo: «Tudo o que fizerdes em palavras ou por obras, fazei em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando por ele, graças a Deus Pai». (Col. III, 17).

Depois, querendo expressamente fazer compreender que nesse mandamento estão as obras mais estritamente da ordem natural, diz: «Logo, ou comais ou bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus». (I Cor. X, 31). Continuar lendo