EM SEGUIDA É NECESSÁRIO PURIFICAR A ALMA DE TODA A AFEIÇÃO AO PECADO

Resultado de imagem para rezandoTodos os israelitas saíram do Egito, mas muitos deixaram lá o seu coração preso; por isso é que no deserto se lhes despertaram desejos das cebolas e viandas do Egito. Assim também há muitos penitentes que efetivamente saem do pecado, porém não lhe perdem o afeto; quero dizer: eles se propõem não recair no pecado, mas com uma certa relutância e pesar de abster-se de seus deleites. O coração os denuncia e afasta de si, mas sempre tende novamente para eles, a semelhança da mulher de Ló, que virou a cabeça para Sodoma. Privam-se do pecado, como os doentes dos melões; é verdade que não os comem com medo da morte, de que o médico os ameaçara; mas aborrecem-se da dieta, falam dela com aversão e não sabem o que fazer; ao menos, querem cheirá-los muitas vezes e tem por ditosos os que os podem comer.

Eis aí um retrato fiel dos penitentes fracos e tíbios. Passam algum tempo sem pecado, mas com pesar; muito estimariam poder pecar, se não fossem condena, dos por isso; falam do pecado com um certo gosto que o vão prazer lhes proporciona e pensam sempre que os outros se satisfazem e deleitam cometendo-o. Renuncia alguém na confissão ao propósito de vingar-se, mas daí a pouco vê-lo-ás numa roda de amigos, conversando de bom grado sobre o motivo de suas queixas; diz que sem o temor de Deus faria isso ou aquilo; que a lei divina, quanto a esse ponto de perdoar os inimigos, é muito difícil de observar; que prouvesse a Deus que fosse permitida a vingança! Ah! Quão enredado está o coração deste mísero homem pela afeição ainda que livre do pecado, e quanto se assemelha aos israelitas de que falei acima. É isso exatamente o que elevemos dizer também daquelas pessoas que, detestando seus amores pecaminosos, conservam ainda um resto de prazer em familiaridades vãs e em demonstrações demasiado vivas de acatamento e amizade. Oh! Que perigo imenso está correndo a salvação destes penitentes!

Portanto, Filotéia, uma vez que aspiras sinceramente a devoção, não só deves deixar o pecado, mas é também necessário que teu coração se purifique de todos os afetos que lhe foram as causas e são presentemente as consequências; pois, além de constituírem um contínuo perigo de recaídas, enfraqueceriam a tua alma e te abateriam o espírito — duas coisas que, como deixei dito — são irreconciliáveis com a vida devota. Essas almas, que, tendo deixado o pecado, são tão tíbias e vagarosas no serviço de Deus, assemelham-se a pessoas que tem uma cor pálida: não é que estão verdadeiramente doentes, mas bem se pode dizer que seu aspecto, seus gestos e to- das as suas ações estão doentes. Comem sem apetite, riem sem alegria, dormem sem repouso e mais se arrastam do que andam. Deste modo aquelas almas, em seus exercícios espirituais, que nem são numerosos nem de grande mérito, praticam o bem com tanto dissabor e constrangimento que perdem o brilho e graça que o fervor dá as obras de piedade.

 

Filotéia – São Francisco de Sales

ANTES DE TUDO É NECESSÁRIO QUE A ALMA SE PURIFIQUE DOS PECADOS MORTAIS

Resultado de imagem para confissão sacramentoLibertar-se do pecado deve ser o primeiro cuidado de quem quer purificar o coração, e o meio de fazê-lo se depara no sacramento da penitência. Procura o confessor mais digno que possas achar; toma um desses livrinhos próprios para ajudar a consciência no exame que se deve efetuar sobre a vida passada, como os de Granada, Bruno, Arias, Auger; lê-os com atenção, notando, ponto por ponto, tudo em que ofendeste a Deus desde o uso da razão e, se não confias em tua memória, assenta por escrito o que notaste. Depois do exame, detesta e abomina os pecados cometidos, pela contrição mais viva e perfeita que podes suscitar em ti, em considerando estes motivos valiosíssimos: que pelo pecado perdeste a graça de Deus, abandonaste os teus direitos sobre o céu, mereceste as penas eternas do inferno e renunciaste a todo o amor de Deus.

Já vês, Filotéia, que te estou falando da confissão geral de toda a vida; mas digo francamente, ao mesmo tempo, que não a julgo sempre duma necessidade absoluta; contudo, considerando a sua utilidade e proveito para o começo, aconselho-te encarecidamente. Acontece não raras vezes que as confissões ordinárias de pessoas que levam uma vida negligente e comum são defeituosas e mal feitas; não se preparam nada ou quase nada; não tem a contrição devida; confessam-se com uma vontade secreta de continuar a pecar, ou porque não querem evitar as ocasiões do pecado ou porque não querem envidar todos os meios necessários para a emendação da vida; e nesses casos uma confissão geral torna-se necessária para assegurar a salvação. Além disso, a confissão geral nos dá um conhecimento mais perfeito de nós mesmos; nos enche duma salutar confusão em vista de nossos pecados; livra o espírito de muitas inquietações; tranquiliza a consciência, excita-nos a bons propósitos; faz-nos admirar a misericórdia de Deus, que nos tem esperado com tanta paciência e longanimidade; abre o fundo de nossa alma aos olhos do nosso pai espiritual, de sorte que este nos possa dar avisos mais salutares; facilita-nos a confessar futuramente os pecados com mais confiança.

Tratando-se, pois, Filotéia, duma renovação completa de tua vida e duma conversão perfeita de tua alma a Deus, não é sem razão, a meu ver, que te aconselho fazeres uma confissão geral.

 

Filotéia – São Francisco de Sales

NECESSIDADE DE COMEÇAR PELA PURIFICAÇÃO DA ALMA

Resultado de imagem para rezandoApareceram as flores em nossa terra — diz o Esposo sagrado — chegou o tempo da poda. — Que flores são estas, para nós, ó Filotéia, senão os bons desejos? Logo que eles despertam em nossos corações, é preciso envidar todo o esforço para purificá-los de todas as obras mortais e supérfluas. Prescrevia a lei de Moisés que a donzela, noiva de um israelita, tirasse o vestido do seu cativeiro, cortasse os cabelos e aparasse as unhas. Serve isto de lição a alma que aspira a honra de ser esposa de Jesus Cristo, a qual se deve despojar do homem velho e se revestir do novo, deixando o pecado e em seguida ir cortando com os demais impedimentos acessórios que podem ser um empecilho para o amor.

A cura da alma, assim como a do corpo, só se consegue começando por combater os maus humores corrompidos, e é o que chamo purificar o coração. Num instante operou-se isto em São Paulo e o mesmo lê-se nas vidas de Santa Madalena, Santa Pelágia, Santa Catarina de Sena e de alguns outros santos e santas. Mas uma transformação tão repentina é na ordem da graça um milagre tão grande como na ordem da natureza a ressurreição de um morto, e por isso não a devemos pretender. A cura da alma, Filotéia, assemelha-se a do corpo; é vagorosa, vai progredindo gradualmente, aos poucos, com muito custo e intervalos; mas neste seu passo lento ela é tanto mais segura. Creio que não te é desconhecido o antigo provérbio — que as doenças vem a cavalo e a galope e se vão a pé e muito devagar; outro tanto podes dizer das enfermidades espirituais.

É, pois, necessário, Filotéia, que te armes de muita paciência e coragem. Ah! Que pena me fazem aquelas pessoas que, por se verem cheias de imperfeições, depois de alguns meses de devoção, começam a inquietar-se e perturbar-se, já quase a sucumbir a tentação de deixar tudo e tornar atrás. Mas um outro extremo, igualmente perigoso, é o de certas almas que, deixando-se seduzir por uma tentação contrária, desde os primeiros dias se tem na conta de livres de suas inclinações más, que já pensam ser perfeitas antes de fazer algum progresso e que, arrojando-se a voar sem asas, se elevam ao que há de mais sublime na devoção. Continuar lendo

NECESSIDADE DUM DIRETOR ESPIRITUAL PARA ENTRAR E PROGREDIR NOS CAMINHOS DA DEVOÇÃO

Querendo Tobias mandar o filho a uma terra longínqua e estranha, disse-lhe: “Vai em busca de algum homem que te seja fiel, que vá contigo”. É o que te digo também a ti, Filotéia; se tens uma vontade sincera de entrar nas veredas da devoção, procura um guia sábio e prático que te conduza. Esta é a advertência mais necessária e importante.

“Em tudo o que fazemos — diz o devoto Ávila — só temos certeza de estar fazendo a vontade de Deus, enquanto não nos apartamos daquela obediência submissa, que os santos tanto encomendaram e praticaram tão fielmente”

Ouvindo Santa Teresa da austeridade e penitencias de Catarina de Cardona, concebeu grande desejo de imitá-la e foi tentada a não seguir o seu confessor, que lho proibia.

Entretanto, como se submetesse, Nosso Senhor lhe disse:

“Minha filha, o caminho que segues é bom e seguro; tu estimavas muito essas penitencias, mas eu estimo mais ainda tua obediência”

Desde então ela devotou-se tanto a esta virtude que, além da obediência devida a seus superiores, ela se ligou, por um voto especial, a seguir a direção de um homem prudente e de bem, o que sempre a edificou e consolou muito. De modo semelhante, já antes e depois dela, muitas almas santas, que queriam viver inteiramente sob a dependência de Deus, submeteram a sua própria vontade a de um de seus ministros. É essa a sujeição humilde que Santa Catarina de Sena tanto encomia em seus diálogos. Foi também a prática da santa princesa Isabel, que prestava uma obediência perfeita a direção do sábio Conrado. Nem outro foi o conselho que, ao morrer, deu a São Luís, seu filho. Continuar lendo

A DEVOÇÃO É ÚTIL A TODO ESTADO E CIRCUNSTÂNCIAS DA VIDA

Imagem relacionadaO Senhor, criando o universo, ordenou as árvores que produzissem frutos, cada uma segundo a sua espécie; e ordenou do mesmo modo a todos os fiéis, que são as plantas vivas de sua Igreja, que fizessem dignos frutos de piedade, cada um segundo o seu estado e vocação. Diversas são as regras que devem seguir as pessoas da sociedade, os operários e os plebeus, a mulher casada, a solteira e a viúva. A prática da devoção tem que atender a nossa saúde, as nossas ocupações e deveres particulares. Na verdade, Filotéia, seria porventura louvável se um bispo fosse viver tão solitário como um cartuxo? Se pessoas casadas pensassem tão pouco em ajuntar para si um pecúlio, como os capuchinhos? Se um operário frequentasse tanto a igreja como um religioso o coro? Se um religioso se entregasse tanto a obras de caridade como um bispo? Não seria ridícula uma tal devoção, extravagante e insuportável? Entretanto, é o que se nota muitas vezes, e o mundo, que não distingue nem quer distinguir a devoção verdadeira da imprudência daqueles que a praticam desse modo excêntrico, censura e vitupera a devoção, sem nenhuma razão justa e real.

Não, Filotéia, a verdadeira devoção nada destrói; ao contrário, tudo aperfeiçoa. Por isso, caso uma devoção impeça os legítimos deveres da vocação, isso mesmo denota que não é uma devoção verdadeira. A abelha, diz Aristóteles, tira o mel das flores, sem as murchar, e as deixa intactas e frescas como as achou; a devoção verdadeira ainda faz mais, porque não só em nada estorva o cumprimento dos deveres dos diversos estados e ocupações da vida, mas também os torna mais meritósos e lhes confere o mais lindo ornamento. Diz-se que, lançando-se uma pedra preciosa no mel, esta se torna mais brilhante e viçosa, sem perder a sua cor natural; assim, na família em que reina a devoção, tudo melhora e se torna mais agradável: diminuem os cuidados pelo sustento da família, o amor conjugal é mais sincero, mais fiel o serviço do Príncipe, e mais suaves e eficazes os negócios e ocupações.

É um erro e até uma heresia querer expulsar a devoção da corte dos príncipes, dos exércitos, da tenda do operário e da vivenda das pessoas casadas. É verdade, Filotéia, que a devoção meramente contemplativa, monástica ou religiosa, não se pode exercer nesses estados; mas existem muitas outras devoções adequadas a aperfeiçoar os que as seguem. Continuar lendo

PROPRIEDADES E EXCELÊNCIA DA DEVOÇÃO

Resultado de imagem para rezandoAqueles que desanimavam os israelitas da empresa de conquistar a terra prometida, diziam-lhes que esta terra consumia os habitantes, isto é, que os ares eram tão insalubres que aí não se podia viver, e que os naturais da terra eram homens bárbaros e monstruosos a ponto de comer os seus semelhantes, como gafanhotos. Deste modo, Filotéia, o mundo anda a difamar diariamente a santa devoção, espalhando por toda parte que ela torna os espíritos melancólicos e os caracteres insuportáveis e que, para persuadir-se, é bastante contemplar o semblante enfadonho, triste e pesaroso das pessoas devotas. Mas, como Josué e Caleb que tinham ido explorar a terra prometida, asseguravam que eram, muito ao contrário, paragens deliciosas e encantadoras por sua fertilidade e beleza, assim também todos os santos, animados do Espírito Santo e da palavra de Jesus Cristo, asseveram que a vida devota é suave, aprazível e ditosa.

Vê o mundo que as pessoas devotas jejuam, rezam, sofrem com paciência as injúrias que lhes fazem, cuidam dos enfermos, dão esmolas, guardam longas vigílias, reprimem os ímpetos da cólera, detêm a violência de suas paixões, renunciam aos prazeres sensuais e fazem tantas outras coisas que são de si custosas e contrárias à nossa natureza, mas o mundo não vê a devoção interior, que torna tudo agradável, doce e fácil. Presta atenção às abelhas no lomilho: o sumo que aí encontram é muito amargo, mas, ao chuparem-no, as abelhas o convertem em mel. Confessamos à puridade, almas mundanas, que no começo muitas amarguras encontram as pessoas devotas nos exercícios de mortificação e penitencia, mas com o tempo e a prática essas amarguras se vão mudando em suavidades e delícias.

Os mártires, no meio das chamas e amarrados às rodas, pensam estar deitados num leito de dores, perfumado deliciosamente. Ora, se a devoção pode suavizar por sua doçura os maiores tormentos e a mesma morte, que não fará ela na prática das virtudes, por mais dificultosas e ásperas que sejam! Não se poderá dizer que a devoção é para esses atos de virtude o que o açúcar é para as frutas que ainda estão verdes, suavizando-lhes o sabor, e, se já estão maduras, tirando-lhes o resto que ainda possa sobrar de amargo? Na verdade, a devoção sazona todas as coisas com uma afabilidade extrema; atenua o amargor das mortificações; preserva o pesar dos pobres; consola os oprimidos; humilha o orgulho na prosperidade; soleva o enjoo da solidão; torna recolhidos os que andam a lidar com o mundo; é para nossas almas o que o fogo é no inverno e o orvalho no verão; faz-nos moderados na abundância e pacientes no sofrimento e pobreza; tira proveito tanto das honras, como dos desprezos; enfrenta com a mesma disposição o prazer e a dor e inunda nossa alma duma admirável suavidade. Continuar lendo

A NATUREZA DA DEVOÇÃO

Resultado de imagem para rezandoAspiras à devoção, Filotéia, porque a fé te ensina ser esta uma virtude sumamente agradável à Majestade Divina. Mas, como os pequenos erros em que se cai ao iniciar uma empresa vão crescendo à medida que se progride e ao fim já se avultam de um modo quase irremediável, torna-se absolutamente necessário que, antes de tudo, procures saber o que seja a devoção.

Existe, pois, uma só devoção verdadeira e existem muitas que são vãs e falsas. É mister que saibas discernir uma das outras, para que não te deixes enganar e não te dês a exercícios de uma devoção tola e supersticiosa.

Um pintor por nome Aurélio, ao debuxar seus painéis, costumava desenhar neles aquelas mulheres a quem consagrava estima e apreço. É este um emblema de como cada um se afigura e traça a devoção, empregando as cores que lhe sugerem as suas paixões e inclinações. Quem é dado ao jejum tem-se na conta de um homem devoto, quando é assíduo em jejuar, embora fomente em seu coração um ódio oculto; e, ao passo que não ousa umedecer a língua com umas gotas de vinho ou mesmo com um pouco de água, receoso de não observar a virtude da temperança, não se faz escrúpulos de sorver em largos haustos tudo o que lhe insinuam a murmuração e a calúnia, insaciável do sangue do próximo. Uma mulher que recita diariamente um acervo de orações se considerará devota, por causa destes exercícios, ainda que, fora deles, tanto em casa como alhures, desmande a língua em palavras coléricas, arrogantes e injuriosas. Este alarga os cordões da bolsa pela sua consideração com os pobres, mas cerra o coração ao amor ao próximo, a quem não quer perdoar. Aquele perdoa ao inimigo, mas satisfazer as dívidas é o que não faz sem ser obrigado à força. Todas estas pessoas tem-se por muito devotas e são talvez, tidas no mundo por tais, conquanto realmente de modo algum o sejam. Continuar lendo

LIVRA-O DO DESESPERO

Imagem relacionadaO célebre Doutor da Igreja, S. Francisco de Sales, quando ainda jovem de seus 18 anos, viu-se tentado terrivelmente pelo demônio. Ficou abatido de tal de tal maneira que já quase não comia nem dormia.

Parecia-lhe que também já não rezava direito. A saúde começou a perigar. Estava para desanimar de vez. Passou duas semanas de inferno cá na terra. O demo lhe fazia ver que já estava condenado. Que nada adiantaria tudo o que fizesse.

O nobre moço, que vivera sempre bem, que nunca cometera um só pecado grave na vida, não sabia o que mais fazer.

Deus, porém, vela pelos que desejam ser bons. Levantou-se corajoso o moço e dirigiu-se à igreja. Foi direto ao altar da Virgem poderosa. De joelhos, reza com toda a confiança a bela oração: “Lembrai-vos, ó Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que alguém tivesse recorrido a vós sem ter sido atendido. Não permitais que eu seja o primeiro a ser abandonado”.

Imediatamente a boa Mãe lhe veio em socorro. Desde então nunca mais tentações dessas o assaltaram.

Devotíssimo dela, ficou Padre, Bispo e grande Santo. Tudo fez para que todos se tornassem íntimos amigos de Nossa Senhora.

Como Maria Santíssima é Boa! – Frei Cancio Berri C. F. M.

O PECADO DOS SANTOS E A MISERICÓRDIA DE DEUS

Fonte: Capela Santo Agostinho

Todo homem, por mais santo que seja, tem imperfeições, visto que foi feito do nada. De forma que não prejudicamos aos santos se, ao narrarmos as suas virtudes, contamos também os seus pecados e imperfeições. Aqueles que ocultam os defeitos e faltas dos santos com o pretexto de os honrar, fazem mal, porque não contam o princípio da sua conversão com medo que diminua assim a estima em que temos a sua santidade. Todos os grandes santos, escrevendo as vidas de outros santos, narraram sempre as faltas e imperfeições, pensando, e com razão, dar nisto tanta glória a Deus e aos seus mesmos santos como narrando as suas virtudes.

O grande São Jerônimo, escrevendo em epitáfio os louvores e as virtudes de Santa Paula, explica claramente as suas imperfeições, condenando com toda a lisura muitas das suas ações e sendo sempre claro e sincero ao escrever as suas virtudes e defeitos, pois sabia que uma coisa lhe era tão útil como a outra, porque vendo os defeitos dos santos e a sua vida basta-nos para conhecermos a vontade de Deus, que lhes perdoou e nos ensina a evitá-los e a fazer deles penitência como os santos fizeram, assim como lemos as suas virtudes para o imitar.

Quando os mundanos querem elogiar as pessoas que estimam, contam sempre as suas graças, virtudes, perfeições e excelências, dando-lhes todos os títulos e dignidades honrosas, procurando encobrir os seus pecados e imperfeições, e esquecendo tudo o que os poderia tornar desprezíveis. Mas a Santa Igreja nossa mãe faz o contrário; porque embora ame muito os seus filhos, contudo, quanto os quer louvar e exaltar, conta exatamente os pecados que cometeram antes da conversão, para dar mais honra e glória à majestade d’Aquele que os santificou, fazendo brilhar sobre eles a sua infinita misericórdia, pela qual os levantou da sua miséria e pecados, enchendo-os de graça e dando-lhes o seu santo amor, a fim de chegarem à santidade. Continuar lendo

A NATUREZA DA DEVOÇÃO

Imagem relacionadaAspiras à devoção, Filotéia, porque a fé te ensina ser esta uma virtude sumamente agradável à Majestade Divina. Mas, como os pequenos erros em que se cai ao iniciar uma empresa vão crescendo à medida que se progride e ao fim já se avultam de um modo quase irremediável, torna-se absolutamente necessário que, antes de tudo, procures saber o que seja a devoção.

Existe, pois, uma só devoção verdadeira e existem muitas que são vãs e falsas. É mister que saibas discernir uma das outras, para que não te deixes enganar e não te dês a exercícios de uma devoção tola e supersticiosa.

Um pintor por nome Aurélio, ao debuxar seus painéis, costumava desenhar neles aquelas mulheres a quem consagrava estima e apreço. É este um emblema de como cada um se afigura e traça a devoção, empregando as cores que lhe sugerem as suas paixões e inclinações. Quem é dado ao jejum tem-se na conta de um homem devoto, quando é assíduo em jejuar, embora fomente em seu coração um ódio oculto; e, ao passo que não ousa umedecer a língua com umas gotas de vinho ou mesmo com um pouco de água, receoso de não observar a virtude da temperança, não se faz escrúpulos de sorver em largos haustos tudo o que lhe insinuam a murmuração e a calúnia, insaciável do sangue do próximo. Uma mulher que recita diariamente um acervo de orações se considerará devota, por causa destes exercícios, ainda que, fora deles, tanto em casa como alhures, desmande a língua em palavras coléricas, arrogantes e injuriosas. Este alarga os cordões da bolsa pela sua consideração com os pobres, mas cerra o coração ao amor ao próximo, a quem não quer perdoar. Aquele perdoa ao inimigo, mas satisfazer as dívidas é o que não faz sem ser obrigado à força. Todas estas pessoas tem-se por muito devotas e são talvez, tidas no mundo por tais, conquanto realmente de modo algum o sejam.

Indo os soldados de Saul à casa de David, para prendê-lo, entreteve-os em conversa Micol, sua esposa, para ocultar-lhes a sua fuga; mandou meter num leito uma estátua coberta com as roupas de David e com a cabeça envolta em pelos. Feito isso, disse aos soldados que o esposo estava enfermo e que presentemente estava dormindo. É esse o erro de muitos que aparentam um exterior muito devoto e são tidos por homens realmente espirituais, mas que, na verdade, não passam de uns fantasmas de devoção. Continuar lendo

NÃO SE DEVE FAZER CASO DO QUE DIZEM OS MUNDANOS

olhaAssim que a tua devoção se for tornando conhecida no mundo, maledicências e adulações te causarão sérias dificuldades de praticá-la. Os libertinos tomarão a tua mudança por um artifício de hipocrisia e dirão que alguma desilusão sofrida no mundo te levou por pirraça a recorrer a Deus. Os teus amigos, por sua vez, se apressarão a te dar avisos que supõem ser caridosos e prudentes sobre a melancolia da devoção, sobre a perda do teu bom nome no mundo, sobre o estado de tua saúde, sobre o incômodo que causas aos outros, sobre a necessidade de viver no mundo conformando-se aos outros e, sobretudo, sobre os meios que temos para salvar-nos sem tantos mistérios.

Filotéia, tudo isso são loucas e vãs palavras do mundo e, na verdade, essas pessoas não têm um cuidado verdadeiro de teus negócios e de tua saúde: Se vós fôsseis do mundo, diz Nosso Senhor, amaria o mundo o que era seu; mas, como não sois do mundo, por isso ele vos aborrece.

Vêem-se homens e mulheres passarem noites inteiras no jogo; e haverá uma ocupação mais triste e insípida do que esta? Entretanto, seus amigos se calam; mas, se destinamos uma hora à meditação ou se nos levantamos mais cedo, para nos prepararmos para a santa comunhão, mandam logo chamar o médico, para que nos cure desta melancolia e tristeza. Podem-se passar trinta noites a dançar, que ninguém se queixa; mas por levantar-se na noite de Natal para a Missa do Galo, começa-se logo a tossir e a queixar de dor de cabeça no dia seguinte.

Quem não vê que o mundo é um juiz iníquo, favorável aos seus filhos, mas intransigente e severo para os filhos de Deus? Continuar lendo

A PACIÊNCIA

paciA paciência, diz o Apóstolo, vos é necessária para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis o que Ele vos tem prometido. Sim, nos diz Jesus Cristo, possuireis vossas almas pela paciência. 

O maior bem do homem consiste, Filotéia, em possuir seu coração e tanto mais o possuímos quanto mais perfeita é nossa paciência; cumpre, portanto, aperfeiçoarmos nesta virtude. Lembra-te também que, tendo Nosso Senhor nos alcançado todas as graças da salvação pela paciência de Sua vida e de Sua morte, nós também no-las devemos aplicar por uma paciência constante e inalterável nas aflições, nas misérias e nas contradições da vida.

Não limites a tua paciência a alguns sofrimentos, mas estende-a universalmente a tudo o que Deus te mandar ou permitir que venha sobre ti. Muitas pessoas há que de boa mente querem suportar os sofrimentos que têm um certo cunho de honroso: ter sido ferido numa batalha, ter sido prisioneiro ao cumprir seu dever, ser maltratado pela religião, perder todos os seus bens numa contenda de honra, da qual saíram vencedores, tudo isso lhes é suave; mas é a glória e não o sofrimento o que amam. O homem verdadeiramente paciente tolera com a mesma igualdade de espírito os sofrimentos ignominiosos como os que trazem honra.

O desprezo, a censura e a deseducação dum homem vicioso e libertino é um prazer para uma alma grande; mas sofrer esses maus tratos de gente de bem, de seus amigos e parentes, é uma paciência heróica. Por isso aprecio e admiro mais o Cardeal São Carlos Borromeu, por ter sofrido em silêncio, com brandura e por muito tempo, as invectivas públicas que célebre pregador duma ordem reformada fazia contra ele do púlpito, do que ter suportado abertamente os insultos de muitos libertinos; pois, como as ferroadas das abelhas doem muito mais que as das moscas, assim as contradições procedentes de gente de bem magoam muito mais do que as que provêm de homens viciosos. Acontece, no entanto, muitas vezes que dois homens de bem, ambos bem intencionados, pela diversidade de opiniões, se afligem mutuamente não pouco. Tem paciência não só com o mal que sofres, mas também com as suas circunstâncias e conseqüências. Muitos se enganam neste ponto e parecem desejar aflições, recusando, entretanto, sofrer suas incomodidades inseparáveis. Continuar lendo