Mortuo non prohibeas gratiam — “Não impeças que a liberalidade se estenda aos mortos” (Ecclus. 7, 37).
Sumário. A caridade cristã não só nos aconselha, mas até nos obriga a socorrermos as almas do purgatório; porquanto são nossos próximos e se acham em grandíssima necessidade. Tanto mais que entre elas podem penar também as almas de nossos pais, parentes e amigos; e, não podendo valer-se por si próprias, recomendam-se a nós por socorro. Que crueldade, pois, não nos apressarmos a socorrê-las, ainda que à custa de algum sacrifício!… Receemos ser tratados depois como nós agora tratamos os outros.
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A caridade cristã não só nos dá o conselho, mas nos impõe a obrigação de rezarmos pelas almas do purgatório. Sim, porque, conforme ensina Santo Tomás, a caridade estende-se não só aos vivos, senão também a todos os que morreram na amizade de Deus; e, além disso, ela pede que socorramos especialmente aqueles próximos que mais precisem do nosso auxílio. Ora, quem dentre os nossos próximos está em tão grande necessidade de socorro, como essas santas prisioneiras? As infelizes ardem continuamente naquele fogo, que as atormenta muito mais do que qualquer fogo terrestre, e fá-las sofrer juntamente toda a espécie de suplícios cruciantes.
Mais. Em cada uma de suas faculdades padecem penas indizíveis. Aflige-as a vista pavorosa dos pecados, pelos quais amarguraram o seu Deus, a quem tanto amam, e atraíram sobre si mesmas as dores acerbas que estão sofrendo. Aflige-as a lembrança dos grandes benefícios recebidos de Deus, quando estavam na terra; e especialmente a lembrança daquelas misericórdias e graças especiais que lhes podiam adquirir mais merecimentos no paraíso, ao passo que só ganharam mais tormento no purgatório, porque não corresponderam às graças com a devida gratidão. Aflige-as finalmente e sobretudo o estarem longe de seu esposo, isto é, de Deus, sem sequer saberem quando terão a consolação de O irem ver.
O que, porém, mais nos deve excitar a aliviarmos essas santas almas é o pensamento de que entre elas penam talvez as almas de nossos pais, irmãos ou outros parentes e amigos e benfeitores; que não se podendo valer a si próprias, porque se acham em estado de satisfação pelas suas faltas, socorrem-se a nós por alívio e dizem-nos com Jó: Miseremini mei, miseremini mei, saltem vos amici mei (1) — “Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós que sois meus amigos”. Continuar lendo





















































Oportet semper orare et non deficere — “É preciso orar sempre e não deixar de o fazer” (Luc. 18, 1).
Os Romanos, diz Fénelon, e antes deles os Gregos, ensinavam a seus filhos a não estimarem senão a glória, e a quererem, não possuir riquezas, mas vencer os reis que as possuíam, julgando que só pela virtude se podia ser feliz. Quando, serão os filhos do século mais sábios que os filhos da luz?
Omnis dolor irruet super eum — “Toda a sorte de dores virá sobre ele” (Iob 20, 22).

Oportet semper orare et non deficere — “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (Luc. 18, 1).
Cum ergo accepisset Jesus acetum, dixit: Consummatum est — “Jesus, havendo tomado o vinagre, disse: Tudo está consumado”. (Io. 9, 30)
Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui — “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições do teu coração” (Ps. 36, 4).




































Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse intrabit in regnum coelorum — “O que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus” (Matth. 7, 21).
Intra in gaudium Domini tui — “Entra no gozo de teu Senhor” (Matth. 25, 21).
Um senhor muito cruel teve o gosto de festejar com um banquete o nascimento de sua filha Lucrecia. Durante o festival, levantando na mão o punhal sangrento, exclamou com voz furibunda:
Perditio tua, Israel; tantummodo in me auxilium tuum — “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti; só em mim está o teu auxílio” (Os. 13, 9).












Reddite quae sunt Caesaris Caesari, et quae sunt Dei Deo — “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Matth. 22, 21).
Consideremos o terceiro inimigo, a carne, que é o pior de todos, e vejamos como deveremos combatê-la. Em primeiro lugar por meio da oração, conforme já vimos acima. Em segundo lugar, evitando as ocasiões como iremos ver e ponderar atentamente. Disse São Bernardino de Sena que o conselho mais excelente (que é para bem dizer a base e o fundamento da vida religiosa) consiste em evitar sempre as ocasiões do pecado. Constrangido pelos exorcismos, confessou certa vez o demônio que, entre todos os sermões, o que mais detesta é aquele em que se exortam os fiéis a fugirem das más ocasiões. E com efeito, o demônio se ri de todas as promessas e propósitos que formule o pecador arrependido, se este não evitar tais ocasiões.
Gens et regnum, quod non servierit tibi, peribit — “A gente e o reino que te não servir, perecerá” (Is. 60, 12).
O meio mais eficaz de combater, entre as crianças, a voluptuosidade e as suas tristes conseqüências, é fazer-lhes amar uma vida ativa e laboriosa. Nada é mais recomendado na sagrada Escritura, que o trabalho; e nada, depois do temor e do amor de Deus, é mais útil ao homem, que o hábito do trabalho, que, procurando-lhe o pão de cada dia, exerce e desenvolve as suas faculdades; oferece-lhe verdadeiras consolações no meio das vicissitudes e contrariedades da vida; arranca-o aos perigos da ociosidade, e faz-lhe expiar as suas faltas e fraquezas.
Sciens Jesus quia omnia consummata sunt, ut consummaretur Scriptura, dixit: Sitio — “Sabendo Jesus que tudo estava cumprido, para se cumprir ainda a escritura, disse: Tenho sede”. (Io. 19, 28).
Vejamos agora como se deve vencer o mundo. O demônio é um inimigo terrível, mas o mundo é pior ainda. Se o demônio não se servisse dele, isto é, dos homens maus, que compõem o que vulgarmente se entende por mundo, não conseguirá as vitórias que obtém. O próprio Redentor nos admoesta que nos acautelemos mais dos homens que do demônio (Mt 10,17). Aqueles são frequentemente piores do que estes, porque os demônios fogem diante da oração e da invocação dos nomes de Jesus e de Maria, mas os maus amigos, quando tentam arrastar alguém ao pecado e se lhes responde com palavras edificantes e cristãs, longe de fugirem e de se recolherem, cada vez mais perseguem o coitado que lhes cai nas mãos, ridicularizando-o, chamando-o de néscio, covarde e destituído de caráter; e, quando outra coisa não conseguem, tratam-no de hipócrita, que quer fingir santidade.
Beati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saeculorum laudabunt te — “Bem-aventurados, Senhor, os que moram em tua casa; pelos séculos te louvarão” (Ps. 83, 5).
O mors, bonum est iudicium tuum homini indigenti — “Ó morte, é bom o teu juízo para o homem necessitado” (Ecclus. 41, 3).