“NÓS O INCITAREMOS AO CISMA!”

Tal como a Revolução, o pós-Concílio redefine o bom cidadão da Igreja.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Em um testemunho publicado em 2009, pouco antes da sua morte, D. Jacques Masson(1) (1937–2010) relatou que o seu bispo, D. Jacques Ménager, furioso com a sua colaboração à obra de D. Lefebvre, exclamou durante uma entrevista acalorada com ele em 1971: “D. Lefebvre é um integrista, fez de tudo para sabotar o Concílio. Diz que é fiel ao Papa, mas desobedece a Paulo VI: recusa-se a celebrar a missa nova. Pois bem! Veremos até onde irá a sua fidelidade ao Papa: faremos com que o Papa Paulo VI proíba a Missa de São Pio V: ou ele obedecerá ao Papa celebrando a missa nova, ou nós o incitaremos ao cisma(2)!

D. Ménager foi bispo auxiliar de Versalhes, bispo de Meaux, depois arcebispo de Reims, presidente da Comissão Francesa “Justiça e Paz” (!) do episcopado francês quando esta foi criada em 1967.

O episódio tem o mérito de mostrar que quanto mais se prega a abertura e o diálogo, mais se abrem as hostilidades. Continuar lendo

OS TRADICIONALISTAS SÃO JANSENISTAS: UMA ACUSAÇÃO ERRÔNEA – PARTE 2/2

A primeira parte desta série de artigos (clique aqui para lê-la) lançou um olhar crítico sobre certas distorções do catolicismo tradicional encontradas no polêmico artigo de Josh Blanchard e Rick Yoder, “A Rival Magisterium“. Especificamente, argumentau-se que acusar os tradicionalistas de serem “jansenistas“, embora seja um tropo de longa data, carece de mérito. Este artigo aborda a acusação mais séria feita por Blanchard e Yoder, a saber, que, assim como os jansenistas de antigamente, os católicos tradicionalistas construíram seu próprio magistério paralelo — ou melhor, rival — desafiando a autoridade do magistério da Igreja.

Fonte: SSPX USA – Tradução: Dominus Est

Uma distinção necessária

Embora haja divergências entre alguns católicos tradicionalistas quanto ao status exato do Concílio Vaticano II e à ortodoxia doutrinária de diversos documentos de ensino que emanaram da Igreja nas últimas seis décadas, a Fraternidade São Pio X (FSSPX) tem consistentemente chamado a atenção para os pontos em que esses pronunciamentos se desviam do depósito da fé. A liberdade religiosa, a colegialidade e o ecumenismo – todos os ensinamentos do Concílio Vaticano II — foram cuidadosamente examinados pela Fraternidade e por outros tradicionalistas. Essa postura crítica, que sempre foi adotada em defesa da fé católica, não equivale à construção de um magistério rival dentro da Igreja. Ela é feita a serviço da Igreja, para lembrar aos fiéis o que ela professava claramente antes do advento do modernismo.

Não é de surpreender, portanto, que Blanchard e Yoder dediquem uma parte significativa de sua atenção à Fraternidade, incluindo seu fundador, D. Marcel Lefebvre. Recordando a famosa “Declaração de 1974” do Arcebispo, a dupla aparentemente enxerga um espírito jansenista nessa declaração — antes de confessar que essa proclamação de fidelidade à Tradição Católica, na verdade, nada tem a ver com o jansenismo propriamente dito.  Continuar lendo

AS VIRTUDES DA FAMÍLIA CATÓLICA

A Brief Rule of Life for Catholic Families – Benedictine College Media &  Culture

Pelo Pe. Álvaro Calderón, FSSPX

Introdução

O demônio é o príncipe desse mundo que, antes da chegada de Jesus Cristo, conquistara até mesmo o povo escolhido; e, como homem armado, guardava seu reino.

Jesus Cristo, mais forte do que ele, expulsou-o da verdadeira Israel, ou seja, da Igreja Católica – Igreja que ergueu no meio das trevas como Torre de Ouro e de Marfim, escada de Jacó fortificada que leva até o céu; para que acudissem a ela os indivíduos, as famílias e as nações, se desejam sua salvação.

A Igreja possui as virtudes de Jesus Cristo, o Ouro de sua Divindade e o Marfim de sua humanidade, o Ouro de sua caridade e o Marfim de sua pureza, com os quais é capaz de confirmar as almas, as famílias e os povos.

A Igreja chegou a receber uma família de povos que se chamou Cristandade, forte em graça e em sabedoria. Mas após um ataque de sete séculos, acabou caindo e foi invadida pelos maus espíritos, sua ruína pior do que a princípio. O que foi a Cristandade, a Cidade de Deus, a Cidade do Amor a Deus até a entrega de si, voltou a ser Babel, a Cidade de Caim, a Cidade do Amor-próprio até o desprezo de Deus. Continuar lendo

OS TRADICIONALISTAS SÃO JANSENISTAS: UMA ACUSAÇÃO ERRÔNEA – PARTE 1/2

Acusar católicos tradicionalistas de serem “jansenistas” é um tropo desgastado que persiste há décadas. Essa acusação mal formulada geralmente não tem nada a ver com os enigmáticos debates sobre graça e predestinação que definiram o jansenismo histórico do século XVII. Em vez disso, o “jansenismo” é usado como sinônimo pejorativo de rigorismo estéril, frieza espiritual e desobediência eclesiástica. Embora avanços significativos tenham sido feitos nos últimos anos para esclarecer a real história do jansenismo e dos movimentos adjacentes que ele inspirou, é irônico que dois acadêmicos que tem procurado atualizar a compreensão pública sobre o jansenismo tenham voltado a comparar os tradicionalistas católicos a esse movimento condenado pelo Papa.

Fonte: SSPX USA – Tradução: Dominus Est

Dois jovens acadêmicos renovam uma antiga acusação

Em um artigo que é, ao mesmo tempo, informativo e frustrante, “A Rival Magisterium” (Commonweal), os estudiosos jansenistas Shaun Blanchard e Richard T. Yoder se propuseram a explicar  “o que os tradicionalistas de hoje têm em comum com os jansenistas”. Blanchard, por sua vez, é o autor de The Synod of Pistoia and Vatican II: Jansenism and the Struggle for Catholic Reform – Jansenismo e a luta pela reforma católica (Oxford University Press 2020). Pistoia, que foi um sínodo diocesano italiano de 1786, foi condenado pelo Papa Pio VI em 1794 por emitir uma série de decretos que, entre outras coisas, buscavam introduzir o vernáculo na liturgia, limitar o calendário de santos e abolir todas as ordens monásticas, exceto as que seguiam a Regra de São Bento. Blanchard argumenta que Pistoia não foi apenas um precursor do Concílio Vaticano II, mas uma espécie de “ponto culminante” da incorporação de certas reformas jansenistas na vida da Igreja.

Yoder, juntamente com Blanchard, também foi curador de Jansenism: An International Anthology (Catholic University of America Press, 2024). Essa coletânea de textos jansenistas (ou relacionados ao jansenismo) abrange cerca de 150 anos de história da Igreja, abrangendo geograficamente desde o Vallée de Chevreuse, a sudoeste de Paris, na França, até Beirute, no Líbano. Ele também contém uma extensa introdução sobre a história do jansenismo feita pela dupla, que é amplamente repetida de forma condensada em sua polêmica contra o catolicismo tradicional. Embora não seja possível recapitular essa história aqui, é suficiente dizer que Blanchard e Yoder prestaram um serviço à erudição histórica ao traçar o jansenismo (nomeado assim em homenagem ao bispo Cornelius Jansen – um bispo e teólogo cujo controverso Tomo sobre o pensamento de Santo Agostinho ajudou a engendrar o movimento) de uma disputa sobre graça e predestinação a uma série de disparates, mas conectados, que questionaram o alcance da autoridade papal; a natureza do governo da Igreja; a estrutura e o serviço da liturgia; práticas devocionais populares; e certas vertentes da teologia moral e da práxis. Por fim, sua obra se soma ao pequeno, mas crescente, corpus da literatura anglófona que vê certas vertentes do jansenismo prenunciando a Nouvelle Théologie do século XX e as reformas do Vaticano II. Continuar lendo

A VIRILIDADE: UMA PERSPECTIVA CATÓLICA SOBRE UM COMENTÁRIO MUITO OPORTUNO

A crise histórica que vivemos, que deslegitimou o Pai e eliminou a complementaridade do masculino e do feminino, mostra uma evidente devirilização que informa todas as esferas de nosso ser-no-mundo. Apesar disso, temos a tomada de consciência daqueles que ainda mantêm um espírito crítico e um senso de realidade que está intimamente ligado à verdadeira fé.

Fonte: Chiesa e Post Concilio – Tradução: Dominus Est

Muitos homens vivem suas vidas evitando responsabilidades, trabalhos e esforços. Muitos não têm ideia do propósito de suas vidas ou para onde querem ir. Outros ainda recuam diante de uma cultura que interpreta qualquer movimento em direção ao desenvolvimento do caráter ou à liderança masculina como odioso e opressivo. Todas essas figuras masculinas estão perdendo um ingrediente vital: a virilidade. Eles precisam dela com urgência.

Finalmente alguém se manifesta

A virilidade não se resume a ter certos cromossomos. O senador americano Josh Hawley (Republicano do Missouri) descreve suas características em seu novo livro, “Manhood: The Masculine Virtues America Needs” (Masculinidade: As Virtudes Masculinas que a América Precisa). Ao ler esse livro, respiramos aliviados porque finalmente alguém está dizendo o que precisa ser dito: a virilidade é boa, necessária e alcançável.

O livro do senador Hawley combina vários estilos para expressar seu ponto de vista. É, em parte, um livro de memórias, com relatos de como seus familiares e antepassados vivenciaram sua masculinidade. Em parte, é um estudo bíblico que reúne histórias, lições e passagens das escrituras que apontam para o propósito da masculinidade dado por Deus. Por fim, é um comentário social sobre o desejo da pós-modernidade de destruir a masculinidade e o que precisa ser feito para recuperá-la. Continuar lendo

SERMÃO PELA FESTA DE SÃO PIO X – PELO PE. OLIVIERI TOTI, FSSPX

Oração a São Pio X pela Igreja - Quem reza se salva

São Pio X – Patrono da Fraternidade

Proferido na Missa do domingo, 07/09 (09:00h), no Priorado Padre Anchieta, em São Paulo/SP.

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In festo Sancti Pii Decimi, Papae et Confessoris[1]

Patroni principalis Fraternitatis Sacerdotalis Sancti Pii X

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Amadíssimos irmãos,

Antes de tudo, gostaria de agradecer ao Padre Prior por me haver dado a honra de celebrar neste ano a solenidade do Patrono da nossa Fraternidade, o grande Papa São Pio X! Além disso, festejamos os vinte anos de fundação do nosso Priorado de São Paulo. Portanto, hoje, queridos amigos, é verdadeiramente um dia de ação de graças! Todavia, se temos muitos motivos para comemorar, caríssimos irmãos, temo-los também não poucos para nos preocupar.

Vivemos uma grande crise, que foi declarada, assinalada e até vislumbrada em seu desenvolvimento futuro por São Pio X. Podemos dizer que ele morreu de tristeza diante dos acontecimentos que se aproximavam. Não se tratava apenas da Primeira Guerra Mundial. O que ele via era algo ainda maior: toda essa sombra que adentrou a Igreja.

Sim, vivemos em densas trevas, mas o olhar cristão, quanto mais sombras enxerga, mais descobre nelas os sinais da Divina Providência. São tempos de grandes graças, pois o céu jamais permitiria uma crise tão profunda em sua Igreja sem preparar, digamos assim, “uma revanche”. São Pio X previu essa crise, e em seu pontificado, em sua pessoa, em suas ações, manifestam-se claramente dois princípios em combate: o modernismo, que ele condena, e o Papado, que ele representa. Esses são os dois princípios em confronto; combate terrível, que ainda hoje vivemos em episódios dramáticos. Continuar lendo

LIÇÃO DE MICROPOLÍTICA

Por Dardo Juán Calderón

Fonte: In Exspectatione – Tradução: Dominus Est

Parece ser Gabriel Tarde quem descobriu este assunto da Micropolítica, que trata de que, pelo fato de vivermos em sociedade, nós, os homens comuns – que não participamos da Alta Política ou Macropolítica – mesmo assim “fazemos política” desde as estruturas básicas da sociedade; e que essa atividade é muito mais influente na macropolítica do que se pensa levianamente.

Essa influência faz com que os manipuladores modernos da política, depois de seguir os sábios conselhos de Maquiavel, tenham dado grande importância à manipulação da “micropolítica”. Tarde discutiu com os outros gênios da sociologia que diziam que esses fenômenos básicos não são políticos, mas psicológicos, mas o fato é que ganhou Tarde; que mais vale tarde do que nunca, porque isso havia sido dito por Aristóteles, e foi a principal atividade política da Igreja católica – fazer famílias cristãs – por séculos. Mas a questão é que os sociólogos descobriram esse campo de estudo e escreveram enormes monsergas sobre o assunto, sendo um dos mais destacados e usados na atualidade a obra de Gilles Deleuze, bibliografia obrigatória há muitos anos na formação dos licenciados em Ciências Políticas.

O assunto da lei do aborto em nosso país torna atual uma reflexão sobre o tema; as estruturas básicas de uma sociedade parecem, em tais circunstâncias, influenciar os caminhos da Macropolítica, mas cabe discerni-lo à luz dessas considerações se influenciaram para cima ou se foram manipuladas por cima. Reflexão também necessária pelo fato de que as famílias católicas – e se ainda há algumas estruturas um pouco mais complexas que podem ser chamadas católicas – têm como única possibilidade de influenciar na alta política a ação, através de estruturas e condutas de base, já que o Estado laico não permite chegar a seus mais altos escalões professando uma religião. Pode chegar um católico em seu foro íntimo, mas não se pode exercer a função enquanto tal, pois deve reconhecer o caráter estritamente laico de sua função, a liberdade de cultos e outras lindezas que são incompatíveis com a condição de católico íntegro – mas compatíveis com a de católico modernista. E o pior é que a “função” se exerce desligada de toda representação real de interesses; como membro de uma burocracia cujo objetivo final se desconhece – se é que existe um (como veremos). Continuar lendo

ESPECIAL DOS ESPECIAIS DO BLOG: COMBO REFUTAÇÕES GERAIS

Sites oficiais da FSSPX em Portugal | Distrito de Espanha e Portugal

Em mais uma Operação Memória de nosso Blog, listamos aqui uma série de Especiais e alguns textos variados que estamos publicando já há vários anos.

Como os ataques à FSSPX aqui no Brasil se intensificaram nos últimos tempos, por pessoas que claramente não sabem praticamente nada sobre os assuntos relacionados a ela, nada melhor que disponibilizarmos alguns estudos sobre os mais diversos temas “da moda”.

Para quem ainda não sabe, tais ataques são de assuntos “requentados“, “batidos”, já usados pelo conservadorismo de certos Institutos europeus e já refutados pelos Padres da FSSPX dos Distritos  de lá.

De tempos em tempos a onda passa por aqui. Anos atrás foram uns dois sites conciliares famosos no meio modernista que passaram a atacar D. Lefebvre e a FSSPX. O efeito foi contrário, a Fraternidade recebeu um número ainda maior de pessoas.

Hoje, por aqui, repetem-se as mesmíssimas coisas, porém com “ares de novidade”, como algo “descoberto e nunca falado”, como algo “acusatório, incriminatório e sem escapatória“.

Uau!!

De certa forma, os doutos brasileiros atuais estão um pouco atrasados nessa empreitada.

Prezados amigos, leitores e benfeitores, os padres da FSSPX no Brasil não tem tempo para discussões, ainda mais para assuntos já batidos. Nossos poucos padres têm como prioridades no apostolado: a oração, a Missa, a confissão, os Retiros, a Formação e salvação das almas de seu rebanho. Assim, aproveitem as leituras daqui mesmo do Dominus Est, para não caírem nas trapaças de continuístas e afins que não se importam em se expor à vergonha, de rifar toda a credibilidade que supostamente tem, para assim tentar salvar alguma coisa daquilo que recentemente perderam (entendedores sabem o que há por trás de tudo isso). 

Como pedido pelo Pe. Mouroux no BOLETIM DE SETEMBRO, rezemos por eles.

Rezemos mesmo, porque está sendo muito fácil se exporem ao ridículo, falhando em premissas básicas, mas posando de gurus das supostas novidades.

Aproveitem….

ESPECIAIS DO BLOG: OBEDIÊNCIA E DESOBEDIÊNCIA

ESPECIAIS DO BLOG: CISMA???

ESPECIAIS DO BLOG: AS SAGRAÇÕES NA FSSPX

ESPECIAIS DO BLOG: A MISSA NOVA

ESPECIAIS DO BLOG: CONSERVADORISMO/CONTINUÍSMO/ECCLESIA DEI

ESPECIAIS DO BLOG: VATICANO II

ESPECIAIS DO BLOG: A LIBERDADE RELIGIOSA

ESPECIAIS DO BLOG: O ECUMENISMO

ESPECIAIS DO BLOG: BREVE CATECISMO SOBRE A IGREJA E O MAGISTÉRIO

ESPECIAIS DO BLOG: PAPAS JOÃO PAULO II, PAULO VI E JOÃO XXIII

ESPECIAIS DO BLOG: A LEI ANTIGA E A LEI EVANGÉLICA SEGUNDO O VATICANO II E SEGUNDO A TRADIÇÃO CATÓLICA

ESPECIAIS DO BLOG: O ERRO SEDEVACANTISTA

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OUTROS ASSUNTOS

ESPECIAIS DO BLOG: MARIA MEDIANEIRA E CORREDENTORA

BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA

CARTA ABERTA AOS CATÓLICOS PERPLEXOS

DO LIBERALISMO A APOSTASIA

OS TRADICIONALISTAS SÃO JANSENISTAS? – PARTE 1

OS TRADICIONALISTAS SÃO JANSENISTAS? – PARTE 2

CISMÁTICOS E HEREGES? PELO PE. JEAN MICHEL GLEIZE, FSSPX – PARTE 2/2

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Para acessar a Parte 1, CLIQUE AQUI

Tradivacantismo?

I – Da obediência bem compreendida

1. A obediência — fosse ela devida ao Vigário de Cristo — é uma virtude moral, parte da justiça, e, como tal, situa-se em um justo meio (14). Com efeito, a virtude moral está no princípio de uma ação propriamente humana, realizada de acordo com toda a perfeição exigida, perfeição de um ser dotado de razão – e sabemos que “a razão perfeita foge de todos os extremos”. A obediência ocupa, portanto, o equilíbrio, diz o Aquinate, “entre o excesso e a falta”. Seu objeto é nada mais nada menos do que o preceito (ou mandamento) legítimo de um superior humano(15). Esse preceito exige a obediência como algo que lhe é devido – e a obediência cumpre, a partir de então, uma obra de justiça – na medida exata em que é legítimo, ou seja, na medida exata em que é a expressão do governo de Deus, que governa as criaturas inferiores não imediatamente por Si mesmo, mas por intermédio das criaturas superiores(16). Assim que o preceito deixa de ser a expressão exata desse governo divino, a obediência cessa, por falta de objeto. Exigir ou impor a submissão da vontade a tal preceito constituiria, então, uma atitude viciosa, oposta, por excesso, ao bem da verdadeira obediência.

2. A obediência bem compreendida, a obediência virtuosa, exclui, portanto, por si mesma, como escreve o Pe. Hilaire Vernier(17), “a submissão aos abusos de poder”, ainda que proviessem da hierarquia eclesiástica. Abusos de poder que, como explica Santo Tomás, podem ocorrer de duas maneiras(18). Primeiro, quando o preceito de um superior humano contradiz um preceito de um superior de ordem mais elevada, por exemplo, quando o comando do homem contradiz o de Deus: assim, não há obediência possível em relação a um governo que legitimasse atos contrários à lei divina natural do Decálogo, por exemplo, a eutanásia ou o aborto. Segundo, quando o preceito do superior humano aborda um domínio que não lhe pertence, pois atentaria à esfera privada e a autonomia física ou moral do indivíduo: assim, não há obediência possível em relação a um governo que pretendesse impor às famílias um limite de nascimentos a um número específico de filhos, ou o controle de sua vida privada pela instalação de câmeras em suas casas (incluindo nos banheiros). Aqui, Santo Tomás recorre, com Sêneca, à autoridade do senso comum: “Errat si quis existimat servitutem in totum hominem descendere – Seria um erro querer fazer com que o peso de sua autoridade recaísse sobre o homem todo”, sobre todos os domínios e todas as áreas da vida do indivíduo. Continuar lendo

CISMÁTICOS E HEREGES? PELO PE. JEAN MICHEL GLEIZE, FSSPX – PARTE 1/2

Surpreendente efeito colateral da Traditionis Custodes: alguns continuístas brasileiros o site Claves, da Fraternidade São Pedro, parece estar tomado por um novo zelo antilefebvrista. Sob risco de “tradivacantismo”?

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Cismáticos e hereges? Uma acusação contra a Fraternidade São Pio X

I – Atestado de procedência

1. A certidão de nascimento da Fraternidade São Pedro – e, de modo geral, das comunidades do chamado “movimento tradicional”– está registrada no Motu Proprio Ecclesia Dei afflicta,de 2 de julho de 1988, que declara o cisma de D. Lefebvre e o condena por ter criado “uma noção incompleta e contraditória da Tradição”(1), por ter se recusado a reconhecer “a continuidade do Concílio Vaticano II com a Tradição”(2). Logo, as ditas comunidades estão congenitamente destinadas a denunciar o mesmo suposto cisma e a condenar a mesma noção supostamente incompleta e contraditória da Tradição. Elas estão destinadas a isso de forma inerente, em razão de sua própria fundação, sob pena de deixarem de ser o que são, e enquanto se reivindicarem como resultado das medidas tomadas por João Paulo II no Motu Proprio que lhes deu o nome. Outrossim, também estão destinadas, de forma igualmente inerente, a “evidenciar a continuidade do Concílio com a Tradição”(3).

II – Um predeterminismo teológico?

2. Portanto, não é de se surpreender que, nesses últimos tempos, o site “Claves” da Fraternidade São Pedro tenha se empenhado em denunciar uma suposta falta de eclesialidade na Fraternidade São Pio X. Nos últimos tempos, ou seja, há quase três anos, após a publicação do Motu Próprio Traditionis custodes. A manutenção dos privilégios concedidos por João Paulo II exigiria um renovado protesto de não-lefebvrismo? De qualquer forma, vemos que o Pe. de Blignières se esforçou para demonstrar que o episcopado dos bispos da Fraternidade não era católico, insistindo na acusação de cisma(4). E eis que, no verão passado(5), o Pe. Hilaire Vernier, da Fraternidade São Pedro, pretende denunciar, por sua vez, “o impasse do sedevacantismo”, com uma crítica implícita dirigida à Fraternidade São Pio X. A conclusão do artigo assume a franca aparência de um clichê: a atitude de Dom Lefebvre e seus sucessores, implicitamente estigmatizada como um “sedevacantismo oculto, teórico ou prático”,levaria, inevitavelmente, a “um verdadeiro eclesiovacantismo”. De fato, “não é apenas a sé de Pedro que estaria vaga há mais de 50 anos, mas é a Igreja Católica que teria deixado de ser o que essencialmente é desde sua fundação!” Um clichê, no sentido de que a violência exagerada da expressão mal esconde a inconsistência dos argumentos que pretendem sustentá-la. Antes de avaliar sua consistência, comecemos – e esse será o objetivo do presente artigo – examinando os argumentos por si mesmos. Continuar lendo

3 DE SETEMBRO – DIA DE SÃO PIO X

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Nesta data tão importante para a Igreja, listamos abaixo alguns links que já postamos sobre o Santo:

SAGRAÇÕES EPISCOPAIS NA FSSPX? APRENDENDO COM O PASSADO

Com as especulações atuais sobre se, e quando, a FSSPX irá sagrar novos bispos, todos podemos concordar em uma coisa: são necessárias.

Fonte: Rorate Caeli – Tradução: Dominus Est

Uma característica extraordinária da história da Fraternidade São Pio X é que, sempre que há algum contato com Roma, um grupo de padres e leigos nas capelas se revolta e a abandona. Ofendidinhos, eles fogem irritados e acusam os que ficaram de “trair” o legado de D. Lefebvre. Todos os grandes acontecimentos na Fraternidade nos últimos 50 anos são, em certo grau, resultado de conflitos internos, seguidos pelo êxodo. 

As sagrações episcopais em junho de 1988 foram um choque terrível para muitas pessoas que, até então, alegremente apoiavam a Fraternidade. Para aqueles que gostavam da solenidade, as sagrações foram choque brutal com a realidade. Nossa pequena congregação em uma igreja anglicana abandonada em Bath, no Reino Unido, viu-se subitamente reduzida pela metade. Ao observar os remanescentes no primeiro domingo de julho de 1988, com muitos rostos familiares desaparecidos e que nunca mais seriam vistos, foi minha mãe quem me sussurrou de sua cadeira de rodas: “os que ficaram tomaram posição”. De repente, o Vaticano empunhou suas enferrujadas espadas de penalidades eclesiásticas, incluindo a excomunhão latae sententiae. Quem em sã consciência não correria para se proteger? A última excomunhão no Reino Unido havia sido em 1907.

Para os padres e leigos ligados à FSSPX, esses foram tempos assustadores, pois foram acusados ​​de heresia e cisma. Muitos bispos, abades e clérigos que, até o momento, haviam apoiado publicamente o Arcebispo, sumiram de cena ou se tornaram abertamente hostis. No fim das contas, pode-se argumentar que Deus permitiu esses eventos para afastar os obstáculos da Fraternidade. Dito de outro modo, todos aqueles que pensavam que poderiam ter as aparências da tradição católica e, ao mesmo tempo, a aprovação de Roma, foram enganados. O que restou foi um grupo mais enxuto, preparado e perseguido; fortificado para enfrentar o avanço da crise na Igreja Católica – embora, olhando para nossa própria congregação em Bath, poucos de nós estávamos preparados! Continuar lendo

BOLETIM DO PRIORADO PADRE ANCHIETA (SÃO PAULO/SP) E MENSAGEM DO PRIOR (AO PE. JOSÉ EDUARDO)– SETEMBRO/25

Priorado Padre Anchieta FSSPX-Brasil - YouTube

Caros fiéis,

Os padres da Fraternidade já têm trabalho suficiente para se envolver nas polêmicas que mais frequentemente surgem nas redes sociais. No entanto, às vezes é aconselhável reagir e impor limites a quem exagera.

Nos últimos meses, um padre de Osasco encheu-se de coragem para denunciar um dos maiores perigos da Igreja: abusos litúrgicos? Não! Imoralidade (nos seminários, por exemplo)? Não! Perda da fé? Não! O valente Padre José Eduardo embarcou em uma cruzada contra a Fraternidade (16 padres e aproximadamente 5.000 fiéis no Brasil). Nessa batalha, ele não arrisca nada, exceto uma promoção. O padre doutor rasga sua batina, revelando ao mundo inteiro uma realidade insuportável que abala os alicerces da Igreja: a Fraternidade não está em plena comunhão! A Fraternidade não obedece ao Papa! Incrível! Ele compartilhou suas valiosas descobertas com a Cúria Romana e a CNBB?

Todos os que lêem estas linhas testemunharam vários escândalos em suas paróquias; escândalos sistêmicos, não de poucos, perpetrados por pessoas “em plena comunhão” e que obedecem ao Papa, especialmente quando seu nome era Francisco e muito menos quando se chamava Bento.

O Padre José Eduardo conhece a Fraternidade, tendo conhecido seus padres, inclusive seu superior, Padre Pagliarani, na Itália e no Brasil. Ele foi bem recebido. No fundo, este Padre foi, talvez, um daqueles padres em cima do muro. Se defendem demais a Tradição, são punidos. Se não a defendem suficientemente, sua consciência os repreende. Conhecemos esses padres que sofrem, mas não têm a coragem ou a capacidade de se engajar mais na luta. Rezamos por eles e os acompanhamos da melhor maneira possível. Poucos ousam deixar um cargo bem remunerado como pároco ou vigário, com inúmeros benefícios. Eles merecem nossa admiração e apoio.

Mas nosso padre atingiu outro nível. Tendo perdido a decência do silêncio, ele agora uiva com os lobos. Na verdade, ele busca desacreditar o que, para ele, é uma reprovação. Sim, a Fraternidade é uma reprovação para os falsos conservadores que desesperadamente justificar seu liberalismo. Continuar lendo

TRADICIONALISTAS E CONSERVADORES

C. S. Lewis, Pentecostes e os dons do Espírito | Ultimatoonline | Editora Ultimato

Por Dardo J. Calderón

Fonte: Argentinidad – Tradução: Dominus Est

Do recente intercâmbio epistolar com D. Mário Caponnetto, surgiu a dúvida sobre o uso desses rótulos. Quem é tradicionalista e quem é conservador? A bronca que tomei me fez compreender que, bem ou mal, estou usando os termos em sentido denigrativo, já que em português claro, ser católico é ser tradicionalista, e ser conservador, no fundo, é não ser católico.

Aqueles que puramente nos acusam de “tradicionalistas” colocam-se no ponto que queremos. Declaram-se, com franqueza, que não são católicos, já que a tradição é a fonte essencial pela qual conhecemos a revelação, inclusive acima da Bíblia, que somente é interpretada pela tradição apostólica e pelo magistério tradicional da Igreja. Aqui não há rancor.

Publicamos, agora, um livro de Calderón Bouchet [1] que define, com bastante precisão, o que é o pensamento conservador e o aproxima com o pensamento cantante da Igreja Conciliar. Disso se segue que todos aqueles que querem salvar certa continuidade entre o pensamento do Concílio e a tradição caem, sem dúvidas, nos “pecados” do conservadorismo. Mas, em suma, o que é o conservadorismo? A chave do dilema está na frase do autor destacada pelo prólogo: “O conselho de Jesus: ‘Buscai o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo’, sofrerá nas mentes conservadoras uma transposição que invalida totalmente sua eficácia redentora. O conservador parece aconselhar que, para salvar os acréscimos, é conveniente buscar o Reino de Deus e sua justiça”. Continuar lendo

COM OU SEM MANDATO? SOBRE AS FUTURAS SAGRAÇÕES NA FSSPX

Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX

Fonte: Courrier de Rome n° 687 – Tradução: Dominus Est

Esse artigo é uma continuação do UMA LEITURA CUIDADOSA? SOBRE AS FUTURAS SAGRAÇÕES NA FSSPX

1 – Direito Divino e Direito Eclesiástico

1. Em todos os textos em que Pio XII fala da sagração episcopal realizada sem mandato apostólico,(1) é tratado da sagração conferida com jurisdição. Ora, a sagração conferida com jurisdição só constitui uma violação ao direito divino quando é conferida sem mandato apostólico e contra a vontade do Papa. A passagem da Encíclica Ad Apostolorum Principisem que Pio XII caracteriza essa violação do direito divino utiliza a expressão “contra jus fasque“, que designa tanto o direito humano (“jus”)quanto o divino (“fas”). Aqui, mais uma vez, é importante ter uma compreensão bastante clara do que esses conceitos implicam.

2. O direito divino é o objeto da lei divina, imediatamente promulgada por Deus. É costume distinguir entre direito divino natural e direito divino positivo. O direito divino natural equivale à lei natural, isto é, a expressão da ordem moral estabelecida por Deus, autor da ordem natural por meio de sua criação, expressão presente para todos os homens. O direito divino positivo é o objeto de uma lei da qual Deus é o autor e que Ele promulgou por meio de sua Revelação sobrenatural (em oposição à lei divina natural). O direito eclesiástico é o objeto da lei humana promulgada pela Igreja para o bem comum de toda a sociedade eclesiástica e que obriga todos os fiéis batizados a partir dos 7 anos de idade.

3. Pode-se dizer que um poder é de direito divino ou de direito eclesiástico em três sentidos diferentes. Continuar lendo

UM AMBIENTE FAMILIAR FELIZ

Usando Incenso Litúrgico no Lar Católico: Uma Prática de Devoção e  Santificação - Liturgicus Incensos

Irmãs da Fraternidade São Pio X

As flores, para desabrocharem, precisam dos raios quentes do sol. E no jardim das almas, é a alegria que proporciona a atmosfera necessária para os corações se expandirem.

Não deixemos as crianças se fecharem em si mesmas

Há temperamentos alegres, otimistas, que nunca se mostram apáticos ou abatidos; sabem ser gratos ao bom Deus, e isso é um dom precioso. 

Ao lidarmos com crianças mal-humoradas, emburradas, ranzinzas e tristes (e que acabam por se afastar de todos), precisamos ensiná-las a serem alegres. Que saibamos apontar o lado bom das coisas — porque sempre há um. O tempo está ruim? A chuva nutre a Terra e ajuda as plantações a crescer. Se um motivo de aborrecimento se apresenta, encaremo-lo como uma oportunidade de oferecer um sacrifício ao Bom Deus! Recebi um pedaço menor de bolo que o meu irmão? Fico feliz por ele!

Não deixemos que as crianças fiquem ensimesmadas em seu mal-humor. Tão logo isso se apresente, devemos aliviar as tensões com uma piada ou um gracejo como “Cuidado, seu beicinho está crescendo! Vamos, tire rápido um sorriso do bolso!”, ou algo do tipo. Crianças irritadiças, que nunca estão satisfeitas, devem ser interrompidas com comentários do tipo: “Pare de reclamar. Você reclama tanto do que não tem, que esquece de perceber o que tem!”. Continuar lendo

UMA LEITURA CUIDADOSA? SOBRE AS FUTURAS SAGRAÇÕES NA FSSPX

As sagrações episcopais de 1988 por Lefebvre não criaram um cisma?

Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX

Fonte: Courrier de Rome n° 687 – Tradução: Dominus Est

DA ENDOXA À CIÊNCIA.

1. A endoxa(1) equivale somente a uma probabilidade, que normalmente fornece a presunção necessária em favor da verdade declarada. O fato é que ela não passa, nem mais nem menos, de uma opinião seriamente fundamentada. Ela difere, como tal, da ciência, que sozinha pode fornecer uma verdadeira certeza. Essa certeza da ciência se baseia na evidência fornecida por argumentos verdadeiramente demonstrativos, que diferem, como tal, do simples sinal que advém da adesão quase unânime da grande maioria das pessoas à verdade em questão. Para ir além da endoxa, é necessário, portanto, recorrer a uma demonstração científica e, neste caso, em matéria teológica, esta nasce no argumento de autoridade que representa o ensinamento do Magistério.

2. A compreensão adequada disso requer certo domínio. E isso deve ser alcançado particularmente em uma matéria como a eclesiologia, cujos dados essenciais estão diretamente envolvidos na solução das graves dificuldades da atualidade. O autor do panfleto publicado na edição de 27 de março de 2025 do site da revista La Nef reconhece isso, afinal: “Alguns defensores da FSSPX sustentam que D. Lefebvre não cometeu um ato cismático, pois, de acordo com eles, a prerrogativa de escolher os bispos não seria uma prerrogativa que pertence ao Papa por direito divino, mas apenas por direito eclesiástico. No entanto, o direito eclesiástico pode reconhecer exceções em casos de estado de necessidade, o que permite a justificação das sagrações. O Pe. Gleize, teólogo oficial da FSSPX, resume bem essa posição em seus escritos. No entanto, ele reconhece que, se sagrar um bispo contra a vontade do Papa for proibido por direito divino, logo, as sagrações de 1988 seriam cismáticas. Portanto, essa é única premissa que deve ser examinada. E isso se dá por meio de uma leitura diligente do Magistério”. Continuar lendo

OPUS DEI: UM ESTRANHO FENÔMENO PASTORAL

Opus Dei – Wikipédia, a enciclopédia livre

Fonte: SSPX USA Tradução anônima

por Nicolas Dehan

LEIA TAMBÉM: A OPUS DEI, VISTA POR RUBÉN CALDERÓN BOUCHET

E ASSISTA: OPUS DEI: LIBERAL OU CONSERVADOR? CATECISMO DE ADULTOS

Em 17 de maio de 1992, uma cerimônia grandiosa na Praça de São Pedro, em Roma, revelou ao mundo o nome de um homem e de sua obra que até então eram praticamente desconhecidos do público em geral.

Diante de 46 cardeais, 300 bispos e 300.000 peregrinos, João Paulo II celebrou a missa de beatificação de Josemaria Escrivá de Balaguer, o fundador do Opus Dei.

Essa “obra de Deus” tem trabalhado discretamente por mais de sessenta anos, tão discretamente que alguns de seus oponentes a descreveram como maçonaria clerical.

Josemaria Escrivá, que morreu em 1975, subiu do altar com uma velocidade surpreendente: 17 anos. A mídia, é claro, aproveitou o sensacionalismo do evento, pois trata-se de algo raramente visto na história da Igreja, quando se considera o tempo que levou — 170 anos — para definir as virtudes heroicas de um apóstolo genuíno para as massas como Louis-Marie Grignion de Montfort.

A lógica nos leva a crer que uma necessidade justificou a introdução urgente da causa e a aceleração do processo de beatificação, que foi aberto em 1981, seis anos após sua morte. Continuar lendo

ESPECIAIS DO BLOG: A MISSA NOVA

La nouvelle messe • LPL

Em mais uma “Operação Memória” de nosso blog, colocamos abaixo alguns textos/vídeos/estudos que publicamos sobre a missa nova:

A MISSA NOVA DE PAULO VI É UM SACRIFÍCIO? PARTE 1

A MISSA NOVA DE PAULO VI É UM SACRIFÍCIO? PARTE 2

A NOVA DEFINIÇÃO DA MISSA SEGUNDO PAULO VI

O NOVO ORDO MISSÆ DE PAULO VI É MAU EM SI MESMO?

DOSSIÊ: A MISSA DE PAULO VI

CONFERÊNCIA: A MISSA NOVA E A TRÍPLICE RUPTURA: LITÚRGICA, TEOLÓGICA E MAGISTERIAL

MISSA NOVA: UM CASO DE CONSCIÊNCIA

A MISSA DE PAULO VI É LÍCITA?

A NOVA MISSA E A FÉ CATÓLICA, PELO CÔNEGO RENÉ MARIE BERTHOD

NA “MISSA NOVA”, O SANTO SACRIFÍCIO SE TORNOU A LITURGIA DOS SALVOS

CARTA DE MARCEL DE CORTE A JEAN MADIRAN “SOBRE A MISSA NOVA” – 1970 – “PAULO VI É UM HOMEM CHEIO DE CONTRADIÇÕES”

INDIFERENTES À MISSA NOVA?

A MISSA NOVA – PELO PE. BONIFACE, FSSPX

A PARTICIPAÇÃO NA MISSA, TRADICIONAL OU NOVA, INFLUENCIA A FÉ?

BREVE EXAME CRÍTICO DO NOVUS ORDO MISSAE

LIVRO – A MISSA NOVA DE PAULO VI, DE MICHAEL DAVIES

TESTEMUNHOS INSUSPEITOS DE PROTESTANTES SOBRE A MISSA NOVA

A ILEGITIMIDADE DA MISSA NOVA

UM NEFASTO ANIVERSÁRIO

O ESPÍRITO SANTO E A MISSA NOVA

PODEMOS CHAMAR A MISSA NOVA DE “RITO ROMANO ORDINÁRIO”?

MISSAS OU QUERMESSES?

VÍDEO: A MISSA NOVA DE PAULO VI – NOVA ETAPA NA CRISE

VÍDEO: CONFERÊNCIA PADRE HESSE 1: SOBRE A VALIDADE OU INVALIDADE DA NOVA MISSA E A ECCLESIA DEI

A MISSA NOVA EM QUESTÃO

62 RAZÕES PARA NÃO ASSISTIR A MISSA NOVA

A MISSA NOVA É PROTESTANTIZADA

OBEDIÊNCIA E FIDELIDADE

Pelo Padre Giuseppe Pace

Fonte: Salve Regina – Tradução: Gederson Falcometa

Este artigo foi escrito pelo já falecido Padre Giuseppe Pace em 1978, que depois foi publicado no volume Zibaldone (de Frei Galdino da Pescarenico, Editiones Sancti Michaelis, pg. 42-45).

Apesar de o artigo ressentir de elementos ligados ao tempo em que foi escrito, o tempo das reformas “ad experimentum”, por exemplo, esse mantém toda a sua atualidade em repetir o verdadeiro sentido da obediência intimamente ligada a fidelidade … a fidelidade a Deus mais que aos homens.

Os negritos são da Unavox

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Muitos ingleses obedeceram aos seus bispos, e tornaram-se Anglicanos, primeiro cismáticos e então, heréticos. Do mesmo modo no tempo de Ário, muitos fiéis, obedeceram aos seus bispos e se tornaram Arianos.

Eis porque não é possível meditar sobre a obediência sem ter também presente a fidelidade.

Os Apóstolos se recusaram obedecer ao Sinédrio, embora sendo o Sinédrio a suprema autoridade de todos os Judeus, e então também dos Apóstolos: ”É preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (Atos V, 29).

Quando São Paulo, não apenas não se conformou a conduta de São Pedro, apesar da mesma estar se tornando norma de conduta universal, acolhida por personagens de primaria importância como São Barnabé: mas precisamente porque estava para se tornar norma de conduta universal, com inelutáveis consequências doutrinais, São Paulo resistiu em face a São Pedro “In faciem ei restiti, quia reprehensibilis erat” (Gal. II, 12). Continuar lendo

BOLETIM DO PRIORADO PADRE ANCHIETA (SÃO PAULO/SP) E MENSAGEM DO PRIOR – AGOSTO/25

Imagens de Jesus sacred heart sem royalties | Depositphotos

Caros fiéis,

Segundo a expressão de Santo Agostinho, o mundo após o pecado original era “uma massa condenada” sob o domínio do demônio. Esse império das trevas recebeu o golpe fatal com o triunfo de Nosso Senhor na Cruz. No entanto, a guerra não havia terminado. O triunfo final da Igreja é certo, assim como a derrota de Satanás no fim do mundo. Enquanto isso, a batalha continua. O Batismo arranca almas do demônio, que tenta reconquistá-las. E, como soldados no campo de batalha, os padres que dão a absolvição recuperam para Deus o terreno das almas cedidas, por um tempo, ao demônio por nossa covardia. Consequentemente, o inimigo da humanidade dedica um ódio particular ao padre e ao sacramento da Confissão. Nos Estados Unidos, na Austrália, na França e em outros países, o sacramento da Penitência é atacado. Isso não deve nos surpreender. O ângulo de ataque é o segredo da Confissão. O argumento é simples: o segredo da confissão protege os criminosos.

Tudo isso não passa de um pretexto. Compreende-se bem que ninguém se confessaria, especialmente os criminosos, se o padre não fosse obrigado a guardar segredo. Muitas vezes, o confessionário é o único lugar onde podemos nos aliviar de segredos pesados e receber conselhos e encorajamentos adequados às situações pessoais. O culpado encontra a oportunidade de tomar consciência e corrigir-se. A vítima encontra apoio e força para falar . A salvação das almas continua a ser a prioridade da Igreja, que, logicamente, obriga o padre ao sigilo sob pena de excomunhão. Isso não agrada ao demônio, que gostaria de ver os pecadores afastados da absolvição. Santo Cura d’Ars foi o pesadelo do demônio. Deus lhe deu o dom de conduzir as almas; ele inspirava o gosto, quase a fome da confissão: lia nas consciências, dizendo a cada uma a verdade, e aconselhava com algumas palavras luminosas e sábias. Levantava-se à meia-noite e ia para a igreja uma hora depois; confessava aqueles que o esperavam; depois da missa, recomeçava até a hora do catecismo, que acontecia antes do meio-dia. Por volta da uma da tarde, ele estava novamente na igreja para confessar até a hora da oração da tarde. Passou de dezesseis a vinte horas por dia no confessionário durante mais de trinta anos. Este santo bem conhecido nos permite apresentar outro que foi canonizado no mesmo dia pelo Papa Pio XI, há um século, em 31 de maio de 1925. Continuar lendo

O “SUBSISTIT IN” E A NOVA CONCEPÇÃO DE IGREJA

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

“A questão da Igreja e de sua constituição, as novas abordagens e perspectivas que o Concílio Vaticano II traz sobre a Igreja estão no centro de um debate teológico que nos leva a questionar a ortodoxia de vários de seus textos. Não se pode deixar de estudá-los se se quer compreender as questões de um debate cinquentenário, que não deve se perder nas falsas pistas de uma correta ou má recepção dos textos, que, na verdade, estariam em conformidade com a doutrina da Igreja Católica, de uma correta ou má interpretação ou hermenêutica desses mesmos textos, moldadas conforme as intenções de ruptura, que iriam além daquelas do magistério conciliar. O pressuposto de que os textos são necessariamente isentos de erros esterilizaria qualquer exame teológico sério.”

Assim, a novidade que a expressão “subsistit in” – que associa a Igreja de Cristo subsistindo na Igreja Católica – constitui para todos pode ser qualificada como estratégica. Ela é estratégica do ponto de vista do novo ecumenismo implementado e propagado pelos Papas conciliares e pós-conciliares.

Recordemos que o ecumenismo moderno busca em todas as religiões cristãs o menor denominador comum, a fim de recuperar a unidade perdida. Isso sempre foi condenado, até 1949, por Pio XII [1]. O ecumenismo, no sentido católico, busca renegar as comunidades cristãs dissidentes para integrar a única Igreja de Cristo, que é a Igreja Católica, única arca e fonte de salvação. Quanto ao diálogo inter-religioso, nascido do movimento e extensão do ecumenismo moderno, busca, por meio do debate aberto entre representantes de religiões não cristãs, promover a paz e o intercâmbio sobre os valores éticos, excluindo qualquer proselitismo [2]. Continuar lendo

15 DE AGOSTO: RECORDAÇÃO DO MILAGRE DO PAPA PIO VII

É pouco conhecido mas, em 15 de agosto também se recorda o chamado “milagre do Papa Pio VII Chiaramonti”.

Fonte: Scuola Ecclesia Mater – Tradução: Dominus Est

Milagre de Pio VII, Museu Britânico, Londres

De fato, neste dia, em 1811, enquanto era celebrada a Santa Missa, o Papa, então prisioneiro de Napoleão, foi sequestrado em êxtase e começou a levitar, de uma forma não muito diferente do que aconteceu com São José de Copertino. Isso demonstrava o profundo espírito de oração e contemplação daquele santo pontífice, que se formou no mais genuíno espírito beneditino. Não por acaso ele tinha sido abade da Abadia romana de São Paulo Fora dos Muros: uma posição que, em um passado distante, havia sido ocupada por São Gregório VII.

Jacques-Louis David, Pio VII e o cardeal Giovanni Battista Caprara Montecuccoli. Estudo para a Coroação de Napoleão, 1811 – Pio VII defendeu os Estados Papais contra os ataques de Napoleão

O episódio da levitação do Papa Chiaramonti suscitou grande admiração e espanto mesmo entre os vários soldados franceses que o vigiavam e que se viram testemunhas involuntárias do acontecimento.

ESPECIAIS DO BLOG: ALGUMAS RESPOSTAS A ARGUMENTOS CONSERVADORES, PELO PE. JEAN-MICHEL GLEIZE, FSSPX

Obediência

Fonte: Courrier de Rome nº 679 – Tradução: Dominus Est

Nota do Blog: O Pe. Gleize, um dos principais teólogos da FSSPX, está há mais de um ano em franco debate na França com os Institutos Ecclesia Dei, e os textos desse debate têm sido publicados no jornal Courrier de Rome. Essa série de três textos que publicamos é uma (dentre várias) dessas intervenções. Embora praticamente inexista a Fraternidade São Pedro aqui no Brasil, os argumentos lá usados contra a FSSPX são bem parecidos com os que conservadores/continuístas usam por aqui, por isso reaproveitamo-nos:

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Um outro excelente texto sobre Tradicionalismo x Conservadorismo, escrito por Dado Juán Calderón, pode ser lido CLICANDO AQUI.

Um outro, do Pe. Etienne de Blois, FSSPX, com o título Conservador = Corruptor pode ser lido CLICANDO AQUI.

UMA TRIPLA E ESPANTOSA CONFUSÃO

Obediência

Fonte: Courrier de Rome nº 679 – Tradução: Dominus Est

Pelo Pe. Jean-Michel -Gleize, FSSPX

Esse texto é continuação do: A FRATERNIDADE SÃO PIO X: SOB ARTILHARIA DE SEIS OBJEÇÕES

1. Observemos também, como que para concluir, que a leitura que o Padre Vernier faz de nossa tese é surpreendente. Pois em pelo menos três pontos a avaliação que ele faz é, se não uma extrapolação, pelo menos um mal-entendido difícil de entender.

Negar a indefectibilidade da Igreja?

2. O mais importante e o mais grave desses mal-entendidos consiste em nos imputar a negação prática da indefectibilidade da Igreja. Ao descrever qual seria a posição da FSSPX como a apresentaríamos, o Padre Vernier escreve: “Se o dogma da indefectibilidade da Igreja e suas implicações necessárias permanecem sempre teoricamente válidos, mesmo em tempos de crise provocada pela hierarquia, algumas de suas implicações práticas podem deixar de ser aplicadas em virtude da prudência. De fato, para o nosso autor, como essas implicações não parecem absolutamente necessárias, ele admite que a posição da FSSPX difere apenas prudencialmente do alegado sedevacantismo oculto”.

3. No entanto, essa citação é dada na nota 5 de nosso artigo na edição de abril de 2024 do Courrier de Rome, onde escrevemos exatamente o seguinte: “O zelo do Padre Vernier, sem dúvida, tem algo de cavalheiresco, e o ardor com que ele se propõe a destruir qualquer coisa que possa parecer lançar dúvidas e pôr em perigo o dogma da indefectibilidade da Igreja, bem como sua visibilidade, teria, em outras circunstâncias, merecido aprovação irrestrita. Infelizmente, esse zelo e esse ardor são claramente desproporcionais às circunstâncias da crise que ainda assola, e se agrava cada vez mais, dentro da santa Igreja”. Continuar lendo

MUNDO, MUNDO…

Gustavo Corção – Conservador ardente | Pro Roma Mariana

Gustavo Corção

Entre os belos Cantos Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos.

Solum expertus potest scire

quid sit Jesum diligere

Traduzimos, sem sabermos traduzir o sabor original: “Somente aqueles que o experimentaram podem saber o que seja o amor de Jesus”. Ou, “somente os que por experiência sabem…”.

Todos os mestres místicos ensinaram que a contemplação infusa é uma “quase experiência de Deus”. Por que “quase”? Este termo parece restritivo, e portanto impróprio para definir a mais alta de todas as aventuras da alma humana, a subida do Carmelo ou do Calvário, nas pegadas de um Deus que por nós se deixou crucificar. É por isso mesmo, aliás, que nunca poderemos encontrar termos próprios para exprimir a sobrenatural aventura. A linguagem dos místicos é inevitavelmente hiperbólica, antitética e metafórica; e é aqui, mais do que na poesia, que se aplica o que disse Rimbaud: que tentava dizer o indizível.

No caso em questão, Santo Tomás ousa empregar o termo “experimentar” quando canta, mas seus discípulos, quando tentam explicar o canto de maior linguagem especulativa, recuam diante do termo que traz sobre si uma pesada carga de conotações empíricas e carnais. E até ensinam que na subida do Caminho da perfeição o desejo de experiências sensíveis, sejam elas embora feitas do mais piedoso afeto, constituem pedras de tropeço, e até às vezes atrasos e retrocessos, porque nelas a alma se demora e se compraz no sabor e nas consolações de tal afeto. Ora, não foi este o exemplo que Jesus nos deixou na subida do Calvário. A subida mística só se fará se deixarmos para trás o lastro de terra e de carne, e se, corajosamente, aceitarmos a purificação da noite dos sentidos. Daí se explica a reserva dos mestres quando falam mais na pauta especulativa do que naquela da “experiência” ou “superexperiência” vivida na união com Deus.

* * *

Mas agora, caído em mim de tais alturas que tanto desejara ter alcançado, e das quais só ouso falar com ciência de empréstimo e de desejo, imagino o leitor a interpelar-me: — A que vêm todas essas considerações em torno da experiência mística, e dos cantos eucarísticos de Santo Tomás, quando falávamos da agonia da Espanha, e esperávamos comentários das efervescências nacionais em torno da denúncia em boa hora levantada por Dom Sigaud sobre a infiltração comunista na CNBB? Continuar lendo

CARDEAL JOHN NEWMAN, DOUTOR DA IGREJA?

Fonte: La Porte Latine – Tradução : Dominus Est

Pelo Padre Jean-Michel Gleize, FSSPX

1. “É necessário guardar não somente o que nos foi transmitido nas Sagradas Escrituras, mas também as explicações dos santos doutores que as conservaram intactas para nós” Assim fala Santo Tomás de Aquino, ele mesmo qualificado, posteriormente, como “Doutor Comum da Igreja”[1]. Tal reflexão não é letra morta, se considerarmos que as obras do doutor angélico comportam cerca de 8000 citações dos “santos doutores”.

2. O termo “doutor” pode ser compreendido em sentido lato e impróprio, designando o teólogo tomado enquanto tal. O mesmo termo também pode ser entendido em sentido estrito e próprio e é um título dado “oficialmente pela hierarquia da Igreja[2] aos escritores eclesiásticos notáveis pela santidade de vida, pela pureza da ortodoxia e pela qualidade da ciência”[3]. Melchior Cano[4] mostra no que os doutores se distinguem dos Padres da Igreja, título este que é reservado a pessoas que viveram nos primeiros séculos[5]: os Padres dos primeiros séculos não são todos doutores, e nem os doutores são todos Padres do primeiro século. De fato, os doutores constituem, junto com os Padres, duas espécies diferentes de testemunho sobre os quais o Magistério da Igreja tem a possibilidade de se apoiar para indicar o sentido autêntico da doutrina divinamente relevada nas Escrituras. Tanto entre os Padres como entre os doutores (é o ponto comum que faz de ambos testemunhas autorizadas) é necessária a ortodoxia, ou seja, a conformidade perfeita de seus ensinamentos com o depósito revelado. A diferença é que nos Padres é necessária a antiguidade, enquanto nos doutores é necessária a erudição; ou seja, uma ciência eminente a qual pode ser apontada extensamente em razão da extensão de seus escritos, ou em razão da sua intensidade, ou em razão da profundidade de seu gênio. A auréola dos Doutores, diz Santo Tomás, é a recompensa de sua ciência, ou seja, o fruto da vitória que eles recebem ao expulsar o diabo das inteligências[6]. Outra diferença: o título de Doutor é objeto de uma atribuição oficial que se realiza por decreto solene do Soberano Pontífice e pelo preceito que lhe é dado de celebrar a missa e de recitar o ofício litúrgico correspondente; o título de Padre, ao contrário, é objeto de atribuição imemorial, baseado no costume. Continuar lendo

SOBRE A CANONIZAÇÃO DO CARDEAL JOHN HENRY NEWMAN

Cardeal John Henry Newman "une" católicos e anglicanos, afirma especialista

Fonte: Courrier de Rome nº 627 | Tradução: Dominus Est

Pelo Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX

* texto de 2019, na ocasião da canonização do Cardeal John Henry Newman pelo Papa Francisco

1. Beatificado por Bento XVI em 2010, o cardeal John Henry Newman (1801-1890) foi canonizado por Francisco em 13 de outubro de 2019. É claro que usamos aqui as palavras “beatificado” e “canonizado” com todas as restrições impostas pela situação atual, em que, desde o Concílio Vaticano II, as novas beatificações e canonizações realizadas pelos papas são claramente questionáveis[1]. A questão aqui colocada é precisamente saber o que pensar da última dessas supostas canonizações, aquela pela qual Francisco quis levar a termo o ato iniciado por seu predecessor, propondo a toda a Igreja John Henry Newman (1801-1890) como um modelo de virtudes heroicas. Para ser justo, convém salientar que a causa da sua beatificação foi introduzida em 17 de junho de 1958, sob o Papa Pio XII.

2. Recordemos brevemente – para delimitar melhor a nossa questão – que as novas canonizações são duvidosas por dois motivos bem diferentes. O primeiro motivo é comum a estas novas canonizações e torna-as, portanto, todas duvidosas: é a reforma do procedimento, que deve preceder o ato da canonização[2]. As novas normas, promulgadas por Paulo VI em 1967 e 1969, e depois por João Paulo II em 1983, semeiam dúvidas, na medida em que não oferecem mais as garantias exigidas pelos homens da Igreja para que a assistência divina assegure a infalibilidade da canonização e, a fortiori, a ausência de erro de fato na beatificação. O segundo motivo é próprio de algumas canonizações, como, por exemplo, as de João Paulo II ou Paulo VI. A canonização define-se, com efeito, como o ato pelo qual o Sumo Pontífice declara não só que o canonizado goza da glória do céu, mas também e sobretudo que mereceu essa glória ao exercer durante a sua vida as virtudes heroicas – o que equivale precisamente à santidade – e as dá como exemplo a toda a Igreja. De fato, desde o Concílio Vaticano II, os homens da Igreja não têm mais ideias claras sobre o que deve representar a santidade, e é por isso que puderam dar como exemplo fiéis falecidos cuja vida parece incompatível com uma verdadeira heroicidade das virtudes, especialmente no que diz respeito ao exercício das virtudes teologais. A canonização de Newman já é duvidosa, como todas as outras, devido ao novo procedimento. Gostaríamos aqui de verificar o que se passa, do ponto de vista do exemplo a dar a toda a Igreja, devido à virtude heroica. Continuar lendo

A “DUALIDADE” DE NEWMAN, OU OS COMEÇOS DO “REINO DIVIDIDO” – PARTE 2

Fé e razão: Cardeal Newman será proclamado Doutor da Igreja

por Dardo Juan Calderón

O argumento de justificação

Em Newman, a consciência não é como um triste contador de culpas. Ele a situa na criação: quando Deus se fez criador, colocou a Lei do seu Ser – que é Ele mesmo – em suas criaturas. A consciência nos apresenta a verdade e é liberadora, é a mensageira de Deus. “Os católicos não somos escravos, nem sequer do Papa”, afirma Newman. Mas para Newman, este caráter tão positivo não implica que devamos desprezar a voz do Papa, embora destaque “a obediência devida à voz divina que fala em nós” em primeiro lugar.

“Seria um traidor um católico inglês no caso do dilema entre seguir o Papa e a sua consciência?” pergunta equiparando consciência a país; e, se olhamos bem, essa equivalência é bem de gosto liberal e supõe um país que é uma somatória de consciências individuais. E toma como exemplo os deputados católicos ingleses que se conjuraram para não admitir um rei de dinastia católica de outro pais (aos quais o Papa Pio IX obrigou a romper o juramento).

Aquela grande confiança na bondade de Deus levou à surpreendente conclusão, que tanto chamou a atenção da opinião pública inglesa, de que o católico deve seguir a consciência antes do Papa, e com isso evitou a intenção maçom de apagá-los do mapa. Um herói em toda linha, um herói de uma guerra real com consequências concretas e valoráveis, um herói cuja arma tinha sido a literatura e ali poderia ter permanecido. Continuar lendo

A “DUALIDADE” DE NEWMAN, OU OS COMEÇOS DO “REINO DIVIDIDO” – PARTE 1

John Henry Newman – Wikipédia, a enciclopédia livre

por Dardo Juan Calderón

A anedota desencadeadora

A figura de Newman coloca um urgente enigma: quem foi ele? desde o ponto de vista doutrinal e mesmo do pessoal. Defendido e atacado à esquerda e à direita, desde o modernismo que o tem por Pai do Concílio Vaticano II, e desde o tradicionalismo que, mesmo sem chegar à devoção, em sua maioria o considera “um deles”. E até mesmo desde (e perdoem-me se são suscetíveis) as organizações homossexuais que o consideram o santo patrono do clericato homossexual.

Sua obra e personalidade foram fonte das mais variadas e contraditórias interpretações, e todos pedem sua bênção sem que existam vozes críticas. Tudo em um século feroz, de combates armados, de perseguições e de muito mais combates intelectuais, de contrastes enormes, no qual esse homem havia declarado sua motivação por um encontro do religioso com o moderno e sem negar o Syllabus. Por acaso o conseguiu? Terá dado ele a chave da síntese? Era essa chave a Pessoa e sua Consciência?

Uma primeira observação pode ser feita ao perguntarmos: por que todos o querem em seu bando? Por que é uma “figura”?; e uma segunda é se um desses bandos o falsifica para puxar a brasa para sua sardinha, para ter essa “figura” estelar e mundial em seu lado. Quem, afinal, não lhe foi fiel? Continuar lendo