JÁ TARDE DEMAIS? – PELO PE. JEAN-MICHEL GLEIZE, FSSPX

Colocando a obediência ao mesmo nível da fé, o cardeal Robert Sarah abstem-se de reconhecer a confusão inaudita que assola a Igreja, o que torna seu apelo à unidade pouco convincente.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

O discurso de um conservador

A declaração do cardeal Sarah publicada neste primeiro domingo da Quaresma, dia 22 de fevereiro, e divulgada por meios de comunicação, rapidamente suscitou uma resposta contundente por parte de John-Henry Westen, cofundador e editor-chefe do site americano LifeSiteNews. (Veja o vídeo incorporado em outro post, clicando aqui)

Até aqui, sua Eminência Robert Sarah gozava de certa simpatia por parte dos círculos conservadores da Igreja Católica. Seus posicionamentos em favor do celibato eclesiástico ou contra o “casamento para todos” chamaram a atenção dos católicos perplexos. Prefeito da Congregação para o Culto divino sob o Papa Francisco, não fez mistério de suas reticências em relação à orientação tomada pelo sucessor de Bento XVI. Recentemente, em 24 de maio de 2025, enviado pelo Papa Leão XIV para representá-lo durante as cerimônias pelo quarto centenário do aniversário das aparições a Santa Ana d’Auray, ainda fez declarações sobre o estado presente do mundo e da Igreja que impressionaram as almas.

Um discurso pouco convincente

Apesar de tudo, sua declaração de 22 de fevereiro passado, publicada no Journal du Dimanche sob o título sensacionalista “Antes que seja tarde demais” não conseguiu ofuscar as afirmações de D. Schneider. Continuar lendo →

BOLETIM DO PRIORADO PADRE ANCHIETA (SÃO PAULO/SP) E MENSAGEM DO PRIOR – MARÇO/26

Vídeo: as sagrações episcopais na FSSPX: nem cismáticos, nem excomungados |  Casa Autônoma do Brasil

Caros fiéis,

Na história da humanidade, muitas vezes a verdade incomoda. Um provérbio afegão resume bem esse fato: “Dê um cavalo àquele que diz a verdade, ele precisará dele para fugir”. Situação absurda, mas muito frequente: aquele que aponta o problema torna-se o problema. Esse fenômeno é perfeitamente ilustrado pela atualidade da Fraternidade São Pio X. No último dia 2 de fevereiro, por meio de seu superior, ela anunciou sua intenção de consagrar bispos em julho próximo, motivando sua decisão por um estado de necessidade devido à crise da Igreja. A Fraternidade obriga-nos, portanto, a considerar o elefante no meio da sala. Esta famosa crise da Igreja, que se verifica diariamente em todo o mundo (crise doutrinal, moral, pastoral, litúrgica e até econômica das dioceses), mas da qual não se deve falar. Alguns têm interesse em que essa crise perdure. Outros não têm coragem de enfrentá-la. Todos eles, portanto, concordam em condenar a Fraternidade para preservar seus projetos obscuros, sua covardia ou simplesmente seu conforto.

Mas já não estamos em 1988. Naquela época, a clarividência de Dom Lefebvre e Dom Castro Mayer permaneceu um fato notável, mas isolado. Os corajosos prelados tornaram-se párias. Antigos companheiros de luta, assustados ou cheios de ilusões, entraram numa espécie de reserva indígena constituída pelo motu proprio Ecclesia Dei. Estamos agora em 2026. Muita água correu sob as pontes. Os índios não foram poupados pela Igreja conciliar (expressão usada pela primeira vez por Dom Giovanni Benelli, substituto da Secretaria de Estado de Paulo VI, em junho de 1976). Além disso, essa Igreja conciliar inaugurou outro caminho, no qual todas as religiões conduzem à salvação; outra moral, na qual os pecadores, públicos ou não, podem comungar. Assim, as fontes da vida, que são os sacramentos, tornaram-se fontes de morte, pois “quem come e bebe o Corpo e o Sangue do Senhor indignamente come e bebe a sua própria condenação” (I Cor. 11). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. As palavras de Nosso Senhor ainda ressoam nas igrejas, mas não produzem mais frutos, pois foram esvaziadas de seu conteúdo. Um trabalho eficaz de destruição conduzido pelo modernismo (releia-se a encíclica Pascendi). Durante esse tempo, a Fraternidade desenvolveu, inegavelmente, um apostolado florescente, autenticamente católico. Continuar lendo →

A FARSA DOS MALVADOS “LEFEBVRISTAS” QUE REJEITAM A MÃO MISERICORDIOSA DO VATICANO: UM RESUMO DO QUE DIZEM OS DOCUMENTOS REVELADOS PELA FSSPX.

La bufala dei lefebvriani cattivi che respingono la mano misericordiosa vaticana: cosa dicono in breve i documenti rivelati dalla FSSPX

Fonte: Radio Spada – Tradução: Dominus Est

Enquanto a narrativa oficial da grande mídia (em parte “católica”) retrata um Vaticano misericordioso que tenta uma mediação final com os “rebeldes” de Ecône, os documentos publicados pela Fraternidade São Pio X (FSSPX) contam uma história diametralmente oposta. A recente declaração da Fraternidade, apoiada por uma cronologia documental, revela que o diálogo não está “apenas começando”, mas já foi amplamente experimentado e, na verdade, sabotado por reivindicações romanas teologicamente inaceitáveis. Tudo isso, obviamente, admitindo (e não concedendo) que o diálogo com quem nega os fundamentos da doutrina e da razão seja possível em si mesmo.

O fracasso do “diálogo”: mais do que um encerramento, um ultimato.

A narrativa de um “novo rumo” para o diálogo agora se revela uma operação exploratória. Os documentos revelam que as tentativas de reconciliação fracassaram não por obstinação “lefebvriana”, mas pela imposição de cláusulas que teriam obrigado a FSSPX a renegar os ensinamentos da Igreja e, portanto, sua própria razão de ser.

A carta do Cardeal Müller a D. Fellay (6 de junho de 2017) já havia preparado o terreno para o que se configurava como um verdadeiro ultimato. Nesse texto, o então Prefeito da Doutrina da Fé exigia a plena aceitação do Concílio Vaticano II e a legitimidade da Nova Missa, sem margem para qualquer discussão crítica. A resposta da FSSPX sempre foi clara: a Verdade não pode ser trocada por uma regularização canônica, o que configuraria uma “armadilha” doutrinal, que aliás já mostrou seus frutos desastrosos em outras realidades (ver, por exemplo, o caso de Campos). Continuar lendo →

O PODER SEM A VERDADE

Interior da Basílica de São Pedro no Vaticano Roma Itália ...

As contradições inerentes às ameaças de sanções dirigidas pelo Cardeal Fernández à FSSPX

Um excelente e essencial artigo do Aquila Blog aponta a grande ferida que a ameaça de excomunhão à Fraternidade São Pio X está revelando: enquanto as autoridades que atualmente dirigem a Igreja se abrem à comunidade LGBT, elogiam Lutero, declaram todas as religiões como caminhos de salvação desejados por Deus, enviam felicitações à comunidade islâmica pelo Ramadã e aceitam todo desvio doutrinal de bispos, padres e teólogos, parecem querer usar a máxima severidade apenas para sancionar aqueles que rejeitam o circo ecumênico-inter-religioso e se mostram zelosamente ligados ao que a Igreja sempre ensinou, à sua Tradição perene. Essa contradição, infelizmente, soa como uma condenação das autoridades que utilizam um conceito abstrato e puramente jurídico da unidade da Igreja, esquecendo-se de que o fundamento último e mais importante de sua unidade é a verdade. A lei suprema da Igreja é a salvação das almas.

Excomunhão sem condenação: a crise de sentido do catolicismo conciliar

Fonte: Vitis Vera – Tradução: Dominus Est

A questão das sagrações anunciadas pela FSSPX e a reação do Dicastério para a Doutrina da Fé revelam um curto-circuito interno que não pode mais ser ignorado: uma Igreja que empunha a arma suprema da disciplina canônica enquanto sistematicamente destrói os pressupostos teológicos que a tornam inteligível. Quando a verdade sobrenatural é substituída por um humanismo “inclusivo”, a excomunhão deixa de ser uma cura para a alma e passa a ser um vestígio de poder. E um poder nu, desprovido de sua finalidade, não gera obediência. Gera apenas ressentimento. Continuar lendo →

SIM: ALEA IACTA EST

A Santa Sé à Fraternidade São Pio X: Iniciemos um diálogo ...

Por Dardo Juán Calderón

Fonte: Adelante la Fe – Tradução: Dominus Est

Franca e cordial. Com essa frase as duas partes definem o momento que marca o final das considerações e a inviabilidade da argumentação, dando início aos “fatos”. A sorte está lançada.

Falar que foi franca e cordial não é, de modo algum, hipocrisia diplomática. De um lado e do outro as posições estão marcadas claramente; e sem as ambiguidades a que nos acostumamos até agora, “não pensamos discutir nem o concílio, nem a reforma litúrgica” diz um lado; e o outro “não pensamos aceitar nem o concílio, nem a reforma litúrgica” – mas além desses pontos que documentam e demarcam a liça, ambos sabem que há um abismo espiritual entre os dois, e por isso não cabe irritar-se com uma ninharia. Quiçá me digam que não há “cordialidade” uma vez que há ameaças, mas insisto que a declaração não é mendaz – quem declara sua posição abertamente, abre seu coração. Os anúncios de sanções expressas e definidas não excluem nem a franqueza, nem a cordialidade. Quando a arma não se oculta, todo homem viril agradece a possibilidade de uma boa luta cara a cara, e com coração aberto.

Progressismo e tradicionalismo colocaram as cartas na mesa – e toda a escória que criou o Conservadorismo, de boa ou má fé, para ganhar tempo na esperança de que a confusão permita certa subsistência de meias-verdades, murmuradas por bocas tapadas, em cargos vazios de função mas com algo de prestígio, aguardando que o tempo – um velho traidor – faça o trabalho de que suas vontades fogem. Continuar lendo →

O ERRO DO CARDEAL SARAH CONTRA A FRATERNIDADE SÃO PIO X – PELO PROF. MATTEO D’AMICO

Infelizmente, o cardeal caiu no “sirismo” (*), o erro do arcebispo de Gênova de uma obediência excessiva que impediu a maioria dos católicos de se opor à ocupação modernista da Igreja.

Assista a um vídeo com uma Carta Aberta de John-Henry Westen ao Cardeal Sarah no final desse texto.

Fonte: Vitis Vera – Tradução: Dominus Est

O jornal Il Foglio, notoriamente pró-Israel e pró-americano (para dizer o mínimo), publicou um texto do Cardeal Sarah no qual o cardeal lançava uma espécie de apelo à Fraternidade São Pio X para que renunciasse à sagração de novos bispos. É interessante que um jornal ultra-sionista se preocupe com uma questão eclesiológica complexa e se posicione contra a Fraternidade. Mas, além desse aspecto, que merece uma análise mais aprofundada, um ponto no raciocínio de Sarah é interessante: o cardeal se baseia no exemplo batido do Padre Pio que, injustamente suspeito e combatido (entre outros, pelo Pe. Agostino Gemelli), foi proibido de ouvir confissões de penitentes por 12 anos, ordem que respeitou fielmente. A Fraternidade hoje, segundo ele, deveria fazer o mesmo.

No entanto, Sarah desenvolve um raciocínio falho por quatro razões: Continuar lendo →

EXCLUSIVO: D. ATHANASIUS SCHNEIDER APELA AO PAPA LEÃO XIV PARA QUE CONSTRUA UMA PONTE ENTRE ROMA E A FSSPX.

“Seria uma tragédia se a FSSPX fosse completamente excluída, e a responsabilidade recairia principalmente sobre a Santa Sé.”

Fonte: Substack de Diane Montagna – Tradução: Dominus Est

ROMA, 24 de fevereiro de 2026 — D. Athanasius lançou hoje um apelo ao Papa Leão XIV, após o anúncio da Fraternidade São Pio X (FSSPX) de que prosseguirá com as sagrações episcopais, apesar das advertências do Vaticano de que tal ato “constituiria uma ruptura decisiva da comunhão eclesial (cisma)”.

Intitulado “Um apelo fraterno ao Papa Leão XIV para a construção de uma ponte com a FSSPX”, e publicado exclusivamente abaixo, o bispo auxiliar de Astana apela à generosidade pastoral e à unidade eclesial num momento que ele descreve como decisivo para o futuro da relação entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal tradicional.

D. Athanasius já atuou como visitador do Vaticano aos seminários da FSSPX, o que lhe proporcionou uma visão em primeira mão das estruturas, da liderança e dos fiéis da Fraternidade. Seu apelo surge em meio a um intenso debate no mundo católico, com reações que variam de uma esperança cautelosa de reconciliação a renovados apelos por medidas disciplinares.

D. Athanasius adverte o Papa Leão XIV para que não deixe passar este “momento verdadeiramente providencial” sem uma ação decisiva. Ele alerta que renunciar à oportunidade de conceder o mandato apostólico correria o risco de consolidar o que ele chama de uma divisão “verdadeiramente desnecessária e dolorosa” com a FSSPX — uma ruptura que a história não ignoraria facilmente. Continuar lendo →

ORDEM E JURISDIÇÃO: O VATICANO NA ENCRUZILHADA – PE. JEAN-MICHEL GLEIZE, FSSPX

Fonte: La Porte Latine – Tradução gentilmente cedida pelo nosso amigo André Abdelnor Sampaio

O cardeal Marc Ouellet, prefeito emérito do Dicastério para os Bispos, reflete sobre a nomeação de leigos para cargos de autoridade no seio da Cúria Romana, perguntando-se se se trata de uma concessão a ser revista ou de um avanço eclesiológico[1].

A reflexão impõe-se de fato, e deve ser espinhosa, no contexto criado pelo anúncio das consagrações episcopais previstas para o próximo 1º de julho, em Ecône. Qual é a dificuldade a resolver? Demos aqui a palavra ao cardeal Ouellet, a quem devemos reconhecer o grande mérito de uma inteira lucidez:

Entre as decisões audaciosas do Papa Francisco, deve-se contar a nomeação de leigos e de religiosas para cargos de autoridade habitualmente reservados a ministros ordenados, bispos ou cardeais, nos dicastérios da Cúria Romana. O Papa justificou essa inovação pelo princípio sinodal, que chama a uma participação acrescida dos fiéis na comunhão e na missão da Igreja. Essa iniciativa, contudo, choca-se com o costume ancestral de confiar as posições de autoridade a ministros ordenados. Continuar lendo →

PROFESSOR DA DIOCESE DE MAIORCA SOBRE O TEMA DAS SAGRAÇÕES: “NEM CISMA, NEM PECADO”

 

O professor Jaime Mercant Simó(*), sacerdote diocesano de Maiorca — doutor em filosofia e direito tomista, professor do Centro de Estudos Teológicos e diretor da biblioteca diocesana — não é membro da FSSPX. Embora não concordemos com todos os pontos de sua declaração divulgada em X, reproduzimo-la abaixo, pois ela demonstra que as futuras ordenações da FSSPX suscitam, além de suas fileiras, reflexões sérias e fundamentadas.

“…não contribuirei para a injusta e desproporcional “demonização” pública. [da FSSPX]”

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Vários dos meus leitores me questionaram sobre as próximas ordenações episcopais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Aqui está a minha posição, expressa de forma pedagógica na forma de perguntas e respostas:

Os “lefebvristas” cometerão um pecado mortal com essas sagrações episcopais?

— Não, absolutamente não.

Não seria um ato cismático?

— Não, formalmente não é.

Por que formalmente não é?

— Porque, para que ocorra um “cisma perfeito”, deve haver uma clara intenção de cometer um ato cismático e de constituir, com os novos bispos, uma jurisdição hierárquica paralela à existente na Igreja Católica Romana. Ora, neste caso, nenhuma dessas coisas ocorrerá. Continuar lendo →

BEM-AVENTURADOS OS MANSOS, NÃO OS FRACOS!

Jean-Baptiste de La Salle - Wikipedia

Podemos ver claramente que a gentileza não é inata. Ela é aprendida através de uma tríplice formação: formação do coração, formação da mente e formação do discernimento.

Fonte: Foyers ardents, nº 55  – Tradução: Dominus Est

Joãozinho, de três anos, está brincando com carrinhos na sala de estar de seu bisavô, fazendo barulhos tão altos e cansativos que o avô pede aos pais que o levem para brincar em outro lugar.

“Ah, não sei se o Joãozinho vai querer… Joãozinho, você poderia ir para o quarto?” Os barulhos continuam mais altos do que nunca.

“Ah, desculpe, ele não está me ouvindo, vai se irritar e gritar se eu insistir…” Isso continua até que um tio pega o Joãozinho pela mão, explica que a sala de estar não é uma sala de jogos, motiva-o e cria uma distração indo brincar com ele por alguns instantes no quarto. Quem exerceu a verdadeira virtude da mansidão?

Mansidão e firmeza

São João Batista de La Salle (1651–1719), um grande educador, atribui à mansidão o lugar mais elevado entre as 12 virtudes que exige de um bom professor (1). No entanto, a mansidão não é fraqueza nem tolerância. A mansidão deve ser firme, tendo em vista o bem que se busca alcançar: a prática das virtudes, a santificação, o bem particular de um indivíduo ou o bem comum. Na educação, deve ser combinada com a força para se opor à desordem, a coragem para estabelecer e manter regras de vida equilibradas e a perseverança diante dos obstáculos e fracassos. Continuar lendo →

CARTA RESPOSTA DO PADRE PAGLIARANI AO CARDEAL FERNÁNDEZ

ACESSE NOSSO “ESPECIAL DOS ESPECIAIS” SOBRE TEMAS COMO OBEDIÊNCIA, MISSA NOVA, CVII, ECUMENISMO, ESTADO DE NECESSIDADE, JURISDIÇÃO DE SUPLÊNCIA, CISMA ETC., CLICANDO AQUI 

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Resposta do Conselho Geral da Fraternidade São Pio X ao Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé.

Fonte: FSSPX

Menzingen, 18 de fevereiro de 2026
Quarta-feira de Cinzas

Eminência Reverendíssima,

Antes de tudo, agradeço-lhe por me ter recebido no último 12 de fevereiro, e também por ter tornado público o conteúdo de nosso encontro, o que contribui para uma perfeita transparência na comunicação.

Não posso deixar de acolher favoravelmente a abertura a uma discussão doutrinal, manifestada agora pela Santa Sé, pela simples razão de que fui eu mesmo quem a propôs há exatos sete anos, em carta datada de 17 de janeiro de 2019. Naquela altura, o Dicastério não expressou nenhum interesse real por esse tipo de discussão, com o motivo – exposto oralmente – de que um acordo doutrinal entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X era impossível.

De parte da Fraternidade, uma discussão doutrinal era – e ainda hoje o é – coisa desejável e útil. Com efeito, ainda quando não se chegue a um entendimento comum, intercâmbios fraternos permitem a ambas as partes conhecerem-se melhor mutuamente, aprimorarem e aprofundarem os próprios argumentos, aquilatarem melhor o espírito e as intenções que motivam as posições do interlocutor, e sobretudo o seu amor real pela Verdade, pelas almas e pela Igreja. Isto vale, em qualquer tempo, para ambas as partes. Continuar lendo →

ORDEM E JURISDIÇÃO: IMPROCEDÊNCIA DA ACUSAÇÃO DE CISMA

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Fonte: FSSPX

A Fraternidade defende-se de qualquer acusação de cisma e considera, apoiando-se em toda a teologia tradicional e no ensinamento constante da Igreja, que uma consagração episcopal não autorizada pela Santa Sé, quando não é acompanhada nem de uma intenção cismática, nem da colação da jurisdição, não constitui uma ruptura da comunhão da Igreja.

A constituição Lumen gentium sobre a Igreja enuncia no capítulo III, no n.º 21, que o poder de jurisdição é conferido pela consagração episcopal ao mesmo tempo que o poder de ordem. O decreto Christus Dominus, sobre a função pastoral dos bispos na Igreja, enuncia o mesmo, em seu Preâmbulo, no n.º 3. A mesma afirmação é retomada pelo Código de Direito Canônico de 1983, no cânon 375, § 2. Ora, na Igreja, a recepção do poder episcopal de jurisdição depende, de direito divino, da vontade do Papa, sendo que o cisma se define precisamente como o ato daquele que se arroga uma jurisdição de maneira autônoma e sem levar em conta a vontade do Papa. Daí que, segundo esses documentos, uma consagração episcopal realizada contra a vontade do Papa seria necessariamente um ato cismático.

Tal argumentação, que pretende se conclua serem cismáticas as consagrações episcopais a serem realizadas dentro da Fraternidade, repousa toda ela no postulado do Concílio Vaticano II, segundo o qual a consagração episcopal confere a um só tempo o poder de ordem e o de jurisdição. Continuar lendo →

SEM ILUSÕES E NEM DISPERSÕES: COMO VIVER NA PRESENÇA DE DEUS

Viver o momento presente é o que o Bom Deus pede aos seus filhos, porque é a forma privilegiada de comungar com a presença eterna d’Ele.

Fonte: Le Seignadou – Tradução: Dominus Est

Uma disposição fundamental: receber

O momento presente é um instante no tempo. Mas o tempo nos é dado, não de uma só vez, mas gota a gota, a cada instante. Como, então, podemos viver o momento presente enquanto pensamos em Deus?

Antes de tudo, recebendo-o como um dom de Deus. Devemos, portanto, acolhê-lo, recebê-lo como um dom e desejar serenamente a ação que lhe está associado, sem sermos passivos, sem sofrermos nossa vida. Nossa alma poderá então oferecer mais facilmente a Deus as ações que realizamos, por meio de um ato voluntário de caridade. Ela deve primeiro ser receptiva, antes de se lançar em múltiplas atividades. Se nossa mente está ocupada com muitas outras coisas — julgamentos, murmurações, modos de pensar mais ou menos deficientes, etc. — ela não pode estar na atitude de quem recebe, de quem acolhe. A constante fixação no passado, a recusa em desapegar-se de certas coisas, as intermináveis projeções para o futuro, o medo do que pode acontecer nele — tudo isso esgota a pessoa. O Bom Deus nos dá a vida no presente, não para nos esgotar. Devemos, portanto, saber acolher este momento presente com humildade e gratidão. Continuar lendo →

“…OS IDIOTAS AMANHECERAM NOVOS E CONFIANTES…”

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“…Meu amigo não me explicou se se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man – de Chesterton, ou do HOMO POSTCONCILIARIUS…”

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Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: “Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?“

Ia responder-lhe com ênfase: “Era!” Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: “Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. A burrice não é novidade, é antiqüíssima. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem mal feita a pintura.

— Mas, calavam-se, disse eu. 

E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera…

— Pois é! CALAAAVAM-SE!!!

Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu heróis dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu “explicador” de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor. Continuar lendo →

ENTREVISTA COM O SUPERIOR GERAL DA FSSPX – “SUPREMA LEX, SALUS ANIMARUM”

Fonte: FSSPX

Nota: Após o anúncio, em 2 de fevereiro, das futuras sagrações episcopais para a FSSPX, Sua Eminência o Cardeal Fernandez, escreveu ao Superior Geral para propor um encontro em Roma. o Superior Geral aceitou a proposta. A conversa terá lugar na quinta feira, 12 de fevereiro. Convidamos os membros e fiéis da Fraternidade a oferecerem suas orações pelo bom desenvolvimento deste encontro.

“‘A lei suprema é a salvação das almas.’ É deste princípio superior que depende, em última instância, toda a legitimidade do nosso apostolado.”

1. FSSPX.News: Senhor Superior-Geral, o senhor acaba de anunciar publicamente a sua intenção de realizar as sagrações episcopais para a Fraternidade São Pio X no próximo dia 1° de julho. Por que fazer esse anúncio hoje, 2 de fevereiro?

Padre Davi Pagliarani: A festa da Purificação da Santíssima Virgem é muito significativa dentro da Fraternidade. É o dia em que os candidatos ao sacerdócio vestem a batina. A Apresentação de Nosso Senhor no Templo, que hoje celebramos, lembra aos candidatos que a chave da sua formação e da sua preparação para as ordens está no dom de si mesmo, que passa pelas mãos de Maria. Trata-se de uma festa mariana de extrema importância, pois, ao anunciar uma espada de dor a Nossa Senhora, Simeão manifesta claramente o papel que ela tem de corredentora ao lado de seu divino Filho. Vemo-la associar-se a Nosso Senhor desde o início da sua vida terrena até a consumação do seu sacrifício no Calvário. Assim também, Nossa Senhora acompanha o futuro sacerdote durante a sua formação e ao longo de toda a vida: é ela quem continua a formar Nosso Senhor em sua alma.

2. Esse anúncio vinha sendo objeto de vários rumores nos últimos meses, especialmente desde o falecimento de Dom Tissier de Mallerais, em outubro de 2024. Por que o senhor esperou até agora? Continuar lendo →

CRETINOS OU CANALHAS?

Por que as cobras mostram a língua?

Acessem nosso “Especial dos Especiais” sobre obediência, missa nova, ecumenismo, sagrações, Vaticano II, conservadorismo, pós conciliarismo, etc. clicando aqui.

Texto escrito pelo nosso amigo Robson Carvalho

Confesso que ao intentar escrever estas linhas, não pude deixar de pensar em dois adjetivos que calham muito bem para a maioria das pessoas de nossos tempos. Não falo das pessoas honestas, que buscam a verdade e a prática das virtudes sem se esconder atrás de estereótipos ou se agarrar à ignorância ou maledicência dos doutos de internet. Falo justamente dos “doutores” de nossos tempos, destes que se arrogam um conhecimento que não possuem, ou que deturpam aquilo que aprenderam de correto a fim de garantir benefícios ou privilégios. Falo principalmente daqueles que fazem, cinicamente, aquilo que condenam, que negam a realidade, a situação objetiva de nossos dias, fingindo que estamos em um país das maravilhas, que a situação atual é corriqueira, comum, normal da história da Igreja.

Eles são um pouco como aqueles que, na política, dos mais variados espectros, com base em fantasmas, em ideologias utópicas, são intolerantes em nome da tolerância, que, em nome da paz e da emancipação dos dogmas, pregam o assassinato de todos aqueles que vão contra suas cartilhas dogmáticas, que, em suma, praticam o que andam chamando de “discriminação positiva”.

No fundo, é tudo hipocrisia. Usam termos e malabarismos intelectuais para justificar o injustificado, para esconder propósitos e intenções nada virtuosas. Mostram os dentes para aqueles que defendem o que sempre foi crido, enquanto abrem as portas e se sentam à mesa com os inimigos da fé, chamando-os de amigos ou dissimulando as verdades católicas para não incomodar os invasores.

É o paradoxo do modernismo – basta ler a Encíclica Pascendi para ver que a maioria dos católicos de hoje são modernistas, inclusive a maioria do clero. Continuar lendo →

PE. PAGLIARANI: SAGRAÇÕES, POR FIDELIDADE À IGREJA E ÀS ALMAS

Sermão de 2 de fevereiro de 2026 no Seminário de Saint-Curé-d’Ars. 

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Assista esse Sermão em português CLICANDO AQUI

Caríssimos confrades, caríssimos seminaristas, caríssimas irmãs, caríssimos fiéis,

Que alegria poder abençoar o hábito de vinte e dois novos seminaristas, neste dia no qual Nosso Senhor, pela primeira vez, vai ao Templo para apresentar-se a si mesmo diante de seu Pai, para manifestar exteriormente a oferta de si mesmo, de sua vida. “Eis-me aqui para fazer tua vontade”. “É a razão pela qual encarnei-me e, hoje, manifesto-a”. Tanto quanto possível, estas disposições perfeitas de Nosso Senhor devem ser as disposições de um rapaz que quer dar sua vida a Nosso Senhor para subir, um dia, ao altar. Que belo exemplo! É o modelo a ser seguido durante toda a nossa vida. E isto ocorre na humildade: a humildade de Nossa Senhora e a humildade de Nosso Senhor; Nossa Senhora, a Imaculada, a Virgem perpétua, aceita o rito da purificação conforme a lei de Moisés. Nunca nenhuma criatura foi ou será tão pura quanto a Virgem. Contudo, por humildade, ela aceita este ritual. E, por meio da oferta de duas rolinhas, uma em holocausto e uma pelos pecados, ela é purificada.

Era a oferta dos pobres. E Nosso Senhor, em si, é resgatado, pois, enquanto primogênito, ele pertence a Deus, e é resgatado ao pagar uma pequena soma de cinco siclos, cinco peças de moeda. Ele que era em si o Redentor, ele que era em si o preço de nosso resgate, aceita ser resgatado por algumas peças de moeda. Que humildade! Não estavam estritamente obrigados a ir a Jerusalém para esse ritual. Os judeus que habitavam muito longe podiam fazê-lo por procuração. Mas eles querem, a Santa Família quer cumprir a Lei por obediência. Continuar lendo →

BOLETIM DO PRIORADO PADRE ANCHIETA (SÃO PAULO/SP) E MENSAGEM DO PRIOR – FEVEREIRO/26

A apresentação do Senhor (Lc 2,21-40) - Locus Mariologicus

Caros fiéis,

No boletim anterior, adotando uma perspectiva materialista, fizemos uma pergunta provocativa: “Quem é mais inútil do que uma criança?” Da mesma perspectiva, poderíamos responder: “Um idoso”. De fato, uma criança tem todo o futuro pela frente. Ela é muitas coisas em potência. Ela personifica a esperança. O idoso não tem futuro. Ele consome, não contribui e nunca mais produzirá nada. Aos olhos do mundo, ele é um fardo a ser eliminado. Assim, surge a eutanásia. Eufemisticamente chamada de Assistência Médica para Morrer, ela é, na realidade, mais do que isso: causa a morte, contradizendo diretamente o Quinto Mandamento.

A justificativa para essa intervenção humana é sutil: a dignidade humana. É verdade que a velhice traz declínios que podem ser humilhantes: perda de memória, perda da razão, da mobilidade e da autonomia em geral. Essas provações são difíceis para o indivíduo e para aqueles que o cercam. Mas será que causam uma perda de dignidade? Continuar lendo →

SER “JULGADO”

Cabe a Deus julgar as intenções, pois só Ele conhece o coração dos homens.

Fonte: Apostol nº202 – Tradução: Dominus Est

“Tenho a impressão de estar sendo julgado”; essa pessoa “está sendo julgada”. Expressões negativas e duras que talvez possamos ouvir – ou usar – em relação a certas pessoas. A questão que queremos levantar aqui é a da avaliação justa que podemos fazer do próximo e o risco de desprezo – ou equívoco – em relação a ele devido a julgamentos pouco fundamentados ou precipitados.

Antes de discutirmos especificamente o julgamento precipitado – que é o assunto em questão – convém demonstrar que julgar é bom, já que é humano, e que é preciso saber usá-lo [o julgamento] bem, com sabedoria, para que seja razoável e virtuoso.

Do que estamos falando quando falamos de julgamento?

“Julgamento” vem do latim “judicium”, que por sua vez deriva de “jus dicere”: dizer o que é certo, o que é verdadeiro. A palavra “julgamento” pode ser entendida de três maneiras. Continuar lendo →

SABEDORIA DA IDADE E RESPEITO DA JUVENTUDE

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A reverência que devemos aos mais velhos mantém a memória de que precisamos para agir com prudência.

Fonte: Fideliter nº 265 – Tradução: Dominus Est

Tradidi quod et accepi, “Transmiti o que recebi”. Consideramos quase banal essa frase, pois convivemos com ela cotidiamente. Preparando-se para sua sucessão, D. Marcel Lefebvre repetiu-a muitas vezes e quis que fosse gravado em seu túmulo. Retomou estas palavras que São Paulo escreveu aos Coríntios: “Foi do Senhor que aprendi o que vos ensinei.” Não podemos deixar de dar graças por tal gesto de heróica prudência, em um momento em que a chamada Missa de São Pio V tendia a desaparecer. Sem a sabedoria prática deste Bispo, esta Missa simplesmente teria desaparecido. Com efeito, desde o Vaticano II, tem sido afirmado e constantemente repetido que a única liturgia conforme à doutrina deste Concílio é a chamada missa de Paulo VI. 

Assim, contra todas as probabilidades, mesmo romanas, D. Lefebvre forneceu aos católicos os meios para preservar, para manter e fortalecer sua fé, sem a qual é impossível agradar a Deus. As sagrações de 1988, essa “operação sobrevivência“, como ele a chamava, salvou a Tradição de seu desaparecimento, ou mais precisamente, mantiveram-na. Desta forma, outros Bispos poderiam assegurar futuras ordenações sacerdotais tradicionais para que outros sacerdotes continuassem a dispensar os sacramentos que são os meios ordinários de nossa Salvação. Continuar lendo →

O QUE É A CONSCIÊNCIA?

Caim e a desconstrução paródica da Bíblia: Redenção do homem e condenação  de Deus | Conciliação

A consciência é a manifestação da vontade de Deus que é transmitida aos homens pela voz da razão, pelos ditames do seu intelecto

Fonte: Bulletin Hostia ( SSPX Great Britain & Ireland) – Tradução: Dominus Est

1. A consciência é frequentemente chamada de “voz da razão” ou “voz de Deus“, porque nos exorta a fazer o bem e evitar o mal. Caim, que viveu muito antes de Moisés, sabia que havia cometido um mal ao matar Abel. Ainda hoje, em países pagãos que nunca ouviram falar dos mandamentos, os homens distinguem o bem do mal pela sua consciência. Por meio dela, conhecem a Deus; ela os exorta a obedecer.

Como disse São Paulo, falando dos gentios que não conheciam a lei judaica: “Com efeito quando os gentios, que não têm lei (escrita), fazem naturalmente as coisas que são da lei, esses, não tendo lei, a si mesmos servem de lei, e mostram que o que a lei ordena está escrito nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua própria consciência e os pensamentos de dentro que os acusam, se fizerem o mal, ou também os defendem, se fizerem o bem.” (Rom 2, 14-15).

2. Se sempre obedecermos aos ditames da nossa consciência, jamais ofenderemos a Deus. Ela é um guia que Ele espera que sigamos. Surge do conhecimento da lei, seja ela natural ou revelada. Antes de qualquer ação, a consciência se manifesta a favor ou contra. Após a ação, conforme a tenhamos seguido ou ignorado, a consciência nos enche de paz ou inquietação.

Se uma pessoa é tentada a roubar, parece ouvir uma voz interior dizendo: “Não roube. Você sabe que roubar é errado.” Essa voz interior é a consciência. A consciência nos diz que Deus é nosso Legislador, nosso Juiz, nosso Recompensador e nosso Vingador.

A IMORTALIDADE

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Gustavo Corção

A imortalidade de que se fala nas academias, ou nos comentários tecidos em torno de um grande morto, como acontece agora com Hemingway, é aquela que Augusto Comte chamava de imortalidade subjetiva, e que consiste na sobrevivência, não da pessoa, mas das obras e dos passos. Essa imortalidade comporta graus, conforme seja maior ou menor o rumor que o finado tenha feito em torno de si. Há nomes sonoros que ficam na lembrança dos povos por séculos e séculos, enquanto outras vidas mais leves, mais silenciosas e cinzentas logo se apagam, às vezes no próprio mundo familiar. Lembra-me aqui um amigo que morreu deixando um magro legado de ressonâncias. Tão obscuro, tão pouco conseqüente fora que até um dia aconteceu-me, encontrando a viúva, abrir a boca para perguntar notícias do Belmiro, já morto, mais morto do que um prego de caixão de defunto como dizia Dickens. Calei-me a tempo quando recapitulei rapidamente a história póstuma do amigo. Deixara filhos e viúva, mas por uma ironia da sorte a viúva recebeu uma herança, empregou-se num desses cargos em que se ganha muito e pouco se faz, como tantos há nesta República, e assim a família conheceu melhor padrão nos dias de luto. Um ano depois a viúva namorava um guapo peruano que acabou de apagar na memória de todos a lembrança fugaz do pobre Belmiro. Lembro-me de um pormenor curioso da história do apagamento do Belmiro: um dia, trazendo os filhos para o colégio, de automóvel, entrou de mau jeito, como aliás freqüentemente o fazia, e tirou um pedaço, um pequeno pedaço do pilar do portão. Ficou aquela marca discreta, de que, ao cabo de algum tempo, suponho, só eu conhecia a causa. E sempre que passava por ali, e que via o arranhão na alvenaria, evocava a figura de Belmiro. Um dia, veio um pedreiro, recompôs o pilar, e com essa pá de cal desapareceu o último vestígio interessante de uma vida vivida meio século.

Creio que a ninguém escapa o ridículo que sempre acompanha esta tal imortalidade subjetiva, mesmo quando a figura imortalizada é imponente e o traço deixado na casca do planeta é um pouco maior do que um risco na cal. Ainda outro dia estive a ruminar meditações deste tipo diante de uma estátua que o escultor concebera e realizara em atitude oratória e que, exposta ao aguaceiro, tinha um aspecto lamentável.

Entretanto, apesar dessa carga de ridículo, a humanidade se obstina em guardar as lembranças dos mortos, e nós mesmos, se nos sondarmos com lealdade, descobriremos um esquisito desejo de sobrevivência na memória dos outros. De que nos vale isto? De que me vale meu nome pronunciado aqui ou acolá, com tais ou quais atributos, se eu não estou aqui ou acolá, pessoalmente, sobrevivente? Continuar lendo →

SEJAMOS SEMPRE ALEGRES!

Se nossa alma se sente pesada e melancólica, repitamos a ela as palavras do salmista: “Por que estás triste, ó minha alma? Espera em Deus…”

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Para começar, permitam-me narrar um pequeno fato ocorrido em uma de nossas escolas primárias. Certo dia, fui informada de que um policial me procurava na sala de visitas.

Apreensiva, dirigi-me à sala indicada e logo me deparei com um jovem que me cumprimentou gentilmente e simplesmente expressou seu desejo de matricular seu filho em nossa escola. Respirei aliviada quando ele explicou os motivos que o levaram a essa decisão. Então, de repente, ele me disse: “Irmã, faço parte da J.U.D.B.”

Sem entender, me perguntei se não seria uma abreviação de alguma força policial secreta…Mas o rosto sorridente do policial contrastava com meus pensamentos íntimos. “Hum… O que significa J.U.D.B.?”, perguntei, vagamente preocupada. E o homem me respondeu com um grande sorriso, um pouco surpreso com minha ignorância: “Ora, é a Jubilosa União de Dom Bosco!” Continuar lendo →

SEDE POIS PERFEITOS, COMO TAMBÉM VOSSO PAI CELESTIAL É PERFEITO

Aproveitemos, portanto, este início de ano para tomar resoluções com determinação.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Deus é imutável. “Em Deus, não há vicissitudes, nem sombra de mudança”(1). Deus não muda, não progride, não evolui, porque é perfeito. Ele “É aquele que é”. Ele tem a Si mesmo perfeitamente; Ele é ato puro; Ele é infinito em Suas perfeições. Ele não tem nada a adquirir; Ele não pode perder nada. Deus é, portanto, estável, e contemplaremos essa imobilidade no Céu com admiração.

Para alcançar essa visão beatífica do Céu, Nosso Senhor é muito claro: “Sede pois perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito”(2).  Em outras palavras, para sermos salvos, devemos nos assemelhar a Deus em suas perfeições. Se Deus é inabalável, então devemos nos esforçar para alcançar essa estabilidade em nossa vida espiritual e temporal.

Primeiro, porque é o fundamento de toda virtude. De fato, a virtude é o hábito de fazer o bem. Ora, não pode haver hábito sem estabilidade, sem regularidade, pois isso consiste precisamente em realizar as mesmas ações, as mesmas boas obras, regularmente e com perseverança. Assim como um edifício será tanto mais sólido quanto mais profundas forem seus alicerces e mais regular seu projeto, da mesma forma a repetição de nossas boas ações moldará a beleza de nossa alma. Continuar lendo →

ENSINAR-LHES SOBRE OS HERÓIS, OS PENSADORES E OS SANTOS!

Ainda existem heróis capazes de cativar e nutrir nossos filhos? Sim, e cabe a nós torná-los conhecidos e amados.

Fonte: Le Chardonne t n° 350 – Tradução: Dominus Est

Sempre que as férias se aproximam, os pais ou avós dão provas de imaginação: como ocupar todos estes jovens, durante tanto tempo sobretudo quando crescem: acampamentos, estadia com os avós, descanso ou turismo familiar, por vezes até um curso utilitário…

Mas à medida que os dias passam, quantos pais se afligem ao ver seus filhos adolescentes ociosos, ou viciados em filmes, em jogos medíocres nas telas, em histórias em quadrinhos realmente feias e sem nenhuma riqueza… Mais afortunados são aqueles cujos filhos pedem livros para ler!

Poderá este tempo livre trazer algum enriquecimento para suas almas? Existem ainda exemplos capazes de cativá-los, de elevá-los?

Sim, esses heróis, portadores de ideais, estão à nossa porta. Cabe a nós torná-los amados e, portanto, torná-los conhecidos. Não sejamos limitados em nossa ambição: muitos heróis imaginários de aventuras sobre fundos históricos despertam o senso de virtudes que admiramos pouco a pouco antes de imitá-los.

Objetivamente falando, dificilmente veremos nossos jovens entusiasmarem-se com obras eruditas de reflexão filosófica, histórica ou contra-revolucionária, sobretudo durante o período de férias! Continuar lendo →

FRUTOS SEM A ÁRVORE?

Nesse inicio de 2026, enquanto as sociedades ocidentais buscam orientação para enfrentar o futuro, tornou-se comum ouvir elogios aos frutos históricos do cristianismo.

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Celebra-se com entusiasmo o que o catolicismo produziu: civilização, ordem social, patrimônio artístico, coesão dos povos, senso de beleza e justiça. Muitos líderes políticos e intelectuais reconhecem hoje que o catolicismo moldou a Europa e permanece um alicerce cultural precioso.

Esse reconhecimento, por si só, merece ser ouvido. Mas torna-se insuficiente — e até perigoso — quando pretende preservar os frutos rejeitando a árvore da qual eles provêm.

Uma ideia amplamente difundida hoje defende uma forma de laicismo “benevolente” ou “positivo”. Segundo essa concepção, o Estado não é hostil ao cristianismo: ele o aceita, às vezes até o incentiva, desde que se limite a uma função cultural, patrimonial ou identitária. O catolicismo é então tolerado não por sua verdade, mas por sua utilidade social. Torna-se uma herança, um marco civilizacional, um baluarte simbólico contra o vazio espiritual ou a desordem moral. Continuar lendo →

UMA VIDA EQUILIBRADA

Para uma vida espiritual fervorosa, é necessário garantir que nossa vida natural seja equilibrada. Aqui estão algumas reflexões apresentadas pelo diretor de uma instituição educacional.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus est

Vivemos num mundo cada vez mais desordenado. E todos percebem, ainda que vagamente, que é necessário recuperar uma vida equilibrada se quisermos progredir na vida cristã, ou mesmo simplesmente levar uma boa vida cristã. Temos diante de nossos olhos as consequências desastrosas do modo de vida atual: depressões, separações ou divórcios, ansiedade crescente, desordens familiares, instabilidade e fraqueza de caráter, tibieza espiritual, vulnerabilidade de espírito…

Todos queremos evitar isso, para nós e para nossos filhos. É por isso que é necessário “começar pelo começo”, ou seja, impor a nós mesmos condições de vida saudáveis e equilibradas. Continuar lendo →

SACERDOTES QUE CONDUZEM À VITÓRIA

“Sede fiel até a morte, e te darei a coroa de vida” (Apoc. 2, 10)

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

É necessário participar do combate de Cristo para compartilhar sua vitória. Para isso, os cristãos precisam de sacerdotes que os guiem com segurança nestes tempos confusos, e, com coragem e realismo, tomem as decisões salutares, sem se esconder no silêncio.

Espera-se dos líderes da Igreja um ensino claro e sólido

Em um contexto de perda total de referências e da civilização cristã, os homens precisam, antes de qualquer coisa, possuir, de modo firme, as bases da fé católica. Esse será o ponto de partida da renovação. Logo, é preciso ensinar o catecismo, de um modo evangélico, claro e preciso. Contudo, para isso, os próprios sacerdotes devem possuir o tesouro da Tradição multissecular.

Nos seminários, a insistência sobre o rigor doutrinal e a espiritualidade sacerdotal autêntica visa nos tornar, humildemente, porém firmemente, soldados da fé, capazes de assegurar a transmissão da fé católica em toda sua pureza, de resistir aos desvios modernos e ao relativismo moral sob o pretexto de compaixão. Continuar lendo →