EXPECTAÇÃO DO PARTO DA VIRGEM MARIA

visitacaoExspectabimus eum et salvabit nos — “Esperaremos por Ele, e Ele nos salvará” (Is. 25, 9).

Sumário. Foi tão grande o desejo de Maria de ver em breve nascido seu divino Filho, que em comparação com ele os suspiros mais ardentes dos Patriarcas e dos Profetas pareciam frios. Todavia Jesus não quis antecipar o seu nascimento; quis ser semelhante aos outros e ficar oculto no seio materno em recolhimento e em preparação de sua entrada no mundo. Oh! que bela lição para nós, se a soubermos aproveitar.

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I. Muito embora a divina Mãe reconhecesse perfeitamente a grande honra que lhe advinha por trazer um Deus no seu seio, e os grandes tesouros de graças que ia merecendo, dando abrigo a seu Senhor, todavia foram tão grandes e tão veementes os seus desejos de ver o Salvador nascido, que em comparação deles pareciam frios os ardentes desejos dos Patriarcas e dos Profetas, que durante quatro mil anos fizeram violência ao céu dizendo: Mitte quem missurus es (1) — “Envia aquele que deves enviar.” Esses desejos nasciam na Santíssima Virgem de um amor duplo. Em primeiro lugar amava com terníssimo afeto o seu divino Filho, e por isso desejava dar à luz para vê-Lo, abraçá-Lo e provar-Lhe seu amor prestando-Lhe toda sorte de serviços. Demais, o coração da Virgem estava possuído de amor ardente para com o próximo. Por esta razão, apesar de prever o modo inumano de que os homens haviam de acolher e de tratar Jesus Cristo, anelava pelo momento de manifestar ao mundo o seu Salvador, e de enriquecer o universo com aquele Bem supremo e com as graças infinitas que Ele queria comunicar a nossas almas.

Ó divina Mãe, graças vos sejam dadas por terdes desejado tanto dar-nos o vosso Jesus! Por piedade dai-m’O também a mim; fazei que, assim como nasceu corporalmente de vossas puríssimas entranhas, assim renasça espiritualmente pela graça em meu coração. Fazei que a minha alma abrasada no amor divino, procure comunicá-Lo também ao próximo. Continuar lendo

NOVENA DE NATAL – TERCEIRO DIA

Axónios Gastos: Feliz e Santo Natal

Cântico: Puer Natus

JESUS FAZ-SE MENINO PARA CONQUISTAR NOSSA CONFIANÇA E NOSSO AMOR

Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado. (Is. 9,6)

Consideremos como depois de tantos séculos, depois de tantas orações e pedidos, veio, nasceu e se deu todo a nós o Messias, que não foram dignos de ver os santos patriarcas e profetas; o desejado pelos gentios, o desejado pelas colinas eternas, nosso Salvador: “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado“. O Filho de Deus se fez pequeno para fazer-nos grandes: deu-se a nós para que nos déssemos a Ele; veio mostrar-nos seu amor, para que lhe déssemos o nosso. Recebamo-lo, pois com afeto, amemo-lo e recorramos a Ele em todas as nossas necessidade. As crianças, diz São Bernardo, facilmente concedem o que se lhes pede. Jesus veio como criança, para mostrar-nos que está disposto a dar-nos todos os seus bens. “No qual se acham todos os tesouros” (Col. 2,3). “O Pai…entregou tudo em suas mãos” (Jo. 3,35). Se queremos luz, Ele veio para nos iluminar; se queremos força para resistir aos inimigos, Ele veio para nos fortalecer; se queremos o perdão e a salvação, Ele veio precisamente para nos perdoar e nos salvar; se queremos, em uma palavra, o supremo dom do amor divino, Ele veio para nos abrasar; e, para isto, sobretudo, se fez menino e quis apresentar-se a nós pobre e humilde, para parecer mais amável, para tirar-nos todo o temor e conquistar nosso afeto: “Assim devia vir quem quis desterrar o temor e buscar a caridade“, diz São Pedro Crisólogo.

Além disso, Jesus Cristo quis vir criança, para que o amássemos não só com amor apreciativo, mas com amor terno. Todas as crianças sabem conquistar para si afetuoso carinho daqueles que a rodeiam e, quem não amará com ternura seu Deus, vendo-o criancinha, com frio, pobre, humilhado e abandonado, que chora sobre as palhas de um presépio? Continuar lendo

TRISTEZA DO CORAÇÃO DE JESUS NO SEIO DA VIRGEM MARIA

Hostiam et oblationem noluisti, corpus autem aptasti mihi — “Não quiseste hóstia nem oblação, porém me formaste um corpo” (Hebr, 10, 5).

Sumário. Tudo quanto Jesus Cristo padeceu no correr da sua vida, foi-Lhe posto diante dos olhos quando ainda se achava no seio de sua Mãe; e Jesus aceitou tudo por nosso amor. Porém, naquela aceitação e na repressão da repugnância natural, ó Deus, que aflição devia experimentar o seu Coração! Se Jesus, embora inocente, desde o principio da vida começou a sofrer por nós, não é justo que nós, que somos pecadores, padeçamos alguma coisa por seu amor e em desconto dos nossos pecados?

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Considera a grande amargura de que o coração de Jesus Menino devia sentir-se atormentado e oprimido no seio de Maria, quando no primeiro instante da encarnação o Pai Eterno lhe mostrou toda a série de desprezos, de dores e de angústias que no correr da sua vida deveria sofrer, a fim de livrar os homens do seu estado de miséria. Eis o que Ele falou pela boca do profeta Isaias: Mane erigit mihi aurem — “Pela manhã (o Senhor) levanta-me o ouvido”. Isso é: No primeiro instante da minha encarnação, meu Pai me fez conhecer a sua vontade, que eu levasse uma vida de sofrimentos para ser finalmente sacrificado na cruz, Ego autem non contradico; corpus meum dedi percutientibus (1) —“Eu não contradigo; entreguei o meu corpo aos que me feriam. Ó almas, aceitei tudo pela vossa salvação e desde então entreguei o meu corpo para receber os açoites, os pregos e a morte”.

Pondera que tudo o que Jesus Cristo sofreu no correr da sua vida e em sua Paixão, foi-Lhe posto diante dos olhos quando ainda se achava no seio de sua Mãe. Jesus aceitou tudo com amor. Mas naquela aceitação e na repressão de sua repugnância natural, ó Deus, que angústias e que aflição não devia experimentar o Coração inocente de Jesus! Desde então compreendia bem quanto teria de sofrer, primeiro nascendo numa gruta fria, pousada de animais; em seguida, tendo de morar trinta anos desconhecido na loja de um simples oficial. Já então viu que os homens haviam de tratá-Lo de ignorante, de escravo, de sedutor, de réu de morte, digno da mais infamante e dolorosa morte destinada aos celerados. Tudo isso o nosso amante Redentor aceitou a cada instante, mas cada vez que renovava a aceitação, tornava a sofrer juntas todas as penas e todas as humilhações que depois deveria sofrer até à morte. E para que? Para salvar-nos da morte eterna, a nós, miseráveis pecadores. Continuar lendo

NOVENA DE NATAL – SEGUNDO DIA

Novena do Menino Jesus (Novena de Natal) | Mulher Católica ♡Cântico: Puer Natus

AFLIÇÃO DO CORAÇÃO DE JESUS NO SEIO DE MARIA

Hóstias e oblações não quisestes, mas formastes-me um corpo. (Hebr. 10,5)

Considera a grande amargura com que devia sentir-se afligido e oprimido o coração do Menino Jesus no seio de Maria, naquele primeiro instante em que o Pai lhe propôs a série de desprezos, trabalhos e agonias que havia de sofrer em sua vida para libertar os homens de suas misérias: “Pela manhã chama a meus ouvidos…, não retrocedi…, entreguei meu corpo aos que me feriam” (Is. 50, 4-6). Assim falou Jesus pela boca do Profeta: “Pela manhã…“, quer dizer, desde o primeiro instante de minha concepção, meu Pai me fez compreender sua vontade: que eu tivesse uma vida de sofrimento e fosse, finalmente, sacrificado na cruz; “não retrocedi; entreguei meu corpo aos que me feriam“. E tudo aceitei pela salvação das almas e, desde então, entreguei meu corpo aos açoites, aos cravos, e à morte.

Pondera então quanto padeceu Jesus Cristo em sua vida e em sua paixão; tudo lhe foi posto ante os olhos desde o seio de sua Mãe e tudo Ele abraçou com amor; mas, ao consentir nessa aceitação e vencer a natural repugnância dos sentidos, quanta angústia e opressão não teve que sofrer o inocente Coração de Jesus! Conhecia bem o que primeiramente tinha que padecer; os sofrimentos e opróbrios do nascimento numa fria gruta, estábulo de animais; os trinta anos de trabalho como artesão; o considerar que seria tratado pelos homens como ignorante, escravo, sedutor e réu da morte mais infame e dolorosa que se reservava aos criminosos. Continuar lendo

JESUS MENINO CONSENTE EM SER NOSSO REDENTOR

menino-jesus-de-pragaDedi te in lucem gentium, ut sis salus mea usque ad extremum terrae — “Eu te estabeleci para luz das gentes, a fim de levares a minha salvação até à ultima extremidade da terra” (Is. 49, 6).

Sumário. Muitos cristãos costumam neste tempo armar um presépio como representação do Nascimento de Jesus Cristo; mas bem poucos se lembram de preparar, com atos de amor, o seu coração a fim de que o divino Menino nele possa repousar. Do número destes também nós queremos ser. Por isso, a fim de excitar-nos, desde o primeiro dia da Novena, a pagar com nosso amor o amor de Jesus Cristo, consideremos o amor que nos mostrou, incumbindo-se, desde o primeiro instante da sua conceição, de satisfazer por nós à divina justiça.

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I. Considera como o Pai Eterno disse a Jesus Menino, no instante da sua Encarnação, estas palavras: Dedi te in lucem gentium, ut sis salus mea (2) — “Eu te estabeleci para luz das gentes, a fim de salvá-las”. Meu Filho, eu te dei ao mundo para luz e vida das nações, a fim de que lhes alcances a salvação, que eu estimo tanto como se fosse a minha própria. Mister é, pois, que te consumas todo inteiro, para o bem dos homens — Totus illi datus, totus in suos usus impenderis (3) . Mister é que desde o nascer sofras extrema pobreza, a fim de que o homem se faça rico. Mister é que sejas vendido como um escravo, para impetrares ao homem a sua liberdade; que, como um escravo, sejas açoitado e crucificado, a fim de pagares à minha justiça o que o homem lhe deve; mister é que dês o teu sangue e a tua vida, a fim de livrares o homem da morte eterna. Em uma palavra, sabe que não te pertences mais a ti mesmo, senão aos homens. Assim, meu dileto Filho, o homem render-se-á ao meu amor; será todo meu, vendo que eu lhe dei o meu Unigênito, sem reserva alguma, e que nada mais me resta para lhe dar”. Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret (4) — “Tanto amou Deus o mundo, que lhe deu seu Unigênito”. Ó amor infinito, digno unicamente de um Deus infinito!

À semelhante proposta Jesus Menino não se entristece; antes, nela se compraz, aceita-a com amor e exulta: Exultavit ut gigas ad currendam viam (5) — “Deu passos como gigante para correr o caminho”. Desde o primeiro instante da sua Encarnação Jesus se dá todo ao homem e abraça com alegria todas as dores e ignomínias que na terra teria de sofrer por amor dos homens. Continuar lendo

NOVENA DE NATAL – PRIMEIRO DIA

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Cântico: Puer Natus

DEUS NOS DEU SEU FILHO UNIGÊNITO POR SALVADOR

Eu te constitui em luz para os gentios, para que minha salvação chegue até os confins da terra. (Is. 49, 6)

Consideremos como o Pai eterno disse ao Menino Jesus no instante de sua concepção estas palavras: Filho, eu te dei ao mundo como luz e vida das gentes, para que busques sua salvação, que estimo tanto como se fosse a minha. É necessário, pois, que te empenhes completamente em benefício dos homens. “Dado completamente aos homens, e inteiramente entregue a suas necessidades“. É necessário que ao nascer padeças extrema pobreza, para que o homem se enriqueça; é necessário que sejas vendido como escravo, para que o homem seja livre; é necessário que, como escravo, sejas açoitado e crucificado, para pagar à minha justiça a pena devida pelos homens; é necessário que sacrifiques sangue e vida, para livrar o homem da morte eterna. Fica sabendo, enfim, que já não és teu, mas do homem. Pois um filho lhes nasceu, e um menino lhes foi dado. Assim amado Filho meu, o homem voltará a amar-me a ser meu, vendo que te dou inteiramente a ele, meu Filho Unigênito, e que já não me resta mais o que lhe possa dar.

Assim amou Deus – oh, amor infinito, digno somente de um Deus infinito – assim amou Deus o mundo de tal forma, que lhe entregou seu Filho Unigênito. O Menino Jesus não se entristeceu com esta proposta, mas, ao contrário, comprazeu-se nela e a aceitou com amor e alegria: “como um esposo procedente de seu tálamo, exultou como gigante a percorrer seu caminho” (Ps. 18,6). E desde o primeiro momento de sua encarnação se entregou por completo ao homem e abraçou com gosto todas as dores e ignomínias que havia de sofrer na terra por amor dos homens. Esses foram, segundo São Bernardo, as colinas e vales que com tanta pressa devia atravessar Jesus Cristo, segundo o Cântico dos Cânticos, para salvar os homens. Ei-lo que vem saltando pelas montanhas, brincando pelas colinas. Continuar lendo

TAMBÉM NOS DEVEMOS RESIGNAR NA DESOLAÇÃO DO ESPÍRITO

Resultado de imagem para ajoelhadoNosso Senhor, quando uma alma se entrega à vida espiritual cos­tuma socorrê-la com abundantes consola­ções místicas, em ordem a subtraí-la aos mundanos deleites; porém, vendo-a estabe­lecida em espírito, retira Sua onipotente mão para obter uma prova do amor, que esta alma Lhe dedica, e ver, se ela O servirá sem a recompensa neste mundo de delícias sensíveis. «Em quanto vivermos no mundo, diz Santa Tereza, a nossa van­tagem não é tanto em gozar de Deus em si mesmo, como em fazer à Sua divina von­tade.» E em outra parte, diz: «O amor de Deus não consiste tanto em ternuras espirituais, como em servi-lO com fortaleza e humildade.» E continua: «Deus experi­menta aqueles que ama, com securas es­pirituais e tentações.»

Deve pois a alma agradecer ao Senhor, quando Lhe apraz favorecê-lA com doçuras espirituais; mas não afligir-se, nem impacientar-se, quando a entrega a desolação. Devemos especial­mente atender a este ponto; porque al­gumas almas fracas; quando experimentam securas espirituais pensam que Deus as tem abandonado, pelo menos que lhes não é própria a vida espiritual, e por este mo­tivo descuidam-se da oração, e perdem o benéfico resultado do que até ali haviam praticado. Não há melhor ocasião para a conformidade com a vontade de Deus, do que o tempo da secura espiritual. Não digo que não seja sensível a perda da divina presença: impossível é que a alma a não sinta, e a não lamente, quando o nosso mesmo Redentor a sentiu e lamentou sobre a cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?» (S. Mat. XXVII. 46.) Porém em tão grande aflição, devemos re­signar-nos inteiramente com a vontade de Nosso Senhor. Todos os Santos sofreram securas e desolação de espírito. «Que dureza de coração eu experimento? dizia S. Bernardo, já não gozo na leitura espiritual, nem meditação.» A maior parte dos Santos viveram em secura espiritual, e sem consolações. Estas, o Senhor não as concede senão raras vezes, e talvez aos espíritos mais fracos, para que não parem na car­reira espiritual. As delícias da recompensa, nos são preparadas por Ele no Céu. Este mundo é o lugar onde as adquirimos pela penitência; o Céu é o lugar da recom­pensa. Por consequência os Santos não se entregavam ao fervor com deleites, mas sim com penitências. O venerável João d’Ávila, dizia: (Audi. fil. C. 26.) «Oh! quão melhor é estar em secura e tentação com a vontade de Deus, do que em contempla­ção sem ela!»
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MÁXIMAS ESPIRITUAIS PARA UM PADRE

sacerAntes perder tudo, que perder a Deus.

Antes desagradar a todo o mundo, que desagradar a Deus.

Só é para temer o pecado, que nos deve causar horror.

Antes morrer do que cometer com advertência um só pecado, mesmo venial.

Tudo acaba; o mundo é uma cena, que passa depressa.

Cada momento vale um tesouro para a eternidade.

O que apraz a Deus é bom.

Fazei o que quereríeis ter feito à hora da morte.

Vivei como se no mundo só houvesse Deus e vós.

Só Deus contenta o homem. Continuar lendo

DA CONFIANÇA NO PATROCÍNIO DE MARIA SANTÍSSIMA

mariaQui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet  salutem a Domino— “Aquele que me achar, achará a vida, e terá do Senhor a salvação” (Prov. 8, 35).

Sumário. Quantas graças devemos dar à bondade divina por nos ter dado Maria por advogada! Ela é tão poderosa, que os seus rogos são sempre atendidos. Ela é também tão piedosa, que não sabe negar o seu socorro a quem quer que a invoque. Mais, nossa boa Mãe vai em busca dos miseráveis, a fim de os ajudar; pois mais desejo ela tem de nos fazer bem, que nós de o receber. Ai de nós, se nos viéssemos a perder! O patrocínio poderoso da Virgem seria no inferno um dos nossos tormentos mais graves, lembrando-nos que possuíamos um meio tão eficaz de salvação e não soubemos aproveitá-lo.

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Meu irmão, quando nos sentirmos culpados perante a justiça divina e já como que condenados ao inferno por causa dos nossos pecados, não nos entreguemos à desesperação; recorramos a Maria, refugiemo-nos debaixo de seu manto, e ela nos salvará. Tomemos a resolução de mudarmos de vida; tenhamos boa vontade e grande confiança no patrocínio de Maria e seremos salvos, porquanto ela é uma advogada poderosa e uma advogada piedosa.

Maria é uma advogada poderosa, porque, na palavra de Santo Antônio, sendo ela Mãe de Deus, os seus pedidos são para Jesus Cristo como outras tantas ordens, e é impossível que não sejam deferidos. Nem é somente uma advogada poderosa, mas, como se exprime Ricardo de São Lourenço, toda-poderosa; pois que é justo que a Mãe participe do poder do Filho; que é todo poderoso por natureza, fez a Mãe toda-poderosa pela graça; quer dizer que obtém tudo o que pede. — Por isso, São Gregório de Nicomedia, dirigindo-se à Virgem, diz: Ó Mãe de Deus, vós sois invencível e nada pode resistir ao vosso poder: já que o Criador considera a vossa glória como se fosse a sua própria. Continuar lendo

FRUTOS QUE PRODUZ A MEDITAÇÃO DE JESUS CRUCIFICADO

JesusSub umbra illius quem desideraveram sedi; et fructus eius dulcis gutturi meo — “Eu me sentei debaixo da sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e o seu fruto é doce ao meu paladar” (Cant. 2, 3).

Sumário. Representemo-nos muitas vezes Jesus agonizante sobre a cruz; detenhamo-nos em contemplar algum tempo as suas dores e o afeto com que sofreu, e disso tiraremos copiosos frutos de vida eterna. Da cruz de Jesus parte uma aragem celeste que suavemente nos desliga das coisas terrenas e nos torna leves todos os nossos trabalhos; acenderá em nós um santo ardor para sofrer e morrer por amor daquele que quis padecer e morrer por nosso amor. É sobre o Calvário que se formaram e ainda se formam os santos.

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Ó almas devotas, procuremos imitar a Esposa dos Cânticos sagrados, que se assentou debaixo da sombra daquele que era o único objeto dos seus desejos. Representemo-nos freqüentes vezes, especialmente nas sextas-feiras, Jesus moribundo sobre a cruz; ponhamo-nos a contemplar algum tempo com ternura as suas dores e o afeto que nos teve; e então bem poderemos dizer: E o seu fruto é doce ao meu paladar. É sobre o Calvário e pela contemplação de Jesus crucificado que se formaram em todos os tempos e ainda hoje se formam os santos.

No meio do tumulto deste mundo, das tentações do inferno e dos temores dos juízos divinos, oh! Quão doce repouso acham as almas amantes de Deus, ao contemplarem, a sós e em silêncio, o nosso amantíssimo Redentor, quando está em agonia ou derrama o seu divino sangue gota a gota, por todos os membros feridos e dilacerados pelos açoites, pelos espinhos e pelos cravos. Ah! Quão doces frutos ali colhem e que progressos tão rápidos fazem então no caminho da perfeição! — Sim, porque à vista de Jesus Cristo esvaecem-se do nosso espírito todos os desejos de grandezas mundanas, de riquezas terrestres, de prazeres dos sentidos! Sopra da Cruz uma aura celestial, que nos desprende docemente de todas as coisas da terra e nos faz reputar leves todos os nossos sofrimentos; mais: acende em nós um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que tanto quis sofrer e morrer por nosso amor. Pelo que dizia São Francisco de Sales: “Fixai Jesus crucificado em vosso coração, e todas as cruzes e espinhos deste mundo se vos afigurarão como rosas.” Continuar lendo

JESUS, NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, ESPERA-NOS COM EXTREMA MISERICÓRDIA

santIesus ergo fatigatus ex itinere, sedebat sic supra fontem — “Jesus, pois, fatigado do caminho, estava assim assentado sobre o poço” (Io. 4, 6).

Sumário. Assim como um dia o Senhor, todo bondade e amor, estava sentado à borda de um poço, esperando a Samaritana para a converter, assim agora, descido do céu sobre os nossos altares, que são outras tantas fontes de graças, permanece conosco, esperando as almas e convidando-as a lhe fazerem companhia. Animemo-nos, pois, a recorrer sempre a este divino Sacramento, abramos-lhe o coração, cheios de confiança, e peçamos-lhe tudo de que precisamos. Ao mesmo tempo entreguemo-nos com abandono filial à sua providência, certos de que disporá tudo para nosso bem.

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Oh, que belo espetáculo foi ver o nosso doce Redentor naquele dia em que, fatigado do caminho, se sentara, todo bondade e amor, à borda de um poço, esperando a Samaritana para a converter e salvar! Jesus estava assim sentado sobre o poço. Pois, com igual doçura o mesmo Jesus se conserva, dia a dia, no meio de nós, descido do céu sobre os nossos altares, como outras tantas fontes de graças, esperando as almas e convidando-as a Lhe fazerem companhia, ao menos por alguns instantes, a fim de as atrair ao seu perfeito amor.

Parece que de todos os altares, onde está Jesus sacramentado, fala assim a todos: “Filhos de Adão, porque fugis da minha presença? Porque não vindes a mim e não vos aproximais de mim, que tanto vos amo, e para vosso bem aqui estou no abatimento em que me vedes? Que temeis? Não é ainda como juiz que eu agora estou na terra; neste sacramento de amor me ocultei unicamente para encher de graças e salvar a quem quer que a mim recorra: Non veni, ut iudicem mundum, sed ut salvificem mundum (1) — Não vim a julgar o mundo, mas a salvá-lo.” Continuar lendo

O QUE FAZ O RÉPROBO NO INFERNO

infPeccator videbit et irascetur, dentibus suis fremet et tabescet; desiderium peccatorum peribit — “Vê-lo-á o pecador e se indignará; rangerá os dentes e se consumirá; o desejo dos pecadores perecerá” (Ps. 111, 10).

Sumário. O réprobo no inferno, vendo-se oprimido pelos seus tormentos inefáveis e desesperando de jamais remediar os seus males, será devorado por um ódio contínuo de Deus e amaldiçoará todos os benefícios que dele recebeu. Assim como amaldiçoa a Deus, amaldiçoará também todos os Anjos e Santos, e especialmente à divina Mãe, cuja intercessão não quis aproveitar. Ah, meu Jesus! Seja cortada antes a minha língua; protesto que nunca Vos quero amaldiçoar, mas sim louvar-Vos para sempre no paraíso.

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A alma, criada para amar o seu Criador, não pode deixar de sentir um impulso natural ao amor de seu último fim. Na vida presente, as trevas do pecado e os afetos terrenos podem entorpecer a inclinação da alma para se unir a Deus, e por isso não se aflige muito com a separação. Mas, quando sai do corpo e se vê livre dos sentidos, então vê claramente que só Deus a pode contentar. Pelo que procura ir logo unir-se a seu supremo Bem; mas achando-se em estado de pecado, vê que é repelida por Deus, como sua inimiga. Ainda que repelida, não deixará de se sentir sempre atraída à união com Deus, e o seu inferno consistirá em ver que sempre é atraída para Deus e sempre repelida por Ele.

Se a desgraçada, já que perdeu seu Deus e não O pode contemplar, pudesse ao menos consolar-se amando-O! Mas não, pelo abandono da graça, a sua vontade está pervertida. Por um lado, pois, ver-se-á sempre atraída a amar seu Deus; por outro, ver-se-á obrigada a odiá-Lo. Portanto, ao mesmo tempo que reconhece ser Deus digno de amor e louvor infinitos, odeia-O e amaldiçoa-O.  Se ainda naquela prisão de tormentos, pudesse resignar-se à vontade de Deus e bendizer a mão que com justiça a castiga, como fazem as almas do purgatório! Não pode, porém, resignar-se, pois que para isto deveria ser auxiliada pela graça; mas esta (como já ficou dito) abandonou-a; pelo que a sua vontade é inteiramente contraria à vontade divina.
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É PRECISO ESTARMOS SEMPRE PRONTOS PARA MORRER

morte1Et vos estote parati; quia, qua hora non putatis, Filius hominis veniet — “Vós outros, pois, estai preparados; porque na hora em que menos cuideis, virá o Filho do homem” (Luc. 12, 40).

Sumário. Não nos diz o Senhor que nos preparemos quando chegue a morte, mas que estejamos preparados. Porque, como ensina a fé e a razão confirma, na perturbação e confusão da morte será quase impossível por em ordem uma consciência perturbada. Quantos pensavam que se poderiam converter nesse momento e estão agora ardendo no inferno? Dize-me, meu irmão: se a morte te viesse surpreender na primeira noite, estarias bem preparado? Procura fazer agora o que então quiseras ter feito.

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Não nos diz o Senhor que nos preparemos quando chegar a morte; mas que estejamos preparados. Quando chega a morte, no meio da grande perturbação e confusão, será quase impossível por em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Assim também nos ameaça Deus, dizendo que então virá, não para perdoar, mas para punir o desprezo que fizermos das suas graças: Mihi vindicta, ego retribuam (1) — “A mim pertence a vingança, eu retribuirei”. Diz Santo Agostinho que será justíssimo castigo para quem não quis salvar-se quando pode, o não poder salvar-se quando quiser.

Dirá alguém todavia: Quem sabe? Talvez nesse momento me converta e me salve. Pois que! Lançar-te-ias num poço dizendo: Quem sabe? Talvez, atirando-me, fique com vida e não morra? Meu Deus! Que coisa! Como o pecado cega o espírito, a ponto de lhe fazer perder a razão! Quando se trata do corpo, falam os homens como sábios; e falam como insensatos quando se trata da alma.

Se algum infeliz, estando em pecado mortal, tivesse um ataque de apoplexia e ficasse sem sentidos, quanta compaixão não inspiraria a todos que o vissem morrer sem os sacramentos e sem sinal de penitência? Que consolação, ao contrário, se teria ao vê-lo voltar a si, pedir a confissão e fazer atos de contrição? Não será, pois, um insensato aquele que, podendo agora fazer isto, se deixa ficar no pecado ou torna mesmo a pecar, e se expõe ao perigo de ser colhido pela morte, num tempo em que talvez sim, talvez não o possa fazer?  Ficamos assustados pela morte repentina de uma pessoa, e tantos há que se expõem voluntariamente ao perigo de morrer assim e de morrer em pecado. Continuar lendo

A ENFERMIDADE É A PEDRA DE TOQUE DA ALMA…

Resultado de imagem para doente quadro… porque a enfermidade e a doença des­cobrem o caráter da virtude que a alma possui. Se uma pessoa se não desassossega, se não se queixa, se não dá inquietação, se obedece às pessoas, que tratam, e a seus superiores, e se está perfeitamente tranquila e resignada à vontade divina, sinais são estes de que possui muita virtude. Mas que diremos daquele doente, que se queixa e diz: que não é bem tratado? que suas dores são insuportáveis? que nada o me­lhora? que seu médico é ignorante? E que mesmo algumas vezes se queixa, de que a mão de Deus pesa sobre ele? S. Boaventura relata na vida de S. Francisco (C. 14) que o Santo achando-se atacado de extraor­dinários padecimentos, um dos seus reli­giosos lhe dissera: «Padre, pedi a Deus que vos trate mais benignamente: porque a sua mão carrega demasiado sobre vós.» Ao ouvir isto replicou S. Francisco em alta voz: «Se eu não soubesse que o que dizeis pro­cede da simplicidade, não vos quereria ver mais, por vos terdes atrevido a repreender os juízos de Deus.» Dizendo isto, posto que fraco e extenuado pelas dores e pela moléstia, lançou-se fora da cama sobre o duro chão, e beijando-o, exclamou: «Mil graças te sejam dadas, ó Senhor, pelo padecimento que me mandaste. Peço-te que m’o mandes maior, se essa for a tua divina vontade. De­sejo que me aflijas e não me poupes na menor coisa; porque o cumprimento da Vossa vontade é a maior consolação, que posso receber nesta vida.»

Tem esta conformidade referência tam­bém à perda de pessoas, que promovem o nosso bem temporal e espiritual. Pessoas assaz devotas são muitas vezes culpáveis neste ponto, não se resignando às divinas determinações. A nossa santificação deve proceder de Deus, e não de nossos espirituais diretores. É Sua vontade que nos aproveitemos deles para guia da alma, quando no-los dá: porém quando no-los tira de­vemos conformar-nos, e aumentar nossa confiança na Sua bondade, dizendo: «Vós, ó Senhor, me deste este socorro, e agora m’o tiraste, bendita seja para sempre a Vossa vontade, porque tu mesmo suprirás essa falta, e me ensinarás como Vos devo servir.» Igualmente devemos aceitar das mãos de Deus, outra qualquer cruz que Ele Se digne enviar-nos. Mas tantos padecimentos, direis vós, são castigos. Eu respondo: «Acaso não são os castigos, que Deus nos envia nesta vida, graças e benefícios? Se O temos ofendido, é necessário satisfazer à divina justiça de algum modo, ou nesta ou na vida futura. A isto exclamaremos com Santo Agostinho: «Cortai e queimai aqui, ó Se­nhor, mas poupai-me na outra vida.» E com o Santo Job: «Seja consolação minha que, afligindo-me com tristeza, Ele me não poupe.» (VI. 10.) Aquele que tem merecido o inferno, deve consolar-se, quando Deus o castiga neste mundo, porque isto lhe inspirará a esperança, de que Deus o isen­tará do castigo eterno. Digamos então quando Deus nos pune, o que dizia o sumo sacerdote Heli: «É o Senhor; faça Ele o que for justo e agradável a seus olhos. (I.. dos Reis III. 18.)

Tratado da conformidade com a vontade de Deus – Santo Afonso

QUÃO LOUCOS SÃO AQUELES QUE DESEJAM A SAÚDE….

rez….não só para não sofrerem, mas para mais poderem servir a Deus, observando as regras, assistindo em comunidade, indo à Igreja, recebendo a Sagrada Comunhão fazendo penitências, trabalhando, ouvindo confissões e pregando! Mas, pergunto eu, porque desejais vós fazer essas coisas? Para agradar a Deus? Para que procurais vós agradar-Lhe nessas coisas, quando conheceis que Lhe não é agradável a prática de vossas ordinárias devoções, comunhões, peni­tências, estudos ou sermões; mas sim que suporteis com paciência as dores e enfer­midades que Ele foi servido mandar-vos? Uni pois vossos padecimentos aos de Jesus Cristo. Porém é-me penoso ser inútil e pesado à comunidade. Conformai-vos com a vontade de Deus, e persuadi-vos que vossos superiores estão resignados a ela, vendo que servis de peso à comunidade, é pela vontade de Deus, e não por preguiça vossa. Vossos desejos e mortificações, não procedem do amor de Deus, mas sim do amor próprio, que procura pretextos para se desviar da vontade divina. Se desejarmos agradar a Deus, quando nos acharmos do­entes e de cama; basta repetir estas pala­vras: «Senhor seja feita a vossa vontade» por cujas palavras agradaremos mais a Deus, que por todas as devoções e mortificações que nos seja possível oferecer-Lhe.

Não há me­lhor caminho no serviço de Deus, do que aquele que nos conduz a abraçar a Sua vontade com alegria. O venerável padre Ávila (Epíst. 2) escreveu a um sacerdote que estava enfermo: «Amigo, não vos inq­uieteis com o bem que poderíeis fazer, se estivésseis bom, mas contentai-vos de conti­nuar doente todo o tempo que Deus quiser. Se procurais a vontade de Deus, indiferente vos deve ser o estar mal ou de saúde.» E certamente assim o podia dizer, porque as nossas obras não glorificam a Deus, mas sim a nossa resignação e conformidade à Sua santíssima vontade.

Daqui diz também S. Francisco de Sales, que Deus é mais bem servido por nossos padecimentos, do que por nossas fadigas. Continuar lendo

FELIZ DE VÓS AMADO LEITOR, SE SEMPRE FAZEIS OUTRO TANTO!

joelhosA santidade será a consequência, e, tendo passado uma ditosa vida, concluirá com uma não menos ditosa mor­te. Quando se passa desta para outra vida, a esperança que os que ficam, concebem da salvação do que foi, procede do conhe­cimento que haja, de que morrer com resig­nação. Se abraçamos todas as vicissitudes da vida, como vindas da mão de Deus, e mesmo a morte, com submissão à Sua von­tade, por certo que morreremos santos, e seremos salvos. Abandonemos-nos pois em tudo à boa vontade d’Aquele Senhor, que sendo o mais sábio, conhece o que melhor nos convém: e sendo o mais amante, pois que deu a Sua vida por nosso amor, quer também o que é melhor por nós. Fiquemos certos e persuadidos, diz S. Basílio, que Deus procura o nosso bem, sem comparação melhor, do que nós o podemos procurar ou desejar. Mas prossigamos e consideremos em que coisas nos devemos unir com a divina vontade.

1.º Devemos unir-nos a vontade de Deus nas coisas naturais, como quando faz frio, calor, quando chove, ou em tempo de escassez ou epidemia, e em outros casos iguais. Devemos abster-nos de dizer: que intolerável frio, que horroroso calor! que desagradável estação! Ou fazermos uso de algumas ex­pressões que mostrem a nossa repugnância para com a vontade de Deus. Devemos querer tudo como é, porque Deus de tudo dispõe. S. Francisco de Borja, indo uma noite a um convento da sua ordem, enquanto que nevava muito, bateu à porta muitas vezes; porém os padres que estavam dormindo não lh’a abriram. Quando ama­nheceu, muitos deles lastimavam tê-lo feito esperar tanto fora de casa; mas o Santo lhes disse «que ele tirara muita consolação durante aquele tempo, pensando que era Deus quem fazia cair os flocos de neve sobre ele.»

2.º Devemos unir-nos à divina vontade, quando padecemos fome, sede pobrezadesolação desonra. Em todo o caso de­vemos dizer: «Senhor, Vós fazes e desfazes, e eu estou contente, desejando unicamente o que Vós queres» E o mesmo devemos dizer, diz Rodrigues, naqueles casos imaginários sugeridos por Satanás, na intenção de nos fazer cair em alguma maldade, ou pelo menos para nos inquietar. Se alguém vos dissesse estas e aquelas palavras, ou vos fi­zesse estas ou aquelas ofensas, que diríeis? que faríeis? Devemos responder: «Eu diria e faria o que Deus quizesse» E assim nos livraríamos de toda a falta de inquietação. Continuar lendo

15 DE AGOSTO – ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

assumAstitit regina a dextris tuis, in vestitu deaurato, circumdata varietate – «Apresentou-se a rainha à tua direita, com manto de ouro, cercada de variedade» (Sl. 44, 10)

Sumário. Maria morre, e acompanhada de inúmeros espíritos celestiais e de seu próprio Filho, entra no céu em alma e corpo. Deus abraça-a, abençoa-a e a faz Rainha do universo, elevando-a acima de todos os anjos e santos. Regozijemo-nos com a divina Mãe, que é também a nossa, e avivemos a nossa confiança nela, invocando-a em todas as nossas necessidades. Roguemos-lhe sobretudo que, assim como ela morreu de puro amor a Deus, possamos nós morrer ao menos com contrição dos nossos pecados.

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Maria morre, mas como? Morre toda desapegada do afeto às criaturas, e morre consumida pelo divino amor, de que o seu santíssimo coração estava sempre todo abrasado. Ó santa Mãe, ides deixar a terra: não vos esqueçais de nós, pobres peregrinos, que ainda ficamos neste vale de lágrimas, combatidos por tantos inimigos, que desejam a nossa perdição eterna. Pelos merecimentos da vossa preciosa morte, vos suplicamos que nos obtenhais o desapego das coisas terrestres, o perdão dos pecados, o amor de Deus e a santa perseverança. E, quando chegar a hora da nossa morte, assisti-nos lá do alto do céu, com a vossa intercessão, e alcançai-nos a graça de irmos ao paraíso beijar os vossos pés.

Maria morre; seu preciosíssimo corpo é levado pelos apóstolos à sepultura, guardado pelos anjos durante três dias, e em seguida transportado ao paraíso. Mas a sua alma formosa, apenas saiu do corpo, entra na beatitude eterna, acompanhada de inúmeros anjos e do seu próprio Filho. Já no céu, a humilde Virgem, adora-o e com afeto imenso lhe agradece todas as graças que lhe foram dispensadas. Deus abraça-a, abençoa-a e a faz Rainha do universo, exaltando-a acima de todos os anjos e santos: Exaltata est sancta Dei Genetrix super choros angelorum ad coelestia regna. Continuar lendo

VONTADE DE DEUS

Numa palavra, que mais deseja Deus, que não seja o nosso bem? Quem acharemos nós, que nos ame mais do que Deus? A Sua von­tade é não só que ninguém se perca, mas que todos se façam Santos e sejam salvos: Não querendo que alguém pereça mas que todos se arrependam. (S. Pedro 2. .9.) A vontade de Deus é a vossa santificação. (1. Thess. IV, 3.). Deus tem colocado a Sua própria glória no nosso bem porque sendo em Sua essência infinita bondade, como diz S. Leão, e a bondade sendo por natureza desejosa de comunicar-se, Deus tem o so­berano desejo de nos fazer participantes de Seus bens e felicidade. E se nos manda as tribulações nesta vida, manda-as todas para o nosso bem: Tudo coopera para bem nosso. (Rom. VIII. 28.) Os mesmos castigos, dizia a Santa Judith, não vem para nossa ruína, mas para nossa emenda e salvação. Acreditemos pois, que estes flagelos do Senhor acontecem para nossa emenda, e não para nossa destruição. (Judith. VIII. 27.)

Nosso Senhor para nos salvar de eternas penas, cerca-nos com a Sua bondade: Ó Senhor, Vós nos tens coroado como com um escudo da Vossa vontade. (Ps. V. 13.) Ele não só deseja, mas solicita o nosso bem: O Senhor é zeloso em meu benefício. (Ps. XXXIX. 18.) E qual será a coisa, diz S. Paulo, que Deus nos negará, Ele que nos deu o Seu próprio Filho? Ele que não poupou o Seu Unigênito, mas que entregou por nós à morte, não nos deu com Ele todas as coisas? (Rom. VIII. 32.) Com confiança, portanto, devemos resignar-nos aos divinos decretos e determinações, como sendo tudo para nosso bem: Em paz, na mesma paz dormirei e descansarei porque tu, ó Senhor, me tens seguramente inspi­rado esperança. (Ps. IV, 9. 10. ) Entregue-mo-nos pois em Suas mãos, porque Ele sem dúvida terá cuidado de nós: ponde todo o vosso cuidado n’Ele, porque Ele tem cui­dado de vós. (I. S. Pedro V. 7.). Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – NONO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração de Jesus desprezado.

Filios enutrivi et exaltavi; ipsi autem spreverunt me – “Criei uns filhos e engrandeci-os; eles, porém, me desprezaram” (Is. 1, 2).

Sumário. Para um coração amante não há pena mais pungente do que ver desprezado seu amor, mormente quando as provas de amor foram manifestas e a ingratidão é grande. Vejamos, pois, qual deva ter sido a pena do Coração sensibilíssimo de Jesus que em retorno dos muitos benefícios feitos aos homens, só recebe ofensas, injúrias e desprezos, como nem se praticariam para com o mais vil dos homens. Poderemos pensar nesses tratos indignos para com Deus sem sentirmos compaixão e sem nos esforçarmos para o desagravar com o nosso amor?

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Não há para um coração amante pena mais pungente do que ver seu amor desprezado; mormente quando as provas de amor foram manifestas é mais negra a ingratidão que se mostra. – Se alguém por amor de Jesus Cristo se privasse de todos os seus bens, fosse viver num deserto, se alimentasse só com ervas, dormisse no chão, se macerasse com penitências, se, afinal, se deixasse martirizar; que seria tudo isso em compensação do sangue e da vida que o grande Filho de Deus sacrifícios por nós? Se nós nos entregássemos cada instante à morte, de certo nada seria em compensação do amor que Jesus Cristo nos mostrou em se dando a nós no Santíssimo Sacramento. Um Deus esconder-se sob as espécies de um pouco de pão e fazer-se o sustento de suas criaturas! Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – OITAVO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração agradecido de Jesus.

Omnis qui reliquerit domum, vel fratres… propter nomen meum, centuplum accipiet, et vitam aerternam possidebit – “Todo aquele que deixar por amor de meu nome a casa ou os irmãos, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Matth. 19, 29).

Sumário. É tão agradecido o Coração de Jesus, que não pode ver qualquer obra, por pequena que seja, mas feita por seu amor, sem a recompensar nesta vida ou na outra. Apesar disso, os homens, que se mostram gratos até aos animais, são tão ingratos para com Deus, depois de receberem dele tão grandes benefícios. Parece de certo modo que os benefícios de Deus mudam de natureza e se tornam vexames, porque em vez de gratidão e amor, lhe retribuem ofensas e injúrias. Como é que nós até ao presente havemos correspondido à divina beneficência?… Como lhe corresponderemos para o futuro?

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É tão agradecido o Coração de Jesus, que não pode ver uma obra qualquer nossa feita por seu amor, uma palavra qualquer dita para sua glória, um bom pensamento refletido para sua complacência, e não dar a cada qual a devida recompensa. Mais: Ele é tão agradecido, que dá sempre cento por um: Centuplum accipiet. – Os homens, sendo gratos e querendo recompensar um benefício recebido, recompensam-no uma vez; cumprem, como se diz, a sua obrigação e depois não pensam mais nisso. Não é assim que Jesus Cristo faz conosco; cada ação boa por nós praticada afim de Lhe dar o gosto, é por Ele não somente recompensada ao cêntuplo na vida presente, mas ainda lá na outra vida recompensa-a infinitas vezes em cada instante da eternidade: quem, pois, não se esmerará em contentar, quanto possa, a um Coração tão agradecido? Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – SÉTIMO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Liberalidade do Coração de Jesus.

Mecum sunt divitiae… ut ditem diligentes me, et thesauros eorum repleam – “Comigo estão as riquezas… para enriquecer os que me amam e encher os seus tesouros” (Prov. 8, 18 et 21).

Sumário. É próprio das pessoas de coração bem formado o querer fazer todos contentes. Mas onde acharemos quem tenha o coração mais bondoso que Jesus Cristo? Para nos comunicar as suas riquezas chegou a fazer-se homem e pobre como nós. Mais: Ele quis ficar conosco no Santíssimo Sacramento, no qual está sempre com as mãos cheias de graças e convida-nos continuamente, a que nos aproximemos para as receber. Se, pois, ficamos sempre pobres, a culpa é só nossa.

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É próprio das pessoas de coração bem formado querer fazer todos contentes, especialmente os mais necessitados e aflitos. Mas onde acharemos quem tenha o coração mais bondoso que Jesus Cristo? Por ser a bondade infinita, tem um desejo extremo de nos comunicar as suas riquezas: Mecum sunt divitiae, ut ditem diligentes me – “Comigo estão as riquezas, para enriquecer os que me amam”. Ele se fez pobre, diz o apóstolo, para nos fazer ricos: Propter vos egenus factus est, ut illius inopia vos divites essetis (1). Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – SEXTO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração misericordioso de Jesus.

Misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum – “A sua misericórdia se estende de geração a geração, sobre os que o temem” (Luc. 1, 50).

Sumário. Onde poderemos encontrar um coração mais terno que o Coração de Jesus, um coração que se compadeça mais de nossas misérias? É movido por esta misericórdia que baixou do céu à terra para nos buscar, suas ovelhas desgarradas; agora ainda sempre nos convida a que voltemos a ele, e promete que se esquecerá de todas as injúrias recebidas. Não tardemos, pois, a nos lançar nos braços de tão amoroso Pai; peçamos-Lhe perdão das ingratidões passadas e façamos o protesto que nunca jamais d’Ele nos afastaremos.

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Onde poderíamos achar um coração mais terno e misericordioso do que o Coração de Jesus, um coração que se tenha compadecido mais das nossas misérias? A sua misericórdia fê-lo baixar do céu à terra; fê-lo dizer que era Ele o bom Pastor vindo a dar a vida pelas suas ovelhas. Para nos obter o perdão, a nós, pecadores, não perdoou a si mesmo e quis sacrificar-se sobre a cruz, afim de sofrer Ele mesmo o castigo que nós tínhamos merecido. Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – QUINTO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração aflito de Jesus.

TristIs est anima mea usque ad mortem – “Minha alma está triste até a morte” (Marc. 14, 34).

Sumário. A dor mais cruciante que afligiu o Coração de Jesus no correr de toda a sua vida, não foi a previsão dos tormentos e ultrajes que o esperavam, mas sim a previsão da ingratidão dos homens e dos ultrajes que lhe haviam de fazer no Sacramento de seu amor, na Santíssima Eucaristia. Ó Deus! Se nós temos cometido pecados, temos igualmente cooperado para afligir o Coração amabilíssimo de Jesus. Peçamos-Lhe ao menos perdão e tomemos a resolução de O amarmos com tanto mais ardor para o futuro.

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I. É impossível considerar a grandeza da aflição do Coração de Jesus nesta terra pelo amor dos homens e não nos compadecermos dele. Jesus Cristo mesmo nos faz saber que seu Coração chegou a tal auge de tristeza, que esta só fora suficiente para lhe tirar a vida e fazê-Lo morrer de pura dor, se o poder divino não tivesse por um milagre impedido a morte. Tristis est anima mea usque ad mortem – “Minha alma está triste até a morte“.

A dor mais cruciante que tanto afligiu o Coração de Jesus, não foi a previsão dos tormentos e opróbrios que os homens Lhe preparavam, mas sim a previsão da ingratidão deles para com o seu amor imenso. Jesus previu distintamente todos os pecados que nós havíamos de cometer, depois de tantos sofrimentos seus e de uma morte tão amargosa e ignominiosa. Previu em particular as injúrias horrorosas que os homens haviam de infligir a seu adorável Coração, que lhes queria deixar no Santíssimo Sacramento, como penhor de afeto. Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – QUARTO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração de Jesus, suspirando por ser amado.

Ecce, sto ad ostium et pulso: si quis… aperuerit mihi ianuam, intrabo ad illum – “Eis que estou à porta e bato; se alguém… me abrir a porta, entrarei em sua casa” (Apoc. 3, 20).

Sumário. Jesus não precisa de nós; com ou sem o nosso amor é Ele igualmente feliz, rico e poderoso. Mas, porque nos ama, acha as suas delícias em conversar com os filhos dos homens e deseja tanto ser de nós amado, como se o homem lhe fosse Deus e a sua felicidade dependesse da do homem. Que monstruosa seria, pois, a nossa ingratidão, se não procurássemos satisfazer os desejos desse Coração amabilíssimo! Que contas teríamos de lhe dar um dia no tribunal divino!

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Jesus não precisa de nós; com ou sem o nosso amor é Ele igualmente feliz, rico e poderoso. Todavia, diz Santo Tomás, porque Jesus Cristo nos ama, Ele deseja tanto o nosso amor, como se o homem lhe fosse Deus e a sua felicidade dependesse da do homem. É o que pasmava ao santo Jó que dizia: Quid est homo, quia magnificas eum: aut quid apponis erga eum cor tuum? (1) – “Que é o homem para o engrandeceres? E porque pões sobre ele o teu coração?” Como? Um Deus desejar e pedir com tamanha instância o amor de um verme! Continuar lendo

O ESPÍRITO DEVE SER TODO TRANQUILIDADE E PAZ

confOs Santos, por sua uniformidade com a von­tade divina, gozavam de um Céu sobre a terra.

Os antigos padres, diz Santa Dorotéia, conservavam em si uma paz constante, porque recebiam tudo como vindo da mão de Deus. Santa Maria Madalena de Pazzi ao ouvir somente as palavras — vontade de Deus —, ficou tão consolada que se extasiou de amor. A diversidade, sem dúvida, causa pena e dor em nossos sentidos, mas isto só tem lugar na parte inferior, porque o espírito, que é a parte superior, deve ser todo tranquilidade e paz, estando a vontade unida à de Deus: «O vosso gozo, disse o Senhor aos Seus Apóstolos, ninguém vo-lo tirará, e será completo.» (João XIV. 22 24.)

Aquele que está sempre em uniformida­de com a divina vontade, goza de uma paz inteira e perpétua: inteira, porque ele tem tudo quanto deseja, como acima dissemos: perpétua, porque ninguém o pode privar de tanto prazer, assim como ninguém pode obs­tar ao que Deus quer.

O padre João Thaulero, segundo o padre Sangiore (Tirar. Tom. III. ), e o padre Nieremberg (Vita. Div.), conta de si mesmo, que tendo por muitas vezes pedido a Deus que lhe ensinasse o caminho da vida espiritual, ouviu um dia uma voz que lhe dizia, que fosse a certa igreja, e ali acharia a pessoa que procurava. Ele se dirigiu à dita igreja, e à porta da mesma encontrou um miserável mendigo, descalço e roto, a quem saudou, dizendo: «Bons dias, irmão.» O pobre lhe respondeu: «Não me lembro de ter passado um só dia mau, senhor.» O padre replicou «Deus vos dê uma vida fe­liz»; ao que ele lhe tornou: «Eu nunca fui infeliz, acrescentando: Padre, não foi o acaso que me fez responder-vos que nunca tive um dia mau: porque, se tenho fome, louvo a Deus; quando cai neve ou chove, eu O bendigo; se alguém me despreza, me despede ou me aflige, ou se encontro ou­tra qualquer tribulação, dou sempre graças a Deus. Disse-vos que nunca fui infeliz, falei a verdade, pois que me tenho acos­tumado a conformar-me com a vontade de Deus, sem reserva; assim, tudo quanto me acontece de bem ou de mal, eu o recebo de Suas mãos com alegria, como se fosse a minha melhor sorte, e isto me torna feliz. Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – TERCEIRO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração amante de Jesus.

In caritate perpetua dilexi te: ideo attraxi te miserans – “Com amor eterno te amei; por isso compadecido de ti, te atraí a mim” (Ier. 31, 3).

Sumário. Oh, se compreendêssemos o amor de que o Coração de Jesus está abrasado para conosco! Não contente de nos ter criado, de preferência a tantos outros, o Verbo divino chegou a se fazer homem por nosso amor, a escolher uma vida penosíssima e a morrer sobre uma cruz. Este amor levou-O ainda a se deixar ficar conosco no Santíssimo Sacramento, onde parece que não tem outro ofício senão o de amar os homens. Mais: o amor levou-o a fazer-se nosso sustento, afim de se unir a nós e fazer dos nossos corações e o seu próprio uma só coisa. Porque então correspondemos tão mal ao amor de Jesus?

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Oh! Se compreendêssemos o amor de que o Coração de Jesus está abrasado para conosco! Jesus nos ama tanto que, se todos os homens e todos os anjos se unissem para amar com todas as suas forças, não chegariam à milésima parte do amor que nos tem Jesus. Ele nos ama imensamente mais que nós mesmos nos amamos; Ele nos amou até ao excesso: Dicebant excessum eius, quem completurus erat in Ierusalem (1) – “Falavam do excesso que havia de cumprir em Jerusalém”. E que excesso maior do que um Deus morrer pelas suas criaturas?

Jesus nos amou até ao fim: Cum dilexisset suor, in finem dilexit eos (2). Sim, porque, depois de nos haver Deus amado desde a eternidade, de forma que em toda a eternidade não houve um instante em que não tenha pensado em nós e amado a cada um de nós; por nosso amor se fez homem e escolheu uma vida penosa e a morte de cruz. Amou-nos, portanto, mais que a sua honra, mais que seu repouso, mais que a vida, porquanto sacrificou tudo para nos provar o amor que nos tem. Não vai nisto um excesso de amor, que fará os anjos e o paraíso todo pasmarem por toda a eternidade? Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – SEGUNDO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST
Solenidade do Corpo de Deus.

Exulta et lauda, habitatio Sion; quia magnus in medio tui Sanctus Israel — “Exulta e louva, morada de Sião, porque o Grande, o Santo de Israel, está no meio de ti” (Is. 12, 6).

Sumário. Para celebrarmos com fruto a Solenidade do Corpo de Deus, conformemo-nos ao espírito da Igreja, que com a instituição da festa de hoje quis tributar a seu divino Esposo um tríplice preito: primeiro, um preito de veneração, em compensação das humilhações a que se sujeitou por nós; segundo, um preito de gratidão, pelo dom tão grande da Santíssima Eucaristia; terceiro, um tributo de reparação, para desagravá-Lo das injúrias que continuamente recebe neste divino Sacramento.

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Consideremos os elevados fins que nossa Mãe a santa Igreja teve em mira pela instituição da festa do Santíssimo Sacramento com oitava solene. Com todo esse esplendor de missas, procissões e outros exercícios piedosos, ela quer tributar a seu divino Esposo um tríplice preito, de veneração, de gratidão e de reparação.

Um preito de veneração para compensar-Lhe de algum modo o estado de aniquilamento e humilhação a que se quis sujeitar e ainda se sujeita continuamente para ficar conosco sobre os altares; onde, na palavra de São Bernardo, esconde a sua divindade, esconde também sua humanidade, só deixando ver as aparências de pão para assim patentear a ternura do amor que nos tem: Latet divinitas, latet humanitas, sola patent viscera caritatis. Continuar lendo

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA

NOVENA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – PRIMEIRO DIA | DOMINUS EST

Coração amável de Jesus.

Totus desiderabilis: talis est dilectus meus – “Todo desejável, tal é o meu amado.” (Cant. 5, 16).

Sumário. O fim principal que nos devemos propor nesta novena é o nosso progresso contínuo no amor de Jesus Cristo, para assim o desagravar dos ultrajes que recebe, especialmente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Consideremos, pois, a amabilidade desse Coração divino, todo puro, todo santo, todo amor para com Deus e para conosco. Basta dizer que Deus nele acha as suas delícias, toda a sua complacência. Será então possível não as acharmos também?… Ah, meu Jesus, eu Vos amo e quero amar-Vos sempre de todo o coração.

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Quem se mostra sempre e em tudo amável faz-se necessariamente amar. Ah! Se procurássemos conhecer todos os belos títulos que Jesus Cristo tem para ser amado, todos nós acharíamos na feliz necessidade de o amar. Que coração há mais amável que o de Jesus Cristo? Coração este, todo puro, todo santo, todo amor para com Deus e para conosco. Coração cujos desejos têm por objeto único a glória divina e o nosso bem. Coração no qual Deus acha todas as suas delícias e toda a sua complacência.

No coração de Jesus estão concentradas todas as perfeições e virtudes: um amor ardentíssimo a Deus seu Pai, unido à mais profunda humildade e reverência; uma suprema confusão pelos nossos pecados que tomou sobre si, unida à confiança mais perfeita de Filho terníssimo; uma extrema detestação das nossas culpas, unida a uma viva compaixão das nossas misérias; uma dor suprema unida a uma conformidade perfeita com a vontade de Deus. Em Jesus, portanto, acha-se tudo que possa haver de amável. Continuar lendo

NOVENA DO ESPÍRITO SANTO – NONO DIA

Pentecostes: Festa do Divino Espírito SantoO amor é um tesouro que encerra todos os bens.

Infinitus thesaurus est hominibus; quo qui usi sunt, participes facti sunt amicitiae Dei – “Ela é um tesouro infinito para os homens; do qual os que usaram têm sido feitos participantes da amizade de Deus” (Sap. 7, 14).

Sumário. O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, acha logo a felicidade, porque o Senhor lhe satisfará todos os desejos e o fará contente mesmo no meio das maiores tribulações. Felizes de nós, se conhecemos o grande tesouro do amor divino e procuramos obtê-lo a todo custo, desapegando-nos das coisas criadas!

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O amor é o tesouro de que fala o Evangelho, o qual nos cumpre adquirir a custo de tudo mais. A razão é porque ele é realmente aquele bem infinito que nos faz participante da amizade de Deus. Aquele que acha Deus, acha tudo que pode desejar: Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (1) – “Deleita-te no Senhor, e Ele te concederá as petições do teu coração”. O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, Deus lhe satisfará todos os desejos. Quais são com efeito os homens mais felizes da terra, senão os santos? E porque? Porque só querem e buscam a Deus.

Estando um príncipe a caçar, vi um solitário percorrendo a floresta, e perguntou-lhe o que fazia nesse deserto. Mas vós, Senhor, retorquiu logo o anacoreta, que vindes buscar aqui? – Eu, acudiu o príncipe, ando em busca de caças – E eu, tornou o solitário, busco a Deus. Continuar lendo

NOVENA DO ESPÍRITO SANTO – OITAVO DIA

Pentecostes: Festa do Divino Espírito SantoO amor é um vínculo.

Super omnia autem caritatem habete, quod est vinculum perfectionis – “Acima de tudo, tende e caridade, que é o vínculo da perfeição” (Col. 3, 14).

Sumário. Antes da vinda de Jesus Cristo, os homens afastavam-se de Deus, e aferrados à terra, recusavam unir-se ao seu Criador. Mas nosso amável Senhor enviou-nos o Espírito Santo, afim de que, assim como Ele é o vínculo indissolúvel que une o Pai ao Verbo Eterno, assim una nossas almas a Deus pelo amor. Procuremos, pois, estar fortemente ligados por este vínculo de perfeição, e não correremos mais risco de nos afastar de Deus. Antes de tudo, porém, é necessário que livremos nosso coração de todos os laços que o prendem ao mundo.

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Assim como o Espírito Santo, amor incriado, é o laço indissolúvel que une o Pai e o Verbo Eterno, assim é este mesmo Espírito que une nossas almas a Deus. A caridade, diz Santo Agostinho, é uma virtude que nos une a Deus: Caritas est virtus coniungens nos Deo. Daí este grito de alegria de São Lourenço Justiniano: Ó Amor, tu és então um vínculo de tal maneira forte, que pudeste encadear um Deus e uni-Lo a nossas almas! O caritas, quam magnum est vinculum tuum, quo Deus ligari potuit! – Os laços do mundo são laços de morte, mas os de Deus são laços de vida e salvação: Vincula illius alligatura salutares (1). Porquanto são vínculos de amor, e o amor nos une a Deus, nossa única e verdadeira vida. Continuar lendo