A PENA MAIS GRAVE DO MENINO JESUS

O Menino Jesus sabia dos sofrimentos pelos quais iria passar?

Quae utilitas in saguine meo, dum descendo in corruptionem? — “Que proveito há no meu sangue, se desço à corrupção?” (Ps. 29, 10.)

Sumário. Quando Jesus estava ainda no seio de Maria Santíssima, já previa a dureza de coração dos homens, que pela maior parte havia de pisar o seu sangue aos pés e de desprezar a graça que com seu sangue lhes havia merecido. Foi esta a pena que mais O afligiu. Se nós também temos sido do número desses ingratos, não desesperemos, contanto que estejamos resolvidos a converter-nos; porque o divino Menino veio a oferecer a paz a todos os homens de boa vontade. Arrependamo-nos, pois, de nossos pecados e façamos o propósito de amar doravante o nosso bom Deus, e estejamos certos de que acharemos a paz, isso é, a amizade divina.

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Revelou Jesus Cristo à Venerável Águeda da Cruz, que, quando estava no seio de Maria, o que entre todas as penas mais o afligia, foi a previsão da dureza do coração dos homens, que, depois da Redenção feita haviam de desprezar as graças que ele viera derramar sobre a terra. Jesus exprimiu o mesmo sentimento já pela boca de Davi nas palavras citadas, na explicação comum dos Santos Padres: Quae utilitas in sanguine meo, dum descendo in corruptionem? Interpreta Santo Isidoro as palavras: “se desço na corrupção”, assim: se desço a tomar a natureza humana toda corrompida pelos vícios e pecados. — “Meu Pai” (assim parece dizer o Verbo divino), “eu vou tomar um corpo humano e depois derramarei todo o meu sangue pelos homens; mas quae utilitas in sanguine meo?que proveito terá o meu sangue? A maior parte dos homens nem sequer se lembrarão deste meu sangue e continuarão a ofender-me, como se nada por amor deles tivesse feito.”

Esta pena foi o cálix de amargura, do qual Jesus pediu que o Pai Eterno O livrasse, dizendo: Transeat a me calix iste (1) — “Meu Pai, passe este cálix longe de mim”. Que cálix? A vista de tamanho desprezo de seu amor. Foi ela que ainda na cruz O fez exclamar: Deus meu, Deus meu, porque me abandonastes? (2) Revelou o Senhor a Santa Catarina de Sena, que o abandono de que se queixou foi exatamente o ver que seu Pai permitiria que a sua paixão e o seu amor fossem em seguida desprezados por tantos homens, pelos quais devia morrer. — Ora, esta mesma pena atormentou ao Menino Jesus no seio de Maria: o ver desde então tanto empenho de dores, de ignomínias, de sangue e de uma morte cruel e ignominiosa, e tão pouco fruto. Desde então o santo Menino viu como, no dizer do Apóstolo, muitos (quiçá a maior parte) pisariam o seu sangue aos pés e desprezariam a graça que com seu sangue lhes havia merecido: Filium Dei conculcantes, et spiritui gratiae contumeliam facientes (3). Continuar lendo

AMOR QUE DEUS MOSTROU AOS HOMENS NO MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

O Mistério da Encarnação na Arte Cristã (I) | Jornal da MadeiraApparuit gratia Dei Salvatoris nostri omnibus hominibus — “A graça de Deus nosso Salvador apareceu a todos os homens” (Tit. 2, 11).

Sumário. Embora a graça, isto é, o amor de Deus para com os homens, tenha sempre sido o mesmo, todavia não se manifestou sempre de igual maneira. Apareceu em toda a sua grandeza na obra da Encarnação, quando o Verbo Eterno se fez criança, gemendo e tremendo de frio, começando assim a satisfazer pelas penas que nós tínhamos merecido. Mas se este amor tão excessivo do Filho de Deus se manifestou a todos os homens, como é que nem todos o querem reconhecer e preferem as trevas do pecado à luz da graça celeste?

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Considera que pela graça, da qual aqui se diz que apareceu, se entende o amor excessivo de Jesus Cristo para com os homens: amor imerecido da nossa parte e por isso chamado graça. Em Deus este amor foi sempre o mesmo, mas não se manifestou sempre de igual maneira. Primeiro foi prometido em diversas profecias e debuxado em muitas figuras. Mas bem apareceu e se manifestou o amor divino no nascimento do Redentor, quando o Verbo Eterno se mostrou aos homens feito criança sobre um pouco de palha, chorando e tremendo de frio, começando desde então a satisfazer pelas penas que nós tínhamos merecido, e patenteando o afeto que nos tinha, pelo sacrifício de sua vida: In hoc cognovimus caritatem Dei, quoniam ille animam suam pro nobis posuit (1) — “Nisto conhecemos o amor de Deus, em que Ele deu a sua vida por nós.

Apareceu, poi, o amor de nosso Deus, e apareceu a todos os homens: omnibus hominibus. Mas porque é que nem todos conheceram, e ainda hoje em dia há tantos que não o conhecem? Eis aqui a razão: Lux venit in mundum, et dilexerunt homines magis tenebras quam lucem (2). Não o conheceram nem o conhecem, poque não o querem conhecer: amam mais as trevas do pecado do que a luz da graça. Continuar lendo

O PECADOR ABANDONADO POR DEUS

Resultado de imagem para pecadorCuravimus Babylonem, et non est sanata; derelinquamus eam — “Medicamos a Babilônia, e ela não sarou; deixemo-la” (Jer. 51, 9).

Sumário. Não há maior castigo do que Deus fingir que não vê a iniquidade. Permite que os pecadores prosperem e amontoem pecados sobre pecados. É sinal de que Deus os reserva para os entregar à sua justiça na vida eterna, onde terão tantos infernos a padecer, quantos foram os pecados cometidos. Desgraçados dos pecadores que prosperam nesta vida. Tal misericórdia é mais terrível do qualquer castigo.

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Deus espera o pecador, a fim de que se corrija. Quando vê, porém, que o tempo que lhe é dado para chorar os pecados, só serve para os multiplicar, esse mesmo tempo será chamado a depor contra ele (1): isso é, o tempo concedido e as misericórdias recebidas servirão para fazer castigar o pecador com mais rigor e para o entregar mais cedo ao abandono. Curavimus Babyloniam, et non est sanata; derelinquamus eam — “Medicamos a Babilônia, e ela não sarou; deixemo-la”. — E como é que Deus o abandona? Ou lhe envia a morte e o faz morrer no pecado, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça suficiente, com que o pecador se poderia salvar, mas não se salvará. O espírito obcecado, o coração endurecido, o mau hábito contraído, tornar-lhe-ão a salvação moralmente impossível, e assim ficará, senão absolutamente, ao menos moralmente abandonado.

Auferam sepem eius, et erit in direptionem (2) — “Arrancar-lhe-ei a sebe e ficará exposta a ser roubada”. Que castigo! Quando o dono de uma vinha arranca a sebe e deixa entrar nela a todos os homens e animais, que significa isto? Significa que a abandona. Pois, é o que faz Deus quando abandona uma alma: tira-lhe a sebe do temor de Deus, dos remorsos da consciência e deixa-a nas trevas. Então entram na alma todos os monstros dos vícios. E o pecador, entregue a esta escuridão, desprezará tudo, graça de Deus, paraíso, exortações, censuras, e até escarnecerá da sua própria condenação. Impius, cum in profundum venerit peccatorum, contemnet (3) — “O ímpio, depois de haver chegado ao profundo dos pecados, desprezará tudo”. Continuar lendo

LOUCURA DOS PECADORES

pecaSapientia enin huius mundi stultitia est apud Deum — “A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (I Cor. 3, 19).

Sumário. Quem crê na vida futura e apesar disso vive no pecado e longe de Deus, merece ser metido num hospício de doidos. Com efeito, que loucura, renunciar ao paraíso e merecer o inferno por um vil interesse, por um pouco de fumo, por um prazer vergonhoso! O pior porém, é que o número de semelhantes loucos é infinito, e no mesmo tempo que são tão loucos, eles se têm por homens sábios e prudentes. Irmão meu, serás tu por ventura do número desses infelizes?

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O Bem-aventurado João de Ávila quisera dividir o mundo em duas prisões, uma para os que não crêem na vida futura, e outra para os que crêem, mas vivem no pecado e longe de Deus. Acrescentava que estes deviam ser metidos num hospital de doidos. A maior miséria e desgraça destes infelizes é que se julgam sábios e prudentes e são os mais cegos e loucos que pode haver. E o pior é que o seu número é infinito: Et stultorum infinitus est numerus (1). São loucos, uns pelas honras, outros pelos prazeres, outros pelas criaturas abjetas desta terra.

Atrevem-se a apodar de doidos os santos que desprezam os bens do mundo para obter a salvação eterna e o verdadeiro bem, que é Deus. Chamam loucura sofrer os desprezos e perdoar as injúrias: loucura o privar-se dos prazeres dos sentidos, o praticar as mortificações; loucura renunciar às honras e riquezas; amar a solidão, a vida humilde e oculta. Mas não vêem que Deus chama a sabedoria deles loucura: Sapientia enin huius mundi stultitia est apud DeumA sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Continuar lendo

SEJAMOS PEREGRINOS SOBRE A TERRA

Resultado de imagem para sejamos peregrinos sobre a terraDum sumus in corpore, peregrinamur a Domino — “Enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor” (2 Cor. 5, 6).

Sumário. Enquanto estivermos sobre esta terra, sejamos como uns peregrinos, que vão errando longe de sua pátria, o paraíso onde Deus nos espera para gozarmos eternamente de sua beleza divina. Se, pois, amamos a Deus e a nossa alma, devemos suspirar continuamente por sairmos deste nosso exílio e separarmo-nos do corpo, a fim de entrarmos na posse de Deus. Quando nos sentirmos oprimidos pelos trabalhos, levantemos os olhos ao céu e consolemo-nos com a lembrança do reino da bem-aventurança.

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Enquanto estivermos na vida presente, sejamos como que uns peregrinos, porque andamos errando por este mundo, longe da nossa pátria, o céu; onde o Senhor nos espera a fim de gozarmos eternamente de sua visão beatifica. Dum sumus in corpore, peregrinamur a Domino— “Enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor”. Se, pois, amamos a Deus, devemos suspirar continuamente por sairmos deste exílio, deixando o nosso corpo, a fim de entrarmos na posse de Deus.

Antes da Redenção, o caminho para chegar a Deus estava interdito para nós, míseros filhos de Adão. Mas Jesus Cristo obteve-nos com a sua morte o poder de nos fazermos filhos de Deus (1) e assim nos abriu a porta pela qual temos acesso junto a nosso Pai celestial (2) . — Desta sorte, se estamos na graça de Deus, já ficamos sendo concidadãos dos santos e membros da família de Deus (3). Diz Santo Agostinho: A nossa natureza nos fez nascer cidadãos da terra e vasos de ira; mas a graça do Redentor, livrando-nos do pecado, nos fez nascer cidadãos do céu e vasos de misericórdia. 

Não é para admirar que os maus queiram ficar sempre neste mundo, porque justamente temem que das penas da vida presente vão passar para as penas eternas e muito mais terríveis do inferno. Mas quem possui o amor de Deus e tem certeza moral de estar em graça, como pode desejar viver mais tempo neste vale de lágrimas, no meio de contínuas amarguras, angústias da consciência e perigos de condenação? Como não suspirará, ao contrário, por chegar em breve à união com Deus na eterna bem-aventurança, onde não haverá mais perigo de perdê-Lo? Ah! As almas abrasadas no amor de Deus, na vida terrestre gemem continuamente e exclamam com o Profeta: Heu mihi, quia incolatus meus prolongatus est! (4) — “Ai de mim, que o meu desterro se prolongou! Continuar lendo

A PARÁBOLA DO JOIO E A CONDUTA DE DEUS PARA COM OS PECADORES

Tolerância | Enchei-vos do Espírito Santo de Deus ...
Colligite primum zizania, et alligate ea in fasciculos ad comburendum
— “Colhei primeiro o joio, e atai-o em feixes para o queimar” (Matth. 13, 30).

Sumário. O joio que cresce no meio do bom trigo é figura dos pecadores, que pela benignidade divina vivem juntamente com os justos no campo da Igreja Católica. Mais ai daqueles, se continuarem obstinados no pecado e deixarem passar o tempo de misericórdia! Chegará o dia da colheita, isso é, do juízo, e então os anjos separarão os maus dos bons, para levarem a estes ao paraíso e lançarem aqueles no fogo do inferno, onde serão atormentados por toda a eternidade.

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I. “O reino dos céus”, diz Jesus Cristo no Evangelho deste dia, “é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Mas, quando dormiam os homens, veio o seu inimigo e sobressemeou o joio no meio do trigo, e foi-se. Tendo, porém, crescido a erva e dado fruto, então apareceu também o joio. E chegando-se os servos do pai de família, disseram-lhe: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde, pois, lhe veio o joio? Disse-lhes ele: Um homem inimigo fez isso. E os servos disseram-lhe: Queres que vamos e o apanhemos? Ele disse: Não! Não seja que apanhando o joio arranqueis juntamente com ele o trigo. Deixai crescer um e outro até a ceifa, e no tempo direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio, e ataio em molhos para o fogo; mas o trigo recolhei-o no meu celeiro.”

Nesta parábola vê-se de um lado a paciência do Senhor para com os pecadores, e por outro o seu rigor para com os obstinados. Diz Santo Tomás que todas as criaturas, por natural instinto, quereriam castigar o pecador e assim vingar as injúrias feitas ao Criador. Visimus et colligimus ea? — “Queres que vamos e o apanhemos?” Deus, porém, pela sua misericórdia, as impede. E assim faz, não só pelo amor dos justos, aos quais não quer tirar a ocasião para praticarem a virtude, suportando os maus; senão também, e muito mais, pela sua longanimidade para com os próprios pecadores, a quem quer dar tempo para se converterem: Propterea expectat deus, ut misereatur vestri (1) — “Por isso o Senhor espera, para ter misericórdia de vós”. Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DA ESPERANÇA

Resultado de imagem para maria santíssimaMihi autem adhaerere Deo bonum est; ponere in Domino meo spem meam ― “Para mim é bom unir-me a Deus; pôr no Senhor Deus a minha esperança” (Ps. 72, 28)

Sumário. Se da fé nasce a esperança, Maria Santíssima, que teve uma fé singular, possuiu também uma esperança exímia. Disso deu contínuas provas em todo o curso de sua vida moral, porquanto viveu sempre em desapego completo de qualquer criatura e em inteiro abandono à divina Providência, que dela dispunha à vontade. Se quisermos ser filhos dignos de tão excelsa Mãe, esforcemo-nos por imitá-la, esperando tudo da bondade divina. E, depois de Deus, ponhamos a nossa confiança em Maria, que é chamada Mãe da santa esperança.

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Da fé nasce a esperança, porquanto para nenhum outro fim Deus nos fez conhecer pela fé a sua bondade e as suas promessas, senão para que depois pela esperança nos elevemos ao desejo de o possuir. Sendo, pois, certo que Maria teve a virtude de uma fé excelente, teve igualmente a virtude de uma excelente esperança, que a fazia dizer com Davi: Mihi autem adhaerere Deo bonum est; ponere in Domino Deo spem meam― “Para mim é bom unir-me a Deus; pôr no Senhor Deus a minha esperança”.E bem demonstrou a Santíssima Virgem quanto era grande esta sua confiança em Deus, quando pressentiu que seu esposo, por ignorar o modo de sua prodigiosa gravidez, estava agitado e com idéia de a deixar. Parecia então necessário que ela descobrisse a seu esposo o oculto mistério. Mas não, ela não quis manifestar a graça recebida; preferiu entregar-se à divina Providência, confiando, como diz Cornélio a Lapide, que Deus mesmo defenderia a sua inocência e reputação. ― Demonstrou, além disso, a confiança em Deus, quando, próxima ao parto, se viu expulsa em Belém, também dos hospícios dos pobres, e reduzida a dar à luz em uma gruta. A divina Mãe fez igualmente conhecer quanto confiava na Providência de Deus, quando, avisada por São José que devia fugir para o Egito, na mesma noite se pôs a caminho para tão longa viagem a um país estrangeiro e desconhecido, sem provisão, sem dinheiro, sem outro acompanhamento além do Menino Jesus e de seu pobre esposo.

Muito mais Maria demonstrou esta sua confiança, quando pediu ao Filho a graça do vinho para os esposos de Caná; porque, depois da resposta de Jesus Cristo, pela qual parecia claro que o pedido lhe seria recusado, ela confiada na divina bondade ordenou à gente da casa que fizessem o que lhes dissesse o Filho, visto que a graça era certa:Quodcunque dixerit vobis, facite (1). De fato, Jesus Cristo fez encher os vasos de água e depois a converteu em vinho. Continuar lendo

JESUS QUIS SOFRER A FIM DE GANHAR OS NOSSOS CORAÇÕES

Resultado de imagem para paixão de cristoDilexit nos, et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo — “(Jesus) nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu sangue” (Apoc. 1, 5).

Sumário. Os santos tinham bastante razão de chorar, considerando a ingratidão dos homens para com o amor excessivo que Jesus lhes mostrou. Coisa assombrosa! Ver um Deus sofrer tantas penas, derramar lágrimas numa lapa, viver pobre numa oficina, morrer exangue na cruz, ver, enfim, um Deus aflito e atribulado durante a sua vida toda, para ganhar o amor dos homens, e ver depois os homens ingratos responderem-Lhe com injúrias e ofensas! Meu irmão, se tu também no passado foste um desses ingratos, procura agora reparar o malfeito e amar a Jesus Cristo com mais fervor.

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Considera como Jesus sofreu desde o primeiro instante de sua vida e sofreu tudo por nosso amor. Durante toda a sua vida não teve em mira outra coisa, depois da glória de Deus, senão a nossa salvação. Jesus, sendo Filho de Deus, não havia mister sofrer para merecer o céu. Toda a pena, pobreza, ignomínia que Jesus padeceu, foi destinada a merecer para nós a salvação eterna. Mais; embora pudesse Jesus salvar-nos sem sofrimento, quis todavia levar uma vida de dores, de pobreza, de desprezos, de privação de qualquer alívio, terminá-la com uma morte mais desolada e amargosa do que jamais algum mártir ou penitente sofreu, com o único intuito de fazer-nos compreender a grandeza do amor que nos tinha e para ganhar o nosso afeto.

Viveu trinta e três anos sempre suspirando que chegasse afinal a hora do sacrifício de sua vida, que desejava oferecer para nos alcançar a graça divina e a glória eterna, e ver-nos sempre consigo no paraíso.  Baptismo habeo baptizari, et quomodo coarctor usquedum perficiatur? (1) — “Tenho de ser batizado com um batismo, e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra?” Desejava ser  batizado com o seu próprio sangue, não para lavar pecados pessoais, porquanto era inocente, senão os dos homens que Ele tanto amava. Ó amor excessivo de um Deus, que todos os homens e todos os anjos nunca chegarão a compreender e a louvar bastantemente. Continuar lendo

DEVEMOS ESPERAR TUDO PELOS MERECIMENTOS DE JESUS CRISTO

Resultado de imagem para paixão de cristoProprio filio suo non pepercit, sed pro nobis omnibus tradidit illum — “(Deus) não poupou a seu próprio Filho, mas entregou-O por nós todos” (Rom. 8, 32).

Sumário. A satisfação que o Filho de Deus ofereceu ao Pai Eterno é infinitamente maior do que a dívida que com os nossos pecados tínhamos contraído. Por isso não seria justo que perecesse o pecador que se arrepende de seus pecados e oferece a Deus os merecimentos do Redentor. Por outro lado, Jesus Cristo lá no céu intercede continuamente por nós e o Pai divino não pode negar nada a um Filho tão querido. Agradeçamos, pois, ao Senhor, e imploremos com confiança qualquer graça, valendo-nos sempre desses merecimentos infinitos.

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Considera que, tendo-nos dado o Padre Eterno seu próprio Filho por medianeiro, por advogado junto a si, e por vítima em satisfação dos nossos pecados, não nos é mais lícito duvidar que não obtenhamos qualquer graça que pedirmos, valendo-nos da mediação de semelhante Redentor. Quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit? (1) Que é que Deus nos recusará, diz o Apóstolo, depois que não nos negou o próprio Filho?

Todas as nossas súplicas não merecem que o Senhor as atenda, ou somente para elas olhe, porquanto o que nós merecemos não é graça, senão castigo pelos nossos pecados. Digno, porém, de ser atendido é Jesus Cristo que intercede por nós e oferece a seu Pai todos os sofrimentos da sua vida, o seu sangue e a sua morte. O Pai não pode recusar nada a um Filho tão querido, que Lhe oferece um preço de valor infinito. Sendo Ele inocente, todo o preço que pagou à divina justiça é aplicado tão somente em satisfação de nossas dívidas e esta satisfação excede infinitamente os pecados dos homens. Não seria de justiça que viesse a perder-se um pecador que se arrepende dos pecados e oferece a Deus os merecimentos de Jesus Cristo, cujas satisfações foram super abundantes. Demos, pois, graças a Deus e esperemos tudo pelos merecimentos de Jesus Cristo. Continuar lendo

QUAL SERÁ O GOZO DOS BEM-AVENTURADOS NO PARAÍSO.

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS – SÉTIMA CARTA – PARTE 3 | DOMINUS EST

Videmus nunc per speculum in aenigmale; tunc autem facie ad faciem — “Vemos agora (a Deus) como por um espelho, em enigma; porém então face a face” (I Cor. 13, 12).

Sumário. O bem-aventurado, conhecendo no céu a amabilidade infinita de Deus, e vendo todas as disposições admiráveis para sua salvação, amá-Lo-á de todo o coração, regozijar-se-á pela felicidade de Deus mais do que pela sua própria, e não terá outro desejo senão o de amá-Lo e de ser amado por Ele. É nisto que consistirá a sua eterna beatitude. Portanto, se nós amarmos a Deus, sem termos tanto em vista o nosso interesse como a satisfação pela felicidade de Deus, desde a vida presente começaríamos a gozar da beatitude do reino celestial.

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Quando a alma entrar na pátria bem-aventurada e for corrido o reposteiro que lhe impedia a vista, verá a descoberto e sem véu a beleza infinita do seu Deus, e é nisto que consistirá o gozo do bem-aventurado. Todas as coisas que ele contemplará em Deus, enche-lo-ão de alegria. Verá a retidão dos juízos divinos, a harmonia nas suas disposições relativas a cada alma e todas ordenadas para a glória de Deus e o bem de si mesmo.

Com relação a si própria, a alma verá o amor imenso que Deus lhe mostrou em fazer-se homem e em sacrificar por amor dela a vida na Cruz. Conhecerá o excesso de amor encerrado no mistério da Cruz: ver um Deus feito servo e morto supliciado num infame patíbulo! Conhecerá o amor excessivo encerrado no mistério da Eucaristia: ver um Deus posto presente sob a espécie de pão e feito alimento de suas criaturas! Verá distintamente todas as graças que Deus lhe dispensou e que até então lhe estiveram ocultas. Verá toda a misericórdia de que Deus usou para com ela, esperando-a e perdoando-lhe todas as ingratidões. Verá os muitos convites, as luzes e os auxílios que tão abundantemente lhe foram prodigalizados. Verá que as tribulações, as doenças, a perda de bens ou de parentes, que chamara castigos, não foram castigos, senão manifestações da bondade divina para atrair a alma ao seu amor perfeito.

Numa palavra, tudo o que ela vir, lhe fará conhecer a bondade infinita de seu Deus, e o amor infinito que merece. Donde provém que logo que chegada for ao céu, não terá mais outro desejo senão o de vê-Lo feliz e contente. Compreendendo ao mesmo tempo, que a felicidade de Deus é suprema, infinita e eterna, sentirá uma satisfação, já não digo infinita, visto que a criatura não é susceptível de cousas infinitas, mas uma satisfação imensa e plena, que a encherá de gozo, e do mesmo gozo que é próprio a Deus. Assim se verificará nela a palavra de Jesus:  Intra in gaudium Domini tui (1) — “Entra no gozo de teu Senhor”. Continuar lendo

DO FOGO DO INFERNO

Resultado de imagem para inferno DOMINUS ESTQuis poterit habitare de vobis cum igne devorante?… Cum ardoribus sempiternis? — “Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?… Com os ardores sempiternos?” (Is. 33, 14.)

Sumário. Na terra a pena do fogo é a maior de todas; mas há tamanha diferença entre o nosso fogo e o do inferno, que o nosso parece apenas um fogo pintado, ou antes, frieza. Como então, irmão meu, poderás habitar com esses ardores sempiternos, se por desgraça tua te condenares? Tu que não podes caminhar pelo ardor do sol, nem ficar com um braseiro num quarto fechado, nem aturar uma fagulha que se desprende de uma vela?

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A pena que mais atormenta os sentidos do condenado é o fogo do inferno, que afeta o tato. Por isso o Senhor faz dele menção especial no juízo: Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum (1) — “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”. Até na terra a pena do fogo é a maior de todas, mas há tamanha diferença entre o nosso fogo e o do inferno, que o nosso, no dizer de Santo Agostinho, parece apenas um fogo pintado. E São Vicente Ferrer acrescenta que, comparado àquele, o nosso fogo é frio. A razão é que o nosso fogo foi criado para nossa utilidade, ao passo que o do inferno foi criado por Deus expressamente para atormentar. Além de que, como diz Jeremias, aquele fogo é um fogo vingador aceso pela cólera de Deus (2). Por isso é que Isaías chama o fogo do inferno: espirito de ardor. Si abluerit Dominas sordes… in spiritu ardoris (3) — “O Senhor lavará as manchas… com o espirito de ardor”.

O condenado será enviado não só ao fogo, mas para dentro do fogo:  Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. De maneira que o desgraçado será envolvido pelo fogo como a lenha na fornalha. O réprobo terá um abismo de fogo abaixo de si, outro abismo acima de si, outro por todos os lados. Quando apalpar, quando vir, quando respirar, não apalpará, não verá, não respirará senão fogo. Estará no fogo como o peixe na água. — Não só este fogo cercará o condenado, mas penetrar-lhe-á todos os membros para mais o atormentar. Todo o seu corpo será uma fogueira. As vísceras arderão no ventre, o coração dentro do peito, o cérebro na cabeça, o sangue nas veias, a medula nos ossos. Em uma palavra, cada réprobo tornar-se-á uma fornalha ardente: Pones eos ut clibanum ignis (4) — “Vós os poreis como um forno aceso”. Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE

Resultado de imagem para hora da morteVidete, vigilate et orate: nescitis enim quando tempus sit — “Estai de sobreaviso, vigiai e orai ; porque não sabeis quando seja o tempo” (Marc. 13, 33)

Sumário. Irmão meu, já está fixado o ano, o mês, o dia, a hora e o momento em que devemos deixar a terra e entrar na eternidade; esse tempo é-nos, porém, desconhecido. Jesus Cristo no-lo oculta a fim de estarmos sempre preparados para morrer. Ora, dize-me: se a morte te viesse colher neste instante, achar-se-ia a tua consciência em bom estado? Oh, quantos já morreram, e morrem cada dia subitamente!

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Meu irmão, já está fixado o ano, o mês, o dia, a hora e o momento, em que tu e eu devemos deixar a terra e entrar na eternidade; esse tempo é-nos, porém, desconhecido. A fim de estarmos sempre preparados, Jesus Cristo ora nos avisa que a morte virá como um salteador de noite e às escondidas: Sicut fur in nocte, ita veniet (1); ora nos recomenda que estejamos vigilantes, pois no momento em que menos o pensarmos, Ele próprio virá para nos julgar: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet (2). Diz São Gregório que Deus, para nosso bem, nos oculta a hora da morte, para que estejamos sempre prontos para morrer. — Visto, pois, que a morte nos pode tirar a vida a todo o tempo e em qualquer lugar, se quisermos morrer bem e salvar-nos, é preciso, diz São Bernardo, que a todo o tempo e em todo o lugar estejamos esperando pela morte.

Cada um sabe que deve morrer; mas o mal está em muitos verem a morte tão de longe, que quase a perdem de vista. Os velhos mais decrépitos e as pessoas mais doentias ainda se gabam de ter mais três ou quatro anos de vida. Mas eu, ao contrário, digo: quantos não temos conhecido que em nossos dias morreram repentinamente, uns estando sentados, outros no meio do caminho, outros dormindo em seu leito! É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, ou naquele dia em que morreu. Digo mais: de todos que neste ano passaram à outra vida, morrendo no próprio leito, nenhum imaginava que devia terminar os seus dias este ano. Poucas são as mortes que não chegam inesperadas!
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SANTIDADE EXIGIDA NO PADRE EM RAZÃO DA SUA DIGNIDADE

Resultado de imagem para sacerdoteÉ grande a dignidade dos padres; mas não são menores as obrigações que lhe andam inerentes. Erguem-se os padres a uma grande altura; mas é necessário que sejam elevados e sustentados nela por uma grande virtude. No caso contrário, em vez de recompensa, um rigoroso castigo lhes está reservado; tal é o pensamento de S. Lourenço Justiniano. S. Pedro Crisólogo diz por sua vez: “O Sacerdócio é uma grande honra; mas é também um fardo pesado, e traz consigo uma grande conta a prestar”. — E S. Jerônimo: “Não é pela sua dignidade que o padre se salva, mas pela obras concordes com a sua dignidade”. Todo o cristão deve ser perfeito, deve ser santo, por isso que todo o cristão faz profissão de servir um Deus santo. Segundo S. Leão, uma pessoa torna-se cristã despojando-se da semelhança do homem terreno, e revestindo- se da forma de homem celeste. Era a razão por que Jesus Cristo dizia: Vós pois sêde perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito. 

Mas a santidade do padre deve ser diferente da dos seculares, segundo a observação de Sto. Ambrósio. Ajunta o santo Doutor que assim como a graça dispensada aos padres é superior, assim a vida do padre deve exceder em santidade à dos seculares. E, segundo Isodoro de Pelusa, entre a santidade do padre e a de todo o bom leigo, deve haver tanta distância como do céu à terra. Santo Tomás ensina que cada um é obrigado a cumprir os deveres do estado que escolheu. Por outro lado, assegura Sto. Agostinho que o clérigo, no mesmo instante em que recebe a clericatura, se impõe a obrigação de ser santo. E Cassiodoro escreve: O eclesiástico é obrigado a uma vida celeste. O padre é obrigado a maior perfeição que todos os outros, como diz Tomás de Kempis, porque o seu estado é o mais sublime de todos os estados. Salviano ajunta que Deus ordena a perfeição aos clérigos no mesmo lugar, em que a aconselha aos seculares.  Continuar lendo

A BARCA NA TEMPESTADE E A IGREJA CATÓLICA

Resultado de imagem para barca na tempestade igrejaMotu magnus factus est in mari, ita ut navicula operiretur fluctibus; ipse vero dormiebat — “Levantou-se no mar uma grande tempestade, tal que as ondas cobriam a barca; entretanto ele dormia” (Matth. 8, 24).

Sumário. Ao vermos a horrenda tempestade que o inferno suscita contra a religião, dirijamos súplicas fervorosas ao Senhor e temamos perder o grande tesouro da fé. Temamos por nós mesmos, mas não pela Igreja, porque a Barca de São Pedro pode ser coberta pelas ondas, mas não sossobrar. Virá o tempo em que o Senhor, despertado de seu sono místico pelas orações dos justos, mandará aos ventos e ao mar e logo se seguirá uma grande bonança.

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Narra São Mateus que “subindo Ele (Jesus) para uma barca (no lago de Tiberíades), o seguiram seus discípulos. E eis que se levantou no mar tão grande tempestade, que as ondas cobriam a barca; e entretanto Ele dormia. Então se chegaram a Ele os seus discípulos, e O acordaram, dizendo: Senhor, salvai-nos, que perecemos. E disse-lhes Jesus: Porque temeis, homens de pouca fé? E, erguendo-se, mandou aos ventos e ao mar, e segui-se logo uma grande bonança. Então muito se admiraram os homens, dizendo: “Quem é este, que até os ventos e o mar Lhe obedecem? — venti et maré obediunt ei!

O santos intérpretes vêem naquela barca a figura da Igreja Católica. O inferno, por meio de seus ímpios satélites, lhe tem sempre suscitado, e especialmente hoje em dia lhe suscita as mais tremendas tempestades, que ameaçam submergi-la. E entretanto Jesus está dormindo, quer dizer, simula que não vê as tempestades ou que com elas não se importa. Mas o verdadeiro crente deve ter fé e não temer; porque a barca de Pedro pode, sim, ser coberta pelas ondas, mas nunca poderá sossobrar: portae inferi non praevalebunt (1) – “as portas do inferno não prevalecerão”.

Ah! Não duvidemos: tempo virá em que o Senhor, acordado de seu sono místico, pelas orações dos fiéis, se levantará, mandará aos ventos e ao mar, e se seguirá então um grande bonança. Também os inimigos da Igreja, assombrados pelo modo como Deus a protege, dirão com as multidões do Evangelho: Quis est hic, quia venti et mare obediunt ei? (2) — “Quem é este a quem os ventos e o mar obedecem? Continuar lendo

DEVEMOS UNIR-NOS À VONTADE DE DEUS, NO QUE TOCA À NOSSA MORTE

Resultado de imagem para morte catolicaFinalmente devemos unir-nos à vontade de Deus, no que toca à nossa morte, tanto no tempo, como na maneira que Deus te­nha determinado que ela nos chegue. Santa Gertrudes (I. I. Vita. C. 11.) subindo uma vez a um monte, perdeu o equilíbrio e caiu em um vale. Suas companheiras pergun­taram-lhe senão temia morrer sem os sacramentos? Ao que a Santa respondeu: «Eu tenho grande desejo de morrer com os Sacramentos, porém deixo isso à vontade de Deus, porque a melhor disposição para a morte é voluntariamente submeter-nos ao que Deus tiver determinado; por tanto de­sejo a morte, que o Senhor for servido en­viar-me.»

Gregório relata nos seus diálogos (L. 3. G. 27.) que os Vandalos, tendo condenado a morte um certo sacerdote chamado Santolo, lhe deixaram a escolha do gênero de morte. O Santo homem recusou escolher, e disse: «Eu estou nas mãos de Deus, e receberei aquela morte que Ele permitir que vós me deis; não quero ou­tra.» Este ato foi tanto do agrado do Se­nhor, que aqueles bárbaros, tendo resol­vido degolá-lo, o braço do algoz, quando ia a descarregar o golpe, foi suspendido; e aqueles homens à vista de tão grande milagre, lhe concederam a vida. Por tanto, quanto ao gênero de morte, devemos consi­derar o melhor, aquele que Deus nos tiver determinado. Digamos sempre, quando pen­sarmos na morte. — Senhor, salvai a minha alma, e decretai a minha morte como vos aprouver.

Também devemos unir-nos com a divina vontade, quanto ao tempo da nossa morte. O que é este mundo, senão uma prisão, na qual sofremos e estamos em contínuo risco de perder a Deus? A isto exclamou David: Soltai a minha alma de sua prisão. (Ps. CXLI. 8.) Isto fazia Santa Tereza suspirar pela morte. Quando ela ouvia as horas no relógio alegrava-se, e consolava-se que uma hora de sua vida estava passada; hora de perigo de perder a Deus. O padre Ávila dizia, que aquele que não está em dispo­sição imprópria para morrer, deve desejar a morte, pelo perigo de perder a divina graça durante a vida. Continuar lendo

JESUS CHORA

manjedouraEt lacrymatus est Iesus — “E Jesus chorou” (Io. 11, 35.)

Sumário. O Menino Jesus chorava por duas razões. Em primeiro lugar chorava de compaixão para com os homens, que eram réus de morte eterna, e oferecia as suas lágrimas ao Eterno Pai, a fim de obter para eles o perdão. Chorava em segundo lugar de dor, vendo que, mesmo depois da Redenção tão grande número de pecadores continuariam a desprezar sua graça. Ah! Não agravemos mais as penas desse amabilíssimo Coração e consolemo-Lo, misturando as nossas lágrimas com as suas.

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As lágrimas do Menino Jesus foram muito diferentes das que as outras crianças derramam quando nascem. Estas choram de dor, diz São Bernardo, mas Jesus não chora de dor, mas sim de compaixão para conosco, e de amor:Illi ex passione lugent, Christus ex compassione. Chorar alguém é sinal de grande amor. Por esta razão os Judeus, ao verem o Salvador chorar a morte de Lázaro, diziam:Vede como o amava — Ecce quomodo amabat eum (1). Da mesma forma os anjos, vendo as lágrimas de Jesus Menino, podiam dizer: Vede como nosso Deus ama os homens, pois por amor deles vemo-lo feito homem, feito criança, vemo-lo chorar.

Jesus chorava e oferecia as suas lágrimas ao Pai Eterno, para obter para nós o perdão dos nossos pecados. Aquelas lágrimas lavaram os meus crimes, dizia Santo Ambrósio, — Lacrymae illae mea delicta lavarunt. Com seus vagidos e gemidos Jesus suplicava misericórdia por nós, que estávamos condenados à morte eterna, e aplacava a indignação de seu Pai. Quanto interecederam a nosso favor as lágrimas do divino Menino! Como aceitas foram de Deus! Foi então que Deus Pai mandou anunciar pelos anjos que já queria fazer a paz com os homens e recebê-los em sua graça. Et in terra pax hominibus bonae voluntatis (2) — “Na terra paz aos homens de boa vontade”. Continuar lendo

SOLICITUDE MATERNAL DE MARIA PARA COM JESUS CRISTO.

Resultado de imagem para maria santíssimaNumquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? — “Pode acaso uma mulher esquecer-se de seu filhinho, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas?” (Is. 49, 15.)

Sumário. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe para com seus filhos, o que dizer das que a Santíssima Virgem teve para com Jesus Cristo, seu Filho e juntamente seu Criador? Se quisermos imitar a divina Mãe, nós também podemos ter as mesmas solicitudes para com nosso Senhor, não somente na pessoa do próximo que o represente, senão para com Ele mesmo, visto que está realmente presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Visitemo-Lo amiudadas vezes e recebamo-Lo em nossos corações.

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Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe qualquer para com seu filho, o que dizer então das que Maria teve para com o Menino Jesus, visto que em seu coração se uniu o amor natural mais perfeito ao supremo amor sobrenatural? Tanto que viu Jesus nascido na gruta de Belém, abraçou-O com ternura maternal, tomou-O nos braços, cobriu-O de beijos, e, segundo a revelação feita a Santa Brígida, procurou aquece-Lo com o calor do seu rosto e do seu peito. Em seguida, como refere São Lucas, envolveu-O em paninhos (1). Ó Deus, que grande estima devia a Santa Virgem conceber da pobreza, da humildade, da obediência, ao contemplar o Filho de Deus que estendia as suas mãozinhas para se deixar enfaixar!

Depois de O ter enfaixado, a divina Mãe chega o santo Menino a seu peito virginal para O alimentar com o seu leite. Enquanto assim O alimentava, repetia consigo, cheia de assombro: Ó caridade, ó amor incompreensível de um Deus para com os homens! — Que terão dito os anjos do paraíso vendo o Filho do Pai Eterno feito por nosso amor tão débil, que precisa de um pouco de leite para conservar a vida?
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A SECURA ESPIRITUAL NÃO É SEMPRE UM CASTIGO

Resultado de imagem para secura espiritualMas devemos também persuadir-nos, que a secura espiritual não é sempre um cas­tigo, mas muitas vezes disposição de Deus para nosso maior bem, e também para nos conservar humildes. Em ordem a que São Paulo se não tornasse vaidoso, com as mercês que tinha recebido, permitiu o Senhor que ele fosse molestado com tentações de impureza: «E para que a grandeza das revela­ções me não exaltasse, me foi dado e es­tímulo de minha carne, anjo de Satanás, para atormentar-me.» (2 Cor. XII 7.) Aquele que ora a Deus com espiritual do­çura e deleite, bem pouco faz. «É um amigo e companheiro à mesa, mas me deixará no dia de aflição.» (Ecl. VI. 10.) Vós não considerais como verdadeiro amigo, aquele que só vier à vossa mesa, e tomar parte em vossos divertimentos; mas sim aquele que vos vem valer nos trabalhos, e vos acudir nas tribulações, sem que disso tire vantagem própria.

Quando Deus manda a obscuridade e desolação, é para pôr à prova os Seus verdadeiros amigos. Paladio, tendo sofrido grande secura espiritual na oração, foi con­sultar São Maurício, que lhe disse: «Quando o inimigo vos tentar para que deixeis a oração, dizei-lhe: Eu me satisfaço de aqui ficar pelo amor de Jesus Cristo, e mesmo só para guardar as paredes desta cela.» Tal deve ser a vossa resposta, quando fordes tentado a não continuar na oração, porque vos parece que nisso perdeis tempo. Dizei nessas ocasiões: «Aqui estou para agradar a Deus.» São Francisco de Sales, diz que, «se nós nada mais fazemos quando rezamos, do que afastar distrações e tentações, que rezamos bem. Taulero também diz, que aquele que no tempo da secura espiritual perseverar na oração, lhe concederá Deus maiores graças, do que aquele que orar com sensível devoção. O padre Rodrigues diz, que um certo homem confessava que pelo espaço de quarenta anos não tinha expe­rimentado consolação alguma na oração, mas que naqueles dias em que orava, se sentia mais forte em virtude, porém que senão orava conforme o costume, se sentia possuído de tal fraqueza, que estava intei­ramente incapaz de fazer obra alguma boa.  Continuar lendo

A GRUTA DE BELÉM

Imagem relacionadaReclinavit eum in praesepio; quia non erat eis locus in diversorio — “Ela reclinou-o em uma manjedoura; porque não havia lugar para eles na estalagem” (Luc. 2, 7).

Sumário. Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar na gruta de Belém, a fim de dar à luz o Filho de Deus? Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; e ao Rei do céu prepara-se para nascer uma estrebaria fria, para cobri-lo uns pobres paninhos, para cama um pouco de palha e para o colocar uma vil manjedoura? Oh, ingratidão dos homens! Oh, confusão para nosso orgulho que sempre ambiciona comodidades e honras!

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I. Continuemos hoje a meditar na história do nascimento de Jesus Cristo. Vendo-se repulsos de toda parte, São José e a Bem-aventurada Virgem saem da cidade a fim de achar fora dela ao menos algum abrigo. Os pobres viandantes caminham na escuridão, errando e espreitando; afinal depara-se-lhes ao pé dos muros de Belém uma rocha escavada em forma de gruta, que servia de estábulo para os animais. Disse então Maria: José, meu Esposo, não precisamos ir mais longe; entremos nesta gruta e deixemo-nos ficar aqui. Mas como? Responde São José; não vês, minha Esposa, que esta gruta é tão fria e úmida que a água escorre em toda parte? não vês que não é uma morada para homens, senão uma estribaria para animais? Como queres passar aqui a noite e dar à luz? Contudo é verdade, tornou Maria, que este estábulo é o paço real onde quer nascer na terra o Filho eterno de Deus.

Ah! Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar naquela gruta para dar à luz! Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; preparam-se-lhes berços incrustados com pedras preciosas, e mantilhas preciosas; e fazem-lhe cortejo os primeiros senhores do reino. E ao Rei do céu prepara-se uma gruta fria e sem lume para nela nascer, uns pobres paninhos para cobri-Lo, um pouco de palha para leito, e uma vil manjedoura para o colocar? Ubi aula, ubi thronus? Meu Deus, assim pergunta São Bernardo, onde está a corte, onde está o trono real deste Rei do céu, porquanto não vejo senão dois animais para lhe fazerem companhia, e uma manjedoura de irracionais, na qual deve ser posto? Continuar lendo

NOVENA DE NATAL – NONO DIA

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Cântico: Puer Natus

VIAGEM DE SÃO JOSÉ E MARIA SANTÍSSIMA A BELÉM

Subiu também José para inscrever-se no censo com Maria, sua esposa, que estava prestes a dar à luz.
(Lc.10,5)

Tinha Deus decretado que seu Filho nascesse nem sequer na casa de José, mas numa gruta, num estábulo, do modo mais pobre e penoso que possa nascer uma criança; já para isso dispôs que César Augusto publicasse um édito no qual ordenava que fossem todos recensear-se em sua cidade natal. José, ao ter notícia dessa ordem, certamente hesitou sobre deixar ou levar consigo Maria Santíssima, próxima de dar à luz, uma vez que não tinha riqueza para proporcionar-lhe uma viagem conveniente, nem queria, por outro lado, deixá-la sozinha e sem amparo.

Sabia, contudo, Maria que, como anunciara o profeta Miquéias, devia o Salvador nascer em Belém; por isso, tomando os panos e roupas que preparara para seu Filho, partiu Ela com José, pobremente, em tempo de inverno, prestes a dar à luz, para submeter-se à vontade de Deus.

Una-nos a eles, e através das penas e dores da nossa viagem por esta vida, louvemos a Deus, sejamos-lhe gratos, pedindo-lhe apenas que esteja sempre conosco Nosso Senhor Jesus Cristo. Continuar lendo

JOSÉ E MARIA PEREGRINOS EM BELÉM SEM ABRIGO

caminhoIn propria venit, et sui eum non receperunt — “Veio para o que era seu, e os seus não O receberam” (Io. I, 11).

Sumário. A cidade de Belém, que recusa dar abrigo a Jesus Menino, foi figura daqueles muitos corações ingratos que dão acolhida a tantas miseráveis criaturas e não a Deus. Reflitamos, porém, no que a Virgem Maria disse a uma alma devota: Foi uma disposição divina que a mim e a meu Filho nos faltasse abrigo entre os homens, a fim de que as almas, cativadas pelo amor de Jesus, se oferecessem a si próprias para o acolherem.

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I. Quando um rei faz a primeira entrada numa cidade do seu reino, que manifestações de veneração se lhe preparam! Que pompas! Quantos arcos de triunfo! Prepara-te, pois, ó Belém venturosa, para receberes dignamente o Rei do céu; fica sabedora que entre todas as cidades és tu a ditosa que ele escolheu para nela nascer em terra, a fim de reinar depois no coração dos homens. Ex te enim egredietur qui sit dominator in Israel “De ti sairá aquele que há de reinar em Israel”.

Eis que já entram em Belém esses dois excelsos viajantes, José e Maria, que traz no seu seio o Salvador do mundo. Entram na cidade, dirigem-se para a casa do ministro imperial, a fim de pagarem o tributo e serem alistados nos registros dos súditos do César. Mas quem os reconhece? Quem lhes vai ao encontro? Quem lhes oferece agasalho? In propria venit, et sui eum non receperunt“Ele veio para o que era seu, e os seus não O receberam”. Eles são pobres, e como pobres são desprezados; são tratados ainda pior do que os outros pobres, e até repulsos.
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NOVENA DE NATAL – OITAVO DIA

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Cântico: Puer Natus

AMOR DE DEUS AOS HOMENS NO NASCIMENTO DE JESUS

Porque apareceu a graça de Deus nosso Salvador a todos os homens, ensinando-nos que renunciando à impiedade… vivamos piedosamente no presente século, aguardando a esperança bem-aventurada e a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador Nosso Senhor Jesus Cristo. (Tit. 2, 12-14)

Consideremos que a graça salvadora de Deus que se manifestou a todos os homens foi o profundíssimo amor de Jesus Cristo aos homens. Esse amor, embora tenha sido da parte de Deus sempre idêntico, nem sempre foi igualmente manifesto.

Antes fora prometido muitas profecias e encoberto sob o véu de muitas figuras. Mas, no nascimento do Redentor, deixou-se ver claramente, aparecendo aos homens o Verbo eterno como menino deitado sobre o feno, gemendo e tremendo de frio, começando já assim a satisfazer pelas penas que merecíamos e dando-nos a conhecer o afeto que nos tinha, sacrificando por nós a vida: “Nisto conhecemos a caridade de Deus, porque Ele deu sua vida por nós“. Manifestou-se, pois, a graça salvadora de Deus, e manifestou-se a todos os homens. Mas porque não o conheceram todos e ainda hoje há tantos que, podendo, não o conhecem? Porque “a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz” (Jo. 3,19). Não o conheceram nem o conhecem porque não querem conhecê-lo e amam mais as trevas do pecado do que a luz da graça. Não pertençamos ao número desses infelizes. Se até aqui temos fechado os olhos à luz, pensando pouco no amor de Jesus Cristo, procuremos, até o fim de nossa vida, ter sempre ante os olhos os sofrimentos e a morte de nosso Redentor, para amar a quem tanto nos amou: “Aguardando a bem-aventurada esperança e a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador Nosso Jesus Cristo” (Tit. 2,13). Continuar lendo

VIAGEM DE SÃO JOSÉ E MARIA SANTÍSSIMA A BELÉM

Maria e Jose chega a BelemAscendit autem et Ioseph… ut profiteretur cum Maria desponsata sibi uxore praegnante — “Subiu também José, para se alistar a sua esposa Maria, que estava grávida” (Luc. 2, 4).

Sumário. Tendo Deus decretado que seu Filho nascesse do modo mais pobre e mais penoso, numa estrebaria, dispôs que César lançasse um decreto de recenseamento universal. Sabedor disso, perturbou-se São José na dúvida se levaria, ou não, Maria consigo. A Virgem, porém, animou-o, e com ele se pôs a caminho. Tomemos estes santos personagens como companheiros em nossa viagem para a eternidade.

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I. Havia Deus decretado que seu Filho nascesse, não na casa de José, senão numa gruta que servia de estrebaria, do modo mais pobre e mais penoso, por que uma criança pode nascer. Por isso dispôs que César lançasse um edito por meio do qual cada um deveria alistar-se na cidade própria donde trazia a sua origem. Quando José teve conhecimento do mando, perturbou-se na dúvida se deveria deixar a Virgem Maria em casa ou levá-la consigo, visto que estava próxima a dar à luz. “Minha esposa e senhora”, disse-lhe, “por um lado não quereria deixar-vos só; por outro, se vos levo, aflige-me o triste pensamento que muito tereis de sofrer numa viagem tão longa, por um tempo tão rigoroso”. Maria, porém, anima-o dizendo: “José meu, não temais: eu vos acompanharei, e o Senhor nos ajudará”. Por inspiração divina e pelo conhecimento da profecia de Miquéias, a Virgem sabia que o divino Infante devia nascer em Belém. Toma, pois, as faixas e os pobres paninhos já preparados e parte com José: Ascendit autem et Ioseph . . . ut profiteretur cum Maria“Subiu também José para se alistar com Maria”.
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NOVENA DE NATAL – SÉTIMO DIA

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Cântico:Puer Natus

 DOR QUE CAUSOU A JESUS CRISTO A INGRATIDÃO DOS HOMENS

Veio para o que era seu e os seus não o receberam.  (Jo. 1,11)

Em certo Natal andava São Francisco pela floresta e pelos caminhos gemendo e suspirando, e, ao perguntarem-lhe a causa de sua tristeza, respondeu: “Como quereis que não chore vendo que o amor não é amado? Vejo Deus inebriado de amor pelos homens e os homens tão ingratos para com esse Deus“. Se tanto afligia essa ingratidão dos homens a São Francisco, consideremos quanto mais afligirão ao Coração de Jesus. Tão logo foi concebido no seio de Maria viu a cruel correspondência que havia de receber dos homens. Tinha vindo do céu para atear o fogo do amor divino, e esse desejo o tinha feito descer à terra e sofrer um abismo de penas e ignomínias: “Vim trazer o fogo à terra e que quero senão que se ateie?” (Lc. 12,49). E depois via o abismo de pecados que cometeriam os homens apesar de terem sido testemunhas de tantas provas de seu amor. Esse foi, disse São Bernardino de Sena, o que lhe fez padecer uma dor infinita. Ainda entre nós, quando alguém se Vê tratado ingratamente por outro é uma dor insuportável, pois a ingratidão freqüentemente aflige a alma mais que outra dor ao corpo. Que dor, pois, ocasionaria a Jesus, que era nosso Deus, ver que, por nossa ingratidão, seus benefícios e seu amor seriam pagos com desgostos e injúrias? “Deram-me males em troca de bens e ódio em troca do amor que eu lhes tinha“. (Ps. 108,5). E ainda hoje se lamenta Jesus Cristo: “Fui um estrangeiro para meus irmãos” (Ps. 68,9), pois vê que não é amado nem conhecido de muitos, como se não lhes tivesse feito bem nenhum nem tivesse sofrido nada por seu amor.

Ó meu Deus, que caso fazemos, mesmo os cristãos, do amor de Jesus Cristo? Apareceu um dia Ele ao Beato Henrique Suso como um peregrino que mendigava de porta em porta, sendo sempre posto fora com injúrias. Quantos são semelhantes àqueles de quem falou Jó: “Eles diziam a Deus: Retira-te de nós, e julgavam o Onipotente, como se não pudesse fazer nada; sendo que ele cumulou de bens as suas casas” (Job,22,17). Nós, ainda que no passado nos tenhamos unido a esses ingratos, queremos continuar com nossa ingratidão no futuro? Não, porque não o merece aquele amável Menino que veio do céu padecer e morrer por nós para que o amássemos.
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DOR DE JESUS MENINO PELA PREVISÃO DA INGRATIDÃO DOS HOMENS

Resultado de imagem para menino jesus cruzIn propria venit, et sui eum non receperunt — “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Io. 1, 11).

Sumário. A ingratidão desagrada aos homens. Qual deve, pois, ter sido a tristeza de Jesus Menino, ao prever que os seus benefícios seriam pagos pelo mundo com injúrias, traições e tormentos! Mas ai de nós, que por ventura também até hoje temos respondido aos benefícios do Senhor de um modo tão desumano. Ou pelo menos temo-Lo amado tão pouco como se nenhum bem nos tivesse feito, nem sofrido coisa alguma por nós.

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Quereremos ser tão ingratos sempre?

I. Pelos dias do santo Natal, São Francisco de Assis andava pelos caminhos e bosques chorando e suspirando com gemidos inconsoláveis. Perguntado pela razão de tanto sofrer respondeu: Como não chorar, vendo que o amor não é amado? Vejo um Deus como que perdido de amor ao homem, e o homem tão ingrato para com esse Deus! Ora, se a ingratidão dos homens afligia tanto o coração de São Francisco, quanto mais não terá afligido o Coração de Jesus Cristo?

Apenas concebido no seio de Maria, Jesus viu a ingratidão despiedada que receberia da parte dos homens. Baixara do céu para acender o fogo do divino amor; somente este desejo fizera-O descer sobre a terra para ali sofrer um abismo de dores e ignomínias: Ignem veni mittere in terram (1) — “Eu vim trazer o fogo à terra”. E em seguida viu um abismo de pecados que os homens haviam de cometer, depois de presenciarem tantos rasgos de seu amor. Foi isso, no pensar de São Bernardino de Sena, o que O fez sofrer dores infinitas: Et ideo infinite dolebat. — Mesmo para nós é insuportável vermos uma pessoa tratada por outra com ingratidão, e muitas vezes isto aflige muito mais a alma do que qualquer dor aflige o corpo. Qual não deve, pois, ter sido a dor que nossa ingratidão causou a Jesus, nosso Deus, quando viu que os seus benefícios e o seu amor Lhe seriam retribuídos por nós com desgostos e injúrias? Et posuerunt adversum me mala pro bonis, et odium pro dilectione (2) —“Retribuíram-me o bem com o mal, e o meu amor com ódio”.
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NOVENA DE NATAL – SEXTO DIA

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Cântico: Puer Natus 

JESUS NO SEIO DE MARIA

Sou contado entre os que descem à cova, tornei-me como um homem sem força. (Ps. 87,5)

Consideremos a vida penosa por que passou Jesus Cristo no seio de sua Mãe. Era livre, porque se tinha feito voluntariamente prisioneiro de amor, mas o amor o privava do uso da liberdade e o mantinha em cadeias tão apertadas que não podia mover-se. Ó grande paciência do Salvador! Ao pensar nas penas de Nosso Senhor ainda no seio de sua Mãe.

Vejamos a que se reduz o Filho de Deus por amor dos homens: priva-se de sua liberdade e se encadeia para livrar-nos das cadeias do inferno. Muito, pois, merece ser reconhecida com gratidão e amor a graça de nosso libertador e fiador, que, não por obrigação, mas por afeto, se ofereceu para pagar e pagou nossas dívidas e nossas penas, dando por elas sua vida: “Não te esqueças do benefício que te fez o que ficou por teu fiador, porque ele expôs a sua vida por ti“(Eccli. 29,20).
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JESUS MENINO SE OFERECE À JUSTIÇA DIVINA COMO NOSSA VÍTIMA

meninojesusOblatus est, quia ipse voluit — “Ele foi oferecido, porque Ele mesmo quis” (Is. 53, 7).

Sumário. Todos os sacrifícios oferecidos a Deus no correr de quarenta séculos, não foram bastante eficazes para remir o homem. Por isso, o Verbo divino, apenas feito homem, ofereceu-se a si mesmo para vítima da divina justiça, e por nosso amor aceitou a morte com todos os padecimentos que a deviam acompanhar. Fê-lo o divino Menino logo na sua primeira entrada no mundo. E nós, já chegados ao uso da razão, que temos feito por seu amor? Talvez que desde então tenhamos começado a ofendê-lo.

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I. O Verbo divino, no primeiro instante em que se fez homem e criança, no seio de Maria, ofereceu-se a si mesmo, sem reserva, aos sofrimentos e à morte, para o resgate do mundo. Sabia que todos os sacrifícios de ovelhas e de bois, oferecidos antigamente a Deus, não puderam resgatar as culpas dos homens. Era preciso que uma pessoa divina pagasse em lugar dos homens o preço do resgate. Por isso disse Ele, conforme nos ensina o Apóstolo: “Hostiam et oblationem noluisti (14) — Não quiseste hóstia nem oblação. Meu Pai, todas as vítimas que Vos foram oferecidas até hoje, não foram suficientes, nem poderão sê-lo, para satisfazer à vossa justiça. Vós me preparastes este corpo passível, a fim de que eu possa aplacar-Vos e salvar os homens com o preço do meu sangue. Ecce venio — eis que venho. Eis-me aqui disposto a aceitar tudo e a submeter-me inteiramente à vossa vontade”. Relutava a parte inferior da alma que naturalmente tinha horror de uma vida e morte tão cheia de padecimentos e de opróbrios. Mas venceu a parte racional da alma, que, inteiramente submissa à vontade do Pai, aceitou tudo, de sorte que desde aquele instante Jesus começou a padecer todas as angústias e dores que devia sofrer nos anos da sua vida terrestre.

Foi assim que se houve Jesus desde a sua primeira entrada no mundo. Mas, ó Deus, como é que nos temos havido-nos para com Jesus, desde que, chegados ao uso da razão, começamos a conhecer pela luz da fé os sagrados mistérios de nossa Redenção? Quais são os pensamentos, os projetos, os bens que foram objeto do nosso amor? Prazeres, passeios, desejos de grandeza, vinganças, sensualidades; eis os bens que nos prenderam o fundo do coração. Mas se ainda temos fé, é mister que mudemos afinal a nossa vida e os nossos afetos. Amemos a Deus, que tanto tem padecido por nós. Continuar lendo

NOVENA DE NATAL – QUINTO DIA

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Cântico: Puer Natus

JESUS CRISTO SE OFERECEU DESDE O PRINCÍPIO POR NOSSA SALVAÇÃO

Foi imolado, porque Ele mesmo quis. (Is. 53,7)

O Verbo divino, desde o primeiro instante em que se viu feito homem e criança no seio de Maria, se ofereceu por si mesmo às penas e à morte para resgate do mundo. Sabia que todos os sacrifícios dos cordeiros e dos touros oferecidos a Deus na Antigüidade não tinham podido satisfazer pelas culpas dos homens, mas que era necessário que uma pessoa divina satisfizesse por eles o preço de sua redenção. Pelo que disse, como afirma o Apóstolo: “Não quiseste hóstia nem oblação, mas me formaste um corpo. Então eu disse; Eis-me aqui presente” (Heb. 10,5). Meu Pai, disse Jesus Cristo, todas as vítimas que vos foram oferecidas até agora não bastam nem bastarão para satisfazer vossa justiça; destes-me um corpo passível para que com a efusão de meu sangue vos aplaque e salve os homens: eis-me aqui presente, “ecce venio“, tudo aceito e tudo submeto a vossa vontade.

A parte inferior de sua vontade experimentava, naturalmente, repugnância e recusava-se a viver e a morrer entre tantas dores e opróbrios, mas venceu a parte racional, que estava completamente subordinada à vontade do Pai, e aceitou tudo, começando Jesus a padecer desde aquele instante, todas as angústias e dores que sofreria nos anos de sua vida, assim agiu nosso divino Redentor desde os primeiros instantes de sua entrada no mundo. Continuar lendo

A PAIXÃO DE JESUS CRISTO DUROU TODO O TEMPO DA SUA VIDA

cruzDolor meus in conspectu meo semper — “A minha dor está sempre diante de mim” (Ps. 37, 18).

Sumário. Desde o instante em que foi criada a alma de Jesus Cristo e unida com seu pequenino corpo, viu diante de si todos os padecimentos que teria de sofrer para a redenção dos homens. Por isso Jesus começou desde o primeiro instante da sua vida a sofrer por nosso amor a tristeza mortal que depois padeceu no horto de Getsêmani. E como temos nós correspondido a tão grande amor? Talvez com frieza e ingratidão.

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I. Considera como, no mesmo instante em que foi criada a alma de Jesus e unida com seu pequenino corpo no seio de Maria, o Pai Eterno manifestou a seu Filho a sua vontade que morresse para a redenção do mundo. No mesmo tempo pôs-lhe diante dos olhos a vista triste todos os sofrimentos que deveria sofrer até à morte a fim de remir o gênero humano. Mostrou-Lhe então todos os trabalhos, desprezos e pobreza que deveria suportar toda a sua vida, tanto em Belém como no Egito e em Nazaré. Mostrou-Lhe em seguida todas as dores e ignomínias de sua Paixão: os açoites, os espinhos, os cravos e a cruz; todos os desgostos, tristezas, agonias e abandono em que havia de terminar a sua vida no Calvário.

Quando Abraão levava seu filho à morte, não quis contristá-lo comunicando-lhe a sorte com antecedência, nem no pouco de tempo de que precisavam para chegarem ao monte. Mas o Pai Eterno quis que seu Filho encarnado, destinado a ser vítima da divina justiça pelos nossos pecados, sofresse já então todas as penas, às quais depois deveria submeter-se na vida e na morte. Por esta razão, desde o instante em que baixou ao seio de sua Mãe, Jesus sofreu sem interrupção a tristeza que o acabrunhou no horto, e que era suficiente para tirar-lhe a vida, assim como ele mesmo disse: Tristis est anima mea usque ad mortem (1) — “A minha alma está triste até à morte”. De sorte que desde então Ele sentiu vivamente e sofreu o peso todo de todos os tormentos e opróbrios que o esperavam. Continuar lendo

NOVENA DE NATAL – QUARTO DIA

SENDARIUM: 2020 ANOS DO NASCIMENTO DE CRISTO!

Cântico: Puer Natus

A PAIXÃO DE JESUS CRISTO DUROU TODA SUA VIDA

Minha dor está sempre diante de mim.
(Ps. 37,18)

Consideremos como naquele primeiro instante em que foi criada e unida a alma de Jesus Cristo a seu corpo, no seio de Maria, o Padre Eterno mostrou a seu Filho sua vontade de que morresse pela redenção do mundo; e naquele mesmo instante lhe mostrou todas as penas que devia sofrer até a morte para redimir os homens. Mostrou-lhe então todos os trabalho, desprezos e pobreza que devia padecer em sua vida, tanto em Belém como no Egito e em Nazaré, e depois todas as dores e ignomínias da paixão: açoites, espinhos, cravos e cruz; todos os tédios, tristezas, agonias e abandonos no meio dos quais havia de terminar sua vida no Calvário.

Abrão, conduzindo seu filho à morte, não quis afligi-lo dizendo-lhe antecipadamente que morreria, e isso no pouco tempo que era necessário para chegar ao monte. Mas o Eterno Pai quis que seu Filho encarnado, destinado como vítima de nossos pecados à sua justiça, padecesse imediatamente, pelo conhecimento delas, todas as penas a que depois teria que sujeitar-se durante sua vida e em sua morte. Daí, a tristeza padecida por Jesus no Horto, capaz de tirar-lhe a vida, como ele declarou: “Minha alma está triste até a morte” (Mt. 26,38), padeceu-a também constantemente desde o primeiro momento em que esteve no seio de sua Mãe. Assim, desde então sentiu vivamente e sofreu o peso reunido de todas as dores e vitupérios que O esperavam. Continuar lendo