A VIRTUDE DA FORTALEZA EM TEMPOS DE CRISE

Fonte: Le Parvis nº 169 – Tradução: Dominus Est

O martírio é o principal ato da virtude da fortaleza.

A crise atual na Igreja pode-nos levar a várias perguntas e, entre elas: Quanto tempo irá durar? Parece haver muitas opções para lidar com o sofrimento e as inquietações que ela provoca. Tanto a precipitação quanto a hesitação prolongada, mesmo que com boas ações, nos conduzem pelo caminho errado e nos levam a tomar decisões equivocadas.

Nestes tempos marcados por incertezas, sofrimentos e provações, a doutrina católica oferece uma perspectiva especial por meio da virtude da fortaleza, uma das quatro virtudes cardeais. Ela pode ser definida da seguinte forma: “A fortaleza é a virtude moral que assegura, diante das dificuldades, firmeza e constância na busca do bem. Ela fortalece a resolução de resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral. A virtude da fortaleza nos capacita a vencer o medo, inclusive da morte, e a enfrentar provações e perseguições. Ela nos dispõe a chegar até a abnegação e ao sacrifício da própria vida para defender uma causa justa.” Essa virtude não é uma simples resistência estoica ou uma coragem puramente natural. É uma disposição habitual da alma, aperfeiçoada pela graça, que ordena o apetite irascível — aquela parte de nós que reage às dificuldades e ameaças — segundo a razão iluminada pela fé. Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica (I-II, q. 123), esclarece que a fortaleza tem como principal objeto o medo e a ousadia, particularmente diante dos perigos da marte. Consiste em dois movimentos complementares: “aggredi” (enfrentar, atacar o mal) e “sustinere” (suportar; perseverar). Em tempos de crise, é frequentemente o segundo que prevalece: a paciência e a constância diante daquilo que não pode ser mudado imediatamente. Continuar lendo →

A TEMPERANÇA, VIRTUDE DESAPARECIDA

Resultado de imagem para temperança virtudeRefletir, publicar, escrever sobre a temperança é hoje um desafio. A palavra desapareceu do vocabulário do homem médio, assim como do vocabulário da “elite” intelectual, laica ou religiosa. Quanto a nós, a última vez que a escutamos foi no início do século, em nossa infância, quando o professor instava-nos, à saída da escola, a aderir à uma “sociedade de temperança” ― como as muitas que então havia na Bélgica ― cuja específica finalidade era combater, não as incontáveis formas da intemperança, mas o alcoolismo, que afligia um pouco por toda parte, particularmente na classe operária. O petit Robert dá a ela apenas dois sentidos; um, “didático”: moderação em todos os prazeres do sentido; outro, “corrente”: moderação no beber e no comer, mais especialmente no consumo de bebidas alcoólicas. Ambos se volatilizaram tanto da linguagem da sociedade contemporânea como da terminologia dos moralistas contemporâneos. À exceção de alguns “paleotomistas”, cuja leitura ainda faz nossas delícias, não a encontramos em parte alguma durante um meio-século, nem mesmo nas conversas.

Não podemos sequer dizer com Valéry que «toute chose m´est claire à peine disparue; ce qui n´est plus se fait clarté». Além da palavra que a designa, é a realidade mesma da virtude da temperança que se evaporou da alma dos homens entregues às delícias da “sociedade de consumo” e, daqui a pouco ― ou mesmo, a partir de agora ― aos suplícios da moderna economia materialista em plena crise. Os cristãos ― os católicos ― não escapam desse saldo negativo, tanto no ensino que recebem quanto em sua conduta. A este respeito, estamos em situação idêntica a do fim do Império Romano, tal como veementemente a descrevia Santo Agostinho: «onde encontrar quem, diante de tais monstros de avareza, orgulho e luxúria1, cuja iniqüidade, cuja impiedade execrável constrange Deus a flagelar a Terra, conforme antiga ameaça, quem, volto a perguntar, seja perante eles o que deve e com eles conviva como é preciso conviver com semelhantes almas? Quando se trata de esclarecê-los, censurá-los e, mesmo, repreendê-los e corrigi-los, com bastante freqüência, funesta dissimulação nos detém, ou preguiçosa indiferença, ou respeito humano incapaz de afrontar alguém já de si perturbado, ou temor a ressentimentos que poderiam causar-nos prejuízo e prejudicar-nos no tocante a esses bens temporais cuja possa nossa cupidez cobiça, cuja perda nossa fraqueza receia.»2

Para que fosse diferente, seria preciso que a temperança fosse professada como virtude e mesmo como virtude cardeal que, apesar do lugar que ocupa, depois da justiça, da prudência e da força, não deixa de intervir, se exercida, em quase todas finalidades da vida cotidiana do homem. Como estamos distantes disso! Ora, a temperança é uma virtude, i. é, no sentido esquecido da palavra, uma disposição natural que inclina ao que é segundo a razão: o nome mesmo de “temperança” o indica, pois significa uma certa moderação, um “temperamento”, ou, em termos precisos, uma certa “medida no julgamento e na conduta”; enfim, uma “solução adequada” aos problemas que envolvem os prazeres que o homem não deixa de experimentar no curso de sua vida3. Continuar lendo →