DAS CASAS DE EDUCAÇÃO

Resultado de imagem para escola catolica«Entre todos os deveres que a autoridade pa­terna impõe a um pai e a uma mãe, nenhum co­nheço mais grave, escreve Mgr. Dupanloup, que o de escolher – os mestres a quem deve ser confiada uma parte desta santa autoridade.»

A mulher do povo, especialmente a que habita nas aldeias, não pode ordinariamente enviar o seu filho senão à escola paroquial; as mais das vezes é difícil mandá-lo a outra freguesia vizinha. Como apreciar devidamente os serviços prestados à Igreja e à sociedade, por religiosos e religiosas, que con­sagram a sua vida a instruir o filho do povo, e a educá-lo no amor, e no temor de Deus? Que mulher cristã não seria feliz, confiando-lhe o seu filho ou filha? E onde poderia ela encontrar uma dedicação mais desinteressada e mais sincera?—«Para ser professor de instrução primária, disse o grande his­toriador Thiers, é necessária uma humildade e uma abnegação, de que um leigo raras vezes é capaz: é preciso o padre, o religioso; o espírito, a dedicação leiga não são suficientes!» Se acontecesse, — o que Deus não permita —, que uma criança não pudesse ir à escola, sem expor a sua fé, e a sua inocência, seria infinitamente melhor que ela não abandonasse o teto da sua choupana. 

As próprias escolas, onde se não ensina a religião, nem as virtudes cristãs, não podem bas­tar à educação da infância. Toda a escola mista de crianças de ambos os sexos oferece perigos que uma mãe deve temer. E é por ventura necessário que o agricultor mande o seu filho para o colégio? Essa criança não deixará daí encontrar a saudade da vida dos campos, e depois de acostumado, vol­tará com ares de gran-senhor. Achamos natural e necessário que o vosso filho aprenda a ler, a escre­ver e a contar, e é isso mesmo que ele aprenderá na escola da sua aldeia; mas que fique cultivador, como seu pai, que é o melhor partido que pode tomar. Também achavamos razoável que as mães de família do campo não mandassem a suas filhas como pensionistas, para estabelecimentos, donde elas voltam, falando francês, usando chapéu, sabendo bordar a ouro, a canotilho e a cabelo, mas despro­vidas dos conhecimentos usuais mais necessários. Longe de nós, todavia, censurar as mães que confiam os filhos a um colégio, dirigido por religiosos ou religiosas, onde essas crianças estão ao abrigo dos perigos do mundo. Continuar lendo

A FIGURA DO PAI

A luta da esquerda para destruir a família é sobretudo a luta para destruir e/ou diminuir a figura masculina, infantilizando-a. O socialismo é uma forma eminentemente feminina de organizar a sociedade.

Fonte: Modéstia Masculina

Fui ver o filme O Regresso, do diretor mexicano Alejandro Iñarritu, um belo filme que é narrado desde a perspectiva masculina. Não à toa está indicado para uma dúzia de estatuetas do Oscar. Merecido de tão bom. É uma história de superação, de coragem e de resistência diante de intempéries, feras selvagens e inimigos. O filme se passa na segunda metade do século XIX, portanto não faz muito tempo, e se reporta a fatos ocorridos na vida real.

O que me chamou à atenção é a quase total ausência de mulheres, isso porque o filme é ambientado em uma situação de extrema dureza e em ambiente bastante inóspito. A única mulher que aparece é uma índia, filha de chefe, que foi raptada e abusada e salva pelo herói da película. A outra mulher, a esposa, é ausente e vem como lembrança do herói nos momentos mais difíceis. Há sempre uma presença feminina a velar na alma do homem. O filme é o retrato do que foi em todos os tempos: a figura heroica do homem é que garante a segurança, a sobrevivência e a inviolabilidade dos seus. Não ao acaso a virtude mais valorizada nos homens é a coragem, sem a qual o sujeito não teria condições de ser o defensor dos seus.

Certo, no século XX tivemos o esplendor do uso do ar comprimido e da energia elétrica e as armas são cada vez mais brinquedos de videogame, que uma mulher pode perfeitamente portar/usar. A força física do homem ficou secundária, mas essa é uma verdade sempre parcial. Vimos o que houve na Alemanha recentemente, com milhares de mulheres estupradas e abusadas por imigrantes islâmicos em face da ausência de qualquer elemento masculino que as pudesse defender. Sem seus homens, o feminino sempre fica vulnerável ao homem desconhecido, parece uma verdade evidente.

Quem acompanha o noticiário policial também pode ver que a maior parte das mulheres assassinadas por namorados ou companheiros se dá quando não há a presença de um homem forte na família. Este seria a garantia da inviolabilidade. No passado sempre foi assim, não se matava à toa a filha de um homem dominante, ou irmã. A vingança era imediata. Continuar lendo

A CONDENAÇÃO ETERNA

Resultado de imagem para condenado infernoOcupei-me da felicidade dos santos, para que entendesses melhor a infelicidade dos condenados ao inferno. Aliás, outro tormento destes últimos é ver quanto os bem-aventurados são felizes. Tal conhecimento acrescenta-lhes a pena, da mesma forma como a condenação dos maus leva os justos a glorificar minha bondade. A luz é mais evidente na escuridão, e a escuridão na luz. Conhecer a alegria dos santos é dor para os réus do inferno.

Os condenados aguardam com temor o dia do juízo final. Sabem que então seus sofrimentos aumentarão. Ao escutar o terrível convite: “Surgite, mortui, venite ad juicium”, a alma retornará ao corpo. Para os bem-aventurados será um corpo de glória; para os réus, um corpo para sempre obscurecido. Diante do meu Filho, sentirão grande vergonha. Também diante dos santos. O remorso martirizará a profundidade do seu ser, quero dizer, a alma; mas também o corpo. Acusá-los-ão: o sangue de Cristo, por eles derramado; as obras de misericórdia, espirituais e corporais, do meu Filho; o bem que eles mesmos deveriam ter praticado em benefício dos outros, segundo o evangelho. Terá seu castigo a maldade com que trataram os irmãos, pois eu mesmo, compassivo, perdoara-lhes (Mt 18,33). Serão repreendidos pelo orgulho, egoísmo, impureza, ganância; e tudo isso reavivará seus padecimentos.

No instante da morte, somente a alma é repreendida; no juízo final também o corpo, por ter sido instrumento da alma na prática do bem ou do mal conforme a orientação da vontade. Todo bem e todo mal é feito através do corpo. Por esse motivo, minha filha, os justos terão no corpo glorificado uma luz e um amor infinitos; já os réus do inferno sofrerão pena eterna em seus corpos, usados para o pecado. Ao recuperar o corpo diante de Jesus ressuscitado, os réus sentirão tormento renovado e acrescido: a sensualidade sofrerá na sua impureza vendo a natureza humana unida à divindade, contemplando este barro adâmico – vossa natureza – colocada acima de todos os coros angélicos, enquanto eles, os maus, estarão no mais profundo abismo.
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DO AMOR À SOLIDÃO E AO SILÊNCIO

Resultado de imagem para solidãoProcura tempo oportuno para cuidar de ti e relembra a miúdo os benefícios de Deus. Renuncia às curiosidades e escolhe leituras tais, que mais sirvam para te compungir, que para te distrair. Se te abstiveres de conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir novidades e boatos, acharás tempo suficiente e adequado para te entregares a santas meditações. Os maiores santos evitavam, quando podiam, a companhia dos homens, preferindo viver com Deus, em retiro.

Disse alguém: “Sempre que estive entre os homens menos homem voltei” (Sêneca, Epist. 7). Isso experimentamos muitas vezes, quando falamos muito. Mas fácil é calar de todo, do que não tropeçar em alguma palavra. Mas fácil é ficar oculto em casa, que fora dela ter a necessária cautela. Quem, pois, pretende chegar à vida interior e espiritual, importa-lhe que se afaste da turba, com Jesus. Ninguém, sem perigo, se mostra em público, senão quem gosta de esconder-se. Ninguém seguramente fala, senão quem gosta de calar. Ninguém seguramente manda, senão o que perfeitamente aprendeu a obedecer.

Não pode haver alegria segura, sem o testemunho de boa consciência. Contudo, a segurança dos santos estava sempre misturada com o temor de Deus; nem eram menos cuidadosos e humildes em si mesmos, porque resplandeciam em grandes virtudes e graças. A segurança dos maus, porém, nasce da soberba e presunção, e acaba por enganar-se a si mesma. Nunca te dês por seguro nesta vida, ainda que pareças bom religioso ou ermitão devoto. Continuar lendo

O DIA DO SENHOR

Resultado de imagem para moça modestaUm dos Santos Padres da Igreja denominou o domingo:“Rei e Príncipe de todos os dias”. Outro opina que a vida sem domingo seria um grande deserto sem oásis. Certamente seria uma vida triste. Pode-se dizer que o domingo é como que a raiz da semana. De uma raiz boa e sã, brotam também galhos, folhas, flores e frutos sãos e bons. De modo análogo, a um domingo cristãmente festejado, sucede uma semana inteira de cunho cristão. Consiste a vida do homem em certo número de semanas, as quais trazem impresso o selo do valor que lhes comunica o domingo, por onde começam. Com muita razão se poderia dizer: assim como for o teu domingo, assim será também toda a tua vida. De que modo deverá, então passar o domingo, para que se torne uma fonte de bênçãos para a tua vida e para a eternidade futura? Eis uma pergunta de grande importância para ti.

1º – O domingo deve ser, antes de mais nada, dia de descanso.

O descanso dominical é uma necessidade para o corpo e para a alma. Poderá alguém trabalhar ininterruptamente, todos os dias, nos domingos e dias úteis, por um lapso do tempo; poderá fazê-lo mesmo durante alguns anos; mas, chegará com certeza o tempo em que as forças constantemente ativas entrarão a adormecer, ou se quebrarão de súbito.

O descanso que, à tarde se desfruta, após o trabalho diário, e um bom sono pela noite adentro, são de grande proveito para o corpo; mas, quanto à duração não bastam para estabelecer o necessário equilíbrio das forças. Os médicos sustentam mui judiciosamente que, para se manter em pleno vigor, além do pequeno descanso diário, de tempo a tempo, necessita o corpo humano de uma pausa e folga mais longa, um maior relaxamento das forças. Isto se aplica, sobretudo, aos tempos atuais, que, pela crescente concorrência em todos os domínios, despertam em quase todos os homens, até mesmo nos rapazes e nas moças, maior dedicação ao trabalho. Com seu descanso maior e mais longo repouso, é, portanto, o domingo uma verdadeira bênção para a nossa vida corporal. Lord Palmerston, conhecido estadista inglês, conservava ainda, na velhice, grande atividade e vigor, que ele principalmente atribuía ao fato de se haver sistematicamente abstido do trabalho dominical, em todo o percurso de sua longa vida. Continuar lendo

TAMBÉM NOS DEVEMOS RESIGNAR NA DESOLAÇÃO DO ESPÍRITO

Resultado de imagem para ajoelhadoNosso Senhor, quando uma alma se entrega à vida espiritual cos­tuma socorrê-la com abundantes consola­ções místicas, em ordem a subtraí-la aos mundanos deleites; porém, vendo-a estabe­lecida em espírito, retira Sua onipotente mão para obter uma prova do amor, que esta alma Lhe dedica, e ver, se ela O servirá sem a recompensa neste mundo de delícias sensíveis. «Em quanto vivermos no mundo, diz Santa Tereza, a nossa van­tagem não é tanto em gozar de Deus em si mesmo, como em fazer à Sua divina von­tade.» E em outra parte, diz: «O amor de Deus não consiste tanto em ternuras espirituais, como em servi-lO com fortaleza e humildade.» E continua: «Deus experi­menta aqueles que ama, com securas es­pirituais e tentações.»

Deve pois a alma agradecer ao Senhor, quando Lhe apraz favorecê-lA com doçuras espirituais; mas não afligir-se, nem impacientar-se, quando a entrega a desolação. Devemos especial­mente atender a este ponto; porque al­gumas almas fracas; quando experimentam securas espirituais pensam que Deus as tem abandonado, pelo menos que lhes não é própria a vida espiritual, e por este mo­tivo descuidam-se da oração, e perdem o benéfico resultado do que até ali haviam praticado. Não há melhor ocasião para a conformidade com a vontade de Deus, do que o tempo da secura espiritual. Não digo que não seja sensível a perda da divina presença: impossível é que a alma a não sinta, e a não lamente, quando o nosso mesmo Redentor a sentiu e lamentou sobre a cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?» (S. Mat. XXVII. 46.) Porém em tão grande aflição, devemos re­signar-nos inteiramente com a vontade de Nosso Senhor. Todos os Santos sofreram securas e desolação de espírito. «Que dureza de coração eu experimento? dizia S. Bernardo, já não gozo na leitura espiritual, nem meditação.» A maior parte dos Santos viveram em secura espiritual, e sem consolações. Estas, o Senhor não as concede senão raras vezes, e talvez aos espíritos mais fracos, para que não parem na car­reira espiritual. As delícias da recompensa, nos são preparadas por Ele no Céu. Este mundo é o lugar onde as adquirimos pela penitência; o Céu é o lugar da recom­pensa. Por consequência os Santos não se entregavam ao fervor com deleites, mas sim com penitências. O venerável João d’Ávila, dizia: (Audi. fil. C. 26.) «Oh! quão melhor é estar em secura e tentação com a vontade de Deus, do que em contempla­ção sem ela!»
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MÁXIMAS ESPIRITUAIS PARA UM PADRE

sacerAntes perder tudo, que perder a Deus.

Antes desagradar a todo o mundo, que desagradar a Deus.

Só é para temer o pecado, que nos deve causar horror.

Antes morrer do que cometer com advertência um só pecado, mesmo venial.

Tudo acaba; o mundo é uma cena, que passa depressa.

Cada momento vale um tesouro para a eternidade.

O que apraz a Deus é bom.

Fazei o que quereríeis ter feito à hora da morte.

Vivei como se no mundo só houvesse Deus e vós.

Só Deus contenta o homem. Continuar lendo

DO CONCURSO DO PAI, NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS

Resultado de imagem para familia numerosaOs deveres do pai, para com seu filho são os mesmos que os da mãe. Como a mãe deve possuir a ciência da educação, e como ela deve pôr ele todos os seus cuidados a cultivar o espírito e o coração dos entes que lhe devem a vida. Se neste pequeno livro nos dirigimos unicamente à mulher, é porque as mais das vezes, preocupado pelos interesses mate­riais, o pai esquece o que deve à cultura moral e religiosa dos seus filhos. Entendemos do nosso dever, que o melhor meio de fazer chegar ate si o conhe­cimento dos seus deveres, era instruir desses mesmos deveres a mãe de família.

Deveremos ao vosso zelo, mulher cristã, o não nos enganarmos na nossa espectativa, porque não contente por sentirdes vós mesma a soberana impor­tância duma boa educação, a fareis compreender a vosso marido. O amor que lhe tendes, deve forne­cer-vos meios para empreenderdes essa grande obra, porque se ele se conserva estranho e pior do que isso, rebelde, atrai sobre a sua cabeça a des­graça de Deus, tornando a vossa missão mais do que difícil, impossível. «Como falta o coração e a vida, diz Mgr. Dupanloup, numa educação em que a mãe não toma parte! E também que hesitações e fraquezas numa educação, de que o pai está muito ausente!

É necessário fazer compreender ao marido esta linguagem comovente: — «Deus confiou-nos, a ambos nós o dever de elevar para o Céu os frutos da nossa união; há de pedir-nos contas destes talentos que nos confiou; nós lhe restituiremos alma por alma, sem deixarmos perder os que Ele cometeu à nossa guarda.» Se o vosso marido não tiver fé, para apro­var estas considerações, que todavia são graves e cheias de verdade, fazei-lhe pelo menos compreen­der que só a educação cristã é que nos pode fazer felizes neste mundo. Citai-lhe, se ainda reagir, os exemplos infelizmente numerosíssimos de crianças que uma educação pouco cristã levou à libertinagem, e daí à desonra, à miséria, e tudo isso apesar da vergonha e da confusão dos próprios pais negli­gentes. Mostrai-lhe esses velhos esmagados pelo des­prezo daqueles a quem não ensinaram a respeitar Deus e a religião, com os deveres que ela impõe. Continuar lendo

COMO DEVEMOS FUGIR DA IGNORÂNCIA E TAMBÉM DA CURIOSIDADE

Resultado de imagem para lendoNesta batalha espiritual, não basta a confiança em Deus e a desconfiança de nós mesmos. Somente com estas duas armas, não nos venceremos a nós mesmos,mas cairemos muitas vezes. E assim, além destas duas virtudes, é necessário uma terceira coisa: o exercício.

É preciso exercitar a inteligência e a vontade.Quanto à inteligência, deve ela ser resguardada de duas coisas que a costumam obscurecer: a ignorância e a curiosidade.

A ignorância deixa a mente em trevas e impede que ela conheça a verdade, que é o objeto próprio da inteligência.

Com o exercício, devemos tornar a mente clara e lúcida, para que possa ver e discernir bem, quanto é mister para purificar a alma das paixões desordenadas e orná-la com as santas virtudes.

De dois modos poderemos obter este resultado, O primeiro, é o mais importante a oração. Peçamos ao Espírito Santo que se digne infundir suas luzes em nossos corações. E o Divino Espírito o fará, se, em verdade, procurarmos a Deus somente,e se, em todas as causas, pusermos o juízo dos nossos padres espirituais, acima do nosso.

O segundo modo é um contínuo, profundo e leal exame de nós mesmos, para ver se somos bons ou maus, não segundo a aparência boa ou má dos nossos atos, nem conforme o juízo dos sentidos e o critério do mundo, mas segundo o juízo do Espírito Santo. Continuar lendo

DO SOFRER OS DEFEITOS DOS OUTROS

Aquilo que o homem não pode emendar em si mesmo ou nos demais, deve-o tolerar com paciência, até que Deus disponha de outro modo. Considera que talvez seja melhor assim, para provar tua paciência, sem a qual não têm grande valor nossos méritos. Todavia, convém, nesses embaraços, pedir a Deus que te auxilie, para que os possas levar com seriedade.

Se alguém, com uma ou duas advertências, não se emendar, não contendas com ele; mas encomenda tudo a Deus para que seja feita a sua vontade, e seja ele honrado em todos os seus servos, pois sabe tirar bem do mal. Procura sofrer com paciência os defeitos e quaisquer imperfeições dos outros, pois tens também muitas que os outros têm de aturar. Se não te podes modificar como desejas, como pretendes ajeitar os outros à medida de teus desejos? Muito desejamos que os outros sejam perfeitos, e nem por isso emendamos as nossas faltas.

Queremos que os outros sejam corrigidos com rigor, e nós não queremos ser repreendidos. Estranhamos a larga liberdade dos outros, e não queremos sofrer recusa alguma. Queremos que os outros sejam apertados por estatutos e não toleramos nenhum constrangimento que nos coíba. Donde claramente se vê quão raras vezes tratamos o próximo como a nós mesmos. Se todos fossem perfeitos, que teríamos então de sofrer nós mesmos por amor de Deus?

Ora, Deus assim o dispôs para que aprendamos a carregar uns o fardo dos outros; porque ninguém há sem defeito; ninguém sem carga; ninguém com força e juízo bastante para si; mas cumpre que uns aos outros nos suportemos, consolemos, auxiliemos, instruamos e aconselhemos. Quanta virtude cada um possui, melhor se manifesta na ocasião da adversidade; pois as ocasiões não fazem o homem fraco, mas revelam o que ele é.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

A FELICIDADE DOS SANTOS

Resultado de imagem para rezandoTambém o homem justo, ao encerrar sua vida terrena no amor, já não poderá progredir na virtude. Para sempre continuará a amar no grau de caridade que atingiu até chegar até mim. Também será julgado na proporção do amor. Continuamente me deseja, continuamente me possui; suas aspirações não caem no vazio. Ao desejar, será saciado; ao saciar-se, sentirá ainda fome; distanciando-se, assim, do fastio da saciedade e do sofrimento da fome. Os bem-aventurados gozam da minha eterna visão. Cada um no seu grau, de acordo com a capacidade em que vieram participar de tudo o que possuo. Por terem vivido no meu amor e no amor dos homens; por terem praticado a caridade em geral e em particular, qual fruto de um único amor desfrutam – na alegria e gozo – dos bens pessoais e comuns que mereceram. Colocados entre os anjos e santos, com eles se rejubilam na proporção do bem praticado na terra. Entre si congraçados na caridade, os bem-aventurados de modo especial comunicam com aqueles que amaram no mundo. Realizam-no naquele mesmo amor que os fez crescer na graça e nas virtudes. Na terra, ajudavam-se uns aos outros; tal amor continua na eternidade. Conservam-no, partilham-no profundamente entre si; com maior intensidade até, associando-se à felicidade geral.

Não penses que a felicidade celeste seja apenas individual. Não! Ela é participada por todos os cidadãos da pátria, homens e anjos. Quando chega alguém à vida eterna, todos sentem a sua felicidade, da mesma forma como ele participa do prazer de todos. Não no sentido que os bem-aventurados progridam ou se enriqueçam, pois todos são perfeitos e não precisam de acréscimos. É uma felicidade, um prazer, um júbilo, uma alegria que se renova interiormente, ao tomarem eles conhecimento da riqueza espiritual do recém-chegado. Todos compreendem que ele foi elevado da terra à plenitude da graça por minha misericórdia; naquele que chegou todos se alegram, gratos pelos dons de mim recebidos. O novo eleito, igualmente, sente-se feliz em mim e nos bem-aventurados, neles contemplando a doçura do meu amor.
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DO PRECEPTOR

Resultado de imagem para modestia pinturaA educação que se faz inteiramente no seio da família, será preferível à que, tendo começado sob a inspeção materna, vai terminar num pensio­nado? Não ousamos responder a esta questão. O ilustre bispo de Orleans, a quem a grande expe­riência dá tanta autoridade sobre o que diz res­peito à mocidade, não quer que a educação pública comece muito cedo, mas julga-a preferível à edu­cação privada.

Digamos todavia algumas palavras, acerca do preceptor, porque um certo número de mulheres cristãs, não querendo ver seus filhos subtraídos à sua solicitude, ou querendo a todo o transe sub­traí-los às escolas sem Deus, os confiam a um pre­ceptor encarregado de os instruir, e de os educar, sob os olhos de seus pais. Entre as crianças, que, durante o ano escolar, seguem o curso dum pen­sionado, um grande número são confiadas, durante as férias à vigilância dum mestre, que lhes repete as lições do colégio. Não é, pois, inútil dizer à mãe quais devem ser as qualidades do preceptor de seu filho.

A fé, tal é a primeira e a mais essencial das con­dições a exigir dum mestre. Não é a fé efetivamente o que um homem tem de mais precioso neste mundo, visto que sem ela é impossível agradar a Deus, e esperar os bens eternos? E não é tão necessária esta virtude, visto que a mulher cristã deve pri­meiro que tudo conservá-la intacta no coração de seus filhos? Mas quem o não vê? Um preceptor incrédulo roubaria tanto mais facilmente a fé a um jovem, quanto maior influência tivesse sobre ele. Não ousaria de certo professar a impiedade, ou o racionalismo, numa casa, onde se conservam, como o mais sagrado depósito, as tradições religiosas dos antepas­sados; mas de quando em quando deixaria escorre­gar algumas palavras de dúvida ou de desprezo; deporia dessa forma no coração dos seus discípulos algum germem fatal de incredulidade, e a increduli­dade é um vento ardente que seca quanto de virtude possa existir num coração de criança. Continuar lendo

DA CONFIANÇA NO PATROCÍNIO DE MARIA SANTÍSSIMA

mariaQui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet  salutem a Domino— “Aquele que me achar, achará a vida, e terá do Senhor a salvação” (Prov. 8, 35).

Sumário. Quantas graças devemos dar à bondade divina por nos ter dado Maria por advogada! Ela é tão poderosa, que os seus rogos são sempre atendidos. Ela é também tão piedosa, que não sabe negar o seu socorro a quem quer que a invoque. Mais, nossa boa Mãe vai em busca dos miseráveis, a fim de os ajudar; pois mais desejo ela tem de nos fazer bem, que nós de o receber. Ai de nós, se nos viéssemos a perder! O patrocínio poderoso da Virgem seria no inferno um dos nossos tormentos mais graves, lembrando-nos que possuíamos um meio tão eficaz de salvação e não soubemos aproveitá-lo.

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Meu irmão, quando nos sentirmos culpados perante a justiça divina e já como que condenados ao inferno por causa dos nossos pecados, não nos entreguemos à desesperação; recorramos a Maria, refugiemo-nos debaixo de seu manto, e ela nos salvará. Tomemos a resolução de mudarmos de vida; tenhamos boa vontade e grande confiança no patrocínio de Maria e seremos salvos, porquanto ela é uma advogada poderosa e uma advogada piedosa.

Maria é uma advogada poderosa, porque, na palavra de Santo Antônio, sendo ela Mãe de Deus, os seus pedidos são para Jesus Cristo como outras tantas ordens, e é impossível que não sejam deferidos. Nem é somente uma advogada poderosa, mas, como se exprime Ricardo de São Lourenço, toda-poderosa; pois que é justo que a Mãe participe do poder do Filho; que é todo poderoso por natureza, fez a Mãe toda-poderosa pela graça; quer dizer que obtém tudo o que pede. — Por isso, São Gregório de Nicomedia, dirigindo-se à Virgem, diz: Ó Mãe de Deus, vós sois invencível e nada pode resistir ao vosso poder: já que o Criador considera a vossa glória como se fosse a sua própria. Continuar lendo

ABANDONAR A DEUS É PERECER

Resultado de imagem para morte voltaireAntes da conflagração européia de 1914, o escritor francês Henri Lavedan, era também ateu fanático. Ninguém como ele, sabia zombar de Deus e da religião. Todavia, ao romper a guerra, chamado às armas, retratou sua incredulidade, em comovente confissão ao povo francês:

“Escarneci da fé e julguei-me sábio … Iludi-me, a mim e a vós, que lestes os meus livros e cantastes os meus versos. Foi uma miragem, uma embriaguez, um sonho vão. Abandonar a Deus é perecer. Não sei se amanhã estarei vivo. Mas aos amigos devo dizer: Lavedan não ousa morrer como ímpio. Rejubila, minha alma, pois tive a felicidade de viver a hora em que caí de joelhos para dizer: “Creio em Deus, creio, creio!”

Foi apavorante o fim de Voltaire, o patriarca da impiedade. As armas de seu atilado espírito, empregava-as literalmente para espezinhar a fé e a moral cristã. Seu lema era: “Écrasez l’infame!” (Esmagava a infame, isto é, a Igreja Católica). Incalculável o número dos que se tornaram imorais e descrentes por causa da leitura de seus livros. Com razão é chamado “Pai da incredulidade”. Duma feita, contudo, o furioso negador de Deus ficou gravemente doente. Mandou chamar um sacerdote e quis confessar-se. Antes da absolvição retratou publicamente, em escrito ratificado por duas testemunhas, suas calúnias contra a Igreja e a Religião, e exprimiu sua confiança no perdão divino.

Ora, Voltaire não morreu. Restabelecido de sua enfermidade, foi ao teatro. Representava-se uma de suas peças, e lhe haviam preparado pomposa recepção. Seu busto foi levado ao palco e adornado de flores e grinaldas. E no fim de tudo, um dos atores pôs na cabeça do próprio Voltaire, uma coroa de louros. Tão envaidecido ele ficou, que novamente abandonou sua conversão, voltou para a companhia dos ímpios, continuando a ser o que dantes fôra: um incrédulo zombador. Continuar lendo

FRUTOS QUE PRODUZ A MEDITAÇÃO DE JESUS CRUCIFICADO

JesusSub umbra illius quem desideraveram sedi; et fructus eius dulcis gutturi meo — “Eu me sentei debaixo da sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e o seu fruto é doce ao meu paladar” (Cant. 2, 3).

Sumário. Representemo-nos muitas vezes Jesus agonizante sobre a cruz; detenhamo-nos em contemplar algum tempo as suas dores e o afeto com que sofreu, e disso tiraremos copiosos frutos de vida eterna. Da cruz de Jesus parte uma aragem celeste que suavemente nos desliga das coisas terrenas e nos torna leves todos os nossos trabalhos; acenderá em nós um santo ardor para sofrer e morrer por amor daquele que quis padecer e morrer por nosso amor. É sobre o Calvário que se formaram e ainda se formam os santos.

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Ó almas devotas, procuremos imitar a Esposa dos Cânticos sagrados, que se assentou debaixo da sombra daquele que era o único objeto dos seus desejos. Representemo-nos freqüentes vezes, especialmente nas sextas-feiras, Jesus moribundo sobre a cruz; ponhamo-nos a contemplar algum tempo com ternura as suas dores e o afeto que nos teve; e então bem poderemos dizer: E o seu fruto é doce ao meu paladar. É sobre o Calvário e pela contemplação de Jesus crucificado que se formaram em todos os tempos e ainda hoje se formam os santos.

No meio do tumulto deste mundo, das tentações do inferno e dos temores dos juízos divinos, oh! Quão doce repouso acham as almas amantes de Deus, ao contemplarem, a sós e em silêncio, o nosso amantíssimo Redentor, quando está em agonia ou derrama o seu divino sangue gota a gota, por todos os membros feridos e dilacerados pelos açoites, pelos espinhos e pelos cravos. Ah! Quão doces frutos ali colhem e que progressos tão rápidos fazem então no caminho da perfeição! — Sim, porque à vista de Jesus Cristo esvaecem-se do nosso espírito todos os desejos de grandezas mundanas, de riquezas terrestres, de prazeres dos sentidos! Sopra da Cruz uma aura celestial, que nos desprende docemente de todas as coisas da terra e nos faz reputar leves todos os nossos sofrimentos; mais: acende em nós um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que tanto quis sofrer e morrer por nosso amor. Pelo que dizia São Francisco de Sales: “Fixai Jesus crucificado em vosso coração, e todas as cruzes e espinhos deste mundo se vos afigurarão como rosas.” Continuar lendo

JESUS, NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, ESPERA-NOS COM EXTREMA MISERICÓRDIA

santIesus ergo fatigatus ex itinere, sedebat sic supra fontem — “Jesus, pois, fatigado do caminho, estava assim assentado sobre o poço” (Io. 4, 6).

Sumário. Assim como um dia o Senhor, todo bondade e amor, estava sentado à borda de um poço, esperando a Samaritana para a converter, assim agora, descido do céu sobre os nossos altares, que são outras tantas fontes de graças, permanece conosco, esperando as almas e convidando-as a lhe fazerem companhia. Animemo-nos, pois, a recorrer sempre a este divino Sacramento, abramos-lhe o coração, cheios de confiança, e peçamos-lhe tudo de que precisamos. Ao mesmo tempo entreguemo-nos com abandono filial à sua providência, certos de que disporá tudo para nosso bem.

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Oh, que belo espetáculo foi ver o nosso doce Redentor naquele dia em que, fatigado do caminho, se sentara, todo bondade e amor, à borda de um poço, esperando a Samaritana para a converter e salvar! Jesus estava assim sentado sobre o poço. Pois, com igual doçura o mesmo Jesus se conserva, dia a dia, no meio de nós, descido do céu sobre os nossos altares, como outras tantas fontes de graças, esperando as almas e convidando-as a Lhe fazerem companhia, ao menos por alguns instantes, a fim de as atrair ao seu perfeito amor.

Parece que de todos os altares, onde está Jesus sacramentado, fala assim a todos: “Filhos de Adão, porque fugis da minha presença? Porque não vindes a mim e não vos aproximais de mim, que tanto vos amo, e para vosso bem aqui estou no abatimento em que me vedes? Que temeis? Não é ainda como juiz que eu agora estou na terra; neste sacramento de amor me ocultei unicamente para encher de graças e salvar a quem quer que a mim recorra: Non veni, ut iudicem mundum, sed ut salvificem mundum (1) — Não vim a julgar o mundo, mas a salvá-lo.” Continuar lendo

O QUE FAZ O RÉPROBO NO INFERNO

infPeccator videbit et irascetur, dentibus suis fremet et tabescet; desiderium peccatorum peribit — “Vê-lo-á o pecador e se indignará; rangerá os dentes e se consumirá; o desejo dos pecadores perecerá” (Ps. 111, 10).

Sumário. O réprobo no inferno, vendo-se oprimido pelos seus tormentos inefáveis e desesperando de jamais remediar os seus males, será devorado por um ódio contínuo de Deus e amaldiçoará todos os benefícios que dele recebeu. Assim como amaldiçoa a Deus, amaldiçoará também todos os Anjos e Santos, e especialmente à divina Mãe, cuja intercessão não quis aproveitar. Ah, meu Jesus! Seja cortada antes a minha língua; protesto que nunca Vos quero amaldiçoar, mas sim louvar-Vos para sempre no paraíso.

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A alma, criada para amar o seu Criador, não pode deixar de sentir um impulso natural ao amor de seu último fim. Na vida presente, as trevas do pecado e os afetos terrenos podem entorpecer a inclinação da alma para se unir a Deus, e por isso não se aflige muito com a separação. Mas, quando sai do corpo e se vê livre dos sentidos, então vê claramente que só Deus a pode contentar. Pelo que procura ir logo unir-se a seu supremo Bem; mas achando-se em estado de pecado, vê que é repelida por Deus, como sua inimiga. Ainda que repelida, não deixará de se sentir sempre atraída à união com Deus, e o seu inferno consistirá em ver que sempre é atraída para Deus e sempre repelida por Ele.

Se a desgraçada, já que perdeu seu Deus e não O pode contemplar, pudesse ao menos consolar-se amando-O! Mas não, pelo abandono da graça, a sua vontade está pervertida. Por um lado, pois, ver-se-á sempre atraída a amar seu Deus; por outro, ver-se-á obrigada a odiá-Lo. Portanto, ao mesmo tempo que reconhece ser Deus digno de amor e louvor infinitos, odeia-O e amaldiçoa-O.  Se ainda naquela prisão de tormentos, pudesse resignar-se à vontade de Deus e bendizer a mão que com justiça a castiga, como fazem as almas do purgatório! Não pode, porém, resignar-se, pois que para isto deveria ser auxiliada pela graça; mas esta (como já ficou dito) abandonou-a; pelo que a sua vontade é inteiramente contraria à vontade divina.
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SOFRENDO COM CRISTO NAS ENFERMIDADES

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Quando nos submetemos completamente a Jesus Cristo, quando nossas almas respondem com um perpétuo amém a tudo o que Ele nos pede, então Jesus Cristo nos dá a sua paz: “Sua paz, não como a promete o mundo, mas a verdadeira paz  que não pode vir até nós senão d’Ele

Nossa pobre alma depende de tal modo do corpo que quando este sofre ou padece, ela não pode fazer grandes coisas. Mesmo a grande Santa Teresa, apesar de seu ardor e generosidade, lamentava-se amargamente sobre como a fraqueza de seu corpo impedia sua alma elevar-se a Deus em oração.

Quando suportamos pacientemente as enfermidades, somos muito mais agradáveis a Deus e estamos muito mais perto de Seu coração do que quando sentimos cheios de fervor e consolo, pois no primeiro caso temos o mérito do sacrifício e nosso amor dá provas mais certas de que é puro e sem interesse próprio.

Quando nos entregamos a Deus de todo o coração e com plena confiança, caímos nas mãos da Sabedoria e Amor infinitos. A partir desse momento, nem um cabelo de nossa cabeça cai sem o seu conhecimento ou permissão. Ele ordena tudo a esse grande fim: nossa união com Ele. Devemos amar n’Ele, e com Ele, e como Ele.

Somos os membros de Jesus e quando estamos no meio de uma enfermidade somos membros enfermos do Corpo Místico de Jesus. O Pai, contemplando-nos, vê seu Filho crucificado em nós e nosso estado se torna uma oração contínua. 

Nossa força deve ser Cristo. Devemos ser fracos, a fim de que a nossa fraqueza atraia sua compaixão e nos cumule de sua força: Ut inhabitet em mim virtus Christi: “A fim de que a força de Cristo habite em mim“. Unidos a Jesus, entramos com plenos direitos no sanctuarium exauditionis onde todas as solicitações são atendidas. Quando estamos fracos e enfermos, estamos como Jesus in sinu Patris “no seio do Pai“, porém na Cruz. Jesus na cruz, na agonia, na fraqueza, abandonado do Pai, estava sempre em sinu Patris, e nunca foi tão amado do Pai, nunca esteve tão perto do Pai.

Coisa excelente é aceitar das mãos do Senhor, sem reclamar, o corpo que temos recebido, com suas fraquezas, seus pesares, seus sofrimentos, e dizer como Jesus: Ó Pai, eu quero este corpo tal como há querido para mim, com tudo o que pode acarretar-me de penoso.

Sofrendo com Cristo  – Dom Columba Marmion

É PRECISO ESTARMOS SEMPRE PRONTOS PARA MORRER

morte1Et vos estote parati; quia, qua hora non putatis, Filius hominis veniet — “Vós outros, pois, estai preparados; porque na hora em que menos cuideis, virá o Filho do homem” (Luc. 12, 40).

Sumário. Não nos diz o Senhor que nos preparemos quando chegue a morte, mas que estejamos preparados. Porque, como ensina a fé e a razão confirma, na perturbação e confusão da morte será quase impossível por em ordem uma consciência perturbada. Quantos pensavam que se poderiam converter nesse momento e estão agora ardendo no inferno? Dize-me, meu irmão: se a morte te viesse surpreender na primeira noite, estarias bem preparado? Procura fazer agora o que então quiseras ter feito.

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Não nos diz o Senhor que nos preparemos quando chegar a morte; mas que estejamos preparados. Quando chega a morte, no meio da grande perturbação e confusão, será quase impossível por em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Assim também nos ameaça Deus, dizendo que então virá, não para perdoar, mas para punir o desprezo que fizermos das suas graças: Mihi vindicta, ego retribuam (1) — “A mim pertence a vingança, eu retribuirei”. Diz Santo Agostinho que será justíssimo castigo para quem não quis salvar-se quando pode, o não poder salvar-se quando quiser.

Dirá alguém todavia: Quem sabe? Talvez nesse momento me converta e me salve. Pois que! Lançar-te-ias num poço dizendo: Quem sabe? Talvez, atirando-me, fique com vida e não morra? Meu Deus! Que coisa! Como o pecado cega o espírito, a ponto de lhe fazer perder a razão! Quando se trata do corpo, falam os homens como sábios; e falam como insensatos quando se trata da alma.

Se algum infeliz, estando em pecado mortal, tivesse um ataque de apoplexia e ficasse sem sentidos, quanta compaixão não inspiraria a todos que o vissem morrer sem os sacramentos e sem sinal de penitência? Que consolação, ao contrário, se teria ao vê-lo voltar a si, pedir a confissão e fazer atos de contrição? Não será, pois, um insensato aquele que, podendo agora fazer isto, se deixa ficar no pecado ou torna mesmo a pecar, e se expõe ao perigo de ser colhido pela morte, num tempo em que talvez sim, talvez não o possa fazer?  Ficamos assustados pela morte repentina de uma pessoa, e tantos há que se expõem voluntariamente ao perigo de morrer assim e de morrer em pecado. Continuar lendo

NUM TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO

Resultado de imagem para revolução francesa igrejaNa revolução francesa de 1793, a igreja de São Pedro de Besançon foi entregue a um padre cismático. Os padres católicos, porém, fiéis às leis da Igreja, eram presos e assassinados pelos revolucionários.

Um destes padres, chamado João, ficara entre seus paroquianos disposto a sofrer tudo por Deus e pela Igreja. Andava disfarçado: botas largas, blusa de carroceiro, lenço grande ao pescoço e chicote em punho, lá ia pelas ruas visitando as casas de seus paroquianos. Levava pendurada ao cinturão uma caixinha em que se achava o necessário para administrar os sacramentos, bem como uma píxide de prata onde guardava o Santíssimo.

Passaram-se muitos meses sem que a polícia suspeitasse que naquele carroceiro se ocultava um sacerdote, que desempenhava seus ministérios. Afinal, um dia, foi descoberto e imediatamente conduzido ao tribunal revolucionário.

– Cidadão, que és tu?

– Sou o Padre João, ministro de Jesus Cristo.

– A lei não te proíbe exercer teu ministério? Continuar lendo

A DESCOBERTA DA OUTRA

gcorcao_back_brancoUm leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como “nova”, “progressista”, “evoluída”, uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responde­ria: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção.

Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina. Entre os textos conciliares, citamos os seguintes: Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et Spes); Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio); Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae); Discurso de Encerramento do Concílio, 7 de Dezembro de 1965; Institutio Generalis do Novus Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira redação, de 1967, e principalmente a segunda redação de 1970). Além desses documentos dos mais altos escalões, poderíamos encher as páginas deste jornal com obras e pronunciamentos de cardeais, arcebispos, bispos e padres que eram bisonhos, retraídos e discretos quando tinham vaga consciência de suas deficiências filosóficas e teológicas e que subitamente descobrem que na “nova Igreja” podem dizer tudo o que lhes vem à boca que fala ou à mão que escreve. O que menos se conhece é a Teologia, mas o que mais abunda na Nova Igreja são os “teólogos da libertação”.  Continuar lendo

DA EDUCAÇÃO, SUA NECESSIDADE

Resultado de imagem para batismoRegenerada pelas águas do batismo, a criança cresce pouco a pouco, e bem depressa começa, pelo seu sorriso, a dar o primeiro indício de inteligência. Então nascem novos deveres para a mãe; é mister que desde então se aplique com zelo à grande obra da educação. Educar a criança é cultivar o seu espírito, e o seu coração: o espírito enriquecendo-o com os conhecimentos necessários ou úteis: o cora­ção, sufocando nele o gérmen das paixões e dos vícios, que crescem conosco, e implantando nele o amor do bem e da virtude.

Em grande número dos nossos Livros canônicos a obrigação que Deus deu à mãe de bem educar os seus filhos, é expressa com tanta clareza, como força; e acerca deste assunto, os mais sagrados interesses das crianças, os dos pais e os da própria sociedade, se unem à voz de Deus, para repetir a todas as mães, pela boca do grande Apóstolo: — «Educai os vossos filhos segundo a lei, e no temor do Senhor» (S. Paulo ad Eph. VI, 4.)

O homem não abandonará na velhice o ca­minho que tiver seguido na adolescência; e é isso o que faz a desgraça quase irreparável de quem tiver recebido dos pais uma má educação ou sim­plesmente nula.

Infeliz! privado muito novo de sua mãe, ou tendo uma mãe negligente, sem ter ninguém que lance no seu espírito a semente da divina palavra não sendo instruído nos seus deveres de cristão; sem ninguém para vigiar pela sua inocência; sem ter quem lhe arranque do coração os primeiros ger­mens das paixões nascentes, e cultivar as flores das virtudes cristãs. Que pode ser uma criança nestas condições? Crescem as más ervas na terra inculta da alma, e o mal desenvolve-se, sufocando todos os germens de bem. Fortificando-se nele diariamente, as tendências perversas, deixam acrescer raízes cada vez mais profundas. Como é possível deter os des­troços desta torrente devastadora, que têm origem numa educação má, ou simplesmente desprezada? Onde arrastarão a sua vítima? Talvez à condenação eterna, porque a árvore cai para onde pendia. É, pois, bem de recear que o mau, avergado sob o peso do pecado para os abismos do inferno, aí vã precipitar-se. Continuar lendo

UMA FONTE DE ENERGIA – ORAÇÃO

Resultado de imagem para rezando catolicaA oração é um colóquio de amor com Deus. A criança, que ama verdadeiramente os pais, gosta de falar com eles, manifesta-lhes tudo que agita o seu coração. Cada alegria que sente, vai logo comunicá-la à mãe, ou ao pai; expõe-lhes todas as suas dores; narra-lhes os seus receios; conta-lhes os seus interesses.

Se a criança passasse com seus pais um dia inteiro, sem lhes dirigir uma só palavra, teriam muita razão em se queixar: nosso filho não nos ama, pois se nos amasse seria mais comunicativo conosco. É o que dará contigo, jovem cristã, se amares a Deus e Vosso Salvador, verdadeiramente, e de coração, sentir-se-ás necessariamente compelida a falar com Ele, a entreter-se com Ele, isto é, a rezar. A oração é para ti um dever sagrado, que não hás de omitir um só dia sequer.

1º – A oração te enobrece.

Conta-se que a opala à luz solar por muito tempo, é penetrada tão profundamente pelos raios, que (esta pedra) se torna inteiramente luminosa, e na escuridão da noite, irradia uma luz brilhante.

A opala é a imagem da alma, que na oração, se põe em contato com o Altíssimo.

A alma, quando reza, entra em relação íntima com Deus, infinitamente grande, infinitamente perfeito e santo. A luz de Deus, os raios da Sua santidade e magnificência atuam sobre ela. Deus a alumia e a penetra cada vez mais com Sua graça, a atrai cada vez mais para si, eleva-a e a enobrece. A alma, pela oração, torna-se semelhante a Deus. Aqui, também, viria muito a propósito o brocardo: “Dize-me com quem andas e dir-te-eis quem és”. Continuar lendo

ESTOU SÓ

“Disse-lhes, então: Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo”. (Mt 26,38)

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Padre Juan Manuel Rodríguez de la Rosa – Adelante la Fe | Tradução Sensus fidei:

Queridos irmãos, possivelmente conhecemos pessoas que se lamentam de sua solidão, ainda mesmo quando estão acompanhadas. O que acontece, muito provavelmente, é que essas pessoas querem ser ouvidas, querem consolo, mas realmente não estão com o Senhor. N’Ele está toda a resposta para a nossa vida. Se entendêssemos que Ele está conosco, não se chegaria a esta situação de solidão.

Muitas pessoas que se sentem sozinhas, sem uma explicação óbvia, pois nada lhes falta, estão de boa saúde, tudo o que elas realmente esperam é que alguém lhes telefone ou as visite. Verdadeiramente elas não têm o pensamento no Senhor. O que o Senhor deseja é que pensemos n’Ele; e se o fizéssemos realmente as horas do dia não nos seriam suficientes.

Saem, vão daqui para lá, e quando as atividades cessam sobrevém a solidão, e apenas esperam que as atividades voltem para continuar distraindo-as. Não pensam que nesses momentos de solidão o Senhor pode presenteá-las, se compartilhassem o tempo com Ele, acompanhando-O, Ele que espera ansiosamente nossa atenção e carinho. Esses momentos de oração que já estão tão esquecidos!

Quanto tempo para o Senhor? Quem está impossibilitado de visitá-lo no Sacrário, pode fazê-lo espiritualmente. Pode dedicar-lhe momentos de íntima oração em casa. Conversar com Ele. O próprio Senhor está verdadeiramente sozinho. Se pensarmos bem, os que se queixam de sua solidão não expressam nada mais do que puro egoísmo, puro desejo de ser consolados. Cada um vive a sua vida, e quando cessam as suas atividades sobrevêm-lhes a solidão. Continuar lendo

QUERO IR AONDE ESTÁ JESUS

Resultado de imagem para luz sacrarioUm pastor protestante, inclinado já ao catolicismo, foi um dia com sua filhinha em visita à capital da Inglaterra. A menina contava apenas cinco anos.

O pai levou-a primeiro a uma igreja Católica e a atenção da pequena ficou muito tempo presa a lâmpada do Santíssimo.

– Papai, – disse – para que aquela lampadazinha?

– Filha, é para lembrar a presença de Jesus atrás daquela portinha dourada.

– Papai, eu quero ver Jesus!

– Filha, a porta está trancada e Ele está escondido debaixo de um véu, não o poderás ver…

– Ah! papai, quanto eu quisera ver Jesus!…

Saindo dali, entraram logo depois num templo protestante, onde não havia nem imagens, nem lâmpada nem sacrário.

– Papai, por que não há lâmpada aqui? Continuar lendo

HAVERÁ FELICIDADE SEM DEUS?

Resultado de imagem para pensativoMais cedo ou mais tarde a vida te ensinará quanto vou afirmando; entremente, quisera que me acreditasses.

Sem fé, sem esperança, sem amor de Deus não há verdadeira felicidade para o homem. Por que? Porque a alma foi criada por Deus e para Deus, e nosso coração está inquieto enquanto não acha descanso no Criador.

A alma humana não pode encontrar a felicidade fora de Deus. Todo o universo está subordinado a leis próprias:

O astro não se detém, mas sem parar segue em sua órbita. O fogo só pode flamejar para o alto. A pedra vai unicamente para baixo. Experimenta misturar o óleo com a água; impossível, pois o óleo volta à tona. Tenta equilibrar água sobre azeite; impossível, ela desce. Tudo é regido pela natureza. Cada criatura move-se, turbilhona e procura seu lugar; a paz e quietude, só depois de acertar cada uma com sua posição natural.

Afasta a alma de Deus; ela fica desassossegada, agita-se, geme, procura, até encontrá-lo novamente.

Quando Lenau perdera a fé, difícil lhe foi descrever o vazio de sua alma desviada de Deus: O mundo era urna como cidade abandonada, varrida pela morte, ruas compridas e escuras, onde ele andava às apalpadelas. Em cada janela via o olhar tétrico da morte e da ruina … E escreve: Continuar lendo

AMOR DE DEUS

mocaMuitas jovens cristãs se têm distinguido por uma grande piedade, que consiste no amor de Deus e na fidelidade ao Divino Salvador. Estavam resolvidas a sofrer tudo de boa vontade, a sacrificar até a própria vida, para não ofenderem a Deus e se não tornarem infiéis ao Seu Salvador. A mártir Santa Susana brilhava em Roma pela alta nobreza do seu nascimento e pelos dotes excepcionais de espírito e de corpo. O Imperador Diocleciano desejava, então dá-la por esposa a seu cor-regente Galério Maximiano, e para este fim pediu-a ao pai. Dirigiu-se este imediatamente, à casa da filha e assim lhe falou:

– “Minha filha, compreendeste bem o valor e a superioridade de ser esposa de Cristo?”

– “Eu o conheço tão bem – replicou Susana – que em minha opinião, todas as coroas deste mundo nada são comparadas com Ele”.

Instou Gabino? “Julgas retamente. Mas, se o Imperador te destinasse para esposa de Galério, a dignidade de imperatriz não venceria o teu amor ao Salvador Crucificado? Serás, acaso, bastante forte, para preferir, por amor de Cristo, morte cruel a cingir a

coroa de Imperatriz?” Radiante de júbilo, respondeu Susana: – “Ah! meu querido pai, quanto não me sentiria feliz, se me fosse concedido sacrificar a vida por amor ao divino esposo, que derramou Seu sangue pela minha salvação! Nenhuma púrpura seduz-me, nenhum martírio me atemoriza!”

– “É o que provarás dentro em breve”, respondeu comovido o pai cristão, animando a filha, para o combate iminente. A todos os engodos e adulações, como também as ameaças e injúrias, Susana opôs inabalável firmeza. Os mais cruéis martírios, nem sequer um instante a fizeram vacilar no seu amor ao Divino Salvador. Não precisas, leitora cristã, sofrer pelo teu Divino Salvador, a morte violenta pelo martírio doloroso: deves, todavia oferecer-Lhe o primeiro lugar no teu coração juvenil; quer te chame Deus para o matrimônio, quer para o estado religioso ou para uma constante vida de solteira no mundo. Continuar lendo

A ENFERMIDADE É A PEDRA DE TOQUE DA ALMA…

Resultado de imagem para doente quadro… porque a enfermidade e a doença des­cobrem o caráter da virtude que a alma possui. Se uma pessoa se não desassossega, se não se queixa, se não dá inquietação, se obedece às pessoas, que tratam, e a seus superiores, e se está perfeitamente tranquila e resignada à vontade divina, sinais são estes de que possui muita virtude. Mas que diremos daquele doente, que se queixa e diz: que não é bem tratado? que suas dores são insuportáveis? que nada o me­lhora? que seu médico é ignorante? E que mesmo algumas vezes se queixa, de que a mão de Deus pesa sobre ele? S. Boaventura relata na vida de S. Francisco (C. 14) que o Santo achando-se atacado de extraor­dinários padecimentos, um dos seus reli­giosos lhe dissera: «Padre, pedi a Deus que vos trate mais benignamente: porque a sua mão carrega demasiado sobre vós.» Ao ouvir isto replicou S. Francisco em alta voz: «Se eu não soubesse que o que dizeis pro­cede da simplicidade, não vos quereria ver mais, por vos terdes atrevido a repreender os juízos de Deus.» Dizendo isto, posto que fraco e extenuado pelas dores e pela moléstia, lançou-se fora da cama sobre o duro chão, e beijando-o, exclamou: «Mil graças te sejam dadas, ó Senhor, pelo padecimento que me mandaste. Peço-te que m’o mandes maior, se essa for a tua divina vontade. De­sejo que me aflijas e não me poupes na menor coisa; porque o cumprimento da Vossa vontade é a maior consolação, que posso receber nesta vida.»

Tem esta conformidade referência tam­bém à perda de pessoas, que promovem o nosso bem temporal e espiritual. Pessoas assaz devotas são muitas vezes culpáveis neste ponto, não se resignando às divinas determinações. A nossa santificação deve proceder de Deus, e não de nossos espirituais diretores. É Sua vontade que nos aproveitemos deles para guia da alma, quando no-los dá: porém quando no-los tira de­vemos conformar-nos, e aumentar nossa confiança na Sua bondade, dizendo: «Vós, ó Senhor, me deste este socorro, e agora m’o tiraste, bendita seja para sempre a Vossa vontade, porque tu mesmo suprirás essa falta, e me ensinarás como Vos devo servir.» Igualmente devemos aceitar das mãos de Deus, outra qualquer cruz que Ele Se digne enviar-nos. Mas tantos padecimentos, direis vós, são castigos. Eu respondo: «Acaso não são os castigos, que Deus nos envia nesta vida, graças e benefícios? Se O temos ofendido, é necessário satisfazer à divina justiça de algum modo, ou nesta ou na vida futura. A isto exclamaremos com Santo Agostinho: «Cortai e queimai aqui, ó Se­nhor, mas poupai-me na outra vida.» E com o Santo Job: «Seja consolação minha que, afligindo-me com tristeza, Ele me não poupe.» (VI. 10.) Aquele que tem merecido o inferno, deve consolar-se, quando Deus o castiga neste mundo, porque isto lhe inspirará a esperança, de que Deus o isen­tará do castigo eterno. Digamos então quando Deus nos pune, o que dizia o sumo sacerdote Heli: «É o Senhor; faça Ele o que for justo e agradável a seus olhos. (I.. dos Reis III. 18.)

Tratado da conformidade com a vontade de Deus – Santo Afonso

O OLHAR, O PENSAMENTO E O PECADO

EysNão terás pensamentos ou desejos impuros.
(Nono Mandamento)

“Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia”. (Tg 1,14)

Tudo começa com o olhar

Pe. Juan Manuel Rodriguez de la Rosa – Adelante la Fe | Tradução Sensus fidei

Queridos irmãos, muitos não são conscientes da importância do olhar para se evitar a pecar, pois peca-se com o olhar. Olha-se de cima para baixo, de baixo para cima. Não se vigia o olhar. Não se olha para a alma das pessoas com os olhos, olha-se com desejo para o corpo. Atraído pela aparência, há quem se enfraqueça até cair em pecado. Olha-se com desejo, com o pensamento dissoluto, deleita-se e a alma peca. É necessário aprender a vigiar o olhar.

Tudo começa com o olhar. Quando alguém vê algo desagradável, rapidamente afasta o olhar, esforça-se para não olhar. Mas se, depois, vê algo ou alguém agradável, delicia-se com o prazer dos sentidos. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt. 26, 41). Abre-se a brecha para o pecado. Entra o desejo daquele que é olhado, o desejo da pessoa para a qual se olha. Muitos não entendem que por trás de algo, dizem, que é superficial, justificável e normal, na verdade, está a tentação do demônio. Lembremos as palavras do Apóstolo: “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares”. (Ef 6,12). Nas lutas interiores da alma acrescentam-se as acometidas e tentações exteriores, que algumas vezes combatem abertamente, e outras por caminhos ocultos que introduzem a alma em tal estado de paixão cega que não pode ver-se livre por si mesma.

Quando na alma entra o espírito maligno, a malícia espiritual, ouve-se: Eu quero teu corpo. É o desejo pela pessoa para a qual o olhar se deleitou com atenção e prazer. Aquele corpo que se olhou com aparente normalidade, porque era belo, agora deseja-se cegamente, apaixonadamente. Continuar lendo