IMAGEM DA VIRGEM NA FLORESTA

rezNuma das nossas excursões de férias com meus alunos, chegamos de uma feita a uma floresta esplêndida e acampamos numa linda clareira. Em derredor havia veredas silenciosas, e, a alguns minutos do acampamento, onde se divertiam pássaros e esquilos, um carvalho colossal, onde se afixava belíssima imagem de Nossa Senhora.

À tarde houve uma briga entre alguns rapazes. Caçoavam um com o outro e se provocavam. Afinal, um deles perdeu a paciência; avançou contra o contendor e, sem hesitações, começou uma pancadaria em regra. Não foi bonito, isso não, mas o que aconteceu, aconteceu!

Mais ou menos uma hora mais tarde, eu andava sozinho por um dos atalhos e refletia sobre a repreensão que daria aos pequenos delinquentes.

Chego à imagem da Virgem. Que vejo? Um dos briguentos está lá, de joelhos. O sol derrama seus raios sobre sua cabeça inclinada. Seu coração pulsa forte. A. Mãe de Deus olha complacente o menino ajoelhado, já estou perto dele, quando me avista. Depressa, quase assustado, se levanta. Uma grossa lágrima lhe corre pelas faces. Disse-lhe algumas palavras e segui meu caminho, mas com intensa alegria no coração…

Isso sim, é um jovem varonilmente piedoso. A religião lhe é força e consolação. Ee deu um passo em falso, como a qualquer pode acontecer, mas tratou de reparar sua falta e aprender para o futuro: nem todos costumam proceder assim, à noite, os contendores eram de novo bons amigos. Continuar lendo

A PRODIGIOSA CALMA DO CORONEL

Na guerra da Criméia um coronel francês recebe a ordem de apoderar-se de um fortim. Sem hesitar um instante, avança à frente de seu regimento, que ficou também eletrizado à vista de tamanha coragem. Calmo e impassível no meio das metralhadoras e baionetas, como se se encontrasse numa parada militar, toma de assalto a bateria inimiga, terrivelmente defendida pelos russos.

Seu general, admirado de tão prodigiosa calma, exclama perante o Estado Maior:

– Coronel, que sangue frio! Onde aprendeste tamanha calma no meio de tão grande perigo?

– Meu general, responde com tôda a simplicidade o coronel, é porque eu comunguei esta manhã.

Honra ao coronel valoroso e cristão, e valoroso justamente porque cristão: e cristão não daqueles, que se envergonham de sua fé ou se contentam com a comunhão de Páscoa, mas dos fervorosos que sabem alimentar-se do Pão dos fortes com frequência e particularmente nas circunstâncias difíceis da vida.

Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves

VIDA INTELECTUAL VERSUS VIDA DE CURIOSIDADE

(Esta conferência foi proferida na Jornada de Formação do MJCB em 2012. Apresentamos aqui a sua transcrição). 

Pe. Luiz Cláudio Camargo FSSPX

A obra que estamos propondo realizar, em nossos priorados, consiste exatamente na idéia da universidade: versus unum. A universidade é a reunião de todas as faculdades, iluminadas pela Teologia. A nossa vida precisa alcançar essa unidade mais elevada, e o lugar privilegiado para isso, na situação em que nos encontramos hoje, são os nossos priorados.

Quero comparar aqui os elementos normais da vida intelectual — o ato, a estrutura da vida interior — com a sua deformação. Gostaria de comparar a vida intelectual com a vida de curiosidade, e daí tentar tirar os conselhos práticos para a vida especulativa. 

Pode-se dizer que há duas partes no esforço intelectual. Em primeiro lugar, há o que se pode chamar de studium, o estudo. Em latim, a palavra studium significa esforço. É interessante notar que toda a primeira parte, a do esforço intelectual, por causa da união e da relação entre o corpo e a alma, é necessária para se chegar ao ato específico em que a inteligência enxerga o seu objeto. Exige-se um esforço muito grande. O modo pelo qual chegamos ao conhecimento é um modo laborioso. Chamamo-lo de modo racional. É necessário ruminar até se chegar ao saber. Em seguida, temos um ato próprio, específico. O efeito próprio pelo qual a inteligência vê o seu objeto, alcança-o, pode ser chamado de gaudium. Então, alcança-se a idéia e a alma repousa.

Veremos quais as condições desses três passos numa vida intelectual normal, e a sua deformação numa vida de curiosidade.

A primeira consideração, nessa primeira etapa do studium, é a de que, como já se viu, não tratamos de uma atividade qualquer na vida do homem, mas da sua própria essência. Por isso, falamos de uma vida intelectual, e não simplesmente de uma atividade intelectual. É, portanto, necessário organizar a vida. É necessário colocar o saber como o princípio que organizará toda a vida. Continuar lendo

CUIDADOS ESPIRITUAIS – O BATISMO

abcSegundo o testemunho de S. Francisco de Sales, Santa Mônica, durante a sua gravidez, oferecia a Deus cem vezes por dia, seu filho Santo Agosti­nho.— Depois que aprouve ao Céu fecundar o seu casamento, M.rae de Boisy, mãe de S. Francisco de Sales, gostava de ir muitas vezes, perante os alta­res, dar expansão à sua alma reconhecida. 

— M.me Acarie consagrou os seus filhos a Deus, antes mesmo de nascerem, e sua segunda filha declarou que devia a essa consagração, que tinha precedido o seu nas­cimento, a inclinação que sentiu para a vida religiosa, desde a sua primeira infância. Durante o período da gravidez, a mãe de S. Bernardo aproximava-se fre­qüentemente da sagrada mesa afim de que Jesus Cristo, descendo muitas vezes para ela aí colocasse um gérmen de salvação, para a criança que havia de vir ao mundo. Devemos dizer, de passagem, que se uma mulher previsse que, sendo mãe, corria perigo de morte, seria obrigada, sob pena de pecado mortal a confessar-se de todas as faltas cometidas, e tam­bém a comungar. Além disso, toda a mãe que tem fé, esforça-se por meio da oração, pela freqüência dos sacramentos, e por uma vida santa, a atrair sobre o fruto, que traz no seio, a graça do batismo, sem cuja recepção o Céu está fechado às nossas almas.

Todos nós nascemos efetivamente, manchados pelo pecado original, privados da amizade de Deus, e indignos de O possuir na glória; é um ponto in­contestável da nossa fé. Para lavar em nós a man­cha impressa pela desobediência de Adão, para adquirir a vida da graça, e o direito à posse de Deus, é absolutamente necessário o batismo. Ninguém — diz a Verdade eterna — pode entrar no reino de Deus, se não for regenerado pela água do batismo, e pela virtude do Espírito Santo. Continuar lendo

O ÓDIO DE SATANÁS CONTRA A MISSA (TRIDENTINA)

SntMssFonte: FSSPX Sudamerica – Tradução: Sensus fidei

Em 1957 Jean Ousset publicava sua obra-prima, “Para que Ele reine”. O texto a seguir se encontra nas primeiras edições, tanto francesas como espanholas. Em perfeito acordo com a doutrina tradicional da Igreja, o autor mostra-nos aqui como a Missa (Tridentina) está no centro do combate apocalíptico que se desenvolve entre a revolução satânica e a Igreja. Com esta precisão, no entanto: a Missa sim, mas “a Missa dita e bem dita”, ou seja, de acordo com a vontade mesma de Deus expressa pelos sagrados cânones da Igreja.

Consideremos que a Missa nova como celebrada hoje, ainda não tinha sido inventada pelo Padre Bugnini, de infeliz memória, mas já se começava a difundir no clero um espírito de inovação que logo acabaria em desastre conciliar e pós-conciliar.

Estas páginas são admiráveis e merecem ser lidas e meditadas por todos os que desejam trabalhar de forma eficaz “para que Ele reine”. Trata-se, em primeiro lugar, pela Missa que Nosso Senhor reinará nos corações e nas instituições sociais ou políticas para que as almas se salvem.

Mons. Lefebvre aprovou integralmente não só o livro, mas também a obra da Cidade Católica, com todos os princípios doutrinais e modos de ação que ela professava e que o livro expõe.

Ignoramos as razões pelas quais este capítulo fundamental sobre a Missa foi suprimido das edições posteriores.[1] Mas é evidente que ele não se encaixa absolutamente nem com os novos ensinamentos ecumênicos e liberais do Concílio Vaticano II, nem com o rito reformado da nova missa que os expressa. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 11 (FINAL)

esc6DIÁLOGO ENTRE O DIRETOR E O ESCRUPULOSO

diretor. Conheço os males de que a vossa pobre alma sofre; compadeço-me deles do fundo de minhas entranhas; qui­sera curá-los; mas sabeis qual seria o meio disso, depois de tudo o que acabais de ler?

escrupuloso. Não; ignoro-o, e desejo vivamente que mo ensineis.

diretor. Tende uma confiança sem li­mites na misericórdia divina pela me­diação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que derramou o Seu sangue por vós, que vos procurou como uma ovelha desgarrada através das sarças e dos espinhos, e que quis expiar pessoalmente os vossos peca­dos para vos dar a paz e a salvação. Poderíeis desesperar e perder confiança à vista do que Deus fez por vós dando-vos Seu Filho, que se fez a Si mesmo vítima por vós? Que há que não obtenhais pela mediação de Jesus Cristo? Que há que não acheis n’Ele? Força, luz, justiça, santidade, con­solação, perseverança; porquanto Jesus Cristo é um dom universal em quem estão encerrados todos os outros dons e todos os tesouros da graça. “Dando-nos seu Filho, diz S. Paulo, Deus não nos deu todas as coisas com Ele?” (Rom 8, 33). Deu-no-lo para ser o suplemento universal de todas as nossas misérias, de toda a nossa in­dignidade. E que quereríamos que Deus fizesse a mais para nos inspirar sentimentos de confiança e de amor? Que pode Ele acres­centar a admirável economia da redenção, da religião, dos sacramentos, da mediação da SS. Virgem, de tantos caminhos abertas à vossa confiança?

escrupuloso. Mas eu não mereço se­não os repúdios e a indignação de Deus; todas as minhas orações são más, e Deus não pode escutar-me.

diretor. Mas Jesus Cristo, o Filho úni­co do Pai, que intercede por nós, que por nós oferece o preço dos Seus méritos, do Seu sangue e dos Seus trabalhos, não me­rece bem ser escutado em nosso favor? Poderíamos crer que tal Pai pudesse re­cusar alguma coisa a tal Filho que Lhe oferece tal preço? Este pensamento não seria injurioso tanto ao Pai como ao Filho? Continuar lendo

O QUE É ESQUECER-SE?

despAquele que se entrega a Deus já não se pertence. Deixa de existir aos seus próprios olhos, não vive em si mesmo, mas nAquele a quem se entregou, e não tem outros interesses a não ser os do Mestre.

Esquecer-se de si próprio, por amor, eis a grande lei de toda a vida espiritual. Esquecer-se é excluir das ações, sofrimentos e orações todo o cálculo humano, toda a sombra se amor-próprio ou intenção egoísta.

Esquecer-se é aceitar simplesmente da mão de Deus todas as responsabilidades, todos os deveres, todos os sofrimentos, todas as contrariedades, sem queixumes, sem pretender sobressair por isso, sem examinar a duração e a natureza das próprias penas ou sacrifícios, tal como se eles tivessem atingido outra pessoa.

Esquecer-se é moderar a procura de satisfações pessoais, fugindo das ilícitas e só escolhendo das outras as que a Providência tiver preparado.

Esquecer-se é avaliar-se pelo seu justo valor, isto é, como um mísero pecador; é afastar da memória própria e alheia as qualidades e obras pessoais; é mesmo evitar um olhar ansioso e demorado sobre as próprias fraquezas.

Esquecer-se é desaparecer aos próprios olhos, por um ato de vontade, para não ver em si e nos outros, nas pessoas e nas coisas, senão Jesus e a Sua santa vontade. Continuar lendo

RELIGIOSIDADE VARONIL

mocoMuitos jovens se afastam da vida religiosa ao verificarem o contraste entre a aparente religiosidade exterior de alguns companheiros e sua esterilidade espiritual. Outros, trazem a prática da religião demasiado sentimento e por seu sentimentalismo fazem com que a religiosidade seja mal interpretada pelas pessoas sérias. Religiosidade é o culto de Deus conjuntamente prestado pela razão, o coração e a vontade. O coração ou sentimento tem, pois, também seu papel, mas um elemento não deve demasiar-se em deferimento dos outros dois. Da religiosidade exageradamente sentimental pode-se dizer o que, infelizmente, alguns afirmam de toda a religiosidade: ela é própria só para o povo e as mulheres.

Como? A religião é boa somente para o povo e as mulheres? Para os cultos, inteligentes homens modernos não serve? — Certo que serve! A religiosidade bem compreendida, real, varonil, serve e sem contestação!

E quando será ela, real e varonil?

Podem alguns ter idéias de religião adulterada quanto o quiserem; não poderão negar que ela é um dos mais belos ornatos que constituem a verdadeira nobreza do homem.

Em nossos tempos, tentaram tirar à religião sua autenticidade, e substituí-la por diversas especulações científicas; em vão! Onde se atacou a religião, começou a decadência da virtude, da honestidade, do sentimento do dever, da consciência, do caráter, — numa palavra, dos mais belos ideais da humanidade. Podemos buscar exemplos na história dos antigos gregos, dos romanos e outros povos. Ali, a vida dos próprios sábios, que procuravam tudo o que era bom e nobre, não se isentava de falhas, porque eles não conheciam a ver dadeira religiosidade.

Mas, que é a verdadeira religiosidade? Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 10

esc5CONDUTA DO CONFESSOR DOS ESCRUPULOSOS CONSOANTE O ABADE BOUDON

Primeiramente, não se pode dizer bas­tante o quanto é grande a necessidade de um diretor experimentado nesses ca­minhos; os que têm apenas ciência po­dem ser prejudiciais em várias ocasiões, porquanto, além do conhecimento que a ciência dá da diferença entre o pensa­mento e o consentimento da vontade, é necessário penetrar bem o que se passa no interior da pessoa que pede conselho.

É preciso ter bastante luz para preve­nir essas almas aflitas, para entender o que elas não podem explicar, para lhes dizer o que elas não dizem, para lhes dis­cernir as operações interiores onde elas não vêem gota, para ter clarezas no meio das trevas, para tranquilizá-las onde elas não fazem senão temer, para as manter firmes onde elas só fazem duvidar e tre­mer. Enfim, é preciso um diretor cheio de uma caridade extraordinária para supor­tar brandamente os escrúpulos dessas pes­soas, que às vezes são ridículas sem razão, sem fundamento, ou que são cheias de vergonha pelos pensamentos extravagan­tes que sugerem, ou repulsivas pela sua obstinação, que é o seu defeito comum. 

Tudo isso reclama uma caridade extraor­dinária. “Há almas, diz Santa Teresa, que são bastante afligidas, para que as pessoas as aflijam ainda mais; do contrário, o coração se lhes fecha, elas são lançadas num abatimento extremo, são desanima­das, e às vezes esses repúdios e essas severidades as tentam de despero”. Santo Inácio, que foi rudemente provado pelos escrúpulos, um dia foi tentado de se preci­pitar do alto de uma casa a baixo, tama­nha era a aflição que o premia. Quantas vezes ele foi tentado a abandonar as vias da perfeição! O demônio sugeria-lhe vol­tar a uma vida comum, que lhe fazia pa­recer não estar sujeita a todas essas pro­vações. Viram-se espíritos mais fortes, grandes teólogos, que davam soluções de todas as coisas, cair em escrúpulos; conhe­ci alguns que eram dotados de grande juí­zo, que não tinham falta de luzes nem de doutrina, mas eram trabalhados por escrúpulos de uma maneira que se custa­ria a crer, sendo os seus escrúpulos coisa de nada e puras bagatelas. Mas aquele que não é tentado, que é que sabe? Sai­bam os espíritos mais seguros que, se Deus os abandonasse o menos que fosse a es­sas tentações, muitas vezes eles seriam mais ridículos do que aqueles que eles cus­tam a suportar. Entretanto, a caridade de­ve ser acompanhada de uma certa firmeza para os impedir de dar novas oca­siões aos seus escrúpulos, não se sofrendo que eles reiterem as suas confissões, e coisas semelhantes de que vamos falar. Continuar lendo

15 DE AGOSTO – ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

assumAstitit regina a dextris tuis, in vestitu deaurato, circumdata varietate – «Apresentou-se a rainha à tua direita, com manto de ouro, cercada de variedade» (Sl. 44, 10)

Sumário. Maria morre, e acompanhada de inúmeros espíritos celestiais e de seu próprio Filho, entra no céu em alma e corpo. Deus abraça-a, abençoa-a e a faz Rainha do universo, elevando-a acima de todos os anjos e santos. Regozijemo-nos com a divina Mãe, que é também a nossa, e avivemos a nossa confiança nela, invocando-a em todas as nossas necessidades. Roguemos-lhe sobretudo que, assim como ela morreu de puro amor a Deus, possamos nós morrer ao menos com contrição dos nossos pecados.

*******************************

Maria morre, mas como? Morre toda desapegada do afeto às criaturas, e morre consumida pelo divino amor, de que o seu santíssimo coração estava sempre todo abrasado. Ó santa Mãe, ides deixar a terra: não vos esqueçais de nós, pobres peregrinos, que ainda ficamos neste vale de lágrimas, combatidos por tantos inimigos, que desejam a nossa perdição eterna. Pelos merecimentos da vossa preciosa morte, vos suplicamos que nos obtenhais o desapego das coisas terrestres, o perdão dos pecados, o amor de Deus e a santa perseverança. E, quando chegar a hora da nossa morte, assisti-nos lá do alto do céu, com a vossa intercessão, e alcançai-nos a graça de irmos ao paraíso beijar os vossos pés.

Maria morre; seu preciosíssimo corpo é levado pelos apóstolos à sepultura, guardado pelos anjos durante três dias, e em seguida transportado ao paraíso. Mas a sua alma formosa, apenas saiu do corpo, entra na beatitude eterna, acompanhada de inúmeros anjos e do seu próprio Filho. Já no céu, a humilde Virgem, adora-o e com afeto imenso lhe agradece todas as graças que lhe foram dispensadas. Deus abraça-a, abençoa-a e a faz Rainha do universo, exaltando-a acima de todos os anjos e santos: Exaltata est sancta Dei Genetrix super choros angelorum ad coelestia regna. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 9

esc3QUALIDADES QUE DEVE TER O CONFESSOR DOS ESCRUPULOSOS

1.º Caridade. — A mais necessária das virtudes que deve ter o confessor dos escrupulosos é a caridade, porém uma cari­dade doce, paciente, a toda prova; uma caridade que lhe sustente, que lhe ative, que lhe duplique o zelo à proporção que as dificuldades aumentem. Há quem diga que, para ter essa caridade necessária, tão heróica deve ela ser, seria mister que o confessor tivesse sido acometido dessa doença; porquanto só a experiência pode revelar quantos males se sofre, quanto se é digno de compaixão e de caridade quan­do se é atacado de escrúpulo.

2.º Firmeza. — Deve, pois, o confessor ter muita bondade para com essas espé­cies de penitentes; deve consolá-los, su­portá-los, esclarecê-los; mas a essa bon­dade deve aliar também uma grande fir­meza: isto é indispensável para com es­sas pobres almas, que de outro modo nun­ca se renderiam à verdade. Ser bom sem ser firme, ou ser firme sem ser bom, não seria ter as qualidades requeridas; é preciso reunir as duas coisas ao mesmo tem­po, bondade e firmeza: todos compreen­dem a razão disto. E é que, se se for ape­nas bom, o escrupuloso abusará disso, se prevalecerá disso, e se enterrará cada vez mais no mal. Se se for apenas firme, desanimar-se-á, desolar-se-á com isso o es­crupuloso, ele sentirá falta de confiança, e o escopo do confessor não será atingido. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 8

esc1CONFISSÕES E COMUNHÕES DOS ESCRUPULOSOS

Sob este título, não queremos falar das dificuldades, das penas, dos temores que eles experimentam nas suas confissões e comunhões; já falamos disto mais acima, e ainda falaremos noutro lugar. Aqui se trata das confissões e das comunhões mais ou menos frequentes a permitir ou a pres­crever aos escrupulosos. Deve-se fazê-los comungar amiúde? deve-se fazê-los confessar-se frequentemente?

Não se pode repetir demasiado, primei­ramente que as práticas de piedade de­vem sempre harmonizar-se com as obri­gações de cada um, com a posição, a ida­de, o engenho, a cultura de espírito que lhe é própria; de tal sorte que a frequên­cia dos sacramentos ou os exercícios es­pirituais não impeçam o penitente de cumprir os deveres do seu estado, de fa­zer as suas práticas de piedade de maneira conveniente, e sirvam ao seu progresso e à sua consolação segundo as diversas ne­cessidades de sua alma. Cumpre, também, em regulando o presente, pensar no fu­turo, e não fazer abraçar coisas de mais, a fim de poder o penitente perseverar.

A frequência da confissão depende ne­cessariamente das circunstâncias indivi­duais. Em geral, as pessoas que comun­gam de oito em oito dias, ou mesmo vá­rias vezes na semana, habitualmente se confessam de oito em oito dias; há outras, entretanto, que, ou por vivacidade natu­ral, ou por violência das paixões, ou por obstáculos mais numerosos, ou por dificul­dades de conservarem a pureza de cora­ção, precisam confessar-se mais vezes. Não obstante, é para desejar que elas se acos­tumem, pouco a pouco, a caminhar sozinhas, e a ser bastante firmes para só se confessarem uma vez na semana. Os verdadeiros escrupulosos, os que são inces­santemente roídos pela apreensão, ora de­vem ser admitidos a uma confissão mais frequente, ora não devem sê-lo. Ao con­fessor é que compete julgá-lo. Deve este considerar as faltas que eles acusam ordinariamente. Se são verdadeiros pecados veniais caracterizados, ele deve ouvi-los; se são faltas que não são formalmente pecados veniais, se são censuras vagas, inquietações, não deve ele ouvi-las senão uma vez por semana, no máximo, ainda mesmo quando eles comungassem várias vezes na semana. Geralmente, há muitos inconvenientes em que um escrupuloso in­sista muitas vezes sobre essas espécies de faltas ou de pretensas faltas. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 7

esc7QUAIS SÃO OS MAUS ESCRUPULOSOS

Digamos uma palavra deste gênero de escrupulosos, a fim de completar a maté­ria e estabelecer as distinções necessárias.

Embora a maioria dos escrúpulos prove­nham do demônio, pode-se dizer que os maus escrupulosos são mais particular­mente obra dele. São todos aqueles que fazem da piedade uma idéia falsa, ou que dela se servem para ocultar aos outros e a si mesmos vícios grosseiros de que não se querem corrigir. Consoante os autores da Ciência do confessor, podem-se redu­zir a duas espécies de escrupulosos todos esses de que queremos falar: uns, que não passam lá muito da linha do pecado ve­nial; outros, que engolem a iniquidade como água, e que merecem antes o nome de hipócritas do que o de escrupulosos.

Os primeiros não passam, ordinariamente, de gente que, seja por ignorância dos seus deveres, seja por cegueira voluntá­ria ou por amor-próprio, formam uma fal­sa consciência, e são escrupulosos em ex­cesso sobre certos pontos, ao passo que so­bre outras importantíssimos, como paixões, inveja, vingança, ódio, maledicência, etc., não se fazem censura alguma e não sen­tem nenhum remorso.

Os segundos são os que, como os Fari­seus de que fala o Evangelho, fazem es­crúpulo de cometer pequenas faltas ou de faltar a certas práticas de pura devoção, ao passo que não fazem nenhum escrú­pulo de viver em pecado mortal, e aban­donam-se mesmo aos desregramentos mais vergonhosos. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 6

esc6REMÉDIOS PARTICULARES. DIREÇÃO DOS ESCRUPULOSOS

Para usar com vantagem dos remédios particulares, cumpre opô-los às diferentes fontes dos escrúpulos; cumpre também estudar os defeitos, os subterfúgios, as aparências, os artifícios, as aflições dessas pobres almas, entrar em argumentação com elas, escutar-lhes as penas, esclarecê-las, dirigi-las, sustentá-las por sábios con­selhos. É o que vamos fazer nos diversos parágrafos deste capítulo.

Os principais objetos de escrúpulos, co­mo dissemos, são as orações, as confis­sões, as correções fraternas, os motivos das próprias ações, a predestinação, as tentações, as comunhões. Ora, vejamos os remédios que é preciso aplicar a cada um destes males.

1.º As orações. — Quando é a respeito das suas orações que o escrupuloso é atormentado, cumpre primeiramente explicar-lhe em poucas palavras o que é a oração, em que consiste, e o que Deus exige de quem ora; depois disto, deve-se representar-lhe que, querendo aplicar-se de mais e dilatar a cabeça, em vez de evitar as distrações a pessoa as multiplica, torna-as mais incômodas, e coloca-se na impossibi­lidade de orar. Este temor perpétuo de que a pessoa é empolgada, tiraniza, desa­nima, inquieta, e faz perder de vista o objeto e o fim da oração. Deve-se, pois, mudar de rumo, visto agir-se em pura perda e não se fazer senão gerar distra­ções ao invés de as dissipar. Continuar lendo

CARTA AOS AMIGOS E BENFEITORES N° 86

notre-dame-de-fatima_LAB1917-2017, Atualidade da mensagem de Fátima

Caros Amigos e Benfeitores,

Em 1917, Nossa Senhora se dignou visitar a Terra. Ela confiou aos três videntes de Fátima uma mensagem formada por várias partes, algumas das quais estão agrupadas sob o nome de “segredo”, de modo que as expressões “mensagem” e “segredo” de Fátima tornaram-se sinônimas. Devemos, contudo, distingui-las. A mensagem foi comunicada imediatamente. As partes relevantes do “segredo” estavam destinadas a serem divulgadas mais tarde, em diversas datas, ao mais tardar em 1960. Elas abrangem grandes acontecimentos na Igreja e no mundo concernentes ao comportamento dos homens em relação a Deus. Mencionam guerras, o desaparecimento de nações inteiras, erros graves difundidos em todos os continentes, a consagração da Rússia pelo Papa e pelos bispos, o triunfo do Coração Imaculado e um tempo de paz.

Estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria

Um ano antes da celebração do centenário das aparições de Fátima, reconhecidas como autênticas pela Igreja, permitam-me insistir sobre a importância deste evento e desta mensagem que nos recordam uma série de verdades fundamentais da fé e nos mostram a intervenção real de Deus na história humana.

1) A essência da mensagem está nas seguintes palavras de Nossa Senhora à Irmã Lúcia, em 13 de junho de 1917: “Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o seu trono.” Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 5

esc5CONSELHOS GERAIS AOS ESCRUPULOSOS

Conhecer-se a si mesmo

O primeiro conselho que eu dou aos es­crupulosos, um dos mais importantes, e que é o fundamento de todos os outros, é que ele reconheça de boa fé que está doente e que é escrupuloso, porquanto um mal conhecido é um mal meio curado. Este axioma, verdadeiro em toda sorte de doenças, é-o principalmente na do escrú­pulo; pois esta não passa de uma ilusão que cega o escrupuloso e lhe faz tomar os fantasmas e os devaneios de uma imagi­nação doente, pelos sensatos raciocínios de uma consciência esclarecida. Persuada-se ele, pois, de que essas razões são fal­sas, de que são imaginações e escrúpulos, e não razões, e ei-lo curado. Ele não terá dificuldade em se persuadir de que assim é, se observar as regras que já estabelecemos ao explicarmos a natureza dos escrúpulos. Faça, pois, um exame sobre si mesmo e sobre o seu passado; se reconhecer que muitas vezes sentiu temores acompanhados de angústias, de perturbações e de perplexidades; que muitas vezes formou dúvidas sobre uma ou várias matérias, e, tendo exposto seus temores e suas dúvi­das a uma pessoa esclarecida, esta julgou que elas eram fundadas em razões fracas e frívolas, tenha por certo que é escrupu­loso; e, se estiver de tal forma obsesso que não possa crer na sua experiência, consulte um diretor sábio e piedoso, e acre­dite no juízo dele.

Mas não basta, para o escrupuloso, co­nhecer a sua doença; deve ele ainda des­cobrir a qualidade e os princípios dos seus escrúpulos, para lhes aplicar os remédios convenientes. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 4

esc4DOS MAUS EFEITOS DOS ESCRÚPULOS

Não se podem deplorar bastante os da­nos que os escrúpulos causam àqueles que os escutam e que lhes dão consentimento; muitíssimas vezes, arruínam a saúde do corpo, alterando o cérebro, bestificando o espírito, e, ademais, desolam a consciên­cia. É uma espécie de martírio inferior, diz Fénelon; vai até a uma espécie de dislate e de desespero, embora o fundo esteja cheio de razão e de verdade. Quantos infelizes começaram pelo escrú­pulo e acabaram pela impiedade e pela libertinagem!

Em primeiro lugar um escrupuloso tor­na-se incapaz de devoção, porque o Espí­rito Santo só ateia nas almas esse fogo celeste no exercício da oração e na medi­tação das coisas santas, in meditatione mea exardescet ignis. E é disto que o es­crupuloso não é capaz, porque, tendo a mente perturbada pelos escrúpulos, exa­minando incessantemente e rolando na ca­beça se pecou ou se não pecou, é incapaz de meditação e, por conseguinte, de de­voção. Um escrupuloso não pode desobrigar-se como convém dos exercícios de piedade, nem progredir nas virtudes, não somente porque para isto é preciso uma grande aplicação de mente, de que o escrupuloso não é capaz, como também porque, sen­do essas práticas acompanhadas de amar­guras, não se poderia continuá-las por muito tempo se elas não fossem abran­dadas pelas consolações do Espírito San­to; e é esta, ainda, uma coisa de que o escrupuloso não é capaz, porquanto, es­tando continuamente imerso na angústia e na desolação, não pode ao mesmo tem­po degustar alguma consolação; e é isso talvez o que o profeta queria exprimir dizendo que a turbação do espírito en­fraquecia a virtude da sua alma: conturbatum est cor meumdereliquit me vir­tus mea (Sl 37). Meu coração está cheio de perturbação, toda a minha força aban­donou-me, e até mesmo a luz dos meus olhos não a tenho mais.

Porém um efeito bem funesto, ainda, é que o escrupuloso está sujeito a procurar na carne e nos sentidos os prazeres e as consolações de que precisa, seja para ali­viar as penas que o acabrunham, seja porque não se pode viver muito tempo sem experimentar algum prazer no espírito ou no corpo; estando privado dos do espírito, ele é tentado a procurar os do corpo. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 3

esc3PRINCÍPIOS DOS ESCRÚPULOS

Se tomarmos a tentação do escrúpulo separada do consentimento, achamos que ela deve a sua origem a vários princí­pios; às vezes vem de nós mesmos, do nos­so próprio fundo, de um princípio inte­rior e natural, e às vezes vem de fora, de um princípio exterior e violento, do de­mônio; outras vezes, enfim, vem do alto, pela permissão do próprio Deus.

1.º- O nosso próprio fundo é, muitas ve­zes, a única fonte do escrúpulo, que nas­ce ora de um temperamento frio, me­lancólico e naturalmente disposto à dú­vida e ao temor; ora de um temperamen­to fleumático ou de uma imaginação de­masiado viva, ou de fragilidade ou de pe­quenez de espírito; de uma falsa idéia que se forma de Deus, de Sua justiça, da Sua conduta para com as Suas criaturas; às vezes, de austeridades demasiadamen­te grandes, da frequentação de pessoas escrupulosas; não raro, do orgulho, que produz a obstinação; outras vezes, da ig­norância, que resiste àquilo que ela não sabe; da leitura de livros teológicos ou demasiadamente eruditos, que só deixam no espírito aquilo que pode embaraçar, embora lisonjeando o amor-próprio que pretende compreender tudo e tudo sa­ber. O escrúpulo vem também da falta de discernimento entre o pecado mortal e o pecado venial, entre o pensamento e a re­flexão, entre a inclinação e a vontade, entre a negligência e o consentimento; vem, muitas vezes, de um grande esquentamento de cabeça que dá uma tensão forte às fibras do cérebro, e que com isso torna a pessoa susceptível de diversos mo­vimentos, de diversos pensamentos confu­sos; ou vem da timidez natural, que facilmente se alarma, ou da vivacidade da imaginação, que pinta vivamente tudo o que se receia, ou, enfim, de um desejo excessivo de certeza naquilo que concerne à salvação. Continuar lendo

O VALOR DO PUDOR!

jovemTalvez venham a zombar da tua atitude reservada, por não te sentires à vontade no meio de conversas estercorosas e de corares logo que ouvires uma palavra imprópria. Meu filho, orgulha-te disso! Orgulha-te de poderes corar!

O pudor em nós não é “criancice”, “ingenuidade”, “hipocrisia” – como eles dizem, – senão um ato de valor incalculável, uma arma recebida da natureza, que defende, quase sem que o percebamos, a parte mais nobre da nossa pessoa contra os maus pensamentos. Para o jovem o pudor, que defende quase instintivamente contra a impureza a sua alma delicada, é precioso tesouro.

É um poderoso dique contra as ondas da imoralidade, que todos os lados rebentam contra a nossa alma… Lembra-te desta bela máxima de Santo Agostinho: 

“Não odeies os homens por causa dos seus erros e das suas faltas, mas não estimes as faltas e os erros por amor dos homens”.

É covarde quem não sabe tolerar, contra as suas convicções, algumas contrariedades. Outrora débeis crianças, sem dizerem palavra e por amor de Cristo, se deixaram despedaçar por animais ferozes. Aos quatorze anos São Vito sorria ao mergulharem-no em azeite fervente – por amor de Cristo; e aos treze anos São Pelágio suportava que durante seis horas lhe arrancassem os membros, um após outro, – também por amor de Cristo. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 2

esc2DIFERENTES ESPÉCIES DE ESCRÚPULOS. SEUS OBJETOS

Podem-se distinguir diversas espécies de escrúpulos: uns são em matéria de fato, e outros em matéria de direito. Há escrúpulo em matéria de fato quando, por exemplo, a pessoa receia ter consentido num mau pensamento, não haver confes­sado bem um pecado, ou ter esquecido al­guma circunstância, etc. Há escrúpulo em matéria de direito quando, por exemplo, se acredita que há pecado quando não o há; que uma coisa é proibida, quando não o é; que uma ação é culposa, posto que o não seja.

Há escrúpulos em matéria grave quan­do, por exemplo, se receia que uma ação que se fez ou que se deve fazer seja pe­cado mortal; donde vem que, depois de a haver feito, a pessoa se considera como um inimigo de Deus e como objeto de sua aversão. Há-os em matéria leve quando se receia que uma ação que se fez ou que se quer fazer, mesmo a mais inocente, é desa­gradável a Deus, e se considera a Deus como um amo severo, sempre irritado e descontente, que só tem para o escrupu­loso censuras e ameaças, e que breve deve abandoná-lo para puni-lo das suas infide­lidades.

Há, finalmente, a tentação do escrúpulo e o consentimento na tentação. A tenta­ção consiste no temor e na angústia que empolgam o coração do escrupuloso e lhe fazem ver pecado onde absolutamente não o há. O consentimento na tentação consis­te em que o escrupuloso, em vez de resis­tir aos seus escrúpulos, a eles se deixa arrastar, escuta-os, examina-os e rola-os cem e cem vezes na mente, embora fique sempre igualmente embaraçado. Final­mente, deixa-se ele persuadir de haver pecado, e não tem repouso enquanto não depositar o seu escrúpulo aos pés de um confessor. — Eis agora os principais ob­jetos dos escrúpulos: Continuar lendo

A COMUNHÃO DÁ FORÇA

comunEstava a vózinha no terreiro, assentada à sombra de uma viçosa parreira.

– Vovózinha?

A avó levanta os olhos, um pouco surpreendida, pois até aquela hora a netinha não lhe mostrara muito amor; era atenta, mas não afetuosa.

– Que queres, filha?

– Vovó, eu queria saber por que tens uma perna de pau.Andaste a combater?

– Não, Lina; mas isso não é pergunta para a tua idade.

Não foi uma bala de canhão, que me cortou a perna, nem mesmo um acidente.

– Então, o que foi?
Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 1

esc1

I- DEFINIÇÃO E NATUREZA DOS ESCRÚPULOS, SEUS SINTOMAS.

O escrúpulo, diz Santo Afonso de Ligório, não passa de um vão temor de pe­car causado por apreensões que não têm motivo algum.

Por sua vez, Bergier diz que o escrú­pulo é uma pena de espírito, uma an­siedade de alma que faz que a pessoa creia ofender a Deus em todas as suas ações e nunca se quitar dos seus deveres assaz perfeitamente.

Enfim, o escrúpulo, dizem os autores da Ciência do confessor, é uma dúvida que não é fundada, ou que só o é mui ligei­ramente, e que perturba a consciência e a enche de inquietações. É um vão ter­ror, um receio extremado de achar pecado onde realmente não o há, nascendo daí na alma uma angústia que a torna irresoluta e inquieta.

O escrupuloso, pois, como diz o P. Quadrupani nas suas instruções, só vê uma série de pecados em todas as suas ações, e em Deus vingança e cólera. Continuar lendo

A ALMA ABANDONADA DEVE CONTAR COM A PERSEGUIÇÃO

cruzaOs que quiserem viver piedosamente em Jesus Cristo sofrerão perseguição“. (II Tim 3,12)

É São Paulo quem o diz sob a inspiração do Espírito Santo.

Nos começos, a alma naturalmente boa acha que na vida tudo lhe sorri. Entrega-se descuidada ao que lhe agrada e atrai. Julga que todos os homens são retos e simples como ela. Esta ilusão dura pouco. Em breve constata que o amor que lhe manifestam, a bondade com que a tratam não andam sem mistura e muitas vezes não passam de um verniz, de uma aparência, digamos de um véu, sob o qual se esconde muitas vezes o egoísmo.

Quanto mais lida com os homens, mais descobre em muito deles a frieza de coração, a pequenez de sentimentos, e estreiteza de vistas. Esses defeitos, pode encontrá-los mesmo naqueles que lhe parecem virtuosos e instruídos. E a verdade é que, por uma série de experiências pessoais, acaba por constatá-los em si própria.

E não se engana. Todo homem é por natureza limitado em todos os sentidos: em inteligência, prudência, reflexão e conselho.

O amor-próprio egoísta amesquinha extraordinariamente o coração humano; e o mesmo faz a ambição com o espírito. A mesquinhez e estreiteza de vistas, a obstinação nas próprias opiniões desfiguram as melhores almas. Muitas vezes, sem dúvida, estes defeitos não são culpáveis, mas são reais e com frequência tornam difícil o convívio prolongado, mesmo entre pessoas que têm o mesmo nível espiritual ou no seio da família. Continuar lendo

SOU CATÓLICO, EIS A MINHA GLÓRIA

Cravos utilizados na crucificaçãoExiste uma atitude frequente entre nós e, no entanto, profundamente absurda: o sentirmos vergonha de sermos católicos. A isso se chama respeito humano.

Ora, quem tem vergonha de estar com boa saúde? Quem tem vergonha de possuir um emprego interessante e bem remunerado? Ou uma família amorosa? Ninguém, evidentemente. Ao contrário, sentimos orgulho de nossas riquezas naturais (a saúde, a vida profissional, a família), e temos mesmo a tendência de ostentá-las.

Por que bizarrice do espírito humano, então, acontece de sentirmos vergonha das riquezas sobrenaturais que são nossas, da nossa fé católica, da graça divina? Podemos nos acanhar delas? É incompreensível, e contudo é um mal demasiadamente difundido entre os católicos. 

A falta, o vício que deveria nos ameaçar, em boa lógica, não deveria ser a vergonha, mas antes a jactância, o orgulho. Se sou amigo de um rei, de um homem político, de uma estrela do cinema ou da música, de uma atleta famoso, quero proclamá-lo por cima dos telhados. Por que, então, se sou amigo de Jesus Cristo, Filho de Deus, Rei dos reis e Senhor dos senhores, tenho antes a tendência de escondê-lo? O respeito humano é, em si mesmo, a coisa mais imbecil e inconveniente: e contudo, ele nos paralisa a cada dia.

O que tememos? Um sorriso de canto de boca, um gracejo mordaz, uma palavra amarga? Isso não mata ninguém. Nos nossos países ocidentais, o fato de se mostrar cristão não expõe, senão raramente, a conseqüências mais graves. Os cristãos do Oriente, eles, que vivem sob o jugo do islã, expõem-se a humilhações, prisões e até mesmo a assassinatos. Porém, vejam como reagem: exibem-se publicamente como cristãos, com suas roupas, cruzes e medalhas aparentes. Continuar lendo

UM MÁRTIR DA CONFISSÃO E DA EUCARISTIA

cristeros1 (1)Em 1927 dominavam no México os inimigos da Igreja Católica. Os ministros de Jesus Cristo eram perseguidos, presos e fuzilados sem compaixão. Do número desses mártires foi o ancião Pe. Mateus Correa.

Estava em casa de um amigo, num dos bairros mais radicais, quando o foram chamar para um pobre índio que queria receber os últimos sacramentos. Apesar do perigo que corria, o padre quis cumprir com esse dever de caridade. Tomando consigo o Santíssimo, dirigiu-se com o amigo à casa do doente.

Escolheram de propósito os caminhos menos frequentados, mas, assim mesmo, os soldados de Calles os surpreenderam e, vendo que o Padre levava o Santíssimo, quiseram arrancar-lho à força para o profanar. Mas o Pe. Correa foi mais esperto que os soldados, pois, consumindo imediatamente a sagrada partícula, disse:

– Matai-me, se quiserdes: mas não a Jesus não o profanareis.

Depois de maltratarem cruelmente ao pobre Padre, levaram-no à cidade de Valparaíso, onde o meteram no cárcere. Acusado de ter cumplicidade com os Cristeros que combatiam nos arredores, detiveram-no até que o General Ortiz o levou consigo a Durango.
Continuar lendo

DOMINUS FLEVIT SUPER GALLIAM

A data não podia ser mais significativa: o fatídico 14 de julho, data comemorada só pelos inimigos de Deus e da Igreja, ou pelos idiotas úteis que ainda não compreenderam a perversidade da Revolução Francesa, marco inicial do direito político moderno, da farsa da democracia, da rebelião da soberania popular contra a autoridade legítima que governa conforme a Lei de Deus e não conforme os caprichos dos demagogos revolucionários.

14 de julho de 1789 não foi apenas um presságio das calamidades que se precipitariam; foi também uma advertência, para que os franceses (e todos os povos que viam na França a filha primogênita da Igreja e a imitavam) voltassem a trilhar o bom caminho da tradição, os ensinamentos da Igreja e dos Santos e combatessem e condenassem com firmeza os erros e heresias dos filósofos modernos e dos ideólogos do Iluminismo.

Infelizmente, a advertência não foi ouvida. Os anos passaram-se, sucederam-se os séculos. A mão poderosa de Deus feriu a humanidade por causa dos seus pecados e crimes: sobreveio a Revolução Comunista de 1917. Os erros da Rússia espalharam-se pelo mundo afora. Milhões de mortos inocentes. Sobreveio o nazifascismo. Regiões imensas do mundo gemem sob um regime totalitário que, em nome dos princípios revolucionários modernos, em nome da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade, declara guerra ao homem criado por Deus e tenta construir um novo homem, um homem sem Deu, um homem inimigo de Deus, um homem que quer ser um deus.

Em fins do século XX, a humanidade, embrutecida pelo materialismo, dopada pelas drogas e pela pornografia, a humanidade corrompida pela revolução cultural da Escola de Frankfurt que se difunde a partir da grande potência norte-americana, comemora a queda do Muro de Berlim, achando que a partir de então viveria no paraíso de uma democracia universal, onde os homens viveriam como bem entendessem, cada um com seus próprios valores, sem nenhuma preocupação em saber se há uma verdade objetiva, uma lei moral de ordem superior. Continuar lendo

DECLARAÇÃO DO SUPERIOR GERAL A TODOS OS MEMBROS DA FRATERNIDADE SACERDOTAL SÃO PIO X…

… ao término da reunião de Superiores Maiores em Anzère (Valais), 28 de junho de 2016

Ao final da reunião dos Superiores da Fraternidade São Pio X, além da declaração lida em 29 de junho de 2016, Dom Bernard Fellay havia dirigido aos sacerdotes, na véspera das ordenações sacerdotais em Ecône, uma declaração importante que a DICI publica exclusivamente. (Tradução: Dominus Est)

superieurs_160628

No atual estado de grave necessidade da Igreja, que lhe concede o direito de administrar os auxílios espirituais às almas que a ela recorrem, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não busca acima de tudo um reconhecimento canônico, ao qual tem direito por ser católica. A solução não é simplesmente jurídica. Trata-se de uma posição doutrinária que é imprescindível manifestar.

Quando São Pio X condenou o modernismo, ele resumiu toda a argumentação da encíclica Pascendi a um princípio fundamental: a independência. Ora, eis que o mundo usa todas as forças para mudar o eixo sobre o qual deve girar. É evidente tanto para os católicos, como para aqueles que não o são, que a Cruz já não é mais esse eixo. Como Paulo VI bem disse, é o homem (cf. Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, 07 de dezembro de 1965).

Hoje, o mundo gira em torno deste eixo, segundo ele, definitivamente estabelecido: a dignidade do homem, sua consciência e sua liberdade. O homem moderno existe para si mesmo. O homem é o rei do universo. Ele destronou a Jesus Cristo. Ele exalta sua consciência autônoma e independente a ponto de dissolver até mesmo os fundamentos da família e do matrimônio. Continuar lendo