Et audivit arcana verba, quae non licet homini loqui – “Ouviu palavras misteriosas, que não é permitido ao homem referir” (2 Cor. 12, 4).
Sumário. As delícias do paraíso são de tal ordem que é preciso gozá-las para delas fazer alguma idéia. Basta considerarmos que nele reside um Deus onipotente, que se empenha em fazer felizes as almas que ama. Ali não há nada que desagrade; e há tudo quanto possa agradar. Felizes de nós, se tivermos a ventura de nele entrar; mas ao contrário, qual não seria a nossa aflição, se por desgraça nos viéssemos a perder, ao pensarmos que por um nada perdemos uma felicidade eterna.
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Façamos hoje algumas considerações a respeito do paraíso. Mas que diremos nós, se os santos mais iluminados não nos souberam dar uma idéia das delícias que Deus reserva aos seus servos fiéis? Davi não soube dizer outra coisa senão que o céu é um bem infinitamente desejável: Quam dilecta tabernacula tua, Domine virtutum! (1) – “Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor das virtudes!” – Mas vós ao menos, ó São Paulo, vós que, num rapto sublime, pudestes contemplar o céu, dizei-nos alguma coisa do que vistes. Não, responde o Apóstolo, o que vi não se pode exprimir. As delícias do paraíso são mistérios tais que não é lícito referi-los; são tão grandes que é preciso gozá-las para as compreender. Tudo que vos posso dizer é que nunca nenhum homem na terra viu, ouviu, nem concebeu as belezas, as harmonias, os gozos que Deus preparou para os que o amam (2).
Não somos agora capazes de compreender os bens do céu, porque não conhecemos senão os bens desta terra. Se os cavalos fossem dotados de razão e soubessem que seu dono lhe preparou um magnífico banquete, imaginariam de certo que o banquete só seria composto de boa palha, aveia e cevada, porque os cavalos não têm idéia de outros alimentos. É assim que nós pensamos acerca dos bens do céu.
É belo, numa noite de verão, ver o céu semeado de estrelas; é agradável, na primavera, estar junto de um lago tranquilo e descobrir no fundo os bancos de areia recamados de ervas e os peixes que brincam; é delicioso estar num jardim cheio de flores e frutos, onde derivam alguns regatos e esvoaçam e cantam os passarinhos. Então, exclamamos: Oh, que paraíso! Como! Isso será o céu? Os prazeres do céu são totalmente diferentes. – Para deles fazermos uma leve idéia, basta considerarmos que no céu reside um Deus onipotente, todo ocupado em encher de delícias as almas daqueles a quem ama; e por isso, como diz São Bernardo, ali não há nada que desagrade e há tudo quanto agrade; Nihil est quod nolis, totum est quod velis. Continuar lendo
Et ibunt hi in supplicium aeternum – “E estes irão para o suplício eterno” (Mt 25, 46)
Dives cum dormierit, nihil secum aufert; aperiet óculos suos, et nihil inveniet – “O rico, quando dormir, nada levará consigo; abrirá os olhos e nada achará” (Iob 27, 19).
“Omnia in mensura et numero et pondere disposuisti” – “Dispuseste todas as coisas com medida e conto e peso” (Sap. II, 21).
Adducunt ei surdum et mutum, et deprecabantur eum, ut imponat illi manum – “Trazem-lhe um surdo-mudo, e lhe rogaram que pusesse a mão sobre ele” (Marc. 7, 32).
Respexit humilitatem ancillae suae; ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes – “(Deus) pôs os olhos na baixeza da sua escrava; eis que desde agora me chamarão bem-aventurada todas as gerações” (Luc. 1, 48).
Vidimus eum… despectum et novissimum virorum – “Vimo-lo… feito um objeto de desprezo e o último dos homens” (Is. 53, 3).
Seria uma singular desordem ver claramente, pela razão, nossa absoluta nulidade e não querer reconhecê-la perante os homens; saber, por raciocínio e por experiência pessoal, que nada somos e nada podemos e ficarmos contristados por nos vermos tratados em conformidade.
Derelinquam eum, et abscondam faciem meam ab eo… invenient eum omnia mala – “Eu o deixarei, e esconderei dele meu rosto… todos os males virão sobre ele” (Deut. 31, 17).
Omnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi – “Todos nós devemos manifestar-nos diante do tribunal de Cristo” (2 Cor. 5, 10).
Jesus: Filho, anda diante de mim em verdade e procura-me sempre com simplicidade de coração. Quem anda diante de mim na verdade será defendido dos ataques inimigos, e a verdade o livrará dos enganos e das murmurações dos maus. Se te libertar a verdade, serás verdadeiramente livre e não farás caso das vãs palavras dos homens.
Tetendit enim adversus Deum manum suam, et contra omnipotentem roboratus est – “Estendeu a sua mão contra Deus e se fez forte contra o Todo Poderoso” (Iob 15, 25).
Duo homines ascenderunt in templum, ut orarent: unus pharisaeus et alter publicanus – “Subiram dois homens ao templo a· fazer oração; um fariseu e outro publicano” (Luc 18, 10).
Todas as penas referidas nada são em comparação com a pena do dano. As trevas, a infecção, o pranto, as chamas não constituem a essência do inferno. O verdadeiro inferno é a pena de ter perdido a Deus! Dizia São Bruno:
Convenite et ingrediamur civitatem munitam; et sileamus ibi — “Ajuntai-vos, e entremos na cidade fortificada, e guardemos aí silêncio” (Ier. 8, 14).
Fonte:
Sustinui qui simul contristaretur, et non fuit, et qui consolaretur, et non inveni – “Esperei se algum se entristecia comigo, e não houve ninguém; esperei se alguém me consolava, e não achei” (Ps. 68, 21).
A pena do sentido que mais atormenta aos réprobos é o fogo do inferno, tormento do tato (Ecl 7,19). O Senhor o mencionará especialmente no dia do juízo:
In conspectu angelorum psallam tibi, adorabo ad templum sanctum tuum – “À vista dos anjos te cantarei salmos; eu te adorarei no teu santo templo” (Ps. 137, 2).
Petitis et non accipitis, eo quod male petatis – “Pedis e não recebeis, porque pedis mal” (Iac. 4, 3).
Et ibunt in supplicium aeternum – “E irão estes ao suplício eterno” (Mt 25, 46)
Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum eius – “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte de seus Santos” (Ps. 115, 5).
Quid prodest homini, si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? – “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Matth. 16, 26.)
Ut appropinquavit (Iesus) videns civitatem, flevit super illam – “Quando (Jesus) chegou perto, ao ver a cidade chorou sobre ela. (Luc. 19, 41).
Nunc ergo, filii, audite me: Beati qui custodiunt vias meas – “Agora pois, filhos, ouvi-me: bem-aventurados os que guardam os meus caminhos” (Prov. 8, 32).
Baptismo habeo baptizari: et quomodo coarctor, usque dum perficiatur? – “Tenho de ser batizado com um batismo: e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra” (Luc. 12, 50).
Existem dois rochedos, que podem ser danosos para a juventude hodierna, e contra os quais infelizmente se despedaçam não poucas moças. São eles as amizades levianas e os maus livros.
Ubi thesaurus vester est, ibi et cor vestrum erit – “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Luc. 12, 34).