DA TIBIEZA

tibiQuia tepidus es, et nec frigidus nec calidus, incipiam te evomere ex ore meo – “Porque és morno, e nem frio nem quente, começarei a vomitar-te da minha boca” (Apoc. 3, 16).

Sumário. A verdadeira tibieza consiste em que a alma cai em pecados veniais plenamente voluntários, dos quais pouco se arrepende, e que menos ainda se esforça por evitar, dizendo que são coisas de pouca monta. Temamos cair nesta tibieza, porque é semelhante à febre héctica, que não inspira muito cuidado, mas é tão maligna que não deixa quase esperança de cura. Infeliz da alma que faz as pazes com os pecados, posto que leves; a desgraçada irá de mal a pior. Sendo ela tão avarenta para com Deus, como pode pretender que o Senhor seja liberal para com ela?

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Há duas espécies de tibieza, uma inevitável, outra evitável. A inevitável é a da qual na vida presente nem conseguem isentar-se as almas espirituais, que pela fragilidade humana não podem evitar que não caiam de vez em quando, sem vontade plenamente deliberada, em alguma falta leve. Desta espécie de culpas nenhum homem pode ficar livre sem uma graça especialíssima, que foi somente concedida à Mãe de Deus, porque a nossa natureza humana ficou corrompida pelo pecado original. – Deus permite tais manchas até mesmo nos Santos, para conservá-los humildes. Muitas vezes sentem-se estes frios, aborrecidos e desgostosos em seus exercícios de devoção, e em semelhante tempo de aridez caem facilmente em muitos defeitos, ao menos indeliberados.

Quem estiver em tal estado, não omita as suas devoções habituais, nem perca o ânimo, nem creia que já caiu na tibieza, porque isso não é propriamente tibieza. A tibieza verdadeira e deplorável é a que faz a alma cair em pecados veniais plenamente refletidos, de que quase não se arrepende e que se esforça menos ainda por evitar, sob o pretexto de que são coisas de pouca monta o ofender a Deus? Dizia Santa Teresa a suas religiosas: Minhas filhas, Deus vos livre do pecado cometido refletidamente, por leve que ele seja.

Dizem: os pecados veniais não nos privam da graça de Deus. Quem fala desta maneira, está em grande perigo de ver-se um dia cair em pecado mortal e privado da graça divina. Escreve São Gregório, que quem cai em pecados veniais deliberados e habituais sem fazer caso deles e sem pensar em emendar-se, nunca para no sítio em que caiu, mas afinal cairá no precipício: Nunquam illic anima quo cadit iacet. – As enfermidades mortais não provêm sempre de graves desordens, mas de muitas desordens leves e continuadas. Do mesmo modo a queda de certas almas em pecados graves, muitas vezes provem do hábito de pecar venialmente, pois este torna a alma tão débil, que, quando assaltada por alguma tentação mais forte, não tem força para resistir, e cai. Continuar lendo

DO BEM INEFÁVEL QUE É A GRAÇA DIVINA E DO GRANDE MAL QUE É A INIMIZADE COM DEUS – PONTO III

Resultado de imagem para arrependidoConsideremos agora o estado infeliz de uma alma que cai no desagrado de Deus. Vive separado de seu Sumo Bem, que é Deus (Is 59,2); de sorte que ela já não é de Deus, nem Deus já é seu (Os 1,9). E não somente não a considera como sua, mas detesta-a e a condena ao inferno. O Senhor não detesta a nenhuma das suas criaturas, nem às feras, nem aos répteis, nem ao mais vil dos insetos (Sb 2,25). Entretanto, não pode deixar de aborrecer o pecador (Sl 5,7); porque, sendo impossível que não odeie o pecado, inimigo absolutamente contrário à sua divina vontade, deve necessariamente aborrecer o pecador que se conserva unido à vontade do pecado (Sb 14,9).

Ó meu Deus! Se alguém tem por inimigo a um príncipe do mundo, não pode repousar tranquilo, receando a cada instante a morte. E aquele que for inimigo de Deus, como pode ter paz? Da ira de um rei se pode escapar, ocultando-se ou emigrando para outro país; mas quem pode livrar-se das mãos de Deus?

“Senhor, — dizia David, — se subir ao céu, ali estás, se descer ao inferno, estás ali presente… A todo e qualquer lugar aonde vá, tua mão alcançar-me-á” (Sl 138,8-10)

Desgraçados pecadores! São amaldiçoados por Deus, amaldiçoados pelos anjos, amaldiçoados pelos santos, e ainda amaldiçoados na terra, todos os dias, pelos sacerdotes e religiosos que, ao recitar o ofício divino, proferem a maldição (Sl 118,2). Além disso, o desafeto de Deus traz consigo a perda de todos os merecimentos. Ainda que uma pessoa tivesse merecido tanto como um São Paulo Eremita, que viveu noventa e oito anos numa gruta; tanto como um São Francisco Xavier, que conquistou para Deus dez milhões de almas; tanto como São Paulo, que por si só alcançou — segundo afirma São Jerônimo — mais merecimentos que todos os outros apóstolos, se tal pessoa cometesse um só pecado mortal, perderia tudo (Ez 18,24); tão grande é a ruína que produz a queda no desagrado do Senhor! De filho de Deus, o pecador converte-se em escravo de Satanás; de amigo predileto torna-se odioso inimigo; de herdeiro da glória, em condenado do inferno. Dizia São Francisco de Sales que, se os anjos pudessem chorar, certamente chorariam de compaixão ao verem a desdita de uma alma que comete um pecado mortal e perde a graça divina. Continuar lendo

O PENSAMENTO DA ETERNIDADE

pensCogitavi dies antiquos, et annos aeternos in mente habui — “Pensei nos dias antigos, e tive na mente os anos eternos” (Ps. 76, 6).

Sumário. Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade e pensa que em breve o paraíso ou o inferno será a morada de sua alma! Este pensamento infundiu a milhões de mártires a coragem para darem a sua vida por Jesus Cristo; fez tantos jovens, mesmo príncipes e reis, encerrarem-se nos claustros. Quanto mais eficaz não será, pois, para nos desprender dos miseráveis bens da terra e fazer-nos carregar com paciência as cruzes que Deus nos envia? Quem pensa na eternidade e não se converte a Deus, perdeu ou o juízo ou a fé.

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I. O pensamento da eternidade é chamado por Santo Agostinho o grande pensamento: Magna cogitatio. Este pensamento fez com que todos os tesouros e grandezas da terra se afigurassem aos santos como que palhas, lodo, fumo e monturo. Este pensamento inspirou tantos anacoretas a retirarem-se para desertos e grutas, tantos jovens nobres e mesmo reis e príncipes reinantes a encerrarem-se nos claustros. Este pensamento deu a tantos mártires coragem para sofrer os cavaletes, as unhas de ferro, as grelhas em brasa e a morte pelo fogo.

Não, não é para esta terra que fomos criados; o fim para o qual Deus nos pôs neste mundo, é que pelas nossas boas obras mereçamos possuir a vida eterna: Finem vero, vitam aeternam (1) — “E por fim a vida eterna”. Pelo que Santo Euquério disse que o único negócio em que devemos cuidar na vida presente , é a eternidade. Se assegurarmos este negócio, seremos felizes para sempre; se o errarmos, seremos para sempre infelizes.

Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade, pela fé viva que dentro em breve tem de morrer e entrar na eternidade! Iustus ex fide vivit (2) — “O justo vive pela fé”. A fé faz o justo viver na graça de Deus, dá vida à alma desprendendo-a dos afetos terrenos, e lembrando-lhe os bens eternos que Deus promete aos que O amam. — Dizia Santa Teresa que todos os pecados provêem da falta de fé. Pelo que, a fim de vencermos as paixões e as tentações, é mister que freqüentemente avivemos a nossa fé, dizendo: Credo vitam aeternam — “Creio na vida eterna”. Creio que depois desta vida, que em breve acabará para mim, há a vida eterna, ou cheia de gozos ou cheia de sofrimentos, uma das quais me tocará segundo os meus méritos ou deméritos. Costumava por isso Santo Agostinho dizer que o que crê na eternidade e não se converte a Deus, perdeu o juízo ou a fé. Continuar lendo

DO AMOR QUE SÃO JOSÉ TEVE A JESUS E MARIA

sagrada-familiaIacob autem genuit Ioseph, virum Mariae, de qua natus est Iesus — “Jacó gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (Matth. 1, 16).

Sumário. A longa familiaridade de pessoas amantes faz muitas vezes resfriar o amor, porque, quanto mais tratam uns com outros, tanto mais conhecem os defeitos mútuos. Mas não foi assim com São José. Quanto mais convivia com o divino Redentor e com a Santíssima Virgem, tanto mais chegou a conhecer-lhes a santidade. Concluamos disso quanto devia amar aqueles queridos penhores de seu coração, gozando tão longos anos a sua companhia. Roguemos ao santo Patriarca, que nos comunique uma parte de seu amor a Jesus e Maria; e ao mesmo tempo esforcemo-nos por imitá-lo, pela consideração de suas grandezas.

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Considera em primeiro lugar o amor que José teve a Jesus. Já que Deus destinou o Santo a servir de pai ao Verbo humanado, com certeza infundiu-lhe no coração um amor de pai, e de pai de um filho tão amável, e que ao mesmo tempo era Deus. O amor de José não foi, portanto, um amor puramente humano, como o dos outros pais, mas um amor sobre-humano, visto que na mesma pessoa via seu Filho e seu Deus.

Bem sabia José, pela certa revelação divina recebida do Anjo, que o Menino, que via continuamente em sua companhia, era o Verbo divino, feito homem por amor dos homens, mas especialmente dele. Sabia que o Verbo mesmo o havia escolhido entre todos para guarda de sua vida que queria ser chamado seu Filho. Considera, de que incêndio de amor não devia estar abrasado o coração de José, ao considerar tudo isso e ao ver seu Senhor, que lhe servia como oficial, ora abrindo e fechando a loja, ora ajudando-o a serrar a madeira, ora manejando a plaina ou o machado, ora ajuntando os cavacos e varrendo a casa; numa palavra, que lhe obedecia em tudo que lhe mandava, e não fazia nada sem o consentimento daquele que considerava como seu pai.

Que afetos não deviam ser despertados no coração de José, quando o tinha nos braços, o acariciava, ou recebia as carícias daquele doce Menino! Quando escutava as palavras de vida eterna, que foram como outras tantas setas a ferirem-lhe o coração! Especialmente quando observava os santos exemplos de todas as virtudes que o divino Menino lhe dava! — A longa convivência de pessoas que se amam mutuamente, muitas vezes resfria o amor; porque, quanto mais convivem, tanto mais descobrem mutuamente os defeitos. Não foi assim com São José: quanto mais convivia com Jesus, tanto mais lhe descobria a santidade. Conclui disso, quanto deve ter amado a Jesus, cuja companhia gozou, na opinião dos autores, pelo espaço de vinte e cinco ou trinta anos! Continuar lendo

DO BEM INEFÁVEL QUE É A GRAÇA DIVINA E DO GRANDE MAL QUE É A INIMIZADE COM DEUS – PONTO II

Resultado de imagem para rezando igrejaDisse São Tomás de Aquino que o dom da graça excede a todos os dons que uma criatura possa receber, porque a graça é a participação da própria natureza divina. Já antes havia dito São Pedro:

“Para que por isso sejais participantes da divina natureza” (2 Pd 1, 4)

Tanta é sua dignidade que Jesus Cristo no-la mereceu por sua Paixão! Ele nos comunicou, de certo modo, o resplendor que recebeu de Deus (Jo 17,22). Deste modo, a alma que está na graça se une intimamente a Deus (1Cor 6,17), e, segundo afirma o Redentor, a Santíssima Trindade vem habitar nela (Jo 14,22).

É tão bela uma alma em estado de graça, que o Senhor se compraz nela e a elogia amorosamente:

“Como és formosa, minha amiga, como és formosa!” (Ct 4,1)

Parece que o Senhor não pode apartar os olhos de uma alma que o ama nem deitar os olhos de uma alma que o ama nem deixar de dar ouvido a quanto lhe peça (Sl 33,6). Dizia Santa Brígida que ninguém seria capaz de ver a beleza de uma alma em estado de graça, sem morrer de alegria. Santa Catarina de Sena, ao contemplar uma alma em estado tão feliz, disse que preferia dar sua vida para que aquela alma jamais viesse a perder tanta beleza. Era por isto que a Santa beijava a terra que os sacerdotes pisavam, considerando que por seu intermédio recuperavam as almas a graça de Deus.

Que tesouro de merecimentos pode adquirir uma alma em estado de graça! Em cada instante lhe é dado merecer a glória; pois, segundo disse Santo Tomás, cada ato de amor, produzido por tais almas, merece a vida eterna. Por que, pois, invejar os poderosos do mundo? Estando na graça de Deus, podemos adquirir continuamente as maiores grandezas celestes.

Um irmão coadjutor da Companhia de Jesus, segundo refere o Padre Patrignani em seu “Menológio”, apareceu depois de sua morte e revelou que se tinha salvado, assim como Filipe II, rei da Espanha, e que ambos gozavam já a glória eterna. Quanto menor, porém, fora ele neste mundo em comparação ao rei, tanto mais elevado era agora o seu lugar no céu. Continuar lendo

DA MORTE

morte_del_peccatore_g[1] - 2Estole parati; quia qua nescitis hora Filius hominis venturus est — “Estai preparados; porque, não sabeis a hora em que o Filho do homem há de vir” (Matth. 24, 44.)

Sumário. A morte é certa, mas não se sabe quando virá. Quantas mortes são repentinas! Quantos à noite têm ido deitar-se sãos e pela manhã apareceram mortos! Não pensavam morrer assim, mas morreram; e se estavam em pecado, acham-se agora ardendo no inferno, onde estarão por toda a eternidade. Para que não nos suceda a mesma desgraça, aproveitemos o conselho de Jesus Cristo, e preparemo-nos para morrer bem, antes que a morte venha: Estote parati — “Estai preparados”.

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Considera como há de acabar esta vida. Já está decretada a sentença: hás de morrer. A morte é certa, mas não se sabe quando virá. Que é preciso para morrer? Uma síncope cardíaca, uma veia que se rompa no peito, uma sufocação catarral, um vômito de sangue, um bicho venenoso que te morda, uma febre, uma chaga, uma inundação, um tremor de terra, um raio, basta para te tirar a vida.

A morte virá surpreender-te quando menos o pensares. Quantos à noite foram deitar-se sãos e pela manhã foram encontrados mortos! Não pode o mesmo acontecer a ti? Tantos que morreram repentinamente, não pensavam morrer assim; mas morreram. E se estavam em pecado, onde estarão por toda a eternidade? — Seja, porém, como for, o certo é que há de chegar um tempo em que para ti o dia se fará noite: verás o dia e não verás a noite seguinte. Virei como um ladrão, de emboscada e desapercebido, diz Jesus Cristo. Teu bom Senhor avisa-te com tempo, porque deseja a tua salvação.

Corresponde, pois, aos avisos de Deus e aproveita-te deles, prepara-te para bem morrer, antes que chegue a morte: Estote parati — “Estai preparados”. Então não é tempo de te preparares, mas de estares preparado. É certo que hás de morrer. Há de acabar para ti a cena deste mundo, e não sabes quando. Quem sabe se será dentro de um ano?… Dentro de um mês?… Quem sabe se amanhã ainda estarás vivo? — Meu Jesus, iluminai-me e perdoai-me. Ai de mim! Que me resta de tantos pecados que cometi? O coração aflito, a alma agravada, o inferno merecido, o céu perdido. Ah, meu Deus e meu Pai, prendei-me com os laços de vosso amor.

Considera como na hora da morte te acharás estendido no leito, assistido de sacerdote que encomendará a tua alma a Deus, dos parentes que estarão chorando, tendo à cabeceira o Crucifixo, na mão a vela mortuária e próximo a entrar na eternidade. Sentirás a cabeça atormentada de dores, os olhos enevoados, a língua seca, a garganta apertada, o peito oprimido, o sangue gelado, a carne consumida, o coração traspassado. — Terás de deixar tudo, e pobre e nu serás atirado a uma cova onde apodrecerás. Ali os vermes te roerão todas as carnes, e de ti nada restará senão uns ossos descarnados e um pouco de pó fétido, e nada mais. Abre uma cova e vê a que está reduzido aquele ricaço, aquele avarento, aquela mulher vaidosa. É assim que acaba a vida!

Desgraçado de mim, que tantos anos não pensei senão em ofender-Vos, ó Deus de minha alma! Agradeço-Vos as luzes que agora me comunicais, e prometo-Vos mudar de vida. Meu Jesus, não atendais à minha ingratidão, mas atendei ao amor que Vos fez morrer por mim. Se eu perdia vossa graça, Vós não perdestes o poder de ma restituir. Tende, pois, piedade de mim! Perdoai-me e dai-me a graça de Vos amar, porque prometo de hoje em diante não querer amar senão a Vós.

Ó meu querido Redentor, entre tantas criaturas possíveis escolhestes-me para Vos amar; eu também Vos escolho, ó Bem supremo, para Vos amar sobre todas as coisas. Vós ides adiante com a vossa cruz: não quero deixar de seguir-Vos com a cruz que queirais dar-me a carregar. Abraço todas as mortificações e trabalhos, que me sejam enviados por Vós. Contanto que não me priveis de vossa graça e me façais morrer uma boa morte, estou satisfeito. — Maria, minha esperança, obtende-me de Deus a perseverança e a graça de amá-Lo, e não vos peço mais nada. (II 476).

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

DA ORAÇÃO DEPENDE A NOSSA SALVAÇÃO

rezaSi quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter, et non improperat — “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera” (Iac. 1, 5).

Sumário. A oração é não só útil à salvação, mas mesmo necessária, porque de um lado somos incapazes de fazer obras boas sem o auxílio de Deus, e do outro, o Senhor, ainda que nos queira dar este auxílio, de ordinário não o dá senão a quem ora. Se, pois, queremos salvar-nos, devemos orar até à morte, pois desde que cessemos de orar, estaremos perdidos. Devemos orar não só por nós mesmos, como também pelo próximo e especialmente pelos pecadores e pelas almas do purgatório.

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A oração não só é útil à salvação, mas também necessária. Pelo que Deus, querendo salvar-nos, nos impõe o preceito da oração:Oportet semper orare et non deficere(1) — “Importa orar sempre e não cessar”. A razão desta necessidade de nos recomendarmos muitas vezes a Deus, baseia-se na nossa impotência para fazer, sem o auxílio divino, uma boa obra qualquer (2), mesmo para concebermos algum bom pensamento (3), e daí para nos defender contra o demônio, que não deixa de andar ao redor de nós para nos tragar.

É verdade; foi erro de Jansênio, condenado pela Igreja, o dizer que nos é impossível guardar certos mandamentos e que algumas vezes nos falta a graça para podermos observá-los. Deus é fiel, diz São Paulo, e não permitirá que sejamos tentados acima de nossas forças (4). Mas é igualmente verdade que Deus quer ser rogado; quer que nas tentações a Ele recorramos a fim de obtermos a graça para resistir. “Deus quer dar as suas graças”, diz Santo Agostinho, “mas, especialmente no tocante à perseverança, não a dará senão a quem a pedir.” E em outra parte acrescenta: “Lex data est, ut gratia quaereretur; gratia data est, ut lex impleretur — A lei foi dada para que se procure a graça; a graça foi dada para que se cumpra a lei.” O que exprimiu muito bem o Concilio de Trento quando disse: “Deus não manda coisas impossíveis; mas mandando, exorta-nos a que façamos o que está ao nosso alcance, e que peçamos o que excede nossas forças, a fim de que possa vir em nosso auxílio.” (5)

Numa palavra, o Senhor está todo disposto a dar-nos o seu auxílio, para não sermos vencidos; mas só dá este auxílio àqueles que o invocam no tempo das tentações, especialmente nas tentações contra a castidade, como disse o Sábio: Et ut scivi, quoniam aliter non possem esse continens, nisi Deus det… adii Dominum et deprecatus sum illum (6) — “Como eu sabia que de outra maneira não podia ter continência, se Deus ma não desse… recorri ao Senhor, e fiz-Lhe a minha súplica”. Continuar lendo

DO BEM INEFÁVEL QUE É A GRAÇA DIVINA E DO GRANDE MAL QUE É A INIMIZADE COM DEUS – PONTO I

Resultado de imagem para arrependidoNescit homo pretium ejus – “Não compreende o homem o seu preço” (Jo 28, 13)

Diz o Senhor que aquele que sabe distinguir o precioso do vil é semelhante a Deus, que reprova o mal e escolhe o bem (Jr 15,19).

Vejamos quão grande é a graça divina, e que mal mesmo é a inimizade com Deus. Os homens não conhecem o valor da graça divina (Jo 28,13).

Por isso é que trocam por ninharia, um fumo sutil, um punhado de terra, um deleite irracional. E, todavia, ela é um tesouro de valor infinito, que nos torna dignos da amizade de Deus (Sb 7,14); de modo que a alma no estado da graça é amiga do Senhor. Os pagãos, privados da luz da fé, julgavam impossível que a criatura pudesse manter relações de amizade com Deus; e, falando segundo o ditame de seu coração, não deixavam de ter razão, pois que a amizade — conforme diz São Jerônimo — torna os amigos iguais. Deus, contudo, declarou repetidas vezes que, por meio de sua graça, podemos tornar-nos seus amigos se observarmos e cumprirmos sua lei (Jo 15,14). Exclama São Gregório:

“Ó bondade de Deus! Não merecemos sequer ser chamados servos seus, e ele se digna chamar-nos seus amigos”.

Quanto se julgaria feliz aquele que tivesse a dita de ser amigo de seu rei! Mas, se a um vassalo fora temeridade pretender a amizade de seu príncipe, não obsta que uma alma aspire à amizade de Deus. Refere Santo Agostinho que, achando-se dois cortesãos num mosteiro, um deles começou a ler a vida de Santo Antônio Abade e, à medida em que ia lendo, seu coração se desprendia de tal modo dos afetos mundanos, que falou a seu companheiro nestes termos: Continuar lendo

SANTO AFONSO, MODELO DE AMOR PARA COM O PRÓXIMO

Santo Afonso Maria de Ligório - 01 de agosto | Convento da PenhaHic est fratrum amator et populi Israel – “Este é o amador de seus irmãos e do povo de Israel” (2 Mac 15, 14)

Sumário. Quem ama a Deus, ama também ao próximo. Eis porque Santo Afonso, que se distinguiu tanto pelo amor a Deus, se distinguiu igualmente pelo amor ao próximo. Toda a sua longa vida pode ser chamada um exercício contínuo e árduo de caridade, que não fugia nem trabalhos, nem fadigas, nem oposições, nem perigos. Nós nos gloriamos de ser devotos do grande Santo, mas como é que lhe imitamos os exemplos? … Podemos dizer que amamos verdadeiramente ao próximo como a nós mesmos ? Procuremos ser ao menos mais diligentes para o futuro.

I. Assim como Santo Afonso se distinguiu pelo seu amor a Deus, distinguiu-se igualmente pelo amor ao próximo, que dele necessariamente deriva. Toda a longa vida do Santo pode ser chamada um exercício contínuo e árduo de caridade. Assistência dos enfermos, visita dos encarcerados, hospitalidade para com os peregrinos, esmolas de toda a espécie, pregações, catecismos, instruções publicas e particulares; numa palavra, tudo que o Evangelho de Jesus Cristo pode inspirar para alivio das muitas misérias que afligem o gênero humano, o Santo o praticou mesmo a favor de seus inimigos figadais e de seus cruéis perseguidores. — No particular da caridade não conhecia trabalhos nem fadigas, oposições nem perigos; mais, para socorrer seus irmãos, teria sacrificado a própria vida. Com efeito, mostrou-se pronto para sacrificá-la, quando, temendo que o flagelo da peste, que grassava em Messina, se estendesse até ao reino de Nápoles, se obrigou por voto a socorrer os pestíferos, onde quer que fosse preciso.

Este mesmo amor ao próximo excitou o Santo a editar muitos livros para auxílio de toda a classe de pessoas: bispos, sacerdotes, missionários, religiosos, seculares, mesmo príncipes reinantes. Mais: o amor fez com que Afonso fundasse a sua Congregação, cujo escopo especial é trabalhar em prol das almas mais abandonadas e mais privadas de recursos espirituais.

Numa palavra, do santo Doutor se pode dizer o que São João Crisóstomo disse de São Paulo: Quem quiser saber qual deva ser o nosso amor para com o próximo, contemple a vida de Afonso e achará nele o mestre e discípulo de uma tão sublime virtude. — Tu, que te glorias de ser devoto e filho do Santo, examina a tua consciência para ver se imitas os seus exemplos, e lembra-te do que diz São Pedro Crisólogo: Quem faz obras contrarias às do seu pai, nega pelo fato a sua filiação.

II. Como fruto desta meditação, toma a resolução de imitar, segundo o teu estado de vida, os exemplos de caridade de Santo Afonso, e, se mais não puderes fazer, guarda ao menos as regras gerais que o Santo Doutor te dá.

Quanto aos atos interiores, guarda-te de julgar ou suspeitar mal do próximo sem grave razão; deseja-lhe todo o bem que a ti mesmo desejas, e alegra-te quando é bem, sucedido, e, ao contrario, compadece-te dos seus males como se fossem teus.

— Quanto aos atos exteriores, não só deves abster-te de toda a sombra de murmuração, mas fala bem de todos, também dos inimigos; e se não puderes desculpar a falta, desculpa ao menos a intenção. Esforça-te por socorrer o próximo, o melhor que puderes, e especialmente aqueles pelos quais sentes aversão, pelo menos orando por eles. Não te esqueças nunca das almas do próximo já falecido, isto é, das almas do purgatório, sufragando-as com missas, esmolas e orações. Lembra-te de que aquelas almas benditas saberão ser gratas, e te obterão de Deus grandes graças, não somente no paraíso, onde por teu intermédio venham a entrar mais depressa, mas mesmo desde já, enquanto ainda estiverem no purgatório.

Ó meu santo Protetor, Afonso, eu, vosso humilde devoto, prometo-vos querer sempre seguir os vossos exemplos e conselhos. Pelo vosso amor a vossa e minha querida Mãe Maria, alcançai-me a graça de vos ser fiel. Meu amado Santo, que na terra estáveis tão abrasado em amor para com o próximo e agora no céu ardeis num amor mais forte e mais puro, peço-vos que me alcanceis de Deus uma centelha dessa santa chama. — Alcançai-me um amor puríssimo para com Deus, sem o qual não pode haver amor verdadeiro para com o próximo. Numa palavra, fazei, ó meu Pai, com que eu seja um imitador perfeito das vossas virtudes e especialmente da do amor, que é a maior entre todas.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

CONVIVÊNCIA DE SÃO JOSÉ COM JESUS E MARIA

sagDescendit cum eis et venit Nazareth, et erat subditus illis — “Desceu (Jesus) com eles e veio para Nazaré, e lhes estava sujeito” (Luc. 2, 51).

Sumário. Que bela sorte foi a de São José por ter vivido tantos anos em companhia de Jesus e Maria! Naquela família, não se tratava senão da maior glória de Deus; não havia outros pensamentos ou desejos senão a vontade de Deus; não se falava senão sobre o amor que Deus tem aos homens e que os homens devem a Deus. Oh! Se nós também soubéssemos aproveitar-nos da oportunidade, teríamos igualmente a ventura de viver com Jesus, presente na Santíssima Eucaristia. Procuremos portanto visitá-Lo freqüentemente e unamos os nossos afetos aos de Maria e José!

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Jesus, depois de ser encontrado no templo por Maria e José, voltou com eles para a casa de Nazaré, e viveu ali com José, até à morte deste, obedecendo-lhe como a seu pai. Considera a santa vida que José ali levou em companhia de Jesus e Maria. Naquela família não havia outro empenho senão a maior glória de Deus, não havia outro pensamento e desejo senão o agrado de Deus, não se conversava senão sobre o amor que os homens devem a Deus e que Deus tem aos homens; particularmente por ter enviado ao mundo o seu Unigênito para sofrer e terminar a vida num mar de dores e de desprezos pela salvação do gênero humano.

Ah, com que lágrimas de ternura não deviam Maria e José, tão bem entendidos nas divinas Escrituras, falar na presença de Jesus sobre a sua dolorosa paixão e morte! Com que ternura não deviam, conversando, recordar que, segundo a profecia de Isaías, o objeto de seu amor havia de ser um dia o homem de dores e de desprezos; que os inimigos haviam de desfigurá-Lo a ponto de não mais ser conhecido pelo mais formoso que era; que haviam de rasgar-Lhe de tal forma as carnes pelos açoites, que seria como que um leproso todo coberto de chagas e feridas; que seu amado Filho havia de sofrer tudo com paciência, sem querer abrir a boca para queixar-se de tantos ultrajes, que se deixaria levar à morte como um cordeiro, e finalmente seria pregado num madeiro infame entre dois ladrões, para terminar a vida pela força dos tormentos. — Considera que afetos de compaixão e de amor deviam ser despertados por tais colóquios no coração de José.

Avivemos a nossa fé! Nós também, à imitação de São José, podemos viver continuamente na companhia de Jesus Cristo, porquanto está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento do altar. Procuremos, portanto, fazer-lhe cada dia uma visita, e, sendo possível, mais de uma. Achando-nos na presença de Jesus sacramentado, pensemos na sua dolorosa Paixão e unamos os nossos afetos aos de São José e de Maria Santíssima. Todos os Santos estiveram abrasados no amor de Jesus sacramentado e de sua Paixão e assim fizeram-se Santos. Continuar lendo

SEM DEDICAÇÃO NÃO HÁ AMOR

Resultado de imagem para duas floresJesus, vindo ao mundo, nada ensinou de mais amável do que a dedicação. Esta pequena flor – podemos chamá-la assim? – nasceu no Gólgota, aos pés da Cruz, no solo regado com o sangue de Cristo. Daí por diante, nunca mais desapareceu da terra.

Os amigos de Jesus cultivam-na carinhosamente. Conhecem o terreno onde se dá bem e a seiva de que se nutre. Sabem que evita o clima glacial do egoísmo e que se compraz nas quentes regiões da caridade divina. Mergulham-na no amor de Jesus, que é o seu verdadeiro lugar, o seu canteiro predileto.

Amor e dedicação são duas flores numa só haste. Jesus transplantou-as das regiões celestes para o nosso solo ingrato. Criaram raízes, vicejaram, multiplicaram-se e foram bem recebidas nos jardins dos grandes e nos canteiros dos pobres. 

Sob a influência do seu perfume, desabrocharam por toda a parte admiráveis virtudes: a abnegação, a humildade, o sacrifício, a mansidão, a compreensão mútua. A terra, anteriormente deserta, cobriu-se de creches, escolas, hospícios, asilos; povoou-se de irmãos e irmãs de caridade.

Não, não há dedicação sem amor, como não há amor sem dedicação. Nunca a flor da dedicação brotou em terras não cristãs. O joio, o insolente joio do egoísmo, devorava o solo pagão. A sociedade antiga, no apogeu da sua civilização, só engendrava monstros horrendos: a crueldade, a luxúria, a escravidão. Como já era tempo de que Jesus viesse ressuscitar esta pobre humanidade que jazia e se decompunha no túmulo! Como já tardava que Ele viesse ensinar-nos o amor e a dedicação!

O dom de si, vida de abandono em Deus – Pe. Joseph Schrijvers

MOTIVOS QUE TEMOS DE HONRAR A SÃO JOSÉ

joseConstituit eum dominum domus suae, et principem omnis possessionis suae — “Constituiu-o senhor de sua casa, e príncipe de tudo que possuía” (Ps. 104, 21).

Sumário. Tomemos a São José por nosso protetor especial e não nos esqueçamos de honrá-lo cada dia e de nos recomendar a ele. Honrando ao santo Patriarca, imitaremos os exemplos de Jesus e Maria, que foram os primeiros a honrarem-no sobre esta terra. Além disso, pelo intermédio do Santo obteremos os favores mais assinalados, porquanto a experiência demonstra que São José obtém de Deus para seus devotos tudo que quer e os socorre em suas necessidades.

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O exemplo de Jesus Cristo, que nesta terra quis honrar tão grandemente a São José, era bastante para inspirar a todos uma grande devoção a este preclaro Santo. Desde que o Pai Eterno designou São José para fazer as suas vezes juntos de Jesus, Jesus sempre o considerou e o respeitou como pai, obedecendo-lhe pelo espaço de vinte e cinco ou trinta anos:Et erat subditus illis(1) — E lhes estava sujeito. O que quer dizer que em toda aquela série de anos a única ocupação do Redentor foi obedecer a Maria e a José.

A José competia em todo aquele tempo exercer o ofício de governar, como cabeça que era da pequena família; a Jesus, como súdito, o ofício de obedecer. De sorte que Jesus não dava um passo, não praticava coisa alguma, não tomava alimento, não ia repousar, senão segundo as ordens de São José. Punha a mais atenciosa diligência em escutar e executar tudo o que lhe era imposto. — “O meu Filho”, assim revelou o Senhor a Santa Brígida, “era tão obediente, que quando José dizia: Faze isto, ou faze aquilo, logo o executava.” E Gerson acrescenta que em Nazaré “Jesus muitas vezes preparava a comida, buscava água, lavava a vasilha, mesmo varria a casa”.

Esta humilde obediência de Jesus ensina-nos que a dignidade de São José é superior à de todos os Santos, exceção feita da divina Mãe. Pelo que um douto autor escreve com razão: “É justíssimo que seja muito honrado pelos homens aquele que de tal maneira foi elevado pelo Rei dos reis.” (2) — Jesus mesmo recomendou a Santa Margarida de Cortona que fosse particularmente devota de São José, por ser ele quem o alimentou em sua vida: “Eu quero”, disse-lhe (e imaginemos que nos diz o mesmo), “que cada dia pratiques algum obséquio especial a meu amantíssimo pai nutrício, São José. Continuar lendo

SEGUNDO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA: JESUS, O BOM PASTOR

bomEgo sum pastor bonus. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis — “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas” (Io. 10, 11).

Sumário. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar a vida por nós, vossas ovelhas, e nos livrastes dos castigos merecidos? Não satisfeito com isso, quisestes ainda, depois da morte, deixar-nos o vosso corpo na santa Eucaristia, para sustento de nossas almas. Quem, pois, não Vos amará com todo o afeto? Mas infelizmente muitos Vos pagam com a mais negra ingratidão.

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I. Assim diz Jesus Cristo mesmo no Evangelho deste dia: Ego sum pastor bonus — “Eu sou o bom pastor”. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar o vosso sangue e a vida para salvar as vossas ovelhas, que somos nós, e livrar-nos dos castigos merecidos? Vós mesmo, diz São Pedro, levastes os nossos pecados em vosso corpo pregado na cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas vossas chagas fomos curados: Cuius livore sanati estis (1). Para nos curar de nossos males, este bom Pastor tomou a si todas as nossas dívidas e pagou-as com o seu próprio corpo, morrendo de dor sobre a cruz.

Este excesso de amor de Jesus para conosco, as suas ovelhas, fazia Santo Inácio Mártir arder do desejo de dar a vida por Jesus Cristo, dizendo, assim como se lê numa carta sua: Amor meus crucifixus est — “O meu amor foi crucificado.” Quis o santo dizer: Como! Meu Deus quis morrer crucificado por meu amor, e eu poderei viver sem desejo de morrer por Ele? – Com efeito, que grande coisa fizeram os mártires dando a vida por Jesus Cristo, que morreu por amor deles! Ah! A morte que Jesus Cristo padeceu por eles, suavizava-lhes todos os tormentos, os açoites, os cavaletes, as unhas de ferro, as fogueiras e as mortes mais dolorosas.

Não se contentou, porém, o nosso bom Pastor com dar a vida pelas suas ovelhas; ainda depois de sua morte quis deixar-lhes na santíssima Eucaristia o seu próprio corpo, já sacrificado uma vez na cruz, a fim de que fosse o alimento e sustento das suas almas. O ardente amor que nos dedicava, diz São João Crisóstomo, levou-O a unir-se a nós e fazer-se uma coisa conosco: Semetipsum nobis immiscuit, ut unum quid simus. Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DE CARIDADE PARA COM O PRÓXIMO

mariaHoc mandatum habemus a Deo: ut qui diligit Deum, diligat et fratrem suum — “Nós temos de Deus este mandamento, que o que ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Io. 4, 21).

Sumário. O amor para com o próximo nasce do amor para com Deus. Ora, como nunca existiu, nem jamais existirá, quem mais que Maria Santíssima amasse a Deus, assim nem houve, nem haverá, quem mais que a Santíssima Virgem tenha amado e ame o próximo. Basta saber que esta sua caridade a levou a oferecer à morte, entre as dores mais acerbas, e pela nossa salvação, o seu Filho unigênito. Felizes de nós se soubermos imitar uma Mãe tão carinhosa. Ela usará para conosco da mesma caridade que tivermos para com o próximo.

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O amor para com Deus e para com o próximo nos é imposto no mesmo preceito:Nós temos de Deus este mandamento, diz São João,que o que ama a Deus, ame também a seu irmão. A razão é óbvia, diz Santo Tomás; porque quem ama a Deus, ama todas as coisas amadas por Deus. Mas visto que não existiu, nem jamais existirá, quem mais que Maria amasse a Deus, também não houve, nem haverá, quem mais que a Santíssima Virgem tenha amado o próximo. Sobre esta passagem dos Cânticos: Ferculum fecit sib rex Salomon… media caritate constravit, propter filias Ierusalem (1) —– “O rei Salomão fez para si uma liteira… revestiu-a de caridade por causa das filhas de Jerusalém”, o Padre Cornélio a Lapide diz que esta liteira foi o seio de Maria, no qual habitou o Verbo incarnado, enchendo sua Mãe de caridade, a fim de que auxiliasse a qualquer que a ela recorresse.

Vivendo neste mundo, foi Maria tão cheia de caridade, que socorria os necessitados, mesmo sem que lho pedissem; como fez precisamente nas bodas de Caná, quando pediu ao Filho o milagre do vinho, expondo-Lhe a aflição daquela família: Vinum non habent (2) — “Eles não tem vinho”. — Oh, quanto ela se apressava quando se tratava de socorrer o próximo! Quando, por ofício de caridade, visitou a casa de Isabel, foi com pressa às montanhas: abiit in montana cum festinatione (3). Não pode, porém, demonstrar melhor a sua grande caridade que oferecendo à morte o seu Filho pela nossa salvação, pelo que São Boaventura diz: “Maria amou o mundo de tal modo, que deu por ele o seu Filho unigênito.”

Esta caridade de Maria para conosco não é menor agora que ela está no céu; muito ao contrário, como diz o mesmo São Boaventura, ali muito se tem aumentado, porque conhece melhor as nossas misérias. Pobres de nós, se Maria não rogasse a nosso favor! Revelou Jesus Cristo à Santa Brígida que, se as súplicas da divina Mãe não intercedessem por nós, não haveria esperança de misericórdia. Continuar lendo

BENEVOLÊNCIA PARA COM O PRÓXIMO

Resultado de imagem para donzela catolica“Deus quando formou o coração do homem, plasmou-o na bondade”, estas palavras do genial Bossuet se aplicam a todos nós, principalmente à mulher, a quem Deus enriqueceu com tesouros de bondade e delicadezas tais, que a torna apta para suavizar as horas amargas da vida.

Á vista da desgraça alheia, não se comove o coração da mulher muito mais depressa que o do homem? Não chora a moça e a mulher de vezes antes, sobre o infortúnio alheio? Não estendem com mais prazer sua mão benfazeja para suavizar a necessidade alheia? Em regra não resolvem dez moças consagrar-se, como irmãs de caridade, às obras de misericórdia cristã, antes que só rapaz queira prestar-se a tal sacrifício?

Este traço de bondade e benevolência, com que Deus marcou coração feminino, deves, jovem cristã, procurar conservá-lo e avivá-lo sempre mais. Não te é apenas um adorno: também se lhe anexa um grande poder, muito salutar e benfazejo a outrem.

O conhecido escritor inglês Faber, assim se exprime sobre o poder da benevolência:

“Vejo uma multidão de pequenos entes, com as faces veladas, quem em união com a graça e com os anjos executam as suas obras. Esvoaçam por toda a parte. Consolam os tristes, tranqüilizam os aflitos, acalmam os enfermos, acendem nos olhos dos moribundos um raio de esperança, mitigam as dores dos corações aflitos e desviam os homens do pecado. Parecem dotados de força surpreendente: conseguem o que os anjos não podem; insinuam-se nos corações, a cujas portas se lhes abrem, voam de novo estes pequenos mensageiros do Pai do Céu, para levar a graça. Estes pequenos, mas poderosos entes, são os atos de bondade, que da manhã à noite se acham ao serviço do bom Deus”.

Servindo-se de uma comparação tirada da vida dos animais, certo escritor francês procura expor o benefício influxo da benevolência, fazendo-nos ver como os próprios animais não são insensíveis ao toque da bondade. É a história de um pobre cãozinho, que corre apressado ao longo do muro e se esconde quanto pode. As crianças perseguem-no. Os trausentes o repelem a pontas-pé. É um cão do campo, cujo dono o expulsou. Magro, faminto, imundo, passa as noites ao relento nos portões, de orelha em pé, receoso de ser enxotado impiedosamente. Ninguém lhe dá um olhar carinhoso, e até os outros cães o assaltam com desprezo, por não serem tão magros quanto ele. Passa um homem; o pobre animal adivinha nele um salvador e se lhe arroja aos pés, implorando alguma coisa com um olhar de amargura e tristeza. Continuar lendo

É MISTER SOFRER TUDO PARA AGRADAR A DEUS

sofreCaritas patiens est… omnia suffert… omnia sustinet — “A caridade é paciente… tudo sofre… tudo suporta” (1 Cor. 13, 4).

Sumário. Para se tornarem agradáveis a Deus, os santos desapossaram-se de seus bens, renunciaram às mais altas dignidades da terra e acolheram como tesouros as enfermidades, as perseguições, e despojamento de tudo, e a morte mais dolorosa e triste. E que fazemos nós para um fim tão sublime? Ó miséria! Recusamo-nos até a sofrer com paciência um leve incômodo, uma pequena contrariedade, um desprezo, uma palavra mordaz. Quão diferentes dos santos somos nós!

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A maior preocupação, para não dizer única, dos santos foi: desejarem com todo o afeto sofrer por amor de Deus todo o trabalho, todo o desprezo e toda a dor a fim de tornarem-se desta sorte agradáveis ao Coração divino que tanto merece ser amado e tanto nos ama. — Com efeito, toda a perfeição e todo o amor de uma alma para com Deus consiste em sempre procurar o agrado de Deus e fazer o que mais Lhe agrada. Ó feliz de quem sempre pudesse dizer com Jesus Cristo:Ego quae placita sunt ei facio semper(1) — “Eu faço sempre o que Lhe agrada.

Que honra mais sublime, que consolação maior pode ter uma alma, do que fazer qualquer trabalho, ou aceitar alguma pena, alguma enfermidade, com o pensamento de dar assim gosto a Deus? Temos sobeja obrigação de dar gosto ao Deus que nos amou tanto, nos deu tudo o que possuímos, e, não satisfeito com dar-nos tantos bens, chegou a dar-se a si mesmo, primeiro sobre a cruz, na qual morreu por nosso amor, e depois no Santíssimo Sacramento do altar, no qual se nos dá todo inteiro pela santa comunhão, de sorte que não Lhe resta mais nada para dar.

Para se tornarem agradáveis a Deus, os santos não souberam que fazer. Quantos jovens não deixaram o mundo para se darem inteiramente ao Senhor! Quantas donzelas, mesmo de estirpe régia, não renunciaram consórcios com os personagens mais altos, para se encerrarem num convento! Quantos anacoretas não se internaram no fundo dos desertos ou em espeluncas, para pensarem somente em Deus! Ainda para darem gosto a Deus, quantos mártires não aceitaram os açoites, os ferros em brasa e os tormentos mais cruéis dos tiranos! Numa palavra, por amor de Deus, os santos desapossaram-se de seus bens, renunciaram às dignidades mais altas da terra, e acolheram, como se fossem tesouros, as enfermidades, as perseguições, o despojamento de tudo e a morte mais dolorosa e triste. E para um fim tão sublime nós nos recusaremos a sofrer com paciência um leve incômodo, uma pequena contrariedade, um desprezo, uma palavra mordaz? Continuar lendo

PREPARAÇÃO PARA A ORAÇÃO MENTAL – MEDITAÇÃO XI: DOS BENEFÍCIOS DE DEUS

Resultado de imagem para pedindo ajudaVamos conversar com Deus sobre o importantíssimo negocio da salvação das nossas almas; porem, para que os nossos infernais inimigos não nos embaracem, armemo-nos primeiro com o sinal da Cruz, dizendo com vivíssima fé: Pelo sinal da Santa Cruz, etc…

Feito o sinal da Cruz, digamos:

Espíritos tentadores e demônios malditos apartem-vos de mim e deste lugar para as profundezas do inferno, e não me estorveis nesta oração, dirigida para a honra e glória de Deus, e salvação da minha alma.

Façamos atos da presença de Deus.

Eu creio meu Deus e Senhor, firmemente, que vós estais aqui presente, dentro de mim, penetrando no meu interior, presenciando ainda os mais ocultos pensamentos do meu coração, sem que eu me possa esconder aos vossos puríssimos olhos; porém (prostrem-se) prostrado por terra com o corpo e com a alma, unido ao mesmo pó, me humilho na vossa divina presença desejo adorar-vos como adora a Maria Santíssima, os anjos e os santos do céu e os justos da terra: – Porem, ai de mim, oh meu Deus! Eu pequei, Senhor, perdoe-me, que eu proponho de me emendar e de não tornar mais a pecar. (levantem-se da prostração)

Ato de petição

Pai Eterno pelo sangue de Jesus Cristo e pelas dores de Maria Santíssima conceda-me as luzes, auxílio e graças para fazer bem e com fruto essa meditação. (Rezar um Pai Nosso e Uma Ave Maria)

Leiam-se agora os pontos da meditação, um de cada vez; e quando se encontrarem esses pontinhos (…) deve-se parar por algum tempo, a fim de se ponderar bem o sentido do que se tiver lido; e depois de cada ponto se ficará em silencio, meditando, pelo menos, dez minutos, de maneira que a meditação dos três pontos perfaça, pelo menos, meia hora; e ultimamente se darão graças ao Senhor.

Breve método da oração

MEDITAÇÃO XI -DOS BENEFÍCIOS DE DEUS

PONTO 1•Considera, minha alma, nos benefícios que Deus, pelo seu extremoso amor, te ha feito, tanto corporais como espirituais, tanto naturais como sobrenaturais: podias nascer e morrer privado do batismo; porém o Senhor quiz que viesses á luz do dia para te resgatar da escravidão do demônio por via do sacramento do batismo, admitindo-te para o numero de seus filhos, e como Pai amoroso tem protegido os teus interesses e tido cuidado de ti, defendendo te inumeráveis males, perigos, enfermidades e desgraças em que tantos cada dia caem. Tem-te conservado a vida, quando muitos outros, mais sadios do que tu, morreram na flor de seus anos, e jå estão comidos pela terra, e tu ainda vives, e ainda Deus te dá tempo de chorar teus pecados e de segurar a tua salvação.. E que seria agora de ti, se o Senhor te tivesse abandonado aos inimigos, ou entregue aos apetites e paixões?.. Talvez tivesses morrido em uma forca, ou pelo menos teu corpo estaria consumido, e tua vida estragada e a tua alma perdida!.. Dá graças por tantos benefícios, e implora a continuação dos frutos da divina misericórdia.  Continuar lendo

JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, O MELHOR DOS AMIGOS

santAmicus fidelis medicamentum vitae et immortalitatis — “O amigo fiel é um medicamento de vida e de imortalidade”(Ecclus. 6, 16).

Sumário. Bem suave é estar a gente na companhia de um amigo querido: e será possível que nós, neste vale de lágrimas, não achemos consolação perto do melhor de nossos amigos que nos pode encher de todos os bens? Eis que no Santíssimo Sacramento nos podemos entreter com Jesus à nossa vontade, abrir-Lhe o nosso coração, expor-Lhe as nossas necessidades, pedir-Lhe graças. Aproximemo-nos, pois, de Jesus com grande confiança e amor, unamo-nos a Ele, e peçamos-Lhe sobretudo a graça de O podermos amar sempre com todas as nossas forças.

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Bem suave é estar a gente na companhia de seu amigo querido; e não nos será suave, neste vale de lágrimas, estarmos na companhia do melhor de nossos amigos, de um amigo que pode encher-nos de todos os bens, nos ama apaixonadamente e por isso se deixa ficar continuamente conosco? Eis que no Santíssimo Sacramento nos podemos entreter com Jesus à nossa vontade, abrir-Lhe o nosso coração, expor-Lhe as nossas necessidades, pedir-Lhe graças. Podemos, numa palavra, neste mistério tratar com o Rei do céu com toda confiança e singeleza.

Foi nimiamente feliz José, quando Deus, como atesta a Sagrada Escritura, se dignou descer por sua graça ao cárcere para consolá-Lo: Descendit cum illo in foveam, et in vinculis non dereliquit eum (1) — “A divina Sabedoria desceu com Ele ao fosso, e não o deixou nas cadeias”. Mas muito mais felizes somos nós por termos sempre conosco, nesta miserável terra, nosso Deus feito homem, que, com o coração cheio de amor e de misericórdia, nos honra com sua presença real a cada instante de nossa vida.

Que consolo é para um pobre encarcerado ter um amigo terno, que vai entreter-se com ele, o consola, lhe anima a esperança, procura para ele socorro e cuida em aliviá-lo no seu infortúnio? Eis aqui está o nosso bom amigo Jesus Cristo, que neste Sacramento nos anima com estas palavras: “Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus (2) — Convosco estou todos os dias. Eis-me aqui todo para vós, vindo do céu à vossa prisão de propósito para vos consolar, ajudar e por em liberdade. Acolhei-me, fiquemos sempre juntos, uni-vos a mim; que então não sentireis mais o peso de vossas misérias, e depois vireis comigo para o meu reino, onde vos farei plenamente felizes. Continuar lendo

A PENA QUE TERÁ NO INFERNO QUEM SE CONDENAR POR TER PERDIDO A VOCAÇÃO

infPro eo quod abiecisti sermonem Domini, abiecit te Dominus, ne sis rex — “Como tu rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Reg. 15, 23).

Sumário. O remorso de ter perdido por própria culpa qualquer grande bem, ou de ter sido causa de algum grande mal, é uma pena tão grande, que ainda nesta vida causa tormentos indizíveis. Qual não será, pois, no inferno o tormento de um religioso que se vir condenado àquele cárcere, por ter perdido a vocação, e sem esperança de poder remediar a sua eterna ruína? Desgraçado de mim! Exclamará desesperado; podia ser um príncipe no paraíso e tornei-me um dos réprobos mais infelizes!

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O remorso de ter perdido por própria culpa algum grande bem, o de ter chamado voluntariamente sobre si qualquer grande mal, é um apena tão grande, que ainda nesta vida causa um tormento insofrível. Imagina, pois, que tormento terá no inferno um jovem, chamado por Deus, por favor singular, ao estado religioso, quando conhecer que, se obedecera a Deus, teria adquirido no paraíso um lugar distinto, e em vez disso se vir encerrado naquele cárcere de tormentos, sem esperança de remédio à sua ruína eterna!

É este o verme que, sempre vivo, sempre lhe roerá o coração com um contínuo remorso: Vermis eorum non moritur (1) — “O seu verme não morre”. Ele dirá então: Ó insensato que fui! Podia fazer-me um grande santo; se tivera obedecido, agora estaria salvo; e eis que em vez disso, por minha própria culpa, por um nada, estou condenado, e condenado sem remédio!

Conhecerá então o miserável para sua maior pena, e verá no dia do juízo universal colocados à direita de Jesus e coroados como santos, conhecerá, digo, e verá tantos companheiros seus, que obedeceram à vocação divina, e deixando o mundo, se recolheram à casa de Deus, a que ele também tinha sido chamado. Ver-se-á então apartado do consórcio dos bem-aventurados, e relegado no meio da chusma inúmera dos miseráveis réprobos, porque foi desobediente à voz de Deus. É certo que o pensamento de sua vocação lhe será no inferno como que outro novo inferno. Continuar lendo

COMO AS PALAVRAS DE DEUS DEVEM SER OUVIDAS COM HUMILDADE E COMO MUITOS NÃO AS PONDERAM

Resultado de imagem para cabisbaixoJesus: Ouve, filho, as minhas palavras, palavras suavíssimas que excedem toda a ciência dos filósofos e sábios deste mundo. As minhas palavras são espírito e vida (Jo 6,64), e não se devem interpretar humanamente. Não devem ser abusadas para vã complacência, mas devem ser ouvidas em silêncio e recebidas com máxima humildade e grande afeto.

A alma: E disse eu: Bem-aventurado o homem a quem instruís, Senhor, e lhe ensinais a vossa lei, para suavizar-lhe os dias maus e dar-lhe consolo neste mundo (Sl 93, 12.13).

Jesus: Eu, diz o Senhor, desde o princípio ensinei aos profetas e ainda agora não cesso de falar a todos; mas muitos são insensíveis e surdos à minha voz. A muitos agrada mais a voz do mundo que a de Deus; mais facilmente seguem os apetites da carne que o preceito divino. O mundo promete apenas coisas temporais e mesquinhas e é servido com grande ardor; eu prometo bens sublimes e eternos, e só encontro frieza nos corações dos mortais. Quem há que me sirva e obedeça em tudo com tanto empenho como se serve ao mundo e aos seus senhores? Envergonha-te, Sidon, diz o mar (Is 23, 4). E se queres saber por que, ouve o motivo: Por um pequeno salário se empreendem grandes viagens, e pela vida eterna muitos nem dão um passo sequer. Busca-se o lucro vil; por um vintém, às vezes, há torpes brigas; por uma ninharia e promessa mesquinha não se teme a fadiga, nem de dia, nem de noite.

Mas que vergonha! Pelo bem imutável, pelo prêmio inestimável, para honra suprema e pela glória sem fim, o menor esforço nos cansa. Envergonha-te, pois, servo preguiçoso e murmurador, por serem os mundanos mais solícitos para a perdição que tu para a salvação. Procuram eles com mais gosto a vaidade que tu a verdade. Entretanto, não raro, sua esperança os engana; mas minha promessa a ninguém falta, nem despede com as mãos vazias ao que em mim confia. Darei o que prometi, cumprirei o que disse, contanto que se persevere fiel no meu amor até ao fim. Eu sou quem remunera todos os bons e sujeita a provas duras todos os devotos. Continuar lendo

VAIDADE DO MUNDO

vaidadeQuid prodest homini, si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? — “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma:” (Matth. 16, 26.)

Sumário. Os nossos parentes e amigos que estão na eternidade, lá da outra vida nos recomendam que não diligenciemos alcançar neste mundo senão os bens que nem mesmo a morte nos faz perder. Com efeito, de que aproveita ganharmos o mundo inteiro, se depois perdermos a alma? Perdida a alma, perdemos tudo! Penetrados desta grande máxima, quantos jovens se resolveram a encerrar-se nos claustros, quantos anacoretas a viver nos desertos, quantos mártires a dar a vida por Jesus Cristo!

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Um filósofo antigo, de nome Aristipo, fez em certa ocasião uma viagem por mar. O navio naufragou e o filósofo perdeu todos os seus bens, mas arribou felizmente à praia. Como era muito conhecido pelo seu saber, os habitantes do país o indenizaram de tudo que tinha perdido. Pelo que escreveu depois aos amigos da pátria que, avisados pelo seu exemplo, se premunissem somente daqueles bens que nem com o naufrágio se perdem. É isto exatamente o que lá do outro mundo nos recomendam os parentes e amigos que estão na eternidade: isto é, que não diligenciemos alcançar neste mundo senão os bens que nem a morte nos faz perder.

De que nos serve, diz Jesus Cristo, ganhar o mundo inteiro, se na morte, perdida a alma, perdemos tudo? Quid prodest homini, si universum mundum lucretur? Penetrados desta grande máxima, quantos jovens resolveram encerrar-se nos claustros, quantos anacoretas foram viver no deserto, quantos mártires deram a vida por Jesus Cristo! — Com esta máxima Santo Inácio de Loyola ganhou muitas almas para Deus; especialmente a bela alma de São Francisco Xavier, que estando em Paris se entregava a projetos mundanos. “Francisco”, disse-lhe um dia o Santo, “pensa que o mundo é traidor, que promete e não cumpre. Ainda quando cumprisse o que te promete, nunca poderia contentar-te o coração. Suponhamos que te contente: quanto tempo durará a tua felicidade? Mais que a vida? E afinal, o que poderás levar para a eternidade? Há porventura algum rico que tenha levado consigo uma moeda sequer, ou um criado para a sua comodidade? Há porventura algum rei que tenha levado consigo um fio de púrpura como distintivo?”

Tocado destas reflexões, Francisco renunciou ao mundo, seguiu Santo Inácio; e se fez santo. Vanitas vanitatum — “Vaidade das vaidades!” — era assim que Salomão chamava a todos os bens do mundo, depois de não se ter recusado prazer algum dos que o mundo pode oferecer: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas (1) — “Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade! Continuar lendo

FESTA DA ANUNCIAÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA

(Nesse ano de 2018, Festa transferida do dia 25/03 por coincidir com o Domingo de Ramos)

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Ecce concipies in utero et paries filium, et vocabis nomen eius Iesum — «Eis que conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus» (Luc 1, 31).
 
Sumário. Eis como Maria, enquanto na sua casa está suplicando a Deus pela vinda do Redentor, vê um anjo que a saúda e lhe anuncia ser ela mesma destinada para Mãe do Salvador. A humilde Virgenzinha, julgando-se nimiamente indigna de tamanha honra, fica toda perturbada; mas afinal dá o consentimento, e naquele mesmo instante o Verbo divino se tornou seu Filho. Ó grande Mãe de Deus, vós, tão privilegiada e tão humilde, nós tão pecadores e tão orgulhosos! Obtende-nos a santa humildade.
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I. Querendo Deus enviar seu Filho para se fazer homem e assim remir o homem perdido, escolheu-lhe uma mãe virginal, entre todas as virgens a mais pura, a mais santa e a mais humilde. Enquanto Maria estava em sua pobre casa suplicando a Deus pela vinda do Redentor, eis que lhe aparece um anjo que a saúda e lhe diz: Ave gratia plena: Dominus tecum; benedicta tu in mulieribus (Luc 1, 28) — «Ave, cheia de graça: o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres. Que faz a humilde Virgenzinha ouvindo tão elogiosas palavras? Não se desvanece, mas cala-se perturbada, julgando-se indigna de tais louvores: Turbata est in sermone eius — «Turbou-se com as suas palavras». — Ó Maria, vós tão humilde, e eu tão orgulhoso! Obtende-me a santa humildade.
 
Mas, ao menos aqueles louvores não fizeram surgir à Maria a ideia, que porventura fosse ela escolhida para Mãe do Redentor? Não, serviram tão somente para fazê-la entrar num grande temor, de modo que foi preciso que o anjo a animasse a não temer, porque tinha achado graça diante de Deus. E então anunciou-lhe que era escolhida para Mãe do Salvador do mundo: Ecce concipies in utero, et paries filium, et vocabis nomen eius Iesum — «Eis que conceberás, e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus».
Ora, pois, assim lhe fala São Bernardo, porque tardais, ó Virgem santa, a dar o consentimento? O Verbo Eterno espera-o para tomar a natureza humana e fazer-se vosso filho; também o esperamos nós, que estamos infelizmente condenado à morte eterna. Se consentirdes em ser Mãe do Redentor, todos nós seremos livres da morte eterna. Respondei, Senhora, depressa: não retardeis mais a salvação do mundo, que agora depende de vosso consentimento. Mas felizmente, eis que Maria já responde ao anjo: Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum. Eis aqui, diz a Virgem, eis aqui a escrava do Senhor, obrigada a fazer o que seu Senhor ordena. Se ele escolhe uma escrava para sua mãe, não se louve a escrava, mas unicamente a bondade do Senhor, que se digna honrá-la assim. — Ó Bem-Aventurada Virgem Maria, quanto soubestes agradar e ainda agradais a vosso Deus! Tende piedade de mim!

DA CARIDADE FRATERNA

caridDiliges proximum tuum tamquam teipsum — “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Marc. 12, 31).

Sumário. Ninguém pode amar a Deus sem que tenha amor ao próximo, porquanto o amor de Deus e o do próximo nascem da mesma caridade, e o mesmo preceito que nos obriga ao primeiro, obriga-nos também ao segundo. Examinemos em que estima tivemos até agora um preceito tão importante, e, se porventura tivermos de reconhecer faltas, façamos firme propósito de ser para o futuro mais exatos, lembrando-nos que da observância da caridade depende o sermos cristãos, não só de nome, mas de fato.

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Não se pode amar a Deus sem amar ao mesmo tempo ao próximo. O mesmo preceito que nos manda o amor para com Deus, manda-nos igualmente o amor para com os nossos irmãos:Et hoc mandatum habemus a Deo, ut, qui diligit Deum, diligat et fratrem suum(1) — “Nós temos de Deus este mandamento, que o que ama a Deus, ame também a seus irmão”. D’onde infere Santo Tomás de Aquino, que da mesma caridade nasce o amor para com Deus e o para com o próximo, porque a caridade nos faz amar tanto a Deus como ao próximo, visto que assim o quer o próprio Deus. — Deste modo compreende-se o que São Jerônimo refere de São João Evangelista. Perguntando-lhe os seus discípulos, porque tão repetidas vezes lhes recomendava o amor fraternal, respondeu o Santo: “Porque é o preceito do Senhor; sendo bem observado, basta para a salvação.”

Certo dia Santa Catarina de Sena disse ao Senhor: “Meu Deus, quereis que eu ame ao meu próximo; mas eu não posso amar senão a Vós.” Respondeu-lhe o nosso Salvador: “Minha filha, aquele que me ama, ama todas as coisas que eu amo.” — Com efeito, quem ama alguma pessoa, ama também os parentes, os servos, as imagens e até as vestes da pessoa amada, pela razão que esta ama tais coisas. E porque é que nós devemos amar ao próximo? Porque aqueles a quem amamos são objeto da benevolência de Deus.

Por isso escreve São João que é mentiroso o que diz que ama a Deus e odeia a seu irmão (2). Ao contrário, diz Jesus Cristo que aceitará como feita a si próprio a caridade de que usarmos para com o mais pequenino de seus irmãos, que tais são os nossos próximos (3). — Examina-te aqui, se tens até agora tido na devida estima o preceito tão importante da caridade, e toma a resolução de seres mais exato para o futuro. Lembra-te que da observância deste preceito depende o seres cristão não só de nome, mas também de fato: In hoc cognoscent omnes, quia discipuli mei estis: si dilectionem habueritis ad invicem (4) — “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Continuar lendo

DOMINGO “IN ALBIS”: SÓ EM DEUS SE ACHA A VERDADEIRA PAZ (OITAVA DA PÁSCOA)

Venit Iesus, et stetit in medio, et dixit eis: Pax vobis — “Veio Jesus, e pôs-se no meio e disse-lhes: A paz seja convosco” (Io. 20, 9).

Sumário. Assim é: só em Deus se acha a verdadeira paz; porque, tendo Deus criado o homem para si, o Bem infinito, só Ele pode fazê-lo contente. Quem quiser gozar esta paz, deve repelir de seu coração tudo que não seja Deus, que feche as portas dos sentidos a todas as criaturas e viva como que morto aos afetos terrestres. É isto exatamente o que o Senhor quis dar a entender aos apóstolos, quando, aparecendo para lhes anunciar a paz, quis ambas as vezes entrar aonde estavam os apóstolos, estando as portas fechadas.

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I. Refere São João que, achando-se os apóstolos juntos numa casa, Jesus Cristo ressuscitado entrou ali, posto que as portas estivessem fechadas, e pondo-se no meio, disse-lhes duas vezes: A paz seja convosco. Repetiu as mesmas palavras oito dias depois, aparecendo-lhes mais uma vez, estando fechadas as portas. Pax vobis — “A paz seja convosco”. — Com estas palavras quis Jesus Cristo dar-nos a entender “que Ele é a nossa paz; Ele que dos dois fez um, desfazendo em sua carne, com o sacrifício de sua vida, o inconsistente muro de separação, as inimizades”. (1)

Com efeito: só em Deus se acha a verdadeira paz; porque, tendo Deus criado o homem para si mesmo, o Bem infinito, só Ele pode plenamente satisfazê-lo. Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (2) — “Deleita-te no Senhor, e te outorgará as petições de teu coração”. Quando alguém acha as suas delícias só em Deus e não busca coisa alguma fora d’Ele, Deus cuidará em satisfazer-lhe todos os desejos do coração.

Insensatos portanto são aqueles que dizem: Bem-aventurado o que pode gastar dinheiro à vontade! Que pode mandar nos outros! Que pode gozar os prazeres que deseja. Loucura! Bem-aventurado é somente o que ama a Deus, o que diz deveras que Deus só lhe basta. A experiência demonstra bem patentemente, que muitos dos que o mundo chama felizes, por grandes que sejam as suas riquezas e altas as suas dignidades, todavia levam vida infeliz, nunca estão contentes, jamais gozam um dia de verdadeira paz. Ao contrário, tantos bons religiosos que vivem num deserto ou numa gruta, sujeitos a enfermidades, à fome, ao frio, estão contentes e exultam de alegria. E porque? Porque eles só se ocupam com Deus, Deus os consola. Ah! A paz que o Senhor faz provar a quem O ama, está acima de todas as delícias que o mundo pode dar! Pax Dei quae exsuperat omnem sensum (3). Continuar lendo

DO NÚMERO DOS PECADOS – PONTO III

Imagem relacionada“Filho, pecaste? Não tornes a pecar; mas roga pelas culpas antigas, a fim de que te sejam perdoadas” (Ecl 21,1)

Assim te adverte, ó cristão, Nosso Senhor, porque deseja salvar-te.

“Não me ofendas, filho, novamente, mas pede perdão dos pecados cometidos”

Quanto mais tiveres ofendido a Deus, meu irmão, tanto mais deves temer a reincidência em ofendê-lo; porque talvez mais um pecado que cometeres fará pender a balança da justiça divina, e serás condenado. Falando absolutamente, não quero dizer, porque não o sei, que não haja perdão se cometeres novo pecado; afirmo, porém, que isto pode acontecer. Por conseguinte, quando te assaltar a tentação, deves considerar: quem sabe se Deus me perdoará outra vez ou ficarei condenado? Dize-me, por favor: Provarias uma comida, que supusesses estar provavelmente envenenada? Se presumisses fundamente que em determinado caminho estavam teus inimigos à espreita para matar-te, passarias por ali, podendo tomar outra via mais segura? Do mesmo modo, que certeza ou que probabilidade podes ter de que, tornando a pecar, sentirás logo verdadeira contrição e não voltarás à culpa detestável? Ou ainda, se novamente pecares, não te fará Deus morrer no próprio ato do pecado, ou te abandonará depois da queda? Ao comprar uma casa, tomas prudentemente as necessárias precauções para não perderes teu dinheiro. Se vais usar algum remédio, procurarás certificar-te que não te possa fazer mal. Ao atravessar um rio, evitas o perigo de cair nele. E, por um vil prazer, por um deleito brutal arriscas tua salvação eterna, dizendo: Eu me confessarei. Mas, pergunto eu: Quando te confessarás? — No domingo. — E quem te assegura que no domingo estarás vivo? — Amanhã mesmo. — E quem te afiança esse dia de amanhã, quando não sabes sequer se tens ainda uma boa hora de vida?

“Tendes um dia — diz Santo Agostinho — quando não tendes certeza de uma hora?”

Deus — prossegue o mesmo Santo — promete o perdão ao que se arrepende, não promete o dia de amanhã a quem o ofende: Se agora pecares, Deus, talvez, te dará tempo de fazer penitência, ou talvez não. E se não to der, que será de ti eternamente? E, não obstante, queres perder tua alma por um mísero prazer e a expões ao perigo da perdição eterna. Arriscarias mil ducados por essa vil satisfação? Digo mais: darias tudo, fazenda, casa, poder, liberdade e vida, por um breve gosto ilícito? Não, sem dúvida. E, contudo, por esse mesmo indigno prazer, queres perder tudo: Deus, a alma e o céu. Dize-me, pois: as coisas que ensina a fé são verdades altíssimas, ou não passam de puras fábulas que haja céu, inferno e eternidade? Crês que se a morte te surpreender em pecado estarás perdido para sempre?… Que temeridade, que loucura, condenares a ti mesmo às penas eternas com a vã esperança de remediá-lo mais tarde! Continuar lendo

APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO A SUA MÃE MARIA SANTÍSSIMA

Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laetificaverunt animam meam — “Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma” (Ps. 93, 19).

Sumário. Era de justiça que Maria Santíssima, que mais do que qualquer outro tomou parte na Paixão de Jesus Cristo, fosse também a primeira a gozar da alegria da sua ressurreição. Imaginemos vê-la no momento em que lhe aparece o divino Redentor glorificado, acompanhado de grande multidão de Santos, entre os quais São José, São Joaquim e Santa Ana. Oh! Que ternos abraços! Que doces colóquios! Alegremo-nos com a nossa querida Mãe e digamos-lhe: Regina coeli, laetare, alleluia — “Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!”.

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Entre as muitas coisas que Jesus Cristo fez e os Evangelistas passaram em silêncio, deve, com certeza, ser contada a sua aparição a Maria Santíssima logo em seguida à sua ressurreição. Nem necessidade havia de referi-la, porquanto é evidente que o Senhor, que mandou honrar pais e mães, foi o primeiro a dar o exemplo, honrando sua Mãe com a sua presença visível. Demais, era de inteira justiça que o divino Redentor glorificado fosse, antes de mais ninguém, visitar a Santíssima Virgem; a fim de que, antes dos outros e mais do que estes, participasse da alegria da ressurreição quem mais do que os outros participara da paixão.

Um dia e duas noites a divina Mãe ficou entregue à dor pela morte do Filho, mas firme e imóvel na fé da ressurreição; e quando começou a alvorecer o terceiro dia, posta em altíssima contemplação, começou com ardentes suspiros a suplicar ao Filho que abreviasse a sua vinda.

Enquanto está assim absorta nos seus veementíssimos desejos, eis que o seu divino Filho se lhe manifesta em toda a sua glória e claridade; fortalecendo-lhe a vista, tanto a do corpo como a da alma, para que fosse capaz de ver e de gozar a divindade. Oh! Com tão bela aparição como não devia sentir-se satisfeita e contente! Quão ternamente não deviam abraçar-se Filho e Mãe! Quão doces e sublimes não devia ser os colóquios que trocavam! Continuar lendo

PREPARAÇÃO PARA A ORAÇÃO MENTAL – MEDITAÇÃO X: DO AMOR DE DEUS

Imagem relacionadaVamos conversar com Deus sobre o importantíssimo negocio da salvação das nossas almas; porem, para que os nossos infernais inimigos não nos embaracem, armemo-nos primeiro com o sinal da Cruz, dizendo com vivíssima fé: Pelo sinal da Santa Cruz, etc…

Feito o sinal da Cruz, digamos:

Espíritos tentadores e demônios malditos apartem-vos de mim e deste lugar para as profundezas do inferno, e não me estorveis nesta oração, dirigida para a honra e glória de Deus, e salvação da minha alma.

Façamos atos da presença de Deus.

Eu creio meu Deus e Senhor, firmemente, que vós estais aqui presente, dentro de mim, penetrando no meu interior, presenciando ainda os mais ocultos pensamentos do meu coração, sem que eu me possa esconder aos vossos puríssimos olhos; porém (prostrem-se) prostrado por terra com o corpo e com a alma, unido ao mesmo pó, me humilho na vossa divina presença desejo adorar-vos como adora a Maria Santíssima, os anjos e os santos do céu e os justos da terra: – Porem, ai de mim, oh meu Deus! Eu pequei, Senhor, perdoe-me, que eu proponho de me emendar e de não tornar mais a pecar. (levantem-se da prostração)

Ato de petição

Pai Eterno pelo sangue de Jesus Cristo e pelas dores de Maria Santíssima conceda-me as luzes, auxílio e graças para fazer bem e com fruto essa meditação. (Rezar um Pai Nosso e Uma Ave Maria)

Leiam-se agora os pontos da meditação, um de cada vez; e quando se encontrarem esses pontinhos (…) deve-se parar por algum tempo, a fim de se ponderar bem o sentido do que se tiver lido; e depois de cada ponto se ficará em silencio, meditando, pelo menos, dez minutos, de maneira que a meditação dos três pontos perfaça, pelo menos, meia hora; e ultimamente se darão graças ao Senhor.

Breve método da oração

MEDITAÇÃO X – DO AMOR DE DEUS

Ponto 1• Considera no grande amor com que Deus te ha amado e enriquecido de benefícios. Por teu amor criou o céu e a terra, e há preparado o reino da bem aventurança ; e para o gozares determinou que nascesses no seio da Igreja, e logo te recebeu nos braços ? lavou-te com seu sangue, e te aceitou por filho por meio do batismo, pelo qual te adornou com a cândida vestidura da inocência, com o brilhante das virtudes e com outros mil preciosos dons, ficando tu mais rico do que os maiores monarcas, que não receberam este sacramento !!… A tanta munificência do amor do teu Deus, com que tens correspondido ? !… A quem tens tu amado ? A teu Deus, ou ás criaturas ?.. A teu Deus, ou ao mundo ? A teu Senhor, ou ao demônio ? !.. Ah ! ingrato que só tens amado as criaturas, os prazeres e a ti mesmo, e só ao teu amigo, ao teu benfeitor, ao teu Pai não tens amado !.. Acabem hoje, pecador, esses dias desgraçados, com que tanto tens desprezado o amor de teu Deus. Pede-lhe auxílios, perdão e misericórdia. Continuar lendo

DO AMOR DE DEUS

Imagem relacionada“Não há idade na vida a que convenha mais a piedade, do que à mocidade, escreve Mgr. Dupan­loup, não só porque a piedade brilha nas frontes jovenís com mais resplendor; não só por causa do encanto inexprimível com que ela embeleza todas as qualidades naturais da infância, mas sobretudo por esta simples e profunda razão: é que a pie­dade não é outra coisa, senão o amor de Deus, e não sei que haja coração neste mundo a que seja mais fácil inspirar este amor que ao coração das crianças. Tudo aí está ainda puro, generoso, ardente: tudo aí está feito, para este nobre e santo amor, e essa bem-aventurada chama de vida acende-se com uma facilidade maravilhosa.”

Mas se o coração da criança é um santuário onde o amor divino se compraz em estabelecer a sua morada, também a inocência da primeira idade da vida reclama esse amor celeste para aí encon­trar a sua força e apoio. — «Efetivamemente, continua o ilustre bispo de Orleans, um homem já feito, pode vir a ser virtuoso, com uma religião sincera e sólida, posto que sem fervor; mas as crian­ças e os mancebos não o podem fazer, porque sem a piedade fervorosa, não têem nem bastante apoio, nem suficiente força para a sua virtude. Na sua idade, a fé não é ainda bastante profunda, nem a fidelidade bastante generosa, porque, como são corações tenros e fracos, caem facilmente, se a piedade os não sus­tentar.

Quem conhece, como eu, a fragilidade destas pequenas plantas, será também da mesma opinião. Sim, o sopro da graça eleva-as facilmente para o Céu, mas o sopro do vício, fá-las cair desamparadas sobre a terra. Quem lhes há de dar a força, para resistirem aos ataques do respeito humano, às influências dos maus exemplos e dos conselhos pérfi­dos, a todos os laços dum mundo corruptor e cor­rompido? Quem sustentará a sua fraqueza, sobre tantos declives e inclinações perigosas, e contra o mal que de toda a parte as cercará? Repito: se o temor e o amor de Deus, se a piedade corajosa lhes faltar, cairão infalivelmente. Despedaçar-se-ão os laços que os prendiam à virtude, e o sorriso da indiferença e do desdem, da impiedade e até do vício, será em breve visto sobre lábios frescamente tintos do sangue de seu Deus numa primeira comu­nhão.»

É preciso pois que o coração da mãe seja um foco que aqueça e abrase, com seus ardores, o cora­ção da criança. Convém que esse pequeno ser, que começa a sorrir, e por conseqüência a compreen­der, não repouse nos braços maternos, sem ler nos olhares e nas feições de sua mãe alguma coisa de celeste que a faça elevar até ao amor de Deus. Continuar lendo

CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS A EXEMPLO DE JESUS CRISTO

Por que Cristo se angustiou diante da morte?Descendi de coelo, non ut faciam voluntatem meam, sed voluntatem eius qui misit me — “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Io. 6, 38).

Sumário. É tão agradável a Deus o sacrifício da nossa própria vontade, que Jesus Cristo desceu sobre a terra para nos ensinar a maneira de o fazer e em toda a sua vida não fez outra coisa senão dar-nos disso as mais sublimes lições com as suas palavras e com os seus exemplos. Eis, portanto, o que devemos ter em mira em todas as nossas ações: conformar a nossa vontade com a divina, especialmente no que mais repugna ao amor próprio. Vale mais um Bendito seja Deus, dito nas adversidades, do que mil agradecimentos na prosperidade.

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É certo que a nossa salvação consiste em amar a Deus, nosso supremo Bem; porque a alma que não O ama, já não vive, mas está morta (1). A perfeição, porém, do amor consiste em conformar a nossa vontade com a divina; pois que, como diz o Aeropagita, o efeito principal do amor é unir as vontades dos que se amam, de sorte que não tenham senão um só coração e uma só vontade.

É isto o que antes de mais nada com as suas palavras e com os seus exemplos veio ensinar-nos Jesus Cristo, que nos foi dado por Deus tanto para ser nosso Salvador como nosso modelo. Pelo que o Apóstolo escreve que as primeiras palavras de Jesus, ao entrar no mundo, foram estas: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam (2) — “Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Meu Deus, recusastes as hóstias e oblações dos homens; não Vos agradaram os holocaustos que Vos ofereciam pelos seus pecados. Quereis que Vos sacrifique morrendo este meu corpo, que Vós mesmo me haveis dado. Eis-me aqui, Senhor, estou pronto para fazer a vossa santíssima vontade.

No correr de sua vida, Jesus Cristo tem manifestado diversas vezes a sua submissão e conformidade de vontade, dizendo: Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, senão a d’Aquele que me enviou. Quis que conhecêssemos o grande amor a seu Pai pelo ver ir à morte por obediência à vontade d’Este. Por isso disse aos apóstolos: Para que conheça o mundo que amo ao Pai, e assim como me ordenou o Pai, assim faço: Levantai-vos; vamo-nos d´aqui (3). Continuar lendo

DO NÚMERO DOS PECADOS – PONTO II

Imagem relacionadaDirá talvez o pecador que Deus é Deus de misericórdia… Quem o nega?… A misericórdia do Senhor é infinita; mas, apesar dela, quantas almas se condenam todos os dias? Deus cura os que têm boa vontade (Is 61,1). Perdoa o pecado, mas não pode perdoar a vontade de pecar…

Replicará o pecador que ainda é muito jovem… És moço?… Deus não conta os anos, conta as culpas. Ora, a medida dos pecados não é igual para todos. A um perdoa Deus cem pecados; a outro, mil; outro, ao segundo pecado, se verá precipitado no inferno. A quantos condenou após o primeiro pecado! Refere São Gregório que um menino de cinco anos, por ter proferido uma blasfêmia, foi lançado no inferno. Segundo revelou a Santíssima Virgem à bem-aventurada Benedita de Florença, uma menina de doze anos fora condenada por seu primeiro pecado.

Outro menino, de oito anos de idade, também morreu com o primeiro pecado e se condenou. Lemos no Evangelho de São Mateus que o Senhor, a primeira vez em que achou a figueira sem fruto a amaldiçoou, e a árvore secou (Mt 21,19). Em outro lugar diz o Senhor:

“Depois das maldades que o povo de Damasco cometeu três e quatro vezes, eu não mudarei o meu decreto” (não revogarei os castigos que lhe tenho decretado) (Am 1,3)

Algum temerário talvez ouse perguntar por que Deus perdoa a tal pecador três culpas e não quatro. Neste ponto é preciso adorar os inefáveis juízos de Deus e exclamar com o Apóstolo:

“Ó profundidade das riquezas da sabedoria e ciência de Deus! Quão incompreensíveis são seus juízos e imperscrutáveis seus caminhos” (Rm 11,33) Continuar lendo