A BATALHA DE LEPANTO E O ROSÁRIO

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”Nem as tropas, nem as armas, nem os comandantes,
mas a Virgem Maria do Rosário foi quem nos deu a vitória”
 

Fonte: Hojitas de Fe, 216, Seminário Nossa Senhora Corredentora, FSSPX
Tradução:
Dominus Est

São Pio V, eleito Papa em 1566, teve o desejo de convocar a Cristandade para um duplo combate: contra o protestantismo e contra o Islã. Contra este último convidou os príncipes católicos a contrair uma aliança, mas todos eles, ocupados por seus problemas internos, não responderam à iniciativa. Em 1569 os otomanos souberam que o arsenal veneziano havia sido destruído pelo fogo, e que além disso toda a península itálica estava ameaçada pela fome devido a uma má colheita. Selim II aproveitou a ocasião para romper a trégua com Veneza e enviou um ultimato: ou entregaria a preciosa posse de Chipre, ou lhe declararia guerra. Veneza pediu auxílio, mas não queria fazer aliança com a Espanha, nem a Espanha com Veneza, pois Veneza várias vezes fizera aliança com os turcos. São Pio V interveio exortando a Espanha a enviar uma armada para proteger Malta e garantir a rota que levaria auxílio até a Ilha de Chipre.

Felipe II aceitou e enviou seus embaixadores, diante do qual Sua Santidade nomeou Marco Antonio Colonna, bem visto por Filipe II e Veneza, como chefe da armada pontifícia. Sob o comando e mediação do Supremo Pontífice tiveram início as negociações entre a Espanha e Veneza, mas desconfiança mútua e os interesses de ambas as partes, influenciara na demora dos acordos. São Pio V mediou nas discussões com paciência heroica e cordura, e sugeriu a Dom João da Áustria, bastardo irmão de Felipe II, então jovem de 24 anos, como generalíssimo dos exércitos cristãos.

Durante as negociações, uma peste dizimou a esquadra veneziana, e os turcos conquistaram a ilha de Chipre, após 48 dias de resistência heroica. A perda de Chipre desanimou toda a Cristandade. São Pio V culpou os príncipes católicos por aquela perda, que deveriam abandonar suas atitudes antes que fosse tarde demais, e só expiariam suas culpas se resolvessem se unir em defesa da Cristandade. Continuar lendo

XX DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: O FILHO DO REGULO E AS UTILIDADES DAS DOENÇAS

reguloCredidit ipse et domus eius tota — “Creu ele e toda a sua família” (Jo. 4, 53).

Sumário. Em nossas tribulações não nos é proibido pedirmos a Deus que nos livre delas; mas é necessário que nos conformemos com a sua vontade. Estejamos certos de que Deus não nos envia as cruzes para nossa perdição, mas para nossa salvação e para nos comunicar as suas graças. Vede o bom régulo de quem nos fala o Evangelho. Talvez nunca tivesse pensado em ser discípulo de Jesus Cristo; mas o Senhor atraiu-o a si por meio da enfermidade do filho, e comunica-lhe, a ele e a toda a família, o mais precioso de seus dons, a fé.

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I. Refere São João que, tendo certo régulo vindo pedir a Jesus Cristo que quisesse acompanhá-lo até a casa dele para lhe curar um filho moribundo, o Senhor lhe respondeu: Vai, teu filho está vivo. O régulo creu nesta palavra, e, voltando à casa, soube pelos seus criados que a febre deixara o filho na mesma ora em que Jesus dissera: Teu filho está vivo. Pelo que creu ele e toda a sua família: Credidit ipse et domus eius tota.

Admiremos neste trecho do Evangelho uma disposição amorosa da divina Providência, que “toca de uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade” (1). Aquele bom régulo talvez nunca tivesse pensado em fazer-se discípulo de Jesus Cristo; mas o Senhor atraiu-o a si por meio da doença do filho e comunica-lhe, bem com à toda a família, o mais precioso dos seus dons, que é o da fé. — É o que Deus quer fazer também a nosso respeito, quando nos envia tribulações e, em particular, a enfermidade.

Em primeiro lugar, Deus no-las envia afim de que nos emendemos de alguma falta; porquanto, na palavra de São Jerônimo, “assim como as coisas materiais são lavadas com sabão, assim as almas se purificam por meio das enfermidades e tribulações”. — Deus no-las envia também para nos consolidar mais na virtude. Por esse meio nos faz, por assim dizer, tocar com a mão a nossa fraqueza, esclarece-nos acerca da nossa vaidade e desapega-nos das coisas terrestres. — Mas, o que é mais importante, as enfermidades, ao passo que diminuem as forças do corpo, reprimem os apetites de nosso maior inimigo, a carne; ao mesmo tempo que nos recordam que a terra é para nós um lugar de desterro, fazem-nos levar uma vida digna de um cristão e estar preparados para a passagem à eternidade. Por isso é que o Eclesiástico disse: Infirmitas gravis sobriam facit animam (2) – “Uma grave enfermidade faz a alma sóbria”. Continuar lendo

DA ORAÇÃO – PONTO III

Resultado de imagem para rezando joelhosConsideremos, finalmente, as condições da oração bem feita. Muitas pessoas rezam e não alcançam nada, porque não pedem como convém (Tg 4,3). Para bem rezar é preciso, primeiro que tudo, humildade.

“Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes dá sua graça” (Tg 4,6)

Deus não ouve as petições do soberbo; mas nunca despreza a súplica dos humildes (Ecl 35,21), ainda que anteriormente tenham sido pecadores, “Não desprezarás, Senhor, um coração contrito e humilhado” (Sl 50,19).

Em segundo lugar, é necessária a confiança. “

Ninguém esperou no Senhor e foi confundido” (Ecl 2,11)

Ensinou-nos Jesus Cristo que, ao pedirmos a Deus alguma graça, lhe demos o vocativo de Pai nosso, a fim de que lhe roguemos com aquela confiança que um filho tem ao recorrer ao seu próprio pai. Quem reza com confiança, tudo obtém. Para todas as coisas que pedirdes na oração, tende viva fé de consegui-las e vo-las serão concedidas (Mc 2,24). E quem pode ter receio, diz Santo Agostinho, de ser enganado na sua expectativa, se a promessa lhe foi feita pela própria Verdade, que é Deus? Deus não é como os homens, que, às vezes, deixam de cumprir o que prometem, ou porque mentiram quando prometeram, ou porque mudaram depois de vontade (Nm 23,19). Se o Senhor — acrescenta Santo Agostinho — não quisesse conceder-nos as suas graças, para que nos havia de exortar continuamente a pedir-lhes?. Prometendo, contraiu a obrigação de nos conceder as graças que lhe suplicarmos.

Talvez pense alguém que, por ser pecador, não merece ser atendido.

Mas responde São Tomás que a oração, por meio da qual pedimos graças, não se funda em nossos méritos, mas na misericórdia divina. Continuar lendo

TERCEIRA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

CristoCrucificadoDicit matri suae: Mulier, ecce filius tuus. Deinde dicit discipulo: Ecce mater tua: — “Diz à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois diz ao discípulo: Eis aí tua mãe” (Io. 19, 26 et 27).

Sumário: Consideremos como Jesus moribundo, volvendo-se para sua mãe, que estava ao pé da cruz e indicando-lhe pelo olhar o discípulo predileto, lhe disse: Mulher, eis aí teu filho; e depois acrescentou dirigindo-se ao discípulo: Eis aí tua mãe. E assim Maria foi constituída mãe de todos os cristãos e nós fomos feitos seus filhos. Ponhamos, portanto, na Santíssima Virgem, toda a nossa confiança e em todas as necessidades recorramos a ela por socorro. Mas, ao mesmo tempo, provemos pelas nossas obras que somos filhos dignos de seu amor.

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I. Fogem as mães da presença de seus filhos moribundos; o amor não lhes permite assistirem a tal espetáculo, verem-nos sofrer sem que lhes possam trazer alívio. A divina Mãe, porém, quanto mais o Filho estava próximo a morrer, tanto mais se aproximava da cruz. E assim como o Filho sacrificava a vida pela salvação dos homens, ela oferecia a sua dor, compartilhando com perfeita resignação todos os seus sofrimentos e opróbrios. Pelo que o Senhor, volvendo-se para São João, que estava ao lado dela, disse: Mulier, ecce filius tuus. — “Mulher, eis aí teu filho”.

Mas porque é que Jesus a chamou mulher e não mãe? Pode-se dizer que a chamou mulher, porque estava já próximo à morte e assim lhe falou para se despedir, como se dissesse: Mulher, em breve estarei morto, de modo que ficarás sem filho na terra. Deixo-te, portanto, a João, que te servirá e amará com amor de filho. A razão, porém, mais íntima, pela qual Jesus chamou Maria mulher e não mãe, é esta: quis Jesus assim patentear que é ela a grande mulher predita no livro Gênesis, a qual havia de esmagar a cabeça do orgulhoso Lúcifer.

Disse Deus á serpente: Inimicitias ponam inter semen tuum et semen mulieris (1) – “Porei inimizade entre a tua descendência e a da mulher”. Isso indicava que, depois da perdição dos homens em consequência do pecado e apesar da obra da Redenção, haveria no mundo duas famílias e duas descendências. Pela descendência do demônio é significada a família dos pecadores, pela descendência de Maria é significada a família santa que abrange todos os justos com seu chefe Jesus Cristo. De modo que a Virgem foi destinada a ser mãe tanto da cabeça como dos membros, que são os fiéis. — Queres saber se também és do número dos filhos espirituais de Maria? Examina se és animado pelo espírito de seu filho, Jesus Cristo. Continuar lendo

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CAPELAPrezados amigos, prezados leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

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Que Nossa Senhora os conduza ao caminho da santidade.

AS VIRTUDES DO BOM LADRÃO E A SEGUNDA PALAVRA DE JESUS NA CRUZ

ladrAmen dico tibi: Hodie mecum eris in paradiso — “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Luc. 23, 43).

Sumário. Observam os santos Padres que o Bom Ladrão, reconhecendo em Jesus crucificado o seu verdadeiro Deus, confessando-O como tal na presença de seus inimigos e recomendando-se-Lhe, deu exemplos das mais sublimes virtudes. Pelo que o Senhor lhe fez com razão a bela promessa de que naquele mesmo dia havia de gozar das delícias do paraíso. Meu irmão, o Senhor não se mudou, e, portanto, se porventura tivéssemos imitado o ladrão em seus desvarios, imitemo-lo também na sua conversão sincera a Deus e também teremos a mesma sorte feliz.

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I. Para que o nome de Jesus Cristo ficasse eternamente difamado, os judeus crucificaram-No entre dois ladrões, como usurpador sacrílego da divindade; cumprindo assim a profecia de Isaías: Et cum sceleratis reputatus est (1). — “Ele foi colocado no número dos malfeitores”. O Senhor permitiu esta malícia diabólica afim de nos dar um belo exemplo de conversão sincera e, ao mesmo tempo, uma prova exímia de sua infinita misericórdia.

Refere São Lucas que dos dois ladrões um ficou obstinado e outro se converteu. Este, vendo que seu companheiro perverso blasfemava contra o Senhor, pôs-se a repreendê-Lo dizendo que eles eram castigados conforme mereceram, mas que Jesus era inocente e não tinha feito mal algum. E depois , volvendo-se para o próprio Jesus, disse: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum (2). — “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Com estas palavras, reconheceu-O por seu verdadeiro Senhor, e, segundo observa Arnoldo de Chartres, deu provas das mais belas virtudes: Ibi credit, poenitet, praedicat, amat, confidit et orat — “Ele crê, arrepende-se, prega, ama, confia e ora”.

Na cruz, o bom ladrão praticou a fé, crendo, como diz São Gregório, que Jesus Cristo, depois de morto, havia de entrar triunfante no reino de sua glória. Praticou penitência, confessando que merecia a morte e não se atrevendo, na palavra de Santo Agostinho, a esperar perdão antes da confissão de suas culpas. Pregou, exaltando a inocência de Jesus. Praticou, sobretudo, o amor para com Deus, aceitando com resignação a morte em expiação de seus pecados. Pelo que São Cipriano não hesita em chamá-lo verdadeiro mártir, batizado em seu próprio sangue. Felizes de nós, se, tendo seguido o ladrão em seus desvarios, o imitarmos também na sua conversão sincera a Deus!
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DA ORAÇÃO – PONTO II

Resultado de imagem para rezando joelhosConsideramos, além disso, a necessidade da oração. Afirma São João Crisóstomo que, assim como o corpo sem alma está morto, assim quem não reza se acha sem vida. Acrescenta ainda que tanto necessitam as planta de água para não murcharem como nós da oração para nos não perdermos. Deus quer que nos salvemos todos e que ninguém se perca (1Tm 2,4).

“Usa de paciência convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos se convertam à penitência” (2Pd 3,9)

Quer, porém, que lhe peçamos as graças necessárias para nossa salvação, porque, de um lado, não podemos cumprir os preceitos divinos e salvar-nos sem o auxílio atual do Senhor e, de outro lado, Deus não nos quer dar, ordinariamente falando, essas graças, se lhes não pedirmos. Por esta razão, disse o santo Concílio de Trento que Deus não impõe preceitos impossíveis, porque, ou dá-nos a graça próxima e atual necessária para cumpri-los, ou dá-nos a graça de pedir-lhe essa graça atual. Ensina-nos Santo Agostinho que Deus, exceto as primeiras graças, tais como a vocação para a fé, ou da penitência, todas as demais e especialmente a perseverança, concede unicamente àqueles que as pedem.

Inferem daqui os teólogos, entre os quais São Basílio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Clemente de Alexandria e muitos outros, que a oração é necessária para os adultos, como necessidade de meio. Portanto, sem rezar, não é possível salvar-se. E isto, diz o doutíssimo Léssio, se deve considerar artigo de fé.

Os testemunhos da Sagrada Escritura são concludentes e numerosos:

“É preciso orar sempre. Orai, para não caírdes em tentação. Pedi e recebereis. Orai sem cessar” Continuar lendo

JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, MODELO DE VIRTUDE

santQui appropinquant pedibus eius, accipient de doctrina illius — “Os que chegam a seus pés, receberão da sua doutrina” (Deut. 33, 3).

Sumário. Para a nossa salvação, é mister que no dia do juízo a nossa vida se ache conforme à de Jesus Cristo. Esforcemo-nos, pois, por imitar os exemplos luminosos de virtude que Ele nos dá continuamente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia: a sua humildade profunda, a sua mansidão inalterável, aceitando de boa vontade o que Deus manda. Para suprirmos ao que nos falta, ofereçamos a Deus muitas vezes, e particularmente na missa, os merecimentos do divino Redentor.

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I. Consideremos os belos exemplos de virtude que nos dá Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Inefável é a suapaciência. Ele vê que a maior parte dos homens não O adora neste sacramento, nem O quer reconhecer pelo que é. Já antes da instituição sabia que muitas vezes os homens chegariam a calcar aos pés as hóstias consagradas e a atirá-las sobre a terra, à água e ao fogo.

Mas o que mais Lhe amargura o coração tão sensível, é o ver que também a maior parte dos que n’Ele crêem, em vez de repararem tantos ultrajes pelos seus obséquios, ou vão à Igreja para o ofenderem pela sua irreverência, ou o deixam abandonado sobre os altares, desprovidos às vezes de lâmpada e dos ornamentos necessários. Tudo isso Jesus, escondido sob as espécies eucarísticas, o vê e sabe, e todavia sofre-o com paciência e fica calado. Oh, que exprobração de nossa loquacidade nos momentos de ira!

É igual à humildade de Jesus, pois que em nenhuma obra de seu divino amor se ocultou tanto como no mistério do Santíssimo Sacramento. Para nos inspirar confiança, e ao mesmo tempo, para nos dar um remédio de nosso orgulho, chegou a ocultar a sua Majestade, a esconder as suas grandezas, a consumir e aniquilar a sua vida divina. Pode, portanto, com razão dizer-nos de dentro do tabernáculo: Discite a me, quia mitis sum et humilis corde (1) — “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. Continuar lendo

ENTRADA DA ALMA NO CÉU

entradaLaetatus sum in his, quae dicta sunt mihi: in domum Domini ibimus – “Eu me alegrei no que me foi dito: iremos à casa do Senhor (Ps 121,1)

Sumário. Imaginemos ver uma alma que faz a sua primeira entrada no céu. Ó Deus! Qual será a sua consolação ao entrar pela primeira vez nessa pátria bem aventurada, ao ver os parentes e amigo, os Anjos e os Santos; ao beijar os pés de Maria Santíssima, ao receber os amplexos de Jesus Cristo; ao ser abençoada pelo Pai celestial. Pois bem, é um ponto de nossa fé que gozaremos igual consolação, contanto que vivamos bem, ao menos durante o tempo que ainda nos resta. Ó dulcíssima esperança, tu nos deves confortar no meio das nossas mais duras tribulações.

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I – Oh Deus! Que dirá a alma ao entrar no reino bem-aventurado do Céu? Imaginemos ver morrer essa virgem, esse jovem, que, tendo-se consagrado ao amor de Jesus Cristo, e, chegada a hora da morte, vai deixar esta terra. Sua alma apresenta-se para ser julgada; o Juiz acolhe-a com bondade e lhe declara que está salva. O seu Anjo da guarda vem ao seu encontro e mostra-se todo contente; ela lhe agradece toda a assistência recebida, e o anjo responde-lhe: Alegra-te, alma formosa; já estás salva; vem contemplar a face do teu Senhor.

Eis que a alma se eleva acima das nuvens, acima do firmamento e de todas as estrelas: entra no Céu. Que dirá ao penetrar pela primeira vez nessa pátria bem-aventurada, ao lançar o primeiro olhar sobre essa cidade de delícias? Os Anjos e os Santos saem-lhe ao encontro e lhe dão, jubilosos, as boas vindas. Que consolação experimentará ao encontrar ali os parentes e amigos que a precederam, e os seus gloriosos protetores! A alma quererá prostrar-se diante deles; mas os Santos lhe dirão: Guarda-te de o fazer; porque somos servos como tu: “Vide ne feceris; conservus tuus sum”.

Ela irá depois beijar os pés de Maria, a Rainha do paraíso. Que ternura não experimentará ao ver pela primeira vez essa divina Mãe, que tanto a ajudou a salvar-se! Então a alma verá todas as graças que Maria lhe alcançou. A Rainha celestial abraça-a amorosamente e a conduz a Jesus que a acolhe como esposa e lhe diz: “Veni de Libano, sponsa mea; veni, coronaberis” (“Vem do Líbano, esposa minha; vem, serás coroada”). Regozija-te, esposa querida, passaram já as lágrimas, as penas, os temores: recebe a coroa eterna que te alcancei a preço de meu sangue. Ah, meu Jesus! Quando chegará o dia em que eu também ouvirei de tua boca estas doces palavras? Continuar lendo

DA ORAÇÃO – PONTO I

Resultado de imagem para rezando joelhosPetite et dabitur vobis… omnis enim qui petit, accipit – “Pedi e dar-se-vos-á… porque todo aquele que pede receberá” (Lc 9, 9-10)

Não é só num, mas em muitos lugares do Antigo e Novo Testamento que Deus promete atender aos que se recomendam a ele.

“Clama a mim e ouvir-te-ei” (Jr 33,3)
“Invoca-me… e livrar-te-ei” (Sl 49,15)
“Se pedirdes alguma coisa em meu nome, vô-la será concedida” (Jo 14,4)

Pedireis o que quiserdes e se vos outorgará (Jo 15,7). E assim outros textos semelhantes. Verdade é que a oração é uma, diz Teodoreto; mas ela nos pode alcançar tudo; pois, segundo afirma São Bernardo, o Senhor nos dá, ou a graça que pedirmos, ou outra que julga nos ser mais útil. Por essa razão, o Profeta nos incita a rezar, afiançando-nos que Deus é todo misericórdia para aqueles que o invocam e recorrem a ele (Sl 85,5). Com mais eficácia, nos exorta o apóstolo São Tiago, dizendo que, quando rogamos a Deus, este nos concede mais do que se lhe pede, sem vingar-se das ofensas que lhe causamos (Tg 1,5). Ao ouvir nossas orações, parece esquecer nossas culpas.

Diz São João Clímaco que a oração comove de algum modo a Deus e o obriga a conceder-nos o que lhe pedimos. É violência — escreve Tertuliano — mas violência que agrada ao Senhor e que a deseja de nós, pois, segundo diz Santo Agostinho, maiores desejos tem Deus de prodigalizar-nos os seus bens do que nós de recebê-los, porque Deus, por sua natureza, é a bondade infinita, conforme observa São Leão e se compraz sempre em comunicar-nos os seus bens. Disse Santa Maria Madalena de Pazzi que Deus contrai, de certo modo, obrigações com a alma que o implora, porque ela mesma oferece oportunidade ao Senhor de satisfazer o seu desejo de conceder-nos suas graças e seus favores. David afirmou que esta bondade do Senhor em ouvir-nos, quando lhe dirigimos as nossas súplicas, demonstrava-lhe que ele era o verdadeiro Deus (Sl 55,10). Adverte São Bernardo, que muitos se queixam de que Deus não lhes é propício; com maior razão se lamenta o Senhor de que muitos o ofendem e deixam de recorrer a ele para lhe pedir graças. Nosso Redentor disse, por isso, a seus discípulos: “Até agora nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, a fim de que vosso gozo seja completo” (Jo 16,24); ou seja: “não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos de vós mesmos que não me pedistes as graças que vos tenho preparado. Pedi, pois, e sereis satisfeitos”. Continuar lendo

A VIDA PRESENTE É UMA VIAGEM PARA A ETERNIDADE

abcNon enim habemus hic manentem civitatem, sed futuram inquirimus — “Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura” (Hebr. 13, 14)

Sumário. Vendo tantos ímpios em prosperidade e tantos justos em tribulação, os próprios pagãos, guiados pela luz da razão, reconheceram que a terra não é nossa pátria, mas somente um lugar de passagem e de merecimento. Quão insensatos, pois, somos, se, sendo cristãos e crendo as verdades da fé, nos afeiçoamos aos bens deste mundo, do qual teremos de sair um dia e, entretanto, nos descuidamos de construir com as boas obras uma morada no outro mundo, onde ficaremos por toda a eternidade!

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I. Vendo que nesta terra tantos ímpios vivem em prosperidade, e tantos justos, ao contrário, em tribulação, os próprios pagão, iluminados unicamente pela luz natural, reconheceram esta verdade que, dada a existência de Deus e sendo Deus justo, deve haver outra vida, onde os maus sejam castigados e os justos recebam o prêmio. Ora, o que os pagãos admitiram, seguindo unicamente a luz da razão, nós, os cristão, reconhecemo-lo pela fé: “Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” A terra não é nossa pátria, é apenas um lugar de passagem, por onde, em pouco tempo, nos devemos dirigir à morada da eternidade:Ibit homo in domum aeternitatis suae(1) — “O homem irá à casa de sua eternidade”.

Assim, meu irmão, a casa que habitas não é tua morada; é uma hospedaria, de onde bem cedo e quando menos o imaginares, terá de sair. Sabe que, chegada a hora de tua morte, teus amigos mais caros serão os primeiros a expulsar-te. E qual então será a tua morada? Uma cova será a casa de teu corpo até o dia do juízo; e tua alma irá à casa da eternidade, quer no céu, quer no inferno.

Daí o conselho de Santo Agostinho: Hospes es, transis et vides — “És hóspede; vais passando e vês”. Bem louco seria o viajante que, achando-se de passagem num país, nele gastasse todo o seu patrimônio na compra de uma quinta ou casa, que dentro de breves dias teria de abandonar. Lembra-te, portanto, diz o Santo, que não és neste mundo senão um passageiro; não te afeiçoes ao que vês. Vê e passa; procura uma boa casa na qual terá de morar para sempre. — Se te salvares, feliz de ti! Que bela habitação não é o paraíso! Os mais belos palácios dos monarcas não passam de currais em comparação da cidade celeste, única que se possa chamar toda bela:Urbs perfecti decoris (2) — “Cidade de beleza perfeita”. Pelo contrário, ai de ti se te condenares! Estarias abismado num mar de fogo e de tormentos, desesperado, abandonado de todos e sem Deus. E por quanto tempo? Por toda a eternidade! Continuar lendo

DO AMOR À SOLIDÃO

solidDucam eam in solitudinem, et loquar ad cor eius — “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração” (Os. 2, 14).

Sumário. Deus não costuma geralmente falar-nos no meio dos tumultos e negócios mundanos, pelo receio de não ser entendido. Quando quer elevar uma alma a um grau eminente de perfeição, excita-a a que se retire para algum lugar solitário, longe da conversação com as criaturas. Ali é que lhes fala ao coração, as ilumina e abrasa em seu amor divino. Se quisermos, pois, ouvir a voz de Deus, amemos a solidão e procuremos, o mais possível, ter vida retirada afim de tratarmos a sós com Deus.

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I. Deus não se deixa achar nos tumultos do mundo, pelo que os santos procuravam os desertos mais horrendos, as espeluncas mais ocultas, afim de se subtraírem à sociedade dos homens e conversarem a sós com Deus. São Hilarion mudou repetidas vezes de um deserto para outro, sempre em busca do mais solitário, onde não encontrasse pessoa alguma com quem conversar e finalmente morreu num deserto de Chipre, depois de ter vivido ali cinco anos. Quando São Bruno foi chamado pelo Senhor a deixar o mundo, foi, com seus companheiros, ter com São Hugo, bispo de Grenoble, afim de que lhes assinasse em sua diocese um lugar deserto; e São Hugo indicou-lhes a Cartucha, que pela sua atrocidade antes era própria para antro de feras do que para morada de homens.

Certo dia, disse o Senhor à Santa Teresa: “Eu quisera falar a muitas almas; mas o mundo faz tanto tumulto em seu coração, que minha voz não pode ser ouvida.” Deus não fala no meio dos rumores e negócios do mundo, cuidando que, se falasse, não seria ouvido. A voz de Deus são as inspirações santas, as luzes e os convites, com que ilumina os santos e os inflama no amor divino; mas quem não ama a solidão, fica privado desta voz divina.

Deus diz: “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração.” Quando Deus quer elevar uma alma a um grau eminente de perfeição, inspira-lhe a idéia de se retirar para algum lugar solitário, e ali, longe das conversações com as criaturas, fala-lhe aos ouvidos, não do corpo, mas do coração, e assim a ilumina e a abrasa em seu divino amor. Pelo que São Bernardo dizia que tinha aprendido a amar a Deus muito mais nos bosques, entre os carvalhos e as faias, do que nos livros e no trato com os servos de Deus. — E São Jerônimo, que deixou as delícias de Roma para se encerrar na Gruta de Belém, exclamava: “Ó solidão bem aventurada, na qual o Senhor trata familiarmente com as almas suas diletas e lhes faz ouvir essas palavras que liquefazem os corações no santo amor!” Continuar lendo

ÚLTIMA AVE-MARIA, ÚLTIMO SUSPIRO!

Imagem relacionadaAchava-se num asilo de velhos um antigo soldado que, apesar de sua vida de caserna e acampamento, se conservava dócil e acessível às verdades religiosas.

Um sacerdote, que o visitava com freqüência, falou-lhe da devoção do rosário e ensinou-lhe o modo de rezá-lo.

Deu-lhe a Irmã um rosário e o velho militar achou tamanho consôlo em rezá-lo, que sentia muito não o ter conhecido antes, dizendo que o teria rezado todos os dias.

– Irmã, (perguntou um dia), quantos dias há em sessenta anos?

– A Irmã fez o cálculo e respondeu:

– 21.900 dias.

– Irmã, e quantos rosários teria eu que rezar cada dia para, em três anos, chegar a êsse número?

– 20 cada dia, disse-lhe a Irmã.

Daí em diante viam-no, dia e noite, com o rosário na mão.

Após três anos de sofrimentos, suportados com grande paciência, chegou ao seu último rosário.

Ali o esperava a morte, pois não viveu nem um dia nem uma hora mais. Ao terminar a última Ave-Maria, deu o último suspiro, entregou sua alma a Deus.

Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves

XIX DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A PARÁBOLA DO BANQUETE NUPCIAL E A IGREJA CATÓLICA

Simile factum est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo — “O reino dos céus é semelhante a um rei que fez núpcias para seu filho” (Matth. 22, 2).

Sumário. Pelo banquete do qual fala o Evangelho de hoje, entende-se a doutrina católica, os sacramentos e a abundância das graças celestiais. Como filhos da Igreja católica, somos do número dos convidados, e portanto, agradeçamos sempre a Jesus Cristo tão grande favor que nos foi concedido com preferência a tantos outros. Cuidemos, porém, que estejamos vestidos da veste nupcial, isto é, da graça santificante, afim de não sermos, cedo ou tarde, lançados às trevas exteriores, no inferno. Quantos cristãos não se perdem, porque as obras não respondem à fé que professam!

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I. “O reino dos céus, diz Jesus Cristo, “é semelhante a um rei que fez núpcias para o seu filho, e mandou seus servos chamarem os convidados para as bodas. Mas eles desprezaram o convite, e lá se foram, um para sua casa de campo, outro para o seu negócio. Os outros prenderam os servos que enviara, e, depois de os cobrirem de ultrajes, mataram-nos. Mas o rei, tendo ouvido isto, ficou indignado, e enviando os seus exércitos, exterminou aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade. Disse então aos seus servos: As bodas estão preparadas; mas os que haviam sido convidados não foram dignos. Ide, pois, às embocaduras das estradas, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E, tendo sabido os seus servos pelas ruas, reuniram todos os que encontraram, bons e maus, e a mesa do banquete ficou cheia de convidados: “Et impletae sunt nuptiae discumbentium.

Segundo a interpretação dos doutores, o rei da presente parábola é o Pai Eterno; o esposo é seu Filho Jesus Cristo; a e a esposa, a Igreja Católica. Pelo banquete nupcial entendem-se a doutrina evangélica, os santos sacramentos e a abundância de todas as graças celestiais. Para este banquete místico fez o Senhor convidar primeiramente os Hebreus, por meio dos profetas e dos apóstolos. Mas, eles, desprezando o convite, maltrataram e mataram os ministros de Deus, e por isso foram expulsos e pereceram na destruição de Jerusalém. E em lugar dos Hebreus foram chamados os gentios, que andavam no caminho largo que leva ao inferno.

Meu irmão, também tu, descendente de antepassados pagãos e sem algum merecimento próprio, pertences ao número destes felizes convidados. Considera, portanto, atentamente o amor especial que Deus te mostrou, agradece-lhe e repara como até agora lhe tens correspondido. Oh! Quantos se tornariam santos, e grandes santos, se lhes tivesse sido dada a mesma abundância de recursos espirituais como a ti! Ao passo que tu há muitos anos talvez estais dormindo na tibieza, e sabe lá Deus se talvez no pecado! Continuar lendo

A CRISE DA DEMOCRACIA

Resultado de imagem para democraciaNum interessante inquérito promovido pelas revistas norte-americanas U.S. News and World Report, e publicado com grande destaque pelo O GLOBO, desde os dias 18 e 19 do corrente, vem sendo abordado problema da crise, do malogro ou do futuro da “democracia”. Numerosos intelectuais norte-americanos e ingleses, de alto prestígio, como: Professor Samuel P. Huntington — Cientista Político, Professor Charles Frankel — Filósofo, Professor Robert L. Heilbroner — Economista, Professor Max Beloff — Cientista Político, Professor William H. McNeill — Historiador, Professor Michael J. Crozier — Sociólogo, Professor Friedrich A. Hayek — Economista e Professor René Dubos. Cientistas, trouxeram sua contribuição ao debate que, para esses intelectuais, parece assentado em claros postulados aceitos por todos e motivado por mais uma inquietação do mundo moderno, ou pelo menos, do ocidente moderno.

Em primeiro lugar observo que o termo “democracia” sempre demarcado com o artigo “a” que reforça sua determinação designa um conceito quase tão claro e tão unívoco como o de “quadrado”. Ora, desde aqui me parece que esse inquérito aceita, sem sinais de relutância, todos os movediços equívocos que formam a atmosfera cultural de nosso tempo.

Efetivamente, o termo “democracia”, no tumulto provocado por guerras, revoluções, reformas de coisas irreformáveis e mise en question de todos os princípios morais e religiosos, o termo “democracia”, embora pretenda ter permanecido imóvel no mercado das idéias baratas, sofreu deslocamentos semânticos denunciados pelos adjetivos que lhe são anexados: democracia-liberal, democracia-cristã, democracia-popular etc. Mas também sofreu deslocamentos metafísicos mais profundos e mais perturbadores. Na sua primeira e clássica acepção o termo “democracia” significava forma de governo caracterizada pela mais ampla participação do povo — como “monarquia” significava forma de governo de mais concentrada autoridade. No processo revolucionário que, nos últimos quatro séculos, corre nos subterrâneos da História, o termo “democracia” passou a significar uma filosofia de vida, e não apenas uma especial forma de governo. Seria melhor dizer que passou a ser um humanismo, que pretende marcar os eixos essenciais de uma nova civilização que deixara de ser essencialmente cristã, mas ainda tolera ou respeita o cristianismo subsistente como uma opção individual.
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MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DA VIDA SOLITÁRIA E RECOLHIDA

mariaQuae est ista, quae ascendit de deserto… innixa super dilectum suum? — “Quem é esta que sobe do deserto… firmada sobre o seu amado?” (Cant. 8, 5).

Sumário. A Santíssima Virgem amava tanto a solidão, que, sendo ainda criança de três anos apenas, deixou seus pais e foi encerrar-se no templo. Imagina, pois, a que grau de recolhimento e de união com Deus deve ela ter chegado quando, feita Mãe de Deus, teve a sorte feliz de viver tantos anos com Jesus Cristo. Se aspiras a honra de ser filho de Maria, aplica-te com todo o cuidado a sua imitação, levando uma vida solitária e retirada. Por isso, ama o silêncio, conserva-te sempre na presença de Deus, e volve-te muitas vezes a Ele por meio de fervorosas orações jaculatórias.

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I. No tempo do dilúvio, o corvo mandado por Noé fora da arca ficou a comer os cadáveres; mas a pomba, sem pousar em parte alguma, voltou prestes ao ponto de onde partira. Assim, muitos, mandados por Deus a este mundo se detém infelizmente a gozar dos bens terrestres. Não assim a nossa pomba celeste, Maria. Conheceu que o nosso bem, a nossa única esperança deve ser Deus; conheceu que o mundo é cheio de perigos e que aquele que mais cedo o deixa é mais livre dos seus laços. Por esta razão, como afirmam São Germano e Santo Epifânio, a Santíssima Virgem, apenas chegada à idade de três anos, idade em que as crianças desejam mais vivamente a convivência com seus pais, foi encerrar-se no templo, onde melhor pudesse ouvir a voz de seu Deus e, melhor ainda, honrá-Lo e amá-Lo.

Diz Santo Anselmo que, enquanto a Bem-aventurada Virgem vivia no templo, “era dócil, falava pouco, estava sempre recolhida, sempre séria e sem se perturbar. Era, além disso, constante na oração, na leitura da Sagrada Escritura, nos jejuns e em todas as obras de virtude”. Era tão amante do silêncio, que, como ela mesma revelou à Santa Brígida, se abstinha de falar até com os próprios pais.

Não são menos belos os exemplos de recolhimento que a Virgem nos deu, depois de se desposar com o castíssimo São José. Conforme diz São Vicente Ferrer: “Maria não saía de casa senão para ir ao templo; e mesmo então, ia toda recolhida e com os olhos baixos.” Eis porque São Lucas observa que na visita a Santa Isabel: Abiit in montana cum festinatione (1) — “Ela foi com presteza às montanhas”, para ser menos vista em público e fugir o mais possível da sociedade dos homens. Continuar lendo

DA PUREZA

Resultado de imagem para mãe catolicaA pureza é a virtude dos anjos; torna o homem semelhante aos espíritos imortais, à Virgem Imacu­lada, a Jesus, ao próprio Deus. Quanto é bela essa virtude na fronte e no coração duma jovem! Que encantos celestes ela aumenta à beleza duma me­nina! Porque, é preciso dizê-lo: o vício que lhe é contrário, fato precoce da moleza em que crescem as crianças, murcha rapidamente as suas almas. Mui­tas crianças, desde a infância, bebem esse veneno, que corrompe o que há de mais nobre no seu espí­rito e no seu coração, roubando-lhe a vida da graça e a amizade de Deus. Ó mães preservai estas almas que vos são tão queridas, e que tão caras são a Deus, dum vício degradante para o homem e para o cristão, e fazei-lhes, logo desde a infância, amar a castidade.

É claro que se não deve dizer a uma criança, ainda na candura da inocência, em que consiste esta virtude, e porque faltas a pode ferir; mas deve-se desde o princípio preveni-la contra estas faltas, e cercar de uma barreira salutar o tesouro que possui, recomendando-lhe, e fazendo-lhe praticar a modéstia. Para o conseguir, deve a mãe cristã dizer muitas vezes a seu filho que Deus vê tudo, que seu olhar penetra as mais espessas trevas, os lugares mais ocultos, e o mais íntimo do nosso coração. — «Portanto, acrescentará ela, nada se deve fazer que ultraje a sua divina presença, nem nada se deve permitir, quando se esteja só e escondido, de que se possa corar diante dos homens. Meu filho, nós temos constantemente a nosso lado, para ser testemunha das nossas ações mais secretas, um anjo a quem Deus confiou a nossa guarda; não devemos entris­tecê-lo por ações que ofendam a Deus e expulsai todo o pensamento pouco modesto. O vosso corpo pertence a Jesus Cristo, é o templo do Espírito Santo; tratai-o com grande respeito. S. Luís Gonzaga tinha tanta modéstia, que não permitia nunca, durante a sua doença, que os criados, que o serviam vissem sequer ao menos descoberto a extremidade dos seus pés. Santo Estanislau desmaiava, quando ouvia uma palavra contra o pudor. Se companheiros infelizes vos aconselharem para o mal, fugi deles, desviai com horror os vossos ouvidos, e avisai sempre a vossa mãe acerca do que vos parecer perigoso.

A estas lições juntará uma mulher cristã a prática da mais exata modéstia, lavando e deitando os seus filhos, dando-lhes os peitos e vestindo-os. Julgamo-nos obrigados a entrar nestes pormenores, porque a negligência das mães e das amas, pode, a este respeito, ter consequências deploráveis. Devem preparar tudo, de forma que as crianças possam olhar para toda a parte, sem perigo. Que felicidade para eles que glória e que consolação para sua mãe, se eles pudessem chegar aos vinte anos, sem suspeitarem o mal! Continuar lendo

PRIMEIRA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

Resultado de imagem para jesus crucificadoPater, dimitte illis: non enim sciunt quid faciunt — “Pai, perdoai-lhes; pois não sabem o que fazem” (Luc. 23, 34).

Sumário: Ó ternura do amor de Jesus! Os judeus, depois de O pregarem na cruz, injuriam-No e prorrompem em blasfêmias. Ao mesmo tempo, Jesus, movido pelo desejo de salvar a todos, volve-se ao Pai Eterno, roga-Lhe pelos que O crucificaram e procura desculpar o crime. Meu irmão, se pelos nossos pecados temos renovado a crucifixão do Senhor, não desanimemos; porque Jesus nos abrangeu também em sua oração. É, porém, necessário que Lhe imitemos o exemplo, perdoando a nossos inimigos e dando o bem pelo mal.

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I. Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Os judeus, depois de O pregarem na cruz, injuriam-No, insultam-No e prorrompem em blasfêmias; e Jesus, entretanto, que faz? Jesus, diz Santo Agostinho, não cuida tanto nos ultrajes que recebe da parte daquele povo, como no amor que O faz morrer para o salvar; e por isso, ao mesmo tempo que é injuriado pelos seus inimigos, volve-se ao Eterno Pai, pede perdão para eles e procura desculpar o crime nefando pela ignorância: Pai, perdoai-lhes; porque não sabem o quer fazem.

“Ó maravilha!” exclama São Bernardo; “Jesus Cristo pede perdão e os judeus gritam crucifige— crucifica-O.” E São Cipriano acrescenta: Vivificatur Christi sanguine qui effudit sanguinem Christi — “Recebem a vida pelo sangue de Cristo, aqueles mesmos que derramaram o sangue de Cristo”. Na sua morte, tinha o Senhor tamanho desejo de salvar a todos, que não deixa de fazer participar dos méritos de seu sangue àqueles mesmos que Lho extraem das veias à força de tormentos. Numa palavra, como diz Arnoldo de Chartres, ao passo que os judeus trabalham para se condenarem, Jesus Cristo se empenha em os salvar.

E não ficaram improfícuos os seus empenhos; pelo que, sendo mais poderosa para com Deus a caridade do Filho, do que a cegueira daquele povo ingrato, a oração de Nosso Senhor moribundo fez, como escreve São Jerônimo, que no mesmo momento muitos judeus abraçassem a fé; e, na opinião de São Leão, os milhares de judeus que se converteram pela pregação de São Pedro, foram o fruto da oração de Jesus Cristo.
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GRANDEZA DO CATECISMO

Irmãs da Fraternidade São Pio X

Francisco está estudando no quarto ano no colégio mais famoso da cidade. Ao voltar da aula, ele entrega à sua mãe, Andreia, o boletim com as notas do bimestre. “Que bom!”, pensa Andreia: “Francisco tirou notas excelentes em matemática e em português. Com a sua prática em idiomas, com certeza ele vai poder entrar nas melhores universidades do país!”.

E Andreia já imagina seu filho sendo um advogado de prestígio, um engenheiro com êxito ou um cientista eminente… Que mãe não tem grandes ambições para seus filhos?

Ao mesmo tempo, Gustavo – estudando no 5º. ano no Colégio São Pio X – também entrega a Silvina, sua mãe, as suas notas bimestrais. Silvina lê com atenção: Catecismo: 9; Comportamento geral exemplar: bom espírito, responsável e prestativo com os menores. Silvina sonha também com o futuro do seu filho: “O que será de Gustavo no futuro? Um bom pai com uma família numerosa? Talvez padre?” 

Que mãe não tem grandes ambições para seus filhos?

Na verdade, a maneira como os pais encaram os boletins escolares dos seus filhos revela percepções muito diferentes da vida. O que os senhores esperam da sua escola? Que lhes ensine com perfeição as equações e a geometria?

Está bem, mas “os pagãos não fazem isto também?” (São Mateus 5, 47). Matricularam seus filhos nas escolas da Tradição só porque a disciplina é melhor, porque não se empregam nelas os lamentáveis métodos educativos modernos, ou porque os resultados escolares são excelentes? Continuar lendo

DA COMUNHÃO ESPIRITUAL

comunOs meum aperui, et attraxi spiritum — “Abri a minha boca, e atraí o alento” (Ps. 118, 131).

Sumário. A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus sacramentalmente e num amoroso amplexo, como se fosse recebido realmente. Esta devoção é um meio eficacíssimo para chegar à perfeição e ao mesmo tempo é uma devoção facílima, porque pode ser praticada todos os dias, por todos, e quantas vezes se quiser, sem ser vista ou observada por pessoa alguma. Pratica-a, pois, com frequência, em particular, na oração mental, na visita ao Santíssimo Sacramento e na assistência à Missa à hora da comunhão do sacerdote.

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I. Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática. E Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto Lhe agrada esta devoção.

Um dia apareceu Jesus a Soror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Sena em Nápoles, e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o no primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e no segundo as espirituais. Em outra ocasião disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental. — Mais tocante é o que um autor fidedigno (1) refere de outro servo de Deus. Quando este fazia na missa a comunhão espiritual, sentira a partícula consagrada levar-se-lhe aos lábios e experimentava na alma uma doçura indizível, querendo o Senhor recompensar desta forma o desejo de seu bom Servo.

Por isso todas as almas devotas costumam praticar com frequência o santo exercício da comunhão espiritual. A Bem-aventurada Angela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite. Nem é de admirar, pois que este modo de comungar, sobre ser uma devoção muito proveitosa, é também facílimo e pode ser praticado cada dia por todos, e quantas vezes se quiser. — A já mencionada Joana da Cruz exclamava: “Ó meu Senhor, que bela maneira de comungar é essa! Sem ser vista por ninguém, sem ter de dar conta a meu diretor espiritual, sem dependência de ninguém senão de Vós, que alimentais minha alma na solidão e lhe falais ao coração!” Continuar lendo

O QUE DIZER A PESSOAS DE OUTRAS RELIGIÕES? – PALAVRAS DE MONS. LEFEBVRE

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Eis algumas palavras do monsenhor Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, sobre nossa atitude em relação às pessoas de outras religiões. Devemos ficar calados e dar-lhes razão, ou devemos dizer-lhes a verdade?

Podemos conversar com pessoas de diferentes religiões e responder quando nos pedem explicações. O que temos que dizer-lhes? Temos que deixá-las em sua boa consciência e dizer-lhes: “Não se preocupem, tendes uma religião muito bonita que, basicamente, vale a mesma que a nossa …”? Isso seria cometer um crime, porque talvez essas almas esperem de nós a verdade e não as estaríamos dando. Portanto, não se converteriam.

Um dia alguns jovens protestantes me convidaram para ir a Lausanne para lhes dar uma conferência. Queriam ouvir sobre Ecône. Eu lhes disse: “Falo-vos como bispo católico. Creio que me convidaram como tal. Não estranheis que eu os diga com franqueza o que penso do protestantismo“. Estava claro. Disse-lhes claramente que para nós existe apenas uma religião verdadeira e que Ecône representa precisamente essa convicção, pois ninguém se salva fora da Igreja Católica. Por isso somos tradicionalistas, o que não significa que desprezamos aos demais, mas para nós a religião protestante é um erro.

Pois bem, alguns dias depois esses jovens protestantes escreveram para me parabenizar. Me disseram: “É isso que queríamos ouvir. Sabemos que um católico é católico e que não admite que o protestantismo seja a verdadeira religião “. Assim não se surpreenderam.

Por outro lado, se lhes tivesse falado como fazem agora os ecumenistas, e lhes teria dito: “Em Ecône, é claro, nós amamos a Igreja Católica, mas somos amigos dos protestantes e acreditamos que sua religião é bonita…” acredito que, em primeiro lugar, não teriam ficado felizes pensando que os bajulava e que tratava de ficar bem com eles, mas no fundo, não dizia o que ele realmente acreditava. Isso os faria perder uma oportunidade de refletir sobre uma possível conversão.

Tudo isso é importante e constantemente, nós católicos, nos deparamos com situações semelhantes. Façamos um favor a essas almas e pensemos sempre em sua salvação: “Se eu não digo a verdade nem lhes ofereço a verdade, pode haver almas que se salvem e que por minha culpa não serão“. É claro que Deus pode trabalhar diretamente sem passar por nós para converter o mundo inteiro. No entanto, quis servir-se de sacerdotes e missionários. Deus conta conosco. Temos que ser um meio para a conversão de almas. Eis que há de se pensar na graça de Deus, que aproveita tal conversa ou tais palavras para abrir a alma desses protestantes e dar-lhes a graça da conversão, já que, é claro, é Ele quem converte as almas.

+ Monsenhor Marcel Lefebvre.

Extrato do livro: “Sou eu o acusado quem vos deveria julgar

A MORTE DO JUSTO É A ENTRADA NA VIDA

morte_del_giusto_gHaec porta Domini, iusti intrabunt in eam — “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela” (Ps. 117, 20).

Sumário. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor, mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque é a porta da vida, pela qual forçosamente deve passar quem quiser entrar no gozo de Deus. Tal é a graça que Jesus Cristo nos alcançou pela sua morte. Pelo que os santos, enquanto estavam na terra, não desejavam senão sair do cárcere do miserável corpo e entrar no reino celestial. Se nós temos tamanho horror à morte, é porque amamos pouco ao Senhor.

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I. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor; mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque, como observa São Bernardo, não só é o fim dos trabalhos e o remate da vitória, como também a porta da vida, pela qual deve passar forçosamente quem quiser entrar no gozo e contemplação de Deus: “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela.” — São Jerônimo chamava a morte e lhe dizia: Aperi mihi, soror mea — “Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não poderei entrar no gozo de meu Senhor”. São Carlos Borromeu, vendo em sua casa um quadro que representava um esqueleto com uma foice na mão, mandou chamar um pintor e ordenou-lhe que apagasse a foice e a substituísse por uma chave de ouro. Queria por este meio inflamar-se mais e mais no desejo da morte, porque é a morte que nos deve abrir o paraíso.

Se um rei, diz São João Crisóstomo, tivesse preparado para alguém uma habitação na sua própria morada e no entretanto o deixasse viver num curral, quanto não deveria esse homem desejar sair do curral para passar ao palácio régio? A alma nesta vida vive no corpo como numa prisão, de onde deve sair um dia para entrar no palácio do céu. É por isso que Davi orava assim: Educ de custodia animam meam (1) — “Livrai a minha alma de sua prisão”. E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o menino Jesus, não lhe soube pedir outra coisa senão a morte, para se ver livre das cadeias da vida presente. Nunc dimittis servum tuum, Domine (2) – “Agora, deixas ir o teu servo”. “Pede que o deixem ir”, diz Santo Ambrósio, “como se fosse retido.”

Qual não foi a alegria do copeiro de Faraó, quando soube por José que dentro em pouco devia sair da prisão e voltar a ocupar o seu posto! E não se regozijará uma alma que ama a Deus, sabendo que dentro em breve vai ser livre da prisão deste mundo e entrar na posse de Deus? É, pois, com razão que a morte dos santos se chama o seu nascimento; visto que pela morte nascem para a vida bem aventurada que nunca terá fim. Continuar lendo

DA VIDA RETIRADA

d9992f7095b6_casperdavidfriedrichVenite seorsum in desertum locum, et requiescite pusillum — “Vinde à parte a um lugar solitário e descansai um pouco” (Marc. 6, 31).

Sumário. Todas as almas que amam o Senhor acham o seu paraíso na vida retirada. Ademais, sabemos que Jesus Cristo quis que, depois dos trabalhos do apostolado, seus discípulos se retirassem para um lugar solitário afim de conversarem só com Deus. Devemos portanto concluir que o retiro para a solidão, feito de tempos a tempos, é necessário a todos, mas em particular aos operários sagrados, afim de conservarem o recolhimento e refazerem as forças para novos trabalhos na conquista das almas. Sem esse retiro, serão poucos os frutos de seus trabalhos apostólicos.

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I. As almas que amam a Deus acham o seu paraíso na vida retirada longe do trato com os homens. A sua conversação (isto é, a conversação com Deus), longe das criaturas, nada tem de desagradável, mas alegria e gozo (1). — Os mundanos têm motivos para fugirem da solidão, porque na solidão, onde não os absorvem os divertimentos ou ocupações terrenas, mais vivamente se fazem sentir em seus corações os remorsos da consciência. Eis porque procuram alívio ou pelo menos distração na conversação com os homens; mas quanto mais procuram alívio entre os homens ou nos negócios mundanos, tanto mais acham espinhos e amarguras.

O mesmo não sucede às almas amantes de Deus, porque na solidão acham um doce companheiro, que as consola e regozija mais do que a companhia de todos os parentes ou amigos e mesmo dos primeiros personagens do mundo. Diz São Bernardo: Nunquam minus solus, quam cum solus — “Nunca me vejo menos só do que quando estou só e longe dos homens; porque então acho Deus que fala comigo e eu por minha vez estou mais atento em ouvi-Lo e mais disposto a unir-me a Ele.” Continuar lendo

A PERFEIÇÃO NÃO CONSISTE EM CONHECER QUAL É A ORDEM DE DEUS, MAS EM SUBMETER-SE A ELA

Resultado de imagem para submissão a deusFonte: Capela Santo Agostinho

A ordem de Deus, o beneplácito de Deus, a vontade de Deus, a ação de Deus, a graça, tudo isto, é uma única e mesma coisa nesta vida. É Deus trabalhando para tornar a alma semelhante a si mesmo. A perfeição não é outra coisa senão a cooperação fiel da alma a um trabalho de Deus. A graça produz-se em nossas almas, cresce, aumenta e tem a sua consumação em segredo e sem que a alma se dê conta.

A teologia está cheia de conceitos e expressões que explicam as maravilhas da graça, em cada alma, em toda a sua extensão. Pode conhecer-se tudo o que esta especulação ensina, falar dela admiravelmente, escrever, instruir, dirigir as almas. Porém o espírito não pode se deixar estagnar somente no conhecimento teórico.

A ordem de Deus, a sua divina vontade, recebida com simplicidade por uma alma fiel, realiza nela esse efeito divino sem que ela o conheça, como um remédio tomado com submissão opera a saúde num doente que não sabe nem tem que se preocupar de saber medicina. Assim como o fogo é que produz o calor e não a filosofia nem o conhecimento deste elemento e dos seus efeitos, assim também é a ordem de Deus. É a Sua santíssima vontade que opera a santidade nas nossas almas, e não a especulação curiosa deste princípio e deste objetivo.

Quando temos sede, para nos saciarmos o que devemos fazer é deixar os livros que explicam estas coisas, e beber. A curiosidade de saber não é capaz de nos saciar. Assim quando a alma tem sede de santidade, a curiosidade de saber não é capaz senão de a afastar. Deve-se deixar de lado a especulação, e beber com simplicidade tudo o que a ordem de Deus nos apresenta de ações e sofrimentos. O que nos sucede em cada momento, por ordem de Deus, é o que há de mais santo, de melhor, e de mais divino para nós.

“O abandono à Providência Divina” (adap.)- Pe. Jean Pierre de Caussade

DO NEGÓCIO DA ETERNA SALVAÇÃO

cruzRogamos autem vos, fratres… ut vestrum negotium agatis — “Nós vos rogamos, irmãos… que trateis de vosso negócio” (I Thess. 4, 10 et 11).

Sumário. O negócio da nossa eterna salvação é para nós não só o negócio mais importante, mas o único que nos deva preocupar; porque, se o errarmos uma vez, está tudo perdido e perdido para sempre. Mas ó maravilha, todos os que possuem a fé reconhecem que é assim e, contudo, entre os cristãos são poucos os que tratam seriamente de um negócio tão importante. Ponhamos a mão na consciência e se por ventura sejamos do número desses descuidados, resolvamos emendar-nos depressa, custe o que custar.

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I. O negócio da nossa salvação eterna não só é para nós o mais importante, mas o único que nos deve preocupar; porque, se o errarmos, está perdido tudo. O pensamento da eternidade bem meditado basta para fazer um santo. O servo de Deus P. Vicente Carafa dizia que, se todos os homens se lembrassem, com viva fé, da eternidade da vida futura, a terra se tornaria um deserto; pois que ninguém se ocuparia ainda com os negócios da vida presente.

Oh! Se todos tivessem sempre diante dos olhos a grande máxima ensinada por Jesus Cristo: “De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (1). Foi esta a máxima que levou tantos homens a deixarem o mundo; tantas virgens nobres e até de sangue real, a se encerrarem num convento; tantos anacoretas a irem viver nos desertos; e tantos mártires a darem a vida pela fé. Lembravam-se de que, se perdessem a alma, todos os bens deste mundo de nada lhes poderiam servir na vida eterna. — Eis porque o Apóstolo escreveu a seus discípulos: “Nós vos rogamos, meus irmãos…, que trateis de vosso negócio.” (2) De que negócio é que falava o Apóstolo? Falava daquele negócio cuja perda acarreta a perda do reino eterno do paraíso e o ser lançado num abismo de tormentos que nunca jamais terão fim.

Tinha, pois, razão São Filipe Neri em chamar de loucos a todos aqueles que nesta vida só cuidam de riquezas e dignidades e pouco se importam com a salvação da alma. Todos eles, dizia o Bem aventurado João de Ávila, mereceriam ser encerrados num hospício de alienados: Como? (quis dizer o Bem-aventurado) Vós credes que há uma eternidade de penas para os que O ofendem; e apesar disso ainda o ofendeis? Continuar lendo

TRABALHA COMO UM BOM SOLDADO DE CRISTO

cavaleiro cruzadoLUTAR SEMPRE – DESÂNIMO NA VIDA ESPIRITUAL

Labora sicut bonus miles Christi (II Tim 2,3)

Trabalha como um bom soldado de Cristo

Os combates pelo amor são longos e por vezes difíceis, e toda alma, por pouco generosa que seja, verifica em si mesma, em dados momentos, um movimento de depressão que se chama desânimo.

Essa depressão nasce insensivelmente da acumulação de contratempos e reveses sucessivos. A alma sente-se abatida, depois, de repente, um acidente qualquer, uma pequena indisposição, uma fadiga corporal, uma palavra de repreensão, uma falta de atenção sobrevêm a nosso respeito e a alma desanima.

Então tudo se torna pesado. A conversação espiritual é insípida, os livros que de ordinário a estimulavam perdem o sabor, os exercícios espirituais tornam-se um ônus intolerável. Nada a encoraja, tudo a aborrece e a desgosta.

A vida espiritual parece uma ilusão; atingir-lhe o cimo, uma impossibilidade. E ela senta-se tristemente a meia encosta sem forças para as alturas. Eis, por certo, um sério obstáculo, que impede por vezes o caminho às almas mais resolutas. Importa procurar as causas do desânimo e os meios de frustrar-lhes a influência paralisante.
Antes de tudo, o que deve consolar-te, alma piedosa, é não seres tu a única, sujeita a essas depressões passageiras. As melhores almas sofrem por vezes desse mal… Jesus, em sua infinita sabedoria, permite de bom grado que as almas mais dispostas sintam algumas vezes sua impotência pessoal.

Aliás “não é extraordinário, como diz São Francisco de Sales, que a miséria se sinta por vezes miserável”. Continuar lendo

XVIII OITAVO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A CURA DO PARALÍTICO E A CAUSA DAS TRIBULAÇÕES

Curacin_del_paraltico_Murillo_1670Confide, fili: remittuntur tibi peccata tua — “Filho, tem confiança, perdoados te são os pecados” (Matth. 9, 2).

Sumário. De ordinário, a causa de todas as tribulações, e especialmente das enfermidades, são os pecados. Eis porque o Senhor, como refere o Evangelho, antes de restituir ao paralítico a saúde do corpo, lhe restituiu a da alma, concedendo-lhe o perdão dos pecados. Portanto, se quisermos que Deus nos livre das aflições que nos oprimem, arranquemos primeiro a raiz, isto é, o pecado. Aconselhemo-lo igualmente a nosso próximo em suas tribulações.

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I. Quando alguém ofende a Deus, provoca todas as criaturas a castigarem-no, e especialmente aqueles de que abusa para ofender o Criador. Sucede então o mesmo, diz Santo Anselmo, que quando um escravo se revolta contra seu senhor: excita a indignação não só de seu senhor, como também de toda a família. – Deus, porém, sendo um Senhor de infinita misericórdia, contém as criaturas afim de que não castiguem o réu; mas quando vê que este não faz caso das ameaças, serve-se delas então para se desafrontar. De modo que, de ordinário, a causa de todas as tribulações e especialmente das enfermidades corporais, são os pecados: Qui delinquit, incidet in manus medici (1) — “Aquele que peca, virá a cair nas mãos do médico”.

Esta verdade nos é revelada com bastante clareza no fato do Evangelho de hoje. Um paralítico pediu a Jesus Cristo a saúde, e Jesus, antes de curar corporalmente, curou-lhe a alma dizendo: “Filho, tem confiança; perdoados te são os pecados.” Porque é que Jesus procedeu assim? Responde Santo Tomás: Porque o Senhor, como bom médico, quis primeiro arrancar a causa da enfermidade que eram os pecados, e depois tirar a própria enfermidade, que era efeito deles. É este também o motivo porque o Senhor, depois de curar aquele outro enfermo na piscina de Bethsaida, o qual estivera doente por trinta e oito anos, o exortou a não pecar mais, afim de que não lhe acontecesse coisa pior. Ne deterius tibi aliquid contingat. (2)

Escuta, pois, meu irmão, o belo conselho que te dá o Espírito Santo, para quando tu também estiveres oprimido pelas tribulações: “Filho, em tua enfermidade (e o mesmo se diga de qualquer tribulação) faze oração ao Senhor e Ele te curará. Aparta-te do pecado, endireita as tuas ações, purifica o teu coração de todo o delito,… e depois dá lugar ao médico.” (3) Continuar lendo