PAULO VI E A AUTO-DEMOLIÇÃO DA IGREJA

Pe. François Marie-Chautard, FSSPX

É preciso reconhecer que o papa Paulo VI trouxe um sério problema à consciência dos católicos.

Esse papa causou mais males à Igreja que a Revolução de 1789”. (Dom Marcel Lefebvre)1

Quando em junho de 1963 Paulo VI tomou posse do segundo e terceiro andares do Palácio Apostólico, tradicionalmente reservados ao Santo Padre, tratou de arrumá-los a seu gosto. Amante de arte contemporânea, queria dar um aspecto moderno a seus apartamentos. Tapeçaria e poltronas antigas foram substituídas por tecidos e móveis de estilo recente, os aposentos renovados foram adornados com obras de artistas em voga, e sua capela privada foi transformada no espírito dos anos 60.

A história do seu pontificado revelaria que essa nova decoração era representativa da maneira com a qual o novo papa iria considerar e reger a Tradição da Igreja. (Continue a ler)

No vocabulário católico, a palavra Tradição indica várias realidades. Em primeiro lugar o objeto da Revelação, ou seja, as verdades reveladas, o depósito da fé. “Tradição” indica igualmente o ato de ensino pelo qual esse depósito revelado é fielmente transmitido. Pode também significar o órgão deste ensino, isto é, o Magistério constituído pelo papa e os bispos. Mais amplamente, a palavra “Tradição” compreende todo o patrimônio doutrinal, canônico, litúrgico, pastoral, religioso e artístico da Igreja. Desde a crise da Igreja, a palavra é utilizada para qualificar o movimento dos católicos da Tradição, os tradicionalistas. Por fim, ela qualifica a noção ou o modo de transmissão, e assim fala-se de “Tradição viva”. As relações de Paulo VI para com a Tradição podem ser vistas a partir dessas diferentes acepções.

Tradição como depósito da fé

O papa Paulo VI nunca ensinou heresias propriamente ditas. No decurso de uma ocasião solene, em 30 de junho de 1968, ele mesmo proclamou um Credo que repercutiu no mundo inteiro, um sinal de seu excepcional caráter. Suas evocações tradicionais, suas advertências sobre a santa Eucaristia, o tomismo ou ainda a Igreja, creditaram-lhe a imagem de um papa liberal de duas faces2: de doutrina tradicional e pastoral de ruptura.

Quarenta anos após a sua morte, porém, a sua herança deixa transparecer um pontificado espantosamente progressista. Paulo VI permitiu que tantas heresias se propagassem, encorajou os inovadores de modo tão flagrante, nomeou cardeais e bispos tão progressistas, perseguiu os defensores da fé de modo tão virulento que o seu governo foi tragicamente prejudicial ao depósito da fé. Mas, sobretudo, o seu próprio ensino fez naufragar a doutrina multissecular da Igreja.

O problema inicial e principal está no Concílio, o qual fez o jogo dos inovadores em detrimento da doutrina tradicional em muitos pontos fundamentais: o Magistério, a Santa Igreja, o sacerdócio, as Sagradas Escrituras, as falsas religiões, a autoridade, a liberdade etc. Essa turbulência gerou muitos atritos e a aula conciliar foi  teatro regular de controvérsias importantes cujo resultado é bem conhecido. Mas tudo isso não poderia ter ocorrido sem a autoridade papal. Sem o aval do papa um concílio não é nada, assim como um decreto ministerial preparado por comissões só tem valor quando é assinado pelo ministro. Ainda que os textos conciliares sejam preparados, debatidos e votados por milhares de bispos, um concílio é essencialmente obra do sucessor de Pedro. Ao ratificar as decisões dos padres, Paulo VI endossou a responsabilidade maior do concílio. Em toda verdade, o concílio Vaticano II é obra do papa Paulo VI. Um gesto traduz essa afinidade com o concílio: o anel que esse papa ofereceu a todos os bispos do mundo em 6 de dezembro de 1965, às vésperas do fechamento de Vaticano II, e que ele usou até a sua morte em lugar do anel de pescador. Aí está todo um símbolo.

A Tradição como ato de ensino

A modificação do conteúdo do ensino foi acompanhada de uma mudança na própria concepção deste, já que a natureza do ensino é correlata à do seu objeto. 

Paulo VI voltou frequentemente para a expressão seguinte: a Igreja está em diálogo: “O Concílio trabalhará para lançar uma ponte em direção ao mundo contemporâneo (…) vocês quiseram antes de tudo se ocupar não das suas tarefas, mas daquelas da família humana, e travar um diálogo não entre vocês, mas com os homens”, disse ele aos padres conciliares3. “A Igreja se faz palavra, a Igreja se faz mensagem; a Igreja se faz conversa”4. Até Pio XII, os soberanos pontífices procuravam falar como doutores da fé. Ensinavam as verdades de Cristo com a soberana autoridade de Pedro. Seu objetivo era pregar a verdade e condenar o erro. Paulo VI privilegiou o diálogo. O papa não ensinava mais, ele dialogava, conversava. Naturalmente, condenava ainda menos.

O episódio é célebre. Dom Lefebvre, reencontrando Mons. Montini nos anos 1950, pediu a condenação do “Rearmamento moral”5. E Mons. Montini respondeu que “a Igreja vai parecer uma madrasta”. O futuro soberano pontífice considerava esses anátemas como polêmicas estéreis e improdutivas. 

As heresias, além disso, haviam se tornado questões secundárias a seus olhos. “Não se trata mais de extirpar da Igreja tal ou qual heresia determinada ou certas desordens generalizadas”, escreve em sua encíclica Ecclesiam suam, “graças a Deus, não reinam mais na Igreja”6; “na defesa da fé, contribuiremos mais promovendo a doutrina”.7 

Em sentido contrário, recordemos essas palavras cheias de espírito católico: “Em todos os tempos”, escreveu o cardeal Pie, “surgiram espíritos que consideraram a defesa [da fé] como um escândalo adicionado ao do ataque, e que de bom grado unem sua indignação à do inimigo, quando os apóstolos da verdade se esforçam em tornar sua voz tão retumbante quanto à da mentira.”8

A Tradição como órgão de ensino

O adágio era célebre: Roma locuta, causa finita est. Com tal vontade de diálogo e a apologia dos erros conciliares, é a própria natureza do órgão de ensino que foi alterada. Poder-se-ia ainda falar de um verdadeiro exercício de poder do Magistério, tendo vocação em ensinar com autoridade? À exceção de algumas felizes reações, como a condenação da contracepção por Humanae Vitae em 25 de julho de 1968, os ensinamentos se revelavam mais indicativos que imperativos.

Em vez disso, o papa deixou se instalar uma liberdade teológica que degenerou em verdadeira anarquia dogmática. Quando da publicação dos catecismos canadenses e holandeses editados pelas correspondentes conferências episcopais, Roma adotou uma moderação espantosa e uma desaprovação discreta.

São Pio X tinha redigido um catecismo; Paulo VI fechou os olhos à difusão de catecismos heréticos.

Face ao perigo do modernismo, São Pio X tinha imposto um juramento antimodernista, que deveria ser pronunciado por todas as pessoas encarregadas de autoridade de ensino e direção. Paulo VI o aboliu em 1967.

São Pio X tinha fulminado o modernismo com excomunhões. Paulo VI suprimiu as excomunhões, como suprimiu a Inquisição, cujo papel era precisamente o de ensinar com clareza a fé católica e reprimir as heresias.

Index também desapareceu na tormenta de 14 de junho de 1966, pela Notificação do Santo Ofício, Post Litteras apostólicas. O pretexto invocado é sem precedentes: “A Igreja confia na consciência madura dos fiéis”. O significado era claro: o poder de ensino não reconhecia mais a necessidade de julgar com autoridade o que os fiéis constatavam por si mesmos no fundo da sua consciência. Não havia mais mestres nem discípulos. Todos os fiéis tinham se tornado seus próprios mestres.

Um gesto resumia essa revolução: em 13 de novembro de 1964, Paulo VI tinha abandonado a tiara e a sedia gestatória. A tiara é símbolo da monarquia papal. A hora era da colegialidade, da divisão de poder. O ensino se tornava colegial, sinodal. A Igreja se transformava num vasto fórum de discussões.

A Tradição como patrimônio da Igreja

Depois da Revolução Francesa, os papas se levantaram contra o espírito revolucionário que queria pôr abaixo a herança de Pedro. Liberalismo, falso ecumenismo, arqueologismo litúrgico, relativismo moral, pastoral relaxada, tinham sido regularmente condenados. Reencontraram, porém, direito de cidadania com Paulo VI.

Roma não tinha cessado de condenar a secularização dos Estados, a separação da Igreja e do Estado, a liberdade de cultos. Citemos Mirari Vos, de Gregório XVI, Libertas, de Leão XIII, Vehementer de São Pio X. Paulo VI fez com que fossem suprimidas uma a uma (ou as modificou num sentido liberal) as concordatas que uniam Estado e Igreja: Espanha, Irlanda, Colômbia, certos cantões suíços etc. Paulo VI não queria mais a cristandade, essa união admirável entre a Igreja e a Cidade, ilustrada por Constantino, Carlos Magno, São Luiz, Garcia Moreno e tantos outros. Adepto das teorias modernas de Jacques Maritain, o papa sonhava com uma nova cristandade, bem distinta, laica, humanista, em que os muçulmanos poderiam livremente invocar Maomé. Em 4 de outubro de 1965, ele falava a ONU numa linguagem digna de lojas maçônicas e louvava os direitos do homem que seus antecessores tinham tomado o cuidado de condenar: “Os senhores proclamam aqui os direitos e deveres fundamentais do homem, a sua dignidade, sua liberdade, e antes de tudo a liberdade religiosa. Sentimos que os senhores são os intérpretes do que há de mais alto na sabedoria humana. Diríamos quase: seu caráter sagrado”.

Roma tinha condenado as reuniões inter-religiosas, o pan-cristianismo, notadamente na encíclica Mortalium animos, do papa Pio XI. Paulo VI encorajou as reuniões ecumênicas. Assim “em 7 de dezembro de 1975, ele recebeu o metropolita (ortodoxo) Meliton de Calcedônia. O papa se pôs de joelhos diante dele e beijou-lhe os pés.”9

Os pastores protestantes que tinham participado na elaboração da reforma litúrgica foram felicitados e encorajados. Paulo VI apareceu sorridente, como se estivesse satisfeito em receber luzes de peritos protestantes no objetivo de reformar a missa católica.

Com a encíclica Mediator Dei, de Pio XII, Roma tinha condenado os desvios do movimento litúrgico que pretendia retornar a uma liturgia arcaica, privada dos admiráveis desenvolvimentos de vinte séculos de santidade. Paulo VI quis evitar tudo o que pudesse ofender os “irmãos separados”. Ele validou as inovações litúrgicas cujo resultado foi a destruição da liturgia da Igreja. A missa (1969), o breviário (1970), a oração dos padres, o ritual (modificado progressivamente), os sacramentos da Igreja, as ordens menores (1972), foram submetidas a uma mudança completa cujos efeitos perniciosos continuam a se fazer sentir. Para essa “reforma”, notadamente do ofício divino, o papa se apoiou em Annibale Bugnini, que declarou o espírito com o qual pretendia reformar o Breviário: “Trata-se de se orientar para uma redução do pensum [sic] quotidiano”10.

Até então, Roma tinha denunciado o relativismo moral e a moralidade situacional. Paulo VI permitiu a instalação de um ensino deletério nos seminários, nas universidades católicas e nas casas religiosas. 

Roma tinha sempre encorajado os religiosos a desprezar o mundo condenado por Cristo e aderir principalmente às realidades espirituais. Paulo VI obrigou todas as ordens religiosas, todas as congregações educadoras a se “reformar” segundo o espírito liberal, humanista e naturalista de Vaticano II. Diminuição trágica do fervor religioso, rarefação das vocações, fechamento de inumeráveis conventos, tais foram as consequências desastrosas dessa fracassada reforma, cujos efeitos se estenderam até mesmo ao ensino católico, que foi varrido nesta tormenta.

Roma tinha educado o Ocidente. O latim, língua da cultura profana e religiosa, foi sacrificado no altar do pluralismo. A arte católica, admirável em beleza, foi quebrada pelos bárbaros, que não eram mais os pagãos infiéis, mas os próprios ministros do Templo.

Os tradicionalistas

Os defensores da Tradição não foram melhor tratados que ela: “O servo não está acima do mestre”. Paulo VI, que em 23 de março de 1966 pediu ao doutor Ramsey, pretendido arcebispo de Cantuária, para abençoar a multidão de fiéis católicos; que em 7 de agosto de 1965 beijou o patriarca grego cismático de Constantinopla; que em 4 de outubro de 1965 encheu-se de compreensão pelos maçons da ONU, não suportava os tradicionalistas e o principal deles, Dom Marcel Lefebvre, só teve direito a repreensões veementes e condenações severas. O Seminário de Êcone, berçário de padres formados como a Igreja vinha formando há séculos, foi oficialmente suspenso em 6 de maio de 1975, sem respeito ao direito da Igreja na matéria. Em 22 de julho de 1976, o prelado se viu atingido por uma suspensão a divinis. Malgrado seus reiterados apelos, ele jamais pôde ser julgado segundo o Direito, nem teve verdadeiramente a possibilidade de se explicar e defender.

Desde 1963, Paulo VI considerava constranger os bispos de mais de 75 anos a pedir sua demissão e excluir os cardeais de mais de 80 anos do conclave. Foi feito em 21 de novembro de 1970 pelo Motu próprio Ingravescentem ætatem. Seria intenção do papa impedir toda resistência dos prelados conservadores e lhes substituir por jovens sucessores entusiastas das novas idéias? Eis uma resposta a essa pergunta: “Nos primeiros anos depois do Vaticano II”, nota o cardeal Ratzinger, “todo candidato ao episcopado demonstrava ser ‘aberto ao mundo’: em todo caso, esse pré-requisito era colocado em primeiro lugar”11.

O cardeal Mindszenty incomodava a Ostpolitik do Vaticano: ele foi afastado. Mas Janos Kadar, primeiro secretário do partido comunista húngaro, (foi declarado por Paulo VI) principal promotor e o mais autorizado para normalização das relações entre a Santa Sé e a Hungria”12.

A noção de Tradição

Que resta da Tradição no sentido de transmissão? Sua própria noção está substancialmente modificada. Para o papa Paulo VI, a Tradição não aparece mais como uma herança preciosa e viva que deve ser transmitida à posteridade conservando o seu sentido exato e inalterável, esforçando-se por torná-la ainda mais preciosa, ainda mais bela, ainda mais adaptada aos filhos de Deus.

Na verdade, o papa habitualmente tratava a Tradição não como um depósito a ser transmitido, mas como um objeto a ser transformado, como se o passado e a Tradição fosse uma espécie de depósito morto, que somente uma revisão completa seria capaz de reviver. Correndo o risco de não transmiti-lo fielmente, mas de modificá-lo substancialmente. A noção de Tradição foi radicalmente alterada. E isso talvez seja o mais grave. A ação de Paulo VI esvaziou-a de seu profundo significado: fez dela uma realidade evolutiva nas mãos dos homens.

Conclusão

O imenso entusiasmo suscitado em muitos católicos pelo concílio e pelas reformas conciliares rapidamente cedeu lugar a uma constatação muito amarga. Paulo VI se lamentará da autodemolição da Igreja13 e da fumaça de Satanás14. A palavra “demolição” indica a natureza do mal: uma deliberada e sistemática desconstrução do pensamento e das estruturas tradicionais da Igreja.

Quais são as causas? A expressão “autodemolição” exclui de si as causas externas. Devemos, portanto, buscar uma causa intrínseca, no interior mesmo da Igreja, ou seja, a causa está do lado dos que possuíam autoridade, que implementaram esse empreendimento de demolição. Muitas autoridades podem ser contadas, mas todas elas estiveram na dependência da autoridade suprema que operava as principais alavancas dessa destruição, validando o Concílio e lançando suas reformas, nomeando os progressistas aos postos de comando e condenando os filhos mais fiéis da Igreja. Paulo VI certamente não queria essa demolição. Ele, no entanto, a realizou. Fecit tamen.

Como não refletir nestas palavras do Eclesiástico: “Um governador sábio mantém seu povo em disciplina, e o governo de um homem sensato será estável. Tal o juiz do povo, tais os seus ministros; tal o governador da cidade, tais os seus habitantes. Um rei privado de juízo perde o seu povo, as cidades povoam-se pelo bom senso dos que governam.”

Epílogo

“Quanto mais precisamos de um papa santo, mais devemos começar colocando a nossa vida, com a graça de Deus, e mantendo a Tradição, na esteira dos santos. Então o Senhor Jesus terminará dando ao rebanho o pastor visível, de quem ele se esforçará para se tornar digno.

“À insuficiência ou à deserção do chefe não acrescentemos nossa negligência particular. Que a Tradição apostólica esteja pelo menos viva no coração dos fiéis, ainda que, no momento, esteja enfraquecida no coração e nas decisões de quem é responsável no nível da Igreja. Então o Senhor certamente nos mostrará misericórdia.

“Ainda por isso, é necessário que a nossa vida interior não se refira ao papa, mas a Jesus Cristo. Nossa vida interior, que evidentemente inclui as verdades da revelação sobre o papa, deve se referir puramente ao sumo sacerdote, ao nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, para superar os escândalos que chegam à Igreja pelo papa.”15 

Fonte: Permanencia

  1. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, Editora Permanência.
  2. Ibid.
  3. DC 1963, n° 1357, col. 101 : “O problema do diálogo entre a Igreja e o mundo moderno. Este é o problema que cabe ao Concílio descrever em toda a sua amplitude e complexidade, e resolver, na medida do possível, nos melhores termos. (…) A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. (…) o diálogo deve caracterizar o nosso apostolado.” Encíclica Ecclesiam suamde 6 agosto 1964, n° 15, 67 et 69.
  4. Ecclesiam suam, n°67.
  5. Fundado em 1938 pelo protestante Franck Buchman, esse movimento visa a federar toda a boa vontade, independentemente das confissões religiosas, com o objetivo de promover a paz no mundo, o diálogo e a liberdade.
  6. Ibidem, n°46.
  7. Citado por Paul Poupard, Connaissance du Vatican : histoire, organisation, activité, Beauchesne, 1974, p. 111.
  8. Mgr Baunard, Histoire du cardinal Pie, Oudin, 1886, pp. 605-606.
  9. Yves Congar, “L’œcuménisme de Paul VI”, in Paul VI et la modernité dans l’Eglise, Actes du colloque de Rome (2-4 juin 1983), Ecole Française de Rome, 1984, p. 817.
  10. Yves Chiron, Mgr.  Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, pp. 36-37.
  11. Joseph Ratzinger, Entretiens sur la foi, citado par Don Mancinella, 1962 Révolution dans l’Eglise, Ed. Courrier de Rome, 2009, p. 104.
  12. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, Editora Permanência.
  13. Discurso de 7 de dezembro de 1968, DC n°1531 (1969), p 12.
  14. 29 de junho de 1972.
  15. Pe. Roger-Thomas Calmel, o.p. “De l’Eglise et du pape en tous les temps et en notre temps”, revista Itinérairesn°173, maio de 1973, p. 39.

MONS. BUGNINI E A PARTICIPAÇÃO “ATIVA E PLENA” DOS FIÉIS

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Annibale Bugnini, o principal articulador da reforma litúrgica, ou o “coveiro da Missa” definiu nestes termos a origem da reforma litúrgica:

“Na história da liturgia, a reforma do Concílio Vaticano II distingue-se de todas as outras pelo seu caráter pastoral. A participação e o envolvimento ativo do povo de Deus na celebração litúrgica são a finalidade da reforma e o objeto do movimento litúrgico” (em seu livro A Reforma da Liturgia, Edições Desclée de Brouwer, pág.23).

De fato, entre as principais linhas do decreto sobre a liturgia do Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium), encontramos freqüentemente esses dois grandes princípios:

– A participação ativa e plena dos fiéis

– Em nome do “sacerdócio” dos batizados.

É precisamente isso que Mons. Bugnini queria mostrar no início do seu livro A Reforma da Liturgia. Mons. Bugnini começa citando a primeira epístola de São Pedro (cap. 2, vers. 9): passagem tão cara aos defensores do “sacerdócio” dos batizados (e, infelizmente, muitas vezes, mal compreendida); ele afirma que “o caráter batismal dos fiéis faz deles: a raça escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo que pertence a Deus “.

Em seguida, ele só repetirá a Constituição Sacrosanctum Concilium (nº 14), que afirma que a própria natureza da liturgia e este “sacerdócio” dos batizados “exigem que eles sejam guiados para uma inteligência plena e uma participação ativa nas celebrações litúrgicas. Eles têm o direito e o dever “. Continuar lendo

PAPA FRANCISCO – CARDEAL SARAH: O ENTENDIMENTO ACOLHEDOR

CARDEAL SARAH DECLARA ADERIR PLENAMENTE À AÇÃO DO PAPA FRANCISCO

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

O cardeal Sarah, frequentemente apresentado pelos conservadores como um oponente firme à linha liberal do Papa Francisco, recusou claramente qualquer diferença entre eles (La Croix , 9 de outubro de 2019).

Citações:

“A Igreja é representada na terra pelo vigário de Cristo, ou seja, o papa. E quem é contra o papa está “ipso facto” fora da Igreja.”

“Aqueles que me opõem ao papa não conseguem apresentar uma só de minhas palavras, uma só de minhas frases ou uma só de minhas atitudes em apoio a suas declarações absurdas e, diria eu, diabólicas”.

Ele defende “a análise incomparável do pensamento de Bento XVI com a grande e brilhante ação de Francisco”; além disso, “todo papa é” apenas “para sua época”.

“Na evidente diferença de sensibilidade, há uma grande harmonia e uma grande continuidade entre eles, como todos viram com o passar dos anos”.

“Devemos sempre interpretar as palavras do papa Francisco com a hermenêutica da continuidade”.

Que todos os conservadores e institutos Ecclesia Dei ouçam, portanto, este chamado a aderir de todo o coração à brilhante ação de Francisco, examinando a harmonia com a Tradição.

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Outro texto interessante sobre esse assunto, publicado dias atrás:

Outro ainda é esse:

SOU TEU NETO…!!!

Resultado de imagem para vaticano IISou teu neto…

Estou cansado de teus discursos, de tuas promessas de renovação.

De novos planos, de novos brios…Já basta!

Sou jovem, mas não sou tolo.

Tenho um vazio, mas tu te empenhas para que eu não o preencha.

O tempo de esperança chegou ao limite,

Cansei de esperar, na dureza do inverno a primavera que nunca virá.

O ar que entrou pela janela me sufoca, me asfixia, me mata.

Tenho sede…

Tu tens um copo de água fresca e não queres me dar.

Exijo que me devolvam aquilo que uma geração hippie se atreveu a me tirar antes de eu nascer…

Me tiraram o leite materno, a segurança de estar nos doces braços de uma mãe, o beijo terno de alguém que me ama!

Filhos de seu tempo! O que me deixaram? Continuar lendo

OS FIÉIS GUARDIÕES DO VATICANO II – SOBRE UMA ENTREVISTA COM O CARDEAL SARAH

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

National Catholic Register publicou recentemente (23 de setembro de 2019) uma longa entrevista do cardeal Sarah, conhecido por suas posições conservadoras, por seu amor à famosa “forma extraordinária” da Missa.

Esta entrevista ilustra muito bem a recente declaração do Padre Pagliarani (“Uma Igreja de pernas para o ar). Nosso Superior Geral, a respeito desses prelados que vão na direção certa, denunciando certos erros ou reafirmando certas verdades, afirma – longe de se alegrar com tais acontecimentos: “que a Fraternidade tem o dever de estar muito atenta a essas reações, e ao mesmo tempo, tentar impedir tornem autodestrutivas e não alcancem nada.”.

Uma crítica a conservadores que ainda poupam o Vaticano II

E o Pe. Pagliarani fornece a chave essencial: esses prelados também devem reconhecer a “continuidade entre os ensinamentos do Concílio, dos papas da era pós-conciliar e o atual pontificado“. Pois esses mesmos prelados, ao mesmo tempo, querem nos fazer engolir o Concílio Vaticano II e as reformas pós-conciliares. Exemplo: Cardeal Müller, o mais virulento de todos contra a Amoris laetitia e o Instrumentum laboris (projeto de reforma da Cúria),  não hesita em falar em “ruptura com a tradição”. Mas é o mesmo cardeal Müller quem “queria impor à FSSPX – em continuidade com seus predecessores e sucessores na Congregação para a Doutrina da Fé – a aceitação de todo o Concilio e do magistério pós-conciliar.”

Como esse diagnóstico do Superior Geral da Fraternidade diz respeito ao cardeal Sarah, algumas linhas da entrevista deste serão suficientes para demonstrar!

Quando a forma extraordinária é celebrada no espírito do Concílio Vaticano II, ela revela toda a sua fecundidade, diz o cardeal. O ideal desejo dele seria amar a liturgia tradicional à luz do Concílio? Continuar lendo

SÍNODO DA AMAZÔNIA: UM COMENTÁRIO DO INSTRUMENTUM LABORIS

Matteo D’Amico

Fonte: Courrier de Rome, Julho-Agosto de 2019

Publicado na Permanencia

Conclusão

É possível e talvez necessário sintetizar, à guisa de conclusão, a estrutura do documento que acabamos de analisar, ressaltando os seus gravíssimos erros.

Em primeiro lugar, todo o discurso laborioso que o Instrumentum Laboris desenvolve jamais esclarece a situação da Igreja na Amazônia: não narra a sua história, nada se diz da sua difusão, do número de batismos ou de casamentos. O discurso é, portanto, completamente abstrato e, definitivamente, pouco sério. Ninguém poderá dizer, após a leitura desse texto, do que se está tratando e qual a situação do catolicismo na Amazônia.

Não há nenhuma avaliação rigorosa e séria da situação moral, do respeito ao laço conjugal, da frequência aos sacramentos etc. Não podemos dizer se a situação é boa ou péssima.

A confusão aumenta pelo fato de que jamais se diz se no documento se o tema é a evangelização de índios batizados e convertidos, ou de indígenas afastados do Evangelho. A cultura e as crenças indígenas “ancestrais” são exaltadas a tal ponto, que parece que ainda lidamos com pagãos.

Exalta-se de modo ridículo a visão de mundo dos índios amazonenses, como se fosse uma visão da vida de uma profundidade, beleza, harmonia e delicadeza insuperáveis: um conhecimento ainda que superficial desses povos bastaria para mostrar que se trata de um mundo muito longe de ser perfeito. O texto todo é perpassado desse equívoco, que o torna ridículo.

Jamais se trata, em ponto algum do texto, do tema da salvação das almas, da vida eterna, da imortalidade da alma. Estamos em face de um catolicismo situado entre o sentimental e o ideológico, a ser corrigido em prol da harmonia com a natureza. O texto apresenta uma fé completamente esvaziada do seu núcleo escatológico e soteriológico.

Não se fala do pecado e, em paralelo, não se faz a menor alusão à cruz de Cristo ou à economia da salvação fundada sobre a cruz. Como o pecado é completamente ausente, também é ausente, e não por acaso, o tema da salvação: Para que salvação se não há pecado? O nome mesmo de Jesus Cristo é pouquíssimo citado — e isso também não é por acaso. 

Falta, logicamente, toda alusão à vida da graça e à necessidade de alimentá-la pelos sacramentos e pela oração: toda vida de piedade é dissolvida numa nuvem de contínuas exaltações da espiritualidade original dos índios da Amazônia, os novos “bons selvagens”.

Trata-se do texto menos mariano de todo o pós-Concílio: não há praticamente nenhuma referência à Santíssima Virgem. Isso é muito suspeito e levanta sérias dúvidas sobre a fé daqueles que escreveram esse documento.

O documento apresenta uma idéia de inculturação completamente falsificada e deformada, que acaba por recomendar à Igreja a conversão à espiritualidade indígena.

Busca-se alterar o sacerdócio e a liturgia, e abonar a ordenação de mulheres de um modo ou de outro (ainda que não se ouse dizê-lo abertamente).

As referências doutrinais e escriturais são mínimas, e encontramos apenas uma enxurrada de referências aos textos de Francisco, de quem usa-se sem o menor pudor o jargão, repetindo como papagaios suas expressões típicas (em especial, “Igreja em saída”).

Todo o texto é francamente modernista sob cada um de seus aspectos, e sobretudo no seu modo de promover a causa do “mobilismo dogmático” mais desenfreado: onde a doutrina e amoral não podem ser rígidas nem opressivas, mas doces e aptas a se adaptarem a realidade concreta e às necessidades dos índios da Amazônia.

O Instrumentum Laboris que viemos de comentar não é um texto católico, mas um apanhado de heresias. É um texto escandaloso e é dever de todo católico, mas sobretudo de todo bispo, condená-lo publicamente e exigir que seja retirado, denunciando a sua falsidade e suas ciladas publicamente. Sua aplicação e sua utilização durante o Sínodo da Amazônia só podem provocar a ruína da Igreja na Amazônia, em primeiro lugar, e no mundo inteiro, quando sua aplicação for alargada.

UMA IGREJA DE PERNAS PARA O AR – ENTREVISTA COM O PE. DAVIDE PAGLIARANI

Fonte: DICI

Revmo. Pe. Pagliarini – Superior Geral, são esperados eventos importantes até o final do ano, como o Sínodo da Amazônia e a reforma da Cúria Romana. Eles terão uma repercussão histórica na vida da Igreja. Em sua opinião, que lugar eles ocupam no pontificado do Papa Francisco?

A impressão que muitos católicos padecem atualmente é a de uma igreja à beira de uma nova catástrofe. Se fizermos uma retrospectiva, o próprio Concílio Vaticano II só foi possível porque foi o resultado de uma decadência que afetou a Igreja nos anos que precederam sua abertura: uma barragem se rompeu pela pressão de uma força que já operava há algum tempo. É isso que permite o sucesso das grandes revoluções, porque os legisladores apenas aprovam e sancionam uma situação que já é um fato consumado, pelo menos em parte.

Assim, a reforma litúrgica foi apenas o resultado de um desenvolvimento experimental que remonta ao período do entreguerras e que já havia penetrado em grande parte do clero. Mais próximos a nós, sob este pontificado, a Amoris lætitia foi a ratificação de uma prática, infelizmente, já presente na Igreja, especialmente no que diz respeito à possibilidade de comunhão às pessoas que vivem em estado de pecado público. Hoje a situação parece madura para outras reformas excessivamente sérias.

O senhor poderia especificar vosso julgamento sobre a exortação apostólica Amoris lætitia três anos após a sua publicação?

Amoris lætitia representa, na história recente da Igreja, o que Hiroshima ou Nagasaki são para a história moderna do Japão: humanamente falando, os danos são irreparáveis. Este é, sem dúvida, o ato mais revolucionário do Papa Francisco e, ao mesmo tempo, o mais contestado, mesmo fora da Tradição, porque afeta diretamente a moral conjugal, que permitiu muitos clérigos e fiéis detectar a presença de erros graves. Este documento catastrófico foi apresentado, indevidamente, como o trabalho de uma personalidade excêntrica e provocadora em suas palavras, que alguns querem ver no atual papa. Isso não está correto, e é inadequado simplificar dessa forma o problema. 

O senhor parece sugerir que essa consequência foi inevitável. Por que o senhor está relutante em definir o papa atual como uma pessoa original?

Na realidade, a Amoris laetitia é um dos resultados que, mais cedo ou mais tarde, deveria ocorrer como resultado das premissas estabelecidas pelo Concílio. O cardeal Walter Kasper já havia confessado e salientado que uma nova eclesiologia, aquela do Concílio, corresponde a uma nova concepção da família cristã[1].

De fato, o Concílio é primeiramente eclesiológico, ou seja, propõe em seus documentos uma nova concepção da Igreja. A Igreja fundada por Nosso Senhor não corresponde mais à Igreja Católica, simplesmente. Ela é mais ampla: inclui outras denominações cristãs. Como resultado, as comunidades ortodoxas ou protestantes teriam “eclesialidade” em virtude do batismo. Em outras palavras, a grande novidade eclesiológica do Concílio é a possibilidade de pertencer à Igreja fundada por Nosso Senhor em diferentes maneiras e graus. Daí a noção moderna da comunhão plena ou parcial, “à geometria variável”, poderíamos dizer. A Igreja tornou-se estruturalmente aberta e flexível. A nova modalidade de pertencimento à Igreja, extremamente elástica e variável, segundo a qual todos os cristãos estão unidos na mesma Igreja de Cristo, está na origem do caos ecumênico. Continuar lendo

DESOBEDIÊNCIA APARENTE, OBEDIÊNCIA VERDADEIRA

Mons. Lefebvre apresenta acusações recebidas de ser, supostamente, desobediente à Igreja por se recusar a acompanhar as mudanças do Vaticano II. Deixa claro que não pode ser verdadeiro desobediente quem faz, crê e pratica o que a Igreja fez, acreditou e praticou durante dois mil anos. Trata-se de uma desobediência aparente, mas obediência verdadeira. Homilia de 1976.

JOÃO PAULO II, UM NOVO PAULO

Pe. Dominique Bourmaud – FSSPX

«Esperamos que a Providência conserve-nos por muito tempo a Paulo VI, mas o dia em que precisarmos de um Papa, eu já tenho o meu candidato: é Wojtyla. Só que isso é impossível, não tem a menor probabilidade!» — De Lubac 1.

De Lubac tinhas seus motivos para apoiar a eleição de um cardeal polonês, cuja eleição surpreendeu muitas pessoas. Durante o conclave, estava presente, obviamente, o cardeal primaz Wyszynski, que encarnava a Igreja dos mártires. Mas ele não era nenhum papabile, porque denunciava muito abertamente a Igreja pós-conciliar, uma Igreja cujo credo tornou-se elástico e cuja moral fez-se relativista, uma Igreja mergulhada na penumbra, uma Igreja que havia fechado os olhos diante do pecado. Por outro lado, o cardeal Wojtyla era moderno e, mais ainda, um modernista de fato e de direito. O arcebispo de Cracóvia apoiava a edição polonesa da revista Communio e, uma vez eleito Papa, não tardaria em promover ao cardinalato os seus três fundadores, Ratzinger, De Lubac e Von Balthasar, embora este último tenha vindo a falecer na véspera de sua entronização. 

O padre Meinvielle, em um livro memorável escrito em 1970 2, anunciava a formação de uma dupla Igreja: a Igreja da promessa, que professaria a fé incorruptível de seu Fundador, e a Igreja da propaganda, a serviço da gnose cristã e progressista. O mesmo Papa poderia, inclusive, presidir ambas as Igrejas. Professaria a doutrina imaculada da fé, mas em seus atos equívocos sustentaria a Igreja da propaganda. Este livro, escrito no tempo de Paulo VI, descreve-o admiravelmente. Sob o pontificado de João Paulo II, não é necessário dizê-lo, a duplicidade e o engano sobre o depósito revelado tornou-se algo comum em Roma. Depois de esboçar uma rápida biografia do Papa, estudaremos seu verdadeiro pensamento. Deste modo estaremos em melhores condições para definir a finalidade do seu pontificado: o estabelecimento da religião universal. Se Paulo VI foi qualificado simplesmente de novo Moisés, João Paulo II é melhor qualificado como um segundo São Paulo, mas de um novo tipo.

O caminho de Damasco 

Karol Wojtyla é um filósofo, um moralista para ser mais exato. Na medida em que sua filosofia segue a corrente existencialista, fica evidente que seu universo mental é muito diferente do pensamento de um realista. Seu sonho é reconciliar Kant com Santo Tomás, Scheler e Heidegger3. Sua visão, que pode ser considerada original, depende principalmente do existencialismo subjetivo e antropológico. João Paulo II é, sobretudo, um intelectual, ou melhor, um teórico. Argumenta a partir de princípios e não de experiências. Defendeu o documento sobre a liberdade religiosa no Concílio e opôs-se àqueles que queriam publicar uma condenação severa do ateísmo4. Para ele, o ateísmo deveria ser estudado, com a ajuda da sociologia e da psicologia, não como negação de Deus, mas sim como um estado de consciência da pessoa humana5. Ecumenista convicto, visitou vários vezes Taizé, esta comunidade de monges protestantes que ele queria usar como ponte ecumênica. 

São Paulo recebeu sua vocação no caminho para Damasco, quando ao cair de sua montaria, lançou-se aos pés de Cristo. João Paulo II teve uma conversão não menos fulminante, mas aparte disto bastante diferente. Foi em Roma, durante o Concílio. De fato, o Concílio ajudou-lhe a fazer a síntese de sua fé pessoal. O que entende por «fé pessoal»? Ele mesmo o explica:  Continuar lendo

SERÁ UMA DESGRAÇA O SÍNODO DA AMAZÔNIA?

Imagem relacionadaPe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Sem questionar absolutamente a conclusão a que chegaram alguns ilustres dignitários eclesiásticos em seu juízo condenatório  do Instrumentum laboris do próximo Sínodo da Amazônia, os quais o classificaram como herético e apóstata, desejaria apenas desenvolver algumas reflexões sobre a possibilidade de a referida assembléia episcopal, a ser mantida a orientação contida no Instrumentum laboris, constituir efetivamente, como pensam alguns, uma desgraça para a Igreja e uma ameaça para a soberania dos Estados da Região Amazônica.

Não me parece que as diretrizes que vierem a ser emanadas do Sínodo da Amazônia, ainda que tenham mais tarde  uma repercussão e aplicação sobre toda a Igreja pós-conciliar, possam representar uma obra devastadora da Vinha do Senhor, corrompendo a fé e a moral dos pobres fiéis que ainda frequentam as paróquias Novus Ordo, com seus diáconos permanentes, suas ministras extraordinárias da Eucaristia, suas leitoras, salmistas, e as diversas pastorais e movimentos, como, por exemplo, a pastoral dos recasados, aliás, já admitidos, em grande medida, à recepção da sagrada Eucaristia.

Não creio que os católicos aggiornati, que em sua imensa maioria há décadas  se acostumaram à nova liturgia e apoiam docilmente a famigerada campanha da fraternidade, venham a escandalizar-se e abandonar suas paróquias, caso as ministras da Eucaristia venham a ser “ordenadas” diaconisas e os diáconos permanentes se tornem padres casados. E caso sejam reincorporados os padres défroqués casados, os padres da Associação Internacional dos Padres Casados, que tinham apoio do então cardeal de Buenos Aires Jorge Maria Bergoglio, certamente a maioria dos católicos Novus Ordo não se oporá. Os católicos das paróquias renovadas por mais de cinqüenta anos de mudanças pós-conciliares vão encarar tudo com a maior naturalidade. E a Igreja do Vaticano II vai continuar sua marcha de ruptura com a Igreja de sempre, a Igreja Católica Romana, imutável em sua perene tradição. Continuar lendo

ENTEVISTA DO PE. DAVIDE PAGLIARINI DURANTE XIV CONGRESSO DO COURRIER DE ROME

Entrevista do Pe. Davide Pagliarani, Superior Geral da Fraternidade São Pio X realizada por ocasião do XIV Congresso do “Courrier de Rome”, sobre o tema “Francisco, o papa pastoral de um concílio não dogmático

PAULO VI (1887-1978), UM NOVO SANTO?

Pe. Thierry Gaudray, FSSPX – Fonte: Permanencia

No dia 5 de agosto passado, o Papa Francisco falou à multidão reunida na praça São Pedro para a oração do Angelus: “Há quarenta anos, o Beato Papa Paulo VI estava vivendo as suas últimas horas nesta terra. Morreu, de fato, na noite de 6 de agosto de 1978. Recordemos dele com muita veneração e gratidão, à espera da sua canonização, em 14 de outubro próximo. Do céu interceda pela Igreja, que tanto amou, e pela paz no mundo. Este grande Papa da modernidade, o saudemos com um aplauso, todos!

Não há dúvida que, ao canonizar Paulo VI, após tê-lo feito com João XXIII e João Paulo II, Francisco tem a intenção de confirmar os católicos nas novas orientações tomadas pela Igreja desde o Concílio, e dar um novo lustro à liturgia reformada1. Paulo VI foi, de resto, o primeiro papa a lançar mão da canonização dos santos para avalizar o Concílio, anunciando, no dia 18 de novembro de 1965, antes do seu término, portanto, a introdução das causas de beatificação de Pio XII, mas também de João XXIII2.

No entanto, quão opostos eram os julgamentos desses dois papas sobre Monsenhor Montini! Se este último foi um colaborador próximo do Cardeal Pacelli por muitos anos, em 1954 foi afastado de Roma por vontade do Papa Pio XII. O sobrinho de Paulo VI testemunhou que seu tio jamais nutriu a menor ilusão a esse respeito: “para ele, tratava-se de um drama no mais pleno sentido da palavra”3. Ainda que Pio XII não tenha julgado conveniente afastar um substituto nos assuntos ordinários da secretaria de Estado sem lhe conceder uma aparente promoção, a censura não deixava de ser notória. A Sé de Milão era tradicionalmente ocupada por um cardeal, ora “Pio XII não criou mais nenhum cardeal”, e isto “para não ter de designar Monsenhor Montini”4

João XXIII, ao contrário, no dia 4 de novembro de 1958, um pouco antes da cerimônia da sua coroação, escreveu um bilhete para Monsenhor Montini afim de anunciar que esta dignidade lhe seria brevemente conferida5, e sete anos mais tarde, no seu leito de morte, disse: “Meu sucessor será o Cardeal Montini”.  Continuar lendo

O ACORDO ROMA-MOSCOU

O artigo seguinte trata de uma das páginas mais tristes de nossa história, o acordo Roma-Moscou firmado em 1962. Ele nos ajuda a compreender o porquê do Vaticano ter se calado sobre o comunismo no Concílio, bem como as origens da atual política de simpatia por políticos e personalidades de esquerda. 

Revelado inicialmente pela imprensa comunista, foi confirmado posteriormente por publicações progressistas e comentado no periódico católico “Itinéraires”. Mas ninguém leu, ou se leu, não acreditou, ou se acreditou, deu ao acordo uma interpretação complacente que não mais se pode manter.

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Jean Madiran

A negociação secreta entre a Santa Sé e o Kremlin efetivamente realizou-se. Concluiu-se realmente o acordo. Roma comprometeu-se de verdade. Tudo mostra que o pacto continua em vigor, embora não seja de ontem mas de anteontem. Ele é de 1962. Há 22 anos a atitude mundial da Igreja Católica em face do comunismo está subordinada às promessas feitas aos negociadores soviéticos.

Não revelo segredo algum. Relembro o que todos deviam saber, mas esqueceram, ou jamais souberam ou fingem ignorar. No entanto, publicaram-se, em 1962, três coisas na imprensa comunista e na católica: 1) a existência da negociação; 2) a conclusão do acordo; 3) as promessas feitas pela Santa Sé. O essencial foi dito, escrito, impresso sob completa desatenção. Os comentadores mais bem informados baixaram os olhos pudicamente. Não se registrou nenhum comentário pormenorizado, salvo em “Itinéraires”. Admitindo-se que, na época, a distração, real ou fictícia, foi universal, hoje a ignorância é completa. De sorte que, resumindo o assunto em algumas dezenas de linhas em “Présent” de 30 de dezembro de 1983, provoquei a estupefação dos mais experimentados na matéria e topei freqüentemente com uma incredulidade desdenhosa ou indignada. Era esse o meu resumo: “João XXIII comprometeu-se com o negociador soviético — que era Mons. Nicodemo — a não atacar o povo nem o REGIME da Rússia. Isso era para que Moscou permitisse que os observadores ortodoxos russos comparecessem ao Concílio. Desde então a Santa Sé considera-se ligada pelos compromissos de João XXIII. Já não se nomeia o comunismo em nenhum documento pontifício”. Diante dessas linhas, as pessoas reagiram como se jamais tivessem ouvido falar dessa negociação e dessa promessa. Continuar lendo

RUMO À CANONIZAÇÃO DE PAULO VI

news-header-imageFonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Por ocasião de uma entrevista concedida ao site norte americano Crux, o cardeal Pietro Parolin anunciou em 6 de março de 2018 que o Papa Paulo VI (1963-1978) poderia ser canonizado em outubro próximo, no sínodo dos bispos dedicados aos jovens.

Este anúncio teve lugar após a aprovação, por parte da Congregação para as Causas dos Santos, em 6 de fevereiro de 2018, do reconhecimento de um “milagre” atribuído à intercessão de Giovanni Battista Montini.

Em 27 de abril de 2014, o Papa Francisco canonizou os papas João XXIII (1958-1963) e João Paulo II (1978-2005). Em 19 de outubro do mesmo ano, no final do sínodo familiar, beatificou Paulo VI.

Em 17 de fevereiro de 2018, durante um reencontro com o clero de Roma, o Papa Francisco declarou que a canonização de Paulo VI terá lugar no decorrer de 2018: “Paulo VI será canonizado este ano, a beatificação de João Paulo I está em processo, em relação a Bento XVI e a nós mesmos, estamos na lista de espera”, ele brincou.

Através destas canonizações à marcha forçada de todos os papas modernos, o que realmente se canoniza, de certo modo, é a reforma geral da Igreja que ocorreu há cinquenta anos e que, ao mesmo tempo, torna-se irreversível. Além disso, tem a pretensão de fortalecer a religião conciliar, isto é, a concepção e o espírito da prática do catolicismo como redefinido pelo Concílio Vaticano II através de suas destrutivas reformas de culto, da fé e da doutrina.

Mais uma vez, surge a questão da evolução dos processos de beatificação e canonização, bem como a sua utilização para fins de política eclesiástica.

Monsenhor Marcel Lefebvre, que foi suspenso a divinis durante o pontificado de Paulo VI, explicou aos seminaristas de Ecône a opinião que tinha sobre este papa, durante as conferências ministradas sobre as Atas do Magistério, que forneceram o material para o seu livro Le Destronaron, Capítulo XXXI, “Paulo VI, o Papa Liberal”, o qual nos permite saber exatamente o que o fundador da Fraternidade São Pio X havia dito sobre o anúncio desta próxima “canonização”.

O pontificado do Papa Paulo VI (1963-1978) descerá na história como o pontificado do Concílio Vaticano II e sua implementação, que introduziu a revolução na Igreja. As seguintes são algumas das principais reformas resultantes desse concílio: a Missa Nova, cujo espírito e rito são perigosamente semelhantes à “liturgia” protestante; um falso ecumenismo que ignora a verdadeira unidade da Igreja; o aggiornamento geral que aboliu as veneráveis ​​tradições das ordens e congregações ao questionar a vida sacerdotal e religiosa; a prolongada crise da Igreja, com a destruição da fé e das vocações, do espírito católico na educação, da prática moral e religiosa em todos os aspectos, etc. Paulo VI, um papa torturado, presa da dúvida e da preocupação, tentou proibir a Missa de São Pio V no consistório de 1976 e perseguiu a legítima reação da Tradição, a qual se opôs à revolução conciliar com os vinte séculos de vida e ensino da Igreja.

ESPECIAIS DO BLOG: ESTUDO SOBRE O NATURALISMO DOS “MISTÉRIOS LUMINOSOS” DO PAPA JOÃO PAULO II

jpEm mais uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os links para os capítulos do “Estudo sobre o Naturalismo dos Mistérios Luminosos, escrito pelo Padre Peter R. Scott – FSSPX que expõe de forma clara a tentativa velada de promover o naturalismo da revolução pós-conciliar.

Como isso poderia ser possível? Como poderia um papa errar recomendando o Rosário? Como poderia Nossa Senhora abandonar aqueles que continuam a recitar suas Ave-Maria? Como poderia um católico criticar um papa que diz que o Rosário é “sua oração predileta”, “Oração maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade” ?

Leiam e entendam.

 

MAIS UMA DE FRANCISCO VERSUS DOUTRINA CATÓLICA

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O Papa Francisco fez um discurso sobre a pena de morte em uma reunião organizada pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, por ocasião do 25º aniversário da publicação do ambíguo e contraditório Catecismo da Igreja Católica, em 1992.

Resumindo, o Papa disse que “é preciso afirmar com força que a sentença à pena de morte é uma medida desumana que humilha”.

“É em si mesma contrária ao Evangelho porque, com ela, decide-se voluntariamente uma vida humana, que é sempre sagrada aos olhos do Criador, e da qual Deus, em última instância, é o único juiz”, acrescentou.

Francisco manifestou que “ninguém pode tirar não só a vida como a possibilidade de uma redenção moral e existencial que seja em favor da comunidade”.

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Bom, perante tudo isso, qual a verdadeira posição da Igreja Católica sobre o assunto?

Não vamos fazer um estudo. Vamos apenas citar alguns trechos sobre tal, de acordo a doutrina da Igreja. Aliás, um bom estudo do Pe. Jean-Michel Gleize pode ser lido clicando aqui.

Será que todos os filósofos, teólogos e papas que apoiaram a legitimidade da pena de morte, diante do atual Pontífice, traíram o Evangelho?

Façamos então uma comparação da opinião de Francisco com o ensinamento da Igreja: Continuar lendo

A IGREJA DO VATICANO II E MARTINHO LUTERO

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

É perfeitamente compreensível que haja tantos católicos da tradição chocados com as comemorações do 5º centenário da Revolução Luterana. De fato, é doloroso ver o Vigário de Cristo na Terra, o sucessor de Pedro, encabeçando e incentivando um ditirambo do asqueroso heresiarca.

A mim, pessoalmente, já beirando os 56 anos  de idade e tendo vivido cenas semelhantes nos tempos de João Paulo II, não me causa tanta surpresa ver a hierarquia empolgada com tudo isso. O que me causa mais revolta é ver nossas antigas igrejas, aquelas joias do gótico e do barroco, lugares sagrados e abençoados, ricos de tanto significado para os verdadeiros católicos, abrigando as orgias ecumênicas promovidas por hereges modernistas e luteranos mancomunados na perseguição contra os católicos, como se viu na expulsão de jovens belgas que rezavam o Rosário em desagravo contra a profanação de uma catedral sequestrada para uma esdrúxula cerimônia ecumênica  modernista-luterana.

Entretanto, é preciso dizer que é igualmente compreensível que a Igreja do Vaticano II celebre o 5º centenário da obra nefasta de Martinho Lutero. Afinal, sem Lutero e sua revolução, com todas as suas consequências, não se explica o Vaticano II, seus vários documentos e as múltiplas reformas que dele emanaram.

Com efeito, a nova eclesiologia conciliar (em contradição com a Satis Cognitum de Leão XIII e a Mystici Corporis de Pio XII), tal como está exposta na Lumen Gentium, com a famosa expressão “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”, é de origem protestante. Está provado e documentado que essa horrível expressão, que tem o único objetivo de empanar  a perfeita identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica, foi introduzida pelo Dr. Ratzinger, por sugestão de um pastor protestante.

Recorde-se, outrossim, a história da desastrada reforma litúrgica. O escritor Jean Guiton, amigo de Paulo VI, declarou que Paulo VI lhe disse que tinha a intenção de fazer uma reforma litúrgica que abolisse todos os elementos que eram do desagrado dos “irmãos separados”. Por isso mesmo, após o concílio convidou “peritos” protestantes para participar da comissão encarregada da  reforma do missal romano. Disto resultou uma liturgia ambivalente. E hoje não há ninguém com um mínimo de juízo crítico que não reconheça que a missa moderna, como celebrada na maioria das paróquias e tão apreciada pelos católicos renovados, não parece um arremedo do culto protestante. Continuar lendo

BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA – PARTE 6

Para ler a Primeira Parte clique aqui.

Para ler a Segunda Parte clique aqui.

Para ler a Terceira Parte clique aqui.

Para ler a Quarta Parte clique aqui.

Para ler a Quinta Parte clique aqui.

AS “NOVIDADES CONCILIARES”, QUINTESSÊNCIA DA NOVA TEOLOGIA

Vamos nos debruçar aqui sobre as “novidades conciliares” em suas grandes linhas, examinando somente alguns textos do Vaticano II, a saber: Lumen Gentium nº 8; Unitatis Redintegratio c. I nº 3; Nostra Aetate;Dignitatis Humanae; Gaudium et Spes e Lumen Gentium c. III. 

Temos de deixar de lado, por razões de concisão, outros documentos importantes do Vaticano II, como por exemplo, Dei Verbum e outros acontecimentos graves decisivos, como as tratativas informais da Santa Sé, por intermédio do cardeal Bea, com os representantes do judaísmo mundial a fim de chegar a uma representação favorável ao judaísmo no documento Nostra Aetate; ou ainda a escandalosa e deliberada ausência de condenação do comunismo (por razões ecumênicas): era a condição posta pelo governo soviético para a presença de representantes do patriarcado ortodoxo de Moscou no Vaticano II como “observadores”, com o abandono da petição apresentada pelos 450 padres conciliares…

Lumen Gentium

A constituição dogmática Lumen Gentium afirma: “… a única Igreja de Cristo […], constituída e organizada neste mundo como uma comunidade subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e os bispos em comunhão com ele”.[1]

Trata-se de uma única palavra: “subsiste”, mas de uma palavra sustentada por uma questão de fé, e uma das mais graves.

A doutrina católica, na verdade, sempre identificou a única, verdadeira Igreja de Cristo com a única Igreja católica romana, excluindo a diversas seitas heréticas e cismáticas que se separaram dela ao longo dos séculos. Trata-se, em última análise, da questão mais importante na vida de cada homem, a da verdadeira religião e da verdadeira Igreja na qual poderemos encontrar a vida eterna. A voz da Tradição e dos Padres da Igreja sempre foi unânime neste assunto.

“O homem não pode se salvar senão na Igreja Católica”. Lembrava Santo Agostinho de Hipona, enquanto que “fora da Igreja Católica ele consegue tudo, menos se salvar. Ele consegue cargos, ele pode receber os sacramentos, pode cantar ‘aleluia’ e responder ‘Amem’, pode ter o Evangelho, ter fé e pregar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas em nenhum lugar além da Igreja Católica ele poderá obter a salvação”[2].

O esquema da Comissão preparatória do Concílio tinha afirmado com clareza a doutrina eterna, reafirmando que “a Igreja de Cristo é a Igreja Católica”[3]. Os neo-modernistas, ao contrário, conseguiram introduzir no novo texto conciliar o “subsiste” (subsistir), abrindo assim as portas para a demolição da Igreja e a ruína eterna de todos, católicos e não-católicos, através do ecumenismo atual, que considera todas as confissões cristãs heréticas e cismáticas — “ortodoxas”, anglicanas, luteranas, etc. — como já fazendo parte, se bem que não plenamente, da única Igreja de Cristo, na qual a Igreja Católica limitar-se-ia justamente a “subsistir”, sem se identificar com ela de modo exclusivo. Continuar lendo

SINOPSE DOS ERROS IMPUTADOS AO CONCÍLIO VATICANO II

Continuamos nosso trabalho de denúncia dos erros do Concílio Vaticano II. Consideramos ser este tipo de denúncia teológica a única saída, em termos humanos, para a crise que nos atormenta já há décadas, visto que da parte das autoridades do vaticano, os erros continuam a ser ensinados e difundidos. Tanto os Congressos realizados pelo jornal Si Si No No, quanto o recentemente lançado Simpósio de Paris, que deve se repetir de ano a ano, são algumas das iniciativas que temos assistido e que nos permitem aprofundar a análise deste Concílio que, decididamente, não foi católico. Deve ser rejeitado, sim, e o será um dia pela autoridade suprema do Vigário de Cristo. Por enquanto ele ainda é a pedra de tropeço para tantas comunidades religiosas e padres que, acreditando ser possível manter a Tradição e aderir ao Concílio, aceitam acordos que sempre terminaram por inserir estes padres e fiéis no ambiente pervertido, heretizante e modernista que reina no Vaticano.   

A presente Sinopse dos Erros de Vaticano II é a tradução da versão francesa do jornal SiSiNoNo, publicada a partir do número 247, de julho-agosto de 2002.    

PAULO VI – PAPA LIBERAL

Resultado de imagem para marcel lefebvreTalvez perguntem, como é possível que o liberalismo tenha  triunfado através dos Papas João XXIII e Paulo VI e mediante o Concílio Vaticano II? Como se pode conciliar esta catástrofe com as promessas feitas por Nosso Senhor à Pedro e à sua Igreja: “As portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18); “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo? (Mt 28, 20) Creio que não há contradição efetivamente, na medida em que estes Papas e o Concílio negligenciaram ou recusaram fazer uso da infalibilidade. Deixando de usar este carisma, que lhes é assegurado pelo Espírito Santo sempre e quando o queiram usar, puderam cometer erros doutrinais e com maior razão ainda, deixar penetrar o inimigo na Igreja, graças à sua negligência e cumplicidade. Em que grau foram cúmplices? De que faltas foram culpados? Em que medida sua função fica questionada?

É evidente que a Igreja, um dia, julgará este Concílio, julgará estes Papas. E em especial, como será julgado o Papa Paulo VI? Alguns afirmam que fui herege, cismático e apóstata; outros crêem poder demonstrar que Paulo VI não tinha em vista o bem da Igreja, e portanto não foi papa, é a tese dos “Sedes Vacans”. Não nego que estas opiniões tenham algum argumento à seu favor. Poderão dizer que em trinta anos se descobrirão coisas que estavam ocultas ou se verá melhor elementos que deveriam ter sido mais claros para os contemporâneos, como afirmações deste Papa absolutamente contrárias à tradição da Igreja, etc. Pode ser, mas creio necessáriorecorrer a estas explicações; penso inclusive que é um erro seguir certas hipóteses.

Outros pensam de modo simplista, que havia então dois papas: um, o verdadeiro, estava prisioneiro nos porões do Vaticano, enquanto o outro, o impostor, o sósia, ocupava o trono de São Pedro, para a infelicidade da Igreja. Livros foram escritos sobre “os dois papas”, baseados em revelações de uma pessoa possuída do demônio e em argumentos pseudocientíficos que afirmam, por exemplo, que a voz do sósia não é a do verdadeiro Paulo VI!

Finalmente outros pensam que Paulo VI não foi responsável pelos seus atos, sendo prisioneiro dos que o cercavam, inclusive drogado. Isto estaria corroborado por várias testemunhas de um papa fisicamente esgotado, inclusive necessitando ser amparado, etc… A meu ver é uma solução demasiadamente simples, pois então não teríamos mais que esperar um próximo papa. Mas já tivemos (não falo de João Paulo I, que reinou somente um mês) outro papa, João Paulo II, que prosseguiu ininterruptamente na linha traçada por  Paulo VI. Continuar lendo

VATICANO II – TRIUNFO DO LIBERALISMO DITO CATÓLICO

Resultado de imagem para marcel lefebvreNão creio que me possam chamar de exagerado, quando digo que o Concílio representou o triunfo das idéias liberais; os capítulos anteriores expuseram suficientemente os fatos: as tendências  liberais, as táticas e os êxitos dos liberais no Concílio e finalmente seus pactos com os inimigos da Igreja.

Os próprios liberais, os católicos liberais, proclamam que o Vaticano II foi a sua vitória. Na entrevista com o jornalista Messori, o Cardeal Ratzinger, antigo “especialista” do espírito liberal do Concílio explica como Vaticano II planejou e resolveu o problema da assimilação dos princípios liberais pela Igreja Católica; não diz que terminou em um êxito admirável, mas afirma que a assimilação foi feita:

“O problema dos anos sessenta era adquirir os melhores valores aparecidos na era da cultura ‘liberal’. São valores que mesmo nascidos fora da Igreja, podem encontrar seu lugar depois de depurados e corrigidos, na sua visão do mundo. É o que foi feito”243.

Como se fez isto? Sem dúvida no Concílio, que ratificou os princípios liberais em “Gaudium et Spes” e “Dignitatis Humanae”. Como se fez? Mediante uma tentativa condenada ao fracasso, do  tipo da quadratura do círculo: casar a Igreja com os princípios da Revolução. É precisamente o fim, a ilusão dos católicos liberais.

O Cardeal Ratzinger não se ufana muito da empresa, inclusive julga o resultado com severidade:

“Mas agora o clima é diferente, ficou escurecido em relação àquele que justificava um otimismo sem dúvida ingênuo. Agora é preciso procurar novo equilíbrio”244.

Portanto o equilíbrio ainda não foi encontrado, vinte anos depois! Entretanto continua a procura: é a ilusão liberal de sempre! Continuar lendo

UM CONCÍLIO PACIFISTA

Resultado de imagem para marcel lefebvreO diálogo e a livre procura proposta pelo Concílio, são sintomas característicos do liberalismo do Vaticano II. Quiseram inventar novos métodos de apostolado para os não cristãos, deixando de lado o espírito missionário. É o que chamei de “apostasia dos princípios”, que caracteriza o espírito liberal. Ainda mais, o liberalismo que impregnou o concílio chegou até à traição, assinando a paz com os inimigos da Igreja. Quiseram fazer um concílio pacifista.

Lembrem como João XXIII, em sua alocução de abertura do Concílio, expôs a nova atitude que a Igreja devia ter com respeito  aos erros que ameaçavam a doutrina: recordando que a Igreja nunca deixou de se opor aos erros e que freqüentemente os havia condenado com grande severidade, o Papa deixou claro, diz Wiltgen239, que agora a Igreja prefere “utilizar o remédio da misericórdia antes que o rigor, e julgava oportuno, nas  circunstâncias atuais, expor com mais amplidão a força de sua doutrina do que recorrer às condenações”. Não se trata somente de expressões lamentáveis que manifestam um pensamento bastante confuso, mas de um programa que expressa o pacifismo que caracterizou o Concílio.

É necessário, dizia-se, fazer a paz com os maçons, a paz com os comunistas, a paz com os protestantes. Deve-se acabar com estas guerras intermináveis, esta hostilidade permanente!

É o que havia dito Mons. Montini, então substituto na Secretaria de Estado, quando em uma de minhas visitas à Roma nos anos cinqüenta lhe pedi a condenação do “Rearmamento Moral”; ele respondeu: “Ah, não se deve estar sempre condenando, condenando! A Igreja parecerá uma madrasta!” Estas foram as palavras usadas  por Mons. Montini, substituto do Papa Pio XII. Ainda me lembro como se fosse hoje. Portanto, não mais condenações, não mais anátemas! Pactuemos! Continuar lendo

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II – PARTE 3

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Vaticano II e a Cidade Católica 

Procuremos encerrar o assunto. A Declaração conciliar sobre liberdade religiosa se mostra desde logo contrário ao Magistério constante da Igreja225, e também não se situa na direção dos direitos definidos pelos últimos Papas226. Pelo que vimos, ela também não se apóia em nenhum fundamento revelado. Por último, é importanteexaminar se ela se acha de acordo com o sprincípios católicos que regem as relações da cidade temporal com a religião. 

Limites da Liberdade Religiosa 

Para começar, o Vaticano II afirma que a liberdade religiosa deve-se restringir aos “justos limites” (DH. I), “de acordo com as regras jurídicas (…) conformes à ordem moral objetiva, que são requeridas para salvaguardar eficazmente os direitos de todos (…) a autêntica paz pública (…) assim como a proteção devida à moralidade pública” (DH. 7). Tudo isto é muito razoável, mas deixa de lado a questão essencial que é a seguinte: o Estado não tem o dever, e por conseguinte o direito de salvaguardar a unidade religiosa das pessoas na Religião verdadeira, e de proteger as almas católicas contra o escândalo e a propagação do erro religioso, e somente por isso limitar o exercício dos cultos falsos e inclusive proibi-los, se necessário?

Tal é a doutrina exposta com veemência pelo Papa Pio IX na “Quanta Cura”, onde o pontífice condena a opinião daqueles que, contrariamente à doutrina da Escritura, da Igreja e dos Santos  Padres, não temem afirmar que “o melhor governo é aquele em que não se reconhece ao poder a função de reprimir por sanções, aos violadores da Religião católica, salvo se o exigir a paz pública (PIN. 39, Dz. 1690). O sentido óbvio da expressão “violadores da Religião católica”, é: aqueles que exercem publicamente um culto diferente  do católico, ou que não observam publicamente as leis da Igreja. Pio IX ensina portanto, que o Estado governa melhor quando reconhece em si mesmo o ofício de reprimir o exercício público de cultos falsos,  somente  pelo  motivo  de  serem  falsos  e  não  apenas  para salvaguardar a paz pública; somente pelo motivo de que contrariam  a ordem cristã e católica da Cidade, e não porque a paz e a moralidade públicas possam ser afetadas.

Por isso deve-se dizer que os “limites” fixados pelo Concílio à liberdade religiosa são como poeira nos olhos que oculta o seu defeito radical, que é o de não levar em conta a diferença entre a verdade e o erro. Contra toda justiça, pretende-se atribuir o mesmo direito à verdadeira religião e às falsas, e artificialmente procura-se limitar os prejuízos por meio de barreiras que estão longe de satisfazer às exigências da doutrina católica. De bom grado compararia “os limites” da liberdade religiosa aos muros de segurança das auto-estradas, que servem para conter os veículos quando o motorista perdeu o controle deles. Seria preferível entretanto, certificar-se antes se estão dispostos a respeitar os regulamentos de trânsito.  Continuar lendo

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II – PARTE 2

Resultado de imagem para marcel lefebvreLiberdade Religiosa, Direito Natural à Imunidade? 

Sem invocar a tolerância, o Concílio definiu um simples direito natural à imunidade: o direito de não ser perturbado no exercício do próprio culto, qualquer que seja.

A astúcia ou pelo menos o procedimento astuto, era evidente: por não poder definir um direito ao exercício de todo culto, pois este direito não existe para os falsos cultos, empenharam-se em formular um direito natural somente para a imunidade, que sirva aos adeptos de todos os cultos.

Assim todos os “grupos religiosos” (inocente qualificativo para esconder a Babel das religiões) gozariam naturalmente da imunidade a toda coação em seu “culto público à divindade suprema” (por Deus!, de que divindade se trata?) e também se beneficiariam do “direito de não ser impedidos de ensinar e manifestar sua fé (que  fé?) publicamente, oralmente ou por escrito” (DH. 4).

É imaginável maior confusão? Todos os adeptos de todas as religiões, tanto da verdadeira como das falsas, absolutamente reduzidos ao mesmo pé de igualdade, gozariam de um mesmo  direito natural, sob o pretexto de que se trata somente de um “direito à imunidade”. É por acaso concebível? É mais do que evidente que os adeptos das falsas religiões, somente por este título, não gozam de nenhum direito natural à imunidade. Permitam-me ilustrar esta verdade com um exemplo concreto: se vocês quisessem impedir a oração pública de um grupo muçulmano na rua, ou perturbar seu culto em uma mesquita, pecariam talvez contra a caridade e seguramente contra a prudência, mas não fariam  a estes crentes nenhuma injustiça. Não se sentiriam feridos em nenhum dos bens a que têm direito, nem em nenhum de seus direitos a estes bens211; em nenhum de seus bens, porque seu verdadeiro bem não é exercer sem coação seu culto falso, mas poder exercer um dia  o verdadeiro; em nenhum de seus direitos, pois eles têm  precisamente o direito de exercer o “culto de Deus em particular e em público”212 e a não ser nisso impedidos, mas o culto de Alá não é o culto de Deus! Realmente Deus revelou, Ele mesmo, o culto com que quer ser honrado exclusivamente, que é o da  Religião católica213.

Por conseguinte, se na justiça natural não se prejudica de nenhum modo a estes crentes ao impedir ou perturbar seu culto, é porque não têm nenhum direito natural de não serem perturbados em seu exercício. Continuar lendo

BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA – PARTE 5

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VATICANO II, PRIMEIRA SESSÃO:
O INÍCIO DA REVOLUÇÃO 

A primeira sessão do Concílio Vaticano II se abriu na manhã de 13 de outubro de 1962[1], mas os neo­modernistas tiveram todo o tempo necessário para se organizar e aproveitar a ocasião propícia.

O grupo principal da ala modernista e liberal dos Padres conciliares era constituído por bispos alemães e ingleses — evidentemente discípulos entusiastas de seus novos teólogos que os manobravam a seu gosto — com os quais logo fizeram bloco outros episcopados da Europa, e que formaram o “grupo do Reno” ou a “Aliança Europeia”, como os denominou um cronista conciliar, o Pe. Ralph Wiltgen.

O golpe de Estado dos “bispos do Reno” se fez sentir desde o início da sessão, quando foi tratada a questão preliminar da eleição dos membros das dez comissões conciliares que deviam trabalhar sobre os textos doutrinais já redigidos pela comissão central preparatória.

O episcopado “do Reno” tenta a introduzir ali o maior número possível dos seus “peritos”, no intuito de orientar os trabalhos do Concílio segundo seus próprios planos: mas para isso, era necessário fazer rejeitar pelos Padres conciliares a lista de “peritos” já preparada pelo Santo Ofício, composta de teólogos que já tinham desempenhado algum papel na redação das primeiras provas dos textos, comissão preparatória. Peritos julgados “tradicionais demais” pelos inovadores deviam ser afastados; caso fossem eleitos, o que parecia mais do que provável, a margem de manobra dos “novos teólogos” seria drasticamente reduzida, até mesmo anulada.

Um segundo problema era constituído pelos próprios textos, redigidos pela comissão preparatória, fiéis à doutrina católica da tradição, usando uma linguagem teológica escolástica e, portanto, dificilmente susceptíveis de serem manipulado pelos neo-modernistas. Continuar lendo

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II – PARTE 1

Resultado de imagem para marcel lefebvreDe acordo com o Vaticano II a pessoa humana teria direito em nome de sua dignidade, a não ser impedida no culto religioso, qualquer   que ele fosse, em particular ou em público, salvo se prejudicasse a tranqüilidade ou a moralidade pública193. Reconheçam que a moralidade pública do Estado “pluralista” promovida pelo Concílio não é do tipo a causar dano a esta liberdade, como também a corrupção avançada da sociedade liberal não limitaria o direito à liberdade do “concubinato” se fosse proclamado indistintamente, em nome da dignidade humana, para casais em união livre ou casados.

Assim pois, muçulmanos, rezai tranqüilamente no meio de nossas ruas cristãs, construí vossas mesquitas e minaretes junto aos campanários de nossas igrejas, a Igreja do Vaticano II vos assegura que não o podemos impedir194; o mesmo para vocês budistas e hindus…!

Em troca, nós católicos pediremos a liberdade religiosa em vossos países, em nome da liberdade que damos nos nossos… Poderemos assim defender nossos direitos religiosos ante os regimes  comunistas, em nome de um princípio declarado por uma assembléia religiosa tão solene e já reconhecida pela O.N.U. e pela maçonaria… É a declaração que me fez o Papa João Paulo II, na audiência que concedeu em 18 de novembro de 1978: “O senhor sabe, me disse, a liberdade religiosa nos foi muito útil contra o comunismo na Polônia”. Eu tinha vontade de contestar: “Muito útil pode ser como argumento  “ad  hominem”,  já  que  os  regimes  comunistas  têm   a liberdade de culto inscrita em suas constituições195, mas não como princípio doutrinal da Igreja Católica”.

I 

Liberdade Religiosa e Verdade 

Era isto ao menos, o que dizia o P. Garrigou-Lagrange:

“Nós podemos (…) fazer da liberdade de culto um argumento ‘ad hominem’ contra aqueles que, enquanto proclamam a liberdade de culto, perseguem a Igreja (Estados laicos e socializantes), ou impedem o culto direta e indiretamente (Estados comunistas, islâmicos, etc.). Este argumento ‘ad hominem’ é justo e a Igreja não o despreza, usando-o para defender eficazmente o direito de sua liberdade. Mas não se segue que a liberdade de culto, considerada em si mesma, seja sustentada pelos católicos como um princípio, porque ela é em si absurda e ímpia; com efeito, a verdade e o erro não podem ter os mesmos direitos”196. Continuar lendo

VATICANO II À LUZ DA TRADIÇÃO

Resultado de imagem para marcel lefebvre“A liberdade religiosa (…) não causa nenhum prejuízo à doutrina católica…”

“Por outro lado, ao falar desta liberdade religiosa, o Santo Concílio entende por ela, o desenvolvimento da doutrina dos últimos Soberanos Pontífices sobre os direitos invioláveis da pessoa humana…”180.

Este preâmbulo que quer parecer tranqüilizador, precede a Declaração conciliar sobre a liberdade religiosa. Ela é apresentada como uma continuação da linha da Tradição. O que há de certo nisto? A questão se apresenta, como vimos, a partir do fato de que os Papas do século XIX condenaram, sob o nome de liberdade de consciência e de cultos, uma liberdade religiosa que parece irmã daquela do Vaticano II.

I 

Vaticano II e Quanta Cura 

Proposições condenadas por Pio XI em Quanta Cura

A – “A melhor condição da sociedade é aquela na qual não se reconhece o direito de reprimir com penas legais aos que violam a religião católica, salvo quando a paz pública o exige”.

B – “A liberdade de consciência e de culto é um direito próprio de todo indivíduo”.

C – “Tal direito deve ser proclamado e estar garantido em toda sociedade corretamente organizada”181.

Proposições afirmadas em Vaticano II, Dignitatis H. 

A’ – “Em matéria religiosa que ninguém seja impedido de agir segundo sua consciência, em privado ou em público, só ou associado, nos justos limites”.

B’ – “A pessoa tem o direito à liberdade religiosa. Ela consiste…” (segue em A’).

C’ – “Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa deve ser reconhecido na ordem jurídica da sociedade como um direito civil”182. Paralelo assombroso! Sua análise183 nos leva a concluir numa contradição em suas doutrinas. O próprio Pe. Congar confessa que “Dignitatis Humanae” é contrário ao Syllabys de Pio IX: Continuar lendo