A ALMA FAZ MAL EM EXAGERAR AS DIFICULDADES DA VIDA INTERIOR

exagDeus é o soberano Senhor de todas as coisas. É o princípio do meu ser, o fim da minha existência, o divino modelo da minha vida. Tem sobre mim um direito absoluto e universal. Eu me assusto perante esta obrigação tão rigorosa e tão graves de ser todo de Deus. Não Lhe posso subtrair nenhum ato nem tempo algum sem com isso praticar um furto.

Como dedicar-Lhe por inteiro uma vida composta de milhares de ações diárias? O espírito engendra pensamentos sem conta e o coração produz afeições sem número. Como governar todo este mundo interior?

As paixões fortes ou indômitas estão constantemente em ação. Os sentidos dificilmente aceitam o jugo da vontade; a imaginação julga-se a dona da casa e perturba toda a ordem interior; a razão deixa-se enganar pelos sentidos e seduzir pelas aparências da verdade; a própria vontade é fraca e mantém ligações secretas, está de conivência com o inimigo.

E mais, como dedicar a Deus uma vida inteira, quando os obstáculos exteriores se multiplicam em volta da alma? Querendo ela dar-se a Deus, consentirão que o faça? Os inimigos de Deus e da piedade são muitos, e os indiferentes e os covardes ainda mais numerosos. O respeito humano governa o mundo: o sorriso, o sarcasmo e a pilhéria têm afastado mais almas de Deus do que o próprio demônio. Continuar lendo

SANTA CATARINA DE SENA E O SONHO DA ÁRVORE

Resultado de imagem para santa catarina de senaQuando se encontrou sozinha na sua cela, teve Catarina uma visão das mais singulares. Viu uma árvore imensa, carregada de frutos magníficos, em torno da qual uma moita de espinhos se elevava tão alta e densa, que difícil se tornava aproximar-se dela e colher-lhe os frutos. Pouco adiante, elevava-se uma pequena colina coberta de espigas de trigo que já amadureciam para a colheita, lindos de aspecto, mas cujas espigas ocas convertiam-se em pó ao contato das mãos que as tocavam. E diante da árvore, uma multidão se detinha a considerar-lhe os frutos, ansiosa por colhê-los. Como se ferissem porém, nos espinhos, uns após outros renunciavam imediatamente à tentativa de vencer a sebe.

Voltando então os olhos para a colina onde a messe dourava, precipitavam-se naquela direção e, ao alimentar-se com o mau trigo, caíam enfermos e privados de forças. E outros vinham, a seguir, com mais coragem do que os primeiros. Chegavam estes a transpor o espinheiro, mas chegando junto à árvore, viam que os frutos pendiam de muito alto e o tronco era liso e de difícil acesso. Também estes continuavam o caminho em busca do trigo enganador que mais esfomeados os deixava. Chegaram, afinal, alguns que se decidiram a atravessar a moita espinhosa e a subir na árvore. E os frutos colhidos que comeram de tal forma lhes fortificaram a alma que, em seguida, todo outro alimento lhes causava aversão.

“Catarina”, escreveu Caffarini, “tomou-se de espanto diante do pensamento de que tantos homens pudessem ser ignorantes e cegos a tal ponto que amassem e seguissem o mundo enganador em vez de se entregar a Jesus Cristo que os convida e chama, e que, em seu exílio, consola e alegra seus servidores. Porque aquela árvore, Catarina bem o compreendeu, representava o Verbo Eterno Encarnado, cujos frutos deliciosos são as virtudes, enquanto a colina, que não produz o bom trigo mas sim o joio, representava os campos dourados do mundo que são cultivados em vão, com grande esforço. Aqueles que se afastam da árvore, assim que os ferem os espinhos, são todos os que se sentem incapazes de levar uma vida piedosa, e a ela renunciam logo de início. Os que dela se aproximam, mas se deixam impressionar pela altura do tronco, são os que empreendem com energia e boa vontade a obra da santificação, mas que esmorecem e não têm perseverança. Os últimos são os verdadeiros crentes, firmados na verdade”.

Trecho do livro “Santa Catarina de Sena” – Johannes Joergensen, p. 52-53.

 

A GRANDE OBRA DA MÃE

maeUma mulher da Ionia, mostrando um dia, com orgulho, os ricos tecidos que tinha bordado, viu que uma lacedemónia lhe mostrava seus quatro filhos todos bem educados, dizendo-lhe:— «Eis no que uma mulher sensata se ocupa; é aqui que ela põe toda a sua glória.» Haverá, por ventura, arte mais nobre que a da educação, diz S. Crisóstomo? Os pintores e os escultores apenas fazem estátuas inanimadas; mas o que educa bem uma criança, produz uma obra prima, que encantará os olhos de Deus e os dos homens.

A mulher, que assim o compreende, não consen­tirá em se desencarregar sobre outros, do cuidado de educar os seus filhos. A primeira educação deve ser efetivamente obra sua; ninguém pode substituir uma mãe, tratando-se de um filho de tenra idade. «Aos lábios duma mãe, que cobrem de carícias estas fontes tão puras, é que compete ensinar as primeiras lições de piedade, diz Mgr. Dupanloup; à mãe é que compete despertar no filho os primeiros clarões da inteligência, e o primeiro amor do bem, colocar nos seus lábios as primeiras palavras da fé e da virtude, e ensiná-los a olhar pela primeira vez para o Céu. É à mãe, numa palavra, que com­pete dotar o seu filho de uma alma cristã, como já o tinha dotado de um corpo humano».

*A própria mulher pobre, que é obrigada a deixar a família, para ir ganhar o pão cotidiano com um penoso trabalho, não se poderia desculpar, se dei­xasse de se ocupar dos seus filhinhos. Se habita nas cidades, conduza-os às creches, aos recolhimentos próprios, mas nunca os perca de vista! Quando os vir reunidos em volta do lar doméstico, trate de lhes incutir o amor e o respeito pelas coisas do Senhor, e reprima os seus defeitos nascentes. Se não houver meio de confiar a estabelecimentos caridosos o cui­dado de guardar seus filhos, por não os haver no local em que habita, mais adiante lhe diremos o que deva fazer; mas nada a pode dispensar de tomar cuidado na educação de seus filhos. Continuar lendo

MALDIÇÃO DA IMPIEDADE

Resultado de imagem para ateuInteligência e vontade sofrem, no ateu. Ele vê o mundo em derredor, cheio de inesgotáveis belezas, pleno de harmonia, mas sua “convicção” não lhe permite admitir um Criador e Conservador para tudo isso! Quantas ações boas e nobres, resoluções heróicas e caritativas à roda dele, mas sua “convicção” deve negar Aquele que tudo recompensa! Um salteador assassino consegue fugir à justiça, viver em abastança no estrangeiro, e morre entre riquezas; e a mesquinha “convicção” do ateu lhe diz que esse terá a mesma sorte que o homem de caráter, virtuoso e honrado…

O ímpio está obrigado a dizer que o homem fiel a Deus, cumpridor de seus deveres enganou-se e foi estulto; mas que foi hábil e engenhoso quem soube adquirir bens e vantagens mercê de fraudes, má fé e ardis inconfessáveis.

Em sua vida há dias e horas em que até gozos lhe causam nojo, o mundo todo lhe é aborrecimento, a vida insuportável fardo e tortura. Teve um grande desengano? … Indescritível amargura dele se apossa… Nada consegue entusiasmá-lo; de nenhuma resolução é capaz. E ele pergunta: “Qual é realmente a razão de minha existência?” “A quem aproveita ter eu saído do nada e estar aqui? E que seria se eu pusesse fim a esta vida inútil e indigna…?”

Vida sem Deus é insuportável. Também Bismark o diz: “Não posso compreender como pode ainda suportar a vida, quem se considera a si mesmo, e, todavia não sabe, ou não quer saber de Deus”. (Carta a sua esposa, 1851).

Quem não crê em Deus não tem ideais, alegria, esperança, valor na adversidade, nada possui senão instintos de animal. E um povo que perdesse a fé em Deus, perderia seus ideais, seu manancial de energias, os fundamentos de sua existência.

Religião e Juventude – Mons. TihamerToth

PERIGOS DO MUNDO: AS OCASIÕES PERIGOSAS

Resultado de imagem para donzelaO que é a ocasião?

É uma pessoa, uma coisa, um lugar que podem levar-nos ao mal. O mundo é cheio delas, andais nele por entre as ciladas.

Tal pessoa é para vós uma tentação; para ela vos sentis atraída de maneira violenta e apaixonada. Alto lá!

Em tal casa sabeis que vossa virtude pode ser posta à prova; lá não vades! Alto lá!

Em tal reunião ouvistes várias vezes certos avisos da vossa consciência que vos dizia: Toma cuidado! Alto lá!

Tal leitura frívola ou profana vos perturba e sugere-vos mil pensamentos loucos, levianos, e vos lança em devaneios que não ousaríeis contar a vossa mãe: ao fogo com esse livro!

Imagens, quadros, estátuas podem ser para vós uma tentação: passai e não olheis!
Continuar lendo

O FILHO ÚNICO E A FAMÍLIA NUMEROSA

Os esposos que reduzem o número de filhos, sob pretexto de melhor pertencerem-se um ao outro, pretexto e restrição baseados no egoísmo, cria um ambiente familiar susceptível de prejudicar, grandemente, o desabrochar das qualidades morais infantis.

Não se pode comparar a influência espiritual, da casa do filho único, com a do que vive no meio de numerosos irmãos. As condições necessárias, à formação do caráter, são desfavoráveis quando o educando é sozinho a aproveitar os benefícios da vida do lar. Facilmente, ele é levado a crer que tudo lhe é devido, pois, sempre recebe, sem jamais partilhar. Torna-se, exageradamente, mimado por seus pais, que não repartem com outros seus cuidados e suas ternuras.

É da mais alta importância que o ambiente onde evolui a criança, permita a eclosão das boas e das más inclinações, a fim de que, conhecidas desde os primeiros anos, elas possam ser, facilmente, orientadas ou reprimidas. Numa família onde os filhos são numerosos, os caracteres manifestam, desde cedo, suas secretas tendências e cada um acha-se na obrigação de adaptar-se, corrigindo ou dominando seus defeitos. Se não o faz de moto próprio, as reações dos irmãos infligem-se, por bem ou por mal, lições salutares. Continuar lendo

RELIGIÃO? QUE TENHO EU COM ISSO?

Resultado de imagem para indiferenteEntre pessoas cultas, raramente se encontram homens francamente irreligiosos, ateus e ímpios. Ateísmo grosseiro “não fica bem”, não convém à “boa sociedade”. Infelizmente, com maior frequência encontram-se homens que, se não negam a religião, também não a praticam: os indiferentes.

No terceiro canto da “Divina Comédia”, Dante pinta em cores horripilantes, um quadro assustador da multidão desses indiferentes, condenados ao inferno. Sem sossego nem descanso, entre gemidos aflitivos, vagueiam angustiadas as almas que em vida não eram nem boas nem ruins.

Unidos estavam à covarde legião

Dos anjos caldos

Que fiéis não foram, revoltados também não.

Infortunadamente, não só entre os adultos mas também entre os jovens, defrontamos o miserando tipo que por tudo se interessa, menos pela religião. Eu mesmo os conheço. São rapazes bons, amáveis, obsequiosos, mas na alma lhes vejo o roedor verme do indiferentismo religioso, e com receios olho o seu futuro. Para tudo mostram interesse, leem muito, são esforçados esportistas, dançam bem, sua companhia é agradável; e, apesar disso, estou apreensivo por seu porvir, pois são insensíveis e surdos à grande, à máxima questão: a religião.

Por que são assim? E como chegaram a esse estado?
Continuar lendo

A FORÇA PARA O SACRIFÍCIO

Em 1901 começou, na França, o fechamento de todos os conventos e a expulsão dos religiosos. Foi nesse ano que se deu, em Reims, o caso seguinte contado pelo Cardeal Langenieux, arcebispo daquela cidade. Havia em Peims, entre outros, um hospital que abrigava somente os doentes atacados de doenças contagiosas, que não encontravam alhures nenhum enfermeiro que quisesse cuidar deles.

Em tais hospitais somente as Irmãs de caridade costumam tratar dos doentes e era essa a razão por que ainda não haviam expulsado as religiosas daquela casa.

Um dia, porem, chegou ao hospital um grupo de conselheiros municipais (vereadores), dizendo à Superiora que precisavam visitar todas as salas e quartos do estabelecimento, porque tinham de enviar um relatório ao Governo. A Superiora conduziu atenciosamente aqueles senhores à primeira sala, em que se achavam doentes cujos rostos estavam devorados pelo cancro. Os conselheiros fizeram uma visita apressada, deixando perceber em suas fisionomias quanto lhes repugnava demorar-se ali.
Continuar lendo

REMÉDIOS PARA AS TENTAÇÕES CONTRA A PUREZA

Resultado de imagem para tentaçãoOs Santos foram tentados e não se queixavam. Resistiam. Se, após algumas escaramuças, vos declarais fatigada, achando a luta dura demais e demasiado longa, é que nunca compreendestes esta palavra tão enérgica do apóstolo: “Na vossa luta contra o pecado ainda não resististes até o sangue!”

Sob a dentada das tentações, sabeis o que faziam os santos? Flagelavam-se, dilaceravam-se com cilícios e pontas de ferro, mergulhavam-se em tanques gelados, rolavam-se nos espinhos ou em carvões ardentes!

Eis aí, consoante a história, a que grau de heroísmo levavam eles a luta contra tentações terríveis. Deus não pede mortificações semelhantes. 

Pelo menos podeis reconhecer que o que Ele reclama da vossa fidelidade é bem pouca coisa em face de tais combates. Sucede, ainda, que esse pouco não se deve regateá-lo, e que o perigo aí está sempre para exigi-lo. Se importa não aumentá-loexagerando-o, também não se deve desconhecê-lo ao ponto de descurar os meios de vencê-lo.

O inimigo aí está; ronda incessantemente para empolgar a presa que ele cobiça. O esforço humano é insuficiente para triunfar dele sozinho, a vitória só de Deus pode vir.

Quais são, pois, nessa luta, os meios a que devereis recorrer e que, como auxílio divino sempre oferecido, assegurarão a derrota do inimigo?
Continuar lendo

QUANDO NOSSO SENHOR COLOCOU SEU PRÓPRIO CORAÇÃO EM SANTA CATARINA DE SENA

Celebra-se a 17 de julho a festa de Santo Aleixo. Catarina esperava esse dia, com impaciência, para receber a santa comunhão. No entanto, achando-se indigna, suplicou ao Senhor que a purificasse. Teve então a sensação de que uma chuva de fogo e de sangue se espalhava sobre ela e a purificava até o íntimo da alma. De manhã, bem cedo, dirigiu-se para [a basílica de] São Domingos. Nada indicava que seu confessor fosse celebrar a missa: a Capella delle Volte estava deserta, as velas do altar apagadas, faltava o missal e Catarina não podia descobrir nenhuma daquelas pequeninas minúcias que revelam aos fiéis estar a missa por começar. Ajoelhou-se, porém, no lugar habitual e, pouco depois, apareceu Frei Tommaso que celebrou o santo sacrifício e lhe deu a sagrada comunhão.  

Avistando-se com ela no dia seguinte, contou-lhe o dominicano que, repentinamente, tivera a sensação de que ela o esperava na capela. “Mas, por que teu rosto resplandecia e porejava sua face?” indagou o sacerdote. “Ignoro, meu Pai, de que cor estavam minhas faces”, disse ela; “sei apenas que, quando recebi de vossa mão a hóstia santa, vi, não com os olhos do corpo, mas com o olhar da alma, uma tão grande maravilha e senti tamanha suavidade que nenhuma palavra poderá exprimir. E o que assim eu via, tão fortemente me empolgava, que todas as coisas criadas me produziam o efeito de um monturo infecto. Pedi, então, ao Senhor que anulasse minha vontade e me concedesse o dom da sua, ao que Ele anuiu, em sua grande misericórdia, pois me respondeu: “Filha minha querida, já que te dou minha vontade, é preciso que a ela de hoje em diante de tal modo te conformes que, sejam quais forem os acontecimentos, nada te possa perturbar”.

Ao relatar este colóquio, acrescenta Frei Tommaso que, a partir daquele dia, Catarina manteve sempre a mesma tranquilidade de espírito nas mais diversas circunstâncias. Continuar lendo

NOVOS SEMINÁRIOS PARA UMA “NOVA” IGREJA

Foi um processo aplicado em todas as articulações do corpo da estrutura Católica Romana — em nível paroquial, diocesano, nacional, regional e, em última análise, em nível romano. Foi um caso sutilmente calculado por mentes e vontades empenhadas em liquidar a organização tradicional da Igreja. E conseguiram.

AntSemn

Pe. Malachi Martin (*) | Tradução Sensus fidei: Em apenas dezoito meses — o tempo que passou no Seminário Menor de Nova Orleans — Paul Gladstone seguiu os mesmos passos de muitos Católicos Romanos bem-intencionados, mas carentes de orientações, nos anos setenta: tornou-se uma vítima de circunstâncias alheias a seu controle.

Em grande parte, ele fora protegido das mudanças abruptas e perturbadoras na Igreja. Embora poderosa, a tempestade da mudança não chegou a todos os lugares ao mesmo tempo. Foi um processo aplicado em todas as articulações do corpo da estrutura Católica Romana — em nível paroquial, diocesano, nacional, regional e, em última análise, em nível romano. Foi um caso sutilmente calculado por mentes e vontades empenhadas em liquidar a organização tradicional da Igreja. E conseguiram. Continuar lendo

DEPLORÁVEL ILUSÃO

maeÉ um fenômeno da psicologia humana o exagero em questões afetiva. Tendo de amar seus filhos, não escapam as mães a esse fato. Ter uma bondade indulgente, paciente, inesgotável para com os filhos, é exigência de toda afeição verdadeira e profunda.

Mas a semelhança bondade não exclui a clarividência. Facilmente o amor materno converte a bondade em fraqueza, que desculpa o indesculpável e o prejudicial. Nem é raro ver-se uma mãe, num feroz egoísmo, sacrificar tudo e todos pelo filho.

Dizem as mães: somos assim porque queremos ver nossos filhos felizes. Poupamos a eles todo sofrimento e toda tristeza, porque terão tudo isso de sobra no correr da vida. Justamente isso é uma grande ilusão, leitora. Hoje querem as mães poupar os filhos pequenos padecimentos e diárias renúncias, para depois lhes multiplicarem os sofrimentos que fazem o quinhão da vida para todos.

Suprimindo as duras e pequeninas dolorosas realidades na vida infantil, formam um meio fictício e irreal para a criança. Ninguém aprova o jardineiro que, tendo de plantar uma árvore para ser sacudida pelas tempestades, a cria primeiramente dentro de uma estufa. Continuar lendo

IMAGEM DA VIRGEM NA FLORESTA

rezNuma das nossas excursões de férias com meus alunos, chegamos de uma feita a uma floresta esplêndida e acampamos numa linda clareira. Em derredor havia veredas silenciosas, e, a alguns minutos do acampamento, onde se divertiam pássaros e esquilos, um carvalho colossal, onde se afixava belíssima imagem de Nossa Senhora.

À tarde houve uma briga entre alguns rapazes. Caçoavam um com o outro e se provocavam. Afinal, um deles perdeu a paciência; avançou contra o contendor e, sem hesitações, começou uma pancadaria em regra. Não foi bonito, isso não, mas o que aconteceu, aconteceu!

Mais ou menos uma hora mais tarde, eu andava sozinho por um dos atalhos e refletia sobre a repreensão que daria aos pequenos delinquentes.

Chego à imagem da Virgem. Que vejo? Um dos briguentos está lá, de joelhos. O sol derrama seus raios sobre sua cabeça inclinada. Seu coração pulsa forte. A. Mãe de Deus olha complacente o menino ajoelhado, já estou perto dele, quando me avista. Depressa, quase assustado, se levanta. Uma grossa lágrima lhe corre pelas faces. Disse-lhe algumas palavras e segui meu caminho, mas com intensa alegria no coração…

Isso sim, é um jovem varonilmente piedoso. A religião lhe é força e consolação. Ee deu um passo em falso, como a qualquer pode acontecer, mas tratou de reparar sua falta e aprender para o futuro: nem todos costumam proceder assim, à noite, os contendores eram de novo bons amigos. Continuar lendo

A PRODIGIOSA CALMA DO CORONEL

Na guerra da Criméia um coronel francês recebe a ordem de apoderar-se de um fortim. Sem hesitar um instante, avança à frente de seu regimento, que ficou também eletrizado à vista de tamanha coragem. Calmo e impassível no meio das metralhadoras e baionetas, como se se encontrasse numa parada militar, toma de assalto a bateria inimiga, terrivelmente defendida pelos russos.

Seu general, admirado de tão prodigiosa calma, exclama perante o Estado Maior:

– Coronel, que sangue frio! Onde aprendeste tamanha calma no meio de tão grande perigo?

– Meu general, responde com tôda a simplicidade o coronel, é porque eu comunguei esta manhã.

Honra ao coronel valoroso e cristão, e valoroso justamente porque cristão: e cristão não daqueles, que se envergonham de sua fé ou se contentam com a comunhão de Páscoa, mas dos fervorosos que sabem alimentar-se do Pão dos fortes com frequência e particularmente nas circunstâncias difíceis da vida.

Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves

AS TENTAÇÕES CONTRA A PUREZA

Se esta virtude é bela, é também particularmente atacada. O mundo e o demônio se aliam, mobilizando contra ela todas as suas potências e todas as suas seduções. 

… Vós jovem cristã, agarrai-vos à Cruz de Jesus e, quando vier a tentação, haurireis na Cruz a força para resistir e a coragem para a vencer. Porque tereis de lutar! a tentação ai está que vos espreita e vos espera. Sobre esse assunto tão delicado, universalmente prático e ao mesmo tempo tão grave, precisais de idéias bem claras. 

Nessas horas críticas produz-se, geralmente, um emaranhado de pensamentos, de desejos, de lutas, de êxitos, de desfalecimentos, em que os sentidos, a imaginação, o coração, a vontade intervêm alternativamente; nesse labirinto aparentemente inextricável de atividades interiores convergentes ou opostas, muitos não sabem como se orientar, como se julgar, como conservar ou retomar a serenidade interior.

Em lendo estas linhas, e mais tarde quando a tentação vier agitar-vos, pairai pois acima desse campo de batalha íntimo; vereis melhor o papel que nele desempenha a vontade, e o que deve ser posto à conta da consciência nesses múltiplos assaltos.

a) Não vos admireis das tentações.

Raras são as almas que escapam a essa humilhante tortura; é como que uma inexóral necessidade. Coisa curiosa; temos vergonha de confessar essas misérias; imaginamos que os outros nunca tiveram de sentir essas dentadas dolorosas, e que basta sermos assaltado por uma tentação para ficarmos manchado!  Continuar lendo

CUIDADOS ESPIRITUAIS – O BATISMO

abcSegundo o testemunho de S. Francisco de Sales, Santa Mônica, durante a sua gravidez, oferecia a Deus cem vezes por dia, seu filho Santo Agosti­nho.— Depois que aprouve ao Céu fecundar o seu casamento, M.rae de Boisy, mãe de S. Francisco de Sales, gostava de ir muitas vezes, perante os alta­res, dar expansão à sua alma reconhecida. 

— M.me Acarie consagrou os seus filhos a Deus, antes mesmo de nascerem, e sua segunda filha declarou que devia a essa consagração, que tinha precedido o seu nas­cimento, a inclinação que sentiu para a vida religiosa, desde a sua primeira infância. Durante o período da gravidez, a mãe de S. Bernardo aproximava-se fre­qüentemente da sagrada mesa afim de que Jesus Cristo, descendo muitas vezes para ela aí colocasse um gérmen de salvação, para a criança que havia de vir ao mundo. Devemos dizer, de passagem, que se uma mulher previsse que, sendo mãe, corria perigo de morte, seria obrigada, sob pena de pecado mortal a confessar-se de todas as faltas cometidas, e tam­bém a comungar. Além disso, toda a mãe que tem fé, esforça-se por meio da oração, pela freqüência dos sacramentos, e por uma vida santa, a atrair sobre o fruto, que traz no seio, a graça do batismo, sem cuja recepção o Céu está fechado às nossas almas.

Todos nós nascemos efetivamente, manchados pelo pecado original, privados da amizade de Deus, e indignos de O possuir na glória; é um ponto in­contestável da nossa fé. Para lavar em nós a man­cha impressa pela desobediência de Adão, para adquirir a vida da graça, e o direito à posse de Deus, é absolutamente necessário o batismo. Ninguém — diz a Verdade eterna — pode entrar no reino de Deus, se não for regenerado pela água do batismo, e pela virtude do Espírito Santo. Continuar lendo

PAULO VI, O SEPULTADOR DA TRADIÇÃO

Nota da Permanência: Apresentamos a seguir um capítulo do livro “Cem anos de modernismo” (Cent ans de modernsime. Généalogie du Concile Vatican II, Editions Clovis, 2003) do padre Dominique Bourmaud, FSSPX.

Capítulo XXII

Há mais de um século que os Carbonários, a maçonaria italiana, tinham planejado destruir o papado:

“O trabalho que empreenderemos não é obra de um dia, nem de um mês, nem de um ano: pode durar vários anos, talvez um século; mas em nossas fileiras morre o soldado e a luta continua… O que devemos buscar e esperar, como os judeus esperam o Messias, é um Papa de acordo com nossas necessidades… E este pontífice, como a maioria dos seus contemporâneos, estará mais ou menos imbuído dos princípios humanitários que começaremos a pôr em circulação… Quereis estabelecer o reino dos escolhidos sobre o trono da prostituta da Babilônia? Que o clero marche sob o vosso estandarte, crendo sempre marchar sob a bandeira das Chaves Apostólicas… Estendei vossas redes… no fundo das sacristias, dos seminários, dos conventos… Tereis pregado uma revolução de tiara e capa pluvial, marchando com a cruz e a bandeira, uma revolução que não necessitará senão ser ligeiramente estimulada para atear fogo em todos os extremos da terra”[1].  Leia mais

Na falta de um revolucionário de tiara e capa pluvial, comparou-se Paulo VI com Moisés guiando o povo escolhido para fora do Egito rumo à terra desconhecida da Promessa. Também é apresentado freqüentemente como um Hamlet que terminou no trono de Pedro. Seu temperamento indeciso resultava, talvez, da falta de uma formação intelectual sólida, uma vez que Giovanni Battista Montini (1897-1978) não havia seguido seminário algum… realidade ainda mais lamentável pelo fato de que seu pai, homem influente, publicava uma revista de tom liberal. Deste fato procediam suas utopias juvenis de que é possível colaborar com a esquerda mas não com a direita[2]. Essas deficiências intelectuais não faziam mais que aumentar, pelo predomínio que, nele, a imaginação tinha sobre a realidade: Continuar lendo

COMO EDUCAR A CRIANÇA PREGUIÇOSA – PARTE 2

Lentidão

1 – Se há crianças (e adultos…) que remancham propositadamente, há também as que são naturalmente lentas. Às vezes, em tudo; outras, só nas atividades físicas, pois são vivazes e rápidas nas mentais.

– Pais e mestres (mal aparelhados) se irritam com elas e lhe dificultam a vida com exigências, prazos marcados para o término das tarefas, comparações odiosas com irmãos ou colegas rápidos, complexando as que assim procedem sem culpa.

– Quando, além disto, os pais são vaidosos, ai dos filhos lentos! Enquanto uns medíocres de inteligência, mas vivazes, são elogiados como “brilhantes” e “de futuro”, outros, na verdade mais inteligentes, refletidos, e realmente de futuro (como os fatos mostrarão) são postergados ou mesmo injuriados. O menos que lhes chamam é de lesmas…

2 – Se a lentidão é propositada, enquadrar-se-á nas causas já expostas, e receberá o tratamento indicado. Se é natural, pouco conseguirão os pais que desejarem quantidade, mas conseguirão os pais que desejarem qualidade. Dou a dois datilógrafos o mesmo trabalho: o primeiro o faz em 40 minutos, cheio de imperfeições que obrigam a reescrevê-lo; o outro gasta uma hora, e o serviço é irrepreensível. Qual é o lento? Qual o preferível? Claro que o ideal será o rápido e perfeito; mas é também muito mais raro… Continuar lendo

COMO EDUCAR A CRIANÇA PREGUIÇOSA – PARTE 1

Agir é necessidade biológica da criança. Corpo e mente não se lhe desenvolvem sem movimento. Sua vitalidade é sinônimo de atividade, se é criança normal. Sendo exuberante chega a parecer-nos excessiva sua movimentação.

O trabalho é natural e agradável a todo homem sadio, especialmente à criança sadia. A ociosidade lhe é insuportável. Para a criança não há maior castigo que a imobilidade.

O trabalho é necessário em todos os domínios – físico, intelectual ou moral – sem falarmos da luta pela subsistência. A própria é vida é incessante atividade: no corpo, a respiração, a circulação do sangue e a digestão, sem as quais morreremos; na mente, sentir, comparar e julgar.

O que torna os homens infelizes é a fadiga excessiva, a ausência de êxito, a falta de correspondência entre o esforço e o indispensável à vida, a obrigação de realizar tarefas por que não sentimos gosto, a impossibilidade de realizar o que nos agrada, a associação da obra a idéias odiosas. Só por isto o vulgo execra o trabalho e faz do ócio um ideal… Mas o trabalho em si é fonte de alegria, pois realiza o homem, que, como diz Jó, “foi feito para trabalhar como a ave para voar” (5,7). Continuar lendo

COMO EDUCAR A CRIANÇA ORGULHOSA?

orguEssa criança constantemente preocupada em mostrar as suas qualidades, inclinada a exagerar o seu valor e a fingi-lo quando não existe, a chamar atenções sobre si, sempre disposta a aparecer e ser notada, e que chega a tomar atitudes singulares no andar, na fala, nos gestos, é, sem dúvida alguma, uma criança orgulhosa.

Seu grande cuidado é impor-se à consideração alheia, salientar-se onde se encontre, estadear suas “altas qualidades”, da inteligência privilegiada aos cabelos bem penteados, da bonita voz aos vestidos, dos “variados” conhecimentos às habilidades esportivas.

Seu orgulho pode tomar variadas formas, mas ao termo refere tudo a si, e a si o atribui consciente ou inconscientemente, merecida ou imerecidamente. Na sua sede e louvor, louva-se quando ninguém a louva; e até de defeitos se gaba, quando já não há qualidade e virtudes a realçar.

Outras vezes, conforme as circunstâncias, finge qualidades que não têm, jacta-se do que não fez, excede-se nas medidas e nos modos, sem perceber o descrédito a que se lança, e o ridículo que se avizinha.

Ainda bem quando, para engrandecer-se, não desmerece a outrem nem o despreza. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 11 (FINAL)

esc6DIÁLOGO ENTRE O DIRETOR E O ESCRUPULOSO

diretor. Conheço os males de que a vossa pobre alma sofre; compadeço-me deles do fundo de minhas entranhas; qui­sera curá-los; mas sabeis qual seria o meio disso, depois de tudo o que acabais de ler?

escrupuloso. Não; ignoro-o, e desejo vivamente que mo ensineis.

diretor. Tende uma confiança sem li­mites na misericórdia divina pela me­diação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que derramou o Seu sangue por vós, que vos procurou como uma ovelha desgarrada através das sarças e dos espinhos, e que quis expiar pessoalmente os vossos peca­dos para vos dar a paz e a salvação. Poderíeis desesperar e perder confiança à vista do que Deus fez por vós dando-vos Seu Filho, que se fez a Si mesmo vítima por vós? Que há que não obtenhais pela mediação de Jesus Cristo? Que há que não acheis n’Ele? Força, luz, justiça, santidade, con­solação, perseverança; porquanto Jesus Cristo é um dom universal em quem estão encerrados todos os outros dons e todos os tesouros da graça. “Dando-nos seu Filho, diz S. Paulo, Deus não nos deu todas as coisas com Ele?” (Rom 8, 33). Deu-no-lo para ser o suplemento universal de todas as nossas misérias, de toda a nossa in­dignidade. E que quereríamos que Deus fizesse a mais para nos inspirar sentimentos de confiança e de amor? Que pode Ele acres­centar a admirável economia da redenção, da religião, dos sacramentos, da mediação da SS. Virgem, de tantos caminhos abertas à vossa confiança?

escrupuloso. Mas eu não mereço se­não os repúdios e a indignação de Deus; todas as minhas orações são más, e Deus não pode escutar-me.

diretor. Mas Jesus Cristo, o Filho úni­co do Pai, que intercede por nós, que por nós oferece o preço dos Seus méritos, do Seu sangue e dos Seus trabalhos, não me­rece bem ser escutado em nosso favor? Poderíamos crer que tal Pai pudesse re­cusar alguma coisa a tal Filho que Lhe oferece tal preço? Este pensamento não seria injurioso tanto ao Pai como ao Filho? Continuar lendo

O QUE É ESQUECER-SE?

despAquele que se entrega a Deus já não se pertence. Deixa de existir aos seus próprios olhos, não vive em si mesmo, mas nAquele a quem se entregou, e não tem outros interesses a não ser os do Mestre.

Esquecer-se de si próprio, por amor, eis a grande lei de toda a vida espiritual. Esquecer-se é excluir das ações, sofrimentos e orações todo o cálculo humano, toda a sombra se amor-próprio ou intenção egoísta.

Esquecer-se é aceitar simplesmente da mão de Deus todas as responsabilidades, todos os deveres, todos os sofrimentos, todas as contrariedades, sem queixumes, sem pretender sobressair por isso, sem examinar a duração e a natureza das próprias penas ou sacrifícios, tal como se eles tivessem atingido outra pessoa.

Esquecer-se é moderar a procura de satisfações pessoais, fugindo das ilícitas e só escolhendo das outras as que a Providência tiver preparado.

Esquecer-se é avaliar-se pelo seu justo valor, isto é, como um mísero pecador; é afastar da memória própria e alheia as qualidades e obras pessoais; é mesmo evitar um olhar ansioso e demorado sobre as próprias fraquezas.

Esquecer-se é desaparecer aos próprios olhos, por um ato de vontade, para não ver em si e nos outros, nas pessoas e nas coisas, senão Jesus e a Sua santa vontade. Continuar lendo

RELIGIOSIDADE VARONIL

mocoMuitos jovens se afastam da vida religiosa ao verificarem o contraste entre a aparente religiosidade exterior de alguns companheiros e sua esterilidade espiritual. Outros, trazem a prática da religião demasiado sentimento e por seu sentimentalismo fazem com que a religiosidade seja mal interpretada pelas pessoas sérias. Religiosidade é o culto de Deus conjuntamente prestado pela razão, o coração e a vontade. O coração ou sentimento tem, pois, também seu papel, mas um elemento não deve demasiar-se em deferimento dos outros dois. Da religiosidade exageradamente sentimental pode-se dizer o que, infelizmente, alguns afirmam de toda a religiosidade: ela é própria só para o povo e as mulheres.

Como? A religião é boa somente para o povo e as mulheres? Para os cultos, inteligentes homens modernos não serve? — Certo que serve! A religiosidade bem compreendida, real, varonil, serve e sem contestação!

E quando será ela, real e varonil?

Podem alguns ter idéias de religião adulterada quanto o quiserem; não poderão negar que ela é um dos mais belos ornatos que constituem a verdadeira nobreza do homem.

Em nossos tempos, tentaram tirar à religião sua autenticidade, e substituí-la por diversas especulações científicas; em vão! Onde se atacou a religião, começou a decadência da virtude, da honestidade, do sentimento do dever, da consciência, do caráter, — numa palavra, dos mais belos ideais da humanidade. Podemos buscar exemplos na história dos antigos gregos, dos romanos e outros povos. Ali, a vida dos próprios sábios, que procuravam tudo o que era bom e nobre, não se isentava de falhas, porque eles não conheciam a ver dadeira religiosidade.

Mas, que é a verdadeira religiosidade? Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 10

esc5CONDUTA DO CONFESSOR DOS ESCRUPULOSOS CONSOANTE O ABADE BOUDON

Primeiramente, não se pode dizer bas­tante o quanto é grande a necessidade de um diretor experimentado nesses ca­minhos; os que têm apenas ciência po­dem ser prejudiciais em várias ocasiões, porquanto, além do conhecimento que a ciência dá da diferença entre o pensa­mento e o consentimento da vontade, é necessário penetrar bem o que se passa no interior da pessoa que pede conselho.

É preciso ter bastante luz para preve­nir essas almas aflitas, para entender o que elas não podem explicar, para lhes dizer o que elas não dizem, para lhes dis­cernir as operações interiores onde elas não vêem gota, para ter clarezas no meio das trevas, para tranquilizá-las onde elas não fazem senão temer, para as manter firmes onde elas só fazem duvidar e tre­mer. Enfim, é preciso um diretor cheio de uma caridade extraordinária para supor­tar brandamente os escrúpulos dessas pes­soas, que às vezes são ridículas sem razão, sem fundamento, ou que são cheias de vergonha pelos pensamentos extravagan­tes que sugerem, ou repulsivas pela sua obstinação, que é o seu defeito comum. 

Tudo isso reclama uma caridade extraor­dinária. “Há almas, diz Santa Teresa, que são bastante afligidas, para que as pessoas as aflijam ainda mais; do contrário, o coração se lhes fecha, elas são lançadas num abatimento extremo, são desanima­das, e às vezes esses repúdios e essas severidades as tentam de despero”. Santo Inácio, que foi rudemente provado pelos escrúpulos, um dia foi tentado de se preci­pitar do alto de uma casa a baixo, tama­nha era a aflição que o premia. Quantas vezes ele foi tentado a abandonar as vias da perfeição! O demônio sugeria-lhe vol­tar a uma vida comum, que lhe fazia pa­recer não estar sujeita a todas essas pro­vações. Viram-se espíritos mais fortes, grandes teólogos, que davam soluções de todas as coisas, cair em escrúpulos; conhe­ci alguns que eram dotados de grande juí­zo, que não tinham falta de luzes nem de doutrina, mas eram trabalhados por escrúpulos de uma maneira que se custa­ria a crer, sendo os seus escrúpulos coisa de nada e puras bagatelas. Mas aquele que não é tentado, que é que sabe? Sai­bam os espíritos mais seguros que, se Deus os abandonasse o menos que fosse a es­sas tentações, muitas vezes eles seriam mais ridículos do que aqueles que eles cus­tam a suportar. Entretanto, a caridade de­ve ser acompanhada de uma certa firmeza para os impedir de dar novas oca­siões aos seus escrúpulos, não se sofrendo que eles reiterem as suas confissões, e coisas semelhantes de que vamos falar. Continuar lendo

15 DE AGOSTO – ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

assumAstitit regina a dextris tuis, in vestitu deaurato, circumdata varietate – «Apresentou-se a rainha à tua direita, com manto de ouro, cercada de variedade» (Sl. 44, 10)

Sumário. Maria morre, e acompanhada de inúmeros espíritos celestiais e de seu próprio Filho, entra no céu em alma e corpo. Deus abraça-a, abençoa-a e a faz Rainha do universo, elevando-a acima de todos os anjos e santos. Regozijemo-nos com a divina Mãe, que é também a nossa, e avivemos a nossa confiança nela, invocando-a em todas as nossas necessidades. Roguemos-lhe sobretudo que, assim como ela morreu de puro amor a Deus, possamos nós morrer ao menos com contrição dos nossos pecados.

*******************************

Maria morre, mas como? Morre toda desapegada do afeto às criaturas, e morre consumida pelo divino amor, de que o seu santíssimo coração estava sempre todo abrasado. Ó santa Mãe, ides deixar a terra: não vos esqueçais de nós, pobres peregrinos, que ainda ficamos neste vale de lágrimas, combatidos por tantos inimigos, que desejam a nossa perdição eterna. Pelos merecimentos da vossa preciosa morte, vos suplicamos que nos obtenhais o desapego das coisas terrestres, o perdão dos pecados, o amor de Deus e a santa perseverança. E, quando chegar a hora da nossa morte, assisti-nos lá do alto do céu, com a vossa intercessão, e alcançai-nos a graça de irmos ao paraíso beijar os vossos pés.

Maria morre; seu preciosíssimo corpo é levado pelos apóstolos à sepultura, guardado pelos anjos durante três dias, e em seguida transportado ao paraíso. Mas a sua alma formosa, apenas saiu do corpo, entra na beatitude eterna, acompanhada de inúmeros anjos e do seu próprio Filho. Já no céu, a humilde Virgem, adora-o e com afeto imenso lhe agradece todas as graças que lhe foram dispensadas. Deus abraça-a, abençoa-a e a faz Rainha do universo, exaltando-a acima de todos os anjos e santos: Exaltata est sancta Dei Genetrix super choros angelorum ad coelestia regna. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 9

esc3QUALIDADES QUE DEVE TER O CONFESSOR DOS ESCRUPULOSOS

1.º Caridade. — A mais necessária das virtudes que deve ter o confessor dos escrupulosos é a caridade, porém uma cari­dade doce, paciente, a toda prova; uma caridade que lhe sustente, que lhe ative, que lhe duplique o zelo à proporção que as dificuldades aumentem. Há quem diga que, para ter essa caridade necessária, tão heróica deve ela ser, seria mister que o confessor tivesse sido acometido dessa doença; porquanto só a experiência pode revelar quantos males se sofre, quanto se é digno de compaixão e de caridade quan­do se é atacado de escrúpulo.

2.º Firmeza. — Deve, pois, o confessor ter muita bondade para com essas espé­cies de penitentes; deve consolá-los, su­portá-los, esclarecê-los; mas a essa bon­dade deve aliar também uma grande fir­meza: isto é indispensável para com es­sas pobres almas, que de outro modo nun­ca se renderiam à verdade. Ser bom sem ser firme, ou ser firme sem ser bom, não seria ter as qualidades requeridas; é preciso reunir as duas coisas ao mesmo tem­po, bondade e firmeza: todos compreen­dem a razão disto. E é que, se se for ape­nas bom, o escrupuloso abusará disso, se prevalecerá disso, e se enterrará cada vez mais no mal. Se se for apenas firme, desanimar-se-á, desolar-se-á com isso o es­crupuloso, ele sentirá falta de confiança, e o escopo do confessor não será atingido. Continuar lendo

CONSERVAR NOSSA FÉ

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est 

Não é possível deixar de fazer uma escolha, mas esta escolha não é entre obediência e desobediência, mas o que nos propõe, o que expressamente nos convidam, porque nos perseguem, é uma obediência aparente.

Eu diria que temos de escolher entre uma aparente obediência – pois o Santo Padre não pode, de forma alguma, pedir-nos que abandonemos nossa fé, que é algo absolutamente impossível – e a conservação da nossa fé. Pois bem, nós escolhemos não abandonar a nossa fé, porque nela não podemos errar. A Igreja não pode estar errada no que tem ensinado durante dois mil anos, e por esse motivo nos apegamos a essa Tradição que  tem se manifestado de forma admirável e definitiva.

São Paulo dizia a Timóteo: “Ó Timóteo, guarda o depósito.” Ora, este depósito acabava de se formar há algumas poucas décadas. E acrescentava: “Permaneça no que aprendeste com sua avó Loide na sua infância”. A infância de Timóteo se remontava quase à morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, São Paulo lhe dizia: guarda o que aprendeste com sua avó: seu catecismo e tudo o que a Igreja lhe ensinou; respeite e mantenha o que aprendeste com sua avó. Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 8

esc1CONFISSÕES E COMUNHÕES DOS ESCRUPULOSOS

Sob este título, não queremos falar das dificuldades, das penas, dos temores que eles experimentam nas suas confissões e comunhões; já falamos disto mais acima, e ainda falaremos noutro lugar. Aqui se trata das confissões e das comunhões mais ou menos frequentes a permitir ou a pres­crever aos escrupulosos. Deve-se fazê-los comungar amiúde? deve-se fazê-los confessar-se frequentemente?

Não se pode repetir demasiado, primei­ramente que as práticas de piedade de­vem sempre harmonizar-se com as obri­gações de cada um, com a posição, a ida­de, o engenho, a cultura de espírito que lhe é própria; de tal sorte que a frequên­cia dos sacramentos ou os exercícios es­pirituais não impeçam o penitente de cumprir os deveres do seu estado, de fa­zer as suas práticas de piedade de maneira conveniente, e sirvam ao seu progresso e à sua consolação segundo as diversas ne­cessidades de sua alma. Cumpre, também, em regulando o presente, pensar no fu­turo, e não fazer abraçar coisas de mais, a fim de poder o penitente perseverar.

A frequência da confissão depende ne­cessariamente das circunstâncias indivi­duais. Em geral, as pessoas que comun­gam de oito em oito dias, ou mesmo vá­rias vezes na semana, habitualmente se confessam de oito em oito dias; há outras, entretanto, que, ou por vivacidade natu­ral, ou por violência das paixões, ou por obstáculos mais numerosos, ou por dificul­dades de conservarem a pureza de cora­ção, precisam confessar-se mais vezes. Não obstante, é para desejar que elas se acos­tumem, pouco a pouco, a caminhar sozinhas, e a ser bastante firmes para só se confessarem uma vez na semana. Os verdadeiros escrupulosos, os que são inces­santemente roídos pela apreensão, ora de­vem ser admitidos a uma confissão mais frequente, ora não devem sê-lo. Ao con­fessor é que compete julgá-lo. Deve este considerar as faltas que eles acusam ordinariamente. Se são verdadeiros pecados veniais caracterizados, ele deve ouvi-los; se são faltas que não são formalmente pecados veniais, se são censuras vagas, inquietações, não deve ele ouvi-las senão uma vez por semana, no máximo, ainda mesmo quando eles comungassem várias vezes na semana. Geralmente, há muitos inconvenientes em que um escrupuloso in­sista muitas vezes sobre essas espécies de faltas ou de pretensas faltas. Continuar lendo

BEBÊS MIMADOS – FUTUROS TIRANOS!

bbObstinada, egoísta, sem coração!

Tais, eram os títulos que me davam a sogra, as cunhadas, minhas irmãs. E tudo por que? Porque eu deixava meu bebê gritar dois, três, até cinco minutos, sem lhe atender as manhas. Queria obrigá-lo a seguir o horário para as mamadas, para o repouso. Bem abrigado o punha à sombra de umas árvores no jardim, para que respirasse o ar puro. Não queria a cada momento tomá-lo nos braços, passeando-o pela casa, despertando-lhe a curiosidade, cantando-lhe no ouvido delicado.

– Essa maezinha merece medalha pelo juízo e critério que demonstra, como elogio pela coragem vencedora de velharias e rotinas. De fato, leitora, não sorrias, julgando a criança incapaz de certa disciplina. Acredita que o inocente bebê já é um ser como hábitos, com certa intuição das vontades vacilantes que o cercam, dos amores extasiados e febris timidezas de seu ambiente. A mãezinha tem medo de tudo. Tudo faz mal ao filhinho; frio, calor, fome, indisgestão, ruído, silêncio. É muito pronta em se inclinar diante das ordens desta pequena majestade.

Nossa depoente continua:

Em tudo isso há um erro, há um preconceito, há carradas de respeito humano. Quantas vezes, certa de que nada faltava ao meu bebê, deixei-o gritar e espernear no seu bercinho. Sabia que o descanso lhe era necessário. E o meu pequeno tirano acabava cedendo, adormecendo. Ia revê-lo. Sua respiração estava no rítmo certo. Doce e suave lhe era o sono. Passado algum tenpo, meu tesouro já estava inteirado de que seus gritos de nada valiam, de que, colocado por mãezinha no berço, ali teria de ficar sem tiranias inúteis.
Continuar lendo

TRATADO DOS ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA – CAPÍTULO 7

esc7QUAIS SÃO OS MAUS ESCRUPULOSOS

Digamos uma palavra deste gênero de escrupulosos, a fim de completar a maté­ria e estabelecer as distinções necessárias.

Embora a maioria dos escrúpulos prove­nham do demônio, pode-se dizer que os maus escrupulosos são mais particular­mente obra dele. São todos aqueles que fazem da piedade uma idéia falsa, ou que dela se servem para ocultar aos outros e a si mesmos vícios grosseiros de que não se querem corrigir. Consoante os autores da Ciência do confessor, podem-se redu­zir a duas espécies de escrupulosos todos esses de que queremos falar: uns, que não passam lá muito da linha do pecado ve­nial; outros, que engolem a iniquidade como água, e que merecem antes o nome de hipócritas do que o de escrupulosos.

Os primeiros não passam, ordinariamente, de gente que, seja por ignorância dos seus deveres, seja por cegueira voluntá­ria ou por amor-próprio, formam uma fal­sa consciência, e são escrupulosos em ex­cesso sobre certos pontos, ao passo que so­bre outras importantíssimos, como paixões, inveja, vingança, ódio, maledicência, etc., não se fazem censura alguma e não sen­tem nenhum remorso.

Os segundos são os que, como os Fari­seus de que fala o Evangelho, fazem es­crúpulo de cometer pequenas faltas ou de faltar a certas práticas de pura devoção, ao passo que não fazem nenhum escrú­pulo de viver em pecado mortal, e aban­donam-se mesmo aos desregramentos mais vergonhosos. Continuar lendo