50 ANOS DA DECLARAÇÃO DO PE. CALMEL

Père Roger-Thomas Calmel • La Porte Latine

Há cinquenta anos, o Pe. Calmel redigia esta declaração para proclamar publicamente sua escolha de recusar o novus ordo de Paulo VI e de se ater à Missa de sempre.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

A MISSA TRADICIONAL

Eu me atenho à MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI.

Por quê? Porque, na realidade, este Ordo Missae não existe. O que existe é uma Revolução litúrgica universal e permanente, patrocinada ou desejada pelo Papa atual, e que se reveste, por um momento, da máscara de Ordo Missae de 3 de abril de 1969. É direito de todo e qualquer padre recusar-se a vestir a máscara desta Revolução litúrgica. Julgo ser meu dever de padre recusar celebrar a Missa num rito equívoco.

UMA REFORMA REVOLUCIONÁRIA

Se aceitarmos este rito novo, que favorece a confusão entre a Missa católica e a Ceia protestante — como o dizem de maneira equivalente dois cardeais e como o demonstram sólidas análises teológicas — então cairemos sem tardar de uma Missa ambivalente (como de fato o reconhece um pastor protestante) numa missa totalmente herética e, portanto, nula. Iniciada pelo Papa, depois abandonada por ele às igrejas nacionais, a reforma revolucionária da Missa seguirá sua marcha acelerada para o precipício. Como aceitar ser cúmplice?

Perguntar-me-iam: ao manter, contra tudo e contra todos, a Missa de sempre, o senhor refletiu a que está se expondo? Certamente. Estou me expondo, se assim posso dizer, a perseverar no caminho da fidelidade a meu sacerdócio, e, portanto, prestar ao Sumo Sacerdote, nosso Supremo Juiz, o humilde testemunho de meu oficio de sacerdote. Exponho-me a tranquilizar os fiéis desamparados, tentados pelo cepticismo ou pelo desespero. De fato, todo padre que se conserve no rito da Missa codificado por São Pio V, o grande Papa dominicano da Contra-reforma, permite que fiéis participem do Santo Sacrifício sem equívoco possível; comunguem, sem risco de ser enganado, o Verbo de Deus Encarnado e imolado, tornado realmente presente sob as sagradas espécies. Por outro lado, o padre que se submete ao novo rito, inteiramente forjado por Paulo VI, colabora, de sua parte, para instaurar progressivamente urna Missa enganosa, onde a presença de Cristo já não será real, mas transformada num memorial vazio. Por isso mesmo o Sacrifício da Cruz já não será real e sacramentalmente oferecido a Deus. Finalmente, a comunhão não passará de uma ceia religiosa em que se comerá um pouco de pão e se beberá um pouco de vinho; nada mais do que isso; como entre os protestantes. Continuar lendo

O ABISMO QUE NOS SEPARA DOS VIZINHOS

Chile: na América espanhola, o conflito sempre acaba por prevalecer sobre o consenso.

Fonte: Boletim Permanencia

O que marca a fundação do Brasil: o consenso ou o conflito? O que marca a nossa origem como nação: a tradição, que une o antigo e o novo, ou a guerra?

As sociedades podem ser forjadas a partir daquilo que se chama uma “teoria do consensus” ou a partir de uma “teoria do conflito”. O consensus tem uma raiz no pensamento do jesuíta Francisco Suárez, que escreveu sobre o assunto em De Legibus ac Deo Legislatore (1601-1603). Para Suárez, só há um poder de instituição divina, o Papado. Já o rei é aquele que recebe de Deus o poder por intermédio do povo – e daí viria a noção de consensus como fator de legitimação do poder real. A legitimidade do poder está associada a um assentimento do povo, não de modo dissociado, mas num consórcio entre direito e comunhão de utilidades naturais.

Ao contrário, do ponto de vista da teoria do conflito, a fundação da sociedade é fruto de uma dissociação, de um dissídio, entre passado e presente, anterior e posterior, centro e periferia, pai e filho. É justamente essa a tônica do comportamento político moderno, pois vincula-se à noção de movimento constante, em que o progresso é produto de rupturas. As teorias mais radicais sobre a democracia enfatizam seu suposto caráter “agonístico”, defendendo a intensificação dos debates, movimentos, greves e lutas, como forma desejável de democracia. Como prega a sociologia de Georg Simmel, os conflitos são a marca permanente da vida moderna, e o máximo que se pode fazer é encontrar formas de administração desses conflitos.

O temperamento de cada nação também contribui para uma predisposição ao consenso ou ao conflito. Stendhal escreveu que cada nacionalidade se define por aquilo que produziu de mais característico e melhor em sua cultura. A Espanha, por exemplo, estaria marcada por uma certa forma de heroísmo radical e idealista, encarnado em figuras como Santo Inácio de Loyola e Santa Tereza d’Ávila, mas também personagens que transitaram entre o real e o ficcional, como El Cid ou Dom Quixote. Nesse sentido, o espírito espanhol é fogoso, intenso, colérico. Continuar lendo

EM 21 DE NOVEMBRO….HÁ 45 ANOS…

“Nós aderimos de todo o coração e com toda a nossa alma à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção dessa fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade.

Pelo contrário, negamo-nos e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio em todas as reformas que dele surgiram.

Todas estas reformas, com efeito, contribuíram, e continuam contribuindo, para a demolição da Igreja, a ruína do sacerdócio, a destruição do Sacrifício e dos Sacramentos, a desaparição da vida religiosa, e a implantação de um ensino naturalista e teilhardiano nas universidades, nos seminários e na catequese, um ensino surgido do liberalismo e do protestantismo, condenados múltiplas vezes pelo magistério solene da Igreja.

Nenhuma autoridade, nem sequer a mais alta na hierarquia, pode obrigar-nos a abandonar ou a diminuir a nossa fé católica, claramente expressa e professada pelo magistério da Igreja há dezenove séculos.

‘Se ocorresse – disse São Paulo – que eu mesmo ou um anjo do céu vos ensinasse outra coisa distinta do que eu vos ensinei, seja anátema’ (Gal. 1, 8).

Não é isto o que nos repete hoje o Santo Padre? E se se manifesta uma certa contradição nas suas palavras e nos seus atos, assim como nos atos dos dicastérios, então elegeremos o que sempre foi ensinado e seremos surdos ante as novidades destruidoras da Igreja.

Não se pode modificar profundamente a lex orandi (lei da oração, liturgia) sem modificar a lex credendi (lei da Fé, doutrina, magistério). À Missa nova corresponde catecismo novo, sacerdócio novo, seminários novos, universidades novas, uma Igreja carismática e pentecostalista, coisas todas opostas à ortodoxia e ao magistério de sempre.

Esta Reforma, por ter surgido do liberalismo e do modernismo, está completamente empeçonhada, surge da heresia e acaba na heresia, ainda que todos os seus atos não sejam formalmente heréticos. É, pois, impossível para todo o católico consciente e fiel adotar esta reforma e submeter-se a ela de qualquer modo que seja.

A única atitude de fidelidade à Igreja e à doutrina católica, para bem da nossa salvação, é uma negativa categórica à aceitação da Reforma.

E por isso, sem nenhuma rebelião, sem amargura alguma e sem nenhum ressentimento, prosseguimos a nossa obra de formação sacerdotal à luz do magistério de sempre, convencidos de que não podemos prestar maior serviço à Santa Igreja Católica, ao Soberano Pontífice e às gerações futuras.

Por isso, cingimo-nos com firmeza a tudo o que foi crido e praticado na fé, costumes, culto, ensino do catecismo, formação do sacerdote e instituição da Igreja, pela Igreja de sempre, e codificado nos livros publicados antes da influência modernista do Concílio, à espera de que a verdadeira luz da Tradição dissipe as trevas que obscurecem o céu da Roma eterna.

Fazendo assim, com a graça de Deus, o socorro da Virgem Maria, de São José e de São Pio X, estamos convictos de permanecer fiéis à Igreja Católica e Romana e a todos os sucessores de Pedro, e de ser os ‘fideles dispensatores mysteriorum Domini Nostri Jesu Christi in Spiritu Sancto’. Amem. (cf. I Cor. 4, 1 e ss.)”

+ Marcel Lefebvre
21 de novembro de 1974

A MISSA EM VERNÁCULO: FRUTO DO RACIONALISMO – PALAVRAS DE D. LEFEBVRE

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Um exemplo da penetração do racionalismo na nova liturgia é o que, precisamente, se pretende que os fiéis entendam tudo. O racionalismo não aceita que haja algo que não se possa compreender. Tudo deve ser julgado pela razão.

É claro que, durante nossos atos litúrgicos haja muitas pessoas não entendem o latim, a língua sagrada ou as orações que são ditas em voz baixa, pois o padre está de frente para o crucifixo e os fiéis não veem o que ele faz, nem podem seguir todos os seus gestos. Há um certo mistério.

É verdade que existe um mistério e uma língua sagrada, mas, embora os fiéis não entendam o mistério, a consciência desse mistério de Nosso Senhor lhes é aproveitada muito mais do que ouvir em voz alta e em sua língua toda a missa.

Em primeiro lugar, ainda que no próprio idioma, alguns textos são, geralmente, difíceis; às vezes é difícil entender as verdades. A falta de atenção deve ser levada em consideração; as pessoas se distraem, escutam um pouco, entendem uma frase e depois nada … Elas não podem segui-la ou entendê-la por completo. As mesmas pessoas reclamam que se cansam quando se fala todo o tempo em voz alta não podem se recolher nem um momento.

A oração, antes de tudo, é uma ação espiritual, como Nosso Senhor disse à samaritana: “Os verdadeiros adoradores que pede meu Pai são aqueles que o adoram em espírito e em verdade“. A oração é mais interior do que exterior. Se existe uma oração exterior, é para favorecer a oração interior de nossa alma, a oração espiritual, a elevação de nossa alma a Deus.

O Papa Paulo VI decidiu abandonar o latim 

Em 7 de março de 1965, o Papa Paulo VI [declarou] à multidão de fiéis reunidos na Praça de São Pedro (…): “É um sacrifício da Igreja renunciar ao latim, língua sagrada, bela, expressiva e elegante. Ela sacrificou séculos de tradição e de unidade da língua por uma crescente aspiração à universalidade.”

E em 4 de maio de 1967, o “sacrifício” foi consumado pela Instrução Três Abhinc Annos,  que estabelecia o uso do vernáculo para a recitação em voz alta do Cânon da Missa.

Esse “sacrifício”, no espírito de Paulo VI, parece ter sido definitivo. Ele explica novamente em 26 de novembro de 1969, ao apresentar o novo rito da Missa: “Não é mais o latim, mas o vernáculo, a principal língua da missa. Para quem conhece a beleza, o poder do latim, sua capacidade de expressar coisas sagradas, certamente será um grande sacrifício vê-lo substituído pelo vernáculo.

Perdemos a língua dos séculos cristãos, tornamo-nos intrusos e profanos no aspecto literário da expressão sagrada. Perdemos assim, em grande parte, essa admirável e incomparável riqueza artística e espiritual que é o canto gregoriano. Obviamente, temos razão de nos sentirmos arrependidos e perplexos”. (…) [No entanto], “a resposta parece trivial e prosaica – disse – porém boa, porque é humana e apostólica. A compreensão da oração é mais valiosa do que os antigos vestidos de seda, elegância real com a qual estava vestida. Mais preciosa é a participação do povo, do povo de hoje que quer que se fale claramente, de maneira inteligível que se possa traduzir em sua linguagem profana. Se a nobre língua latina nos separasse das crianças, dos jovens, do mundo de trabalho e dos negócios, se fosse uma tela opaca em vez de ser um cristal transparente, teríamos uma atitude correta, nós, pescadores de almas, conservando-a na exclusividade da linguagem da oração e da religião?”

A Missa de Sempre – Mons. Marcel Lefebvre +
 

Nota:  Entendemos por “racionalismo” o erro que consiste em julgar as realidades unicamente segundo a ordem da razão, tomando como princípio supremo a ordem natural, acessível à razão. O racionalismo rejeita o que revela a ordem sobrenatural: mistério, milagres etc., e julga e compreende tudo unicamente segundo a inteligência humana.

AS DEMOLIÇÕES DE PAULO VI

Nota da Permanência: Retomamos a publicação da série “Breve crônica da ocupação neo-modernista na Igreja Católica”, utilíssima para quem quiser compreender como chegamos ao atual estado de coisas em Roma. Na foto ao lado, o Papa Paulo VI entrega seu anel episcopal ao “arcebispo” anglicano Ramsey.

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Quanto a Paulo VI, é claro que um filo modernista como ele, chegando a ocupar – com a permissão de Deus e em punição de nossos pecados – a Sé de Pedro, não poderia ser senão um demolidor da Igreja. Além, evidentemente, de suas intenções pessoais, ou melhor, de suas utopias pessoais.

Admirador de personagens como Blondel, Teilhard de Chardin, Henri de Lubac, do “segundo” Jacques Maritain e de outros da mesma laia, o Papa Paulo VI se emprenhou, com obstinação digna das melhores causas, à aplicar em todos os domínios as novas doutrinas do Vaticano II. Ele desmantelou todas as defesas da Igreja, em particular pela reforma do Santo Ofício; promoveu a difusão da nova teologia em todas as faculdades pontificais, universitárias e seminários (ainda hoje, como já sublinhamos, Henri de Lubac e Von Balthasar, com Karl Rahner, dominam imperturbavelmente o currículo dos estudos teológicos); obrigou os religiosos dos dois sexos a um aggionarmento catastrófico de suas Regras e Constituições segundo o “espírito” do Vaticano II (resultado: conventos vazios e vocações raras); favoreceu também o aggionarmento de padres e seminaristas a fim de que se engajassem na abertura ao mundo promovida pelo Concílio (resultado: defecção súbita de dezenas de milhares de padres e a difusão lenta mas inexorável de um espírito secularizado, que se reflete até mesmo nas vestimentas); deixou completamente impunes os propagadores de heresias e de imoralidades que, imediatamente após o Vaticano II, espalharam-se como fogo no mundo católico.

“Por ocasião da morte do Papa João — relembrava o Pe. Francisco Spadafora, célebre exegeta – dava-se como certa a eleição de Montini, e os membros do Sacro Colégio foram advertidos que isto constituiria um grave perigo para a fé. Foi tudo em vão: a maior parte dos eleitores devia as suas púrpuras aos bons ofícios de Montini, sob a influência do qual se tinha desenrolado o pontificado do Papa João: por esta razão também, sua eleição era certa. Continuar lendo

A FSSPX PEDE UM DIA DE PENITÊNCIA NESTE SÁBADO, 9 DE NOVEMBRO

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Após o Sínodo para a Amazônia, o Superior Geral da Fraternidade São Pio X, Pe. Davide Pagliarani, convidou todos os padres, religiosos e oblatas, seminaristas e membros da Terceira Ordem a observar um dia de orações e penitências reparadoras, para defender a santidade da Igreja.

O Padre Pagliarani escreve em seu Comunicado de 28 de outubro de 2019: “Tal é devido a honra que se deve à Santa Igreja Católica Romana, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é idólatra e nem panteísta“.

Numa época em que a missão civilizadora do catolicismo está profundamente desnaturalizada e onde a santidade do sacerdócio é ameaçada por novas reformas, todos os fiéis são cordialmente convidados a se unirem neste sábado, 9 de novembro de 2019, jejuando e rezando, especialmente para reparar os recentes escândalos que ocorreram na capital do cristianismo.

Deus não abandona sua Igreja; as portas do inferno nunca prevalecerão sobre ela (Mt 16,18).

SEITA SATÂNICA OBTÉM RECONHECIMENTO PÚBLICO NOS ESTADOS UNIDOS

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Desde 8 de outubro de 2019, uma organização que reinvindica abertamente valores satânicos pode fazer uso, pela primeira vez, de um espaço dedicado pela Marinha dos EUA, para fazer proselitismo entre os cadetes. A organização obteve esse benefício em nome da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proclama a liberdade religiosa e seu exercício no país.

Fundada em 2013 por Lucien Greaves e Malcolm Jarry, a organização “Templo satanico” rende culto à contradição: de um lado, reinvindica um ateísmo militante ao afirmar que não é teísta e expressar seu desejo de lutar contra os cristãos conservadores, mas, por outro lado, não hesita em proclamar-se como uma religião, a fim de se beneficiar da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos que defende a liberdade religiosa.

O Templo Satânico é, segundo seus fundadores, uma nova expressão da “Igreja de Satanás”, outra seita que mostra seu satanismo de uma maneira mais fanática, o que assusta um pouco os seguidores. No entanto, não deixa de ser uma organização anticristã que adora aquele contra quem Cristo lutou na terra, o príncipe deste mundo.

Liberdade religiosa para os satanistas!

Em 8 de outubro de 2019, os cadetes da Marinha dos EUA com sede em Annapolis, Maryland, foram informados pelos diretores que os fiéis do Templo Satânico poderão se reunir, a partir de agora, dentro da escola militar a fim de “promover um pensamento e um debate crítico sobre valores satânicos”.

O porta-voz da Academia Naval americana, Alana Garas, declarou que: “recentemente, vários cadetes que professam as crenças do Templo Satânico se uniram a fim de exigir um espaço de reunião, com o objetivo de discutir suas crenças e compartilhá-las”. E acrescentou, maliciosamente que: “é apenas um espaço dedicado ao estudo, e não à organização de um ritual satânico“. Isso significa que não haverá missas satânicas no recinto militar … mas será pregado sobre a besta da terra e do mar (Ap 13).

Atualmente, o Templo Satânico tem cerca de 100.000 seguidores nos Estados Unidos e no Canadá. Desde abril de 2019, a seita conseguiu obter o cobiçado status de “religião” nos Estados Unidos.

Um lamentável caso da aplicação da liberdade religiosa, que permeia a história e a cultura americanas. Essa liberdade foi incluída no Concílio Vaticano II pelo jesuíta americano John Courtney Murray, um dos redatores da Declaração Dignitatis humanae (7 de dezembro de 1965). De acordo com a letra e o espírito deste documento que agora permeia os discursos das autoridades da Igreja, ninguém pode negar esse suposto direito a nenhum grupo de poder, em privado ou em público, para difundir seus erros e práticas.

Gens humana ruit per vetitum, a raça humana corre em direção à impiedade defendida, escreveu Horacio em seu Odes, denunciando a orgulhosa audácia dos homens que se rebelam contra os deuses. Uma máxima em que os oficiais da Marinha dos EUA deveriam meditar, correndo o risco de sofrer um terrível naufrágio … espiritual.

O RETORNO DE TEILHARD DE CHARDIN?

 

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Em uma carta enviada em 07 de outubro de 1929 ao Pe. Christopher Godfrey, o Pe. Teilhard de Chardin, jesuíta, escreveu: “às vezes me parece que, na Igreja atual, há três pedras perecíveis perigosamente colocadas nas fundações: a primeira é um governo que exclui a democracia; o segundo é um sacerdócio que exclui e minimiza a mulher; a terceira é uma revelação que exclui, no futuro, a Profecia “(1). 

Francisco, a realização de Teilhard?

Para alguns, esta passagem mostra quanto o Padre Teilhard de Chardin estava à frente de seu tempo. Por esse motivo, ele foi mal interpretado em sua vida por todos os que estavam no comando da Igreja. Para eles, o célebre jesuíta era um profeta, com a atual evolução da Igreja provando que ele estava bem a frente de todos os outros. É realmente surpreendente ver quanto o Papa Francisco parece ser o instrumento definitivo para erradicar essas “três pedras perecíveis perigosamente colocadas nas fundações” da Igreja. Existem muitas outras palavras e escritos do Papa Francisco que mostram o quanto ele está impregnado com o modo de pensar teilhardiano (não apenas sua encíclica Laudato Si, onde cita expressamente o Pe. Teilhard de Chardin).

A implementação de uma estrutura sinodal é claramente obra do papa Francisco. A colegialidade havia aberto o governo da Igreja universal aos bispos. A sinodalidade a abre a todo o povo de Deus e leva a uma nova Igreja, democrática.

O sínodo na Amazônia parece ser o caminho para erradicar “a segunda pedra colocadas nas fundações da Igreja. A vontade do Papa parece ser banir, a partir de agora, um sacerdócio que “exclui e minimiza a mulher”.

Em um sermão datado de seu primeiro ano de pontificado (16 de dezembro de 2013), o Papa Francisco falou da seguinte maneira: “Quando no povo de Deus falta profecia, está faltando alguma coisa: falta a vida do Senhor. Quando não há profecia a força recai sobre a legalidade, toma lugar o legalismo. Quando no Povo de Deus não há profecia o vazio causado é ocupado pelo clericalismo. Que nossa oração seja assim: Senhor, que não nos esqueçamos de sua promessa! Nós todos batizados, somos profetas. Que tenhamos forças para avançar! Que não nos fechemos nas legalidades que cerram as portas. Senhor, liberta o teu povo do espírito do clericalismo e ajude o teu povo com o espírito da profecia.”

De fato, o pontificado do Papa Francisco é apenas o resultado das idéias do Concílio Vaticano II e está em continuidade com seus antecessores pós-conciliares. Isso é admiravelmente demonstrado pelo Padre Pagliarani, Superior Geral da FSSPX, na excelente entrevista que deu em 12 de setembro.

Após cinquenta anos de reformas pós-conciliares, o papa reinante está preparando o advento do Cristo cósmico“, tão querido pelo Pe. Teilhard.

Teilhard, um pensamento não católico

Mas, como escreveu o filósofo Marcel de Corte, “o teilhardismo não está à margem do catolicismo nem à beira do cristianismo, muito menos uma heresia cristã. É outra religião que usa Nosso Senhor Jesus Cristo como rolamento da “ascensão cósmica”. […] Afirmo que o Revmo. Pe. Teilhard de Chardin, padre da Companhia de Jesus, nunca foi cristão, nem de pensamento nem de alma. Ele nunca acreditou, no verdadeiro sentido da palavra acreditar, no Cristo das Escrituras. Como escreve com pertinência e moderação o Pe. Guerard des Lauriers O.P., professor da Pontifícia Universidade Lateranense: “uma doutrina que implica como conseqüência necessária a identificação de Cristo com a alma do cosmos material em evolução, essa doutrina é anticristã… Porque a fé cristã professa que o Verbo de Deus assumiu pessoalmente uma Humanidade proveniente não do cosmos, mas de uma criatura humana pessoalmente predestinada por Deus em vista dessa missão… Então deve-se declarar claramente: o Cristo de Teilhard é a figura contemporânea do anticristo.” (2)

Para um de seus amigos, o Pe. Auguste Valensin, o padre Teilhard escreveu: “Sonho com um novo São Francisco ou um novo Santo Inácio, que viria nos apresentar o novo tipo de vida cristã (mais envolvida com o mundo e mais desapegada, simultaneamente) que precisamos”

Infelizmente, é bem possível que o Concílio Vaticano II tenha gerado esse novo “São” Francisco, sonhado pelo padre Teilhard.

Pe. Thierry Legrand, padre da FSSPX.

NOTAS

Cartas inéditas, Le Rocher, 1988, p.80

2 Revista Itineraires,  nº 91, março de 1965, A Religião teilhardiana, de Marcel de Corte, págs. 144 e 149

COMUNICADO DO SUPERIOR GERAL DA FSSPX SOBRE O SÍNODO SOBRE A AMAZÔNIA

Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Menzingen, 28 de outubro de 2019

Na festa dos Santos Simão e Judas, apóstolos.

Caros membros da Fraternidade,

O recente Sínodo da Amazônia mostrou-nos cenas terríveis onde, de maneiras novas e impensáveis, dentro do santuário de Deus, deu-se a abominação de ritos idólatras. E depois, o documento final dessa tumultuosa assembléia atacou a santidade do sacerdócio católico, incitando a abolição do celibato eclesiástico e o estabelecimento de um diaconato feminino. Verdadeiramente, as sementes da apostasia que nosso venerável Fundador, Mons. Marcel Lefebvre, identificara desde os primeiros dias de seu trabalho no Concílio, continuam produzindo seus frutos podres com renovada eficácia.

Em nome da inculturação, elementos pagãos estão cada vez mais integrados ao culto divino e podemos ver, mais uma vez, como a liturgia que seguiu ao Concílio Vaticano II é perfeitamente adequada a isso.

Em resposta a esses eventos, conclamamos todos os membros da Fraternidade, incluindo os membros da Terceira Ordem, a observar um dia de oração e reparação, visto que não podemos permanecer indiferentes a tais ataques à santidade da Santa Madre Igreja. Pedimos que um jejum seja observado em toda as nossas casas no sábado, 9 de novembro. Convidamos todos os fiéis à participarem e também incentivamos as crianças a oferecerem orações e sacrifícios.

No domingo, 10 de novembro de 2019, cada sacerdote da FSSPX celebrará uma Missa de reparação e, em cada capela, as Ladainhas de todos os Santos, retiradas da Liturgia das Rogações, serão cantadas ou recitadas para pedir a Deus que proteja Sua Igreja e para poupá-la dos castigos que tais atos possam fazer recair sobre Ela. Exortamos todos os sacerdotes amigos, bem como todos os católicos que amam a Igreja, a fazer o mesmo.

Tal é devido a honra que se deve à Santa Igreja Católica Romana, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que não é idólatra e nem panteísta.

Pe. Davide Pagliarani

Superior Geral

PAULO VI E A AUTO-DEMOLIÇÃO DA IGREJA

Pe. François Marie-Chautard, FSSPX

É preciso reconhecer que o papa Paulo VI trouxe um sério problema à consciência dos católicos.

Esse papa causou mais males à Igreja que a Revolução de 1789”. (Dom Marcel Lefebvre)1

Quando em junho de 1963 Paulo VI tomou posse do segundo e terceiro andares do Palácio Apostólico, tradicionalmente reservados ao Santo Padre, tratou de arrumá-los a seu gosto. Amante de arte contemporânea, queria dar um aspecto moderno a seus apartamentos. Tapeçaria e poltronas antigas foram substituídas por tecidos e móveis de estilo recente, os aposentos renovados foram adornados com obras de artistas em voga, e sua capela privada foi transformada no espírito dos anos 60.

A história do seu pontificado revelaria que essa nova decoração era representativa da maneira com a qual o novo papa iria considerar e reger a Tradição da Igreja. (Continue a ler)

No vocabulário católico, a palavra Tradição indica várias realidades. Em primeiro lugar o objeto da Revelação, ou seja, as verdades reveladas, o depósito da fé. “Tradição” indica igualmente o ato de ensino pelo qual esse depósito revelado é fielmente transmitido. Pode também significar o órgão deste ensino, isto é, o Magistério constituído pelo papa e os bispos. Mais amplamente, a palavra “Tradição” compreende todo o patrimônio doutrinal, canônico, litúrgico, pastoral, religioso e artístico da Igreja. Desde a crise da Igreja, a palavra é utilizada para qualificar o movimento dos católicos da Tradição, os tradicionalistas. Por fim, ela qualifica a noção ou o modo de transmissão, e assim fala-se de “Tradição viva”. As relações de Paulo VI para com a Tradição podem ser vistas a partir dessas diferentes acepções.

Tradição como depósito da fé

O papa Paulo VI nunca ensinou heresias propriamente ditas. No decurso de uma ocasião solene, em 30 de junho de 1968, ele mesmo proclamou um Credo que repercutiu no mundo inteiro, um sinal de seu excepcional caráter. Suas evocações tradicionais, suas advertências sobre a santa Eucaristia, o tomismo ou ainda a Igreja, creditaram-lhe a imagem de um papa liberal de duas faces2: de doutrina tradicional e pastoral de ruptura.

Quarenta anos após a sua morte, porém, a sua herança deixa transparecer um pontificado espantosamente progressista. Paulo VI permitiu que tantas heresias se propagassem, encorajou os inovadores de modo tão flagrante, nomeou cardeais e bispos tão progressistas, perseguiu os defensores da fé de modo tão virulento que o seu governo foi tragicamente prejudicial ao depósito da fé. Mas, sobretudo, o seu próprio ensino fez naufragar a doutrina multissecular da Igreja.

O problema inicial e principal está no Concílio, o qual fez o jogo dos inovadores em detrimento da doutrina tradicional em muitos pontos fundamentais: o Magistério, a Santa Igreja, o sacerdócio, as Sagradas Escrituras, as falsas religiões, a autoridade, a liberdade etc. Essa turbulência gerou muitos atritos e a aula conciliar foi  teatro regular de controvérsias importantes cujo resultado é bem conhecido. Mas tudo isso não poderia ter ocorrido sem a autoridade papal. Sem o aval do papa um concílio não é nada, assim como um decreto ministerial preparado por comissões só tem valor quando é assinado pelo ministro. Ainda que os textos conciliares sejam preparados, debatidos e votados por milhares de bispos, um concílio é essencialmente obra do sucessor de Pedro. Ao ratificar as decisões dos padres, Paulo VI endossou a responsabilidade maior do concílio. Em toda verdade, o concílio Vaticano II é obra do papa Paulo VI. Um gesto traduz essa afinidade com o concílio: o anel que esse papa ofereceu a todos os bispos do mundo em 6 de dezembro de 1965, às vésperas do fechamento de Vaticano II, e que ele usou até a sua morte em lugar do anel de pescador. Aí está todo um símbolo.

A Tradição como ato de ensino

A modificação do conteúdo do ensino foi acompanhada de uma mudança na própria concepção deste, já que a natureza do ensino é correlata à do seu objeto. 

Paulo VI voltou frequentemente para a expressão seguinte: a Igreja está em diálogo: “O Concílio trabalhará para lançar uma ponte em direção ao mundo contemporâneo (…) vocês quiseram antes de tudo se ocupar não das suas tarefas, mas daquelas da família humana, e travar um diálogo não entre vocês, mas com os homens”, disse ele aos padres conciliares3. “A Igreja se faz palavra, a Igreja se faz mensagem; a Igreja se faz conversa”4. Até Pio XII, os soberanos pontífices procuravam falar como doutores da fé. Ensinavam as verdades de Cristo com a soberana autoridade de Pedro. Seu objetivo era pregar a verdade e condenar o erro. Paulo VI privilegiou o diálogo. O papa não ensinava mais, ele dialogava, conversava. Naturalmente, condenava ainda menos.

O episódio é célebre. Dom Lefebvre, reencontrando Mons. Montini nos anos 1950, pediu a condenação do “Rearmamento moral”5. E Mons. Montini respondeu que “a Igreja vai parecer uma madrasta”. O futuro soberano pontífice considerava esses anátemas como polêmicas estéreis e improdutivas. 

As heresias, além disso, haviam se tornado questões secundárias a seus olhos. “Não se trata mais de extirpar da Igreja tal ou qual heresia determinada ou certas desordens generalizadas”, escreve em sua encíclica Ecclesiam suam, “graças a Deus, não reinam mais na Igreja”6; “na defesa da fé, contribuiremos mais promovendo a doutrina”.7 

Em sentido contrário, recordemos essas palavras cheias de espírito católico: “Em todos os tempos”, escreveu o cardeal Pie, “surgiram espíritos que consideraram a defesa [da fé] como um escândalo adicionado ao do ataque, e que de bom grado unem sua indignação à do inimigo, quando os apóstolos da verdade se esforçam em tornar sua voz tão retumbante quanto à da mentira.”8

A Tradição como órgão de ensino

O adágio era célebre: Roma locuta, causa finita est. Com tal vontade de diálogo e a apologia dos erros conciliares, é a própria natureza do órgão de ensino que foi alterada. Poder-se-ia ainda falar de um verdadeiro exercício de poder do Magistério, tendo vocação em ensinar com autoridade? À exceção de algumas felizes reações, como a condenação da contracepção por Humanae Vitae em 25 de julho de 1968, os ensinamentos se revelavam mais indicativos que imperativos.

Em vez disso, o papa deixou se instalar uma liberdade teológica que degenerou em verdadeira anarquia dogmática. Quando da publicação dos catecismos canadenses e holandeses editados pelas correspondentes conferências episcopais, Roma adotou uma moderação espantosa e uma desaprovação discreta.

São Pio X tinha redigido um catecismo; Paulo VI fechou os olhos à difusão de catecismos heréticos.

Face ao perigo do modernismo, São Pio X tinha imposto um juramento antimodernista, que deveria ser pronunciado por todas as pessoas encarregadas de autoridade de ensino e direção. Paulo VI o aboliu em 1967.

São Pio X tinha fulminado o modernismo com excomunhões. Paulo VI suprimiu as excomunhões, como suprimiu a Inquisição, cujo papel era precisamente o de ensinar com clareza a fé católica e reprimir as heresias.

Index também desapareceu na tormenta de 14 de junho de 1966, pela Notificação do Santo Ofício, Post Litteras apostólicas. O pretexto invocado é sem precedentes: “A Igreja confia na consciência madura dos fiéis”. O significado era claro: o poder de ensino não reconhecia mais a necessidade de julgar com autoridade o que os fiéis constatavam por si mesmos no fundo da sua consciência. Não havia mais mestres nem discípulos. Todos os fiéis tinham se tornado seus próprios mestres.

Um gesto resumia essa revolução: em 13 de novembro de 1964, Paulo VI tinha abandonado a tiara e a sedia gestatória. A tiara é símbolo da monarquia papal. A hora era da colegialidade, da divisão de poder. O ensino se tornava colegial, sinodal. A Igreja se transformava num vasto fórum de discussões.

A Tradição como patrimônio da Igreja

Depois da Revolução Francesa, os papas se levantaram contra o espírito revolucionário que queria pôr abaixo a herança de Pedro. Liberalismo, falso ecumenismo, arqueologismo litúrgico, relativismo moral, pastoral relaxada, tinham sido regularmente condenados. Reencontraram, porém, direito de cidadania com Paulo VI.

Roma não tinha cessado de condenar a secularização dos Estados, a separação da Igreja e do Estado, a liberdade de cultos. Citemos Mirari Vos, de Gregório XVI, Libertas, de Leão XIII, Vehementer de São Pio X. Paulo VI fez com que fossem suprimidas uma a uma (ou as modificou num sentido liberal) as concordatas que uniam Estado e Igreja: Espanha, Irlanda, Colômbia, certos cantões suíços etc. Paulo VI não queria mais a cristandade, essa união admirável entre a Igreja e a Cidade, ilustrada por Constantino, Carlos Magno, São Luiz, Garcia Moreno e tantos outros. Adepto das teorias modernas de Jacques Maritain, o papa sonhava com uma nova cristandade, bem distinta, laica, humanista, em que os muçulmanos poderiam livremente invocar Maomé. Em 4 de outubro de 1965, ele falava a ONU numa linguagem digna de lojas maçônicas e louvava os direitos do homem que seus antecessores tinham tomado o cuidado de condenar: “Os senhores proclamam aqui os direitos e deveres fundamentais do homem, a sua dignidade, sua liberdade, e antes de tudo a liberdade religiosa. Sentimos que os senhores são os intérpretes do que há de mais alto na sabedoria humana. Diríamos quase: seu caráter sagrado”.

Roma tinha condenado as reuniões inter-religiosas, o pan-cristianismo, notadamente na encíclica Mortalium animos, do papa Pio XI. Paulo VI encorajou as reuniões ecumênicas. Assim “em 7 de dezembro de 1975, ele recebeu o metropolita (ortodoxo) Meliton de Calcedônia. O papa se pôs de joelhos diante dele e beijou-lhe os pés.”9

Os pastores protestantes que tinham participado na elaboração da reforma litúrgica foram felicitados e encorajados. Paulo VI apareceu sorridente, como se estivesse satisfeito em receber luzes de peritos protestantes no objetivo de reformar a missa católica.

Com a encíclica Mediator Dei, de Pio XII, Roma tinha condenado os desvios do movimento litúrgico que pretendia retornar a uma liturgia arcaica, privada dos admiráveis desenvolvimentos de vinte séculos de santidade. Paulo VI quis evitar tudo o que pudesse ofender os “irmãos separados”. Ele validou as inovações litúrgicas cujo resultado foi a destruição da liturgia da Igreja. A missa (1969), o breviário (1970), a oração dos padres, o ritual (modificado progressivamente), os sacramentos da Igreja, as ordens menores (1972), foram submetidas a uma mudança completa cujos efeitos perniciosos continuam a se fazer sentir. Para essa “reforma”, notadamente do ofício divino, o papa se apoiou em Annibale Bugnini, que declarou o espírito com o qual pretendia reformar o Breviário: “Trata-se de se orientar para uma redução do pensum [sic] quotidiano”10.

Até então, Roma tinha denunciado o relativismo moral e a moralidade situacional. Paulo VI permitiu a instalação de um ensino deletério nos seminários, nas universidades católicas e nas casas religiosas. 

Roma tinha sempre encorajado os religiosos a desprezar o mundo condenado por Cristo e aderir principalmente às realidades espirituais. Paulo VI obrigou todas as ordens religiosas, todas as congregações educadoras a se “reformar” segundo o espírito liberal, humanista e naturalista de Vaticano II. Diminuição trágica do fervor religioso, rarefação das vocações, fechamento de inumeráveis conventos, tais foram as consequências desastrosas dessa fracassada reforma, cujos efeitos se estenderam até mesmo ao ensino católico, que foi varrido nesta tormenta.

Roma tinha educado o Ocidente. O latim, língua da cultura profana e religiosa, foi sacrificado no altar do pluralismo. A arte católica, admirável em beleza, foi quebrada pelos bárbaros, que não eram mais os pagãos infiéis, mas os próprios ministros do Templo.

Os tradicionalistas

Os defensores da Tradição não foram melhor tratados que ela: “O servo não está acima do mestre”. Paulo VI, que em 23 de março de 1966 pediu ao doutor Ramsey, pretendido arcebispo de Cantuária, para abençoar a multidão de fiéis católicos; que em 7 de agosto de 1965 beijou o patriarca grego cismático de Constantinopla; que em 4 de outubro de 1965 encheu-se de compreensão pelos maçons da ONU, não suportava os tradicionalistas e o principal deles, Dom Marcel Lefebvre, só teve direito a repreensões veementes e condenações severas. O Seminário de Êcone, berçário de padres formados como a Igreja vinha formando há séculos, foi oficialmente suspenso em 6 de maio de 1975, sem respeito ao direito da Igreja na matéria. Em 22 de julho de 1976, o prelado se viu atingido por uma suspensão a divinis. Malgrado seus reiterados apelos, ele jamais pôde ser julgado segundo o Direito, nem teve verdadeiramente a possibilidade de se explicar e defender.

Desde 1963, Paulo VI considerava constranger os bispos de mais de 75 anos a pedir sua demissão e excluir os cardeais de mais de 80 anos do conclave. Foi feito em 21 de novembro de 1970 pelo Motu próprio Ingravescentem ætatem. Seria intenção do papa impedir toda resistência dos prelados conservadores e lhes substituir por jovens sucessores entusiastas das novas idéias? Eis uma resposta a essa pergunta: “Nos primeiros anos depois do Vaticano II”, nota o cardeal Ratzinger, “todo candidato ao episcopado demonstrava ser ‘aberto ao mundo’: em todo caso, esse pré-requisito era colocado em primeiro lugar”11.

O cardeal Mindszenty incomodava a Ostpolitik do Vaticano: ele foi afastado. Mas Janos Kadar, primeiro secretário do partido comunista húngaro, (foi declarado por Paulo VI) principal promotor e o mais autorizado para normalização das relações entre a Santa Sé e a Hungria”12.

A noção de Tradição

Que resta da Tradição no sentido de transmissão? Sua própria noção está substancialmente modificada. Para o papa Paulo VI, a Tradição não aparece mais como uma herança preciosa e viva que deve ser transmitida à posteridade conservando o seu sentido exato e inalterável, esforçando-se por torná-la ainda mais preciosa, ainda mais bela, ainda mais adaptada aos filhos de Deus.

Na verdade, o papa habitualmente tratava a Tradição não como um depósito a ser transmitido, mas como um objeto a ser transformado, como se o passado e a Tradição fosse uma espécie de depósito morto, que somente uma revisão completa seria capaz de reviver. Correndo o risco de não transmiti-lo fielmente, mas de modificá-lo substancialmente. A noção de Tradição foi radicalmente alterada. E isso talvez seja o mais grave. A ação de Paulo VI esvaziou-a de seu profundo significado: fez dela uma realidade evolutiva nas mãos dos homens.

Conclusão

O imenso entusiasmo suscitado em muitos católicos pelo concílio e pelas reformas conciliares rapidamente cedeu lugar a uma constatação muito amarga. Paulo VI se lamentará da autodemolição da Igreja13 e da fumaça de Satanás14. A palavra “demolição” indica a natureza do mal: uma deliberada e sistemática desconstrução do pensamento e das estruturas tradicionais da Igreja.

Quais são as causas? A expressão “autodemolição” exclui de si as causas externas. Devemos, portanto, buscar uma causa intrínseca, no interior mesmo da Igreja, ou seja, a causa está do lado dos que possuíam autoridade, que implementaram esse empreendimento de demolição. Muitas autoridades podem ser contadas, mas todas elas estiveram na dependência da autoridade suprema que operava as principais alavancas dessa destruição, validando o Concílio e lançando suas reformas, nomeando os progressistas aos postos de comando e condenando os filhos mais fiéis da Igreja. Paulo VI certamente não queria essa demolição. Ele, no entanto, a realizou. Fecit tamen.

Como não refletir nestas palavras do Eclesiástico: “Um governador sábio mantém seu povo em disciplina, e o governo de um homem sensato será estável. Tal o juiz do povo, tais os seus ministros; tal o governador da cidade, tais os seus habitantes. Um rei privado de juízo perde o seu povo, as cidades povoam-se pelo bom senso dos que governam.”

Epílogo

“Quanto mais precisamos de um papa santo, mais devemos começar colocando a nossa vida, com a graça de Deus, e mantendo a Tradição, na esteira dos santos. Então o Senhor Jesus terminará dando ao rebanho o pastor visível, de quem ele se esforçará para se tornar digno.

“À insuficiência ou à deserção do chefe não acrescentemos nossa negligência particular. Que a Tradição apostólica esteja pelo menos viva no coração dos fiéis, ainda que, no momento, esteja enfraquecida no coração e nas decisões de quem é responsável no nível da Igreja. Então o Senhor certamente nos mostrará misericórdia.

“Ainda por isso, é necessário que a nossa vida interior não se refira ao papa, mas a Jesus Cristo. Nossa vida interior, que evidentemente inclui as verdades da revelação sobre o papa, deve se referir puramente ao sumo sacerdote, ao nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, para superar os escândalos que chegam à Igreja pelo papa.”15 

Fonte: Permanencia

  1. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, Editora Permanência.
  2. Ibid.
  3. DC 1963, n° 1357, col. 101 : “O problema do diálogo entre a Igreja e o mundo moderno. Este é o problema que cabe ao Concílio descrever em toda a sua amplitude e complexidade, e resolver, na medida do possível, nos melhores termos. (…) A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. (…) o diálogo deve caracterizar o nosso apostolado.” Encíclica Ecclesiam suamde 6 agosto 1964, n° 15, 67 et 69.
  4. Ecclesiam suam, n°67.
  5. Fundado em 1938 pelo protestante Franck Buchman, esse movimento visa a federar toda a boa vontade, independentemente das confissões religiosas, com o objetivo de promover a paz no mundo, o diálogo e a liberdade.
  6. Ibidem, n°46.
  7. Citado por Paul Poupard, Connaissance du Vatican : histoire, organisation, activité, Beauchesne, 1974, p. 111.
  8. Mgr Baunard, Histoire du cardinal Pie, Oudin, 1886, pp. 605-606.
  9. Yves Congar, “L’œcuménisme de Paul VI”, in Paul VI et la modernité dans l’Eglise, Actes du colloque de Rome (2-4 juin 1983), Ecole Française de Rome, 1984, p. 817.
  10. Yves Chiron, Mgr.  Bugnini (1912-1982), Réformateur de la liturgie, Desclée de Brouwer, 2016, pp. 36-37.
  11. Joseph Ratzinger, Entretiens sur la foi, citado par Don Mancinella, 1962 Révolution dans l’Eglise, Ed. Courrier de Rome, 2009, p. 104.
  12. Dom Marcel Lefebvre, Carta aberta aos católicos perplexos, Editora Permanência.
  13. Discurso de 7 de dezembro de 1968, DC n°1531 (1969), p 12.
  14. 29 de junho de 1972.
  15. Pe. Roger-Thomas Calmel, o.p. “De l’Eglise et du pape en tous les temps et en notre temps”, revista Itinérairesn°173, maio de 1973, p. 39.

MONS. BUGNINI E A PARTICIPAÇÃO “ATIVA E PLENA” DOS FIÉIS

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Annibale Bugnini, o principal articulador da reforma litúrgica, ou o “coveiro da Missa” definiu nestes termos a origem da reforma litúrgica:

“Na história da liturgia, a reforma do Concílio Vaticano II distingue-se de todas as outras pelo seu caráter pastoral. A participação e o envolvimento ativo do povo de Deus na celebração litúrgica são a finalidade da reforma e o objeto do movimento litúrgico” (em seu livro A Reforma da Liturgia, Edições Desclée de Brouwer, pág.23).

De fato, entre as principais linhas do decreto sobre a liturgia do Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium), encontramos freqüentemente esses dois grandes princípios:

– A participação ativa e plena dos fiéis

– Em nome do “sacerdócio” dos batizados.

É precisamente isso que Mons. Bugnini queria mostrar no início do seu livro A Reforma da Liturgia. Mons. Bugnini começa citando a primeira epístola de São Pedro (cap. 2, vers. 9): passagem tão cara aos defensores do “sacerdócio” dos batizados (e, infelizmente, muitas vezes, mal compreendida); ele afirma que “o caráter batismal dos fiéis faz deles: a raça escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo que pertence a Deus “.

Em seguida, ele só repetirá a Constituição Sacrosanctum Concilium (nº 14), que afirma que a própria natureza da liturgia e este “sacerdócio” dos batizados “exigem que eles sejam guiados para uma inteligência plena e uma participação ativa nas celebrações litúrgicas. Eles têm o direito e o dever “. Continuar lendo

ENTREVISTA COM O PE. HESSE

Padre Gregory Hesse, Canonista, Doutor em Teologia Tomística, amigo e secretário pessoal do Cardeal Stickler no Vaticano de 1986-1988 .

Pe. Hesse conheceu aproximadamente 45 Cardeais enquanto estudava e trabalhava em Roma por 15 anos. Possui um conhecimento amplo e substancial da Crise da Igreja .

Ele nasceu em Vienna, Áustria em 1952, tendo parentesco sanguíneo com a linhagem real dos Habsburgos. Foi ordenado em 21 de novembro de 1981 na basílica de São Pedro e conquistou Licenciatura e Doutorado em direito Canônico e Teologia pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino ( Angelicum) de Roma.

Após conhecer a Tradição e perceber a Crise na Igreja, afastou-se do Novus Ordo e aproximou-se da Fraternidade Sacerdotal São Pio X trabalhando para a mesma na Europa, traduzindo e gravando áudios das homilias de Dom Marcel Lefebvre para utilização dos seminaristas de Zaitzkofen sob o comando do Pe. Franz Schmidberger.

 O padre Gregorius Henricus Laurentius Diego Dagobertus Hervinus Hesse (conhecido como Gregorius Hesse ou Gregory Hesse) moreu em 25 de janeiro de 2006 de um derrame fulminante decorrente de seu diabetes e hipertensão.

Pe. Hesse deixou muitas conferências e entrevistas em vídeo e áudio quem fez nos EUA demonstrando seu profundo conhecimento e Amor por Nosso senhor Jesus Cristo, por Maria Santíssima e pela Igreja.

Trazemos aqui a primeira entrevista de muitas, se Deus quiser, em que Pe. Hesse esclarece muitos pontos cruciais que se destacam na crise que vivemos a mais de 50 anos.

O DIREITO PELO AVESSO

Moisés Quebrando as Tábuas da Lei. Gravura de Gustave Doré, c. 1866.

Fonte: Boletim Permanencia

Uma constituição é uma carta política.

Historicamente ela surge como um conjunto de leis e princípios provados no tempo, que tratam da formação, sucessão e inspiração para os atos de determinado Estado. Neste sentido se falava, por exemplo, da Constituição de Atenas. Com a Carta do rei João Sem Terra, nasce a idéia de constituição como instrumento de garantias individuais e limites ao poder estatal. Há um início de decadência do senso de sociedade civil, reação natural às tendências absolutistas do outono da Idade Média.

Por fim, no período pós Revolução Francesa, as idéias de Código e Vontade Popular arrematam essa aberração, dão à luz a idéia de constituição como conjunto de leis promulgadas por poder onipotente, que determinará, a partir do seu nascimento, o perfeito substituto para a Lei Natural. Eis a jóia do Voluntarismo.

É da Alemanha que nasce a idéia de neoconstitucionalismo, que basicamente significa extrapolar ainda mais os limites do poder constitucional, que já não deve ser simplesmente uma inspiração do ordenamento, mas um conjunto sistemático de políticas a serem implementadas na Sociedade Civil. Doravante, qualquer sonho ou delírio do constituinte, uma vez publicado no diário oficial, torna-se regra de conduta, pacote de ações governamentais a ser promovido a todo custo.

Esta árvore, produto direto da semente revolucionária, depende de instrumentos que garantam sua aplicação abrangente, o que em termos técnicos chamamos de controle constitucional. Ora, apesar de existir uma famosa discussão entre Kelsen e Schmitt sobre onde deve subsistir este controle ― se em sede de poder executivo ou num tribunal constitucional ―, o Brasil adotou, como a quase totalidade do mundo jurídico, o sistema de suprema corte, que em Pindorama chamamos Supremo Tribunal Federal.

Não bastassem os doutrinadores que inventam as mais ilógicas interpretações e os malabarismos mais chocantes em termos jurídicos, a Suprema Corte fundou como regra, não apenas um entranhamento de normas com grave teor subjetivo nas leis ordinárias, mas a própria insegurança jurídica e a morte do direito humano. Isso porque todo o ordenamento já não mais vale por sua letra, essa sim uma verdadeira garantia ao cidadão, nem tem sua força derivada da autoridade promulgante, mas depende exclusivamente do entendimento de uma força de fraca legitimidade e em constante mutação. São os novos iluminados, a sagrada vanguarda que dita a lei conforme sua vontade.

Coisa ainda mais terrível, essa Corte é a promotora da revolução, sob o argumento de inércia dos demais poderes,fazendo avançar a agenda revolucionária sem possibilidade de defesa pela sociedade civil. Contra a previsão constitucional de favorecer o casamento e a conversão da união estável em casamento, o STF facilitou de tal modo o estado juridicamente imperfeito das uniões sem contrato, que o casamento civil virou um desnecessário peso burocrático. Depois disso, o casamento gay, o direito da amante e o poliamor foram passos logicamente conseqüentes.

Contra a segurança pública, a fundação das audiências de custódia, além de significar uma ingerência de forças externas no país, promoveu o relaxamento de prisões por qualquer razão, como se o bem-estar do preso perdoasse qualquer pecado, qualquer crime. Chegaram mesmo a criar um tipo penal vazio, impossibilitando a defesa de qualquer pessoa contra a ditadura do lobby gay, ferindo um princípio só antes maculado no nazismo, a anterioridade legal no direito penal: não há crime sem prévia lei. Ou não havia, até o STF criar o seu.

Agora, ameaçam desestabilizar a maior operação anticorrupção da história do país, mais uma vez legislando em matéria processual, por cima da lei existente.

O que é o STF? Um simulacro infernal da santa indignação de Moisés quebrando as tábuas da Lei. Também os excelentíssimos ministros reduzem a pó a lei natural ― sua inspiração, porém, não é o zelo do santo patriarca, mas a falaz promessa da serpente maldita: “sereis como deuses”.

O STF é o fim do Direito.

 

OS FIÉIS GUARDIÕES DO VATICANO II – SOBRE UMA ENTREVISTA COM O CARDEAL SARAH

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

National Catholic Register publicou recentemente (23 de setembro de 2019) uma longa entrevista do cardeal Sarah, conhecido por suas posições conservadoras, por seu amor à famosa “forma extraordinária” da Missa.

Esta entrevista ilustra muito bem a recente declaração do Padre Pagliarani (“Uma Igreja de pernas para o ar). Nosso Superior Geral, a respeito desses prelados que vão na direção certa, denunciando certos erros ou reafirmando certas verdades, afirma – longe de se alegrar com tais acontecimentos: “que a Fraternidade tem o dever de estar muito atenta a essas reações, e ao mesmo tempo, tentar impedir tornem autodestrutivas e não alcancem nada.”.

Uma crítica a conservadores que ainda poupam o Vaticano II

E o Pe. Pagliarani fornece a chave essencial: esses prelados também devem reconhecer a “continuidade entre os ensinamentos do Concílio, dos papas da era pós-conciliar e o atual pontificado“. Pois esses mesmos prelados, ao mesmo tempo, querem nos fazer engolir o Concílio Vaticano II e as reformas pós-conciliares. Exemplo: Cardeal Müller, o mais virulento de todos contra a Amoris laetitia e o Instrumentum laboris (projeto de reforma da Cúria),  não hesita em falar em “ruptura com a tradição”. Mas é o mesmo cardeal Müller quem “queria impor à FSSPX – em continuidade com seus predecessores e sucessores na Congregação para a Doutrina da Fé – a aceitação de todo o Concilio e do magistério pós-conciliar.”

Como esse diagnóstico do Superior Geral da Fraternidade diz respeito ao cardeal Sarah, algumas linhas da entrevista deste serão suficientes para demonstrar!

Quando a forma extraordinária é celebrada no espírito do Concílio Vaticano II, ela revela toda a sua fecundidade, diz o cardeal. O ideal desejo dele seria amar a liturgia tradicional à luz do Concílio? Continuar lendo

SÍNODO DA AMAZÔNIA: UM COMENTÁRIO DO INSTRUMENTUM LABORIS

Matteo D’Amico

Fonte: Courrier de Rome, Julho-Agosto de 2019

Publicado na Permanencia

Conclusão

É possível e talvez necessário sintetizar, à guisa de conclusão, a estrutura do documento que acabamos de analisar, ressaltando os seus gravíssimos erros.

Em primeiro lugar, todo o discurso laborioso que o Instrumentum Laboris desenvolve jamais esclarece a situação da Igreja na Amazônia: não narra a sua história, nada se diz da sua difusão, do número de batismos ou de casamentos. O discurso é, portanto, completamente abstrato e, definitivamente, pouco sério. Ninguém poderá dizer, após a leitura desse texto, do que se está tratando e qual a situação do catolicismo na Amazônia.

Não há nenhuma avaliação rigorosa e séria da situação moral, do respeito ao laço conjugal, da frequência aos sacramentos etc. Não podemos dizer se a situação é boa ou péssima.

A confusão aumenta pelo fato de que jamais se diz se no documento se o tema é a evangelização de índios batizados e convertidos, ou de indígenas afastados do Evangelho. A cultura e as crenças indígenas “ancestrais” são exaltadas a tal ponto, que parece que ainda lidamos com pagãos.

Exalta-se de modo ridículo a visão de mundo dos índios amazonenses, como se fosse uma visão da vida de uma profundidade, beleza, harmonia e delicadeza insuperáveis: um conhecimento ainda que superficial desses povos bastaria para mostrar que se trata de um mundo muito longe de ser perfeito. O texto todo é perpassado desse equívoco, que o torna ridículo.

Jamais se trata, em ponto algum do texto, do tema da salvação das almas, da vida eterna, da imortalidade da alma. Estamos em face de um catolicismo situado entre o sentimental e o ideológico, a ser corrigido em prol da harmonia com a natureza. O texto apresenta uma fé completamente esvaziada do seu núcleo escatológico e soteriológico.

Não se fala do pecado e, em paralelo, não se faz a menor alusão à cruz de Cristo ou à economia da salvação fundada sobre a cruz. Como o pecado é completamente ausente, também é ausente, e não por acaso, o tema da salvação: Para que salvação se não há pecado? O nome mesmo de Jesus Cristo é pouquíssimo citado — e isso também não é por acaso. 

Falta, logicamente, toda alusão à vida da graça e à necessidade de alimentá-la pelos sacramentos e pela oração: toda vida de piedade é dissolvida numa nuvem de contínuas exaltações da espiritualidade original dos índios da Amazônia, os novos “bons selvagens”.

Trata-se do texto menos mariano de todo o pós-Concílio: não há praticamente nenhuma referência à Santíssima Virgem. Isso é muito suspeito e levanta sérias dúvidas sobre a fé daqueles que escreveram esse documento.

O documento apresenta uma idéia de inculturação completamente falsificada e deformada, que acaba por recomendar à Igreja a conversão à espiritualidade indígena.

Busca-se alterar o sacerdócio e a liturgia, e abonar a ordenação de mulheres de um modo ou de outro (ainda que não se ouse dizê-lo abertamente).

As referências doutrinais e escriturais são mínimas, e encontramos apenas uma enxurrada de referências aos textos de Francisco, de quem usa-se sem o menor pudor o jargão, repetindo como papagaios suas expressões típicas (em especial, “Igreja em saída”).

Todo o texto é francamente modernista sob cada um de seus aspectos, e sobretudo no seu modo de promover a causa do “mobilismo dogmático” mais desenfreado: onde a doutrina e amoral não podem ser rígidas nem opressivas, mas doces e aptas a se adaptarem a realidade concreta e às necessidades dos índios da Amazônia.

O Instrumentum Laboris que viemos de comentar não é um texto católico, mas um apanhado de heresias. É um texto escandaloso e é dever de todo católico, mas sobretudo de todo bispo, condená-lo publicamente e exigir que seja retirado, denunciando a sua falsidade e suas ciladas publicamente. Sua aplicação e sua utilização durante o Sínodo da Amazônia só podem provocar a ruína da Igreja na Amazônia, em primeiro lugar, e no mundo inteiro, quando sua aplicação for alargada.

A AMAZÔNIA E A SARÇA ARDENTE

Moisés e a sarça ardente. Sébastien Bourdon, c. 1642-45.

Fonte: Boletim Permanencia

Às vésperas do Sínodo, o Papa Francisco vem externando sua angústia com a devastação da Amazônia, real ou suposta. “Problema mundial”, disse. Para debelá-lo, conclama para a “conversão ecológica” a fim de salvar o “pulmão vital” do mundo, nossa “casa comum”.

Quanto a nós, conclamamos Sua Santidade a voltar os olhos para outro incêndio, bem mais angustiante, que há meio século queima a única Videira mais vital que todas as florestas, e devasta a casa comum dos filhos de Deus, que é a Santa Igreja.

Bem sabemos, pela Fé, que essa Videira arderá sem se consumir. É a nova sarça ardente. Na fúria do incêndio conciliar, os olhos da nossa Fé hão de enxergar a mão de Deus, como Moisés viu na chama da sarça a presença do Senhor. Num impulso, talvez, cobriremos o rosto como ele cobriu, não ousando olhar para a ira de Deus por detrás da chama. Mas é Ele que permite o fogo devorador. É Ele que preserva a Videira. E sempre preservará: Non praevalebunt.

As labaredas não destroem a Videira, isto é certo. Mas quanto estrago fazem, quantos ramos secam! Na sua profundeza interior ainda corre, discreta mas eficaz, a seiva da graça. Mas é pura devastação o casco, o tronco, os ramos, tudo o que a vista alcança. Eis o verdadeiro problema mundial. Continuar lendo

UMA IGREJA DE PERNAS PARA O AR – ENTREVISTA COM O PE. DAVIDE PAGLIARANI

Fonte: DICI

Revmo. Pe. Pagliarini – Superior Geral, são esperados eventos importantes até o final do ano, como o Sínodo da Amazônia e a reforma da Cúria Romana. Eles terão uma repercussão histórica na vida da Igreja. Em sua opinião, que lugar eles ocupam no pontificado do Papa Francisco?

A impressão que muitos católicos padecem atualmente é a de uma igreja à beira de uma nova catástrofe. Se fizermos uma retrospectiva, o próprio Concílio Vaticano II só foi possível porque foi o resultado de uma decadência que afetou a Igreja nos anos que precederam sua abertura: uma barragem se rompeu pela pressão de uma força que já operava há algum tempo. É isso que permite o sucesso das grandes revoluções, porque os legisladores apenas aprovam e sancionam uma situação que já é um fato consumado, pelo menos em parte.

Assim, a reforma litúrgica foi apenas o resultado de um desenvolvimento experimental que remonta ao período do entreguerras e que já havia penetrado em grande parte do clero. Mais próximos a nós, sob este pontificado, a Amoris lætitia foi a ratificação de uma prática, infelizmente, já presente na Igreja, especialmente no que diz respeito à possibilidade de comunhão às pessoas que vivem em estado de pecado público. Hoje a situação parece madura para outras reformas excessivamente sérias.

O senhor poderia especificar vosso julgamento sobre a exortação apostólica Amoris lætitia três anos após a sua publicação?

Amoris lætitia representa, na história recente da Igreja, o que Hiroshima ou Nagasaki são para a história moderna do Japão: humanamente falando, os danos são irreparáveis. Este é, sem dúvida, o ato mais revolucionário do Papa Francisco e, ao mesmo tempo, o mais contestado, mesmo fora da Tradição, porque afeta diretamente a moral conjugal, que permitiu muitos clérigos e fiéis detectar a presença de erros graves. Este documento catastrófico foi apresentado, indevidamente, como o trabalho de uma personalidade excêntrica e provocadora em suas palavras, que alguns querem ver no atual papa. Isso não está correto, e é inadequado simplificar dessa forma o problema. 

O senhor parece sugerir que essa consequência foi inevitável. Por que o senhor está relutante em definir o papa atual como uma pessoa original?

Na realidade, a Amoris laetitia é um dos resultados que, mais cedo ou mais tarde, deveria ocorrer como resultado das premissas estabelecidas pelo Concílio. O cardeal Walter Kasper já havia confessado e salientado que uma nova eclesiologia, aquela do Concílio, corresponde a uma nova concepção da família cristã[1].

De fato, o Concílio é primeiramente eclesiológico, ou seja, propõe em seus documentos uma nova concepção da Igreja. A Igreja fundada por Nosso Senhor não corresponde mais à Igreja Católica, simplesmente. Ela é mais ampla: inclui outras denominações cristãs. Como resultado, as comunidades ortodoxas ou protestantes teriam “eclesialidade” em virtude do batismo. Em outras palavras, a grande novidade eclesiológica do Concílio é a possibilidade de pertencer à Igreja fundada por Nosso Senhor em diferentes maneiras e graus. Daí a noção moderna da comunhão plena ou parcial, “à geometria variável”, poderíamos dizer. A Igreja tornou-se estruturalmente aberta e flexível. A nova modalidade de pertencimento à Igreja, extremamente elástica e variável, segundo a qual todos os cristãos estão unidos na mesma Igreja de Cristo, está na origem do caos ecumênico. Continuar lendo

18ª FORMAÇÃO FSSPX: 50 ANOS DA MISSA NOVA

05_Cartaz_Formacao_2019Outros excelentes artigos sobre a Missa Nova podem ser lidos nesses links:

JOÃO PAULO II, UM NOVO PAULO

Pe. Dominique Bourmaud – FSSPX

«Esperamos que a Providência conserve-nos por muito tempo a Paulo VI, mas o dia em que precisarmos de um Papa, eu já tenho o meu candidato: é Wojtyla. Só que isso é impossível, não tem a menor probabilidade!» — De Lubac 1.

De Lubac tinhas seus motivos para apoiar a eleição de um cardeal polonês, cuja eleição surpreendeu muitas pessoas. Durante o conclave, estava presente, obviamente, o cardeal primaz Wyszynski, que encarnava a Igreja dos mártires. Mas ele não era nenhum papabile, porque denunciava muito abertamente a Igreja pós-conciliar, uma Igreja cujo credo tornou-se elástico e cuja moral fez-se relativista, uma Igreja mergulhada na penumbra, uma Igreja que havia fechado os olhos diante do pecado. Por outro lado, o cardeal Wojtyla era moderno e, mais ainda, um modernista de fato e de direito. O arcebispo de Cracóvia apoiava a edição polonesa da revista Communio e, uma vez eleito Papa, não tardaria em promover ao cardinalato os seus três fundadores, Ratzinger, De Lubac e Von Balthasar, embora este último tenha vindo a falecer na véspera de sua entronização. 

O padre Meinvielle, em um livro memorável escrito em 1970 2, anunciava a formação de uma dupla Igreja: a Igreja da promessa, que professaria a fé incorruptível de seu Fundador, e a Igreja da propaganda, a serviço da gnose cristã e progressista. O mesmo Papa poderia, inclusive, presidir ambas as Igrejas. Professaria a doutrina imaculada da fé, mas em seus atos equívocos sustentaria a Igreja da propaganda. Este livro, escrito no tempo de Paulo VI, descreve-o admiravelmente. Sob o pontificado de João Paulo II, não é necessário dizê-lo, a duplicidade e o engano sobre o depósito revelado tornou-se algo comum em Roma. Depois de esboçar uma rápida biografia do Papa, estudaremos seu verdadeiro pensamento. Deste modo estaremos em melhores condições para definir a finalidade do seu pontificado: o estabelecimento da religião universal. Se Paulo VI foi qualificado simplesmente de novo Moisés, João Paulo II é melhor qualificado como um segundo São Paulo, mas de um novo tipo.

O caminho de Damasco 

Karol Wojtyla é um filósofo, um moralista para ser mais exato. Na medida em que sua filosofia segue a corrente existencialista, fica evidente que seu universo mental é muito diferente do pensamento de um realista. Seu sonho é reconciliar Kant com Santo Tomás, Scheler e Heidegger3. Sua visão, que pode ser considerada original, depende principalmente do existencialismo subjetivo e antropológico. João Paulo II é, sobretudo, um intelectual, ou melhor, um teórico. Argumenta a partir de princípios e não de experiências. Defendeu o documento sobre a liberdade religiosa no Concílio e opôs-se àqueles que queriam publicar uma condenação severa do ateísmo4. Para ele, o ateísmo deveria ser estudado, com a ajuda da sociologia e da psicologia, não como negação de Deus, mas sim como um estado de consciência da pessoa humana5. Ecumenista convicto, visitou vários vezes Taizé, esta comunidade de monges protestantes que ele queria usar como ponte ecumênica. 

São Paulo recebeu sua vocação no caminho para Damasco, quando ao cair de sua montaria, lançou-se aos pés de Cristo. João Paulo II teve uma conversão não menos fulminante, mas aparte disto bastante diferente. Foi em Roma, durante o Concílio. De fato, o Concílio ajudou-lhe a fazer a síntese de sua fé pessoal. O que entende por «fé pessoal»? Ele mesmo o explica:  Continuar lendo

SERÁ UMA DESGRAÇA O SÍNODO DA AMAZÔNIA?

Imagem relacionadaPe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Sem questionar absolutamente a conclusão a que chegaram alguns ilustres dignitários eclesiásticos em seu juízo condenatório  do Instrumentum laboris do próximo Sínodo da Amazônia, os quais o classificaram como herético e apóstata, desejaria apenas desenvolver algumas reflexões sobre a possibilidade de a referida assembléia episcopal, a ser mantida a orientação contida no Instrumentum laboris, constituir efetivamente, como pensam alguns, uma desgraça para a Igreja e uma ameaça para a soberania dos Estados da Região Amazônica.

Não me parece que as diretrizes que vierem a ser emanadas do Sínodo da Amazônia, ainda que tenham mais tarde  uma repercussão e aplicação sobre toda a Igreja pós-conciliar, possam representar uma obra devastadora da Vinha do Senhor, corrompendo a fé e a moral dos pobres fiéis que ainda frequentam as paróquias Novus Ordo, com seus diáconos permanentes, suas ministras extraordinárias da Eucaristia, suas leitoras, salmistas, e as diversas pastorais e movimentos, como, por exemplo, a pastoral dos recasados, aliás, já admitidos, em grande medida, à recepção da sagrada Eucaristia.

Não creio que os católicos aggiornati, que em sua imensa maioria há décadas  se acostumaram à nova liturgia e apoiam docilmente a famigerada campanha da fraternidade, venham a escandalizar-se e abandonar suas paróquias, caso as ministras da Eucaristia venham a ser “ordenadas” diaconisas e os diáconos permanentes se tornem padres casados. E caso sejam reincorporados os padres défroqués casados, os padres da Associação Internacional dos Padres Casados, que tinham apoio do então cardeal de Buenos Aires Jorge Maria Bergoglio, certamente a maioria dos católicos Novus Ordo não se oporá. Os católicos das paróquias renovadas por mais de cinqüenta anos de mudanças pós-conciliares vão encarar tudo com a maior naturalidade. E a Igreja do Vaticano II vai continuar sua marcha de ruptura com a Igreja de sempre, a Igreja Católica Romana, imutável em sua perene tradição. Continuar lendo

GOLPE DE MESTRE DE SATANÁS

O Golpe de Mestre de Satanás, por Mons. Marcel Lefebvre.

Neste pronunciamento, Mons. Lefebvre desmascara o golpe de mestre que a inteligência perversa do demônio inventou para prejudicar a Igreja pós-Vaticano II: levar à desobediência por meio da obediência.

Por outro lado, repetimos com São Pedro: “Devemos obedecer a Deus e não aos homens” (Atos dos Apóstolos), ou com São Bernardo: “Aquele que pela obediência se submete ao mal está aderido à rebelião contra Deus e não à submissão devida a Ele“.

DESCONSTRUINDO O CONSTRUTIVISMO

Fonte: Boletim Permanencia

A matéria saiu na Gazeta do Povo e está aberta ao acesso de não-assinantes. Na verdade, o texto deveria ser repassado de mão em mão até que todos lessem – alguns, as vítimas do construtivismo, com mais dificuldade do que outros.

Segue abaixo uma edição resumida do texto, mas recomendamos a sua leitura integral e da pesquisa que lhe serviu de fundamento.

Alunos aprendem quando o ensino é sistemático, explícito, em que o estudante não orienta o andamento das aulas, mas segue o professor, que é quem comanda o processo de aprendizagem. Isso é o que aponta uma pesquisa publicada na mais conceituada revista acadêmica de Educação do mundo, a Review of Educational Research, primeira no ranking de impacto do Scimago Journal Ranking, indicador internacional utilizado para medir a qualidade de estudos científicos.

A partir de um levantamento feito com resultados de 328 estudos publicados em 50 anos, entre 1966 e 2016, sobre diferentes métodos para ensinar, focando em 4 mil efeitos, quatro pesquisadores da Universidade de Oregon chegaram à conclusão que a “instrução direta”, que parte do princípio que todos os alunos podem aprender, desde que recebam instruções bem planejadas, tem resultados mais robustos comparados com outros métodos.

Os alunos na instrução direta aprendem mais e com rapidez. Além disso, ao longo do tempo, têm mais autoestima e não perdem o que aprenderam, mesmo se submetidos a um método pior.

Segundo a pesquisa, isso é assim porque, pelas evidências científicas, na instrução direta:

  • os alunos dominam conhecimentos básicos que são pré-requisito para conceitos mais complexos – busca-se que o aluno tenha um repertório mínimo para cada etapa antes de avançar;
  • a instrução é clara, não ambígua;
  • ao invés de ter um conceito defeituoso formado por si mesmo, o aluno aprende diretamente (não precisa ‘reinventar a roda’) – dito em outras palavras, o estudo mostra que é mais fácil aprender algo novo do que corrigir um conceito defeituoso, mal aprendido;
  • o aluno está na série correta de acordo com o que sabe, nem à frente, nem atrasado;
  • o aluno recebe um reforço positivo para celebrar seus avanços e, só depois de aprender o básico, é estimulado a produzir ciência (investigar e desenvolver novos conhecimentos).

A matéria avança no detalhamento da pesquisa e suas conclusões e, como já dissemos, é leitura obrigatória para os pais com filhos em idade escolar.

O AMOR DO PAPA À TRADIÇÃO

Fonte: Boletim Permanencia

Mais um pouco e só restará às irmandades Ecclesia Dei virar tribos amazônicas para sobreviver. O Papa Francisco está liquidando com elas. Depois dos Franciscanos e Franciscanos da Imaculada, e das Pequenas Irmãs de Maria do Redentor da Diocese de Laval, Roma decidiu agora exterminar com a Fraternidade Sacerdotal Familia Christi.

Fundada em 4 de junho de 2014 pelo Arcebispo de Ferrara, Dom Luigi Negri, e elevada à condição de sociedade de vida clerical apostólica, em 8 de setembro de 2016, ela foi a primeira comunidade Ecclesia Dei da Itália.

Monsenhor Negri confiou à irmandade a paróquia de Santa Maria de Vado, no centro histórico de Ferrara, igreja construída no final do século XV no local de uma capela do século X, palco de um milagre eucarístico, em 28 de março de 1171.

Mas, logo em seguida, em fevereiro de 2017, o Papa decidiu substituir Monsenhor Negri, sob o pretexto de que chegara aos 75 anos. O intuito era, entre outras coisas, dar início ao processo de demolição da Irmandade Familia Christi, que se tornara o refúgio de muitos noviços dos Franciscanos da Imaculada, e era, naquele momento, o alvo da perseguição romana.

 Em dezembro de 2018, o superior da Fraternidade foi demitido e um comissário foi nomeado para liderar a Fraternidade e decidir o seu futuro: Dom Daniele Liboni, um jesuíta nomeado Bispo Auxiliar de Roma por Francisco em dezembro de 2017.

O comissário começou proibindo a celebração da missa tradicional em público e confinou os irmãos em um monastério isolado. Finalmente, em 30 de junho de 2019, Dom Liboni proferiu seu veredicto: todos os postulantes e noviços serão obrigados a deixar a Fraternidade, que não pode mais receber.

É essa a sorte das congregações que tentam se equilibrar entre um escrupuloso legalismo e a necessária defesa da Tradição, entre a Igreja de sempre e a subserviência a um Concílio que só mal tem feito à Igreja.

ANARQUISMO E PROGRESSISMO

Gustavo Corção

A crise de nosso tempo poderia ter este título que encerra uma grotesca contradição, e que tem seu tipo representativo mais cômico nos descendentes de Bakunin que começaram na Espanha a infiltração e a perseguição religiosa antes dos comunistas marxistas. Romanticamente se apresentavam como militantes de um mundo novo munidos de uma pistola na mão direita e da enciclopédia na esquerda. O programa era sucinto: beber o sangue dos últimos padres na cabeça craniana do último dos reis.

Lembrando a alta que os títulos dos revolucionários tiveram na convulsão de 1789, que nos foi inculcada como feito de glória universal, seria melhor, naquele retrato do herói anarquista, trocar a pistola pela guilhotina, mas a imagem que já me parecia insustentável com a enciclopédia na mão esquerda, fica decididamente inimaginável se na direita quisermos colocar a aparatosa guilhotina.

Mas, sob o ponto de vista do valor simbólico, insisto na guilhotina, e quem quiser se apegar à figura romântica desenhe na imaginação um Robot gigantesco portando na mão direita uma guilhotina, e na esquerda a Britânica ou a Barsa. E insisto na guilhotina porque o supremo ideal do anarquista é a decapitação, e não a morte qualquer produzida por uma bala nas partes baixas, ou nas obras mortas do corpo humano. Não foi por mero acaso que nos primórdios da Revolução Francesa o doutor Guillotin inventou a guilhotina, e até submeteu-a à apreciação do rei Luis XVI que tinha pendores para a mecânica e para a serralheria.

Não sei se é apócrifa a anedota; mas a Guilhotina tornou-se uma sólida realidade. E tornou-se o símbolo da democracia liberal que contesta o princípio da autoridade em nome de “virtudes cristãs enlouquecidas”. Autoridade está para a cabeça como a idéia para a imagem ou para o símbolo. Chefe quer dizer “pessoa investida de autoridade”, e quer dizer cabeça. Em francês a primeira e direta significação do termo é a de cabeça: “Le chef de saint Jean-Baptiste…”, e a significação derivada é a de autoridade moral. Continuar lendo

AMAZONIS LAETITIA

Quando os bispos professavam a fé católica e os índios brasileiros manisfestavam seus ritos e expressões culturais. Será isso a “conversão ecológica” proposta por Francisco?

Fonte: Boletim Permanencia

O “Instrumentum Laboris”(‘Rancoris’ seria o termo apropriado) do próximo Sínodo Pan-amazônico publicado este mês pelo Vaticano é mais uma prova da apostasia epidêmica do clero oficial.

A propalada preocupação com o ‘povo de Deus’ que habita a selva amazônica, não esconde o desprezo pela fé e doutrina católicas por seus entusiasmados promotores.

Não perderemos tempo aqui demonstrando todos os erros e abusos presentes no documento. Quantos sites não já o fizeram? Não nos iludimos tampouco com a pretensa diferença entre Francisco e os outros papas desde João XXIII. Diferença de grau, não de espécie: modernistas tout court.

Mas queremos sucintamente salientar dois pontos. Tão somente dois.

Primeiro: o ataque frontal ao sacerdócio.

A irreverência com que propõem admitir o que chamam de viri probati ao sacramento da ordem demonstra uma estratégia de muito conhecida dos estudiosos. Trata-se de admitir uma exceção aplicável a um lugar específico, em uma época específica, e, depois, criar, a partir da exceção, uma casuística e uma jurisprudência que a tornem replicável em outras (quando não, em quaisquer) circunstâncias, locais e épocas.

Tal ignomínia é similar à proposta de admissão à comunhão de divorciados ‘recasados’ pela exortação Amoris Laetitia. Nada mais infame. Primeiro quebraram o vínculo matrimonial depois o celibato clerical, tudo em nome de Laetitia – a “alegria”. Há que se perguntar: de quem? Continuar lendo

O DEVER DOS POBRES DE ABORTAR

Nathalie Lieven, a juíza responsável por essa decisão hedionda

Fonte: Boletim Permanencia

A juíza inglesa Nathalie Lieven autorizou, no dia 21 de junho, a realização por médicos do sistema público de um aborto forçado numa moça grávida de 22 semanas, sob o pretexto de que ela é deficiente mental e sofre de transtornos de humor. A autorização foi dada a despeito da discordância da moça e de sua mãe, que se prontificou a assumir a criança. Mãe e filha são nigerianas e católicas.

O episódio, no entanto, gerou uma tamanha onda de protestos – não só entre católicos, mas também em grupos pró-vida – que três outros juízes felizmente derrubaram a decisão na segunda-feira, no dia 24 de junho.

Na sentença, a juíza afirmara estar consciente da “imensa intrusão” que sua decisão significava, mas dizia acreditar que agia “em defesa dos interesses” da moça, cujo nome e idade não foram revelados, mas que teria “pouco mais de 20 anos” e a idade mental de uma criança de nove anos.

O aborto como direito revela sua verdadeira face: quando se trata de pobres ou deficientes, fazem dele um dever.

Na sua loucura, os médicos e a juíza garantiram que o aborto seria “menos traumático” (sic) do que a presumida separação da criança, decorrente da falta de condições materiais da família para criá-la. Segundo a juíza, a avó não teria meios de cuidar satisfatoriamente da filha e do neto, e acabaria tendo de entregá-lo a um orfanato para adoção. A assistente social que acompanhava a família também foi contra o aborto.

Aos poucos, o verdadeiro sentido do aborto institucionalizado vai mostrando o seu verdadeiro sentido: o controle da natalidade dos pobres.

IRONIAS DO ESTADO MODERNO

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“…Assim, pois, quão irônico é ver o Estado moderno, que pretende tudo conhecer, tudo saber, de tudo se ocupar; desde os fósforos até o preço do vinho, do tabaco às vacinas obrigatórias, dos programas universitários de ensino bem como do gás, da eletricidade, das minas de carvão e dos bancos! Quão irônico é ver tal Estado, tão esclarecido sobre tantas coisas alheias ao seu domínio, ousando se dizer incompetente para lidar com o problema do qual depende toda a ordem humana e cujo trato, todavia, é próprio do seu dever! Um Estado que ousa julgar dignos de honra do seu Panteão um Jaurés, um Voltaire, um Rousseau, mas que afirma não poder se manter senão neutro diante de Jesus Cristo! Qual sinal mais nítido da perversidade dessa geração apóstata?”

Trecho do livro Pour qu’ll Règne – Jean Oussuet

É SEMPRE BOM LEMBRAR: OS PECADOS QUE CLAMAM VINGANÇA AO CÉU

Fonte: Distrito do México – Tradução: Dominus Est

ALERTA! Há pecados que clamam ao céu!… e são punidos neste mundo. Veremos a seguir o que são e qual o comportamento de um verdadeiro discípulo de Cristo.

“Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade. Não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas. É muito melhor fortificar a alma pela graça do que por alimentos que nenhum proveito trazem aos que a eles se entregam” (Hb 13,8).

Todo homem quer ser feliz e viver em paz. Vive em paz aquele que segue a ordem que Deus colocou no mundo e obedece às leis que regem o mundo para que tudo funcione harmoniosamente. A lei natural é obra de Deus, consiste em fazer o bem e evitar o mal. O bêbado, por não obedecer à lei do seu corpo, com o tempo destrói seu fígado e morre. O motorista que não obedece à lei do trânsito em uma curva perigosa, pode acidentar-se e morrer. Deus criou o homem com inteligência e livre arbítrio. O mau uso da liberdade produz o pecado, e o pecado é a causa de nossos problemas. Hoje, a filosofia liberal subjetivista, fruto do livre exame protestante e maçônico, não leva em consideração as leis da natureza. Os homens que perderam a fé cristã católica, pensam que têm o poder e o direito de transtornar as leis da natureza das coisas; eles pensam que a realidade humana deve obedecer suas ideias, mesmo que sejam falsas. Isso faz com que a sociedade passe a ter sérios problemas. A causa de nossos problemas é o pecado; o remédio é seguir a lei de Cristo e respeitar a lei natural.

O que é o pecado?

O pecado é uma desobediência voluntária à lei de Deus. Existem dois tipos de pecado: pecado grave e pecado leve. O pecado grave é chamado de mortal, o pecado leve é chamado venial. O pecado mortal separa o homem de Deus e o entrega ao poder do demônio; abre diante dele a porta do inferno eterno. O pecado mortal coloca o homem numa situação anormal, destrói a graça santificante e a caridade, e expulsa o Espírito Santo da alma. Se uma pessoa morre em pecado mortal, sem confissão e sem arrependimento sincero, ela cairá no inferno, que é um lugar de fogo e sofrimento eterno. Há três condições para que um pecado seja mortal: matéria grave, plena advertência de que um pecado é grave e pleno consentimento. Isso significa que eu sei que o mal que quero fazer é algo grave, e mesmo assim, quero fazê-lo ou dou o meu consentimento. Por exemplo, matar, fornicar, adulterar, embriagar-se.

Entre os pecados mortais, há quatro que são tão graves que Deus os castiga neste mundo. Estes pecados que clamam ao Céu são: Continuar lendo